terça-feira, julho 12, 2022

Desligar

     Infobesidade, já ouviste esta palavra, amicíssimo leitor? Da parte que me toca ando a fazer dieta. 

    Além do excesso de informação, o que me chateia é a propensão para a monotemática. Ele foi a Covid, depois veio a guerra, agora são os incêndios florestais. Os vários canais de informação repetem até à exaustão peças sobre os mesmos temas. Todos têm repórteres nos locais a despejarem informações redundantes sobre os espectadores que, imagino, consomem a coisa como bovídeos que pastam indolentemente na imensidão dos prados.

    Por vezes junto-me à manada e pasto um bocadinho. Mas depressa me canso, não sinto apetite por esta coisa pastosa e aborrecida que me tentam enfiar goela abaixo. Exerço o meu direito. Desligo.

   

quarta-feira, julho 06, 2022

Murmúrios

     Como aceitar a insignificância da vida que vivemos? Mesmo os maiores de entre os grandes, aqueles que têm carros de luxo e fotos nos jornais e milhões de seguidores no Instagram e vidas assombrosas, mesmo esses, cagam e mijam como nós e, no fim, morrem como todos. Poderemos alguma vez aceitar que a nossa vida vale tanto como a de um caracol?

    A Filosofia e a Religião, a Arte e, até, a Economia, tentam provar que a nossa vida é mais valiosa que a de um pardal ou a de uma suricata. E conseguem fazê-lo, provam que a vida humana é algo excepcional, uma coisa maravilhosa que só pode ter saído da imaginação insondável de Deus. Podemos almoçar sem remorso.

    Quando se trata de decidir sobre o usufruto do planeta somos juízes em causa própria e deliberamos sempre a nosso favor. A consequência deste sistema legal de ocupação da Terra é que a nossa espécie prolifera como uma doença incurável, carraças alapadas à crosta terrestre. 

    Começam a surgir vozes dissonantes, discursos ecologistas vão irrompendo aqui e ali mas, sejamos honestos, alguém lhes dá ouvidos?

terça-feira, julho 05, 2022

Um feio

     Deu a sua palavra de honra: não sentira inveja! Jurava a pés juntos que não houvera qualquer impulso, qualquer movimento subreptício, nada; nadinha! Nadinha de nada!!! Que o deixassem em paz, queria ir à sua vida. Mas os dois polícias não estavam pelos ajustes, muito longe de estarem convencidos pela história daquele tipo.

    Aos olhos de qualquer cidadão de bem aquele era um cidadão muito suspeito. Analisando-o dos pés à cabeça: botas da tropa mal engraxadas, a esquerda com a "boca aberta", a direita com 3 pregos salientes e ameaçadores a espreitarem um pouco acima da sola; calças mais rotas que cozidas, mas rotas pelo uso e não pela vontade de estar na moda, sujas...! Uma espécie de t-shirt, também ela bastante esburacada, com uma imagem de Jesus e a inscrição "never trust a zombie", ui! O polícia mais velho, que era de uma dessas igrejas ou seitas ou lá o que são aquelas casas onde se canta e batem palmas ao Criador e se Lhe dão umas gorjetas, o polícia mais velho ficou logo com vontade de lhe enfiar uma esquecida nas trombas, mas conteve-se.

    Quando falou mostrou uma boca com espaços vagos na dentadura. A cara era como se lhe tivessem esfaqueado a carne e os ossos. Alguém lhe tatuou qualquer coisa na testa, qualquer coisa no maxilar, mas foram tentativas falhadas e se já era feioso mais horrível ficou.  O cabelo rapado indiciava algo semelhante a tinha. Enfim, pior aspecto? Talvez houvesse por aí alguém com pior aspecto mas não seria fácil de encontrar.

    Diz o povo que "quem vê caras não vê corações" e, neste caso, o dito fazia todo o sentido. O tipo era um autêntico santo. Bom, correcto para com os seus semelhantes, amigo dos animais, um anjo! Isso não impediu que sucumbisse aos maus tratos que desconhecidos lhe infligiram, presumivelmente, à porta da esquadra onde foi encontrado por dois transeuntes a esvair-se em sangue. Paz à sua alma.

domingo, julho 03, 2022

Medo

     Por vezes apetecia-lhe desistir. Deixar de respirar seria o suficiente. Parar, de uma vez por todas. Sossegar em lado nenhum era um conceito confuso mas atraente. Sentia-se farto de estar cansado perante o caos acumulado no mundo. Talvez lhe apetecesse morrer, ninguém sabe ao certo, o que é certo e sabido é que se dissolveu no ar perante o olhar atónito dos restantes cidadãos que aguardavam a sua vez na fila para o leite. 

    Os 15 cidadãos foram unânimes no seu depoimento: o homem elevou-se no ar um metro, metro e meio, rodopiou um pouco, duas voltas (5 confirmações), três voltas (4 confirmações), algumas voltas (restantes 6 testemunhas) e depois... puf! Desapareceu no ar, como se fosse feito de poeira e tivesse sido sugado pelo espaço à sua volta. 

    O oficial da GNR que registou a ocorrência não sabia do fastio absoluto que consumira o desaparecido ao longo dos últimos tempos (um ano, dois anos, poucos meses?) e mesmo que soubesse atrever-se-ia a relacionar a tristeza do homem com a sua dissolução no espaço em volta? Duvido muito.

    Os cidadãos que assistiram ao estranho fenómeno reagiram de forma pouco dinâmica. Pareciam cansados, desalentados, pouco interessados na vida. Nem mesmo um fenómeno como aquele teve o condão de lhes acender uma chamazinha de curiosidade, lhes provocar uma inquietação, nada! Assistir ao extraordinário desaparecimento do seu concidadão provocou inveja (a 7 deles), alguma curiosidade (a 5), uma fúria inexplicável (2) e um deles afirmou que, na confusão, lhe desaparecera um dedo. Esse confessou que sentira medo. Medo pânico.

sexta-feira, julho 01, 2022

Os merdosos

     Não ser esquecido, não ser apagado. Permanecer. Todos nós sofremos um pouco a angústia de nos vermos ultrapassados pela memória, de sermos engolidos e trucidados pela imensidão angustiante de não sermos nada. Tememos o tempo, olhamo-lo como se fosse um demónio.

    O que fazemos nós na tentativa de mantermos acesa uma chamazinha de nós próprios nas memórias alheias, na memória colectiva? Até que ponto estamos dispostos a importunar o mundo?

    Cada um fará aquilo que for capaz. Outros poderão simplesmente deixar-se ir na correnteza dos dias, indiferentes à sua insignificância. Alguns trepam sociedade acima, tentam alcançar o cume, o vértice da pirâmide. Uma vez lá no alto exibem-se de forma a que todos os vejam cagando cá para baixo. Esses consideram a sua merda como coisa admirável.

quarta-feira, junho 29, 2022

História

     A História dá-nos vislumbres do Passado. Mesmo quando dispomos de fontes concretas sobre determinado acontecimento, o Tempo baralha-nos, troca-nos as voltas e apenas podemos imaginar o que terá significado para aqueles que o vivenciaram. O problema somos nós.

    Olhamos os acontecimentos passados com os nossos olhos, sentimos com aquilo que trazemos dentro de nós, como podemos compreender o que sentiu um homem das cavernas? Imaginamos a sua vida tendo como termo de comparação a nossa própria. Não me parece que haja grande coisa a fazer acerca disto.

    Mesmo quando recordamos a nossa infância ficamos impedidos de reviver fidedignamente aquele tempo por sermos já tão diferentes do que fomos. 

segunda-feira, junho 27, 2022

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     Talvez receasse falar demais, talvez sentisse que os seus temas preferidos, aqueles a que não conseguia fugir, fossem incomodativos para as pessoas. Pessoas mais interessadas em absorver os raios solares ou largar as suas preocupações em palavras que eram bolhinhas de sabão levadas pelo vento.

    Talvez sorrisse com aquela boca que era como um melão a que tivessem aberto a barriga e tirado uma talhada, aquele sorriso falso, iluminado pelos olhos azuis, inexpressivos, olhos quase transparentes. As pessoas falavam, bolhinhas rodopiavam pelo ar e rebentavam silenciosamente quando tocavam as paredes da casa, a mesa, os copos, os talheres, quando tocavam os objectos.

    Tudo aquilo lhe provocava uma ligeiríssima indisposição, como se quisesse cagar e não conseguisse fazê-lo. Desviou o olhar que fixara na janela vazia. Levantou-se, desejou a todos que tivessem um resto de boa-noite e ausentou-se sem que lhe ouvissem os pés a bater no chão; saiu de cena como se deslizasse um palmo acima do soalho, levitando.

    O vampiro

sábado, junho 25, 2022

Ser como o caranguejo

    "Quem anda pra trás é o caranguejo", diziam-me quando eu era pequeno. Penso que fosse uma forma de incentivar a criançada a pensar no futuro como sendo algo que se procura e não algo a que se regressa. Talvez, não posso afirmá-lo com certeza.

    E tenho vivido a minha vida a imaginar que as coisas são assim, que a construção da sociedade é sempre prá frente que "prá frente é que é o caminho"! Esta sensação de evolução irreversível estaria decerto relacionada com o facto de ter vivido o tempo da Revolução, que aconteceu tinha eu 11 anos de idade. Sair de uma sociedade salazarista, sufocada no seu próprio vómito, para entrar num processo revolucionário que haveria de culminar com a adesão à União Europeia, deu-me a impressão de pertencer a uma sociedade que se deslocava convictamente em direcção a um amanhã cantor. Engano.

    2022 tem sido um annus horribilis para o sonho democrático. Da invasão do Capitólio à invasão da Ucrânia, os sinais de alerta para um maremoto que poderá levar tudo à frente são alarmantes. Para Putin, Trump e Xi Jinping, nomeando apenas os demónios maiores deste inferno, é como se o episódio do Dilúvio fosse mesmo um facto histórico (Bolsonaro nunca duvidou), daqueles que se repetem, a História a andar pra trás, como o tal caranguejo. Os ditadores anseiam por um maremoto que ponha fim a essa coisa que designam por Democracia, lavando o mundo todo, deixando-o virgem para que nele se institua uma Nova Ordem, assente em regimes autocráticos, governados por homens (nunca mulheres!) providenciais, alguns deles cumprindo mesmo uma missão que lhes foi confiada directamente por Deus.

    Temos assistido a um sem número de sinais que nos alertam para a possibilidade de uma angustiante regressão civilizacional. Há, no entanto, milhões de pessoas que apoiam esse passeio ao jeito do caranguejo, em direcção ao precipício do passado. Tal com Hitler ou Mussolini também Putin, Trump e outros monstros, que não têm mais que fazer que não seja o exercício da sua monstruosidade, são levados por ondas de loucura popular até aos cadeirões do poder .

    Vivemos tempos perigosos para as minorias, para as mulheres e para todos os que não vergam a mola perante a brutalidade dos chefes. O povo quer, o povo tem o caranguejo. Haja saúde económica!

    

quinta-feira, junho 23, 2022

Carneilobo ou lobarneiro?

     Quando foi que um gajo sonhou com a possibilidade de virmos a construir um mundo mais justo, mais equilibrado na distribuição da riqueza e na diminuição da miséria? Foi algures entre "O Capuchinho Vermelho" e "As Aventuras dos 7"? Talvez um pouco mais tarde, ali por alturas do "Robin Hood" ou do "Spartacus, a revolta dos escravos". A chamada "idade adulta" conspurca todos os sonhos de pureza, põe-nos um serrote nas mãos quando somos apresentados ao Unicórnio.

    O facto de pertencer à classe média (baixota) de um país (pobretanas) entrado na União Europeia faz de mim um felizardo do caraças! Nunca passei fome que não fosse por opção, nunca fui à guerra, já não houve tempo para isso, sempre habitei casas razoavelmente confortáveis. Isto faz de mim um privilegiado, põe-me no montinho dos exploradores. Não me queixo.

    Se estivesse no monte dos deserdados da sorte, dos que comem trampa e vivem na rua, qual seria a minha filosofia de vida? Tentaria viver de acordo com as regras enquanto esperasse que algum cabrão endinheirado reparasse em mim, tão pobrezinho e tão asseadinho? Ou faria tudo o que estivesse ao meu alcance para obter aquilo que imaginasse fazer-me falta? Estou em crer que a distância entre o lobo e o carneiro é muito mais curta do que possa parecer, mesmo à segunda vista.

terça-feira, junho 21, 2022

Zombies suicidas

     Não há nada a fazer, a espécie humana é uma espécie suicida. Aprimorando a frase anterior: a espécie humana é um zombie suicida. "Um zombie suicida?" - interrogas-te tu, prezadíssimo leitor. Sim, porque se trata de uma aparente contradição, como pode um morto-vivo suicidar-se? Pode. Pode suicidar-se um bocadinho. Não pode matar a sua parte morta mas pode matar a sua parte viva.

    Se atentarmos bem na Aldeia Global, poderemos constatar que os seus habitantes, sejam branquelas ou pretos, badochas ou magricelas, ricos ou miseráveis, todos, mas mesmo todos eles, estão já mais mortos que vivos. São zombies, portanto. 

    Por um lado, quando nascem (quando nascemos) começam (começamos) de imediato a morrer. É uma crueldade divina mas é a nossa condição e a de todos os seres vivos. O planeta é habitado por seres que estão constantemente a morrer e a nascer, a nascer e a morrer. Esta é a parte que explica a generalizada condição zombírica (zombífica?) da bicharada.

    Por outro lado temos a pulsão consumista que nos empurra em direcção ao precipício. Temos pressa em acabar com a nossa própria raça. Inventamos armas de destruição maciça, desenvolvemos modelos de veneração de deuses económicos que nos impelem à autofagia, conspurcamos o planeta como se viver com o peito enfiado na merda fosse uma coisa agradável. 

    Todos sabemos que é assim, todos percebemos que estamos a contribuir para a aniquilação da nossa espécie mas, apesar dos discursos, das manifestações cívicas, da arte, da ciência e o o diabo a quatro, continuamos a afundar-nos alegremente. Suicidamos a nossa parte que está viva de modo a equilibrá-la com a nossa parte que nasce morta (e que vai crescendo ao longo das nossas vidas).

    É apenas trágico, não tem nada de bonito.

sexta-feira, junho 17, 2022

Bom dia

     Ouço-as falar atrás de mim. "Olá, bom dia..." "Como estás? Estás boazinha?" "Sim, graças a Deus, vou andando. Obrigada" "Tem de ser." "Pois é." "Então até mais logo." "Até mais logo". E certamente se separaram, andando cada uma para o seu lado, cada uma em direcção ao resto da sua vida. Nós, os animais, somos assim.

    É como se as nossas vidas fossem uma espécie de extenso rosário e cada dia uma conta que seguramos entre os dedos enquanto vamos debitando lugares-comuns à medida que o vamos vivendo. 

    As vozes atrás de mim soaram fatigadas, sem brilho, vozes que pareciam afogar-se num pequeno lago de angústias e as suas portadoras tivessem desistido de esbracejar, desistido de sonhar qualquer coisa diferente que possa vir a acontecer no dia de amanhã.

   O tom da lamúria soara um pouco teatral. A humildade parecera-me fingida, como se estivessem a representar para um deus mesquinho que invejasse a felicidade das suas criaturas, receando atraiçoar algum sentimento de alegria que transportassem no peito. Fizeram-me lembrar algumas velhas beatas que se cruzaram com a minha infância.

    Não vi as pessoas que falaram. As vozes eram evidentemente femininas mas não lhes vi as caras nem os corpos. Imagino-as estereotipadas, tal como as suas palavras, vazias de intenção. Decerto parecerei presunçoso mas isso não me incomoda. Não receio aqueles deuses invejosos nem aqueloutros, severos e tão puritanos.

quarta-feira, junho 15, 2022

Intelectual

    Alguém que use uns óculos de massa; ficamos imediatamente com a sensação de estarmos perante um(a) intelectual. Massa preta, castanha, com padrão a lembrar a carapaça de uma tartaruga, não interessa. A marca da intelectualidade está ali, bem expressa, como um carimbo num documento oficial.

    E se forem redondos!? Então a coisa passa para outra dimensão, uma dimensão ainda mais estratosférica, a aproximar-se das alturas olímpicas. Sentimos que estamos não só perante um intelectual mas perante um grande, um imenso, um inigualável intelectual. 

    Estou a pensar comprar uns óculos desses. Estou farto de que as pessoas não reparem como sou: um intelectual sério e responsável, preocupado com o estado do mundo e angustiado com a ambiguidade incongruente da existência humana. 

    Ainda ontem dei por mim a pensar: porque dizemos nós "alpinismo"? Porque não "everestismo", "kilimanjarismo" ou "apeninismo"? Não tive ainda pachorra para investigar esta questão mas acho que, tivesse eu uns óculos de massa (redondos) e a resposta havia de dançar-me já na ponta da minha língua.

terça-feira, junho 14, 2022

Inconstância

     É assim, afinal sou um gajo inconstante apesar de imaginar o contrário. O facto de estar próximo de tropeçar no meu sexagésimo aniversário não contribui de forma decisiva para que me torne uma pessoa sólida como uma estátua clássica. Sinto-me antes um mobile de Calder.

    Tem dias em que me contenho para não escrever diversos posts, noutros surge o tema, surge a vontade mas falta a oportunidade mas, o mais comum, é apetecer-me ser um bovino e ir pastar para a encosta verdejante de uma colina açoriana. Passo vários dias sem escrever nada neste recanto perdido do mundo virtual.

    Talvez esta inconstância tenha a ver com um certo temperamento artístico que me anima e me faz sonhar. Acredito piamente no impulso e nas qualidades profiláticas dos erros que cometo. A criatividade não tem regras definidas e quem nisso acredita ou é ingénuo ou demasiado vaidoso para admitir que aquilo a que chama "estilo" pouco mais é do que incapacidade de fazer outra coisa que não aquilo. Quase exactamente. 5% de inspiração e 95% de transpiração? Que pivete.

    É evidente que a prática e a técnica são elementos fundamentais no trabalho artístico. Principalmente quando andamos nisto há várias décadas e a inspiração febril dos nossos vinte anos já se gastou ou está à beira da extinção. É aí que nos tornamos cerebrais, professorais e, em raros casos, haverá quem se torne genial. Mas não há nada que substitua o glamour da inconstância.

sexta-feira, junho 03, 2022

Um post com muita moral

     Admitir a possibilidade de que uma raposa possa guardar com recato a porta do galinheiro faz de quem nisso acredita um candidato a anjo sem medo que nas costas lhe nasçam asas. É como pôr um liberal a legislar sobre os direitos dos trabalhadores ou um pastor evangélico na recepção de um hospital público. Há coisas que não se deviam sequer imaginar, quanto mais fazerem-se!

    A capacidade de confiar nos outros é uma das riquezas que o mundo coloca à nossa disposição assim possamos encontrar conforto suficiente para dela podermos usufruir. A confiança é essencial num espaço de convivência democrática. Mas, pode a galinha confiar na raposa? Pode o trabalhador confiar no liberal ou o doentinho confiar no pastor?

    A desconfiança é o lado sujo da moeda. No entanto é imprescindível para a nutrição dos poderosos, é o que os ajuda a crescer e a serem grandes. Terá havido alguma vez na História uma personagem poderosa (daquelas mesmo bué poderosas) que não se tivesse empanturrado com desconfiança à medida que ia subindo os degraus que conduzem ao lugar onde repousa o trono? Duvido. 

    Cristo, que foi quem sabemos, acabou alto mas pregado numa cruz. Ele veio explicar-nos que o mundo não é lugar de justiça. Justiça? Com sorte talvez no Outro Mundo e mesmo aí...

quinta-feira, junho 02, 2022

Um imenso adeus

     É com uma incómoda sensação de impotência que assisto ao esboroar do sonho democrático provocado pela crescente imposição da força bruta, da supremacia arrasadora da lei do mais forte. Regressamos à selva. O Estado de Direito perde pontos a cada dia que passa. À medida que o Conhecimento vai perdendo aceitação entre o povo (há mesmo uma espécie de vingança dos ignorantes contra os intelectuais) elegemos governantes cada vez mais boçais e agressivos, pessoas para quem a Democracia pouco mais é que uma palavra. 

    A utopia de um espaço geopolítico onde os direitos das minorias são reconhecidos e defendidos pela lei é cada vez mais uma névoa dispersada pelos ventos furiosos disparados pelas autocracias e pelos partidos de extrema-direita que vão escavando os seus ninhos nas sombras da sociedade. Uns e outros, democratas e fascistas, dependem demasiado da força económica. Serão todos alimentados pelos mesmos interesses?

    A Pós-democracia não é um conceito discutível, é a realidade em que vivemos. Repito mais uma vez, as grandes decisões que influenciam as nossas vidas não são tomadas por aqueles que elegemos. São tomadas por aqueles de quem dependem os nossos eleitos, os donos do guito, os manobradores, os manipuladores de marionetas. O sonho de uma sociedade mais justa vai ficando mais longe, mais longe, mais longe...

quarta-feira, junho 01, 2022

Criançada

     Hoje comemora-se o Dia da Criança. É uma ideia bonita que vai perdendo ou ganhando significado conforme a criança que comemora. Há certas zonas do planeta onde as crianças são soldados, noutras são trabalhadoras a soldo de empresas mais ou menos grandes, há locais onde ser criança é um pesadelo (e não precisa de ser um local geográfico definido por fronteiras terrestres). Há crianças ricas que são infelizes e outras que, sendo pobrezinhas, transbordam felicidade. Ser criança não obedece às definições impostas pelas organizações internacionais que se ocupam em organizar estratégias que defendam esse estatuto.

    Há crianças que nunca chegam a sê-lo, algumas nascem com a velhice já ali ao dobrar da esquina. Há, por outro lado, crianças que nunca deixam de o ser até ao dia longínquo em que batem as botas. Há crianças que vivem a infância num estado de permanente felicidade; são tão felizes, tão felizes que algumas ficam estúpidas para o resto da vida.

    Podia estar para aqui a elencar indefinidamente estados de alma e situações sociais que ora atrapalham ora beneficiam a condição de ser criança. Esses estados de alma e situações sociais são tantos, tão variados, dependem de tantas variáveis que se combinam de forma tão aleatória, que é difícil imaginar como comemorar o Dia da Criança. 

    Deve ser por isso que hoje de manhã, quando fui ao centro comercial fazer algumas compras havia uma fila de centenas de criancinhas alinhadas na entrada principal. Quando subi as escadas vindo do estacionamento a algaraviada das suas vozes infantis ribombava pelo espaço agitando o templo do consumo. O que estavam aquelas crianças a fazer ali? Decerto haverá uma boa razão que eu, no entanto, desconheço.

terça-feira, maio 31, 2022

Haja ordem

    Quando certas questões de direitos humanos se aproximam de fronteira do intolerável e as vozes se erguem, bradando aos céus, surge sempre um maestro para pôr ordem na gritaria. É o maestro da "real politik" quem, batuta em punho, gestos categóricos, se encarrega de afinar o coro. Nada de vozes fora do tom, nada de vozes sobrepostas, ordem! 

    A coro deve afinar pela cartilha da Economia. 

        

sexta-feira, maio 27, 2022

Narciso ao fundo

    O mundo em que vivemos não me parece muito nosso amigo. São demasiadas as ocasiões em que fico com a sensação de que o mundo nos está a empurrar para o lado, a por-nos à beira do prato, como se fôssemos coisas intragáveis. E não é apenas o mundo inteiro, aquilo a que também chamamos planeta, é o mundo por nós construído para nele vivermos.

    Criamos leis, traçamos fronteiras, damos nomes específicos a espaços virtuais e dizemos que aquilo são nações. Plantamos um orgulho imbecil no peito cada indivíduo que regamos com discursos inflamados e histórias-de-ir-ao-cu, fazemo-los acreditar que a sua honra e a sua felicidade dependem do grau de entusiasmo com que entregam a sua alma à tal nação. O extraordinário é que a maioria das pessoas acredita nestas patranhas. E temos o mundo entornado.

    Gostamos de nos imaginar melhores do que somos. Narciso é que sabia! Ele compreendeu a essência das coisas todas ao olhar-se no espelho das águas. Acabou afogado na morbidez do seu desejo. Não acabamos todos? Não é esse o atroz destino da Humanidade?

quarta-feira, maio 25, 2022

Carne para churrasco

     A figura do soldado russo condenado a prisão perpétua por ter morto a tiro um civil ucraniano é uma imagem terrível de frustração e arrependimento. Uma criança a quem deram uma arma e mandaram para frente de guerra. E a criança fez o que era suposto fazer: matou.

    A condenação deste desgraçado parece-me um acto desesperado de castigar não se sabe bem o quê. O tribunal julgou o soldadito russo mas, lá bem no fundo, está a julgar aqueles que nunca sentarão o cu num banco de tribunal, os mandantes, os senhores da guerra, velhos machos brancos com cabelos pintados e as trombas maquilhadas quando fazem os seus números de palhaço mau nas televisões.

    As mortes violentas continuam a ferir a Humanidade todos os santos dias e os senhores dos exércitos não páram. Amanhã enviarão mais mil soldaditos para a frente de guerra. Os soldaditos irão pegar nas suas metralhadoras para se matarem uns aos outros e atirando sobre tudo o que mexe pois tudo o que mexe lhes haverá de meter medo.

    Se o diabo for justo sabemos todos quem deverá arder no churrasco do inferno.

terça-feira, maio 24, 2022

Regressão

     Cada vez mais cresce a sensação de que estou a ser enganado. Quem me engana? O mundo todo! O mundo engana-me a cada passo, ilude-me a todo o momento. Eu sei que estou a ser enganado e iludido mas não consigo fazer nada contra isso. Ainda que tente não sou capaz de evitar o engano e a ilusão.

      Este episódio da guerra na Ucrânia, por exemplo. Não tenho hipótese de construir uma ideia que não seja imediatamente posta em causa. Se vi uma reportagem ou li um texto de opinião que me influenciaram a construir determinada perspectiva, logo surge o seu inverso simétrico. O símbolo do Yin Yang feito mundo, feito sentido total, verdade absoluta!

      Mas logo surge outro símbolo, outra combinação de formas capaz de mostrar que o mundo não é a preto e branco nem o círculo a melhor forma de o representar. E explode a cor, revolve-se a forma, tudo acontece bem como o seu contrário. E eu?

       Eu? Quem se importa com aquilo em que acredito? Será que alguém está disponível para me compreender!? Socorro!!! Sou um Benjamin Button, a minha idade mental entrou em regressão. Lendo o que escrevi aqui mesmo acima posso concluir que estou a atravessar a adolescência, vou em direcção à infância. 

      Um dia mais além, sem dentes nem cabelo, com a coluna vertebral deformada numa posição próxima da posição fetal, serei de novo bebé. Alguém que me aconchegue e me dê um beijinho.

domingo, maio 22, 2022

Punitivo cigarro

      Se fosse rei tinha oferecido o reino dele por um cigarro mas como não era rei limitou-se a olhar pela janela. Que suja! Mal conseguia perceber os corpos do lado de lá. Tanto podia ser um cão como um gato, um homem ou uma mulher, uma cadeira ou uma mesa, as formas não faziam todo o sentido, aproximavam-se apenas daquilo que eram. Não havia meio de esquecer aquela terrível vontade de fumar um cigarro.Se fosse rei havia de ameaçar aquele outro gajo com o cadafalso: um cigarro, palhaço, se tens amor à vida é melhor que me dês um cigarro! Não sendo rei não intimidava ninguém. Nem mesmo a si próprio.Na verdade estava apenas desesperado por um cigarrito.

    Bom, vou lá fora fumar um antes que me salte a tampa.

sexta-feira, maio 20, 2022

Direito à existência

     Por vezes sinto que as coisas que escrevo, embora façam todo o sentido dentro da minha cabeça e sejam facilmente entendidas segundo o meu modo de pensar, pouco ou nenhum sentido fazem para ti, hipotético leitor. O post anterior, por exemplo, que confusão!

    Isto acontecerá porque, na esmagadora maioria das vezes, escrevo estes textos ao correr do teclado e quase nunca os revejo ou, se os revejo, limito-me a retocá-los tentando não escorregar demasiadamente nas curvas e contracurvas da gramática. 

    Mas sei que a questão da dificuldade de compreensão não será exclusivamente atribuível à forma da escrita, decerto haverá complexidades inextricáveis no que toca a questões de conteúdo. Pensamentos nebulosos, ideias serpenteantes, objectos surreais. 

    A verdade é que, imagino eu, há uma relação umbilical entre o que escrevo e o que desenho com visíveis vantagens para o desenho e a pintura. A linguagem visual permite ampliar ao infinito a ambiguidade da mensagem. O campo da ambiguidade é a minha verdadeira casa, o palácio da sabedoria diabólica que imagino ter comerciado com o Velho Cavalheiro nalgum dia da alucinação absoluta. Não sei, não tenho a certeza, não me lembro.

    Seja como for, regresso ao início: as coisas que escrevo são muitas vezes tão baças, tão confusas e indefinidas que melhor seria que as tivesse fechado num saco e atirado ao rio mal me tivessem nascido dentro da cabeça. Ou não? Será que todas as ideias, mesmo aquelas que não se percebem que são feias de tão confusas, têm direito a entrar neste mundo, passando a existir?

    É esta uma reflexão que te proponho, resistente leitor: têm todas as ideias direito a um lugar neste mundo perdido na imensidão do universo?

quinta-feira, maio 19, 2022

Auto-ajuda e preconceito

     Parece-me estranha a expressão "auto-ajuda", ainda mais quando aplicada a certas publicações em forma de livro. Se o objecto é escrito por fulano e comprado por sicrano com o intuito dele receber algum tipo de ajuda, não me parece correcto meter aqui o "auto". A haver algum tipo de ajuda ela é exterior ao sujeito que dela beneficie. A menos que a tal "auto-ajuda" se refira ao facto de o autor beneficiar monetariamente do fruto do seu esforço por tornar o mundo um lugar melhor.

    Estaria aqui a chegar à conclusão de que a ajuda em análise é oferecida a si próprio pelo criador do objecto, tal como acontecerá com a esmagadora maioria dos criadores de objectos que logram vendê-los lucrando algo com isso. Não afirmo que seja esse o fito absoluto de quem escreve uma coisa daquelas mas, pronto, se se trata de ajudar alguém...

    Evito esforçadamente referir-me directamente ao conteúdo desses volumes de folhas em forma de livro por nunca ter lido nenhum. 

    - O quê? Nunca leste nenhum desses livros e escreves este post? - pergunta o leitor indignado com um ligeiro estremecimento na voz.
    - Pois, é verdade. - respondo eu vagamente ruborizado.

    Que posso fazer? Sou um tipo preconceituoso em relação a várias coisas, à bondade desinteressada em forma de objecto artístico, por exemplo. Custa-me acreditar na santidade seja de quem for, é-me impossível acreditar na santidade daqueles que se afirmam santos.

quarta-feira, maio 18, 2022

Cansaço

     Acabo de me aperceber que estou farto de ler no Facebook chalaças merdosas sobre a guerra na Ucrânia. Sejam os apoiantes de Putin (que têm sempre o cuidado de dizer que não são apoiantes de Putin) a fazerem humor parvo sobre as notícias ou o suposto instinto assassino dos soldados da ex-união-que-eles-tanto-adoraram; sejam os apoiantes de Zelensky a tentarem fazer humor com a duplicidade habitual dos russos ou com a suposta fraqueza do exército-não-muito-vermelho; sejam uns ou outros, não há paciência para os aturar.

    Aquelas conversas, sempre cheias de espinhos e facas escondidas, não servem para nada, não têm outro objectivo que não seja enaltecer uma suposta superioridade moral do palhaço que se manifesta e raramente têm alguma piada, de facto. São quase sempre pessoas que pretendem mostrar que têm razão, que são mais inteligentes que as outras, as que não pensam como elas. Isto partindo do princípio que alguém ainda se dá ao trabalho de pensar naquilo que escreve e que não se limita a empurrar os seus preconceitos para a frente, a mostrá-los como se fossem pérolas e a sugerir que os seus antagonistas são porcos a quem essas preciosidades estão sendo oferecidas.

    Estou cansado desta gente toda.

terça-feira, maio 17, 2022

Ter sensações

     A vida pode ser muito decepcionante. Temos expectativas em relação a determinadas coisas, uma certa perspectiva dos acontecimentos por vir, imaginamos o nosso papel num determinado teatro que, como dizia o outro, é representado no palco da vida e feitas as contas... népias. Correu tudo ao contrário, as coisas não resultaram. Decorar o texto não era, afinal, a verdadeira solução para encontrar o caminho da felicidade.

    Não tenho bem a certeza mas sinto que a passagem do tempo não ajuda muito a sossegar o espírito. Tenho a sensação de que exagero nas expectativas que vou construindo em relação a mim próprio. Sermos o herói do nosso próprio filme não contribui de forma particularmente brilhante na definição da personagem. Começo a perceber que as minhas qualidades se vão degradando ou, pelo menos, que vão perdendo actualidade, sendo progressivamente menos interessantes.

    Reflectindo um pouco melhor. Tenho a sensação de que os meus ensinamentos vão fazendo cada vez menos eco entre os miúdos, sinto progressiva dificuldade em chegar-lhes ao espírito. Já em relação a pessoas mais velhas, mais próximas da minha idade, penso ir ganhando capacidade de as interessar pelos mais diversos assuntos, caso seja essa a minha intenção. Poderei estar a ser pretensioso mas essa é a minha sensação.

    Resumindo, já ia sendo tempo de me reformar. A distância entre mim e os meus alunos começa a tornar-se penosa para mim e, imagino, também para eles. Merecem alguém mais ingénuo e menos paciente, alguém que seja capaz de ficar indiferente perante a sua indiferença.

sexta-feira, maio 13, 2022

6ª 13

     Sexta-feira 13 é dia de azar mas não este ano. Esta sexta-feira coincide com o 13 de Maio, dia de aparição da Virgem como é sabido pela maioria da população portuguesa. Digo da maioria pois tenho cá a impressão de que esta tradição maravilhosa começa a perder o seu fulgor e o seu significado. Ok, eu sei, a Cova de Iria continua a encher-se de multidões de devotos chegados de todos os cantos do mundo em busca de paz e de espiritualidade mas a Fé vai-se esvaindo a cada geração que passa.

    A contribuir para a diminuição da Fé teremos também o comportamento das altas esferas da hierarquia portuguesa da igreja católica apostólica romana no que respeita às denúncias de abusos sexuais por parte dos seus sacerdotes ao longo dos tempos, embora a atenção se foque apenas nas décadas mais recentes. Como pode alguém continuar a participar dos actos litúrgicos sem que se lhe revolva ligeiramente a tripa ao imaginar o que se poderá ter passado lá atrás, na sacristia?

    Isto de misturar Fé e misticismo é um caldo fácil de obter mas difícil de tragar. Isto de misturar criancinhas e religião também não parece conduzir a resultados particularmente fiáveis. Porque não deixar as criancinhas em paz, mantendo-as longe da padralhada enquanto não tiverem capacidade suficiente para aplicar um valente tabefe nas trombas de quem se aproximar demasiado?

     Concluo este post derrapante reconhecendo que não era esta a direcção que pretendia tomar quando comecei a escrevê-lo. Acho que acabei por me estampar. Afinal de contas é um 6ª 13, dia de grandes azares.

quinta-feira, maio 12, 2022

Drogada

     Enquanto conduzia o meu carro a gasóleo em direcção a uma estação de lavagem, daquelas que têm um elefante azul a borrifar-se com a própria tromba, formou-se-me no espírito uma desagradável imagem. Tive um vislumbre da Humanidade como um todo (talvez influenciado por certas correntes de pensamento que imaginam Deus como sendo a reunião de todas as almas, um super-não-ser, algo desse género). Bom, dizia eu: a Humanidade como um todo, todos os corpos, todos os espíritos, algo difícil de explicar. Tão difícil como aquela tal imagem de Deus.

    O desagradável da visão não foi a reunião de todos nós num único corpo (isso até é potencialmente bonito), o que me arrepiou um pouco foi ter tido a percepção de que esta tal Humanidade é uma espécie de drogada, uma toxicodependente agarrada ao consumo do Planeta. O nosso comportamento auto-destrutivo é imparável. Apesar de sabermos que o consumo selvático do planeta significa a ruína do nosso corpo e do nosso espírito, enquanto Humanidade não damos mostras de abrandamento na satisfação desta dependência. Antes pelo contrário.

    Como qualquer drogado banal, a Humanidade continua a consumir apenas para se sentir capaz de viver mais um dia. Amanhã? Logo se vê.

quarta-feira, maio 11, 2022

Sem título é título?

     Uma obra de arte sem título é uma obra de arte intitulada? Esta dúvida parece-me pertinente embora reconheça em mim uma certa ignorância em termos de arte contemporânea, área espacial onde prolifera este... não título?

    Se considerarmos "sem título" como sendo uma designação particular de uma obra específica estaremos a admitir um oceano conceptual, cujas ondas, todas semelhantes, vêm bater as areias da praia do nosso entendimento arrastando consigo uma parafernália confusa. Ele são obras de pintura, de escultura, ready-made, desenhos, instalações e o mais que a imaginação e engenho artísticos sejam capazes de conceber. Sem título, sem título, sem título, sem título, um dia que alguém se dedique a contabilizar as obras "sem título" tem ali empreitada para uma vida inteira.

    Imagino que ao intitular uma obra com "sem título" (continuo a não ser capaz de decidir se se trata ou não de um título) o criador esteja a abrir o campo de significados de modo a convidar o espectador a completar-lhe o sentido. Assim mesmo, sem muleta nem indicador em riste; amanha-te espectador que tens muito boa idade para seres emancipado. É bom. 

    É bom espicaçar os sentidos de quem se pranta perante um objecto artístico tentando que ultrapasse uma certa tendência para o olhar bovino com que muitos de nós presenteiam a arte, quantas vezes com um croquetezinho na mão e a mania que somos espertos a desviar-nos a atenção, a fazer-nos concentrar sobre nós próprios... já estou a desviar-me do assunto. 

    Recentremos: o facto de uma obra de arte ser acompanhada de uma etiqueta que anuncia "sem título" contribui de forma eficaz para convidar o espectador ao mergulho no seu presumível mar de significados? Recentremos recuando um pouco mais: é "sem título" um título? Aqui chegados dir-me-ás, leitor espectador, "mas o que queres tu com esta conversa toda?" Se eu soubesse  dizia-te mas, a verdade, é que estou tão longe de uma conclusão que a dissertação sobre este assunto arriscar-se-ia a tornar-se num aborrecimento tendencialmente infinito e sabemos muito bem como este post já vai longo e tu estás a ficar farto de ler esta merda, a pensar como é bom ler  tweets ou clicar likes no facebook à razão de dois por segundo.

    Fico por aqui. Mais tarde cá voltarei, se ainda aí estiveres.

segunda-feira, maio 09, 2022

Privilégio

     Pensando bem sobre o assunto, toda a vida fiz parte de um grupo de privilegiados. Considerando que não passar fome é um privilégio, que ter uma casa decente é um privilégio, que viver a vida adulta sem a sombra de uma guerra a toldar-me o futuro é um privilégio, que ter, pelo menos, a ilusão de viver num Estado de Direito é um privilégio... poderia continuar a lista dos privilégios que me douram a pílula mas penso que já percebeste onde quero chegar, melancólico leitor.

    Pensando bem sobre o assunto, nunca fiz grande coisa para combater as injustiças que, assim como assim, vão empestando o dócil ambiente desta minha existência privilegiada. Participei em várias manifestações, assisti a um par de cargas de polícia de choque (nunca levei nenhuma bastonada nem inspirei gás lacrimogéneo), participei em acesas discussões (normalmente na tasca ou à porta dela), escrevi uns quantos textos mais ou menos incendiários que foram publicados no espaço das Cartas ao Director do jornal Público, participei em exposições de artes plásticas, algumas provocatórias outras nem por isso, enfim, coisas de burguês, talvez mesmo de pequeno burguês, nem mais nem muito menos. 

    Faço parte do Sindicato desde que comecei a trabalhar (apesar de não depositar grande fé no Sindicato), participei em Fanzines e grupos de Teatro, escrevi peças de carácter eventualmente revolucionário ou, pelo menos, contestatárias, nas minhas aulas não se pode dizer que fomente a apatia intelectual o que, só por si, é já um acto político. Enfim, coisas de alguém para quem é fácil acreditar numa série de chavões relacionados com a Paz, com a Justiça Social, com a Solidariedade; tudo muito baseado na imagem e na palavra, uma vez ou outra relacionado com acções efectivas e consequentes.

   Tudo isto para te dizer, caso ainda aí estejas, que não é preciso grande coisa para sermos uns privilegiados. Basta não termos uma vida de merda.

sexta-feira, maio 06, 2022

Sempre a perder

     Os dias vão passando e as notícias sobre a guerra começam a entrar em velocidade de cruzeiro. Os telejornais continuam a abrir com a habitual contabilidade de mortos e feridos. É como uma extensão das notícias durante os tempos da pandemia: morreram tantas pessoas, foram internadas outras tantas, etc., etc. Os números de vítimas mortais podem ser arredondados com um terramoto algures, um deslizamento de terras alhures, um tiroteio numa escola norte-americana, tudo serve para compor o ramalhete.

    Este fascínio pela morte arrepia-me um pouco e irrita-me muito. É um vampirismo apático, um desejo latente por desgraças alheias, um voyeurismo melancólico. Como se necessitássemos de observar a miséria dos outros por forma a amansar a nossa própria sensação de  perda.

terça-feira, abril 26, 2022

Montanha-russa

     Lá se passou mais um 25 de Abril, cada vez mais longe vai ficando 1974. Os cabelos embranquecem, a barriga ganha contornos de redondez mais acentuada, um ou outro músculo já se vai queixando sem grandes esforços que o justifiquem. A idade avança mas os sonhos continuam a ser sonhados, talvez a realidade não se compadeça com a sua realização.

    A evolução social do nosso país tem sido uma espécie de cometa disparado na imensidão do espaço. O país que éramos, o país que somos! Sinto orgulho em fazer parte desta pandilha de tótós, capazes de feitos imensos logo abafados por atitudes colectivas desconcertantes. Somos uma sociedade um tanto bipolar, vamos da euforia à depressão profunda em menos de 10 segundos. E vice-versa.

    Vivemos tempos complicados, tempos em que a tal evolução social vai sendo posta à prova e o aparente crescimento imparável conhece obstáculos difíceis de ultrapassar. É para mim um mistério este renascimento da pulsão fascista que ensombra os dias luminosos da Europa. Temo que tenhamos chegado ao topo da montanha-russa. Segue-se a vertigem da descida?

segunda-feira, abril 25, 2022

A Paz

     A Paz, a Paz, a Paz, anda tanta gente com ela pendurada na boca que a Paz começa a parecer-se com baba a escorrer de uma expressão aparvalhada, olhos perdidos, lábios entreabertos. A Paz. Não estou a ver como poderá a Paz ser feita recorrendo à matéria-prima que é esta guerra na Ucrânia. Não me parece que haja maneira de conjugar tão diferentes materiais e linguagens políticas num objecto capaz de não se desmoronar com a simples força da gravidade. A Paz...

    

sábado, abril 23, 2022

Uma nota desiludida com PS

    A guerra na Ucrânia mantém-se com a solução cada vez mais distante. Os argumentos a favor e contra esta desgraça deixam-me triste e estupefacto. Bem vistas as coisas, por aqui, toda a gente se considera pacifista e anti-guerra mas ninguém consegue vislumbrar forma de pôr fim a isto. Na minha muito humilde opinião há uma solução óbvia: a Rússia travar a agressão e retirar da Ucrânia. Mas sei que os unicórnios não existem e que as fadas morrem por não acreditarmos nelas.

    Post Scriptum - A intervenção cirúrgica a que fui submetido correu bem. Foi um sucesso. Agora tenho de aguardar uns tempos para perceber se recuperei a audição. O tempo cura tudo (o que seja curável). Neste caso trata-se de esperar que a prótese que me foi colocada no ouvido interno se aconchegue a ponto de me fazer ouvir alguma coisinha, algo de que o meu ouvido direito já há muito se esqueceu do que seja.

quarta-feira, abril 13, 2022

Surdez parcial

     Tenho vivido os últimos anos da minha vida com uma surdez progressiva a atormentar-me o ouvido direito. Hoje tenho 10% de audição nesse ouvido, segundo uma medição audiométrica recente. Amanhã vou submeter-me a uma intervenção cirúrgica (uma estapedectomia) na tentativa de recuperar a capacidade aditiva daquele lado da cabeça.

    Trata-se de uma cirurgia razoavelmente comum e, segundo me dizem, pouco arriscada. Oxalá. O que me preocupa, de facto, é a possibilidade de recuperação da capacidade auditiva a um ponto que possa incomodar-me. Ser surdo de um ouvido não tem apenas inconvenientes.

terça-feira, abril 12, 2022

Pio tardio

     Se para alguma coisa tem servido a guerra na Ucrânia é para mostrar que não há nesta merda grandiosidade nenhuma. Sangue, tripas, fedor, fumo, ruínas... uma lista interminável de palavras separadas por vírgulas, uma cadeia de palavras com a qual prendemos o mastim da raiva que nos consome o peito. Palavras isoladas, palavras sem frase: morte, violação, óbus, cão, avião, floresta, ruínas... um ideal de civilização despedaçado pela brutalidade da guerra. Nesta merda não há grandiosidade nenhuma.

    Nesta guerra em particular, além da miséria, da dor, do sofrimento, há também doses incalculáveis de cretinice arrogante, gente que disseca os acontecimentos de forma mais analítica que sintética, encontrando sempre uma forma luminosa (e iluminada) de expor a sua visão, provar a razoabilidade absoluta da sua razão; sua ou da facção em que se enquadra que, nestas coisas, sozinhos não somos ninguém (onde haveríamos de oferecer pasto à besta da nossa narrativa?). Gente que vê sempre mais que o seu vizinho que por sua vez vê muito mais que aqueloutro, um crescendo de capacidade interpretativa e visionária capaz de espantar o mais encardido dos burgueses, o mais extraordinário dos heróis da classe operária.

    Com a guerra aqui a "apenas" 4000 quilómetros, ouvem-se perfeitamente os gritos de Deus. Grita agora, Deus, grita agora... como diz o povo, Tu precisas de ouvir: "tarde piaste"!

sexta-feira, abril 08, 2022

Uma questão de narizes

     É uma questão de escala. Se encostar o meu nariz ao nariz da Mona Lisa mantendo os meus olhos abertos vou deixar de lhe ver o contorno do sorriso maroto e fico com o campo de visão ocupado por manchas difusas e incoerentes. Assim acontece com a História.

    Viver o tempo presente impede-nos de perceber os contornos dos acontecimentos. Precisamos de distância temporal e de alguém que reúna e interprete informação pertinente, alguém que nos prepare a papinha e no-la ofereça pronta-a-comer. Seja como for teremos sempre uma visão parcial. A realidade e a verdade são impossibilidades, não só não estão ao nosso alcance, são coisas que não existem.

    Sim, eu sei que esta conclusão é frágil, que haverá um sem número de obras e pensamentos que provam como ando longe de uma ideia clara. Mas isso é a raiz do meu problema: a incapacidade de compreender e abarcar a totalidade dos dados de uma questão extremamente complexa. O meu problema é ter a sensação de que as minhas opiniões são como fumo numa garrafa de vidro e que, quando reflicto sobre elas, é como se retirasse a tampa da garrafa.

    Dou dois passos atrás, afasto-me da Mona Lisa. Na imprecisão do que vejo agora encontro um sentido formal, uma expressão perceptível. O rosto, a pose, as mãos, a inconstante paisagem. Houve um momento em que terei percebido todos os pormenores, todas as linhas, todos os volumes; um momento de afastamento ideal. Mas nem me apercebi dele, tantas as solicitações simultâneas que a imagem colocou aos meus limitados sentidos.

    Uma coisa é perceber o que vejo, outra coisa, muito diferente, é interpretar-lhe o sentido. Talvez seja melhor voltar a encostar os nossos narizes. A visão abstracta da realidade liberta-nos o pensamento ainda que andemos longe (muitíssimo longe) de perceber o que vemos.

quinta-feira, abril 07, 2022

Animalidade

     Tinha o olhar de um pássaro e a brusquidão com que movia cabeça acentuava a sensação de ter parentesco com os pardais ou os papagaios. Pegava num livro e, mal o abria, desfolhava-o rapidamente antes de o largar com a urgência provocada pela necessidade de pegar naqueloutro. A cabeça a saltitar-lhe entre os ombros, como que segura por elásticos.

    Tentei alhear-me da personagem mas não fui capaz de o fazer. Penso que estive sempre à espera que, largado um livro, levantasse vôo e lá fosse, à sua vida, que imaginei tão diferente da minha. Mas não. Entretanto chegou alguém, a sua companhia, e de imediato tudo mudou. O estranho pássaro transformou-se num felino aveludado.

    Tratava-se, afinal, de um camaleão.

quarta-feira, abril 06, 2022

Nada bonito

     Os dias vão passando e a guerra corre o risco de banalização. A distância atenua qualquer dor e, na maior parte dos casos, anula por completo o cagaço. Que medo atroz não corroerá o peito dos cidadãos ucranianos debaixo do fogo que cai do céu! Por estes lados vamos construindo teorias para tudo e um par de botas que possa caber nas discussões geradas pela guerra. Como é fácil, é tão fácil encher a boca de merda sem a cuspir de imediato. Nunca pensei que fosse tão fácil.

    Com tanta informação, tantos jornalistas no terreno, canais de TV que prometem a "guerra ao minuto", andamos para aqui a ruminar violência com a bonomia de vacas açorianas. Agora fala-se muito em manipulação. De opiniões, de imagens, de tudo e mais um pouco. Não creio que a destruição de um país inteiro possa ser encenada. Mas há quem ache isso possível.

    A cena dos crimes de guerra volta à baila. As atrocidades tendem a aumentar com o avanço dos fantasmas da guerra nas mentes e nos corações dos soldados. Ao fim de tantos dias as almas deles estão a ser substituídas por vampiros, lobisomens e outros seres irreais... irreais até ao dia em que ganham a consistência de crimes inumanos.

    Continuo a pensar que a guerra é o maior de todos os crimes. Não há regras que possam ser aplicadas a dois bandos de soldados que pretendem matar-se uns aos outros. O que muitos dos vencedores fazem a seguir ao habitantes locais está a ver-se. E não é nada bonito.

quinta-feira, março 31, 2022

Sombria profecia

     A guerra faz com que tudo o mais se torne quase, quase irrelevante. Na sua voracidade, a besta da guerra, engole tudo o que encontra pelo caminho e mesmo as coisas que não lhe passam à frente apressam-se a precipitar-se-lhe na profundíssima garganta. A guerra tem na pança montanhas de ossadas e de coisas esquecidas.

    As questões ambientais serão das vítimas mais notáveis e menos notadas nos últimos tempos. Envolvidos em lutas encarniçadas e na habitual vertigem consumista (a inflacção ainda é apenas um fantasma em construção) parecemos esquecer-nos das juras de amor que vínhamos fazendo ao Planeta. Qual o significado e o impacto desta guerra descabelada relativamente à Natureza?

    Um dia que se faça o rescaldo da coisa (se esse dia chegar) haveremos de somar esta desgraça a todas as outras que temos vindo a acumular ao longo das últimas décadas. Talvez esse dia amanheça sobre um planeta de horizontes sombrios, ruínas infinitas e ventos inóspitos.

sexta-feira, março 25, 2022

O apocalipse segundo São Merdoso

     E se as bombas voarem, quais aves migratórias, doidas, em todas as direcções? 

    Bombas que se cruzam nos céus da Europa como autocarros em hora de ponta na baixa da cidade. Bombas como formigas nos seus incansáveis carreiros. Bombas que, depois de caírem, cumprindo finalmente o tenebroso destino, serão como pontos finais semeados de forma cirúrgica sobre uma página agora negra, rendilhada com a forma da Europa.

    O déspota terá acreditado cumprir a missão que Deus lhe confiou no exacto momento em que a bomba (a sua bomba particular, a bomba com o seu nome inscrito, aquela bomba estupidamente vingadora), a bomba rebentar pulverizando-o em incontáveis átomos que irão misturar-se na poeira cósmica do mais completo esquecimento. Adeuuuuusssss...

    E o planeta, momentaneamente moribundo, acredita numa lenta recuperação, agora que está menos exposto à cegueira do homem, do homem branco pelo menos, esse que se varre a si próprio da crosta terrestre; Deus Pai vencido pela Mãe Natureza. O Grande Deus Branco enfiado no buraco por aqueles que O inventaram.

    Os velhos deuses irão regressar um pouco por todo o Mundo, livres da sombra pesada e negra do Deus opressor, o Deus único e absoluto, morto e enterrado com as suas bolsas de valores e iates de luxo, as suas catedrais de consumo e os seus papas dourados, o Deus da opulência desmesurada que matou e destruiu milhões de seres humanos de todas as cores, formas e feitios, a brutalidade gananciosa do monstro enfim derrotada e pronta a ser esquecida na imensidão do Cosmos. 

    Aleluia!

    (espero sinceramente que as bombas não voem mas adorava assistir à queda do déspota e do seu Deus: o Deus da Fúria, o Deus da Guerra, o Deus da Ganância)

quinta-feira, março 24, 2022

Pessoas

    Há pessoas que brilham. Quando sorriem, quando olham em frente, concentradas, distraídas, há pessoas que brilham. Pessoas que te fazem feliz, de quem sentes falta e que, quando regressam a ti, são momentos de felicidade. Há pessoas assim.

    Há pessoas obscuras. Caladas, sombrias, pessoas que sugam a luz e a transformam em dor e inquietação. Pessoas que te fazem sofrer, de quem não sentes falta nenhuma. Há pessoas assim.

    Há pessoas tansparentes. Pessoas que nunca estão aqui. Pessoas que não são brilhantes nem obscuras. Há muitas pessoas assim.

quarta-feira, março 23, 2022

Versando a merda

    Tem dias. Tem dias em que me apetece esganar uma série de pessoas virtuais. Raramente tenho ganas de apertar o gasganete a pessoas reais. Mas também acontece. Penso que esta diferença de atitude tenha a ver com a forma como cada um me aparece à frente ou algo que com isso se pareça. Mas sim, a paciência perde-se, a paciência também se perde. Como se perde um molho de chaves ou se perde o juízo. É fácil.

    Uma vez perdida a paciência entramos no domínio do delírio. É como dar velocidade a um monte de merda com 100 quilos (ou 2200 ou 5005, qual o peso a partir do qual um monte de merda se descontrola?) e esperar que aquela gente que está lá em baixo, ao fundo da ladeira, não fique muito salpicada com a porcaria resultante do embate. Já perdemos o controle, não adianta nada estar a desejar o que quer que seja. A merda vai acontecer.

    A verdade é que devemos tentar evitar o descontrolo, evitar a rebentação do monte da merda. Se não queremos sujar o mundo não devemos fazer o primeiro gesto, empurrar o balde de merda é má ideia. Isto não é ser moralista (embora não veja grandes problemas com o moralismo), isto é ser higiénico. Como o papel.

    

sexta-feira, março 18, 2022

O mundo de relance

     Vivemos durante anos imaginando que as nossas sociedades democráticas evoluem continuamente em direcção a uma certa ideia de perfeição. Essa perfeição engloba, entre outros valores e ideais, a defesa das minorias, a liberdade religiosa e de expressão, o estado social, uma distribuição da riqueza progressivamente mais justa.

    A justiça básica destes valores parece-nos inquestionável, logo irrefutável. A esmagadora maioria dos cidadãos estaria de acordo com esta evolução em direcção ao paraíso na Terra. Assim sendo, tornou-se quase desnecessário lutar por aquilo em que acreditamos. O natural desenrolar da História haveria de encarregar-se de ir colocando cada coisa no seu devido lugar.

    Mas, na verdade, nunca foi bem assim. Há uma luta constante, uma imparável necessidade de estar atento, reivindicar, questionar, tomar partido e nunca desistir de fazermos aquilo que é, para nós, correcto. Surpreendentemente, ou talvez não, surgem todos os dias adversários que põem em causa a justeza dos nossos ideais e dos nossos valores. Mais surpreendentemente ainda esses adversários são eleitos pelas populações. 

    Temos, espalhados pelo mundo, autocratas e candidatos a tiranos que governam a vida de milhões, que são apoiados e idolatrados pelos que os elegem, que são inimigos dos nossos ideais e dos nossos valores. Põem em causa os direitos das minorias, segregando-as, impõem uma religião perseguindo aqueles que acreditam noutros deuses, calam e reprimem as vozes discordantes, fomentam a desigualdade social e concentram a riqueza nas mãos de supostas elites que vampirizam literalmente milhões de deserdados da sorte.

    As democracias estão em perigo.

quinta-feira, março 17, 2022

Responsabilidade (absoluta insegurança absoluta)

 
     Escolher trabalhos para uma exposição é uma estranha tarefa. De cada vez que chego a um consenso comigo próprio sobre quais deverei seleccionar, imediatamente sou acometido por uma nuvem de dúvidas que me enxameiam o juízo numa forma difícil de suportar. Porque me sinto tão inseguro?

    Talvez tenha expectativas demasiado altas em relação a mim, à minha persona artística, ao meu trabalho, talvez seja isso ou o seu contrário. A verdade é que decidir sobre o que expor se revela algo próximo da tortura. Imagino que um curador seja desejável nestas circunstâncias: alguém que decida por nós, alguém que suporte o fardo da decisão. Não seria mal visto, não senhor.

    Na minha condição de artista amador não posso aspirar a muito mais do que isto mesmo: responsabilidade e absoluta insegurança absoluta.

segunda-feira, março 14, 2022

E a morte?

     Terá dito Leonardo de Vinci que "a pintura é uma coisa mental". Mais isto menos aquilo, consideremos que sim, que o mestre terá dito que a pintura é uma coisa mental. 

    Conta-se que a frase lhe terá saído após uma queixa dos monges do convento de Santa Maria delle Grazie que reclamavam do facto de ele passar mais tempo embasbacado a olhar para a parede do que a mexer em pincéis e tintas. Será uma das muitas anedotas que se contam sobre pintores e pintura mas deixou uma marca muito profunda no modo como imaginamos que a produção artística se movimenta numa espécie de fronteira entre este mundo e um outro, no qual as formas se encontrarão em estado puro.

    Esta manhã ia caminhando pelo parque quando me veio à cabeça esta frase e, por arrasto, a questão que ela encerra. Especado perante uma árvore tentando captar-lhe a forma, as subtis diferenças de cor e de tom que a luz matinal proporcionava ao meu olhar, pensei na famosa questão: estaria eu, naquele momento, a pintar?

    Entre aquilo que imaginamos e aquilo que pintamos está o nosso corpo. Nem sempre a ideia encontra correspondência na forma, as nossas limitações impedem que a coisa seja tão perfeita quanto a imaginamos. Quando pintamos perseguimos uma ideia, uma espécie de sonho, que se nos adianta sempre, que raramente conseguimos alcançar. Pintar é mais ou menos como pretender atingir a linha do horizonte numa paisagem interminável: dirigimo-nos para ela mas nunca a alcançamos; é o horizonte, caraças!

    Desci a rua em direcção a casa e pensei que, na verdade, tudo é uma coisa mental. Até a vida. Mas... e a morte?

sexta-feira, março 11, 2022

Isolamento

     As coisas normais já não faziam sentido. Sentado numa esplanada manhosa olhava os carros que rolavam na rua alcatroada com se fossem barcos deslizando nas suaves águas do rio. Uma cerveja fresca, outra, uma mijadela na casa de banho. Enquanto lavava as mãos olhou-se no espelho.

    A face reflectida pareceu-lhe estranha, pouco familiar. Deveria ser ele próprio mas, de um modo subtil, era uma outra pessoa. Os traços faciais permaneciam inalterados mas aquela expressão... parecia-lhe de uma outra pessoa. Tirou dois toalhetes de papel e secou as mãos o melhor que foi capaz. Saiu para a rua.

    Os carros continuavam a rolar, uma chuva miudinha ia molhando tudo incluindo os tolos. Caminhou sem destino prévio sabendo que, quando chegasse a algum lado, estaria acompanhado por aquele novo habitante que transportava dentro de si. Nunca mais se sentiria isolado.

quinta-feira, março 10, 2022

No país da ditadura

     Sei que a minha opinião é manipulada. Não sei se essa manipulação é deliberada ou se decorre,inocentemente, do facto de eu ir recolhendo dados de forma mais ou menos aleatória que são filtrados por agências noticiosas antes de me serem fornecidos. Este processo resulta confuso e permite-me criar uma visão dos acontecimentos muito pessoal e muito pouco objectiva. Eu sei que é assim e sei que é assim com todas as pessoas que, como eu, vivem a sua vida num lugar pacífico como é Portugal.

     Tenho uma nítida percepção da fragilidade das minhas opiniões. Talvez por isso não as defenda de forma particularmente apaixonada; até porque é frequente que novos dados alimentem dúvidas que vêm inquietar as minhas pseudocertezas. A dúvida alimenta-me o quotidiano.

    Apesar de tudo, adoro uma boa discussão. As melhores discussões são as que mantenho com pessoas que têm a mesma postura que eu, pessoas capazes de duvidar de si próprias, capazes de introduzir novos dados na discussão, por vezes de forma caótica, pessoas capazes de deixar vaguear o raciocínio até chegarem a lugares inesperados, formulações imprecisas, pensamentos imperfeitos; pessoas para quem tudo o que é necessário é que a discussão continue.

    Quando alguém atinge o estado petrificado da certeza absoluta, quando alguém está convencido de que a sua perspectiva do mundo não admite qualquer tipo de dúvida, não há discussão possível. Quando isso acontece estamos no país da ditadura.

terça-feira, março 08, 2022

Um mundo pior

     Penso que queria falar de outra coisa, não tenho bem a certeza. Não tenho a certeza sobre o que queria falar nem se aquilo que vou dizer é ou não acerca de uma outra coisa, acerca de um assunto diferente. A guerra, a guerra, a guerra, não nos sai da cabeça e aos ucranianos não lhes larga o pêlo. Confuso? Também acho.

    Desde que a guerra na Ucrânia estalou penso de vez em quando no que aconteceria se Trump ainda fosse presidente dos EUA. Ele diz que estivesse ele de cu postado na cadeirona da Casa Branca, Putin não se atreveria a invadir o país vizinho. Tretas.

    Trump vai dizendo as maiores enormidades sem que lhe caia a peruca. Como não conseguiu torcer por completo o mundo em que vivemos, criou a sua própria rede social onde a verdade é  o que ele quiser. Desse lugar imponderável não tenho tido eco, já dos seus discursos "live" tenho lido ou ouvido isto ou aquilo (ver aqui últimas enormidades). É aterrador imaginar que esta besta poderá ser reeleita dentro de alguns anos.

    Peço-te agora, amigo leitor, que faças um pequeno exercício masoquista. Imagina o mundo dentro de 3 anos. Putin e Xi Jinping serão líderes dos seus países (a menos que Deus exista e resolva atirar-lhes uns raios que os partam). Kim Jong-un continuará a reinar na Coreia do Norte. Nas arábias nada mudará. E, cereja no topo do bolo, um Trump reeleito nos EUA.

    Voltando ao início deste post, não sei se imaginar isto tem qualquer tipo de relação com a guerra na Ucrânia. Sei que tem a ver com um mundo pior, um mundo muito pior...


domingo, março 06, 2022

A guerra é a guerra

    Crime de guerra? O que pode ser isso? A guerra, em si própria, é o maior de todos os crimes. Um “crime de guerra” faz pouco ou nenhum sentido. O que esperamos de soldados que entram em combate? Que respeitem o inimigo que desejam matar? “Desculpa lá inimigo, eu não queria fazer isto mas prometi lealdade ao meu país, ao meu líder, ao meu povo, prometi lealdade a tudo menos a mim próprio, vou matar-te mas, acredita, faço-o terrivelmente contrariado.” PUM!  

    Se um soldado assassinar um civil a tiro é um crime deliberado. Se matar uma mão-cheia de civis disparando um míssil transviado teve azar. Simplesmente. 

    Anuncia-se que há pessoal do Tribunal Penal Internacional a viajar para a Ucrânia na tentativa de recolher provas de possíveis crimes de guerra. Muito sinceramente parece-me a coisa mais inútil de entre o rol interminável de coisas inúteis relacionadas com a guerra. Com esta ou com outra qualquer. O que se espera? Levar a tribunal os responsáveis por mais esta carnificina? Ponham o Putin na fila, há mais uns quantos assassinos em massa à frente dele mas jamais algum será julgado.      

    A força exerce-se sobre os fracos.

sexta-feira, março 04, 2022

Culpa

     Não, não! Não era aquilo que havia imaginado. Tudo correra mal e o resultado vergonhoso estava ali, diante dele, como uma cicatriz indisfarçável, impossível de ignorar. O que fazer agora? Como explicar a quem quer que fosse os tortuosos caminhos que o haviam conduzido até ali, até ao desastre absoluto?

    Arrepelou os cabelos puxando-os para a nuca, sentiu uma transpiração miudinha, um rubor que não conseguia perceber: vergonha? Fúria? Largou o corpo numa estranha dança toda feita de gestos tensos, braços para um lado, pernas para o outro. Agachou-se. 

    No chão, entre areias e poeiras, um carreiro de formigas executava alguma tarefa conjunta no seu característico passo apressado; "putas das formigas!" pensou.

    E destruiu o carreiro, pisando, saltando, pontapeando, todas as formigas foram exterminadas. Enquanto limpava o sarampo aos insectos na sua demência insecticida alheou-se da angústia que sentia. Por momentos imaginou que tudo estava resolvido. Rapidamente se apercebeu que não, que estava tudo exactamente na mesma. A culpa fora sua.

quinta-feira, março 03, 2022

Ser pelos fracos

    As reacções à guerra na Ucrânia têm estranhos contornos. As pessoas vão-se dividindo, umas a favor, outras contra, creio que poucas ficarão indiferentes. Há uma certa necessidade de declararmos a nossa posição e, nesta guerra, talvez por ser na Europa, poucos são os que não escolhem um dos lados. A neutralidade tem aspecto de vaca magra.

    Pessoalmente sinto uma profunda aversão em relação a Vladimir Putin, já várias vezes declarada aqui no 100 Cabeças. Quanto aos líderes ucranianos não posso dizer que morra de amores por eles mas não consigo ficar indiferente à agressão de que estão a ser vítimas. Haverá muitos telhados de vidro sobre o território da Ucrânia, acredito piamente, mas como aceitar a brutalidade agressiva do urso russo? Nesta guerra tomo o lado dos mais fracos, como sempre. Sou pelos fracos.

    A forma como os meus amigos comunistas se enfileiraram ao lado do carrasco russo deixou-me incomodado. Agora vêm dourar a pílula, jurando a pés juntos que são contra a guerra (serão pacifistas?) que nunca apoiaram a passagem do rolo compressor da máquina guerreira de Putin pelo território ucraniano, etc. e tal. Mas a sensação que fica, porventura ampliada pelos mass media, é a de que se trata de jogo de cintura tentando fugir com o rabo à seringa. O ódio (tal como o amor) à NATO faz razia no bom senso.

    Nestas coisas há muita fé à mistura. Precisamos de acreditar numa narrativa que nos é oferecida. As questões que colocamos dificilmente obtêm respostas inequívocas, caem sobre nós palavras inflamadas, pancadas no peito e vozearia tonitruante. Ficamos impressionados, tendemos a acreditar. Mas não sou capaz de deixar de pensar que em estado de guerra, tal como na religião o reino do céu, é aos pobres de espírito que está prometida a verdade.

segunda-feira, fevereiro 28, 2022

Dos monstros

    Os monstros não são  apenas aqueles que te querem comer; os monstros são também aqueles que te desprezam mas te lambem com volúpia.

sexta-feira, fevereiro 25, 2022

A matrioska

     E pronto, está feito, Putin deu ordem de invasão da Ucrânia. A guerra regressou à Europa. Incomodam-me aqueles que tentam encontrar uma justificação para este acto tresloucado. Nada justifica que se dê início a uma guerra.

    Putin argumenta com neonazis na Ucrânia, ele que apoia todos os neofascistas que vão emergindo no interior dos países da União Europeia. Se não fosse o cinismo da personagem até poderia ser argumento para uma comédia de mau gosto.

    Talvez a ambição de Putin seja mais complexa do que apenas dominar a Ucrânia. Talvez ele queira criar uma sucessão de pequenas rússias, Europa fora, dominadas pelos seus admiradores fascistas. Uma espécie de matrioska de onde vão saindo putins cada vez mais pequeninos, escondidos dentro do grande Putin, o guardião da ordem e da moral histórica.

    A paz levou uma tremenda bofetada.

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

(des) Informação

     Não há como fugir ao tema do momento: a iminente guerra na Ucrânia. Os meios de comunicação social já vão deixando em plano secundário questões como a pandemia, o racismo latente ou a ausência de Governo que se veja. Importa a guerra, a guerra, a guerra!

    Até aqui temos assistido à guerra da informação (mais propriamente, da desinformação). O cidadão encontra-se num fogo cruzado de notícias, opiniões, factos e factóides, reportagens em directo do local onde a coisa aquece; todos o ângulos são analisados, todos os sinais são interpretados, nada parece escapar ao olhar clínico de tanta gente entendida. A metralha assobia à volta das nossas cabeças.

    Assisto a tomadas de posição cada vez mais acaloradas. Amizades são postas em risco porque Putin é um autocrata ou a NATO uma organização ao serviço do imperialismo americano, como se uma coisa ou outra fossem justificação para uma guerra. Lá, na Ucrânia, vai haver mortes violentas, sofrimento atroz, a civilização degradar-se-à um pouco mais, os nossos sentimentos mais básicos e primários, os nossos reflexos reptilianos, terão expressão palpável.

     Toda esta discussão me enfastia e desinteressa. Por cá as pessoas continuam comodamente sentadas discutindo através dos computadores (já nem se encontram na tasca para beber um copo e pôr a conversa em dia), todas pretendem ter razão, fazer valer o seu ponto de vista, acreditar piamente na verdade que construiram. Por lá decerto não é bem assim.

terça-feira, fevereiro 22, 2022

A Grande Puta

     A Grande Puta está de regresso. Ei-la, envolta nos seus cinco opacos mantos: inocência, justiça, castidade, beleza e terror; a guerra avança, festiva, para o coração da Europa. Havia saudades.

    Todos os que podiam evitá-la parecem desejar a sua presença, fazem-lhe a corte, mostram-lhe os dentes ora em sorrisos abertos ora em esgares assustadores. A Grande Puta está feliz e pavoneia-se nos meios de comunicação arrastando atrás de si legiões de imbecis que pretendem saber ao que ela vem, o que a motiva. Cavam-se trincheiras, escolhe-se o lado que se há-de defender. A Grande Puta ri-se.

    Nada a fazer, o mundo é dominado por mentecaptos, adoradores da deusa Economia, mãe do bastardo Dinheiro, essa divindade menor no panteão mas não menos adorada pela populaça babosa de raiva e cega pelo esplendor da bestialidade que a anima.

    A Grande Puta está de regresso. Nada de bom podemos esperar.

sexta-feira, fevereiro 18, 2022

Em fuga do jardim do Marajá

      Fugir da normalidade ou fugir em direcção a ela? Onde está a fronteira, não a vejo!? Vagas sensações semelhantes a recordações de sonhos assaltam-me o peito, enrolam-se-me no cérebro. Não sei se também te acontece, acordado leitor, estar por vezes assim, num momento em suspensão, nem cá nem lá, talvez nem mais nem menos. Não sei se também sentes esta semelhança entre o sono e a vigília, talvez mesmo entre a vida e a morte.

    Estes momentos têm uma duração tão curta, são de tal modo escorregadios, que não consigo nunca enquadrá-los devidamente. Não sou capaz de perceber se aquilo aconteceu num sonho, se foi facto ocorrido neste mundo, mas tenho a certeza que aconteceu. Aquilo aconteceu algures no tempo, em algum espaço.

    Fugir da normalidade ou fugir em direcção a ela? Porquê fugir? Sentir-me-ei acossado? Receio eu alguma coisa? Estas perguntas terão respostas adequadas mas, talvez, demasiado incómodas; evito procurá-las. Por vezes penso que quando desenho ou pinto, mesmo quando escrevo, estou a tentar fixar aqueles tais momentos indefinidos da melhor maneira que sou capaz de fazer. Raramente (nunca!?) consigo.

segunda-feira, fevereiro 14, 2022

Insuportar

     Estou em crer que, bem lá no fundo, todo e cada um de nós é uma pessoa insuportável. Se tivermos de partilhar a nossa existência com outras pessoas ao longo de todos os dias de cada semana que passa, a convivência haverá de atingir pontos de difícil equilíbrio. O problema não será o "eu" ou o "outro", o problema será aquilo que nasce entre nós e que nos é, na verdade, exterior, embora nem sempre sejamos capazes de o compreender. 

    Essa incompreensão poderá ser fruto de sentirmos o incómodo tão dentro de nós. O facto de se nos alojar no peito, no coração, nas veias, de nos transformar a respiração em angústia, muito contribuirá para não sermos capazes de compreender a raiz do problema. 

    A raiz do problema é a proximidade... é a convivência... é o cheiro... é a palavra... seja a palavra a mais, seja a outra, a palavra que foi a menos... a raiz do problema é não sermos capazes de perceber qual é, afinal, o problema. Tanto posso ser eu como pode ser o outro ou nenhum dos dois.

    Lá no fundo, lá no fundo, todo e cada um de nós é uma pessoa insuportável. Basta haver outra pessoa, nem precisam ser duas.

domingo, fevereiro 13, 2022

Felicidade (por favor, não vá embora)

     Será a felicidade algo a que possamos aspirar? 

    Primeira questão a responder: o que é isso, a felicidade? Mmmmh, resposta difícil, raciocínio complexo, a cabeça a andar à roda, tonta, tontinha, sem saber se está a pensar ou a fingir que pensa. Que raio é isso, a felicidade?

    Segunda questão (mesmo que a 1ª tenha resposta inconclusiva): pode a felicidade durar no tempo? Ora porra, se a 1ª questão já vinha armadilhada, ainda que não tenha explodido, que dizer desta 2ª? Pode durar, sim,e pode não durar, não. Mas que porra de perguntas são estas e porque estarei a colocá-las? Prefiro não responder. 

    Desculpa, paciente leitor; se estou a parecer um imbecil, a não fazer sentido, pára já aqui. O que segue não melhora.

    Há questões que talvez não devêssemos colocar. Questionar a felicidade dificilmente poderá ter resultados que não contribuam para a pôr em causa, senão mesmo destruí-la. Talvez a felicidade necessite de alguma simplicidade de espírito para poder medrar. Se posta em causa tende a murchar de imediato, estou em crer.

    Imaginar o tempo que pode a felicidade durar é ainda mais estúpido. Resta-me (resta-nos?) pedir com jeitinho: felicidade, não vá embora. Caso ela se mostre indiferente poderei (poderemos?) acrescentar um "por favor" bem educado e talvez tenha (tenhamos?) sorte. Talvez a felicidade fique. Mas, para que tudo isto possa acontecer, é preciso perceber, é preciso saber o que é isso, a felicidade.

    Eu bem te avisei lá mais atrás, descuidado leitor, que deverias ter parado de ler este post.

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

Transcrição

    Estava eu a ler a "Meditação na Pastelaria", crónica semanal de Ana Cristina Leonardo no Ípsilon, suplemento do jornal Público, quando me deparei com uma citação de um humorista norte-americano, um tal Lewis Black, que não resisto a transcrever. Mesmo que seja apenas mais uma ou sejam duas pessoas a ler isto, entre os quais te contas tu, divertido leitor, dou o meu tempo por bem empregue.

    Terá dito, então, Lewis Black: "Pessoas que acreditam que Deus fez o mundo em seis dias, quando vêem um episódio de Os Flinstones pensam estar a assistir a um documentário." Tive que rir.

quinta-feira, fevereiro 10, 2022

Espécie de Manifesto

     Acredito que a Arte não nos salva mas pode fazer de nós melhores pessoas.

    Acredito que reflectir sobre o Fenómeno Artístico não faz de nós nenhuns einsteins mas pode tornar o nosso olhar um pouco mais brilhante e profundo no seu entendimento do mundo que habitamos.

    Acredito que exercer algum tipo de actividade no campo da Criação Artística não exige de nós nada de transcendente, apenas que sejamos suficientemente inteligentes ao ponto de libertarmos a nossa sensibilidade.

    Acredito que a Ética e a Estética são duas faces da mesma cabeça e procuram ambas um certo sentido de equilíbrio que torna as coisas potencialmente belas. 

    Acredito em tudo isto e muito mais. Acredito. Sinceramente, acredito.

quarta-feira, fevereiro 09, 2022

Manhã ensolarada

     Esta manhã vi tantas pessoas abatidas que as ruas da Cova da Piedade mais pareciam um campo de batalha. Nem o sol era capaz de disfarçar a angustiante tristeza dos transeuntes. Um deles, encostado a uma parede suja, olhava o prédio em frente como se observasse o resultado de um bombardeamento acabado de acontecer. Um outro, máscara cirúrgica sob o queixo por barbear, arrastava-se com os dedos fincados numas canadianas. Parou por momentos, parecendo hesitar se haveria de dobrar a esquina.

    Até os cães tinham um aspecto miserável. Pareciam tão velhos como tudo o resto: as pessoas, os automóveis, os edifícios, tudo estava gasto e coberto por uma estranha patine, como se a cada minuto correspondesse muito mais tempo. Senti o meu corpo mais pesado, arrastei os pés e fechei os olhos. Por momentos receei abri-los. Acabei por retomar o meu caminho em direcção à papelaria onde contava comprar o jornal.

    Mais tarde, sentado na esplanada repleta de pessoas barulhentas, apesar de estar ainda na Cova da Piedade, toda aquela tristeza me pareceu demasiado longe de ter acontecido. Agora, o brilho do sol sobre os objectos conferia-lhes contornos precisos, revelava um mundo perfeitamente desenhado;  tudo estava no seu devido lugar, tudo arrumado com uma aparente indiferença rigorosa. Este lugar não é bonito mas é um lugar verdadeiro.

sexta-feira, fevereiro 04, 2022

Ocupação selvagem

     Hoje acordei com outra pessoa a habitar o meu corpo. O espaço revelou-se suficiente para os dois mas senti-me deveras incomodado. Tentei expulsar o meu novo locatário mas ele mostrou-se bem mais sólido do que esperava.Ficou. 

    Agora não tenho bem a certeza de que estas palavras sejam minhas ou de que o copo de água tenha matado a minha sede. Não tenho a certeza de nada; ainda menos certezas tenho do que antes de ter sido ocupado por uma personagem que não conheço, nem imagino quem seja.

    Não sei se me resigne, se me mate ou se deva procurar um psiquiatra ou um feiticeiro ou um bruxo ou um mestre africano, um doutor qualquer. Olhar o espelho não ajuda grande coisa. Entrar numa igreja e rezar também se revelou um estratagema pouco eficaz. Não sei o que mais possa fazer.

    Sinto-me como se estivesse na inauguração de uma exposição onde só conhecesse o artista que está demasiado ocupado para poder dar-me atenção. Só que, neste caso, ir embora não é possível. Apesar de tudo sempre posso ficar calado, encostado a um canto de mim próprio. E esperar.

quarta-feira, janeiro 26, 2022

Tocar como Midas

     O tão celebrado "toque de Midas" mostra bem a estupidez que reina sobre os nossos destinos. A maravilhosa capacidade de transformar em ouro tudo aquilo que a mão toque é, na verdade, uma tremenda maldição para quem a possua. O "toque de Midas" é uma sentença de morte para o seu portador e um risco terrível para quem dele se aproximar. Comer ouro não é possível, conviver com estátuas de ouro um infinito aborrecimento. O "toque de Midas" é um toque mortal.

    O próprio Midas implorou aos deuses que o livrassem daquela maldição mas a nossa sociedade continua a valorizar o dito toque. Somos burros? Sim, somos. Muito burros mesmo. Perante o brilho do ouro tendemos a ficar embrutecidos, a ganância devora-nos a razão. 

    A moral deste mito poderá estar relacionada com a voracidade infinita dos poderosos e a sua infinita capacidade para querer mais e nunca se darem por satisfeitos, mesmo que detenham uma fortuna impossível de quantificar. O mundo está cheio de reis Midas cujo toque transforma as vidas de milhões de pessoas em calvários de miséria.

    Midas não transforma em ouro tudo o que toca. Midas transforma tudo numa mistela de merda, dor e miséria. Este é o verdadeiro dom dos que tocam como Midas.

sexta-feira, janeiro 21, 2022

Amanhã

     Organizar o tempo que há-de vir é tarefa para atenuar as dores causadas pelo presente que se vive. Se o dia de hoje se apresenta pouco prometedor podemos sempre pensar no dia de amanhã, imaginar o mês que vem, apontar no calendário, rabiscar na agenda, esboçar o futuro é calmante.

    O facto de podermos desaparecer pelo caminho nem sequer nos ocorre. Planear o futuro confere-nos um levíssimo perfume de imortalidade, uma garantia de que haverá tempo para lá da noite que se avizinha. E algo para preencher esse devir.

    Como diz a canção dos Ornatos Violeta: "ouvi dizer que o mundo acaba amanhã e eu tinha tantos planos pra depois..."

segunda-feira, janeiro 17, 2022

Imaginação ruminante

    

Saudade morta; técnica mista, tamanho A3; Janeiro de 2022

    A coisa nem sempre é fácil, por vezes é mesmo bastante difícil. Partir para cima de uma narrativa visual sem qualquer plano pré-determinado poderá parecer uma insensatez. Na verdade não é. Na verdade isso faz parte de um processo. Chamo-lhe "hibridização anárquica" e expliquei-o aí atrás num post qualquer (fui procurar e encontrei esse tal post no dia 30 de Julho de 2009!). Releio o texto e fico satisfeito. Parece-me que o processo fica bem explicado.

    Entretanto passaram 12 anos e picos sobre o texto referido e continuo a produzir imagens seguindo o mesmíssimo processo. Criar imagens sem pretexto é uma actividade que me apaixona. Normalmente sou uma pessoa pouco aventureira, gosto de ficar por casa, sou um tipo dado a confinamentos. Se não tiver outras  metas a atingir posso fazer 2 ou três desenhos num dia... ou não fazer nenhum ("ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro pra ler e não o fazer").

Diversos títulos; à esquerda a matriz criada segundo o processo de hibridização anárquica em tamanho A3, os outros 2 desenhos são em suporte de papel com 50X65 cm, o do centro a canetas de gel, o da direita com tinta da China.

  Os produtos deste processo anárquico acabam por estar na origem de trabalhos muito mais ordenados, feitos a partir de projecções de fotos que tiro aos ditos desenhos selvagens. Aí a questão coloca-se muito mais ao nível da técnica. Algumas coisas podem ser alteradas (normalmente há alterações) outras acrescentadas. É uma anarquia mais suave.

    Tudo isto é fruto de uma sensibilidade sem freio, deixada a pastar nos prados imensos da imaginação. Uma sensibilidade ruminante e pascácia que me faz pensar sobre a vida intelectual das vacas e das ovelhas. Serão animais assim tão desinteressantes?

domingo, janeiro 16, 2022

Incapacidade

     Por vezes sinto a falta de Fé. Se bem me lembro houve um tempo em tive Fé, penso que em Deus. Hoje não tenho Fé nenhuma, pelo menos nada que possa perceber dentro de mim. Talvez por ser algo que perdi há tanto tempo não lhe sinto grandemente a falta, nem me sinto órfão por não conhecer Aquele que é, em princípio, o meu Deus. Diz o povo que "quem não sabe é como quem não vê".

    Imagino que a minha falta de Fé seja responsável pelo pouco crédito que dou aos que batem no peito durante a missa, que vejo como gorilas em busca de consolo para a sua bestialidade. Quero crer que alguns desses desgraçadinhos instantâneos sejam sinceros e acreditem, de facto, naquele ritual. Também me custa muito imaginar um Deus burocrata, de livrinho em punho, registando o deve-e-haver dos nossos pecados.

    Bem que gostava de ter Fé em Deus, a sério que gostava. Mas não sou capaz.

quarta-feira, janeiro 12, 2022

Eternidade

     É duvidosa a qualidade daquilo que nos é oferecido embrulhado em papel rasqueiro, com o laçarote abatido e as cores comidas pela luz do sol. Pelo embrulho não há ali grande promessa. Um a um vamos evitando deitar-lhe a mão, ninguém quer desfazer o laçarote. Uns assobiam para o ar, outros distraem-se com uma mosca que passa. Mas a coisa está ali. Misteriosa, escondida no meio da sala à vista de toda a gente. Indesejada...?

    Sentado de costas para o embrulho tento desesperadamente alhear-me dele. Mas é complicado. Sinto passos atrás de mim. Será que é agora que vai ser aberto? E se for aberto, o que estará lá dentro? Transpiro um pouco. Não há qualquer som que se assemelhe ao rasgar do papel. Sapatos na alcatifa, peidos nas calças, arrotos nas gargantas... pouco mais.

    Se o  embrulho fosse bonito, se a coisa tivesse um aspecto apetitoso, decerto já alguém haveria reclamado a sua posse. Sinto um impulso. Sinto que não virá mal ao mundo se me levantar dando meia volta, encarando o pacote, avançando para ele. Sinto que poderei rasgar o papel, abrir o embrulho e apoderar-me do que quer que ele contenha. Em princípio, caso o conteúdo seja insuportavelmente repulsivo, poderei sempre rejeitá-lo. Mas, tal como veio assim se foi o impulso.

    Olho de soslaio dois ou três figurões que me estão próximos. Eles olham-me do mesmo modo furtivo. Estamos nisto vai para uma eternidade.

domingo, janeiro 09, 2022

Ambições

     Estando o ano no seu início um gajo tem um ou outro momento de paragem em que lhe dá pra pensar. Pensar na vida, talvez, ou pensar numa coisa qualquer (que acaba sempre por ter a ver com a vida, caso contrário um gajo estaria a ter pensamentos de pessoa morta). Então foi aí que pensei: "sou um artista, ou lá o que sou... um pintor!" pensei um bocadinho melhor no que faço para viver e reformulei: "aquilo não são bem pinturas e eu, bem vistas as coisas, não sou bem um pintor". Pois não.

     Nem pinturas, nem pintor. Desenhos e professor e será tudo muito mais justo, como uns slips no lugar de uns boxers. Pode alguém ser quem não é? Pergunta o Sérgio Godinho. Ser, ser, acho que não, mas pode parecer (que muitas vezes é ainda melhor do que ser), respondo eu, que estou a matutar no Sentido da Vida a ver se descubro alguma promessa de Ano Novo que seja coisa que me não envergonhe. Mas não sai nada. Estou com prisão de mente.

    A páginas tantas já me sinto enfastiado de estar a fingir que sou capaz de me interessar pelo futuro. Não sou. Nem sequer sou capaz de ser ambicioso. Digo eu. Um copito de tinto e uma bela fatia de presunto já me deixariam sorridente. Isso e o meu pai bem disposto, a minha filha sempre jovem e a minha esposa sempre linda e jovial. Ah, caraças, afinal sou muitíssimo ambicioso!!!

sábado, janeiro 08, 2022

Palestrando

     O homem mantinha-se vertical, aparentando uma solidez invejável. Os seus braços desenhavam suaves arabescos e a voz, profunda como o eco de um poço, produzia um efeito hipnótico arrebatador. Na sala todos se sentiam maravilhados. Todos, excepto o homem que se mantinha vertical e desenhava com os braços suaves arabescos.

     As pessoas sentadas em filas de cadeiras perfeitamente alinhadas apresentavam excêntricas deformidades: tentáculos, guelras arquejantes, olhares desorbitados, dentuças amarelentas, beiços salivantes. O homem produzia um esforço sobre-humano para manter a compostura, não perder o fio narrativo, conseguir falar, não gritar, não fugir, não matar.

    A palestra durou exactamente uma hora, conforme o previsto. Quando terminou, o palestrante, ouviu os aplausos e ficou surpreendido por ver que todos os presentes tinham um par de mãos que batiam com maior ou menor entusiasmo. Uma senhora vestida com extraordinário bom gosto sorriu-lhe de uma forma especial. Ele sorriu de volta.

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Virar páginas

     Começa um ano novo e toda a gente desata a virar páginas. Imagino que as virem no sentido do fim da narrativa que estão a seguir, sim, porque podemos virar páginas voltando para trás. Da parte que me toca prefiro conceber a minha história numa única página. Uma página grande, imensa, toda riscada com um diagrama caótico e confuso, repleta de pequenos textos, desenhinhos, setas para cima e para baixo, espirais ascendentes, manchas indefinidas, eu sei lá, uma página que seja um mundo, o meu mundo.

    Há dentro de mim discretos desejos que espreitam por detrás de vícios antigos, outros tentam não incomodar os meus sólidos e gordos preconceitos. Sinto o sopro de ténues possibilidades de mudança que, bem vistas as coisas, não dependem tanto da passagem do ano, antes vão brotando de uma passagem do tempo mais vasta, indiferentes às páginas do calendário, agarradas aos ponteiros de relógios  pendurados nas paredes da minha imaginação.

    Se a minha imaginação tem paredes é bom que lhes abra amplas janelas.

    E pronto: cada dia uma página virada, cada promessa uma página a virar, cada mentira uma página rasgada. Imaginamos a nossa vida como se fosse um livro. Quando os livros desaparecerem por completo as vidas dos nossos descendentes serão muito diferentes. Decerto não haverá virar de página no final de cada ano, talvez nem haja nada para ser virado, talvez tudo se organize numa linha recta infinita, como a Recta dos Números. Ou talvez não.