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terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

segunda-feira, julho 10, 2017

Pequena historieta de embalar

Vendem-te armas, fazem-te promessas de amizade e dizem que te apoiam. São amigos, faz-se negócio. Depois retiram-se e deixam-te a trabalhar. Tu lutas, matas, destróis, escapas por pouco. O teu país fica em ruínas. É hora para os teus amigos regressarem. Agora vêm apresentar-te toda uma outra linha de investimento, trata-se de reconstruir aquilo que as armas destruíram. Trazem novos empresários, outras ideias para te vender. São amigos, o negócio faz-se sempre.

quarta-feira, abril 10, 2013

Fábula da criação

Estimular a criatividade, missão complexa. Fazer um céptico acreditar nas suas próprias capacidades criativas, missão (pelo menos aparentemente) impossível. Estimular a criatividade coloca-nos perante uma situação semelhante à de tentar ressuscitar um cadáver.

Estimular a nossa criatividade, missão complexa. Ultrapassar o nosso cepticismo em relação à nossa própria capacidade criativa... isso nunca! Uma vez morta, a criatividade dificilmente ressuscita.

O que acontece muitas vezes é que a criatividade vai de férias. À medida que o tempo passa e nós envelhecemos, a criatividade parece tirar férias cada vez mais extensas. Deixa de viajar com mochila às costas e passa a frequentar resorts de luxo.

Nós a precisarmos que a criatividade regresse a casa (que regresse para nós) e ela a esticar-se mais, a espreguiçar-se pela manhã sob o sol ameno de um qualquer local imaginário. Se deixamos a imaginação ir de férias com alguma periodicidade, vai ser cada vez mais complicado convencê-la a regressar.

Moral da história: mais vale ir de férias (mesmo que prolongadas) do que morrer (ainda que de forma temporária).

sexta-feira, maio 06, 2011

Fábula para os tempos que correm em Portugal


Era uma vez um rato.
O rato fugia desesperado de um gato grande e gordo e muito mau.
Fugia às cegas, num bosquezinho entalado entre prédios cinzentos e estradas movimentadas, correndo como o vento, sem saber muito bem para onde se dirigia. Fugia a 100 à hora mas não conseguia desorientar o gato que, apesar de muito gordo, era um caçador diabólico.
O gato tinha muitos anos de prática e já caçara milhentos ratinhos como aquele que agora corria à sua frente. O gato sabia que o rato haveria de cansar-se. Era uma questão de tempo.
Na sua correria destemperada, o rato entrou num imenso prado verdejante onde havia apenas uma vaca a pastar. Olhando em volta o rato percebeu que estava perdido, não descortinava um único esconderijo onde pudesse sonhar com a salvação. Arfando, aproximou-se da vaca e disse.
-Dona Vaca, por favor, esconda-me. Vem aí um gato grande e gordo e muito mau que me vai comer sem dó nem piedade.
A vaca olhou o ratinho com aquele olhar que as vacas têm e repondeu-lhe:
-Ratinho, não há tempo a perder. Põe-te aí atrás e vai rezando.
Mal acabou a frase cagou abundantemente sobre o pequeno roedor, escondendo-o sob uma imensa bosta no meio daquele prado verdejante. Um monte de esterco castanho, combinando na perfeição com a paisagem.
O gato entrou no prado em passo de corrida e estranhou não ver o rato. O monte de merda chamou a atenção do felino que reparou no rabinho do rato que ficara de fora e tremia de medo e nojo por estar tão profundamente enfiado na merda. Sem dizer uma palavra o gato esticou as garras e cuidadosamente retirou o rato que esperneava desesperadamente. Abanou-o num gesto de grande classe, soltando pedacinhos de caca em todas as direcções e, sem hesitações, engoliu-o de uma só vez.
Adeus ratinho.

Moral da história: nem sempre quem te põe na merda te quer mal, nem quem te tira dela te quer bem.