Ok, eu não devia meter-me nestas coisas. Na verdade aquilo não é bem para mim e, em última análise, poderia dizer que não fui para ali chamado. Mas, vendo as coisas por um prisma consumista, diria que não é bem assim.
Tudo começou há 4 anos atrás, quando os Arcade Fire fizeram o seu concerto no Super Bock Super Rock que, nesse ano, foi no Parque do Tejo, ou lá como se designa aquele lugar, um sítio razoavelmente decente, com condições de habitabilidade que não envergonhariam o Porquinho Babe. Consultando os arquivos do 1
00 Cabeças encontro
aqui o registo entusiástico que então me mereceu o meu primeiro contacto
live com a banda canadiana.
O ano passado já o festival se desenrolou no local onde agora se mantém, algures para os lados de Sesimbra, num local onde aqui há uns 15 anos atrás (mais coisa menos coisa) fazia piqueniques em famíla com amigos e etc. O ano passado fui lá para ver o Prince (
registo aqui) e não gostei nadinha das condições do recinto. Saí de lá a jurar baixinho nunca mais meter lá os pés.
Jura vã, está bom de ver. Quem iria adivinhar que, na edição deste ano, o cartaz haveria de ter um dia em que surgiriam no mesmo palco e consecutivamente os Portishead e os Arcade Fire!? A perspectiva de assistir a estes concertos apagou por completo tudo o que de mau me tinha levado a jurar a tal jura. E lá fui.
Resumindo. o Super Bock Super Rock é um festival de lixo! Há merda e mijo em doses industriais se bem que, principalmente a merda, devidamente confinados em sanitários móveis de plástico, ora verdes ora cor-de-laranja, mas igualmente pestilentos. Sim, porque o mijo, a partir de uma certa hora, começa a ser mijado por toda a parte pelos elementos do sexo masculino que foram abençoados com a maravilhosa capacidade de mijar em pé.
Depois há o lixo, os copos de plástico, os invólucros das mais variadas comiditas, papéis, garrafas, maços de tabaco, eu sei lá, é difícil nomear toda a sorte de porcaria que parece brotar do solo arenoso... por falar em solo, temos aqui o protagonista, a verdadeira e autêntica vedeta de toda a função: o pó!
O pó está por todo o lado. É omnipotente e omnipresente, uma divindade daquelas que comandam os destinos do inferno. Levanta-se ao menor movimento, eleva-se e insinua-se, penetra-nos, envolve-nos, domina a nossa existência naquele local.
Finalmente, abreviando, falemos um pouco de música. Saltando sobre todas as outras bandas aterremos no momento em que os Arcade Fire irromperam no palco. Tal como há 4 anos atrás as palavras não servem para descrever o que a seguir aconteceu lá em cima e cá em baixo. A multidão apinhava-se com feijão numa lata e cantava como um bando de piratas após um saque magnífico. Esta multidão de feijões piratas levantava uma poeirada apocalíptica enquanto dançava frenéticamente. O pó, sempre o pó!
Mas as emoções estavam longe de se ter esgotado. Quando o concerto acabou, por volta das 2 da manhã, e toda aquela mole humana se movimentou em simultâneo a coisa tornou-se dantesca. Imagina, leitor amigo, aquela manifestação grandiosa da poeirada absoluta.
Mas o pior ainda estava para vir. Sair dali, no carro, foi outra história épica a que te vou poupar. Cheguei a casa para lá das 4 da manhã, cansado, sujo e não tão feliz quanto seria de esperar. Fica a moral desta história: não encurtes a memória, amigo leitor, se um dia viveste momentos verdadeiramente merdosos não o esqueças. Repetir a experiência pode dar-te a sensação de seres mais burro que um jumento.