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sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro abandonado à beira do passeio. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.

segunda-feira, março 20, 2017

Crocodile Bambi (4)

Ele sentou-se primeiro... ela sentou-se. Ao balcão. O lugar estava imundo. Cheirava a mijo que tresandava, aquele cheiro acre que nos rasteja pelas narinas como se tivesse patas peludas, o cheiro a subir-nos em direcção ao cérebro como um insecto rastejante. Já me tinha esquecido que existem pivetes assim. Ele... ela, atirou-me aquele olhar tipo facada mortal, tipo a Casca a endrominar o Mogli, o hipnotizador e o basbaque. Lá fui, depositar o cu no banco alto e seboso ao lado do Zeca Punk, "Chama-me Camomila", pedira ele há coisa de um quarto de hora. Ordenara ela. Sentei-me ao lado da Camomila, portanto. Não me atrevi a perguntar-lhe de forma directa qual o seu género, optei por uma pergunta tão parva que ainda estava a desfazê-la e já me apercebia da imbecilidade da coisa "Ainda mijas em pé?". Ela pousou a sua mão ossuda sobre a minha. Senti um frio medonho a enrolar-se-me na espinha; não que a mão dela estivesse demasiado fria, aquela incómoda sensação atacou-me na forma de um flash, uma recordação súbita que se me espetou na memória com toda a força "Ó filho, gostas do que estás a ver, dou-te tusa?". E sorriu daquela forma assustadora. Fui salvo pelo empregado que arrotou lá detrás do balcão "O que é que vai ser?".
Começámos com um simples submarino, uma caneca de cerveja com um cálice de bagaço mergulhado, passámos às 1920, mais uns submarinos, mais umas cervejas e novas aguardentes velhas ou nem por isso. Aterrámos numa sucessão de cálices de Licor Beirão e lambretas para ajudarem a coisa a deslizar mais depressa.
A conversa foi errática, nada de muito pessoal, nada de referências ao passado, muito menos sobre perspectivas de futuro. Falámos de coisas que estavam à nossa volta: o espelho por trás das filas de garrafas, das garrafas, do poster de uma rapariga com mamas descomunais reclinada sobre o capot de um carro vermelho e provocante no entender de Camomila (Camomila... que nome mais ridículo!). Falámos com o Sr. Tó, o empregado-patrão que nos ia servindo os copos com as suas mãos como presuntos de onde saíam salsichas em forma de dedos com unhas compridas debruadas a negro; fomos falando, falando, falando, até que comecei a sentir dificuldade em produzir palavras com todas as sílabas, até que comecei a enrolar a língua, a sentir-me descontraído, a gozar da libertação alcoólica. Se tivesse caído do alto do meu banco decerto teria voado.
Numa viagem ao urinol tive um pequeno lampejo de lucidez "Como vou safar-me desta merda?", mas foi sol de pouca dura. Já nem o fedor me incomodava. Mijei abundantemente e regressei ao meu lugar. Zé Camomila não estava onde a deixara. "45 euros." informou o Sr. Tó. Olhei em volta e nem sombra do meu anfitrião. "Não tenho assim tanto dinheiro comigo, aceita multibanco?" O homem olhou-me como se me tivesse transformado de súbito numa barata gigante, "Esta a armar-se em engraçado comigo?" Não, não estava a armar-me em engraçado, antes pelo contrário, cambaleei, estava até a ser muito honesto e sincero, apoiei-me numa mesa e senti os dedos a colarem-se ao tampo, assegurei a minha honestidade, a pureza das minhas intenções mas, nada feito, o Sr. Tó queria dinheiro vivo e queria-o já. "Imediatamente!" disse ele. Comecei a entrar em pânico. O homem saiu de trás do balcão segurando uma tranca ameaçadora. Não percebi se ele queria de facto o dinheiro, se queria apenas um pretexto para me rachar a cabeça de alto a baixo. As pernas tremeram-me e colei a mão à mesa com mais força. Foi então que tudo se precipitou, como acontece nos filmes.

domingo, março 19, 2017

Crocodile Bambi (3)

A memória não é de fiar. A minha memória é um buraco. Faltam-me os momentos, sobram as sensações. Tenho guardada uma vertigem, um incómodo, uma torrente de medo a abrir caminho, imparável, a atingir-me, a rebentar-me no peito como uma bomba de excrementos.O Zeca Punk era um gajo mau que tinha prazer em criar situações embaraçosas, armadilhas emocionais que montava com minúcia de relojoeiro onde apanhava patinhos como eu. Fazia aquilo por puro divertimento. Não ganhava nem perdia nada quando me deixava imerso em merda e vergonha e embaraço. Recordo vagamente a sua cara de fuínha a fazer caretas horripilantes de divertimento. Alguns gajos saíram magoados; houve ossos partidos, feridas abertas e sangue em abundância. Nunca foi o meu caso. Apenas recordo vergonha e embaraço. Talvez ele gostasse de mim. Sempre que aparecia com uma ganza ou uma garrafa de cerveja no início da noite, eu já sabia que aquilo iria acabar mal mas não havia como recusar embarcar na aventura. Seria indelicado da minha parte tentar esquivar-me e não convinha nada ser indelicado com aquele filho da puta. Acho que não convinha, não tenho bem a certeza, porque nunca me recusei a ir por ali fora, noite dentro, à procura do medo, a sentir o perigo a formar-se à nossa volta como uma onda de calor, como um nevoeiro, como uma cidade inteira sem portas nem janelas.

segunda-feira, março 13, 2017

Crocodile Bambi (2)

Era um espectáculo digno de ser visto. O homem cambaleava com o corpo tão inclinado para trás que poderia acreditar-se possuir poderes excepcionais capazes de o manter em pé, por assim dizer. Já a mulher, magra, desconchavada, estranha sob qualquer ângulo que experimentássemos para a olhar, a mulher seguia impante, a matraquear o cimento do pontão com os saltos agudos dos sapatos altos, a rir-se, a rir-se, a rir-se com malícia. Pelo menos era o que me parecia, visto daqui de onde estou, de onde estava, visto deste lugar exacto que é um lugar que, como bem sabes, não existe de facto. Eu próprio não sou bem aquilo que possa considerar-se um ser vivo. Seja como for estou aqui, a falar contigo, a expor o meu ponto de vista. O meu testemunho não terá valor jurídico mas é cem por cento honesto. Mil por cento honesto! Sabes bem que podes confiar em mim.

sábado, março 11, 2017

Crocodile Bambi (1)



                 Crocodile Bambi

Pessoas passavam carregando as almas como se levassem sacos de batatas. O túnel de metropolitano até nem estava infernal mas havia qualquer coisa de estupidamente monótono naquele entardecer, lá debaixo da terra. Levantei a testa e reparei num vulto que se movia com rapidez e impaciência na escada inclinada, despachando os degraus furiosamente. Para ser sincero, o que me chamou a atenção, assim à distância de uma escadaria (com aquela inclinação absurda), foi a farta cabeleira que esvoaçava agarrada à silhueta que ali vinha. Parei. O vulto cabeludo era escuro e leve, rápido na descida. A cada passo ganhava mais luz e mais definição, até que se transformou numa mulher magra: o queixo afiado ligado ao pescoço como um fio de esparguete. Um arrepio incómodo percorreu-me a nuca. Havia algo de familiar naquela mulher cada vez mais feia, aquela mulher já suficientemente próxima para meter medo, os gestos bruscos, o esqueleto maldoso a ameaçar desabamento lá do alto dos sapatos. Quando aquela fealdade se revelou em todo o seu esplendor, fingi não reparar. Baixei os olhos sem ver o chão. Fui seguindo o movimento dela, tac-tac-tac-tac-tac, por ali fora, já não me lembro se com os olhos se com os ouvidos.
                De súbito o sapateado estacou. Sentia a mulher ali especada. Atrevi-me a levantar a cabeça com lentidão; lá estava ela, dois olhos verdes e baços cravados nos meus, ao ponto de doer. “Porra”, decerto pensei qualquer coisa assim, “ora porra, o que me quer esta gaja?” ou talvez tenha pensado: “o que me quer esta puta de merda?”; sim, inclino-me mais para “esta puta de merda”. Definitivamente: “esta puta de merda”! – foi o que pensei naquele terrível momento de revelação.
Ela tinha um sorriso malvado, logo abaixo do nariz, a rasgar-lhe o focinho como uma navalhada. Um bâton vermelho esbodegava-lhe ainda mais a figura: desastre complexo. Notei uma sombra de barba por fazer, aquela gaja era um gajo. Feio. Um gajo patético. Olheiras profundas como fossas e… “espera lá, eu conheço-te!” Eu sei quem tu és, meu grande cara de cu! “Olha o betinho!” O gajo falava como se cuspisse as palavras. “Há quanto tempo não te via, betinho do caralho.” Cuspia as palavras que lhe iam ficando presas nos lábios. Continuava a ter aquela boca nojenta, sempre brilhante e babosa. Dentro da boca dele tudo parecia em carne viva, uma boca que parecia um bicho esfolado ou uma ave recém-nascida. Era como se dentro dele habitasse a Dor e ele não se importasse com isso, antes pelo contrário. “O que tens feito? Tás muito bonitinho!” Nem um gesto na minha direcção. Um abraço? Um aperto de mão? Não querias mais nada; com o Zeca Punk nunca houvera lugar para o mínimo gesto de conforto, a mínima afabilidade, nunca houve cá toques, o contacto físico com este gajo sempre fora algo perigoso. Tá quieto!
Eu não conseguia dizer nada. O Zeca era agora uma mulher. Fora um gajo horripilante, agressivo, intimidante. À minha frente estava uma mulher assustadora, fria e repulsiva. Coçou o lugar dos tomates. Parecia estar a medir-me qualquer coisa (a alma, talvez?), parecia avaliar possibilidades, situações impossíveis que apenas ele era capaz de vislumbrar. Sempre fora um tipo estranho, difícil de compreender. “Anda, vamos beber um copo.” - disse-me ele… ela. Disse-o num tom que reconheci de imediato. Eu havia esquecido aquela sensação, perdera-a algures no meu caminho para a idade adulta, aquela sensação de impotência quando o Zeca Punk propunha alguma actividade lúdica; ele falava e o pessoal obedecia sem pensar muito naquilo que estava a aceitar fazer. “Onde vamos?” perguntei, a sentir regressar a adolescência. Foi assim que começou.

sexta-feira, abril 29, 2016

Matina

                Matina
Temos necessidade de defender com unhas e dentes os nossos mais pequeninos. O papão multiplica-se, como hidra de corpos malévolos, leva-os o vento e os espalha pelos quatro cantos da realidade e da memória virtual. As crianças ficam melhor quando restam em casa, protegidas das bestas que por aí andam à solta, livres e alegremente largadas neste mundo e no outro; as bestas estão sempre prontas a fincar o dente em algum pedaço de carne mais tenrinha. São gulosas, as putas. As filhas-da-puta das bestas nunca ficam de barriga cheia: devoram tudo o que apanham a jeito e, pelo jeito que levam, logo digerem o que antes paparam e cagam de imediato o que ainda há pouco digeriram; vivem num estado de infinita caganeira, o que é incomodativo e contribui fortemente para as tornar ainda piores do que más. Assim cresce uma besta, filha e mãe do papão, e este mundo fica mais perigoso, mais parecido com o outro, o ar que respiramos acordados a misturar-se no que expiramos quando adormecidos e esquecidos das agruras da coisa. Os nossos pequeninos precisam de nós. Estejamos atentos.
                O menino deixava-se ir no colinho do pai que tinha cara de bruto e semblante sombrio, vincado de rugas ou simplesmente indisposto pelo facto de ser manhãzinha tão cedo. O sol, aquela hora, fazia ainda alguma falta. Mais tarde haveria de sobrar em calor e suor. A verdade é que nunca estamos satisfeitos com a meteorologia ou, então, precisamos apenas de um pretexto para não emudecermos quando encontramos outro ser vivo semelhante a nós e ficamos face a face, como o boi e o palácio. A mãe ia mais atrás, a fazer sons carinhosos e a dizer coisinhas fofas em direcção à cabecinha do menino que se encostava de forma comovente ao ombro bruto do pai com rugas e preocupação antecipada pelo suor que o sol haveria de multiplicar mais tarde, quando a manhã avançasse sobre as montanhas e o Monte Olimpo.
O pai do menino não dormira descansado. Talvez por isso levasse aquela cara de cú a postar bosta da grossa. Sonhara com o papão a fazer mal à criança. Um daqueles sonhos lixados nos quais sentimos tudo e não vemos quase nada. Um sonho daqueles onde os nossos medos são apenas sombras gelatinosas que teimam em não fazer sentido. A única imagem sólida fora a do filho a chorar, a berrar, a espernear, a gritar como um cabrito desmamado, o filho envolto em sombras, ameaçado por nuvens informes, como se aquele mundo fosse o interior de uma garrafa translúcida repleto de fumo soprado por um deus drogado com uma droga impossível de conceber por um simples mortal; e as drogas já são o que são!
 O homem despertara profundamente incomodado. Acordara antes que a ameaça se tivesse concretizado, sem perceber que ameaça era aquela, sem saber se preferia dormir ou mergulhar de novo na realidade; ele não se apercebia de que a sua dúvida era se ao acordar adormecia e ao adormecer acordava, ou talvez fosse o contrário e estivesse tudo de pernas para o ar. Estas coisas podem contribuir seriamente para a perda de juízo, caso não sejamos capazes de compreender que raio de dúvida nos mordisca a sanidade mental, como rato a roer pacientemente as folhas de uma enciclopédia, ao longo de anos. Tal como o rato não fica mais inteligente por comer páginas de conhecimento, também a loucura não fica igual a nós por nos devorar a imaginação e as ideias mas é assim que nós ficamos loucos. O homem acordou violentamente depositado na cama por uma onda de pesadelo monstruosa, o corpo torcido, encharcado em suor. Os lençóis empapados mostravam-lhe como tinha sido longa a árdua luta, Camões a salvar a sua obra, Ulisses amarrado ao mastro, exemplos pequeninos quando comparados com o que o homem havia acabado de viver no outro mundo.
O menino não parecia particularmente seguro de si. Talvez aquela expressão um tanto desligada, um pouquinho estúpida, até, talvez aquela fosse a cara de todos os dias do menino ou apenas a cara que o menino costumava ter pela manhãzinha, impossível afirmar o que quer que seja com segurança de doutor catedrático. A cabecinha encostada, as sobrancelhazinhas arqueadas, a boquinha húmida e um fiozinho de baba que continuava a ligar o menino ao sonho de que fora arrancado pela mão suave da mãe. O menino não tinha ainda desenvolvido percepção exacta (quem a desenvolveu?) que lhe permitisse distinguir este mundo do outro.
O pai abriu a porta do carro. A mãe fez mais uma festinha, repenicou outro beijinho. O menino a viajar na confusa sensação de que os monstros estão por todo o lado. Mais um abracinho, mais uma ternurice, “adeus meu tesouro, até mais logo”, os bracinhos esticados num gesto de desespero infantil. O beijo seco dos pais pôs fim ao momento que viviam, selado pelo bater da porta. O pai, ao volante, haveria de recordar uma última vez toda a confusão que enforma o mundo a que chamamos “realidade”. Arrancou a passo de caracol, levando o filho preso no banco de trás, para segurança geral. A mãe ficou em terra, a ver partir os seus amores, docemente enleada por um ser gigantesco que não via mas que sabia estar ali, com ela, a dizer adeus, a secar-lhe a garganta, tudo amalgamado, pernas, pelos, ossos, sangue, verdade e mentira feitas mundo, o mundo todo a que ela pertencia e continua a pertencer.

O carro desapareceu na curva. A mulher voltou para trás. O dia prosseguiu até agora.

quarta-feira, março 18, 2015

A ferrugem

Andam por aí a dizer que isto ou aquilo não passam de contos para crianças. Querem dizer que são coisas parvas, coisas estúpidas, coisas que não passam de patranhas. Ilusões, enredos enganosos.

Pois, então é assim que tratamos as nossas crianças? As histórias que lhes contamos não têm outra intenção ou função que não seja menorizá-las (a elas que, por definição, já são menores)?

Na verdade, à medida que o tempo passa, as histórias infantis parecem tender para a imbecilidade graças à paranóia das pedagogias que nascem de posturas politicamente correctas. Mas as crianças não são as únicas vítimas desta plastificação da inteligência humana, os adultos também levam pela medida grossa.

Tal como nos contos infantis os lobos maus e as bruxas canibais parecem estar disfarçados de outras coisas para não traumatizar os mais sensíveis, também nos meios de comunicação social a bicharada mais peluda e de dentuça afiada, com hálito podre e merdoso, nos aparece em pose angelical e com discurso melífluo.

Andamos a pintar de fresco uma sociedade ferrugenta. Pintamos por cima sem limpar primeiro. A ferrugem continua lá, por baixo, a corroer, a corroer, a corroer...

terça-feira, março 03, 2015

Democracia

Alguma vez terá existido Democracia?

Se existiu deixou de existir; é passado, dificilmente será futuro outra vez. Governantes e governados deixaram de ter tempo para pensar nesse assunto.

Andamos todos demasiado ocupados a tentar ganhar dinheiro e a discutir como se pode arranjar mais dinheiro e quem deve dinheiro a quem e qual a melhor forma de cobrar a dívida e a menos ruinosa de pagar os juros agiotas que quem empresta dinheiro sempre cobra.

A Democracia vende-se e compra-se, troca-se, empresta-se e negoceia-se.

A Democracia é um franchise de uma marca made in USA que comprou os direitos de representação à Europa ali por volta dos tempos do pós 2ª guerra. A Democracia é fabricada na China por operários que trabalham 20 horas num dia e recebem uma tigela de arroz em troca do seu trabalho.

sexta-feira, julho 01, 2011

Pequeno conto fantasma

Havia dias em que aquela sensação se instalava. Era um apertozinho no lugar onde deveria estar o coração. Era uma coisa tão leve, tão discreta que, não fora a doçura do mal-estar que provocava, poderia passar despercebida mesmo para aquele que, inadvertidamente, era o seu dono.

Quando aquela coisa dava sinal, ele lembrava-se que apenas a tinha esquecido. A coisinha decerto sempre lá estivera, escondida ou a preguiçar, isso pouco significado tinha neste caso. Como a sensação de desconforto não ultrapassava a discreta força de uma brisa interior ele nunca se inquietava, era coisa de pouca importância. Mas, naquela dia, naquela visita, havia qualquer coisa ligeiramente diferente. Uma diferença mínima que, como iremos compreender daqui a nada, acabaria por se revelar determinante.

Desta vez, aquela coisinha que noutras ocasiões até lhe trouxera aos lábios sorrisos enternecidos, pareceu-lhe manhosa, foi capaz de o desassossegar. Ainda assim não se sobressaltou de imediato. Não era possível, a coisinha, desta vez, parecia-lhe perigosa! De súbito suspeitou que, na verdade, ela sempre fora um perigo. Que era uma coisa dissimulada, que sempre disfarçara a sua verdadeira força, a sua origem demoníaca e que agora atirava para trás o manto de bonomia que lhe escondera as intenções destruidoras. Finalmente sentia-se capaz de cumprir a sua missão e punha-se assim, a descoberto.

Ele estremeceu amedrontado. Sucumbia à temível revelação. Albergara durante tanto tempo aquele terrível inimigo no aconchego do seu peito, acarinhara um mal maior do que era capaz de imaginar e agora era tarde para o enfrentar. Demasiado tarde.

Compreendeu que aquela ligeira sensação de desconforto se tornava dura e efectiva. Rodava-lhe no peito como uma serra eléctrica capaz de despedaçar o pouco que restava da sua habitual confiança na solidez inabalável do quotidiano. Compreendeu que tudo se iria desmoronar nos próximos instantes e ele nada poderia fazer para impedir a hecatombe. Compreendeu que aquilo que estava a acontecer iria transformar por completo o seu papel neste mundo e no outro. 

Foi nesse instante que se viu a si próprio sentado onde estava, estupefacto. Viu claramente que era dois corpos com uma só e a mesma alma e a inteligência do mundo dividida em duas. Sentiu uma vertigem. Planou. Por momentos sentiu-se a planar para logo regressar a um dos seus dois corpos, continuando dentro do outro, o que estava ali sentado com extrema dificuldade em abarcar a brutalidade do momento. 

O outro ele encostava-se calmamente ao parapeito de uma janela aberta no vazio entre os dois mundos simultâneos que, percebia agora, sempre habitara sem saber. Olhava-se, sentado naquela estúpida cadeira, como se sempre ali tivesse estado, esperando este momento decisivo. Aquela coisinha inquietante sempre habitara o aconchego do seu peito e agora, finalmente, nascia. Nascia no dia e no momento da sua própria morte.

segunda-feira, julho 02, 2007

Automático

Pela manhã desloca-se um autómato. Vai descobrindo tarefas que executa sucessivamente sem uma ordem definida. O autómato não exterioriza hesitação nem entusiasmo perante os diferentes pequenos trabalhos que o amanhecer lhe vai oferecendo. Executa-os, apenas, porque não há outra razão que o anime. Os gestos parecem acontecer longe do corpo mas tudo se encaixa na maior das perfeições. As coisas vão-se completando em cada gesto, ganhando sentido após a conclusão de cada tarefa. Os contornos do universo desenham-se com maior nitidez, está quase tudo no devido lugar.
O autómato dirige-se para o duche. Quando a água jorrar dar-se-à o momento mágico em que se transformará outra vez naquele ser de carne e osso que vai viver o dia no seu lugar. O autómato sorriria se compreendesse "sorriso" quando pensa em Pinóquio e na sua obsessão em ser um menino de verdade. Até adormecer o autómato vai parecer um homem normal. Com os sonhos mais profundos regressará. Até ao duche da manhã seguinte.