Árvore Imunalógica,
acrílico sobre papel de aguarela colado em cartão,
280X180cm nos eixos maiores
O sol, um rio, um chacal, um hipopótamo. Um homem de longa barba e farta cabeleira branca, uma floresta, uma montanha, uma tempestade, uma mulher, um pássaro, um fantasma, ouro, muito ouro, imenso ouro! Um espírito, o mar profundo, o azul do céu, um demónio, o fogo, a água, o ar, a terra, um nome, um nome proibido, um nome impossível de pronunciar; uma nota de banco, um olho desenhado no céu.
Outro homem, filho do primeiro: encarnação; um livro, um livro sagrado, “o” livro: encadernação.
Um som, um sopro, uma ausência. A lua. A tempestade.
Deus é um híbrido, resulta do cruzamento entre a carne humana e o espírito que a anima, o que faz Dele uma ideia.
Deus, seja Ele qual for, seja Ele o que for, Deus, sem nós, não existe. Quando o último Ser Humano perecer, de Deus não restará nem a memória!
Em A Traição das Imagens, Magritte explicou com clareza a distância que vai de um cachimbo a uma coisa pintada. As coisas não deviam confundir-se com a sua representação. Ficámos avisados. Picasso terá dito que o desenho “é uma grande mentira que nos ajuda a compreender melhor a verdade” mas, terá acrescentado, na medida em que formos capazes de a compreender. Ficámos a pensar.
Construir uma visão do mundo em que vivemos depende muito da perspectiva a partir da qual tentamos a sua construção. Seja uma visão mais poética ou mais técnica, mais humana ou artificialmente inteligente, a recolha de informação é essencial para que a coisa possa acontecer. Fica a sensação de que a Verdade é um absoluto inalcançável que faz de nós e do ChatGPT amargas anedotas de gosto duvidoso. Na impossibilidade de sucesso vamos semeando o planeta com as nossas tentativas de o compreender, registar e retratar.
Sabemos que o mundo está povoado de monstruosidades ameaçadoras mas temos dificuldade em evitá-las. Chegamos a deixar-nos seduzir pela sua abjecta lengalenga e, como o Flautista levando crianças e ratazanas em direcção ao precipício, arrebanhados marchamos atrás das bestas com o vazio por destino.
Vindos de Oeste, divisam-se no horizonte os cavaleiros do Apocalipse Chunga. Vêm montados em artefactos tecnológicos, agitam riquezas que seguram nas mãozinhas pequeninas e nas dentuças muito brancas, escorrendo babugem raivosa pelos cantos das fendas que lhes servem de bocas. A Nordeste um aprendiz de feiticeiro imagina-se imortal e tenta afastar a morte bebendo o sangue de povos inteiros. Lá para as bandas do Oriente alinham-se divindades ameaçadores que comandam exércitos de seres muito puros e despidos de pecado. E nós, demónios outrora poderosos, agora velhos e exauridos, aguardamos resignadamente o embate. A guerra não corre de feição mas estamos muito longe de termos sido derrotados.
(O texto que se segue é o texto de apresentação da exposição de desenho que vou inaugurar mais logo às 21 horas na Galeria Imargem, em Almada.)
BRUTESCO
Naquele ano dava eu aulas de História da Arte a uma turma do ensino secundário na Anselmo de Andrade, ali mesmo em baixo, atrás da bomba de gasolina, do outro lado da avenida. Na resposta a uma questão relacionada com os capitéis românicos de certas catedrais e igrejas da Idade Média, uma aluna (lembro-me que foi uma rapariga) respondeu num teste que “a escultura Românica é brutesca”. Ultrapassado o estupor inicial fiquei maravilhado.
Quando desenho sei que penso nos tais relevos românicos, no brutal preto e branco de Muñoz e Sampayo, na voz planante de Lou Reed, nas iluminuras do Apocalipse do Lorvão, na lata incontrolável de Picasso, no delírio grotesco de Bosch, na poesia punk dos Clash, na inventividade camaleónica de Bowie, na escrita de Stanislaw Lem, na aspereza de Paula Rego, nas portas de William Blake, nos corredores obscuros dos Pop Dell’arte, no traço desengonçado de Joan Sfar, na ausência de estilo de Max Ernst, nas manchas de Goya, nos fantasmas de Goya, em Goya…
É na hibridização anárquica de milhentas influências e infindáveis acasos que nascem os meus desenhos. Os meus desenhos são brutescos.
Esta exposição é constituída por desenhos de três séries diferentes: Regresso ao Paraíso, Desenhos Soltos e Desenhos Mortos (todos os de tamanho A3); por 3 ou 4 desenhos de dimensão média e uma pintura a acrílico.
A série Regresso ao Paraíso é constituída por 24 desenhos e foi elaborada entre Maio e Agosto de 2021. Após algum tempo fora de casa, por motivo de obras, regressei podendo dedicar-me novamente ao Desenho. Daí a designação desta série.
A série Desenhos Soltos foi iniciada em Setembro de 2021 e ainda não está fechada. Até à data tem 68 desenhos. Os temas e as técnicas variam muito, conforme os dias e as noites.
A série Desenhos Mortos é constituída por 30 desenhos tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia. Foi iniciada em Março de 2022 e concluída em Junho do mesmo ano. O tema da guerra não desapareceu, faz parte do meu imaginário desde que me lembro, apenas deixou de ser a motivação principal de cada vez que me aproximo da área de trabalho.
Os desenhos de dimensão média têm técnicas e temáticas semelhantes às aplicadas nos restantes. A maior dimensão do suporte permite narrativas mais complexas e jogos formais mais intrincados.
A pintura a acrílico foi realizada durante um período de confinamento.
Os textos foram retirados do Blogue 100 Cabeças e posteriormente adaptados.
Oxalá inventes as tuas histórias e as acrescentes às minhas.
Rui Silvares, Julho/Setembro de 2022
Estou a pensar na exposição de Paula Rego no Museu Picasso de Málaga https://www.museopicassomalaga.org/.../paula-rego-expo-esp uma pequena exposição que funciona como excelente introdução para quem não conheça a Nossa Senhora das Aparições. Paula Rego faleceu entretanto, entre a abertura e o fecho da exposição (no próximo dia 21 de Agosto). Então isto é como uma despedida, é uma nostalgia, é uma oração a deuses eventuais que possam existir e, caso não seja pedir-lhes demais, que possam fazer com que Paula Rego seja recordada enquanto houver gente sobre este mundo.
De repente lembrei-me do meu amigo Eduardo Penteado Lunardelli, uma espécie de Senhor dos Blogues, que viu todos os seus blogues obliterados de um momento para o outro sem que lhe tivesse sido explicado, pelo menos de forma satisfatória, porque razão o encerravam assim, sem aviso prévio.
Isto deixou-me a pensar sobre o que fazer com os dois mil e muitos posts que estão aqui, no 100 Cabeças. Poderei perder esta memória de um momento para o outro? Corro esse risco. Passar tudo para um disco de memória externa? É uma possibilidade mas é tarefa morosa que não me apetece muito levar a cabo.
Graças à minha inegável preguiça correrei o risco de "amnésia bloguista" mas, se levar em linha de conta uma certa capacidade para executar tarefas repetitivas e mais aborrecidas do que contar os feijões de uma lata, poderei ter esperança na realização da ciclópica saga do descarregamento do 100 Cabeças. Valerá a pena? Fazendo fé no poeta dependerá do tamanho da minha alma.
Talvez tenha expectativas demasiado altas em relação a mim, à minha persona artística, ao meu trabalho, talvez seja isso ou o seu contrário. A verdade é que decidir sobre o que expor se revela algo próximo da tortura. Imagino que um curador seja desejável nestas circunstâncias: alguém que decida por nós, alguém que suporte o fardo da decisão. Não seria mal visto, não senhor.
Na minha condição de artista amador não posso aspirar a muito mais do que isto mesmo: responsabilidade e absoluta insegurança absoluta.