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sexta-feira, novembro 03, 2023

Ecos do passado

     Em conversa com um amigo recordei esta manhã duas expressões que muito ouvi na minha infância mas que o tempo se encarregou de esconder. 

    A primeira era utilizada pelo meu avô materno, o Avô Mário. Frequentemente designava por "pedaço d'asno" aqueles ou aquelas que por qualquer motivo lhe desagradavam. Que magnífico insulto! O alvo do seu desprezo era de tal ordem que nem sequer a asno completo poderia ser comparado. Apenas a um pedaço, não mais que uma pequena parte. Lindo.

    A outra expressão que veio aquecer-me a alma e recordar os tempos em que ainda usava calções por imposição e nunca por opção era muito utilizada pelo meu pai, esta normalmente aplicável em discurso directo: "vai-te encher de moscas" era o dito. Outro insulto insidioso. Quem ou o quê se enche de moscas? As cavalgaduras e os montes de merda! Logo, desejar ou mesmo ordenar a alguém que se encha de moscas corresponde a considerar que esse alguém tem algum tipo de parentesco com animais de pêlo ou com matéria fecal.

    Rimo-nos moderadamente. Penso poder afirmar que estas memórias nos proporcionaram bons momentos, a mim e ao meu amigo.

terça-feira, março 28, 2023

Macacôa olé!

     É a célebre "macacôa". Estou com a macacôa. Sinto-me alquebrado, doem-me os pés, apetece-me ser um calhau posto à sombra num pinhal. Se pudesse obliterar o cérebro não hesitaria.

    Resolvi googlar a palavra sem grandes esperanças de receber algo de volta mas..., eis senão quando, sou informado que macacôa é "popular - doença de pouca gravidade; indisposição; achaque". Umas vezes com acento circunflexo, outras vezes sem, a palavra aparece em todos os dicionários online sendo que a Infopédia é o lugar que fornece mais e mais variada informação sobre a macacôa, chegando mesmo a sugerir que a palavra terá origem na sua hermana espanhola "macacoa" (esta sim, sem acento) que significa, na hermosa língua de Cervantes, "tristeza ou melancolia".

    Não me sinto doentinho, nem posso afirmar que sinta o que quer que seja que deixe adivinhar alguma indisposição ou achaque. Ainda bem que a Infopédia trazia aquele rematezinho elegante com voltinha em curva de ida e volta pelo lado de lá da raia. Concluo que a minha macacôa é mais espanhola que portuguesa. 

    Olé!

sábado, setembro 04, 2021

Do sarcasmo

Por vezes sinto uma vontade descontrolada de ser ácido, sarcástico e usar as palavras como pequenas marretas nas cabeças de algumas pessoas que, por uma razão ou por outra, me foram desagradáveis. Sinto um ligeiro remorso mas sabe tão bem que não evito fazê-lo. De forma nenhuma!

E lá vem o problema: o facto de me ser aprazível zurzir tolices na paciência de outras pessoas dá-me esse direito? E se os outros me responderem à letra? É bem feito. E se me responderem fora do contexto com insultos directos e deselegantes? Já não me parece tão bem feito, mas acontece. O jogo do sarcasmo tem regras que se intuem mas que não estão ao alcance de qualquer macaco. Há demasiada gente com o sentido de humor de um armário de cozinha, gente que não é capaz de encaixar uma boca marada sem reagir atacando à bomba.

A meu ver precisamos de exercitar o sarcasmo com maior regularidade e outra paixão. Precisamos de ensiná-lo nas escolas, de veiculá-lo nos meios de comunicação social, precisamos de o estudar praticando-o. Estarei a ser sarcástico à medida que vou escrevendo este texto? Não sei e se soubesse também não te dizia.

 

domingo, setembro 21, 2014

A pele e os sapatos

Em Portugal (não sei se a expressão é válida noutros países lusófonos) quando pretendemos compreender ou explicar sensações ou atitudes de outra pessoa dizemos: "não lhe queria estar na pele" ou "é preciso estar na pele dele"; "estar na pele" é uma expressão muito forte.

Tentamos expressar a dificuldade extrema de compreender o que vai na alma alheia, assumindo que a única forma de podermos ter uma ideia aproximada do que é o outro seria estar-lhe na pele, habitar o seu próprio corpo.

Os ingleses têm uma expressão vagamente equivalente. Trocam a pele pelos sapatos do outro. "To be in someone's shoes" será, para quem fala esta língua, o suficiente para trocar de lugar com outra pessoa. Quererá isto dizer a mesma coisa?

Convenhamos que as expressões idiomáticas são pistas tortuosas mas significativas daquilo que nos vai na alma... e debaixo da pele.

terça-feira, março 20, 2012

Gramática

Recebi um e-mail com a seguinte lição: 
Curso Rápido de Gramática: 
- Filho da puta é adjunto adnominal, quando a frase for: ''Conheci um político filho da puta". 
- Se a frase for: "O político é um filho da puta", é predicativo. 
- Se a frase for: "Esse filho da puta é um político", é sujeito. 
- Porém, se apontares uma arma à testa do político e disseres: "Agora nega o roubo, filho da puta!" - é vocativo. 
- Finalmente, se a frase for: "O ex-ministro, aquele filho da puta, arruinou o país e não só" - é aposto. 
Que língua a nossa! 
Vejamos a seguinte frase: 
"Saiu de ministro e foi viver para França e ainda se acha o salvador da Nação." 
O "filho da puta" aqui é sujeito oculto...

Assim se aprende gramática.








terça-feira, março 27, 2007

A Personagem

Personagem, s. f. (fr. personnage). Pessoa considerável, ilustre: uma alta personagem. Pessoa que toma parte na acção de uma obra literária. Figura dramática: as personagens de Shakespeare.

É assim que vem no Dicionário Prático Ilustrado que costumo consultar. "Personagem" é um substantivo feminino! Ouço dizer tantas vezes "o" personagem que até me salta a tampa! Ainda hoje em entrevista televisiva, a propósito da peça que estreou no Maria Matos em Dia Mundial do Teatro, Diogo Infante, uma personagem do meio teatral que muito prezo e admiro, falou "do" personagem que interpreta, um sacerdote. E anda a passar uma série de programas em que Diogo coloca questões relacionadas com a arte de bem falar português...
Estará a escapar-me alguma coisa? Personagem poderá dizer-se no masculino? Não me consta. Quer-me mais parecer uma daquelas situações em que a asneira é tantas vezes repetida que acaba por tornar-se quase a forma correcta. Há personagens masculinas e personagens femininas mas são todas personagens. Mesmo numa cena com 500 camionistas barbudos teremos que referir as 500 personagens, ponto final.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Coisa estranha (ou nem por isso?)


"O Ministério da Educação promete tomar uma "decisão final e definitiva" sobre o futuro da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) quando terminar o actual ano lectivo, não excluindo para já "qualquer cenário", desde a generalização dos novos termos gramaticais ao seu abandono ou reconversão total."


DN digital


Mais uma vez o que impressiona não é a excelência científica do projecto mas o autismo de quem o tenta implementar. Não discuto a qualidade do trabalho dos linguistas que nos querem fazer reviver os prazeres das universidades medievais, quando a gramática era considerada uma arte. Não discuto a necessidade de ensinar e aprender essa antiga arte nas escolas de hoje. Nada disso está em causa.

O que arrepia é imaginar um professor de Português do ensino básico a ter de ensinar a TLEBS a uma turma de 28 alunos dos quais 14 sabem ler e os restantes são capazes, apenas, de escrever. Os currículos do Ensino Básico são de uma megalomania babilónica mesmo sem terem a TLEBS no topo, a enfeitar o bolo.

O que arrepia é perceber que as decisões são tomadas por personagens de ficção e não há ninguém, no mundo real, que lhes ponha travão.