Talvez as coisas não se tenham passado bem assim mas penso que aquilo aconteceu mesmo. Não tenho a certeza, resta-me uma vaga memória da cor dos seus olhos e ainda sinto aquele cheiro; um leve odor seco,destituído de frescura ou intenção.
O corpo estava ajoelhado, de bruços sobre a cama. Parecia estar apenas encostado.Era difícil calcular-lhe o peso. Estava tudo tão quieto!
Eu não avançava. O outro homem também não. A quietude do local, o silêncio, aquele odor, quase perfume, nada nos instigava a agir. Antes pelo contrário.
Os que ali faltavam tinham ficado no corredor. Adivinhavam o fim que tinha chegado no interior do quarto. Queriam ver o que se passava mas também não queriam.
Uma súbita tristeza cresceu dentro de mim. Uma tristeza dura, a moldar-se-me no peito, como barro, como gesso, a crescer e a ocupar todos os lugares cá dentro, uma alma sólida a querer não existir sem poder evitá-lo.
Olhei o outro homem. Ele já me olhava como se esperasse que fosse eu a tomar a iniciativa de fazer algo. Qualquer coisa. Ele aceitaria o que quer que fosse que eu decidisse fazer naquele preciso momento.
Sem saber como nem porquê avancei um passo em direcção ao corpo inerte.
Toquei-lhe e senti-o rígido. Estátua caída do pedestal da vida. Num primeiro esforço ineficaz tentei virá-lo. Afinal era mais pesado do que parecia. Muito mais.Tinha o peso de estar vazio. Ganhei força e não sei como voltei-o para cima.
Foi então que lhe vi o rosto.
Meu Deus, vi-lhe o rosto.
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quinta-feira, fevereiro 28, 2008
domingo, fevereiro 12, 2006
Sombria profecia
Quer-me cá parecer que há alguém (ou talvez alguma coisa) que anda a alimentar-se do que não devia.Há alguém (ou alguma coisa) gulosa do mal-estar alheio, que cresce e se sente mais confortável quando a miséria avança, seja na versão material ou cultural, a miséria é para este alguém (ou alguma coisa) um pitéu saboroso.
Esta coisa (ou Alguém, com maiúscula) devora-nos a alma e atira os restos aos bichos que mantém como animais de estimação. Estou convencido que estamos perante um caso de polícia ao nível do Divino. Anda um deus qualquer, estúpido ou enlouquecido pela sífilis, a estragar ainda mais a humanidade.
Lá vai o tempo em que sonhei que o mundo estava todo ao contrário por não haver quem se interessasse pela posição relativa das coisas no Universo. Andava a estudar Geometria Descritiva no mais elevado grau de dificuldade, o que explica tal alucinação. Mas, apesar dos miolos fritos no lume brando da Geometria, havia algo de inquietante na visão dos meus sonhos.
Deus era afinal o Diabo que, com as manhas que todos sabemos possuir, nos havia convencido de ser bom e bem intencionado ao ponto de lhe chamarmos Deus do Amor e outras patetices do género. Assim se explicava tanto mal e tamanhas maldades a assolarem a tristeza deste mundo, ainda por cima premiada por multidões submissas a encherem os templos de lamentos e outras coisas semelhantes a orações rezadas num zumbido de mosca.
O mundo estava ao contrário! Na verdade, uma vez que o mundo é esférico, isso não deveria constituir surpresa nem provar rigorosamente nada de importante. A não ser que entre Deus e o Diabo a diferença resida, apenas e lamentavelmente, numa questão de posição e perspectiva.
Chiça penico, convenhamos que os meus sonhos de adolescência não foram particularmente saudáveis, mas também, perante o quadro actual, até que poderão ser considerados sonhos cor-de-rosa (desde que não sejam rosas de paixão que aí já a cor é outra!).
Sim, pois, e tal e coiso, "Venha o Diabo e escolha", "Valha-nos Deus", pátati, pátatá, a religião regressa em força para cumprir a sombria profecia de João Paulo II para o jovem século que agora vivemos.
Disse ele que este seria o século da religião.
Querem lá ver que o homem, afinal, era bruxo!
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domingo, fevereiro 12, 2006
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quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Escuteiros do Amor
Parece que há quem nos ofereça o coração a troco de nada. Há quem nos queira tanto bem que somos inacapazes de perceber o alcance de tão inexplicável paixão. Os problemas começam a surgir quando insistimos em recusar a oferta. Mesmo que o façamos educadamente, como nos ensinaram as nossas avós.O ofertante insiste com o sorriso benemérito a descair ligeiramente para o amarelo. Que não, não queremos, que dispensamos, basta-nos bem o coração que temos e os outros que já conquistámos, mesmo os que entretanto fomos perdendo pelo caminho. Tá-se bem assim, muito obrigado e tal... mas o outro começa a dar sinais de impaciência. Espeta-nos um coração sangrento defronte do nariz e faz aquele gesto que os nossos antepassados navegadores faziam quando estendiam uma mão cheia de contas coloridas em direcção aos aborígenes que iam encontrando por aí. Eu não estava lá mas vejo o gesto. Um empurrãozinho do pulso com o cotovelo cúmplice, entre o hesitante e o esperançoso.
Fica lá com essa merda, ó matreco, é o que me passa pela cabeça, mas a sombra da minha avó não me permite tal indelicadeza. Começo então a pensar na possibilidade de aceitar aquela coisa, embora não esteja muito bem a ver o que possa fazer com ela. Só para dar uma alegria ao escuteiro mais à puta que o pariu, que de santo nem a paciência tenho. Meço um gesto de hesitação e ponho-o em prática. Noto uma esperança imediata a bater no peito límpido do meu interlocutor. Estou quase a receber na mão o palpitante pedaço de asno que me é tão insistentemente ofertado.
No último momento retiro a manápula, viro costas e afasto-me.
Que porra, sou alguma instituição de solidariedade social? Se o gajo quer fazer caridade que vá para um movimento cívico ou outra merda qualquer que esteja a dar.
Sinceramente, ó meus caros compinskas, não há pachorra para os escuteiros do amor nem para as suas mensagens de esperança num mundo melhor, repleto de poesia encadernada em capa dura com lombada forrada a pele de camelo.
Vão chatear o Camões!
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quarta-feira, fevereiro 01, 2006
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terça-feira, janeiro 17, 2006
Tolera...

... se fores capaz.
Tolera o monga que está a fazer-te perder a paciência.Tolera a chuva.
Tolera a comichão enquanto aquela tal pessoa fala contigo. Coçar as partes nesta ocasião não seria o gesto mais elegante.
Tolera a fome, tolera a gula, tolera os chapéus foleiros e os elefante fedorentos.
Tolera a jaula onde se escondem os grilos e a gritaria dos vizinhos.
Tolera o roxo e as mãos encarquilhadas pelo banho.
Tolera tudo o que fores capaz de tolerar já que, não tarda nada, vais rebentar como uma bomba e, o mais incómodo, é que a coisa vai saber-te bem!
O mais complicado de tudo é saberes que não poderás nunca perceber o mundo como o monga (o gajo está mesmo a fazer-te perder a puta da paciência!) porque não estás dentro dele. Os olhos dele verão o mesmo que os teus vêem? O roxo que te irrita será assim tão roxo para ele? E a gritaria? Talvez a ouça com tonalidades musicais ou nem sequer se aperceba já que está entretido a foder-te o juízo.
Tolera o que fores capaz de tolerar mas não te deixes enganar.
Talvez seja a única coisa que não valha a pena... tolerar.
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terça-feira, janeiro 17, 2006
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