Mostrar mensagens com a etiqueta monstros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta monstros. Mostrar todas as mensagens

domingo, agosto 02, 2026

Objectivo de vida

    Sou um gajo simples. Quero dizer, a minha inteligência não é brilhante, o que penso não ofusca, o que digo não deslumbra. Apesar da minha fraca capacidade para ler o mundo sinto uma ambição talvez estranha por não estar, aparentemente, de acordo com as minhas capacidades individuais. Quero poder, desejo ser um homem poderoso e, aviso já, tudo farei para alcançar este objectivo pois nada nem ninguém poderá jamais privar-me do meu sonho. Eu quero, eu posso! 

    Quem disse que um homem, para ser poderoso, precisa de alguma qualidade extraordinária para lá de uma ambição desmesurada? O que interessa o saber, o que interessa a cultura,  que valor poderá ter a compaixão ou o pensamento equilibrado, a noção de justiça... tudo lixo, patranhas, empecilhos que servem apenas para travar a caminhada dos homens indomáveis em direcção à grandeza a que têm direito! Ambição e capacidade de sedução. Carisma. Dinheiro. Eu quero, eu posso!

    Tudo isto e um bom cabeleireiro. 


terça-feira, julho 21, 2026

Clareza de espírito

     Vale a pena ser boa pessoa? Mas... o que é ser boa pessoa? Ai, ai, não quero parecer presunçoso (embora seja presunçoso) mas acho que sei mais ou menos o que é isso, ser boa pessoa. Sei porque me ensinaram quando era pequeno e coisas dessas dificilmente se esquecem, mesmo quando as pernas ficam mais compridas ou quando a barriga cresce ou o cabelo vai caindo. São lições que carregamos a vida toda na bagageira da mona.

    Se algum caramelo discorda daquilo que considero necessário para constituir a maneira de ser e de estar de uma boa pessoa, é porque esse caramelo não é boa pessoa. A coisa é de uma limpidez tal que nem água de um ribeiro a cantarolar sobre as pedras num dia de sol ao meio-dia. Não concordas comigo? És um merdas!

    Assim sendo, sinto a obrigação de me bater por aquilo em que acredito, até porque, para mim, andamos neste mundo para fazer dele um lugar melhor para os que vierem depois de nós. E o mundo melhora quanto mais boas pessoas nele habitarem. É tão simples! Para que as boas pessoas como eu prevaleçam temos de ser capazes de espalhar a boa nova de forma convincente; converter os ímpios, pôr na ordem os mais fatelas. 

    Vejo tudo com tanta clareza! 

terça-feira, junho 16, 2026

Monstro

     E se aquilo que eu sou não me saísse da cabeça e me atrapalhasse cada passo, me confundisse cada pensamento, engasgasse todas as palavras? Se aquilo que eu sou me fizesse imaginar todos os outros como espelhos onde se reflectisse a minha imagem monstruosa, o meu ser ser defeituoso, reprovação em cada olhar, um esgar de desconforto em cada rosto que o meu cruzasse? E se aquilo que eu sou me impedisse de imaginar a felicidade, me fechasse o coração, me lançasse num desfiladeiro de desespero a cada momento que passa?

    E se aquilo que eu sou fosse o Inferno? 

terça-feira, março 24, 2026

Guerra

     Ter a sensação de que tudo e cada coisa se encontra no lugar exacto, eis o princípio fundamental da felicidade. Ver as coisas encaixadas umas nas outras como se o tempo e o espaço formassem um continuum sobre o qual tudo é paz, harmonia e equilíbrio; beleza!

    Imagino que fosse isso o que me levava a ficar dias inteiros deitado no chão a imaginar universos habitados por bonequinhos de plástico enquanto os movia de um lado para o outro, falando por eles, falando com eles, amigos e inimigos que habitavam comigo aquele mundo em constante mutação e no qual eu era Deus, sem sombra para dúvidas. Naquele mundo tudo dependia de mim e eu encarregava-me de fazer com que tudo decorresse dentro da maior das naturalidades, sendo eu a expressão viva da Natureza.

    A memória não consegue ir buscar situações e enredos concretos das aventuras que vivi com os bonecos, recordo apenas uma vaga sensação de felicidade absoluta. Ter o "coração cheio", o corpo todo satisfeito e consciente, pertencer e possuir em simultâneo; é difícil explicar por palavras aquilo que ainda agora fui capaz de sentir, que me fez suspirar, aquilo que eu sei o que é mas não consigo passar com clareza para o teclado, para o ecrã, para ti, a menos que construa uma forma verbal confusa e periclitante, prestes a desabar a cada sílaba.

    Acho que já fui feliz em muitas ocasiões. Imagino que o número de vezes que ri até às lágrimas, as vezes que ri sinceramente a sentir o peito abrir-se para o mundo oferecendo aquilo que sou a quem possa ou queira ver, essas gargalhadas todas poderiam servir para fazer uma contabilidade da alegria que senti ao longo desta minha vida. E depois há a infância, essa espécie de Atlântida, Idade de Ouro, Tempo de Vinho e Rosas, Paraíso... eu sei lá, esse tempo, esse espaço, esse mundo esquecido o qual me oferece esta memória, agora vaga, da felicidade absoluta.

    Olho para a televisão. Vejo mas preferia não ver. Crianças assustadas tentam esconder-se numa folha de papel riscando sobre ela com vigor. O olhar concentrado não esconde a angústia que as rói por dentro. Têm no peito um bicho mau a incomodá-las, um mundo circundante que as ameaça, um céu que desaba constantemente sobre elas, um céu que cai e explode com a brutalidade dos monstros indestrutíveis, dos monstros totais e absolutos, um céu e uma terra que juntos formam a imagem da guerra. Uma guerra com crianças dentro é a coisa mais horrível que consigo imaginar.

    

quinta-feira, março 05, 2026

Dizer o óbvio

     Ucrânia, Gaza, Irão. A guerra está por todo o lado. O Grande Imbecil queria o Prémio Nobel da Paz. Como não lho atribuíram amuou e desatou a provocar guerras em todo o lado embora se gabe de que trabalha para lhes pôr fim. Será apenas estúpido ou é absolutamente tolo? O Impostor Laranja não tem noção do que diz, do que faz, não sabe sequer quem é, o Impostor Laranja é um dejecto.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Animal

     É inquestionável, o presidente dos EUA é um maluco a precisar de medicação urgente e, eventualmente, uma daquelas camisas cujos braços compridíssimos se atam atrás das costas. Um doido varrido!

    Quando era miúdo havia aquelas personagens, os sábios loucos ou os facínoras desalmados que sonhavam dominar o mundo. Eram normalmente representados com um ou outro atributo físico exagerado e uma gargalhada que disparavam ao menor sinal de sucesso nos seus propósitos alucinados. No fim perdiam sempre.

    Trump é uma dessas personagens. Mesmo o seu cabelo, os seus gestos, as danças que executa, a maneira como movimenta os lábios quando fala, fazem dele uma caricatura de um ser humano. É um velhaco. 

    O que surpreende verdadeiramente é a forma como o mundo tende a vergar a mola perante este palhaço mau. A verdade é que tipos como Saddam Hussein ou Kadafi também inspiravam terror e respeito e acabaram de forma triste e miserável. Como será o fim deste animal?

sábado, outubro 18, 2025

Sinceramente

     Os dias vão passando e um gajo sente a imunidade que o hábito lhe vai conferindo. Ouvir aquela voz já não provoca uma revolta imediata, tal como ler mais aquela mentira travestida de notícia já não faz o coração disparar a toda a brida. Não, o tempo tudo cura, diz-se, ou qualquer coisa do género. Ou, se não cura, o tempo, pelo menos, endurece a nossa capacidade de lidar com a monstruosidade.

    A colecção de cromos monstruosos vai alargando. Trump, Meloni, Orbán, Farage, Abascal, Le Pen, Milei, Putin, Netanyahu, Bolsonaro, etc. Como parar esta gente alimentada a milhões por uma legião de sacanas ricaços? Como reverter esta onda destruidora que submerge a espécie humana e se desinteressa de proteger os seus habitats? 

    A escrita deste post é banal, é fraquinha, não empolga mas é sincera. 

quarta-feira, julho 09, 2025

Prévio conceito

     Falava sozinha rua acima, como se mastigasse palavras, como se ruminasse ideias esquecidas. O aspecto de "maluca do caraças" ninguém lho tirava. Lá vinha ela. Não me pareceu desleixada, quando nos cruzámos não persistiu na atmosfera nenhum fedor particular, era aquela cena, aquela ladainha a martelar, juntamente com os passos sublinhados a salto alto na calçada. Na verdade nada me garantia que se tratasse de uma maluca. Nada, além do meu preconceito.

    O preconceito é uma espinha que não conseguimos desencravar da garganta, é uma pedra no sapato que não descalçamos nem por nada, é um fantasma hediondo a assombrar-nos a mioleira e que não conseguimos esconjurar nem à força de mil "cabrão" nem dez mil "filho-da-puta". O preconceito é, de facto, fodido.

    A última esperança reside na capacidade de apercebermos o preconceito que nos infecta. Não nos livramos dele mas saber que nos desorienta, estarmos conscientes de que o trazemos dentro de nós, é coisa que transporta consigo algum alívio. 

terça-feira, julho 01, 2025

O monstro regressa

     Assistimos incrédulos ao ressuscitar do fundamentalismo cristão. É de sublinhar o papel arrasador desempenhado pelo cristianismo na destruição da sabedoria e do conhecimento logo que foi alcandorado aos lugares de governação no antigo Império Romano. 

    A História costuma sublinhar o papel dos mártires cristãos e obliterar em absoluto todos os que foram  martirizados em nome do Livro único e do cristianismo. Ainda hoje sentimos um tremor beatífico nos meios de comunicação ocidentais quando, lá para os orientes, uma igreja cristã é alvo de violência mas sobre a perseguição a filósofos e destruição de bibliotecas no passado longínquo e os ataques e ameaças a bibliotecas públicas na actualidade... népias ou quase nada.

    O cristianismo, na sua génese, foi uma onda de obscurantismo fundamentalista que varreu a Europa, o Próximo Oriente e o Norte de África, levando na enxurrada séculos de Saber e Conhecimento. Tudo em nome de Deus, da Salvação e da verdadeira Fé.

    O monstro pretende renascer, já começamos a ver-lhe um dedinho de fora. 

segunda-feira, junho 30, 2025

Impotência

     Repugnância. Sinto repugnância.

     Repugna-me  a falta de honestidade intelectual do mesmo modo modo que me repugna um monte de merda com moscas a esvoaçar em volta.

     Repugnam-me os sonsos que usam dois pesos e duas medidas fingindo  que é tudo a mesma coisa ou que não reparam ou que é assim a vida.

     Repugna-me  o uso imoderado da força. Mais me repugna quando é usada sobre os fracos ou sobre quem não tem a mínima possibilidade de se defender.

    Repugna-me a exibição da estupidez mascarada de grandeza. Repugna-me.

    Repugna-me o genocídio na mesma medida em que me repugna a falta de coragem para o condenar. 

    O que fazer com toda esta repugnância se mais logo irei jantar comodamente, se o meu maior problema são as elevadas temperaturas que tento combater com a ajuda de minha fiel ventoinha? O que fazer com toda esta repugnância, meu Deus, o que fazer?

    Talvez não dê para fazer nada ou, pelo menos, disso tenho a certeza, não dê para fazer grande coisa.  

quarta-feira, maio 21, 2025

Um gajo nem as sonha

     Um gajo tende a florear o passado quando trata de ensiná-lo às criancinhas. A ideia é não traumatizar demasiado a petizada, manter as coisas dentro de fronteiras fofinhas e, se possível, traçadas a tinta cor-de-rosa. 

    Um gajo esquece-se que é adulto e que as imagens que cria e transmite a um puto não lhe caem no entendimento com contornos idênticos aos que está a esboçar na sua cabeça emissora. Então temos soldados anjinhos a disparar cravos vermelhos com as suas metralhadoras deixando a pairar um fumozinho que é, na verdade, uma réstea de amor. 

    É uma história um bocado imbecil onde, normalmente, os maus não são sequer nomeados, como se a luta da Liga da Justiça fosse feita contra o vazio. Ainda aparece por ali uma pomba branca que não se percebe muito bem qual é o seu papel. Talvez esteja com fominha e haja migalhas para ela debicar.

    Um gajo conta e reconta histórias deste calibre aos putos, ano após ano. Os putos vão crescendo mas a história mantém os traços infantilóides absolutamente inalterados e os soldados já não são anjinhos, são uma espécie de personagens da Marvel Comics que vomitam cravos vermelhos sempre que uma pomba surge entre os prédios a esvoaçar de forma ameaçadora sobre uma massa informe e sanguinolenta a que se dá o nome de povo.

    Os putos crescem e um dia irão votar.

sábado, março 22, 2025

Trampa

     Trump está apostado em transformar-se num vilão de Banda Desenhada. Um vilão meio apatetado, sem noção de quem é. Está convencido de que é grande mas é apenas gordo, imagina ter um penteado icónico mas é apenas careca, vê-se como um rei mas, a ser rei, não é mais que o rei dos merceeiros. Trump é uma figura de opereta.

     Trump é mau, é má pessoa, está todo podre, tem a alma apodrecida. É um bicho fedorento ferido no seu amor próprio e todos sabemos que uma besta ferida se torna triplamente perigosa. Trump está a fazer tantas coisas estúpidas, tantas coisas incompreensíveis, tem tanto poder e tão pouca inteligência (nenhuma sensibilidade) que é um perigo até mesmo para a cambada que acredita nas mentiras dele, que continua à espera que aquela boçalidade seja uma coisa fôfa, que a maldade tenha, afinal, inspiração divina (algo que não me surpreenderia).

    Trump é um cancro que, caso não venha a ser debelado, irá transformar o mundo todo em trampa. Como ele.

quarta-feira, março 05, 2025

Imprecação matinal

     Havia de chegar um comboio caído do céu que atropelasse aquela cambada de filhos-de-uma-grande-puta que os pariu! Havia de existir um deus verdadeiro, um deus justo que existisse mesmo e lhes atirasse para cima uma doença, uma sarna peganhenta que lhes pusesse o corpo todo numa chaga e os obrigasse a andar pelos cantos a coçarem-se como cães imundos, Titanics de pulgas e carraças, o corpo todo aberto num sanguinolento sofrimento, que é o que eles merecem, grandes cabrões, vigaristas das dúzias! 

    Havia de rebelar-se a Natureza e provocar-lhes mutações que mostrassem ao mundo o verdadeiro aspecto daqueles animais esbaforidos, daquelas bestas hediondas que trazem escondidas dentro: os focinhos, as dentuças, a baba malcheirosa a escorrer-lhes desde as beiças até transformar o chão que pisam em lama e pasto de minhocas.

    Mas não, nada. Continuam vestidinhos nos seus fatinhos caros e gravatinhas de uma cor, penteadinhos (imagino que também perfumadinhos), como se nada de especial se passasse, como se estivessem apenas a cumprir a vontade de deus, do deus deles, um deus mesquinho e pastoso, uma coisa amorfa, pesadona e incómoda que ou se venera ou se é por ele devorado.

sábado, março 01, 2025

O Tempo das Bestas

 
Besta Doméstica

Os Bichos, desenho nº5, Janeiro 2024

    Não se fala de outra coisa: Trump, Vance e Rubio a rodearem Zelensky na Casa Branca e a darem-lhe um enxerto de porrada verbal. O pequenote ucraniano a esbracejar, respondão, mas os rufias, muito maiores e bem mais gordos, mais desbocados, sem pingo de empatia ou de boa educação, não se apiedaram e a coisa foi penosa de assistir.
 
    É a nova Ordem Mundial, a ordem dos labregos maldosos e ressabiados. É o Tempo das  Bestas. E não temos quem nos defenda, estamos entregues aos bichos.

 

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

Eis São Cagão

A forma alucinada como Trump se vê a si próprio e é nisso secundado pela sua corte de pategos é, simplesmente, assustadora. Trump imagina-se um enviado de Deus mas qual é o seu desígnio? Fazer a América grande outra vez? Isso não cheira demasiado à merduncha do tenebroso Deus israelita e à patacoada do Povo Escolhido? 

Quando alguém fala com Deus e conhece o Seu plano está o caldo entornado. Entorna-se o caldo para os que não acreditam nessa treta tanto quanto se entorna para os que nela embarcam. Entra-se numa dimensão paralela, tipo Stranger Things, onde as regras Humanistas se distorcem até serem o seu oposto absoluto. Deus devora tudo, inimigos e devotos, porque ser Deus é ser um monstro.

O Deus destes gajos só ama aqueles que o amam, da mesma forma que um criador de gado ama as suas vacas. É uma personagem perversa, prepotente e vingativa, daí Trump imaginar haver uma ligação especial entre ambos; figuras de opereta.

Vaidoso e estúpido, o presidente norte americano ostenta óbvios sinais de demência. O olhar dele está cada vez mais alucinado, a expressão facial é dura, talhada à machadada até se transformar num focinho. As mãozinhas, a boquinha, o discurso melífluo carregado de veneno, o ódio que lhe escorre das beiças, Trump imagina-se santo.

É o São Cagão.

quarta-feira, maio 31, 2023

Pesadelo

     "É o bicho, é o bicho, vai-te devorar..." como cantava um certo cantor (qual o seu nome?) num tema que teve grande êxito e punha muita gente aos pulinhos. O bicho não esmoreceu (ele nunca vai esmorecer) e continua por aí, a cheirar, a lamber o beiço, a arreganhar a tacha, olhinho luzidio, contente por partilhar contigo este mundo no qual interpretas o papel de idiota gorducho pronto a ser papado. O bicho nem precisa ter fome, bastam-lhe os dentes.

    E se a maioria dos cidadãos for fascista por instinto e vocação? E se andares por aí a proclamar justiça e humanidade aos vizinhos estando eles simplesmente a cagar-se no que dizes, no que és e representas? Já pensaste nessa possibilidade? Eu penso nisso. Cada vez mais.

    Se os fascistas vierem a ocupar as cadeiras do poder estou feito ao bife mas não será isso que me transformará em pateta alegre. Só espero que a raiva (ou será coragem) que hoje me enche o peito perante uma besta fascista não se esvazie caso a besta se transforme em governante.

sábado, março 25, 2023

Ironia macabra

     Li no jornal uma espécie de notícia que informa que a "ONU denuncia execuções sumárias de prisioneiros russos e ucranianos". O texto desenrola-se citando situações um tanto abstractas das quais ressaltam números aproximados. De prisioneiros mortos ou torturados, de civis trucidados, queimados, explodidos e, a rematar, refere 133 casos de violência sexual. É um texto que não vem assinado (por lapso?). Seco, despersonalizado, agreste, o texto lê-se penosamente. Talvez seja um bom retrato do que é a guerra para quem a acompanha ao minuto via CNN de rabinho no sofá, um espaço de violência virtual habitado por fantasmas exaustos e andrajosos.

    Houve um pequeno parágrafo que me chamou a atenção: "O relatório constata que, embora o abuso de prisioneiros de guerra ocorresse em ambos os lados, os prisioneiros russos "foram mais bem tratados", sendo que a violência era mais comum contra ucranianos."

    Sublinho o "foram mais bem tratados", entre aspas, uma manifestação de desejo ligeiramente ardente de que os criminosos que apoiamos sejam um pouco mais humanos que os outros criminosos, que supostamente odiamos ou, pelo menos, desprezamos. Pergunto-me: odiamos e desprezamos esses tipos por serem criminosos?

sábado, junho 25, 2022

Ser como o caranguejo

    "Quem anda pra trás é o caranguejo", diziam-me quando eu era pequeno. Penso que fosse uma forma de incentivar a criançada a pensar no futuro como sendo algo que se procura e não algo a que se regressa. Talvez, não posso afirmá-lo com certeza.

    E tenho vivido a minha vida a imaginar que as coisas são assim, que a construção da sociedade é sempre prá frente que "prá frente é que é o caminho"! Esta sensação de evolução irreversível estaria decerto relacionada com o facto de ter vivido o tempo da Revolução, que aconteceu tinha eu 11 anos de idade. Sair de uma sociedade salazarista, sufocada no seu próprio vómito, para entrar num processo revolucionário que haveria de culminar com a adesão à União Europeia, deu-me a impressão de pertencer a uma sociedade que se deslocava convictamente em direcção a um amanhã cantor. Engano.

    2022 tem sido um annus horribilis para o sonho democrático. Da invasão do Capitólio à invasão da Ucrânia, os sinais de alerta para um maremoto que poderá levar tudo à frente são alarmantes. Para Putin, Trump e Xi Jinping, nomeando apenas os demónios maiores deste inferno, é como se o episódio do Dilúvio fosse mesmo um facto histórico (Bolsonaro nunca duvidou), daqueles que se repetem, a História a andar pra trás, como o tal caranguejo. Os ditadores anseiam por um maremoto que ponha fim a essa coisa que designam por Democracia, lavando o mundo todo, deixando-o virgem para que nele se institua uma Nova Ordem, assente em regimes autocráticos, governados por homens (nunca mulheres!) providenciais, alguns deles cumprindo mesmo uma missão que lhes foi confiada directamente por Deus.

    Temos assistido a um sem número de sinais que nos alertam para a possibilidade de uma angustiante regressão civilizacional. Há, no entanto, milhões de pessoas que apoiam esse passeio ao jeito do caranguejo, em direcção ao precipício do passado. Tal com Hitler ou Mussolini também Putin, Trump e outros monstros, que não têm mais que fazer que não seja o exercício da sua monstruosidade, são levados por ondas de loucura popular até aos cadeirões do poder .

    Vivemos tempos perigosos para as minorias, para as mulheres e para todos os que não vergam a mola perante a brutalidade dos chefes. O povo quer, o povo tem o caranguejo. Haja saúde económica!