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terça-feira, maio 29, 2018

O "A"

A Arte com "A" maiúsculo é coisa de gente especial. Vejo tanto pedantismo intelectual, tanta gente armada em fina, de olhar carregado, rugazinha inteligente a enfeitar-lhe a testa, gente que parece que está a cagar pedra-mármore, como diz uma fala da personagem Mozart na peça de Peter Shaffer. São os donos da coisa bela.

Não nego o direito à arte erudita (seja lá isso o que for), rejeito a menorização de certas formas de expressão artística desconsideradas porque se dirigem a públicos com pêlos no cu, que arrotam e batem palmas de forma entusiástica.

A arte é muito maior que o "A" com que alguns pretendem isolá-la do povão. A chamada arte popular não deve nada aos senhores de falas mansas com óculos de massa e corte de cabelo à escovinha.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Bombas

Sinceramente não sei porque hei-de ficar inquieto caso o Irão consiga fabricar armas atómicas. Nem sei porque hei-de ficar mais inquieto por essas armas já fazerem parte dos brinquedos do rei-comunista da Coreia do Norte. Inquieto já eu estou pelo simples facto de armas desse género existirem um pouco por todo o planeta. É o bastante.

É suposto eu, na minha qualidade de cidadão ocidental, ser a favor da existência, manutenção e expansão dos arsenais nucleares dos países considerados democráticos? Veja-se o caso dos EUA e do tolo alucinado que agora senta o olho do cu no vértice da pirâmide do poder lá da terrinha. Com uma besta daquelas a ter acesso ao botãozinho nuclear podemos nós estar descansados? Claro que não.

O problema da sociedade global e informatizada parece ser a sua novíssima capacidade de eleger anormais para cargos de poder e publicitar com estrondo os peidos e arrotos de todos os mentecaptos que orientam os destinos dos povos. Sim, dos mentecaptos, porque aqueles que governam com sabedoria e equilíbrio raramente são motivo de notícia.


sexta-feira, maio 08, 2015

Estranha sensação

É uma sensação estranha. Ter plena consciência da mediocridade dos que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado. Saber, sem esforço, que ou são desonestos ou simplesmente inaptos para o desempenho dos cargos de chefia e decisão que lhes atrapalham o cinzento das ideias.

Uns são mais para o mesquinho, outros simples imbecis. Alguns são maldosos e maquiavélicos competindo com seres intelectualmente indigentes, a quem o fato e a gravata dão aquele aspecto grave e digno com que enganam as câmaras fotográficas e vão convencendo o Zé Pacóvio de possuir condições mínimas para fingirem ser o que são. Uma coisa têm em comum: são todos doutores ou, se o não são, vão sê-lo rapidamente.

É estranha esta sensação de que todos os malabaristas, palhaços, ursos, trapezistas, atiradores de facas e demais personagens circenses que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado não passam de arrivistas incultos. Devo estar a ficar velho. E jarreta.

Decerto estou a delirar, a ficar gágá, já não percebo nada do que realmente se passa à minha volta. Ando confuso. Como poderia ser verdade aquilo que imagino? Se é o povo que elege estes gajos como poderia o povo elegê-los uma e outra vez apesar de tudo? Teria de admitir a possibilidade de o povo ser simplesmente burro ou, pior hipótese, ser um povo de aspirantes a aldrabão que idolatra os que provam ser os mais aldrabões de todos vendo neles a figura do chefe ideal.

É estranha, esta sensação.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Estranha oferta

Esta manhã caminhei bastante. Deambulei por caminhos que normalmente não trilho. Entrei no metro de superfície quando cruzei a linha, saí do metro numa paragem mais ou menos ao acaso. Segui por aquela rua porque sim, podia ter perfeitamente enfiado pela outra, mas não.

Foi então que, numa rua iluminada pelo sol que brilhava no frio cortante, vi o sacana. Era o gajo, cuspido e escarrado, um vigaristazeco a quem um dia vendi um carro em 3ª ou 4ª mão. Papéis assinados, apertos de mão, o carro estava tão desgraçado que nem me lembro quanto custou ao escroque, mas lembro-me que foi praticamente oferecido.

Bem que desconfiei, o tipo falava pelos cotovelos, pelos pulsos, pelos tornozelos, o tipo era uma máquina de palavras absolutamente imparável; o aspecto dele: fato a duas cores, gravata colorida, anéis de ouro um pouco por todo o lado (o cachucho no mindinho)... porra! Precisava eu de mais alarmes para perceber o vígaro que tinha à minha frente? A minha natureza é muitas vezes contrária ao senso comum e devo ter pensado: "que se lixe, o aspecto não conta." Enganei-me.

Andei anos a receber multas e intimações da polícia, selos do carro para pagar, tudo porque o gajo, ao invés do prometido a mãos juntas com juras sobre a saúde da mãe, nunca mudou o registo de propriedade e o carro esteve sempre em meu nome. O número de telefone dele deixara de funcionar havia muito tempo.

Portanto, cada merdice relacionada com o malfadado veículo era da minha responsabilidade. Acabei por resolver o assunto após perder bastante tempo, algum dinheiro , toneladas de paciência e, sobretudo, após ter perdido alguma da confiança que tinha nos meus semelhantes.

Hoje, sob o sol matinal, lá estava ele, não havia dúvidas, o cabrãozeco; em carne e osso! Era como se o mundo me estivesse a oferecer uma oportunidade de colocar algumas cenas em pratos limpos. Aproximei-me com o intuito de falar com ele mas, quando estava mais perto, reparei no aspecto do homem.

Estava muito diferente do gajo que me enganou. Sujo, despenteado, roupa amarrotada. Olhou-me mas não me reconheceu (gajos como eu deve ele ter enganado às pázadas, devemos parecer-lhe todos iguais, não sei...). O olhar turvado (álcool?), passo titubeante, um farrapo humano. Passei por ele sem sorrir nem sentir nada de especial. O frio da manhã envolvia-me o coração.

Agradeci ao mundo a oferta que me fazia mas, não, obrigadinho, mundo, podes ficar com este gajo para ti, não o quero para nada. Já passou à condição de fantasma. Mais uns dias e torna-se completamente invisível.

sábado, março 23, 2013

O “ensebentado”


Cavaco Silva passa grandes temporadas calado. Ele diz que tem de trabalhar e, por isso, não tem tempo para falar ao povo. Sinceramente não me parece que se cale por estar a trabalhar, uma coisa não implica a outra. 

Parece-me que se cala para não falar do sorriso das vacas, para não fazer piadas torpes sobre o valor do seu próprio silêncio ou da sua reforma, que mal lhe permite fazer face às despesas do quotidiano. Apesar de tudo, de vez em quando, resolve falar de cátedra.

O nosso Presidente sente-se seguro quando fala daquilo que vem nos livros e que, segundo o seu ponto de vista, é palavra divina. Cavaco não parece capaz de pensar um bocadinho que seja, para lá daquilo que os livros ensinam sem escorregar no seu próprio discurso. Não parece capaz de aprender com os erros nem fazer o mais ténue exercício de imaginação. Ou vem nos livros e pode aprender-se, ou não vem nos livros e é incompreensível, impossível de acontecer.

Sempre me fez confusão o conceito islâmico de que Deus se transformou em Livro, o Sagrado Corão. Segundo essa tradição Deus “enlivrou”. Na efabulação católica Deus encarnou, o que parece, à partida, mais aceitável. Quando olho para Cavaco Silva, fico com a sensação de que também ele é a transformação de um livro em pessoa. 

Ou, melhor, sendo ele um emérito professor de Economia será a personificação de uma sebenta. Cavaco Silva “ensebentou” em Presidente. Talvez isso explique a razão pela qual quando ele pretende explicar-se aos mortais comuns o faça sempre daquela forma que nos parece desastrada mas que, na verdade, é uma forma críptica de comunicar, apenas ao alcance de um pequeno punhado de iniciados. 

quarta-feira, julho 04, 2012

Um parlapatão


A meu ver, o curso instantâneo do ministro Relvas em Ciência Política até se justifica (ver aqui) e não percebo o espanto nem a indignação que está a provocar. Basta olhar o seu percurso na vida partidária: dirigente da Jota, jovem deputado, elemento influente na máquina do partido, que mais se pode exigir a alguém que pretende ser cientista político?

Já a mediocridade constante de Relvas enquanto estudante, incapaz de conseguir classificações acima do 11 ou do 12, fosse no secundário ou no ensino superior, a justificação é evidente e só um cego não consegue ver. Como pode um cidadão ser cientista político num partido tão complicado como o PSD e, em simultâneo, conseguir resultados académicos a um nível suficiente? Mesmo o Super-Homem iria ter dificuldades, quanto mais Miguel Relvas, reconhecidamente um cidadão do mais comum que podemos encontrar.

Acho bem que o governo acabe com a mama dos oportunistas que pretendem fazer o ensino básico em apenas um ano à sombra do programa das Novas Oportunidades. Era o que mais faltava! Querem um diploma do 9º ano? Suem, estudem e trabalhem para isso que a coisa não se consegue num ano apenas!

Miguel Relvas tem demonstrado, na prática, que o seu grau académico é mais do que merecido, independentemente da forma como foi obtido. O homem é um portento na manipulação de informação e um governante assustador, qualidades que mais do que justificam o grau de licenciado em ciência política (ver exemplo das suas habilidades aqui). 

Na minha humilde opinião, observando a forma como Relvas tem arrumado com toda a limpeza as situações problemáticas em que se tem visto envolvido (ver aqui e aqui), deveria ser-lhe atribuído um doutoramento, quanto mais não fosse, Honoris Causa. Só assim poderia fazer-se justiça a sua excelência e à sua honra.

segunda-feira, julho 02, 2012

Dúvida súbita

Tinham aquele ar de jovialidade e energia positiva que dá uma expressão meio atolambada aos corpos com aparência de serem adultos. Traziam afivelada nas beiças uma coisa que, não sendo propriamente um sorriso, é mais um esgar que permite imaginar uma vaga possibilidade de alegria. Uma alegria contida.

Na verdade e lá no fundo, ninguém queria estar ali. Dentro das suas cabeças, todos estão algures, lá fora, longe daquele lugar enfadonho. Eu, como eles, mas sem sorriso, porque sou o gajo foleiro que está a reparar nos outros.

Talvez lhes inveje o esgar apatetado, talvez eles desconfiem deste tipo, aqui, sentado a um canto, a olhar em volta com cara de quem tem alguma coisa a haver deste mundo que se recusa a pagar-lhe a dívida e a escrever furiosamente sobre um caderno quadriculado com um marcador preto de ponta demasiado larga para escrever.

O relógio vai marcando a passagem do tempo. Da parte que me toca não quero oferecer nem perder um minuto que seja daquilo que sei ser o meu dever de trabalhador contratado. É uma ética profissional ajustada ao minuto, afinada ao segundo. Em questões de pontualidade acredito no mito britânico.

Fico a pensar se a Ética, sendo um Valor universal, pode depender assim do tempo de trabalho, do lugar onde me encontro ou se esses factores espaço-temporais são irrelevantes. Penso se não será eticamente reprovável eu estar aqui sentado, a ouvir AC/DC tão alto nos auscultadores que do exterior não me chega nenhum som, enquanto vou escrevendo palavra atrás de palavra como se não houvesse amanhã.

Os outros lá continuam com os seus sorrisos de meninos. Parecem felizes mas, talvez porque não ouço patavina do que dizem, vejo-os impacientes e ansiosos por sair dali para fora. Talvez estejam a dizer coisas engraçadas, pela sua linguagem corporal, não apostaria nisso nem um cêntimo.

Chego ao fim da página. Está na hora. De súbito surge-me a dúvida: estarão eles a pensar que sou um pateta, de ar atolambado, com uns auscultadores enfiados nos ouvidos como facas sonoras, armado em esperto, a escrever só para me armar ao pingarelho? Era bem feito que pensassem assim.

sexta-feira, junho 08, 2012

Falar por falar

Uma frase daquelas: "A paciência é a riqueza dos infelizes." Ui! Escreveu-a Camilo Castelo Branco que se passou para o outro lado nos idos de 1890.

Vem isto a propósito das palavras do 1º ministro português que elogia a "extrema paciência dos portugueses" perante o apagamento inexorável do sonho de virmos a ser um país com um nível de vida razoável. Méééé, eu também faço parte deste imenso rebanho que nós somos.

Na verdade sempre me imaginei um gajo paciente. Não digo paciente ao estilo de um Job, porra, também não vale a pena exagerar, mas paciente, sim. Pelo menos um bocadinho paciente, mesmo apesar de ser capaz de perder as estribeiras com alguma ligeireza.

Pronto, está bem, se calhar não sou assim tão paciente como me imagino. Isto de estar dentro de mim próprio retira-me algum distanciamento e tolhe-me o espírito crítico. Mas numa coisa o nosso 1º tem razão: ser português requer muita paciência.

Paciência, principalmente, para aturar os restantes 10 milhões de portugueses sem acabar a trilhar uma carreira de assassino em série.

Estou em crer que a dita paciênciazinha tenha a ver com a educação católica. Um gajo é levado a encarar o Purgatório como um lugar aceitável; sempre é melhor que o Inferno e sabemos bem que o Paraíso não está ao nosso alcance.

Ok, segundo o nosso imortal Camilo somos, então, riquíssimos, precisamente por sermos tão infelizes.

Alguém disse, uma turista intelectual (não sei quem, lembro-me que era uma mulher), disse a turista que "os portugueses são os latinos tristes". É bonito, tem aquele toque de agradável melancolia. Ficamos logo com carinha de cãozinho abandonado.

 Imagino que a senhora tenha entrado no nosso jardinzinho vinda de Espanha onde nuestros hermanos levam o mundo todo à frente à força de olés e muito salero. São os maiores e fazem muito mais barulho do que nós o que é um feito, sem dúvida, extraordinário!

Agora que a crise que tudo enche de merda, está a bater também à porta dos nossos vizinhos, a coisa começa a aquecer. É que eles, em termos de paciência, são uns pobretanas, quase miseráveis! Têm a mania de sair para a rua a gritar como bezerros desmamados, reclamando por tudo e por nada.

Os espanhóis têm o rei, não na barriga, têm o rei nos tomates ou lá o que é! São uns convencidos do caraças mas até gosto deles. São engraçados, mexem-se muito e falam pelos cotovelos. E as espanholas são umas mulheres do caraças. Pelo menos as poucas que conheci eram umas mulheres do caraças. Acho eu.

Se lhes aplicarem a mesma receita que nos estão a enfiar pela goela abaixo, diminuição de salários, aumento supersónico do desemprego, desinvestimento no estado social, e etc. e tal, como irão eles reagir? É que, se nós somos cordeiros, eles são lobos. Dos maus.

Fico curioso e aguardo. Visto daqui, o desabamento da Europa enquanto utopia e farol da humanidade, é uma coisa assim a dar para o mole. E visto dali, como será?

Vou encher o copo outra vez. Hoje é sexta-feira e amanhã não trabalho. Por enquanto ainda guardamos os  sábados e os domingos. É aproveitar enquanto é tempo.

A Península Ibérica ainda está agarrada ao resto do continente mas o que me custa, mesmo, é ser governado por esta gentalha que diz que me governa.

E se a gente, o povinho, descolasse desta merda e fossemos mas é para África que é o que nós somos de verdade; africanos!?

Post scriptum: enquanto andava por aqui a passear a propósito deste escrito deparei com a frase que se segue: "Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar." Vê-se logo que isto não foi escrito por um português. É uma frase atribuída a Kafka que, como toda a gente sabe, era um tipo que não interessava, nem ao Menino Jesus!!


quinta-feira, janeiro 05, 2012

Carta de escárnio (que maldizer não posso)

Li algures (ou terei sonhado?) que os portugueses, quando se atiraram mar adentro e mundo fora, nunca foram capazes de se estabelecer mediante um plano de expansão particularmente visionário. O mais que foram fazendo terá sido o estabelecimento de um sem número de tascas junto à costa africana, onde vendiam aos indígenas as maravilhas da nossa produção nacional, nomeadamente a bela pinga, o tal vinho tinto que, alguns séculos mais tarde, viria ser certificado por um assombroso estadista como dando de comer a um milhão de portugueses, cálculo que pecava, evidentemente, por defeito, já que seriam muitos mais o que se alimentavam exclusivamente desta dádiva de Baco à nossa pátria incomparável.

Vem isto a propósito da notícia publicada nas páginas do jornal Público no dia 5 de Janeiro sobre a orientação de Paulo Portas às nossas missões diplomáticas no sentido de “venderem” Portugal aos estrangeiros, sejam eles europeus, africanos, asiáticos ou extraterrestres.

As nossas embaixadas deverão passar a funcionar como entrepostos comerciais, enterrando definitivamente a modesta “diplomacia do croquete”, transmutada numa coisa mais agressiva e pós-moderna, à base de “road-shows” e outras coisas tão assombrosas quanto irresistíveis.

Paulo Portas, que andava tão silencioso e escondidinho, surge de súbito, qual Dom Sebastião cuspido pelo nevoeiro, para revelar o verdadeiro plano redentor da nossa economia. Este engenhoso plano de venda da pátria em atraentes pacotes de coisinhas boas só poderia sair da mente de um estadista que foi capaz de investir uma fortuna na aquisição de dois submarinos quando o país se encontrava numa situação de evidente crescimento e desafogo económico e tinha as contas equilibradas, isto antes dos tempos desgraçados em que os governos de Sócrates arruinaram a nossa balança de pagamentos. As visões são para quem as tem e quem as não tem fica a roer-se de inveja.

Com este novo paradigma da nossa diplomacia, Paulo Portas demonstra o seu conhecimento da história pátria, recuperando a nossa atávica veia de tasqueiros bebedolas quando se trata de estabelecer relações internacionais. É claro que, no século XXI, temos mais coisas para oferecer além do incontornável tintol, as oportunidades de negócio, agora, são outras e mais variadas.

Já não estamos a entrar na China, agora abrimo-nos ao Império do Meio. Já não negociamos escravos nas costas africanas com chefes de tribos tão escrupulosas quanto a nossa. Agora deitamo-nos no chão a implorar aos novos chefes africanos que nos cobrem pelos pecados dos nossos antepassados.

Se alguma coisa aprendi nos tempos do Portugal salazarista foi que o pobre pedinte não tem orgulho, embora possa andar limpinho, compostinho e desconfiar da generosidade de certas esmolas. Paulo Portas também terá aprendido isto mas, como nunca na vida foi pobrezinho (em termos materiais), não tem vergonha nenhuma e pensa que ser esperto é quanto basta para passar entre os pingos da chuva sem se molhar. Coitado.

Nota: enviei esta carta para o Público. No lugar da directora do jornal não a publicava por ser tão provocatória e, nalguns passos, tão pouco decente. mas não podia deixar de enviar esta coisa. O impulso de o fazer foi muito mais forte do que as forças em sentido contrário.

sexta-feira, maio 04, 2007

Doutores e Presidentes

Carmona Rodrigues mostrando os seus dotes de equilibrista em situação de risco numa BTT. Doutor ciclista?

Portugal é um país de Doutores e Presidentes. Muitos acumulam, a ordem é arbitrária. Um Doutor Presidente ou um Presidente Doutor são mais ou menos a mesma coisa e o seu inverso.
Carmona Rodrigues, o Presidente de quem mais se tem falado nos últimos dias, concluiu a licenciatura em Engenharia Civil em 1978, como aluno civil, com a média final de 15 valores nos bancos da Academia Militar.
Teríamos um Presidente Engenheiro não fosse dar-se o caso de ter obtido o grau de Doutor em Engenharia do Ambiente, pela Universidade Nova de Lisboa, em 1992, tendo apresentado a dissertação Modelação Matemática da Qualidade da Água em Albufeiras.
Ora temos então um Presidente Doutor Engenheiro a manobrar os destinos da Câmara Municipal de Lisboa. Este somatório de qualificações tem permitido a Carmona ser mais Engenheiro Presidente Doutor do que propriamente Presidente, só e apenas, sem mais nada.
Isto porque as habilidades que tem mostrado são fruto de autêntica engenharia presidencial apenas ao alcance dos melhores doutores dos que vão sendo produzidos nas mais diversas faculdades da Lusa pátria.
Poucos se recordarão que desempenhou funções no XV Governo Constitucional como Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação, ao longo de 15 meses nos idos de 2003. Isto para dizer que Carmona já foi outrora Ministro Doutor Engenheiro o que só lhe valoriza o currículo.
O nosso actual 1º Ministro, por exemplo, já não se pode gabar de tão dourado título pelas razões que se conhecem. Carmona é, sem sombra para qualquer dúvida, figura de proa num país como este, onde os rótulos têm valor acrescentado e, quando a peça vem embrulhada em fato e gravata, abrem portas atrás de portas nos corredores do poder político, independentemente da qualidade do produto dentro do embrulho.
As trapalhadas resultantes do sai-não-sai-fica-já-ficou-e-talvez-não-fique dos últimos dias vêm manchar a Presidência do nosso Doutor Engenheiro.
A forma como Marques Mendes garante que Carmona havia concordado com o seu afastamento do poleiro que ocupa e este vem desconcordar não tem ponta de elegância, bem antes pelo contrário. Em que é que ficamos? Conversaram os dois. É um facto. Mas, pelos vistos, não devem ter falado da mesma coisa uma vez que o Presidente do PSD se engasgou bastante na entrevista televisiva de ontem na RTP 1 para explicar esta trapalhada inexplicável.
Isto são coisas entre Doutores Presidentes e, como tal, não se pode dizer que um deles (ou mesmo ambos) esteja(m) a mentir. Entre seres desta espécie podem, quando muito, faltar à verdade ou então dizerem inverdades (este termo é extraordinário!), mas mentir não. Isso nunca! São Presidentes Doutores!