segunda-feira, setembro 26, 2022

A quem pertence a guerra?

     A mobilização de tropas na Rússia tem sido notícia por estas bandas. Que os russos estão a dar de frosques fazendo filas imensas nas fronteiras; que as autoridades estão a mobilizar soldados entre a população mais pobre e rural. Parece que ninguém quer combater numa guerra que aparentemente nada diz aos candidatos a soldados. Não sei se é assim, se tudo isto é apenas fruto do nosso desejo de que os russos não queiram sujar as mãos numa guerra que, queremos acreditar, não é deles.

    Do outro lado combatem os corajosos ucranianos, defensores dos valores europeus, heróis valorosos que enfrentam o terrível invasor por amor à pátria. Convém recordar que logo nos primeiros dias de guerra o estado ucraniano impôs uma lei marcial impedindo todos os homens com mais de 18 anos e menos de 60 (o intervalo etário pode não ser este exactamente) de saírem do país. Foram obrigados a ficar e a pegarem em armas. Esta guerra não é deles também mas não têm escolha.

    No fundo, esta guerra não é de ninguém a não ser de Putin e dos seus mais próximos. Pertence ainda aos que "entregam" armas aos exércitos e, talvez, aos estados-maiores dos países beligerantes. Pertence a Zelensky? Enfim, pertencerá a algumas pessoas mas duvido que aquelas que combatem no terreno e vão caindo aqui e ali a sintam como sua.

terça-feira, setembro 20, 2022

Sonhos alheios

Parece evidente que o “sonho americano” não é para todos nós sonharmos. É um sonho apenas ao alcance dos grandes (os grandes da política, da finança, do desporto, do espectáculo, etc.) que nos é servido goela abaixo pelos meios de comunicação de massas. 

 

A forma como nos é impingida esta narrativa mostra que os diferentes canais noticiosos são, afinal, desconcertantemente semelhantes. Fica a sensação de que há uma pretensão mais ou menos velada de nos transformar a todos numa espécie de zombies sociais. Zombies que andam de um lado para o outro à procura de um pedaço de sonho americano para devorarem num ápice e que, logo após o terem consumido, voltam a arrastar o seu desejo sem que se vislumbre outra vontade que não seja a de saciar esta fome inumana. É a discreta transformação dos cidadãos em consumidores.

 

Talvez vá sendo tempo de compreendermos que o “mundo ocidental” está a cantar como um cisne e que as gerações futuras irão habitar um mundo com equilíbrios geopolíticos muito diferentes dos actuais onde, temo bem, o discurso dos Direitos Humanos não terá lugar, nem sequer como ornamento. É o “sonho chinês”?

segunda-feira, setembro 19, 2022

Fábulas

     É como se o Lobo Mau estivesse a encher um balão. Ele a soprar, a soprar, a soprar, o balão a inchar, a inchar, a inchar e nós, incautos cidadãos do mundo, olhamos aquele balão já de um tamanho impossível de imaginar sem antevermos a inevitabilidade do seu rebentamento. Quando isso acontecer, quando o enormérrimo balão estoirar num estrondo capaz de provocar ventos cósmicos, o susto vai ser de tal modo que todos os seres humanos nos borraremos em simultâneo no mundo todo, provocando um tsunami de merda que cobrirá o planeta de uma vez por todas; assim se cumprindo o destino que a Humanidade tem vindo a criar para si própria.

    Somos como os Três Porquinhos. As personalidades das rechonchudas personagens ilustram bem aquilo que somos enquanto espécie: confiantes, preguiçosos, despreocupados mas também atentos, inventivos, diligentes, solidários e implacáveis. Há de tudo, como na farmácia, é a maravilhosa diversidade do Ser Humano. Além dos traços psicológicos, os Porquinhos ilustram também, com uma fidelidade comovente, as características físicas daquilo que somos enquanto gente. A semelhança entre um coração de porco e o de uma pessoa é tão grande que só posso imaginar que as almas das duas espécies sejam igualmente aproximadas.

    Tenho para mim que nunca se deveria ter abandonado o recurso à fábula, por brutal que fosse, enquanto ferramenta educativa. Com moral da história e tudo.

segunda-feira, setembro 12, 2022

Cansaço

     Sinto-me tão cansado. Se pudesse desligar o cérebro era já! Parar de ser, parar de pensar, parar de fazer. Parar. Parar. Ficar parado. Como uma pedra, como uma planta, permanecer apenas. Nada mais.

    Esta sensação é deveras incómoda pois estou a poucos dias de começar um novo ano de trabalho e sinto que precisava mesmo era de descanso. As férias foram extenuantes devido à conjugação de um certo número de acontecimentos imprevistos que fizeram do mês de Agosto um autêntico caldeirão ao lume.

    Sinto-me tão cansado... ouço a canção a ecoar no meu interior

    I am tired, I am weary I could sleep for a thousand years A thousand dreams that would awake me Different colors made of tears

quinta-feira, setembro 08, 2022

Brutesco

            (O texto que se segue é o texto de apresentação da exposição de desenho que vou inaugurar mais logo às 21 horas na Galeria Imargem, em Almada.)

            BRUTESCO

Naquele ano dava eu aulas de História da Arte a uma turma do ensino secundário na Anselmo de Andrade, ali mesmo em baixo, atrás da bomba de gasolina, do outro lado da avenida. Na resposta a uma questão relacionada com os capitéis românicos de certas catedrais e igrejas da Idade Média, uma aluna (lembro-me que foi uma rapariga) respondeu num teste que “a escultura Românica é brutesca”. Ultrapassado o estupor inicial fiquei maravilhado.

Quando desenho sei que penso nos tais relevos românicos, no brutal preto e branco de Muñoz e Sampayo, na voz planante de Lou Reed, nas iluminuras do Apocalipse do Lorvão, na lata incontrolável de Picasso, no delírio grotesco de Bosch, na poesia punk dos Clash, na inventividade camaleónica de Bowie, na escrita de Stanislaw Lem, na aspereza de Paula Rego, nas portas de William Blake, nos corredores obscuros dos Pop Dell’arte, no traço desengonçado de Joan Sfar, na ausência de estilo de Max Ernst, nas manchas de Goya, nos fantasmas de Goya, em Goya…

É na hibridização anárquica de milhentas influências e infindáveis acasos que nascem os meus desenhos. Os meus desenhos são brutescos. 

Esta exposição é constituída por desenhos de três séries diferentes: Regresso ao Paraíso, Desenhos Soltos e Desenhos Mortos (todos os de tamanho A3); por 3 ou 4 desenhos de dimensão média e uma pintura a acrílico.

A série Regresso ao Paraíso é constituída por 24 desenhos e foi elaborada entre Maio e Agosto de 2021. Após algum tempo fora de casa, por motivo de obras, regressei podendo dedicar-me novamente ao Desenho. Daí a designação desta série.

A série Desenhos Soltos foi iniciada em Setembro de 2021 e ainda não está fechada. Até à data tem 68 desenhos. Os temas e as técnicas variam muito, conforme os dias e as noites.

A série Desenhos Mortos é constituída por 30 desenhos tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia. Foi iniciada em Março de 2022 e concluída em Junho do mesmo ano. O tema da guerra não desapareceu, faz parte do meu imaginário desde que me lembro, apenas deixou de ser a motivação principal de cada vez que me aproximo da área de trabalho.

Os desenhos de dimensão média têm técnicas e temáticas semelhantes às aplicadas nos restantes. A maior dimensão do suporte permite narrativas mais complexas e jogos formais mais intrincados.

A pintura a acrílico foi realizada durante um período de confinamento.

Os textos foram retirados do Blogue 100 Cabeças e posteriormente adaptados.

Oxalá inventes as tuas histórias e as acrescentes às minhas.

 

Rui Silvares, Julho/Setembro de 2022

quarta-feira, setembro 07, 2022

Professorar

     Por vezes penso se terei algum problema de integração no universo académico. Os professores (e eu sou um professor) de um modo geral secam-me os miolos de uma forma angustiante. 

    Há os que são chatos porque organizam de tal forma a sua exposição que nada de inesperado poderá interferir na sua verborreia. 

    Há os que chateiam porque adoram ouvir-se falar e, apesar de se exprimirem com correcção e clareza, falam, falam, falam, mas aquilo é como música de elevador. É ruído de fundo. 

    Finalmente há aqueles que conseguem equilibrar conhecimento e sensibilidade ao ponto de criarem momentos de grande eficácia comunicacional. Estes conseguem reconciliar-me com a minha própria classe profissional. Infelizmente por pouco tempo.

    Gostava de voltar a ser a criança que entra numa escola pela primeira vez.

sexta-feira, setembro 02, 2022

Palavreado

     Tantas palavras, tantas palavras... tentar explicar aquilo que nos vai na alma exige um esforço tremendo, exige tantas palavras...

    E se aquilo que pensamos pudesse ser passado para o Outro sem necessidade da escrita ou da fala? Se pensássemos directamente no espírito interlocutor haveria muito menos perda de informação no processo de diálogo. Mas, funcionaria?

    É frequente, quando me cruzo com outras pessoas na rua, imaginar como seria estar dentro do corpo que as leva. Que imagens produzem aqueles olhos no seu cérebro, que pensamentos dançam dentro daquela pessoa iluminada pelo mesmo sol que aquece a minha pele? Escreveu Saramago que "o mundo de cada um é os olhos que tem", formulação de feliz eficácia que explica um pouco este problema que me assalta com tanta frequência.

    Pensar dentro de cabeça alheia seria decerto interessante mas, acredito, seria muito confuso, porventura assustador.

terça-feira, agosto 30, 2022

Reformar o discurso

     Ser professor tem que se lhe diga. Deixando para um plano secundário todas as questões relacionadas com as condições de trabalho, com a remuneração ou a proletarização da classe, deixando tudo isso na gaveta, há um pormenor que me incomoda.

    O pormenor incómodo é que não tenho bem o direito de aterrorizar os meus jovens alunos com as minhas visões do futuro. Nem eu queria estar a criar-lhes macaquinhos no sótão, quanto mais alimentá-los! Mas essa auto-censura deixa-me frequentemente à beira de uma tristeza silenciosa.

    Mais, sendo eu professor sinto que faz parte do meu trabalho incentivar e motivar a criançada. Assim farei durante os próximos anos. Tento não mentir mas omito muita coisa que me passa pelo espírito. É uma situação complicada para quem, como eu, foi educado num ambiente católico onde a mentira é castigada com algum diabo de terceira categoria a dar-nos umas marretadas por toda a eternidade.

    Dentro de alguns anos irei reformar-me. Terei então todo o tempo do mundo para me enxofrar com a macacaria que me arrebenta o juízo.

segunda-feira, agosto 29, 2022

Sol

     Eu quero ser bom, praticar o bem, ser agradável. Mas faço-o por quem? Faço-o por mim, por ti, por qualquer outro? Os que têm a Deus por vigia não hesitam mas os que, como eu, são órfãos de céus e de infernos não sabem a que altar oferecer tanta bondade. Por pequenininha que seja.

    Se houvesse um Deus a importar-se decerto não seria Deus mas outra coisa. Assim, com bondade ou sem bondade, a morte ronda aquilo que se chama humanidade. O mundo prevalecerá, pois é claro. Para ele enquanto houver Sol há esperança.

domingo, agosto 21, 2022

Fanatismos

     O ataque a Salman Rushdie veio recordar-nos os contornos obscuros de ódios irracionais que tínhamos de algum modo esquecido. A violência perpetrada em nome de Deus nunca desaparece, adormece por períodos de tempo mais ou menos longos para irromper subitamente em todo o seu terrível esplendor. O fanatismo religioso é um cancro que corrói a Humanidade. 

       Ficamos chocados com a irracionalidade dos fanáticos do Islão mas, temo bem, eles não estão sós. A República Islâmica do Irão é um anacronismo. Não há discurso dos seus líderes sem que a vontade de Deus seja invocada. Mas, ouvindo os presidentes dos Estados Unidos da América, inimigos figadais dos iranianos, verificamos que também eles cometem o pecado de invocar em vão o nome de Deus. Os americanos chegam mesmo a inscrever a sua subserviência nas notas dólar numa proverbial confusão entre a natureza de diferentes divindades . E como classificar o discurso de Jair Bolsonaro? O fanatismo e os perigos que com ele crescem não são exclusivos dos adoradores de Alá, longe disso.

      Na Europa levámos séculos a separar Deus e o Estado, séculos a cicatrizar as feridas profundas que as guerras religiosas cavaram na nossa sociedade. Agora assistimos com maior ou menor perplexidade ao ressurgimento de movimentos sociais retrógrados apoiados em discursos religiosos que pretendem impor indiscriminadamente uma ordem supostamente desejada por Deus. 

       Este monoteísmo soa a politeísmo, tão vincadas são as diferenças dos adoradores de um e outro deus e se alguma coisa coisa prova a grandeza de Alá é o facto de Salman Rushdie ter sobrevivido ao seu assassino.

sábado, agosto 20, 2022

Um dia de cada vez

         "Viver um dia de cada vez" é uma daquelas frases feitas que dizemos sem pensarmos muito naquilo que nos sai da boca. Dizemo-la toda feita de vazios sem que nos trema a voz nem a alma. Mas hoje acho que, pela primeira vez na vida, compreendi um pouco do significado desta frase. 

domingo, agosto 14, 2022

Adeus Senhora das Aparições

    Estou a pensar na exposição de Paula Rego no Museu Picasso de Málaga https://www.museopicassomalaga.org/.../paula-rego-expo-esp uma pequena exposição que funciona como excelente introdução para quem não conheça a Nossa Senhora das Aparições. Paula Rego faleceu entretanto, entre a abertura e o fecho da exposição (no próximo dia 21 de Agosto). Então isto é como uma despedida, é uma nostalgia, é uma oração a deuses eventuais que possam existir e, caso não seja pedir-lhes demais, que possam fazer com que Paula Rego seja recordada enquanto houver gente sobre este mundo.

     

     

sábado, agosto 13, 2022

Ódio

     É tempo de férias mas os filhos da puta não tiram dias de descanso. O cão sarnento que atacou Salman Rushdie estaria a trabalhar? A recompensa prometida ao animal que tratasse da saúde ao escritor continuava à disposição do assassino? Como podemos (como posso) processar uma selvajaria deste género?

    Isto não é uma guerra, não é retaliação por qualquer tipo de agressão física. Isto é um crime contra a Liberdade de Expressão. Isto é um Auto de Fé, está ao nível de Caim a limpar o sebo a Abel. Se nos tiram a Liberdade de Expressão pouco nos resta por que valha a pena lutar.

    Se fosse crente faria uma oração por Salman, a Alá, a Jeová, ao raio que os parta. Como não sou crente fico apenas com algo vagamente semelhante a ódio alojado no meu coração.

segunda-feira, agosto 08, 2022

Ouvi dizer

     Dizem-nos que não há problema, que vai ficar tudo bem.Tendo a concordar, quando nos formos ficará tudo bem. Para as baleias, para os chimpanzés, para os papagaios e para os leões. Dizem por aí que o capitalismo não tem de ser olhado de soslaio, que sem capitalismo não haverá redenção. Tendo a discordar, o capitalismo é um monstro com 20 fileiras de dentes aguçados e de cada vez que um dente lhe cai dois novos crescem no seu lugar. Dizem por aí que o crescimento económico não é "o" problema. Tendo a discordar.

    

quarta-feira, agosto 03, 2022

A Democracia como empecilho


    Há muito que se fala em pós-democracia, mas o conceito não tem sido muito discutido nem tão difundido quanto seria desejável. Muitos são os que consideram que vivemos em pleno um regime pós-democrático; elegemos os nossos representantes que se ocupam do funcionamento das instituições e vão tomando decisões que permitem ir equilibrando o nosso quotidiano, mas as grandes decisões económicas são tomadas nos ambientes controlados dos conselhos de administração de meia dúzia de grandes empresas. Estas multinacionais formam uma espécie de Comité Central da Internacional Capitalista (IC) e são os seus patrões quem decide o modo como vivemos e como morremos, tendo como único objectivo a satisfação dos interesses dos seus principais accionistas. Os seus negócios são transversais, do armamento aos cereais, dos combustíveis fósseis aos verdes, onde houver dinheiro a ganhar há um comissário da IC a fazer com que a coisa flua.

    Isto pode soar a teoria da conspiração, mas não consigo evitar a sensação de estar a IC promovendo o desmantelamento da Democracia, peça por peça. A coisa está já em avançado estado de degradação nos EUA, no Brasil o ambiente não parece muito melhor, a ascensão nazifascista por toda a Europa é preocupante. Para gáudio da IC as grandes potências em ascensão têm regimes abstrusos: na China uma espécie de capitalismo de estado, na Índia um impossível democracia nacionalista hindu. Populações inteiras com direitos socio laborais mitigados ou mesmo inexistentes são o sonho húmido dos dirigentes da IC, o futuro da Humanidade.

    Assistimos ao declínio final do “século das luzes” após a derrocada dos impérios coloniais. A África terá de continuar à espera da sua hora, quem sabe daqui a mil anos…? Putin terá também direito a constar numa página da História, talvez numa nota de rodapé, lado a lado com Zelensky: os dois Vladimiros siameses que, cada um à sua maneira, deram a machadada final na União Europeia. Eu sei que tudo isto soa a teoria da conspiração, mas não consigo libertar-me da incómoda sensação de que a Democracia se tornou um autêntico empecilho.

domingo, julho 31, 2022

Memória esquecida

     Hoje andei por aqui a vasculhar posts antigos. Porquê? Para quê? Porque vou fazer uma exposição de desenho em Setembro e quero experimentar colocar alguns textos entre os meus desenhos (na foto acima, preparação da coisa). Ter um blogue como este é ter um arquivo imenso de textos escritos ao longo dos anos sobre os temas mais variados. Estou habituado a vir aqui de vez em quando buscar coisas de que necessito. É cómodo e eficaz.

    De repente lembrei-me do meu amigo Eduardo Penteado Lunardelli, uma espécie de Senhor dos Blogues, que viu todos os seus blogues obliterados de um momento para o outro sem que lhe tivesse sido explicado, pelo menos de forma satisfatória, porque razão o encerravam assim, sem aviso prévio.

    Isto deixou-me a pensar sobre o que fazer com os dois mil e muitos posts que estão aqui, no 100 Cabeças. Poderei perder esta memória de um momento para o outro? Corro esse risco. Passar tudo para um disco de memória externa? É uma possibilidade mas é tarefa morosa que não me apetece muito levar a cabo.

    Graças à minha inegável preguiça correrei o risco de "amnésia bloguista" mas, se levar em linha de conta uma certa capacidade para executar tarefas repetitivas e mais aborrecidas do que contar os feijões de uma lata, poderei ter esperança na realização da ciclópica saga do descarregamento do 100 Cabeças. Valerá a pena? Fazendo fé no poeta dependerá do tamanho da minha alma.

sexta-feira, julho 29, 2022

BUM!

     Cada vez mais sinto uma certa nostalgia do futuro. Nostalgia do futuro!? "O gajo está a asnear" pensa o leitor desprevenido. Como pode alguém sentir falta ou saudade daquilo que ainda não aconteceu? Pois é, não é fácil de explicar; é um sentimento tão profundamente difuso que as palavras o trespassam sem lhe sentirem a pele.

    É uma nostalgia daquilo que nunca virei a ser, acrescentando já as expectativas defraudadas, as que já lá vão mais as que haverão de vir; uma nostalgia da própria civilização tal como a conheci, não exactamente como ela é agora. Começo a ficar azedo, a pensar "no meu tempo é que era". Mas o meu tempo é também este tempo. Ainda não estou morto, pelo menos ainda não completamente.

    Cada vez mais tenho a incómoda sensação de que a nossa civilização não tem muito futuro. Não sei se esta sensação é provocada por estar a assistir, ao vivo e a cores, ao desabamento da suposta supremacia do "Ocidente". Não sei se por me aperceber que estamos a tornar impossível a sobrevivência da espécie humana nestes moldes, quero dizer, nada se expande infinitamente a não ser (ao que parece) o Universo. A expansão infinita da Economia provocará o rebentamento da bolha civilizacional e... BUM!!!

    Silêncio.

sábado, julho 23, 2022

Uma pequena dor

     Adeus! Tchauzinho, adeus! Não voltou a cabeça, avançou num passo decidido sabendo que voltar atrás era coisa interdita. Adeus, adeus, até nunca mais! A despedida prolongava-se na hesitação da voz que ficava para trás. Resolveu avançar mais rapidamente e lá foi. O "adeuzinho" soou já pequenino, lá longe, uma pequena voz a diluir-se na distância que o separava daquilo que seria inevitavelmente o seu passado. Uma pequena dor alojou-se-lhe na profundeza do peito, na profundeza da alma, também ela a diluir-se, a tornar-se parte dele. Nada a fazer; o tempo não regressa, a vida não é vivida duas vezes. Todo o caminho tem um fim. À medida que avançava as sombras tinham mais densidade, a luz ia perdendo força, o ambiente ganhando uma certa magia. Adeus! pareceu-lhe ouvir, mas não podia ter a certeza. A escuridão aliava-se agora ao silêncio. Talvez fosse aquilo o futuro.

sexta-feira, julho 15, 2022

5 minutos

     Sentia-se submergido pela sua própria experiência de vida. Momentos havia em que quase chegava a perceber fazer parte de algo maior do que o seu quotidiano, momentos em que quase acreditava haver um sentido para a sua vida; chegou mesmo a quase acreditar em Deus. Nestes momentos, tão mágicos quanto fugazes, o corpo descontraía e a respiração ficava regular. O mundo batia em uníssono com o seu coração.

    Mas a vida não se comove com a insignificância de quem somos. Sentia-se deprimido 23 horas e 55 minutos por dia, todos os dias. Sim, mesmo quando dormia, era visitado por pesadelos horrendos. Dizer que se tratava de um homem deprimido seria dizer muito pouco. Era um homem desfeito, um detrito, um indigente social: era, segundo palavras suas ditas defronte ao espelho "uma merda de merda". Poderoso.

    Fosse como fosse, vivia para aqueles 5 minutinhos quotidianos de quase felicidade a que tinha direito. Poderiam surgir logo ao acordar, lá mais para o meio da manhã, perto da hora do almoço, ao fim da tarde, na hora da caminha; podiam viver-se todos de uma vez ou distribuídos em pequenas parcelas ao longo do dia recortando figurinhas alegres no tecido da angústia permanente. Não fossem aqueles doces minutos e já teria enfiado um tiro na cabeça ou bebido um copázio de veneno para a rataria. 

    5 minutos de vaga felicidade vividos cada dia provavam-lhe que a vida não tem de ser apenas sofrimento.

quinta-feira, julho 14, 2022

Historiador

     Poderia escrever toda uma história da arte tendo como ponto de partida a sua própria obra. Uma história da arte contemporânea, está bom de ver, que nem mesmo os artistas são imortais, diga lá Camões o que disser. Coçou a barriga, mirou as unhas lá em baixo, nos pés sujos de pisarem o chão do atelier para lá e para cá, em volta, para cima e para baixo; deixou a nuca ir pesando até lhe atirar a cabeça para trás. Mirou o tecto.

    O tempo passara, passara, voltara a passar. Tanta coisa aconteceu e, afinal, a sensação que perdurava era a de nada ter acontecido. Todas as cenas gloriosas que lhe haviam preenchido os anos de juventude nunca foram motivo de notícia, nunca atraíram as atenções da elite, nem da crítica, nem sequer da chungaria, portanto era como se não tivessem acontecido. Cenas gloriosas? Só mesmo na cabeça dele... ou não? 

    Havia ali uma certa confusão.

    Muita química inflamável, miolos queimados, recordações reconstruidas de cada vez que lhe faziam uma visita à alma. Cada vez duvidava mais de que certas coisas tivessem, de facto, acontecido e das que se lembrava sem rebuço punha em causa que houvessem sido mesmo assim. Mas podia escrever essa tal história. Talvez não da arte mas a sua história.

    Levantou-se em direcção ao frasco de pickles onde descansavam pincéis mal penteados afogados em água suja de tinta. Antes de alcançar a tela meio pintada já se tinha esquecido da ideia magnífica que o fizera levantar da cadeira.

terça-feira, julho 12, 2022

Desligar

     Infobesidade, já ouviste esta palavra, amicíssimo leitor? Da parte que me toca ando a fazer dieta. 

    Além do excesso de informação, o que me chateia é a propensão para a monotemática. Ele foi a Covid, depois veio a guerra, agora são os incêndios florestais. Os vários canais de informação repetem até à exaustão peças sobre os mesmos temas. Todos têm repórteres nos locais a despejarem informações redundantes sobre os espectadores que, imagino, consomem a coisa como bovídeos que pastam indolentemente na imensidão dos prados.

    Por vezes junto-me à manada e pasto um bocadinho. Mas depressa me canso, não sinto apetite por esta coisa pastosa e aborrecida que me tentam enfiar goela abaixo. Exerço o meu direito. Desligo.

   

quarta-feira, julho 06, 2022

Murmúrios

     Como aceitar a insignificância da vida que vivemos? Mesmo os maiores de entre os grandes, aqueles que têm carros de luxo e fotos nos jornais e milhões de seguidores no Instagram e vidas assombrosas, mesmo esses, cagam e mijam como nós e, no fim, morrem como todos. Poderemos alguma vez aceitar que a nossa vida vale tanto como a de um caracol?

    A Filosofia e a Religião, a Arte e, até, a Economia, tentam provar que a nossa vida é mais valiosa que a de um pardal ou a de uma suricata. E conseguem fazê-lo, provam que a vida humana é algo excepcional, uma coisa maravilhosa que só pode ter saído da imaginação insondável de Deus. Podemos almoçar sem remorso.

    Quando se trata de decidir sobre o usufruto do planeta somos juízes em causa própria e deliberamos sempre a nosso favor. A consequência deste sistema legal de ocupação da Terra é que a nossa espécie prolifera como uma doença incurável, carraças alapadas à crosta terrestre. 

    Começam a surgir vozes dissonantes, discursos ecologistas vão irrompendo aqui e ali mas, sejamos honestos, alguém lhes dá ouvidos?

terça-feira, julho 05, 2022

Um feio

     Deu a sua palavra de honra: não sentira inveja! Jurava a pés juntos que não houvera qualquer impulso, qualquer movimento subreptício, nada; nadinha! Nadinha de nada!!! Que o deixassem em paz, queria ir à sua vida. Mas os dois polícias não estavam pelos ajustes, muito longe de estarem convencidos pela história daquele tipo.

    Aos olhos de qualquer cidadão de bem aquele era um cidadão muito suspeito. Olhando-o dos pés à cabeça: botas da tropa mal engraxadas, a esquerda com a "boca aberta", a direita com 3 pregos salientes e ameaçadores a espreitarem um pouco acima da sola; calças mais rotas que cozidas, mas rotas pelo uso e não pela vontade de estar na moda, sujas...! Uma espécie de t-shirt, também ela bastante esburacada, com uma imagem de Jesus e a inscrição "never trust a zombie", ui! O polícia mais velho, que era de uma dessas igrejas ou seitas ou lá o que são aquelas casas onde se canta e batem palmas ao Criador e se Lhe dão umas gorjetas, o polícia mais velho ficou logo com vontade de lhe enfiar uma esquecida nas trombas mas conteve-se.

    Quando falou mostrou uma boca com espaços vagos na dentadura. A cara era como se lhe tivessem esfaqueado a carne e os ossos. Alguém lhe tatuou qualquer coisa na testa, qualquer coisa no maxilar, mas foram tentativas falhadas e se já era feioso mais horrível ficou.  O cabelo rapado indiciava algo semelhante a tinha. Enfim, pior aspecto? Talvez houvesse por aí alguém com pior aspecto mas não seria fácil de encontrar.

    Diz o povo que "quem vê caras não vê corações" e, neste caso, o dito fazia todo o sentido. O tipo era um autêntico santo. Bom, correcto para com os seus semelhantes, amigo dos animais, um anjo! Isso não impediu que sucumbisse aos maus tratos que desconhecidos lhe infligiram, presumivelmente, à porta da esquadra onde foi encontrado por dois transeuntes a esvair-se em sangue. Paz à sua alma.

domingo, julho 03, 2022

Medo

     Por vezes apetecia-lhe desistir. Deixar de respirar seria o suficiente. Parar, de uma vez por todas. Sossegar em lado nenhum era um conceito confuso mas atraente. Sentia-se farto de estar cansado perante o caos acumulado no mundo. Talvez lhe apetecesse morrer, ninguém sabe ao certo, o que é certo e sabido é que se dissolveu no ar perante o olhar atónito dos restantes cidadãos que aguardavam a sua vez na fila para o leite. 

    Os 15 cidadãos foram unânimes no seu depoimento: o homem elevou-se no ar um metro, metro e meio, rodopiou um pouco, duas voltas (5 confirmações), três voltas (4 confirmações), algumas voltas (restantes 6 testemunhas) e depois... puf! Desapareceu no ar, como se fosse feito de poeira e tivesse sido sugado pelo espaço à sua volta. 

    O oficial da GNR que registou a ocorrência não sabia do fastio absoluto que consumira o desaparecido ao longo dos últimos tempos (um ano, dois anos, poucos meses?) e mesmo que soubesse atrever-se-ia a relacionar a tristeza do homem com a sua dissolução no espaço em volta? Duvido muito.

    Os cidadãos que assistiram ao estranho fenómeno reagiram de forma pouco dinâmica. Pareciam cansados, desalentados, pouco interessados na vida. Nem mesmo um fenómeno como aquele teve o condão de lhes acender uma chamazinha de curiosidade, lhes provocar uma inquietação, nada! Assistir ao extraordinário desaparecimento do seu concidadão provocou inveja (a 7 deles), alguma curiosidade (a 5), uma fúria inexplicável (2) e um deles afirmou que, na confusão, lhe desaparecera um dedo. Esse confessou que sentira medo. Medo pânico.

sexta-feira, julho 01, 2022

Os merdosos

     Não ser esquecido, não ser apagado. Permanecer. Todos nós sofremos um pouco a angústia de nos vermos ultrapassados pela memória, de sermos engolidos e trucidados pela imensidão angustiante de não sermos nada. Tememos o tempo, olhamo-lo como se fosse um demónio.

    O que fazemos nós na tentativa de mantermos acesa uma chamazinha de nós próprios nas memórias alheias, na memória colectiva? Até que ponto estamos dispostos a importunar o mundo?

    Cada um fará aquilo que for capaz. Outros poderão simplesmente deixar-se ir na correnteza dos dias, indiferentes à sua insignificância. Alguns trepam sociedade acima, tentam alcançar o cume, o vértice da pirâmide. Uma vez lá no alto exibem-se de forma a que todos os vejam cagando cá para baixo. Esses consideram a sua merda como coisa admirável.

quarta-feira, junho 29, 2022

História

     A História dá-nos vislumbres do Passado. Mesmo quando dispomos de fontes concretas sobre determinado acontecimento, o Tempo baralha-nos, troca-nos as voltas e apenas podemos imaginar o que terá significado para aqueles que o vivenciaram. O problema somos nós.

    Olhamos os acontecimentos passados com os nossos olhos, sentimos com aquilo que trazemos dentro de nós, como podemos compreender o que sentiu um homem das cavernas? Imaginamos a sua vida tendo como termo de comparação a nossa própria. Não me parece que haja grande coisa a fazer acerca disto.

    Mesmo quando recordamos a nossa infância ficamos impedidos de reviver fidedignamente aquele tempo por sermos já tão diferentes do que fomos. 

segunda-feira, junho 27, 2022

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     Talvez receasse falar demais, talvez sentisse que os seus temas preferidos, aqueles a que não conseguia fugir, fossem incomodativos para as pessoas. Pessoas mais interessadas em absorver os raios solares ou largar as suas preocupações em palavras que eram bolinhas de sabão levadas pelo vento.

    Talvez sorrisse com aquela boca como um melão a que tivessem aberto e tirado uma talhada, aquele sorriso falso iluminado pelos olhos azuis, inexpressivos, olhos quase transparentes. As pessoas falavam, bolinhas rodopiavam pelo ar que rebentavam silenciosamente quando tocavam as paredes da casa, a mesa, os copos, os talheres, quando tocavam os objectos.

    Tudo aquilo lhe provocava uma ligeiríssima indisposição, como se quisesse cagar e não conseguisse fazê-lo. Desviou o olhar que fixara na janela vazia. Levantou-se, desejou a todos que tivessem um resto de boa-noite e ausentou-se sem que lhe ouvissem os pés a bater no chão; saiu de cena como se deslizasse um palmo acima do soalho, levitando.

    O vampiro

sábado, junho 25, 2022

Ser como o caranguejo

    "Quem anda pra trás é o caranguejo", diziam-me quando eu era pequeno. Penso que fosse uma forma de incentivar a criançada a pensar no futuro como sendo algo que se procura e não algo a que se regressa. Talvez, não posso afirmá-lo com certeza.

    E tenho vivido a minha vida a imaginar que as coisas são assim, que a construção da sociedade é sempre prá frente que "prá frente é que é o caminho"! Esta sensação de evolução irreversível estaria decerto relacionada com o facto de ter vivido o tempo da Revolução, que aconteceu tinha eu 11 anos de idade. Sair de uma sociedade salazarista, sufocada no seu próprio vómito, para entrar num processo revolucionário que haveria de culminar com a adesão à União Europeia, deu-me a impressão de pertencer a uma sociedade que se deslocava convictamente em direcção a um amanhã cantor. Engano.

    2022 tem sido um annus horribilis para o sonho democrático. Da invasão do Capitólio à invasão da Ucrânia, os sinais de alerta para um maremoto que poderá levar tudo à frente são alarmantes. Para Putin, Trump e Xi Jinping, nomeando apenas os demónios maiores deste inferno, é como se o episódio do Dilúvio fosse mesmo um facto histórico (Bolsonaro nunca duvidou), daqueles que se repetem, a História a andar pra trás, como o tal caranguejo. Os ditadores anseiam por um maremoto que ponha fim a essa coisa que designam por Democracia, lavando o mundo todo, deixando-o virgem para que nele se institua uma Nova Ordem, assente em regimes autocráticos, governados por homens (nunca mulheres!) providenciais, alguns deles cumprindo mesmo uma missão que lhes foi confiada directamente por Deus.

    Temos assistido a um sem número de sinais que nos alertam para a possibilidade de uma angustiante regressão civilizacional. Há, no entanto, milhões de pessoas que apoiam esse passeio ao jeito do caranguejo, em direcção ao precipício do passado. Tal com Hitler ou Mussolini também Putin, Trump e outros monstros, que não têm mais que fazer que não seja o exercício da sua monstruosidade, são levados por ondas de loucura popular até aos cadeirões do poder .

    Vivemos tempos perigosos para as minorias, para as mulheres e para todos os que não vergam a mola perante a brutalidade dos chefes. O povo quer, o povo tem o caranguejo. Haja saúde económica!

    

quinta-feira, junho 23, 2022

Carneilobo ou lobarneiro?

     Quando foi que um gajo sonhou com a possibilidade de virmos a construir um mundo mais justo, mais equilibrado na distribuição da riqueza e na diminuição da miséria? Foi algures entre "O Capuchinho Vermelho" e "As Aventuras dos 7"? Talvez um pouco mais tarde, ali por alturas do "Robin Hood" ou do "Spartacus, a revolta dos escravos". A chamada "idade adulta" conspurca todos os sonhos de pureza, põe-nos um serrote nas mãos quando somos apresentados ao Unicórnio.

    O facto de pertencer à classe média (baixota) de um país (pobretanas) entrado na União Europeia faz de mim um felizardo do caraças! Nunca passei fome que não fosse por opção, nunca fui à guerra, já não houve tempo para isso, sempre habitei casas razoavelmente confortáveis. Isto faz de mim um privilegiado, põe-me no montinho dos exploradores. Não me queixo.

    Se estivesse no monte dos deserdados da sorte, dos que comem trampa e vivem na rua, qual seria a minha filosofia de vida? Tentaria viver de acordo com as regras enquanto esperasse que algum cabrão endinheirado reparasse em mim, tão pobrezinho e tão asseadinho? Ou faria tudo o que estivesse ao meu alcance para obter aquilo que imaginasse fazer-me falta? Estou em crer que a distância entre o lobo e o carneiro é muito mais curta do que possa parecer, mesmo à segunda vista.

terça-feira, junho 21, 2022

Zombies suicidas

     Não há nada a fazer, a espécie humana é uma espécie suicida. Aprimorando a frase anterior: a espécie humana é um zombie suicida. "Um zombie suicida?" - interrogas-te tu, prezadíssimo leitor. Sim, porque se trata de uma aparente contradição, como pode um morto-vivo suicidar-se? Pode. Pode suicidar-se um bocadinho. Não pode matar a sua parte morta mas pode matar a sua parte viva.

    Se atentarmos bem na Aldeia Global, poderemos constatar que os seus habitantes, sejam branquelas ou pretos, badochas ou magricelas, ricos ou miseráveis, todos, mas mesmo todos eles, estão já mais mortos que vivos. São zombies, portanto. 

    Por um lado, quando nascem (quando nascemos) começam (começamos) de imediato a morrer. É uma crueldade divina mas é a nossa condição e a de todos os seres vivos. O planeta é habitado por seres que estão constantemente a morrer e a nascer, a nascer e a morrer. Esta é a parte que explica a generalizada condição zombírica (zombífica?) da bicharada.

    Por outro lado temos a pulsão consumista que nos empurra em direcção ao precipício. Temos pressa em acabar com a nossa própria raça. Inventamos armas de destruição maciça, desenvolvemos modelos de veneração de deuses económicos que nos impelem à autofagia, conspurcamos o planeta como se viver com o peito enfiado na merda fosse uma coisa agradável. 

    Todos sabemos que é assim, todos percebemos que estamos a contribuir para a aniquilação da nossa espécie mas, apesar dos discursos, das manifestações cívicas, da arte, da ciência e o o diabo a quatro, continuamos a afundar-nos alegremente. Suicidamos a nossa parte que está viva de modo a equilibrá-la com a nossa parte que nasce morta (e que vai crescendo ao longo das nossas vidas).

    É apenas trágico, não tem nada de bonito.

sexta-feira, junho 17, 2022

Bom dia

     Ouço-as falar atrás de mim. "Olá, bom dia..." "Como estás? Estás boazinha?" "Sim, graças a Deus, vou andando. Obrigada" "Tem de ser." "Pois é." "Então até mais logo." "Até mais logo". E certamente se separaram, andando cada uma para o seu lado, cada uma em direcção ao resto da sua vida. Nós, os animais, somos assim.

    É como se as nossas vidas fossem uma espécie de extenso rosário e cada dia uma conta que seguramos entre os dedos enquanto vamos debitando lugares-comuns à medida que o vamos vivendo. 

    As vozes atrás de mim soaram fatigadas, sem brilho, vozes que pareciam afogar-se num pequeno lago de angústias e as suas portadoras tivessem desistido de esbracejar, desistido de sonhar qualquer diferente que possa acontecer no dia de amanhã.

   O tom da lamúria soara um pouco teatral. A humildade parecera-me fingida, como se estivessem a representar para um deus mesquinho que invejasse a felicidade das suas criaturas, receando atraiçoar algum sentimento de alegria que transportassem no peito. Fizeram-me lembrar as velhas beatas que conheci na minha infância.

    Não vi as pessoas que falaram. As vozes eram evidentemente femininas mas não lhes vi as caras nem os corpos. Imagino-as estereotipadas, tal como as suas palavras, vazias de intenção. Decerto parecerei presunçoso mas isso não me incomoda. Não receio aqueles deuses invejosos nem aqueloutros, severos de tão puritanos.

quarta-feira, junho 15, 2022

Intelectual

    Alguém que use uns óculos de massa; ficamos imediatamente com a sensação de estarmos perante um(a) intelectual. Massa preta, castanha, com padrão a lembrar a carapaça de uma tartaruga, não interessa. A marca da intelectualidade está ali, bem expressa, como um carimbo num documento oficial.

    E se forem redondos!? Então a coisa passa para outra dimensão, uma dimensão ainda mais estratosférica, a aproximar-se das alturas olímpicas. Sentimos que estamos não só perante um intelectual mas perante um grande, um imenso, um inigualável intelectual. 

    Estou a pensar comprar uns óculos desses. Estou farto de que as pessoas não reparem como sou: um intelectual sério e responsável, preocupado com o estado do mundo e angustiado com a ambiguidade incongruente da existência humana. 

    Ainda ontem dei por mim a pensar: porque dizemos nós "alpinismo"? Porque não "everestismo", "kilimanjarismo" ou "apeninismo"? Não tive ainda pachorra para investigar esta questão mas acho que, tivesse eu uns óculos de massa (redondos) e a resposta havia de dançar-me já na ponta da minha língua.

terça-feira, junho 14, 2022

Inconstância

     É assim, afinal sou um gajo inconstante apesar de imaginar o contrário. O facto de estar próximo de tropeçar no meu sexagésimo aniversário não contribui de forma decisiva para que me torne uma pessoa sólida como uma estátua clássica. Sinto-me antes um mobile de Calder.

    Tem dias em que me contenho para não escrever diversos posts, noutros surge o tema, surge a vontade mas falta a oportunidade mas, o mais comum, é apetecer-me ser um bovino e ir pastar para a encosta verdejante de uma colina açoriana. Passo vários dias sem escrever nada neste recanto perdido do mundo virtual.

    Talvez esta inconstância tenha a ver com um certo temperamento artístico que me anima e me faz sonhar. Acredito piamente no impulso e nas qualidades profiláticas dos erros que cometo. A criatividade não tem regras definidas e quem nisso acredita ou é ingénuo ou demasiado vaidoso para admitir que aquilo a que chama "estilo" pouco mais é do que incapacidade de fazer outra coisa que não aquilo. Quase exactamente. 5% de inspiração e 95% de transpiração? Que pivete.

    É evidente que a prática e a técnica são elementos fundamentais no trabalho artístico. Principalmente quando andamos nisto há várias décadas e a inspiração febril dos nossos vinte anos já se gastou ou está à beira da extinção. É aí que nos tornamos cerebrais, professorais e, em raros casos, haverá quem se torne genial. Mas não há nada que substitua o glamour da inconstância.

sexta-feira, junho 03, 2022

Um post com muita moral

     Admitir a possibilidade de que uma raposa possa guardar com recato a porta do galinheiro faz de quem nisso acredita um candidato a anjo sem medo que nas costas lhe nasçam asas. É como pôr um liberal a legislar sobre os direitos dos trabalhadores ou um pastor evangélico na recepção de um hospital público. Há coisas que não se deviam sequer imaginar, quanto mais fazerem-se!

    A capacidade de confiar nos outros é uma das riquezas que o mundo coloca à nossa disposição assim possamos encontrar conforto suficiente para dela podermos usufruir. A confiança é essencial num espaço de convivência democrática. Mas, pode a galinha confiar na raposa? Pode o trabalhador confiar no liberal ou o doentinho confiar no pastor?

    A desconfiança é o lado sujo da moeda. No entanto é imprescindível para a nutrição dos poderosos, é o que os ajuda a crescer e a serem grandes. Terá havido alguma vez na História uma personagem poderosa (daquelas mesmo bué poderosas) que não se tivesse empanturrado com desconfiança à medida que ia subindo os degraus que conduzem ao lugar onde repousa o trono? Duvido. 

    Cristo, que foi quem sabemos, acabou alto mas pregado numa cruz. Ele veio explicar-nos que o mundo não é lugar de justiça. Justiça? Com sorte talvez no Outro Mundo e mesmo aí...

quinta-feira, junho 02, 2022

Um imenso adeus

     É com uma incómoda sensação de impotência que assisto ao esboroar do sonho democrático provocado pela crescente imposição da força bruta, da supremacia arrasadora da lei do mais forte. Regressamos à selva. O Estado de Direito perde pontos a cada dia que passa. À medida que o Conhecimento vai perdendo aceitação entre o povo (há mesmo uma espécie de vingança dos ignorantes contra os intelectuais) elegemos governantes cada vez mais boçais e agressivos, pessoas para quem a Democracia pouco mais é que uma palavra. 

    A utopia de um espaço geopolítico onde os direitos das minorias são reconhecidos e defendidos pela lei é cada vez mais uma névoa dispersada pelos ventos furiosos disparados pelas autocracias e pelos partidos de extrema-direita que vão escavando os seus ninhos nas sombras da sociedade. Uns e outros, democratas e fascistas, dependem demasiado da força económica. Serão todos alimentados pelos mesmos interesses?

    A Pós-democracia não é um conceito discutível, é a realidade em que vivemos. Repito mais uma vez, as grandes decisões que influenciam as nossas vidas não são tomadas por aqueles que elegemos. São tomadas por aqueles de quem dependem os nossos eleitos, os donos do guito, os manobradores, os manipuladores de marionetas. O sonho de uma sociedade mais justa vai ficando mais longe, mais longe, mais longe...

quarta-feira, junho 01, 2022

Criançada

     Hoje comemora-se o Dia da Criança. É uma ideia bonita que vai perdendo ou ganhando significado conforme a criança que comemora. Há certas zonas do planeta onde as crianças são soldados, noutras são trabalhadoras a soldo de empresas mais ou menos grandes, há locais onde ser criança é um pesadelo (e não precisa de ser um local geográfico definido por fronteiras terrestres). Há crianças ricas que são infelizes e outras que, sendo pobrezinhas, transbordam felicidade. Ser criança não obedece às definições impostas pelas organizações internacionais que se ocupam em organizar estratégias que defendam esse estatuto.

    Há crianças que nunca chegam a sê-lo, algumas nascem com a velhice já ali ao dobrar da esquina. Há, por outro lado, crianças que nunca deixam de o ser até ao dia longínquo em que batem as botas. Há crianças que vivem a infância num estado de permanente felicidade; são tão felizes, tão felizes que algumas ficam estúpidas para o resto da vida.

    Podia estar para aqui a elencar indefinidamente estados de alma e situações sociais que ora atrapalham ora beneficiam a condição de ser criança. Esses estados de alma e situações sociais são tantos, tão variados, dependem de tantas variáveis que se combinam de forma tão aleatória, que é difícil imaginar como comemorar o Dia da Criança. 

    Deve ser por isso que hoje de manhã, quando fui ao centro comercial fazer algumas compras havia uma fila de centenas de criancinhas alinhadas na entrada principal. Quando subi as escadas vindo do estacionamento a algaraviada das suas vozes infantis ribombava pelo espaço agitando o templo do consumo. O que estavam aquelas crianças a fazer ali? Decerto haverá uma boa razão que eu, no entanto, desconheço.

terça-feira, maio 31, 2022

Haja ordem

    Quando certas questões de direitos humanos se aproximam de fronteira do intolerável e as vozes se erguem, bradando aos céus, surge sempre um maestro para pôr ordem na gritaria. É o maestro da "real politik" quem, batuta em punho, gestos categóricos, se encarrega de afinar o coro. Nada de vozes fora do tom, nada de vozes sobrepostas, ordem! 

    A coro deve afinar pela cartilha da Economia. 

        

sexta-feira, maio 27, 2022

Narciso ao fundo

    O mundo em que vivemos não me parece muito nosso amigo. São demasiadas as ocasiões em que fico com a sensação de que o mundo nos está a empurrar para o lado, a por-nos à beira do prato, como se fôssemos coisas intragáveis. E não é apenas o mundo inteiro, aquilo a que também chamamos planeta, é o mundo por nós construído para nele vivermos.

    Criamos leis, traçamos fronteiras, damos nomes específicos a espaços virtuais e dizemos que aquilo são nações. Plantamos um orgulho imbecil no peito cada indivíduo que regamos com discursos inflamados e histórias-de-ir-ao-cu, fazemo-los acreditar que a sua honra e a sua felicidade dependem do grau de entusiasmo com que entregam a sua alma à tal nação. O extraordinário é que a maioria das pessoas acredita nestas patranhas. E temos o mundo entornado.

    Gostamos de nos imaginar melhores do que somos. Narciso é que sabia! Ele compreendeu a essência das coisas todas ao olhar-se no espelho das águas. Acabou afogado na morbidez do seu desejo. Não acabamos todos? Não é esse o atroz destino da Humanidade?

quarta-feira, maio 25, 2022

Carne para churrasco

     A figura do soldado russo condenado a prisão perpétua por ter morto a tiro um civil ucraniano é uma imagem terrível de frustração e arrependimento. Uma criança a quem deram uma arma e mandaram para frente de guerra. E a criança fez o que era suposto fazer: matou.

    A condenação deste desgraçado parece-me um acto desesperado de castigar não se sabe bem o quê. O tribunal julgou o soldadito russo mas, lá bem no fundo, está a julgar aqueles que nunca sentarão o cu num banco de tribunal, os mandantes, os senhores da guerra, velhos machos brancos com cabelos pintados e as trombas maquilhadas quando fazem os seus números de palhaço mau nas televisões.

    As mortes violentas continuam a ferir a Humanidade todos os santos dias e os senhores dos exércitos não páram. Amanhã enviarão mais mil soldaditos para a frente de guerra. Os soldaditos irão pegar nas suas metralhadoras para se matarem uns aos outros e atirando sobre tudo o que mexe pois tudo o que mexe lhes haverá de meter medo.

    Se o diabo for justo sabemos todos quem deverá arder no churrasco do inferno.

terça-feira, maio 24, 2022

Regressão

     Cada vez mais cresce a sensação de que estou a ser enganado. Quem me engana? O mundo todo! O mundo engana-me a cada passo, ilude-me a todo o momento. Eu sei que estou a ser enganado e iludido mas não consigo fazer nada contra isso. Ainda que tente não sou capaz de evitar o engano e a ilusão.

      Este episódio da guerra na Ucrânia, por exemplo. Não tenho hipótese de construir uma ideia que não seja imediatamente posta em causa. Se vi uma reportagem ou li um texto de opinião que me influenciaram a construir determinada perspectiva, logo surge o seu inverso simétrico. O símbolo do Yin Yang feito mundo, feito sentido total, verdade absoluta!

      Mas logo surge outro símbolo, outra combinação de formas capaz de mostrar que o mundo não é a preto e branco nem o círculo a melhor forma de o representar. E explode a cor, revolve-se a forma, tudo acontece bem como o seu contrário. E eu?

       Eu? Quem se importa com aquilo em que acredito? Será que alguém está disponível para me compreender!? Socorro!!! Sou um Benjamin Button, a minha idade mental entrou em regressão. Lendo o que escrevi aqui mesmo acima posso concluir que estou a atravessar a adolescência, vou em direcção à infância. 

      Um dia mais além, sem dentes nem cabelo, com a coluna vertebral deformada numa posição próxima da posição fetal, serei de novo bebé. Alguém que me aconchegue e me dê um beijinho.

domingo, maio 22, 2022

Punitivo cigarro

      Se fosse rei tinha oferecido o reino dele por um cigarro mas como não era rei limitou-se a olhar pela janela. Que suja! Mal conseguia perceber os corpos do lado de lá. Tanto podia ser um cão como um gato, um homem ou uma mulher, uma cadeira ou uma mesa, as formas não faziam todo o sentido, aproximavam-se apenas daquilo que eram. Não havia meio de esquecer aquela terrível vontade de fumar um cigarro.Se fosse rei havia de ameaçar aquele outro gajo com o cadafalso: um cigarro, palhaço, se tens amor à vida é melhor que me dês um cigarro! Não sendo rei não intimidava ninguém. Nem mesmo a si próprio.Na verdade estava apenas desesperado por um cigarrito.

    Bom, vou lá fora fumar um antes que me salte a tampa.

sexta-feira, maio 20, 2022

Direito à existência

     Por vezes sinto que as coisas que escrevo, embora façam todo o sentido dentro da minha cabeça e sejam facilmente entendidas segundo o meu modo de pensar, pouco ou nenhum sentido fazem para ti, hipotético leitor. O post anterior, por exemplo, que confusão!

    Isto acontecerá porque, na esmagadora maioria das vezes, escrevo estes textos ao correr do teclado e quase nunca os revejo ou, se os revejo, limito-me a retocá-los tentando não escorregar demasiadamente nas curvas e contracurvas da gramática. 

    Mas sei que a questão da dificuldade de compreensão não será exclusivamente atribuível à forma da escrita, decerto haverá complexidades inextricáveis no que toca a questões de conteúdo. Pensamentos nebulosos, ideias serpenteantes, objectos surreais. 

    A verdade é que, imagino eu, há uma relação umbilical entre o que escrevo e o que desenho com visíveis vantagens para o desenho e a pintura. A linguagem visual permite ampliar ao infinito a ambiguidade da mensagem. O campo da ambiguidade é a minha verdadeira casa, o palácio da sabedoria diabólica que imagino ter comerciado com o Velho Cavalheiro nalgum dia da alucinação absoluta. Não sei, não tenho a certeza, não me lembro.

    Seja como for, regresso ao início: as coisas que escrevo são muitas vezes tão baças, tão confusas e indefinidas que melhor seria que as tivesse fechado num saco e atirado ao rio mal me tivessem nascido dentro da cabeça. Ou não? Será que todas as ideias, mesmo aquelas que não se percebem que são feias de tão confusas, têm direito a entrar neste mundo, passando a existir?

    É esta uma reflexão que te proponho, resistente leitor: têm todas as ideias direito a um lugar neste mundo perdido na imensidão do universo?