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sexta-feira, julho 10, 2026

O puto e o envelope.

     Tudo começou quando, ao pretender aparar a barba, me enganei no pente que apliquei na máquina e dei por mim a rapar o queixo. Primeiro olhei os pêlos brancos que caíram sobre a toalha com que revesti o lavatório (para evitar entupimentos desnecessários). Eram compridos "e muito brancos", pensei. Depois olhei o espelho e vi aquela desmatagem criminosa que abria um sulco enorme, do meu pescoço ao lábio inferior. Foi com tristeza que constatei a inevitabilidade de rapar a tromba toda, a menos que pretendesse ser alvo de olhares mais ou menos furtivos e chacota e reprovação social absoluta, caso decidisse deixar ficar a coisa tal qual estava naquele preciso momento. 

    Lá foi a barba.

    Quando terminei a penosa função olhei e vi-me como já me não via fazia muito tempo: sem barba. Reconheci perfeitamente a minha cara mas não gostei do que vi. Vi a pele do meu pescoço e não gostei; vi os cantos da minha boca e não gostei; vi a curva do meu queixo e também não gostei. Eu sabia que havia de estar envelhecido mas não tinha a noção de como estava envelhecido. Um gajo não tem de gostar ou deixar de gostar, as coisas são como são. Mas, enfim, aquele velhote chateou-me.

    Já lá vão uns dias, a barba vai regressando. Voltarei a poder fingir que aqueles tipos que aparecem na TV e têm a mesma idade que eu estão muito mais acabados, "eu tenho aquele aspecto?" Claro que tenho aquele aspecto. Estou velho, já não sou aquele gajo jovem, convencido que era muito bonito, armado em bom. Esse puto já lá vai, transformou-se naquilo que hoje me transporta. Ambos mudaram radicalmente, o puto e o envelope. 

segunda-feira, março 16, 2026

A ampulheta e a clepsidra

     Até pode parecer que estou a ficar meio paranóico. Ou completamente! Pode parecer que estou a ficar meio xéxé e que não me lembro do que disse num post aqui plantado há poucos dias atrás. Pode parecer mas "nem tudo o que parece é" como diz o outro, o Povo. O Povo diz coisas.

    Isto porquê? Cá pra mim, se ainda estás a ler esta coisa não deves estar a perceber nada do que para aqui vou semeando. Mas, dizia, isto porquê? "Mas isto o quê?" pensas tu, desorientado leitor (ou leitora), já com a paciência a escorrer-te do cérebro. - Isto, isto de estar a ficar meio paranóico. - responderia eu, caso estivéssemos a conversar face to face. "Aaaaaah, hóquei..." suspiras tu, mortinho para que esta merda de conversa acabe ou para que, pelo menos, faça algum sentido.

    Pode parecer que estou a ficar meio paranóico pois esta manhã apercebi-me de que penso constantemente na morte embora não pondere com seriedade a possibilidade de vir a morrer dentro de pouco tempo. "E o que consideras tu como sendo pouco tempo?" - perguntas. E eu penso: "Rai's parta este leitor (ou leitora) que já começa a chatear!", e continuo, agora em voz alta - Sei lá. Tenho 63 anos, se viver mais 15, 20 anos, acho justo e, talvez, suficiente.

    E pronto, é um bocado isto. Nos últimos posts tenho reflectido um pouco sobre velhice e envelhecimento. Pelo menos por enquanto a coisa ainda não me deprime mas não tenho a certeza de ser capaz de manter toda esta fleuma durante muito mais tempo... lá está, é tudo uma questão de tempo!?

quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

domingo, fevereiro 15, 2026

Idoso

     Fui verificar o conceito de idoso e encontrei isto: Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é todo o indivíduo com 60 anos ou mais. Fiquei chocado! Eu tenho 63 anos!!! Passei a fronteira da idade adulta para "a cair da tripeça" sem sequer me aperceber do que me ia acontecendo. Sou idoso há 3 anos e não sabia. Estou destroçado.

    Quando o meu pai faleceu devia ter suspeitado que a coisa estava para se dar. Mas não pensei no assunto. Ver a minha filha com 32 anos devia ter feito soar algum tipo de campainha interna... mas nada. Ter cada vez menos cabelo ao ponto de ser bem mais careca do que cabeludo, ter o cabelo e a barba a embranquecer todos os dias poderiam ter sido indícios valiosos para que fizesse uma revisão do que sou (não de quem sou). Não o fiz, deixei andar.

    Agora sei que sou um idoso. Pronto, estou informado. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

sexta-feira, outubro 03, 2025

Melhor pensar na morte da bezerra

     Anteontem senti um apelo mórbido vindo lá detrás do meu cérebro; resolvi googlar "pessoa idosa". Mais valia ter ficado quieto. Fiquei a pensar no caso e na coisa. 

    Ontem fui até à porta da embaixada israelita em Lisboa e participei na manifestação a favor do povo palestino. Senti-me bem. 

   Descontando a descida da Avenida da Liberdade por ocasião do 25 Abril,que me lembre, já não participava numa manifestação há um bom par de anos e aquela, ontem, foi saudavelmente selvagem. Pareceu-me haver muita gente jovem. Quando alguém, no palco, lembrou que "há 30 anos participámos em manifestações semelhantes a esta por Timor" pensei que uma grande parte dos manifestantes de ontem ainda não teriam nascido ou, se participaram nessas manifestações, fizeram-no ao colo ou às cavalitas dos pais, como aconteceu com a minha filha.

    Hoje pela manhã dei por mim a reflectir sobre as questões que registei acima. E, pela primeira vez, pensei: eu não estou a lutar por um mundo melhor para viver, eu luto por um mundo melhor para morrer. E agora, que já são quase duas da tarde, penso: valha-me Nossa Senhora.

sexta-feira, maio 31, 2024

Ir indo

    Já deixei de ser jovem há uns bons anos e estou-me bem a lixar. Não fosse uma dor aqui, uma azia ali, nem sequer havia de sentir o impulso de maldizer a idade. O que se perde numa perna ganha-se na cabeça, o que vai naquele braço fica a pairar no espírito. O corpo é o que mais se estraga (até ver), as peças gastam-se e não há como substituí-las. A juventude saudável é, sobretudo, um corpo que não se apercebe de si próprio. 

     Valoriza-se muito a juventude, principalmente quando se é jovem. Do mesmo modo tendemos a considerar a velhice como uma oportunidade na busca de um sentido para o fim inevitável que se irá aproximando com o passar dos anos. Entretanto vamos vivendo.

    O envelhecimento não é um drama por aí além... até ver.

quarta-feira, outubro 06, 2021

Na fronteira

Sinto-me a existir cada vez mais próximo de uma fronteira que separa aquilo que sou daquilo que esperam que eu seja. Essa fronteira sempre esteve lá mas o longe vai-se fazendo perto. O passar dos anos é caminho que vai sendo feito e parece-me que avisto já a guarita do guarda alfandegário.

Estar mais velho provoca-me situações de alguma vertigem, algum desconforto. Principalmente quando estou com pessoas mais jovens e conversamos. Seja qual for o tema há sempre uma história a propósito que posso contar. A sério? Que seca! Talvez devesse calar a boca, mas não, dou por mim e já avanço em passo de corrida história adentro. Arrependo-me sempre tarde de mais.

Depois começa a acontecer-me não ter a certeza se já contei aquela história àquela pessoa.

O guarda alfandegário tem uma farda cinzenta (ou será azul clara?) e está a ler um jornal enorme, com folhas que parecem lençóis. Uma ligeira brisa dificulta-lhe a leitura e ele parece irritado. Acho que me vou sentar um pouco e esperar que tudo passe ou, pelo menos, que tudo acalme. Então será tempo de avançar.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Arrivederci!

Tal como a esmagadora maioria dos mortais também eu fiquei de queixo caído com a notícia da renúncia de Bento XVI ao cargo que Deus lhe confiara. Deus, decerto, terá sido o 1º a saber (Terá Ele sabido ainda antes do próprio Ratzinger? Estou em crer que assim foi.)

Bento XVI coloca uma nova questão: entre a dimensão humana e a divina fica o quê? Sim, porque João Paulo II mostrou à humanidade que o corpo humano não tem capacidade para conter a divindade.

O Papa Wojtyla penou a bom penar nos últimos tempos em que desempenhou o papel de representante de Deus na Terra. Torto de doença, decrépito e extenuado, carregou a cruz da sua suposta divindade até ir desta para melhor.

Imediatamente elevado à categoria duvidosa de Santo após bater a caçoleta, João Paulo II foi a imagem inequívoca da fragilidade dos mitos. Ratzinger veio colocar um ponto final a este exagero de forma. Ao renunciar, o Papa confessa-se humano e poupa-nos à desumanidade da mitologia católica apostólica romana.

Finalmente, no momento da despedida, Bento XVI ganha alguma da pouca admiração que o meu preconceito lhe poderia jamais dispensar. "Adeus ó vai-t'embora" como diz o povoléu. Que a vida te seja, finalmente, leve, ó Papa.