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segunda-feira, maio 14, 2018

Três graças

Força, alegria e convicção. Três condições essenciais à construção de uma narrativa contundente e significativa. Não há que recear o vazio se imaginarmos ser capazes de o preencher.

Força na definição dos volumes, na marcação das formas, na vibração das cores ou na acentuação dos contrastes; alegria na desenvoltura do gesto, na definição dos ritmos, na velocidade com que nos afastamos deste lugar e vamos chegando mais adiante; convicção na abrangência daquilo que temos para dizer e afirmamos, convicção na bondade dos ideais que nos animam.

Tenhamos nós a felicidade do amparo destas três graças e teremos realizado um trabalho honesto  ao fim  do qual poderemos dormir um soninho descansado.

domingo, junho 11, 2017

Vontade de desenhar

Continuo para aqui sentado, perna esticada, a secar. Ter os movimentos condicionados é chato (terrível seria expressão exagerada, caríssimo leitor; mais adiante iremos reflectir sobre isso mesmo), surpreendentemente muito mais chato do que era capaz de imaginar olhando outra pessoa nas mesmas condições em que me encontro.

Imagino (tento imaginar!) como será um gajo poder movimentar-se com eficácia motora mas estar emparedado, prisioneiro num espaço exíguo. Querer e não poder dar mais que cinco passos seguidos em linha recta; terrível! Isto sim, será certamente algo terrível. Esta merdice que por ora me atormenta irá ser debelada. A lesão diluir-se-à no tempo e com o tempo, desaparecerá de forma discreta, a contrastar com a estridência estapafúrdia da sua chegada, serei livre de novo.

Pensei que esta pasmaceira, esta imobilidade, imaginei que estar assim, sentado horas a fio fosse propício ao desenho. Pedi À minha filha um certo bloco, rodeei-me de lápis e canetas. Já lá vão dois dias e... nada. Nem sequer vontade de desenhar.

Talvez a minha vontade de desenhar resulte da liberdade de movimentos, talvez o apetite pela criação me exija alguma capacidade de levar o cérebro daqui para ali. Talvez alguns consigam criar quando estão em cativeiro ou sintam necessidade de se expressar quando têm o cu irremediavelmente agarrado ao tampo de uma cadeira.

Agora que reflecti um pouco sobre este assunto talvez seja capaz de desenhar alguma coisa.

segunda-feira, abril 18, 2016

Ser criativo

Há por aí quem se questione sobre os mecanismos da criatividade, como se pode enxotá-la lá do fundo do galinheiro das nossas ideias. Há quem acredite que ela pode sair a correr, agitando as asas com estardalhaço, fazendo saltar os incautos e os distraídos à sua desvairada passagem. Há por aí quem acredite que se pode forçar a criatividade.

Talvez seja possível fazê-lo, acredito nesse possibilidade, embora esteja convicto de que espevitar a criatividade individual tem de se fazer com jeitinho, assim como quem não quer a coisa.

Um dos maiores problemas prende-se com a maravilhosa variedade que caracteriza o Ser Humano. Aquilo que me estimula pode dar-te um sono dos diabos e vice-versa. Podes mesmo ser estimulado por um sono dos diabos (isso é bonito).

Pessoalmente, estou (quase) convencido de que a criatividade é um processo caótico e, como tal, é despoletada quando menos se espera, embora possamos criar condições favoráveis ao seu despertar a horas certas. Aquilo que funcionou hoje pode não resultar amanhã e a diferença entre um dia e o outro pode ser uma unha negra ou um alarme estridente que parou de guinchar num determinado momento. Um segundo antes ou um segundo depois e nada teria acontecido.

Perguntam-me como faço quando pretendo criar alguma cisa nova. Não faço, deixo acontecer. De vez em quando funciona.

domingo, janeiro 14, 2007

Há quem não acredite, mas alguns deles são Criadores

Imagem retirada do site das Visões Úteis http://www.visoesuteis.pt/criacoes/criacoes.html


No seu editorial de Domingo, 14 de Janeiro, José Manuel Fernandes (JMF) afadiga-se a dar mais umas pauladas no ceguinho que designa por “criador”, assim mesmo, com aspas tremendas e arrasadoras.
Começando por enumerar uma série de situações que, em seu entender, provam a existência de um público interessado nos mais variados eventos culturais, JMF conclui que “o nosso problema não é criar públicos para a cultura” mas sim oferecer ao público eventos de qualidade garantida que ele logo acorre em grande número. Prova disso seriam as longas filas de visitantes que aguardaram pacientemente a sua vez de entrar na exposição dedicada a Amadeo e às vanguardas artísticas do início do século passado que, finalmente, estão ao alcance de grande número de portugueses. Esquece JMF que muitos desses estóicos visitantes são, precisamente, fruto de um paciente trabalho de criação de públicos para a cultura para o qual a Fundação Calouste Gulbenkian, (juntamente com outras instituições e, pasme-se, o próprio ensino público) muito tem contribuído ao longo de décadas. Trabalho de criação de públicos começado, mais coisa menos coisa, após a revolução de 25 de Abril de 1974 que começa, finalmente, a dar frutos bem visíveis. Imagine JMF uma exposição de Francis Bacon em Portugal há 30 anos atrás. Quantos visitantes teria, por muito exemplar que fosse o trabalho de divulgação? Os públicos que tanto entusiasmam JMF não saem de baixo das pedras nem são resultado de um qualquer milagre de geração espontânea.
Esquece JMF que Amadeo, ou Van Gogh ou Pessoa, foram também, na sua época, considerados “criadores”, desses entre aspas e que apesar do desprezo a que foram votados pelos guardiães da verdade e do bom gosto aí estão prontos a deslumbrar multidões nos dias de hoje.
Teria alguma curiosidade em saber quais os eventos desses nossos “criadores” contemporâneos que foram brindados com a presença de JMF para poder ter uma noção mais aproximada daquilo a que ele se refere quando fala da “sobranceria de quem entende que é um “criador”(…) indiferente [a] ter ou não público desde que tenha dinheiro no banco ao fim do mês.” Há quem não acredite, mas alguns deles são Criadores.
Dizia a canção que “demagogia feita à maneira é como queijo numa ratoeira”. Ora nem mais.

Carta enviada ao director do Público

terça-feira, janeiro 09, 2007

O processo (parte 3)

O Grande Quíron oferece uma prendinha ao Sr. Silva, técnica mista (2006)

Quem sabe o que poderá resultar do Processo?
Vai para uns anitos chamei-lhe "Hibridização Anárquica". A ideia é tão simples que até pode chatear mas acaba por fazer todo o sentido... digo eu.
O Processo consiste em deixar fluir ideias e acções com a maior liberdade possível. Os materiais quase se sobrepõem ao acto de os manipular.

Foi Ernst (o Grande Max ou Dadamax, como preferirem) que fez notar as potencialidades infinitas de certas técnicas de trabalho plástico verdadeiramente automáticas. Entre elas destaca-se a de lançar um trapo embebido em tinta sobre uma superfície e ficar a olhar, esperando que a mancha daí resultante revele ao pintor a sua essência. Entre a acção de lançar o trapo e a descoberta da imagem assim potenciada, medeia um tempo de contemplação mais ou menos atenta, mais ou menos silenciosa, mais longa ou, eventualmente, curta. O artista espera que o material lhe revele para onde poderão ambos dirigir-se. Há nisto qualquer coisa de mágico.
Em determinado momento o artista começa a actuar e, a meias com a sorte e a imaginação, vai descobrindo um sentido nas manchas e nas linhas que, poderia muito bem, ser outro, não aquele que se vai formando. É um trabalho magnífico. Mesmo que o resultado seja uma merda, o Processo é infalível na condução do pensamento por caminhos à partida inimaginados.

A Hibridização Anárquica consiste na condução do Processo introduzindo outros dados de forma consciente ou nem por isso. A música que ouvimos de manhã, a leitura que fizemos ao almoço, a conversa que tivemos à sobremesa, o sonho que sonhámos anteontem e já não podemos, de forma nenhuma recordar, a pancada incómoda do joelho na cadeira... todas estas energias serão transmutadas em formas nem sempre premeditadas, concentradas na superfície de trabalho e ali depositadas. O desenho, a pintura, o que quer que estejamos a criar, irá beneficiar desta força incompreensível, retendo-a para que fique à disposição do observador eventual.
Quando o observador cruza o seu olhar, a sua energia vital, com a imagem assim criada, despoleta um processo de identificação que resulta em algo absolutamente novo, maravilhosamente imprevisto e fecundo. A sua leitura do objecto plástico consiste num outro Processo, também ele infinitamente criativo e pessoal, resultando um híbrido incorpóreo e etéreo, como um fantasma que convidamos a sentar-se à nossa mesa.

Assim é.

domingo, janeiro 07, 2007

O processo (parte 2)

Cadáver Aflito (O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor) técnica mista 2004

Colar, pintar, riscar, desenhar, recortar, colar outra vez... uma busca incessante de equilíbrio precário entre forma e significado. Suspensão!
Uma imagem nunca está definitivamente concluída. Suspende-se a acção num determinado momento, a imagem é encontrada, fica ali à disposição do olhar que a intercepte. Energia em bruto à espera de energia que a cruze e a complete. Transmutação de energias.
Da imagem para o observador e vice-versa. No cérebro forma-se um turbilhão de significados imprevistos. Com alguma sorte e algum mistério dar-se-á "a" Revelação.
É este o jogo que jogamos, é este o resultado do processo.
O processo tem qualquer coisa de caótico.




O processo


clicar sobre as imagens


O processo é meio estranho e tem qualquer coisa de caótico. Trata-se de encontrar uma disposição para um número de desenhos que se pretende ímpar (de momento serão 33). Fileiras em número ímpar, desenhos em número ímpar, não é por nada de especial. Acho que será, muito simplesmente, mania. Coisa herdada do professor de Estética, nada de mais.
Um dia a coisa parece resolvida mas depois surge outro desenho para encaixar e o conjunto engorda, o número acrescenta-se, lá volta tudo para próximo do início.
O processo é estranho e tem qualquer coisa de caótico. Trata-se de encontrar uma ordem que estruture a aparente desordem. Uma sequência de (pelo menos) 33 desenhos que acabam por formar uma única imagem. Barroca, excessiva, românica, vá-se lá saber. Uma confusa narrativa repleta de significados escorregadios como enguias gordas e lustrosas. Ainda agora pensei ter compreendido algo de especial. As coisas tiveram, por momentos, um sentido inesperado, total, preencheram-me sem querer. Mas logo percebi um furo no sistema, um buraco indisciplinado capaz de deixar escoar aquilo, rapidamente, o sentido das coisas a fugir, a perder-se. Adeus. Até amanhã.
Pode ser que a coisa volte.
Ou não.
O processo tem qualquer coisa de caótico...

sábado, outubro 14, 2006

Desenhar


Desenhos em progresso. Canto superior esquerdo Afastar a Morte; ao centro Hapyness; à direita uma coisa qualquer que, apesar de ser algo ainda não é nada!

Gostava de recuperar o power que tive em tempos e desenhar outra vez como se respirasse ou falasse com a vizinha do lado sobre o estado do tempo. Mas essas maravilhas criativas guarda-as a juventude e a alegria da ignorância.
Recordo com dificuldade noites inteiras a exercitar o pincel e a tinta-da-China, horas e horas a fio, dezenas de desenhos a sairem, sabe deus de onde, como uma manifestação de protesto a subir as avenidas, gritando palavras de ordem que eram manchas e conversas inflamadas que eram linhas ou coisa que o valha.
Nos dias que correm o processo é bem mais complicado e já não me basta o pincel e a tinta. Preciso de cola e recortes e guache e acrílico e esferográfica e uma espécie de esforço para deixar de ser quem sou e voltar a ser quem fui o que significa que quem desenha, cola e suspira é uma coisa meio estranha perdida algures no tempo e no espaço que, no entanto, continuo a ser eu, só que não sou bem eu.
A vantagem actual é continuar a desenhar pelo absoluto prazer de o fazer tal qual o fazia no passado.
A coisa complicou-se muito por culpa da História da Arte e dos macaquinhos que me vão alugando o sótão. Uma vez a inocência perdida não há forma de a recuperar e, em matéria de criação, não há nada que chegue ao mais puro instinto de uma adolescência tardia vivida na pasmaceira de uma cidade de província de súbito assassinada pela capital do Império e mais a sua excelentíssima Escola de Belas -Artes. Foi aí que aprendi a fingir que sou modesto e onde conheci algumas das melhores pessoas que até hoje me foi permitido conhecer.
A maturidade traz consigo a consciência do Ser o que complica (e de que maneira!) o processo criativo.
É então tempo de compensar o instinto que adormece com a técnica que se desenvolve e cresce como um polvo vivo. O resultado... bom, isso na verdade interessa muito pouco. O mais significativo é continuar a desenhar.
Para afastar a Morte.