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sábado, agosto 16, 2025

O homem que comia bananas

     "Comediante" é o título de uma obra de Maurizio Cattelan que consiste em... acho que se disser que é "aquela" banana o tolerante leitor perceberá imediatamente do que falo. É uma banana colada à parede com um pedaço de fita-cola cinzenta (soa melhor "prateada"). Meu deus! Isto é arte? Vou colar uma banana na parede da sala... etc. As reacções são variadas e, na maior parte das vezes, desinformadas. A história de "Comediante" é muito simples mas não é dela que pretendo falar neste post.

    A obra de Cattelan já foi comida, pelo menos, três vezes sendo que as duas últimas (a derradeira na exposição de Serralves) foram autoria de um cidadão holandês, ou neerlandês, como agora é de bom tom dizer, Peter van Druten de sua graça. Ao que parece, van Druten reclama ser autor de uma intervenção artística. Teremos aqui um artista contemporâneo em potência?

    A primeira parte da obra de van Druten aconteceu em Metz onde, acometido de um impulso incontrolável, decidiu descolar a banana da parede, descascá-la e comê-la. Segundo o potencial artista, Cattelan ter-lhe-á dito que deveria comer também a casca e a fita uma vez que fazem parte da obra. Vai daí, o súbdito de Guilherme Alexandre viajou até até à "Inbicta" e morfou segunda banana. Ao que parece, desta vez, não terá conseguido comê-la na totalidade uma vez que casca e fita-cola são mais difíceis de mastigar.

    E por aqui me fico se bem que esta fábula tenha mais contornos pitorescos e extrapolações interessantes. Termino com uma proposta de título para a acção/performance/obra de van Druten: O Palhaço.

segunda-feira, outubro 28, 2024

Fábula abstrusa

     Cantam passarinhos dentro desta minha cabeça. Piu, piu, repiupiupiu, cantam eles e eu avanço feliz, aos pulinhos pelo trilho da floresta. As árvores são de betão, as vacas deslocam-se sobre rodas, o prado é pintado de verde com umas pintas vermelhas aqui e acolá. São papoilas. 

    Não tenho tempo a ganhar, como tal não poderei perdê-lo. Um pterodáctilo passeia lá bem no alto, um macaquito sem pêlo olha-me de soslaio. Esconde qualquer coisa encostada ao peito ao virar-me as costas. Não me interesso por ele, muito menos por aquilo que esconde. Quero que o macaco se lixe. Prefiro dar atenção aos passarinhos que me esvoaçam no sótão. Piu-piu-piu-trólarópiupiu. A música é alegre e deixa-me bem disposto.

    Chego finalmente à escola. Tudo parece continuar no devido lugar. A bicharada esvoaça, rasteja, saltita, urra, pipila, zurra, tudo parece confirmar a torpe banalidade dos costumes. Quem tiver de comer haverá de fazê-lo, quem tiver sina de ser comido haverá de tentar escapar à dentuça alheia.

    Peixes grandes comem peixes pequenos.

sábado, julho 20, 2024

Uma igreja na floresta

     Era uma vez um Pato casado com um Gato, juntos tiveram um filho a quem chamaram Cão. Viviam junto ao mar, numa floresta de árvores azuladas atapetada de estranhas flores. Viviam felizes a ladrar, a miar, a grasnar, a floresta ecoava alegria e boa disposição, o mar trazia nas ondas coisas agradáveis.

    Um dia o Cão conheceu o Tubarão e ficaram amigos. De quem eles não gostavam era do Pinguim, não simpatizavam com ele nem um bocadinho. Apesar de todos os esforços que fazia para soar bem educado, o Cão e o Tubarão achavam que o Pinguim era um convencido de merda por andar sempre de fraque; fizesse frio ou calor, nunca tirava a fatiota de cerimónia. Palonço!

    Fosse como fosse, tudo corria bem na floresta: vida fácil, alimento abundante, sol ou sombra, secura ou humidade, tudo consoante as necessidades de cada um e ninguém metia o nariz onde não era chamado. Um paraíso. Até que um dia Deus reparou na floresta e lembrou-se que a tinha esquecido. Como é apanágio de um Ser tão perfeito e completo, decidiu agir visto que tinha ideias muito específicas sobre o que era bom e o que era mau e, ao contrário dos habitantes da floresta, Deus não se estava a cagar.

    O Pato, o Gato, o Cão e o Tubarão não percebiam nada do que Deus lhes impunha. O Pinguim percebia mais ou menos. Farto de tentar explicar-se e não ter sucesso, Deus nomeou o Pinguim como seu sacerdote e incumbiu-o de zelar pela ordem e desenvolvimento das coisas divinas na circunscrição daquela floresta (onde nunca nada havia faltado). Nem alimento, nem comodidade, nem boa disposição. Ali o que mais faltava era tristeza, era violência ou falsidade absoluta.

    Deus nomeou o Pinguim seu sacerdote e lá foi, regular as vidas de outros animais, noutras florestas. A floresta de árvores azuis ganhou uma igreja que era coisa que nunca antes ali existira e da qual nunca ninguém tinha sentido falta nenhuma. Nem Deus.

    A partir daquela aquisição supérflua, a influência do Pinguim cresceu de tal maneira que o Gato, o Pato e o Cão, seu filho, fartos de tanta regra, tanta admoestação e castigos imbecis, se mudaram para perto da fronteira com o deserto. O Tubarão foi perseguir focas para outras paragens. O Pinguim inchou, inchou e ficou tão gordo que deixou de pôr uma pata que fosse fora da igreja. Mas isso já é uma outra história. A Girafa que a conte.

sexta-feira, novembro 25, 2022

Fábula comigo dentro

     Não tenho bem a certeza se gostaria de ser recordado lá mais para a frente, quando já cá não estiver. Convenhamos que se trata de um falso problema ou, pelo menos, de uma falsa questão; que incómodo me poderá causar o que alguém possa pensar de mim depois de estar morto e enterrado? Talvez por isso, não me tira o sono imaginar a forma como preferiria ser recordado.

    Quando era jovem ambicionava um lugar na História (ah, a vaidade humana!), imaginava a Humanidade como coisa eterna. Agora que se me embutiu no espírito a certeza de que a humanidade é, afinal, coisa breve, um piscar de olhos de algum deus distraído, nem essa ambição merdosa me atormenta. É um pouco como a fábula da raposa e das uvas.

segunda-feira, setembro 19, 2022

Fábulas

     É como se o Lobo Mau estivesse a encher um balão. Ele a soprar, a soprar, a soprar, o balão a inchar, a inchar, a inchar e nós, incautos cidadãos do mundo, olhamos aquele balão já de um tamanho impossível de imaginar sem antevermos a inevitabilidade do seu rebentamento. Quando isso acontecer, quando o enormérrimo balão estoirar num estrondo capaz de provocar ventos cósmicos, o susto vai ser de tal modo que todos os seres humanos nos borraremos em simultâneo no mundo todo, provocando um tsunami de merda que cobrirá o planeta de uma vez por todas; assim se cumprindo o destino que a Humanidade tem vindo a criar para si própria.

    Somos como os Três Porquinhos. As personalidades das rechonchudas personagens ilustram bem aquilo que somos enquanto espécie: confiantes, preguiçosos, despreocupados mas também atentos, inventivos, diligentes, solidários e implacáveis. Há de tudo, como na farmácia, é a maravilhosa diversidade do Ser Humano. Além dos traços psicológicos, os Porquinhos ilustram também, com uma fidelidade comovente, as características físicas daquilo que somos enquanto gente. A semelhança entre um coração de porco e o de uma pessoa é tão grande que só posso imaginar que as almas das duas espécies sejam igualmente aproximadas.

    Tenho para mim que nunca se deveria ter abandonado o recurso à fábula, por brutal que fosse, enquanto ferramenta educativa. Com moral da história e tudo.

quinta-feira, novembro 14, 2019

Fábula da Sabedoria

Sentados em redor da mesa rectangular, uns de frente para os outros, continuamos a debater o aspecto que tem o espaço vazio. A nossa percepção da coisa é recolhida através do olhar. Olhamos o espaço vazio com tanta força, tanta concentração (alguns chegam mesmo a semicerrar os olhos) que dificilmente nos conseguimos aperceber daquilo que estamos a ver realmente.

Estamos a ver o plano de fundo; vemo-lo desfocado, impreciso, no entanto procuramos explicação para aquilo que somos incapazes de compreender. Vale o esforço, falham os resultados, sobra-nos o mundo que temos.

Pobres daqueles que ignoram o vazio, são tomados por tolos.

As pessoas inteligentes não têm dúvidas e nunca (ou raramente) se enganam. Toda a hesitação é por elas resolvida recorrendo à sua inexcedível inteligência. A cada problema resolvido corresponde tempo ganho, dinheiro em caixa, riqueza adquirida e sabedoria... sabedoria... sabedoria!?

Entre o tolo e o inteligente ergue-se uma torre enorme e sem nome, paredes lisas como marfim, apenas uma abertura, uma frincha estreita que é a porta. Dentro da torre não há nada, apenas o tal vazio e, além do vazio, existe a ausência de luz, a mais completa escuridão. Na verdade esse vazio é percepcionado como sendo a essência do Universo pelas pessoas inteligentes que, por serem inteligentes, são consideradas sábias. A ausência de luz permite uma maior concentração aos sábios e provoca algum desconforto naqueles que são tolos.

As pessoas inteligentes, os sábios, afirmam ser capazes de compreender o espaço vazio (na verdade não vêem nada, muito menos no interior da torre) ao ponto de proporem modelos que traduzam essa ausência  em algo palpável, normalmente recorrendo a complexas conjugações de algarismos, números e símbolos cabalísticos. É coisa só para iniciados.

Na verdade esses sábios, pessoas inteligentes que conhecem a magia dos números, estão a construir modelos do interior de si próprios e não daquilo que julgam estar a ver. Quando muito conseguirão proporcionar um vislumbre da forma como percepcionam o plano de fundo, até mesmo aos tolos que manifestem interesse suficiente em tais assuntos. Poderemos sempre questionar o espelho como fez a Rainha Má.

Esta fábula não tem fim porque sempre que surge um sábio há, pelo menos, um tolo que o persegue ou admira ou tenta compreender. Sempre que um novo modelo é oferecido ao mundo que pretende explicar há uma multidão de basbaques prontos para tudo: acreditar, duvidar e refutar. Assim o processo é reiniciado, o vazio volta a merecer toda a atenção. História sem fim enquanto houver Humanidade.

Ao tolo cabe um estranho papel.

terça-feira, abril 30, 2019

O Grande Banquete

É preciso estar atento. Anda por aí tanto lobo a balir que já se confundem alcateias com rebanhos. Há lobos vestidos de ovelhas e ovelhas que aspiram à condição carnívora; vivemos tempos complexos.

Os lobos que se apresentam com a dentuça a brilhar sob os holofotes, sem necessidade de aparentarem uma certa santidade: lobos machos, lobos de barba rija, esses garantem à restante bicharada que não trazem o apetite descontrolado. Estão aí para reclamar aquilo que lhes pertence por direito. Tudo segundo as regras.

O problema reside, precisamente, naquilo que a lobalhada entende por direito. No imaginário daquela malta há um direito específico para os que comem e outro para os que são comidos. Sendo que o direito dos comidos é uma espécie de anedota que provoca gargalhadas entre os comedores. O seu plano, o seu desígnio, a sua missão divina, bem vistas as coisas, consiste em alterar as regras.

Para operarem essa alteração, os lobos precisam de chegar aos cadeirões do poder (de preferência sem comerem demasiados cordeiros), de mansinho, se possível for. Será então tempo para os que andam disfarçados deixarem cair as peles de ovelha que lhes apertam os tomates e, todos os lobos em conjunto, celebrarem o Grande Banquete.

Como diz a grande fábula de Orwell (mais coisa menos coisa): "os animais são todos iguais... mas uns são mais iguais que os outros".

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ser e parecer



André Ventura é uma daquelas personagens que não se acanham. O teor das suas afirmações públicas não coincide com o manifesto que juntou às assinaturas recolhidas com a finalidade de fazer aprovar o Chega, esse projecto de partido que gatinha graças à exposição mediática conseguida por Ventura nos espaços de debate futebolístico da CMTV. 

Perante os juízes do Tribunal Constitucional, Ventura faz luzir sobre a cabeça uma auréola de santinho respeitador da Constituição, cá fora, quando lhe é oferecido o espaço mediático, não se coíbe em mostrar os dentes e afirmar aquilo que não se atreve a registar no manifesto. André ora é bom ou mau, afável ou agressivo, tudo depende. Sendo contido numa certa comparação zoológica pode-se considerar que André é um camaleão.

A Democracia tem destas coisas, permite que germinem no seu seio personagens que a odeiam e que tudo farão para acabar com ela. Personagens como André Ventura chegam montadas em cavalos brancos, prometendo isto e aquilo, de acordo com o que lhes pareça ser o sentimento mais larvar e profundo que germine no descontentamento de certas tribos mais ou menos marginais à inteligência humana. 

Na maior parte dos casos, estes napoleões de pacotilha não conseguem desmontar do cavalo, não têm estofo para cavalgar outra coisa que não seja a desgraça e o descontentamento o que acaba por levá-los numa correria louca em direcção ao abismo do esquecimento quando o logro que é o seu completo vazio se revelar aos olhos de todos, correligionários incluídos. 

André Ventura quer ser uma coisa parecendo outra e vice-versa; Ventura é uma excrescência na Democracia. Pim.

terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

segunda-feira, julho 10, 2017

Pequena historieta de embalar

Vendem-te armas, fazem-te promessas de amizade e dizem que te apoiam. São amigos, faz-se negócio. Depois retiram-se e deixam-te a trabalhar. Tu lutas, matas, destróis, escapas por pouco. O teu país fica em ruínas. É hora para os teus amigos regressarem. Agora vêm apresentar-te toda uma outra linha de investimento, trata-se de reconstruir aquilo que as armas destruíram. Trazem novos empresários, outras ideias para te vender. São amigos, o negócio faz-se sempre.

quarta-feira, abril 10, 2013

Fábula da criação

Estimular a criatividade, missão complexa. Fazer um céptico acreditar nas suas próprias capacidades criativas, missão (pelo menos aparentemente) impossível. Estimular a criatividade coloca-nos perante uma situação semelhante à de tentar ressuscitar um cadáver.

Estimular a nossa criatividade, missão complexa. Ultrapassar o nosso cepticismo em relação à nossa própria capacidade criativa... isso nunca! Uma vez morta, a criatividade dificilmente ressuscita.

O que acontece muitas vezes é que a criatividade vai de férias. À medida que o tempo passa e nós envelhecemos, a criatividade parece tirar férias cada vez mais extensas. Deixa de viajar com mochila às costas e passa a frequentar resorts de luxo.

Nós a precisarmos que a criatividade regresse a casa (que regresse para nós) e ela a esticar-se mais, a espreguiçar-se pela manhã sob o sol ameno de um qualquer local imaginário. Se deixamos a imaginação ir de férias com alguma periodicidade, vai ser cada vez mais complicado convencê-la a regressar.

Moral da história: mais vale ir de férias (mesmo que prolongadas) do que morrer (ainda que de forma temporária).

sexta-feira, maio 06, 2011

Fábula para os tempos que correm em Portugal


Era uma vez um rato.
O rato fugia desesperado de um gato grande e gordo e muito mau.
Fugia às cegas, num bosquezinho entalado entre prédios cinzentos e estradas movimentadas, corria como o vento, sem saber muito bem para onde se dirigia. Fugia a 100 à hora mas não conseguia desorientar o gato que, apesar de muito gordo, era um caçador diabólico.
O gato tinha muitos anos de prática e já caçara milhentos ratinhos como aquele que agora corria à sua frente. O gato sabia que o rato haveria de cansar-se. Era uma questão de tempo.
Na sua correria destemperada, o rato entrou num imenso prado verdejante onde havia apenas uma vaca a pastar. Olhando em volta o rato percebeu que estava perdido, não descortinava um único esconderijo onde pudesse sonhar com a salvação. Arfando, aproximou-se da vaca e disse.
-Dona Vaca, por favor, esconda-me. Vem aí um gato grande e gordo e muito mau que me vai comer sem dó nem piedade.
A vaca olhou o ratinho com aquele olhar que as vacas têm e repondeu-lhe:
-Ratinho, não há tempo a perder. Põe-te aí atrás e vai rezando.
Mal acabou a frase cagou abundantemente sobre o pequeno roedor, escondendo-o sob uma imensa bosta no meio daquele prado verdejante. Um monte de esterco castanho, combinando na perfeição com a paisagem.
O gato entrou no prado em passo de corrida e estranhou não ver o rato. O monte de merda chamou a atenção do felino que reparou no rabinho do rato que ficara de fora e tremia de medo e nojo por estar tão profundamente enfiado na merda. Sem dizer uma palavra o gato esticou as garras e cuidadosamente retirou o rato que esperneava desesperado. Abanou-o com um refinado gesto de grande classe, soltando pedacinhos de caca em todas as direcções e, sem hesitações, engoliu-o de uma só vez.
Adeus ratinho.

Moral da história: nem sempre quem te põe na merda te quer mal, nem quem te tira dela te quer bem.