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segunda-feira, novembro 10, 2025

Sombras frias mais adiante

     A questão não é "se", a questão é "quando"? Quando acabará o "mundo" tal como o conhecemos. A nossa civilização é insustentável, o colapso acontecerá. Inevitavelmente. Posto isto, Deus não me parece assim tão grande.

    Todos os grunhos, todos os vilões, os ditadores, os exploradores, os maiores cabrões, todos perecerão lado a lado com os tótós, os bonzinhos, os torturados e os explorados. É tudo farinha do mesmo saco!

    Por vezes ponho-me a pensar no que fariam os habitantes de Pompeia no minuto anterior ao início da fatal erupção vulcânica. Grandiosidade, banalidade, alegria, tristeza, honestidade e roubalheira, tudo levado, tudo queimado, ultrajado e soterrado por toneladas de calhaus, cinza e lava ardente. Ainda hoje andamos a desenterrar memórias então perdidas. 

    A questão não é "se", a questão é "como". Como irá acontecer? 

quarta-feira, outubro 29, 2025

Futurismo

     A sensação instalou-se e nada poderá desalojá-la: o destino da humanidade é mais curto do que se poderia imaginar há apenas duas ou três décadas atrás. Talvez a coisa não seja assim tão radical, haja esperança. Talvez fiquem por aí uns quantos, para semente. Talvez restem pequenas comunidades de seres humanos capazes de resistir e repovoar o que restar de território habitável. Talvez haja esperança para a existência de Deus.

    Parece-me indiscutível que as divindades, tal como acontece com as fadas, dependem daqueles que nelas acreditam para que possam existir. O que será de Jeová sem as Suas criaturas, os Seus altares, as Suas testemunhas? 

    Assim, esta correria vertiginosa da nossa espécie em direcção ao abismo civilizacional parece-me uma espécie de suicídio divino. Talvez as tribos amazónicas que não sabem o que é o aquecimento global ou o continente de plástico, que desconhecem Jeová, Alá e outros aleijões do género, que nunca viram um gajo como eu ou como tu, pacientíssimo leitor, talvez essas tribos venham a reinar no planeta tendo como adversários o crocodilo e a pantera, verdadeiras divindades da floresta.

    Talvez a Bomba nunca chegue a ser lançada.

sábado, março 23, 2024

Luta de claques

 

Vindo de um painel de debate futebolístico, habituado à berraria e à canelada verbal, isentado da apresentação de argumentos válidos e verdadeiros, Ventura irrompeu com grande panache nos palcos mediáticos da política portuguesa. 

 

À imagem dos seus ídolos, Trump e Bolsonaro, trouxe o estilo arruaceiro, o insulto, a mentira e a meia-palavra, a falta de escrúpulos, a provocação repulsiva, enfim, tudo aquilo que muita gente acredita ser a essência do ser humano, se bem que na sua versão animalesca. E a coisa pega, a coisa faz sentido, mostrando-nos a verdadeira imagem da nossa sociedade. Ventura é o reflexo no espelho de um país que não é racista, nem misógino, nem fascista, um país que odeia vigaristas. 

 

Olhamos para o mundo todo e vemos muitos líderes como este, gente que põe a pátria acima de tudo e deus acima de todos, como se cada povo fosse uma claque de futebol embrutecida e pronta a ser orientada no ódio absoluto ao outro, ao adversário. Alguém lucra com isto.

 

Portugal entrou neste clube de povos ansiosos por derrotar e humilhar aqueles que não são humildes como nós, que não são crentes como nós, que não clarinhos de pele nem possuidores de sentimentos puros, que não são gente de bem. Se isto não fosse preocupante seria apenas motivo de escárnio. As classes sociais irmanam-se num único e grandioso objectivo: manter a pureza histórica da nação valente, glorificar a pátria imortal e os seus símbolos, ajoelhar, rezar e acreditar. Berra-se A Portuguesa em todo o lado como se fosse hino de estádio de futebol. 

 

Entramos na era da luta de claques.

segunda-feira, dezembro 04, 2023

Garrafas nas ondas

     Com o Tempo a passar-me por cima da cabeça (de mãos dadas com as nuvens) olho o horizonte. Uma linha perfeitamente recta separa o céu do mar que lhe reflecte a cor, fazendo com que a translucidez solidifique, cinzenta. Não há barcos nem navios nem baleias nem golfinhos. Apenas aquela imensidão abruptamente interrompida pelo limite do que a vista alcança.

    Deixo vogar as ideias, garrafas atiradas às ondas com secretas mensagens de amor, de desespero, mensagens que são sonhos, outras pesadelos. Ali fico a vê-las que se afastam levadas pela força do mar. Imagino-as a vogar mar alto adentro, perdidas, para os confins do mundo. Irão elas juntar-se ao Sétimo Continente?

    Assim é. Sentado na areia húmida imagino-me diferente do que sou mas não consigo retirar esse outro eu deste mundo sujo. Olho distraído as ondas que desenham rendas de frol a dois metros dos meus pés. É o mundo a hipnotizar o que aqui está sentado na esperança de libertar o outro que nem ele nem eu sabemos se existe realmente.

    É claro que não! É claro que sim! É evidente, talvez.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Luta desesperada

    É muita hipocrisia. Dizemos que queremos salvar o Planeta, como se o Planeta dependesse de nós. Deveríamos dizer que queremos salvar a nossa Civilização, nem sequer a Espécie Humana mas sim o regime capitalista que nos devora.

    Pessoalmente não estaria muito para aí virado, salvar o capitalismo, mas a verdade é que estou viciado no modo de vida que este regime me permite. Não imagino outro modo de vida. Temo o desaparecimento de certos luxos, uns maiores outros menores; impressionam-me o desaparecimento de outras espécies animais, o aquecimento global, os continentes de lixo flutuante mas continuo a viajar no meu carro a gasóleo e a utilizar os meus sacos de plástico. 

    Sei que as grandes empresas e aqueles que delas beneficiam a um nível que nem sou capaz de imaginar, vão fazendo com que me sinta culpado por ser um dos milhares de milhões de Seres Humanos que poluem o planeta. São capazes de me tornar inimigo de mim próprio. 

    E eu luto contra mim. Umas vezes ganho, outras vezes perco a luta. Luto todos os dias, desde que acordo até que fecho os olhos e mergulho no universo dos sonhos. Sou um lutador incansável. Umas vezes ganho, outra vezes perco. Luto comigo próprio, sinto cada golpe e respondo na mesma moeda. É uma luta desesperada.

quarta-feira, junho 03, 2015

Porcaria nas ruas

As ruas estão a ficar com um ambiente mais poluído. A porcaria sai dos tubos de escape de carros, motos e autocarros. Os detritos característicos de uma sociedade de consumo atapetam os passeios e enfeitam as bermas das ruas alcatroadas. Papéis das mais variadas proveniências, restos de coisas mais ou menos identificáveis; lixo, porcaria, ruído e mau cheiro. Ok, nada de extraordinário - tudo normal!

Mas as ruas estão a ficar mais poluídas. Há um novo tipo de lixo a incomodar os transeuntes e a emporcalhar os passeios. São os missionários evangélicos, ansiosos por espalhar a palavra do Senhor.

Homens e mulheres de aspecto mais ou menos limpo, mais ou menos arranjado, mas sempre com aquele olhar de falcão disfarçado de pinto, que vão proliferando pelas ruas e avenidas deste subúrbio a que chamo casa.

Olhando bem, vendo a forma como se aprumam ao lado dos expositores que colocam à vista dos transeuntes, brochura na mão, a forma como conversam uns com os outros, como tentam passar uma imagem de bonomia e felicidade, olhando bem, noto que tudo aquilo não é mais que fachada.

Tal como todos os outros (os pecadores) estes seres iluminados pela centelha divina pretendem apenas alguém que os ouça, alguém que lhes dê atenção; tal como todos os outros pretendem ser amados e, se possível, suprema felicidade, ser admirados! Isso sim, caraças... aleluia para isso!!!

A admiração é um bálsamo infalível para as feridas da alma.

O meu problema com estas personagens é que elas não acreditam na liberdade, não são boas pessoas, estão sempre dispostas a apontar o dedo e acender as chamas do inferno para grelhar quem não acredita nas patranhas que elas fingem ser reais.

Esta malta actua como actuariam os vampiros: uma vez mordida, a vítima transforma-se num deles, sem apelo nem agravo, para toda a Eternidade. Que porcaria.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Este reino

A China deixa muitos economistas a babarem-se quando olham os gráficos que indicam o seu forte crescimento económico. Já não bastava à China ser uma espécie de outro mundo dentro deste mundo, ainda tinha que ameaçar destronar os EUA do topo da lista dos países mais ricos do mundo.

Fala-se em milagre económico quando se fala da China? Que os EUA não são milagre nenhum toda a gente já percebeu. Aliás, por alguma razão os Polícias do Mundo, os Paladinos da Democracia, e etc, e tal sempre se recusaram ratificar os acordos climáticos internacionais. Era necessário proteger a indústria, ao que parece. Na China está a passar-se algo (muito) vagamente semelhante, é preciso apostar na indústria e no desenvolvimento económico...

Estas apostas implicam o desdém pela qualidade ambiental. É assim mesmo, não há meio termo. Portugal vai ser processado pro Bruxelas por incumprimento das normas europeias relativas à poluição atmosférica e, no entanto, tem uma indústria moribunda, quase patética. Como pode competir comercialmente com países onde não há regras a este nível? Como pode a Europa competir com a China e os EUA? Não pode.

Ficamos a saber que, neste reino de Deus, os que tentam manter o planeta em condições um pouco menos infernais, estão condenados ao desastre económico. Caso tivéssemos dúvidas ficamos a saber que a economia devora o planeta. O bem-estar da espécie é, afinal, o quê? Consumir? Parece que sim, até à destruição total.

Estamos fritos (ou talvez estejamos cozidos, não sei bem).

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Estranha beleza

Nesta vida tudo se paga, nada nos é oferecido. Os americanos dizem que "não há almoços grátis", os  portugueses afirmam que "quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga", cada povo reza as suas sentenças o que mostra muito da forma como vê o mundo que o rodeia.

A notícia de que Pequim está encerrada numa colossal nuvem de poluição não deverá surpreender ninguém (ver aqui). A degradação das condições de vida é o preço a pagar pelo extraordinário crescimento económico. A China não pode tornar-se a maior economia do mundo sem pagar bem paga tal façanha. É este o modelo civilizacional a que aspiram as grandes nações do nosso mundo?

Vejamos a coisa pelo lado das oportunidades; um empresário com visão de futuro e olho para o negócio poderá investir na criação, produção e comercialização de uma linha de máscaras de oxigénio. É um produto com muito futuro nos mercados asiáticos hoje e, amanhã, no resto do mundo! A economia é uma ciência autónoma e tem a sua estranha beleza.

domingo, maio 30, 2010

Lixo


Os graffiters que emporcalham as paredes com tags têm razão quando perguntam porque ficam tão indignados os demais cidadãos perante o resultado dos seus devaneios individualistas.

A publicidade nas ruas é outro tipo de emporcalhamento visual mas não parece incomodar tanto o povinho. Placards, cartazes, panfletos, lixo!

Lembro-me vagamente de ser uma criança e de não compreender muito bem o significado da palavra poluição. Naquele tempo a sociedade de consumo era ainda uma miragem e Portugal um país demasiado pobre para produzir os milhões de toneladas de lixo que agora produz alegremente.

O significado da palavra poluição ganhou sentido quando, consultando um livro de Educação Visual, deparei com uma imagem (não recordo qual) que explicava o conceito de poluição visual. Assim era fácil de perceber.

A foto que ilustra este post foi tirada perto de minha casa. As árvores ainda disfarçam um pouco mas o lixo tudo conquista de forma triunfal. Vivemos envoltos numa pesada nuvem de poluição visual que nos intoxica o pensamento e nos deixa a alma maltratada.

Nem sempre nos apercebemos disso, mas a intoxicação é um facto.