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segunda-feira, junho 05, 2023

Seria um prazer

     Visto sob a perspectiva de quem anda por aqui a fazer pela vida, o nosso sistema sócio-político é uma coisa odiosa. Já muitas vezes expliquei que me considero um tipo com sorte. Por nunca ter passado fome que não fosse por opção, por nunca ter tido frio que não fosse por descuido, por ter uma saúde razoável. A tudo isto posso somar o facto de nunca ter tido faltas de dinheiro dramáticas. Enfim, sou aquilo que alguns designam por "nababo". Se bem que em pequena escala.

    "Então, se és um nababo, ainda que em pequena escala, de que te queixas" podes tu perguntar, velho amigo leitor (ou velha amiga). Queixo-me não por mim, mas por outros que vivem vidas de merda por serem, tal como eu, comidos por parvos pelas forças do capital. A diferença é que eu, depois de bem rapado e chupado pela vampiragem ainda vou ficando com uns trocos que me permitem comer bem e beber melhor. Nada de luxos desnecessários até porque, na sua maior parte, são inalcançáveis. E, sinceramente, estou-me bem a cagar para os luxos de um modo geral. Petinga, arroz de feijão e uma boa garrafa de tinto já fazem mim algo próximo de um paxá.

    Mas a verdade é que a forma como somos roubados à descarada pelos bancos e pelas geringonças das finanças não é nada agradável, muito menos justa, absolutamente imoral. Os ordenados miseráveis que auferem largas fatias da população, gente que trabalha para ser pobre, as rendas, os juros, os impostos, as taxas, tornam para mim um mistério a vida destes meus concidadãos. Daí que sinta alguma vontade de lixar a vida aos cabrões que nos lixam a nossa.Seria um prazer.

domingo, fevereiro 26, 2023

Negócio

     Tenho a impressão de que tudo pode ser reduzido à dimensão do negócio. A guerra? Negócio. A linguagem? Negócio. O lixo? Negócio. A saúde? Negócio. E por aí fora: negócio, negócio e mais negócio. Vida e morte? Negócios. Como chegámos nós a isto? Tudo se compra, tudo se vende, tudo se negoceia. Nesta lógica global quem tem o poder? Os gajos do guito, é óbvio.

    Curiosamente os gajos do guito nunca estão satisfeitos com aquilo que têm e procuram sempre o melhor negócio. E nós, o pessoalzinho, qual é o nosso papel no meio disto tudo? Somos coisas negociáveis. Temos mais ou menos valor de acordo com aquilo que podemos oferecer ou que nos pode ser tirado. 

    Não me parece que Deus tenha previsto uma coisa assim. Mais uma vez fico convencido que o plano Dele falhou. Ou então Ele não tinha plano nenhum e limitou-se a improvisar quando criou o mundo.

quarta-feira, agosto 03, 2022

A Democracia como empecilho


    Há muito que se fala em pós-democracia, mas o conceito não tem sido muito discutido nem tão difundido quanto seria desejável. Muitos são os que consideram que vivemos em pleno um regime pós-democrático; elegemos os nossos representantes que se ocupam do funcionamento das instituições e vão tomando decisões que permitem ir equilibrando o nosso quotidiano, mas as grandes decisões económicas são tomadas nos ambientes controlados dos conselhos de administração de meia dúzia de grandes empresas. Estas multinacionais formam uma espécie de Comité Central da Internacional Capitalista (IC) e são os seus patrões quem decide o modo como vivemos e como morremos, tendo como único objectivo a satisfação dos interesses dos seus principais accionistas. Os seus negócios são transversais, do armamento aos cereais, dos combustíveis fósseis aos verdes, onde houver dinheiro a ganhar há um comissário da IC a fazer com que a coisa flua.

    Isto pode soar a teoria da conspiração, mas não consigo evitar a sensação de estar a IC promovendo o desmantelamento da Democracia, peça por peça. A coisa está já em avançado estado de degradação nos EUA, no Brasil o ambiente não parece muito melhor, a ascensão nazifascista por toda a Europa é preocupante. Para gáudio da IC as grandes potências em ascensão têm regimes abstrusos: na China uma espécie de capitalismo de estado, na Índia um impossível democracia nacionalista hindu. Populações inteiras com direitos socio laborais mitigados ou mesmo inexistentes são o sonho húmido dos dirigentes da IC, o futuro da Humanidade.

    Assistimos ao declínio final do “século das luzes” após a derrocada dos impérios coloniais. A África terá de continuar à espera da sua hora, quem sabe daqui a mil anos…? Putin terá também direito a constar numa página da História, talvez numa nota de rodapé, lado a lado com Zelensky: os dois Vladimiros siameses que, cada um à sua maneira, deram a machadada final na União Europeia. Eu sei que tudo isto soa a teoria da conspiração, mas não consigo libertar-me da incómoda sensação de que a Democracia se tornou um autêntico empecilho.

quinta-feira, junho 02, 2022

Um imenso adeus

     É com uma incómoda sensação de impotência que assisto ao esboroar do sonho democrático provocado pela crescente imposição da força bruta, da supremacia arrasadora da lei do mais forte. Regressamos à selva. O Estado de Direito perde pontos a cada dia que passa. À medida que o Conhecimento vai perdendo aceitação entre o povo (há mesmo uma espécie de vingança dos ignorantes contra os intelectuais) elegemos governantes cada vez mais boçais e agressivos, pessoas para quem a Democracia pouco mais é que uma palavra. 

    A utopia de um espaço geopolítico onde os direitos das minorias são reconhecidos e defendidos pela lei é cada vez mais uma névoa dispersada pelos ventos furiosos disparados pelas autocracias e pelos partidos de extrema-direita que vão escavando os seus ninhos nas sombras da sociedade. Uns e outros, democratas e fascistas, dependem demasiado da força económica. Serão todos alimentados pelos mesmos interesses?

    A Pós-democracia não é um conceito discutível, é a realidade em que vivemos. Repito mais uma vez, as grandes decisões que influenciam as nossas vidas não são tomadas por aqueles que elegemos. São tomadas por aqueles de quem dependem os nossos eleitos, os donos do guito, os manobradores, os manipuladores de marionetas. O sonho de uma sociedade mais justa vai ficando mais longe, mais longe, mais longe...

quinta-feira, novembro 25, 2021

Universos

     Espanta-nos a desfaçatez dos ricaços que se consideram acima da Lei? Não devia espantar, ou melhor, espanta-nos porque não fazemos ideia do que significa ter tanto dinheiro, ser tão ricaço. Somos uns ignorantes das coisas do poder. Pobres pobretanas.

    Já por várias vezes aqui declarei a minha incapacidade para lidar com números. A partir da ordem das centenas começo a perder o sentido à coisa, ultrapassando os milhares fico deveras aflito e, chegado aos milhões, é como se fosse teologia avançada. Transpondo esses números para dinheiro, euros ou outra materialização da divindade, então é que nada faz nem o mais pequeno dos sentidos.

    Confunde-me a necessidade de acumulação infinita que parece ser o mantra da nossa sociedade capitalista. Agimos como se nada tivesse um limite, banalizámos perigosamente o conceito de Universo. A Economia tem de crescer em flecha, ano após ano, a capacidade tecnológica não admite fronteiras para as possibilidades que nos oferece, criando um Universo paralelo no qual todos podemos ser felizes embora nem todos lá tenhamos um lugar à nossa espera. 

    Tudo é infinito, desde a felicidade que nos é prometida pelas campanhas publicitárias até à capacidade de enriquecimento dos ricaços, passando pela capacidade de ser miserável que caracteriza aquilo a que designamos por "franjas" da sociedade. Tudo constitui um universo separado e particular, movemo-nos entre o universo mediático e o universo económico e o universo da Marvel e da DC Comics e o universo do desporto de alta competição; universo, universo, universo, tantos universos! Todos eles infinitos e em expansão. 

    Quem conseguir compreender este fenómeno improvável (infinito em expansão) por favor: EXPLIQUE-ME! Mas de forma a que eu seja capaz de compreender. Acho que vou incluir este pedido na minha carta deste ano para o Pai Natal.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Luta desesperada

    É muita hipocrisia. Dizemos que queremos salvar o Planeta, como se o Planeta dependesse de nós. Deveríamos dizer que queremos salvar a nossa Civilização, nem sequer a Espécie Humana mas sim o regime capitalista que nos devora.

    Pessoalmente não estaria muito para aí virado, salvar o capitalismo, mas a verdade é que estou viciado no modo de vida que este regime me permite. Não imagino outro modo de vida. Temo o desaparecimento de certos luxos, uns maiores outros menores; impressionam-me o desaparecimento de outras espécies animais, o aquecimento global, os continentes de lixo flutuante mas continuo a viajar no meu carro a gasóleo e a utilizar os meus sacos de plástico. 

    Sei que as grandes empresas e aqueles que delas beneficiam a um nível que nem sou capaz de imaginar, vão fazendo com que me sinta culpado por ser um dos milhares de milhões de Seres Humanos que poluem o planeta. São capazes de me tornar inimigo de mim próprio. 

    E eu luto contra mim. Umas vezes ganho, outras vezes perco a luta. Luto todos os dias, desde que acordo até que fecho os olhos e mergulho no universo dos sonhos. Sou um lutador incansável. Umas vezes ganho, outra vezes perco. Luto comigo próprio, sinto cada golpe e respondo na mesma moeda. É uma luta desesperada.

segunda-feira, junho 07, 2021

TINA que os pariu!

Tenho a sensação de que já utilizei este título num post anterior do 100 Cabeças. Se não foi título foi tema, se não foi tema foi frase.

Vem isto a propósito da vontade manifestada pelos principais dirigentes políticos dos países do G7 em taxar os lucros das grandes multinacionais arranjando forma de lhes secar a artimanha de fugirem com o rabo à seringa indo pagar impostos para paraísos fiscais que os não cobram (!?). Esta minha explicação é um bocado tola pois não compreendo muito bem como funciona a coisa. O que eu percebo é que os poderosos estão a tentar encontrar forma de domarem um pouco a besta selvática do capitalismo.

Decerto são dirigentes muito poderosos que não dependem directamente das tetas das grandes multinacionais para saciarem a suas necessidades de consolo. Vai daí puxam-lhes as calças para baixo e ameaçam-lhes os lucros, que poderão baixar de escandalosamente pornográficos para apenas estupidamente insultuosos.

Para os defensores da ideia da TINA (There Is No Alternative) económica isto é um atestado de menoridade intelectual. Andam há anos a convencer o pagode de que não há alternativa, que os capitalistas são como as enguias e não se deixam apanhar, escapulindo-se ao menor sinal da alarme. No lado oposto muitos se recusaram a aceitar a TINA como uma fatalidade do destino. Aqui está a prova de que até mesmo os capitalistas mais viscosos e arredios acabam por ser apanhados, assim haja vontade política.

O que não estava propriamente no programa era que o método prescrito para caçar enguias no lodo da alta finança fosse criação do próprio sistema capitalista. Ou, por outro lado, o facto de ser o sistema capitalista a inventar uma forma de se travar a si próprio revela a dimensão inimaginável da roubalheira que vem sendo perpetrada há várias décadas debaixo dos nossos narizes.

Termino com toda a convicção: vão prá TINA que vos pariu!

terça-feira, setembro 29, 2020

Vanitas

 A t-shirt nem era particularmente bonita mas tinha a marca estampada no peito. A marca sim, representava algo glamoroso, era coisa de prestígio. O preço pareceu-lhe inflaccionado mas trazer aquele símbolo no peito, escrito e desenhado em letras garrafais, valia bem o dinheiro a desembolsar.

E lá veio ele para as ruas cobertas do centro comercial, impante no seu passo estudado, mostrando a todos o valor da sua pessoa. 

É um achado, um truque de marketing absolutamente genial: o cliente paga caro o direito a fazer publicidade gratuita à marca que ostenta nas proximidades do coração, qual pequeno outdoor ambulante. A vaidade tem parte de leão nas circunvoluções do sistema capitalista e nós somos como patinhos.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Sexta-feira negra

Não querendo armar-me em virgem ofendida sempre vos digo que o conceito da Black Friday é uma coisa, a meus olhos, repulsiva. Traz consigo uma perspectiva desumanizadora da nossa sociedade que me incomoda. Funciona como espelho e reflecte um bicho demasiado disforme.

A substituição do cidadão pelo consumidor (tema várias vezes abordado aqui, no 100 Cabeças) já não me cheira bem. Haver um dia em que o consumidor é transformado em animal selvagem é coisa que fede.

Nas caixas de mensagens do meu telemóvel e do e-mail vão caindo missivas enviadas por diversas lojas que anunciam acontecimentos extraordinários. Descontos estratosféricos, facilidades de crédito inimagináveis, ofertas irrecusáveis, tudo para o meu bem, tudo porque, como me dizem, sou importante para as empresas comerciantes.

É o Capital a sorrir-me mas, no seu sorriso, vejo um esgar alucinado.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

sábado, julho 07, 2018

Explosão anunciada

Como chegámos nós a este ponto? Somos reféns do Capitalismo, hoje tal como sempre fomos. Vivemos uns quantos anos na ilusão de que tínhamos afugentado o bicho mas ele está de regresso e com tal pujança que vai destruindo o mundo todo de passagem.

Os episódios de especulação imobiliária que se vêm acumulando nos últimos tempos são uma foto-tipo-passe do rosto do capital selvagem. As pessoas são escorraçadas das suas habitações para que as casas se venham a transformar em locais de passagem.

É a lógica capitalista da livre circulação do dinheiro associada à lógica pós-moderna da movimentação das populações, em trânsito no gozo dos seus tempos de férias.

Nos tempos que correm há muito capital que circula nos bolsos dos turistas (veja-se o peso do turismo na economia portuguesa ou nos países que têm um défice de produção industrial, o turismo é mesmo considerado uma indústria!), logo interessa desenvolver os processos de trânsito das pessoas (as viagens aéreas banalizam-se ao ponto de surgirem as empresas low cost) ao mesmo tempo que se facilita o acesso destas ao capital onde quer que estejam por esse mundo fora (as máquinas de dinheiro nas paredes e em caixotes pululam por esse mundo fora e podemos aceder à nossa conta bancária em segundos estejamos na Ásia ou na América).

Nesta construção vertiginosa os indígenas transformam-se em peças de baixo valor. Ou são empecilhos, e por isso se dão os despejos, ou são mão-de-obra barata para manter esta lógica de resort em que se vem apostando como mais uma forma de fazer fluir o capital.

Este é um exemplo. Muitos outros poderemos convocar quando reflectimos sobre o desvario total que se apoderou da Humanidade e a conduz, inexoravelmente, na direcção do precipício. Um dia tudo isto vai rebentar.

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

quarta-feira, julho 09, 2014

Da ganância

Um fato, uma gravata e uma cara de pau que até mete medo. Ou então um sorriso fácil e uma simpatia sem fronteiras; estes são tão perigosos como os outros. São os banqueiros, senhores do dinheiro, guardiões dos nossos sonhos, conhecedores dos nossos desejos, eles regulam o mundo.

Os dias passam, a crise permanece. Compreendemos melhor o significado de insignificância e a rapidez da nossa cavalgada pela vida quando percebemos o tempo de recuperação que uma coisa destas necessita. Dizem-nos que a economia levará 20 anos a recuperar, 30 anos a recuperar, tempo demais, na minha humilde mas particular perspectiva. Quando a crise passar e regressarem os tempos do vinho e das rosas, o mais provável é eu já ter batido as botas.

Antes de mim haverão de patinar os mais velhos destes tais banqueiros que, no entanto, agem como se fossem viver eternamente. A sua ganância é lendária, a sua capacidade de amontoar dinheiro e distribuir miséria parece coisa divina. De todos os bichos, o bicho Homem é o que tem maior capacidade para amealhar aquilo de que não tem necessidade.

Sinceramente não compreendo estes seres vivos, estes banqueiros. Não compreendo para que querem mais dinheiro, mais poder, mais miséria. Isto vai muito para lá da minha capacidade de compreensão. Mas as coisas são assim mesmo. Também não compreendo Deus. A única diferença entre os banqueiros e Deus é que os banqueiros existem de facto, sem margem para dúvidas.

sexta-feira, novembro 08, 2013

Equilíbrio

Hoje é dia de greve da Função Pública em Portugal. Os trabalhadores protestam, reclamam, esbracejam, esperneiam, mas nem migalhas têm a ilusão de vir a receber.

Neste dia veio a público uma notícia que dá conta do aumento do número de multimilionários no nosso país (ler aqui), apesar da crise... ou será por causa da crise? Não só são mais como estão mais ricos. O equilíbrio acentua-se: os ricos mais ricos, os pobres mais pobres.

Haverá algum dia a mínima possibilidade de inverter esta tendência?

terça-feira, maio 14, 2013

Dúvidas

Ontem comprei uma camisa que, mais tarde, verifiquei ser "made in Bangladesh". A primeira coisa que me veio à cabeça: terá sido fabricada por algum dos que morreram na derrocada daquele prédio que matou mil pessoas?

Não me buliu o coração nem um bocadinho e isso deixou-me um pouco incomodado. Se calhar não sou tão solidário como imaginava, não me preocupo com a espécie humana com o desvelo que se impõe a uma boa alma. Comprei a camisa porque era barata. Fiquei com ela porque o "made in Bangladesh" está escondido na etiqueta e não revela ao mundo essa minha nódoa moral?

Na verdade, o que se passou foi que quando reparei no pormenor da origem da camisa já estava no balcão, a pagar. Já tinha uma factura e digitara os números do meu cartão de débito na maquineta. Não me apeteceu dizer à empregada (que tinha cara de se preocupar mais com revistas cor-de-rosa do que com jornais "sérios") que não queria aquela camisa porque... porquê? Sou mais preguiçoso do que solidário.

Quando saí da loja tive uma iluminação! Talvez aquela camisa tivesse sido fabricada por Reshma, a rapariga que sobreviveu 17 dias sob os escombros do prédio que vitimou outras mil pessoas, entre colegas e nem tanto. Fiquei mais sossegado. Decerto que trazia no saco uma peça saída das mãos da rapariga protegida por Deus. É assim que os fracos se convencem que são mais ou menos fortes?

Leio que o salário médio de um operário no Bangladesh é de 29 euros (ver aqui). A camisa custou 12. Ou seja, quantas camisas daquelas faz um operário por dia já que duas e uns trocos pagam o seu ordenado mensal? É melhor nem pensar nisso, comprei uma coisa daquelas, para onde vai o dinheiro que paguei?

A tragédia fez com que o governo decidisse rever as condições laborais e a tabela salarial destes quase-escravos. As empresas que exploram o trabalho destas pessoas fazem valer o velho ditado "casa roubada, trancas à porta" e anunciam que irão investir nas condições de segurança das fábricas. Pouco perderão, igual a nada.

Se a morte de mil operários teve o condão de por em movimento todas estas acções o que aconteceria se tivessem morrido dois mil? Ou três mil... quantas pessoas precisam de morrer para que se faça justiça social? Quantas pessoas precisam de morrer para que o capitalismo selvagem fique manso, nem que seja por breves momentos?