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quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Apocalipse dos Passarinhos

     "A escuridão era total, apenas se viam as estrelas e se ouviam passarinhos. Julguei que era o Apocalipse." Foi deste modo que a minha aluna Geovanna descreveu, na aula, a sua experiência pessoal durante o Apagão que deixou a Península Ibérica às escuras aqui há uns meses (não consigo recordar quando foi exactamente).

    A ideia é engraçada, ficámos a pensar no Apocalipse dos Passarinhos. 

segunda-feira, novembro 10, 2025

Sombras frias mais adiante

     A questão não é "se", a questão é "quando"? Quando acabará o "mundo" tal como o conhecemos. A nossa civilização é insustentável, o colapso acontecerá. Inevitavelmente. Posto isto, Deus não me parece assim tão grande.

    Todos os grunhos, todos os vilões, os ditadores, os exploradores, os maiores cabrões, todos perecerão lado a lado com os tótós, os bonzinhos, os torturados e os explorados. É tudo farinha do mesmo saco!

    Por vezes ponho-me a pensar no que fariam os habitantes de Pompeia no minuto anterior ao início da fatal erupção vulcânica. Grandiosidade, banalidade, alegria, tristeza, honestidade e roubalheira, tudo levado, tudo queimado, ultrajado e soterrado por toneladas de calhaus, cinza e lava ardente. Ainda hoje andamos a desenterrar memórias então perdidas. 

    A questão não é "se", a questão é "como". Como irá acontecer? 

quarta-feira, janeiro 15, 2025

Apocalipse Chunga

     É estranho. Os cidadãos do chamado Mundo Ocidental parecem viver num acentuado estado de zombificação. O modo como vêm aceitando e escolhendo líderes medíocres (sendo benevolente na avaliação e contido na escolha da palavra) deixa-me estupefacto. O nivelamento do pensamento pelo zero é uma opção inesperada. Será isto resultado da massificação absoluta da informação?

    Talvez a tendência tenha sido sempre esta, talvez que Musks, Trumps, Zuckerbergs e outras merdas do género tenham estado sempre no subconsciente das massas, adormecidos, à espera que os piores receios de Deus pudessem enfim encarnar, iniciando a sua caminhada sobre a Terra. Eles aí estão.

    São os Cavaleiros do Apocalipse Chunga, com eles assistimos ao início da derradeira etapa desta civilização em direcção ao Abismo. O que aconteceu a grandes civilizações do passado? Como desapareceram da face da Terra quase sem deixar rasto? Tiveram também os seus Musks e Trumps e Putins a conduzi-las como o Flautista levando ratazanas e crianças em direcção ao precipício? Imagino que assim tenha sido.

domingo, dezembro 08, 2024

O problema

     É tão difícil compreender o que quer que seja mais complexo do que "o sol nasce - o sol põe-se". Mesmo isso pode tornar-se complicado, o Mundo não se deixa capturar. De forma nenhuma. Tenta-se a matemática, tenta-se a poesia, o esoterismo e a filosofia. Seja qual for a linguagem através da qual tentemos ler os sinais que o Mundo nos vai deixando a pontuar o caminho percorrido pela nossa espécie ao atravessar a floresta do Tempo, seremos sempre pequenos polegares perdidos e aterrorizados à procura de conforto e protecção.

    O caminho individual não parece funcionar lá muito bem, precisamos de companhia. Há passarões fantasmagóricos sempre dispostos a bicarem os sinais deixados pelo Mundo, os passarões querem a nossa perdição. E nós perdemo-nos. O entendimento do Mundo é assunto tão vasto e complexo que inventámos máquinas para o entenderem por nós. Mas são máquinas, Senhor! Os resultados das suas reflexões serão sempre insuficientes, desviados do Humano, pensamentos artificiais. Não servem para nós, não resolvem o nosso problema.

    Quanto mais depressa nos desenganarmos melhor. Melhor e pior. Quanto mais depressa percebermos que estamos sós, que fomos abandonados na floresta, quanto mais depressa abrirmos os olhos para a espessa escuridão que nos envolve, mais depressa perceberemos que não existe nada que possamos designar por "salvação". Para nos "salvarmos" teríamos de nos exterminar a nós próprios e, caso o fizéssemos, nunca poderíamos confirmar ter encontrado a solução do problema.

    Somos como um cão. Um cão que tente morder a própria cauda acabada de cortar rente com uma navalha afiada.

sexta-feira, junho 16, 2023

Todos os fantasmas morrerão

     Os dias passam e o mundo cada vez mais parece menos: menos habitável para a generalidade das espécies, menos respirável, menos amável, definitivamente menos explorável. Cada dia para a frente dá a sensação de ser também um dia para trás, como se duas paredes paralelas de comprimento infinito se fossem aproximando, inexoravelmente, e eu (e tu, nós, todos) percorresse o corredor formado pelos muros à procura de qualquer coisa semelhante a esperança. Uma brecha, um desabamento, cimento húmido; mas - nada!

    O calor aperta também. Falou-se do degelo constante mas a notícia não durou mais que um dia. A guerra, a comissão de inquérito, as transferências de jogadores de futebol, são tantos os assuntos interessantes que o Apocalipse perde espaço noticioso. Já se sabe que todos havemos de morrer.

    Não consigo evitar a sensação de que assistirei ao fim de uma civilização. Serei um velho a observar o desabar do orgulho desmedido de uma certa parte da Humanidade (da qual fiz - ainda faço? - parte), talvez isso me proporcione algum distanciamento, alguma tirada filosófica para os anais que, azarucho, estarão prestes a encerrar as entradas de citações por caducidade absoluta do tempo da civilização.

    Sinto uma certa frustração por nem a vaidade sobreviver. Morrendo as pessoas do futuro morrerão também todas as pessoas do presente e do passado e todos os deuses (sim, com Jeová e Maomé de braço dado e à cabeça) por falta de memória que mantenha vivos todos os fantasmas.