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domingo, junho 21, 2026

Dia de Verão

     Andava por ali mistério. Faces coradas, olhares constrangidos, frases curtas, quase inaudíveis. Ninguém queria comprometer-se com nada que pudesse vir a acarretar arrependimento posterior. Tudo, todas as coisas perdiam fulgor, pareciam-lhe desbotadas; coisa frágeis, absoluta ausência de estrutura, de coluna vertebral, tudo a pairar, como se a força da gravidade não importasse, como se houvesse uma suspensão temporária das leis de Natureza e das regras de convivência humana. Andava por ali mistério.

    Quis pedir uma cerveja fresca mas nem para isso teve coragem. Ficou calado, concentrou-se na leitura. A tarde havia de ser longa. 

sexta-feira, junho 05, 2026

A colecção

     As canecas não são bem minhas, foram-me oferecidas. É uma situação curiosa. Eu até nem acho graça a esses objectos mas, talvez por ter tantas no armário e nas prateleiras da cozinha, as pessoas que vêm a minha devem ficar a pensar que tenho algum fetiche por canecas. Não tenho.

    Aí estão elas. Tamanhos diversos e decorações variadas; canecas para leite, para chá, para cerveja, para água, sei lá para que mais, canecas, canecas e mais canecas, como um vírus, como uma praga alienígena, vão usurpando o espaço da minha casa com o meu beneplácito. Quantas mais entram mais vêm.

    Olho as canecas com um misto de desprezo e indiferença. Aceito a invasão. Sou um colaboracionista e não um prisioneiro. São coisas diferentes. Talvez um dia me transforme em caneca, mais uma peça desta colecção indesejada.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

terça-feira, abril 28, 2026

Loucura

     Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.

    Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa. 

    "Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois ali especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.

    Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "quando choro, as minhas lágrimas vêm todas sujas de raiva."

    Virei costas e fui à minha vida. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda. 

segunda-feira, abril 06, 2026

Senhor Calmante

     "Não faz mal, não se passa nada, afinal não é assim tão importante". A mão esquerda treme-lhe como se tivesse alguma doença degenerativa mas é tudo nervos. Nem mais, nem menos, sé nervoso miudinho, daquele que nem deixa mazelas no sistema nem nada. "Não faz mal, não é assim tão importante". Afinal de contas o que pode significar mais uma morte no meio de tantas mortes que todos os dias nos anunciam, com aparente satisfação, nos diferentes canais de TV? Nada! "Nadinha de nada", digo-lhe eu ao ouvido com a voz mais aveludada com que sou capaz de atapetar a garganta. "Vais ver que ninguém dá por nada."

    Sou assim mesmo: um gajo fixe e muito cool. É por isso que me chamam tantas vezes quando se trata de acalmar alguém que esteja à beira de cagar o esqueleto. Na maior parte das situações já não há nada a fazer e, por isso mesmo, é mais ou menos pacífico dar a volta ao culpado no sentido de lhe mostrar um lado mais luminoso da questão. Uma perspectiva mais optimista, um vislumbre do que poderia ser o mundo se ele não tivesse feito merda da grossa. Como era este o caso. Grande merdalhona!

    Envolvo-lhe os ombros num abraço caloroso, um abraço que aprendi com o meu pai e pratiquei afincadamente com o meu irmão, a minha mulher e a minha filha; um abraço fixe como o caraças! Isso deixa-o um pouco mais descontraído. O que é bom. A merda está feita, só falta limpá-la para debaixo do tapete. Com a mão livre seguro a minha ponta-e-mola favorita, uma navalha que o meu velho comprou em terras de Espanha quando por lá andou a contrabandear boas vontades. É uma navalha elegante; leve, esguia e consistente.

    Em menos de um daqueles piscar-de-olhos está o problema resolvido. 

terça-feira, março 31, 2026

Ter dono

     A mão pousou sobre a cabeça despenteada do animal. 

    Sentiu o peso da manápula, curvou-se um pouco mais, a língua quase, quase a lamber o chão. A tijoleira. Deixou que o olhar lhe caísse, que lhe escorresse dos olhos para a cor alaranjada da tijoleira e ali ficasse, a alastrar com lentidão como se fosse água derramada, um olhar vazio e inexpressivo como é sempre o olhar dos condenados ou dos doentes de alzheimer. Não se atrevia a levantar os olhos, a encarar o dono daquela mão opressiva e ameaçadora.

    A mão  afagou-lhe a cabeça mas aquela carícia era como um soco. Era uma carícia que apenas exprimia a superioridade de quem a praticava, como acontece com as senhoras caridosas e os mendigos à porta da igreja. O animal não tinha ânimo sequer para odiar, sentia-se derrotado, incapaz de morder, incapaz de fugir, incapaz de ficar. Naquele momento, a morte seria por ele abençoada. E deitou o queixo no chão, a tijoleira era agora como uma planície, o degrau que marcava o início das escadas a linha do horizonte.

    A mão, privada do apoio oferecido pela cabeça do animal, ficou pendente, pensativa, oscilando entre cá e lá. 

    A mão.

sábado, março 28, 2026

Outra espera

     Todas as pessoas andam à procura de uma situação à qual se possam ajustar, um lugar, um grupo, um sonho, e vão fazer tudo o que lhes for possível e lhes parecer necessário para alcançarem os seus objectivos (a rapariga que vai pondo rímel nas pestanas sentada no banco da carruagem do Metro).

    Pequenas situações permitem complexas reflexões - as personagens ora observam, ora encarnam e se tornam pessoas de verdade (embora sejam falsas). Observam, descrevem, participam, mas não podem tomar decisões que alterem o rumo dos acontecimentos. Só "ele" pode tomar essas decisões mas "ele" está ausente e as personagens aguardam pacientemente que "ele" se digne a aparecer.

    "Ele" não veio, não vem, o mais certo é que nunca venha a comparecer naquele espaço iluminado. 

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Fuga à banalidade

    Imaginou o que o dia lhe poderia ainda oferecer e não lhe pareceu que fosse grande coisa. Apesar de o sol romper com gentileza as nuvens pesadonas que lhe haviam ensombrado os dias anteriores, apesar de o vento ter amainado até ao ponto do adormecimento, apesar de as notícias matinais não augurarem nada de terrível nem apocalíptico, ele sentia-se meio vazio, muito mais que meio cheio. Alisou os cabelos que lhe restavam no topo da cabeça e pensou: "Não sou a porra de um copo!" e, de facto, não era a porra de um copo, ainda era um ser humano.

    Desceu as escadas sentindo dores no joelho esquerdo ("uma porra do caraças!"). O eco dos passos ora o perseguia ora se lhe adiantava. A banalidade absoluta de tudo o que o rodeava pareceu apertar-lhe a garganta mas foi no peito que sentiu uma angustiante falta de ar. Apoiou-se na parede, a palma da mão recolheu uma sensação de frio intenso. Não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido tanto frio. As costelas pareciam atrofiar-se a uma velocidade alucinante o que o arrepiou de tal modo que imaginou ser um ouriço cacheiro com os espinhos a crescerem ao contrário. Nada daquilo lhe era familiar. 

    "Que porra me está a acontecer?"

    Cambaleante e aos tropeções desceu um lanço de escadas tacteando o espaço sem encontrar ponto de apoio ou referência alguma que lhe devolvesse um mínimo conforto, uma sombra de familiaridade. Caiu. Estranhamente não sentiu dor, aliás, a queda parecia não ter fim, parecia não ter chão, teve a sensação de cair para cima, em direcção ao céu e o coração a explodir. 

    "Que coisa extraordinária!"

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado durante muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

domingo, outubro 26, 2025

Abandono

     Acorda triste sem saber porquê. Cumpre as rotinas com sinceridade. A tristeza mantém-se, é como se lhe roesse as unhas dos pés. Sentado, mastiga o pão, bebe o café. Tem o olhar fixo na parede em frente. A parede é verde desmaiado. Sente-se fraco. Sente-se ainda mais triste.

    Levanta-se. Apetece-lhe terrivelmente um cigarro mas deixou de fumar há nove meses. Esta constatação traz-lhe  uma ideia estúpida à cabeça. Sente-se pior. A tristeza matinal vai-se transformando em auto-comiseração. O que fazer? Continuar a cumprir religiosamente a rotina não lhe parece ser suficiente. Não há salvação possível.

    Volta-se para a estrada. Os carros passam deslocando-se com velocidade comedida. Fica assim durante algum tempo: estático, absorto, fantasmático. Por fim resolve dar um passo em frente. Abandona o local.

quinta-feira, outubro 16, 2025

O performer

     Foi doloroso mas a Arte assim o exigia. O prego penetrou-lhe a palma da mão esquerda. Ele próprio o martelou. A mão direita ainda hesitou um pouco no momento de exercer a vontade que a animava mas uma vez atirado o martelo sobre a cabeça do prego já nada mais fazia sentido. O mundo parou.

    A dor lancinante disparou em todas as direcções no interior do seu corpo. Aquilo doeu e continuou a doer. Mas artista que se preza não desiste perante as adversidades, a Arte está acima de tudo, como o Deus de Bolsonaro. Ali permaneceu, pregado, um fio de sangue a escorrer parede abaixo, o coração a bater-lhe a mil à hora, a cabeça a rodar, a zunir, confuso que estava.

    A pequena multidão que acorrera à chamada pareceu estupidificada pela violência da performance. Num primeiro momento, sem reacção, congelou mas logo estalou num aplauso magnífico. O Artista sentiu o aplauso, comoveu-se, uma lágrima correu, fez uma pequena vénia dificultada pela posição em se encontrava, pregado à parede. A Arte é Vida. E vice-versa.

terça-feira, outubro 07, 2025

Encontrar desculpas

    Ia ter que encontrar uma explicação para justificar a sua atitude. Não seria tarefa fácil. Além de uma história plausível iria ter de encontrar o tom de voz adequado, a pose, o olhar... nada poderia ser deixado ao acaso. O acaso nem sempre resolve as coisas como seria de esperar, muito menos as resolve da melhor maneira. Tem dias!

    Por muito que puxasse pela cabeça não lhe ocorreu nenhuma ideia genial. Ali estava, sentado, transpirando como um cavalo. Contorcia os dedos das mãos com tanta força que, diz quem viu, parecia não ser capaz de os desembaraçar assim que pudesse sossegar um pouco. Tornar-se-ia um ser estranho, caso isso acontecesse, os dedos entrelaçados de tal maneira que não conseguisse separá-los nunca mais. No caso de tal desgraça sempre poderia tornar-se curiosidade numa feira de aberrações que algum jovem empresário pudesse, um dia, vir a criar. Uma vida inteira a tentar desfazer-se.

    Não conseguiria pedir desculpas se primeiro não fosse capaz de as encontrar. Encontrar, até, as supostas culpas, eis algo que lhe estava a ser penoso. Sentia-se confuso, sentia-se perdido: "já nem sei bem o que sou..." rodopiou os olhos e continuou: "... sei perfeitamente quem sou, até consigo recordar o meu código postal, mas não faço a mínima ideia daquilo que sou." Fez uma pausa e concluiu: "Não tenho a certeza dos meus limites". Fosga-se!

    Pensamentos deste calibre não contribuíram nada para a saúde mental do indivíduo.   

segunda-feira, setembro 29, 2025

Distopia

         Sentiu vontade de reclamar mas o bom senso recomendava silêncio. A mulher sentada ao seu lado mantinha os olhos baixos, parecia uma estátua. O negro no banco à sua frente olhava fixamente a janela do comboio subterrâneo, quando muito via-se a si próprio. Reflectia. O comboio gritava e rugia caverna fora na sua barulheira habitual. Rodou discretamente os olhos tentando perceber as reacções dos seus companheiros de viagem. Todos os que conseguiu ver pareciam evitar mostrar a mínima emoção. O ambiente pesava como chumbo.

        Quando as portas se abriram, na estação seguinte, levantou-se e saiu rapidamente para a plataforma. O ar estava quente, pairava um cheiro metálico. A carruagem fechou-se e o comboio, insensível, arrancou de novo. Chiou e guinchou, ganhava balanço para mergulhar de novo na escuridão do túnel. Levava dentro dele toda aquela dor, a injustiça, a crueldade, o mal. Sentiu-se aliviado por não ter de continuar a assistir ao terrível espectáculo. Sentou-se. As pernas tremiam-lhe demasiado para que pudesse continuar a caminhar.

     

quarta-feira, setembro 24, 2025

Um momento

     Talvez não tivesse tomado a melhor opção. Talvez pudesse ter evitado aquilo. Talvez, talvez, talvez. Talvez fosse estúpido estar agora a lamentar-se. Deus ofereceu-lhe aquele coração de manteiga e ele não pôde rejeitá-lo. É o que é, o que sempre foi: um filho da mãe sensível como um Ursinho Carinhoso. 

    Soube naquele momento que havia de carregar aquela cruz para o resto da vida.

    Mirou o sangue na sua mão esquerda. Sentiu uma apatia tão grande ...! Era como se tivesse sido transformado em montanha, como se agora fosse a porra do cabrão do Adamastor. Precisava de pisgar-se dali para fora mas sentia as botas pregadas ao chão; não conseguia tirar os olhos da sua mão esquerda. Veio-lhe à memória a canção de Nick Cave, Red Right Hand, o que lhe provocou uma dolorosa convulsão na barriga, uma espécie de riso violentamente abafado pela mágoa. A mão vermelha era, afinal, a esquerda. 

    Pela janela entrava o canto de um pássaro e o ar estava fresco. Aquela podia ter sido uma manhã tranquila, um Domingo igual a outros. Mas não, tudo acontecera de forma inesperada e agora ali estava ele meio aparvalhado, a mão esquerda pingando sangue e uma tristeza tão grande no peito que parecia ter dentro uma ratazana ávida de liberdade. 

quarta-feira, setembro 10, 2025

A manada

     Tacatum, tacatum, tacatum, uma manada de filhos-da-puta disparada avenida abaixo leva tudo à frente: árvores, viaturas, crianças, velhinhas, animais de estimação, nada escapa ao galope desenfreado da manada. Tacatum, tacatum, tacatum. Um tipo de boné e capote alentejano avança destemido em direcção ao centro da avenida e levanta um braço. Tacatum, tacatum, a manada não parece abrandar (não abranda de facto, antes ganha mais e mais balanço) mas o compadre não arreda bota: ali está, qual estátua neorrealista, braço erguido e olhar confiante, um leve sorriso a desenhar-se-lhe num dos cantos da boca, ah valente! Tacatum, tacatum, tacatum, nenhum dos filhos-da-puta se acerca a menos de 10 centímetros do nosso herói, passam por ele em correria como um rio se afasta respeitoso ao encontrar ilhota que lhe faça frente. É um milagre? Não, é uma cambada de filhos-da-puta na qual, apesar de investirem em manada, não há um único que tenha tomates para experimentar atropelar o compadre alentejano. Se algum o fizesse havia de o deixar todo partido, estendido no asfalto a sangrar e a dizer mal da vida. Como se fosse um forcado azarado. Tacatum, tacatum, tacatum, lá vão eles, desenfreados em direcção a um futuro que é só seu.

domingo, setembro 07, 2025

Ãoão

     Se por acaso tivesse uma pedra no bolso havia de resolver a questão com rapidez e deselegância. Uma calhoada bem assestada ali mesmo, no meiínho daquele par de cornos, e seria vê-lo a rodopiar sobre uma pata, ao redor de uma perna e depois a despencar com majestade, como se fora uma saca de merda, a despencar em cheio na calçada: catrapunfas! Já foste!

    Se por acaso fosse um pouco mais moreno (teria de ser mesmo muito mais do que sou) ninguém diria que vim do Norte, todos pensariam que era do Sul que eu era. Mas não. Fui presenteado com uma pele que parece lavada com lixívia, sardas como se fosse cagado das moscas e um cabelo que não se percebe que raio de cor ele tem. Logo sou celta, nunca mouro, sou judeu, nunca cigano. Verdade, verdadinha não me sinto ser nada disso nem sinto ser aquilo que não sou. Sinto-me muito eu. É quanto basta.

    Se por acaso tivesse um animal de estimação dificilmente seria um gato e nunca, mas mesmo nunca, poderia ser a porra de uma serpente. Gosto muito de cães. Talvez até gostasse de ser um cão. Não sei, não tenho bem a certeza. Os cães são fixes.

terça-feira, agosto 26, 2025

Sono

     As coisas pareciam-lhe estragadas, como se a vida tivesse ultrapassado um prazo de validade, tal qual as ervilhas enlatadas ou os iogurtes. O próprio acto de respirar o incomodava como se não fosse natural. Estava demasiado consciente. 

    Já tinha compreendido uma verdade básica havia bastante tempo: que a consciência é uma arma de auto-destruição demolidora. Descodificar com exactidão os mais ínfimos sinais emanados pelo mundo que nos rodeia leva qualquer ser humano às portas da loucura mais rapidamente do que arde um fósforo. Talvez por isso seja dos pobres de espírito o reino dos céus.

    Virou-se para o outro lado ajeitando a cabeça na almofada. Esperava o sono pois sabia que quando ele viesse seria como se morresse. A noite levá-lo-ia. Estaria de regresso pela manhã, talvez revigorado, talvez esquecido, talvez livre de pensamentos deprimentes.

sábado, agosto 09, 2025

Babel (texto corrido, escrito à primeira e sem revisão, provavelmente uma xaropada)

    Podíamos ter sido tanta coisa que não fomos! Mas acho que isso não retira nem um bocadinho à grandeza dos nossos actos. É uma grandeza grandiosa, uma grandiosidade construída sobre a força da vontade que temos quando a coisa arde dentro de nós e não sabemos muito bem como lidar com ela. E essa força empurra-nos em todas as direcções e nós vamos, deixamo-nos ir porque isso é bom e temos a sensação de estar a fazer qualquer coisa que é fixe. E fazemos. E depois esquecemos que fizemos aquilo e damos por nós já a fazer uma outra coisa. E vivemos assim, fazemos dessa construção o nosso modo de vida, trabalhamos nas fundações da Torre de Babel sem sabermos que estamos precisamente ali, na base de todas as coisas que hão-de um dia acontecer.

    Quando olho para trás tenho, por vezes, esta sensação de grandeza, de plenitude, quase me sinto realizado. Mas logo me assalta o homenzinho cristão que habita algures entre as minhas orelhas e vem bichanar-me aos ouvidos palavras sensatas e absolutamente equilibradas que me mostram como sou insignificante e não valho nem a ponta de um chavelho do diabo mais escanzelado do inferno. E eu penso "quero que te fodas, eu fiz coisas, caraças!" E regresso ao meu sonho e sou outra vez um operário a martelar calhaus do tamanho de autocarros e percebo perfeitamente tudo o que dizem os outros gajos e as outras gajas que andam por ali a cirandar, a cumprir o plano de um arquitecto que nunca vimos, não fazemos a mínima ideia de quem seja, mas acreditamos piamente no plano que elaborou para a construção da puta da torre. Arriba!

    A memória do dilúvio corrói a mente de todos, é um pesadelo que nos tira o sono e nos mantém a trabalhar mais de 24 horas todos os dias que deus ainda não arredondou bem esta coisa da lua e do sol e os horários são coisas mais complexas do que deviam. Os dias ainda não estão bem acabados e a torre vai por aí acima que é uma beleza de se ver. Cansados? Sim, mas orgulhosos da obra que vamos realizando. Quanto mais longe estivermos da terra mais seguros nos sentimos que este deus é muito fixe, é muito fixe mas mete um medo do caraças! O gajo é meio descompensado e o pessoal já não confia nele como confiava. Vamos muito mais pelo arquitecto que nos mostra planos claros e não parece zangar-se quando fazemos merda ou preguiçamos um bocadito.

    Podíamos ter sido artistas contemporâneos no século XX, poetas no século XIX, construtores de catedrais góticas, pintores no Renascimento, curadores de arte no século XXI, podíamos ter sido tanta coisa que não fomos. Mas andámos por lá, na Torre de Babel até deus se chatear por não ter percebido nada. Por ter imaginado que queríamos aproximar-nos da morada dele! Fogo! Nós queríamos era ficar longe das águas caso caísse outro dilúvio ou viesse um tsunami que varresse tudo. E lá veio a confusão das línguas e a Torre ficou assim mesmo, inacabada. Ainda assim um espectáculo, um regalo para a  vista.

    Hoje falo português, um pouco de francês e inglês. Arranho espanhol e é tudo.