sexta-feira, fevereiro 17, 2023

Pergunta estúpida

     Pois, olhar para dentro de nós, não é? Como se a alma fosse um espelho, como se pudéssemos contemplar o interior difuso de que somos feitos. Sentimentos, sensações, memórias. Ah, sim, dissecar a alma com o bisturi da sinceridade. Havia de ser bonito. 

    Suportar a densa banalidade que a solidão ajuda a fabricar e, ainda assim, manter uma humanidade à prova de bala. Ser capaz de ignorar a vontade de atirar boca fora um ou outro impropério, manter a calma olímpica própria de uma divindade amestrada. Possível, sim, mas desejável?

    Queremos ser ovelhas ou preferimos vestir a pele do lobo? Estúpida pergunta que não merece resposta. Cada um de nós é herói no seu próprio filme. Uns dias come-se, outros dias é-se comido. Diria que é assim a lei da vida mas estaria apenas a debitar mais uma frase vazia de sentido.

terça-feira, fevereiro 14, 2023

Preguiçar

     E se não te apetece fazer nada, sentes-te culpado? Não estás no teu direito? Que raio de espeto te enfiaram na consciência que te põe a rodar enquanto te assa o juízo no fogo lento da culpa? E que culpa é esta, é censura social; talvez religiosa? 

    De alguma forma criaram em ti a sensação de que há alguém ou alguma coisa que vigia dia e noite o que fazes e o que trazes contigo. Queres preguiçar, não fazer nada? Então não faças! O vigia que se indigne, que vá fazer queixinhas aos seus superiores. Sejam eles quem forem não serão nunca superiores a ti nem à tua vontade.

domingo, fevereiro 12, 2023

Enquanto Caronte não vem

     Enquanto Caronte não chega contemplamos memórias difusas, inventamos pretextos que preencham as conversas. As memórias vêm e vão, trazidas e levadas pela corrente eterna e lenta do escuro rio. Sob o negrume das águas adivinham-se almas errantes que nadam como se fossem peixes esquecidos do que são. Enquanto Caronte não vem.

    Enquanto Caronte não chega tentamos encontrar motivos que façam do tempo uma coisa viva, uma coisa que possamos viver juntos. Prolongamos a espera. Sabemos que Caronte vem a caminho. Não sabemos se rema ou deixa a sua nave negra simplesmente vogar por sobre as águas quietas. Aguardamos. Sabemos que Caronte lá vem.

quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Sabedoria mais ou menos popular

  Quando a esmola é grande o pobre desconfia, o rico pede mais. O pobre pensa que talvez não mereça tanto ou que alguém o pretenda enganar com tamanha generosidade; já o rico, ciente do seu brilho e da forma como funciona o direito divino, acha que é sempre pouco o que lhe oferecem. Tudo o que possa ganhar e acumular será sempre pouco. É uma questão de hábito e de educação.

domingo, fevereiro 05, 2023

Boa tarde

     Bom, passei por aqui só para te dizer "olá, boa tarde", vou para ali fazer outra coisa. Pareceu-me de elementar boa educação cumprimentar-te, sorrir um pouco, acenar-te como se estivesse a zarpar rio acima numa barcaça atulhada de pinguins. Até amanhã. Fica bem.

sábado, fevereiro 04, 2023

Felicidade

     Por vezes sinto que a busca de uma forma de expressão artística vive mais de felizes acasos do que de buscas concretas e objectivas. Ensinaram-me que a transpiração vale mais do que a inspiração. Fingi acreditar. Na verdade não ensino isso a ninguém o que não significa que não valorize o trabalho esforçado. De maneira nenhuma!

    No parágrafo anterior falei em "busca de uma forma de expressão artística" e agora duvido dessa formulação. Fico a matutar se uma coisa assim se procura ou é ela que se revela e dá a conhecer. Terão as ideias (e as formas artísticas) algo que se possa assemelhar àquilo a que chamamos "vida"? Haverá algum universo paralelo habitado por esse género de entidades?

    Seja como for, regressando (penso eu) ao início desta reflexão, diria que a transpiração não garante a felicidade do encontro com a forma artística; que dependerá mais da inspiração, do jogo que jogamos quando lidamos com materiais e conceitos, misturando algures aquilo que trazemos na alma com aquilo que temos nas mãos. É uma alquimia, algo da ordem do maravilhoso. O resultado nem sempre ultrapassa níveis rasteiros mas, sabemos bem, há ainda dias felizes que poderemos viver!

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

Da explicação do mundo aos mais jovens

     A tinta encolhe-se na caneta. Tem frio. A caneta sente necessidade de raspar no papel mais do que desejava mas não há razão para que se sinta culpada. A vida dos objectos é assim mesmo, eles não foram criados por deus.

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

Rima

     Não sei bem qual aquele filósofo ou ramo da Filosofia que propõe a ideia de que vivemos uma ilusão, que somos parte do sonho de alguém (melhor, de alguma coisa), que, de facto, a existência de seja o que for não é mais do que nada. Se calhar ninguém propõe nada disto e fui eu que o sonhei.

    Por vezes sinto-me muito assim ou sinto-me muito assado; umas vezes estou a sonhar, outras a ser sonhado.

terça-feira, janeiro 31, 2023

Regabofe

    Cada dia que passa parece trazer consigo uma nova polémica. Agora anda tudo às voltas com as Jornadas Mundiais da Juventude. Os custos astronómicos associados ao acontecimento põem o país inteiro a chiar de ressentimento. E com razão. Se fosse a igreja católica a investir o guito não havia grande problema, a não ser o da incongruência de uma instituição que diz viver para amparar os pobres e os necessitados. Mas é o Estado quem mete parte de leão. Um Estado laico, note-se.

    É, de facto, um fartar vilanagem sem medida nem justificação. Tantos milhões investidos em misticismo e ilusões quando o país inteiro anda às voltas com falta de financiamento para coisas concretas e reais. Enfim, com um investimento desta monta pode ser que a Virgem resolva aparecer outra vez. Se a Virgem aparecesse no topo da pala sempre se justificava o regabofe.

sexta-feira, janeiro 27, 2023

Confuso é pouco!

     É um dos casos do momento. A questão da invasão do palco do São Luiz pela Keyla Brasil. Não vou estar aqui a explicar o que se passou, não é sobre isso que estou a reflectir neste momento. Reflicto sobre a quantidade e variedade de textos e opiniões que têm enxameado o espaço público desde que aconteceu a cena acima referida.

    Tenho lido, tenho ouvido. São opiniões de sentido contrário, geralmente bem expostas e sustentadas com argumentos que me parecem válidos e compreensíveis. Apesar de defenderem visões diametralmente opostas vejo-me a concordar com uns e com outros. Como é isto possível!?

    Não sei bem, não consigo ainda explicar com clareza de espírito este estranho fenómeno que me vai fazendo recuar nas certezas que imaginava ter sobre a "verdade" e a "realidade".

quarta-feira, janeiro 25, 2023

Passo!

     Há dias em que sinto uma certa pressão para que forme opiniões. A raiz do problema poderá estar relacionada com a leitura diária de um jornal e a consulta esporádica a canais televisivos de notícias que funcionam 24 horas todos os santos dias. Exponho-me assim a verdadeiros ciclones de informação que me despenteiam as ideias.

    A título de exemplo: hoje, após a leitura do Público, vi-me confrontado com a questão do activismo trans, com a questão do envio de tanques de guerra sofisticados da Europa para a Ucrânia, a falta de sinceridade e honestidade duvidosa de autarcas e governantes, problemas graves na hierarquia da igreja católica, enfim, um manancial de situações diversas e pouco claras, expostas em textos de opinião ou notícias lavradas por jornalistas. 

    Será suposto que eu construa visões personalizadas que me permitam emitir opinião informada sobra cada uma destas situações? Não tenho essa pretensão! Sinto-me confuso e pouco seguro. Talvez seja melhor passar, não ir a jogo. Reflicto um pouco mais... passo!

domingo, janeiro 22, 2023

Avaliações objectivas

    Veja-se o acto de avaliar o teste de Português de um aluno em situação de exame nacional: pega-se nas suas respostas e comparam-se com descritores de desempenho previamente elaborados para o efeito de peneirar o conhecimento ali depositado. Cada resposta corresponderá a um nível com determinada pontuação. Os dados vão sendo introduzidos numa folha de Excel que os vai somando até que, voilá!: temos o resultado final. Naquele número fica sinteticamente representado o valor do examinando. É uma espécie de magia, uma Pedra Filosofal que transmuta conhecimento em números. O aluno já foi avaliado de forma semelhante ao longo de toda a sua vida escolar. Números que vão marcando o seu percurso académico como as migalinhas de pão de Hansel e Gretel marcaram o seu caminho no chão da floresta.

    A avaliação, aplicada de modo científico, garantirá que no fim do percurso obrigatório de 12 anos de escolaridade todo o esforço será recompensado, toda a preguiça será castigada. É assim que imaginamos que as coisas se passam, que há uma espécie de justiça divina no resultado do processo. A prová-lo exibimos pautas com listas de nomes, a cada nome correspondendo um número, a cada número correspondendo uma certa imagem de uma pessoa real. Não se nota nas pautas mas há boas pessoas, há espertalhões, uns que são solidários outros que são egoístas. Uns quantos entram para as juventudes partidárias ou já por lá andavam. Passados alguns anos temos ministros, secretários de estado, elites dirigentes.

    Pretende-se, agora, que, antes de poderem jurar defender a res publica em cerimónia tutelada pelo Presidente da nação, os escolhidos preencham um inquérito que avalie de modo objectivo a sua idoneidade, embora não a sua competência, para o desempenho do cargo. Tudo isto de modo a descansar o pessoal quanto à lisura do resultado do processo. Mas, temo bem, a objectividade da avaliação não passa de um mito.

 

Carta enviada ao director do jornal Público

 

sábado, janeiro 21, 2023

Latinório

    Já reparaste bem no latinório escrito nas notas de um dólar? Fiz uma daquelas traduções farsolas que o google nos oferece e deu o que a seguir registo: "anuit coeptis" (ali de um lado e do outro do triângulo metediço) significa "ele acenou com a cabeça quando começou" e o "novus ordo seclorum" da faixa que esvoaça ordeiramente junto à base da pirâmide será "nova ordem dos tempos" com "o grande selo" a rematar, já em inglês, não vá o diabo tecê-las. Tudo isto enfeitado com a celebérrima máxima "in god we trust", que me excuso a traduzir .

    Para princípio básico de um estado fundamentalista religioso não está nada mal.



sexta-feira, janeiro 20, 2023

A espera

     Sim, já me apercebi, ando melancólico, sinto-me triste. Sim, tenho vindo a perder algum brilho, nem sempre encontro um sorriso mordaz dentro de mim. Espero não ficar assim, macambúzio. Que seja coisa passageira.

    Penso que esta sensação de aperto no estômago, este nó que se vai enrolando mais a cada dia, penso que tenha a ver com o facto de o meu pai estar a passar deste mundo em direcção a um outro. 

     Sinto-o a vaguear, hesitante, na fronteira. Sinto-o perdido, confuso, e não há quase nada que eu possa fazer. Esta sensação de impotência arruína-me o peito, enegrece-me os pensamentos.

    Mas o que é esta minha tristeza comparada com a jornada do meu pai? Nada! Não é nada; mera lamentação. Olho para ele, magro, recurvado, olhar ausente e vejo uma criança. Pego-lhe na mão fria e somos ambos crianças, crianças perdidas, órfãos de mãe à espera que o tempo passe. De mãos dadas.

quarta-feira, janeiro 18, 2023

Criação dos animais


     Era negro, o fundo. Era negro. Eram mais ou menos brancas, as formas, queriam ser brancas mas não o conseguiam. Completamente. As linhas criadas no contraste encerravam seres que pareciam monstros. Mas não. Não há monstros de papel.

    O triângulo com um olho ao centro é imagem de deus. O que criou os animais. E inventou a fome. E carne, dentes, tripas e músculos. Deus inventou essas coisas todas. Deu vida aos bichos e, aos que não foram devorados, deixou-os morrer.

segunda-feira, janeiro 16, 2023

Querer

     Queria ser um génio, ser magnífico, incontestável e reconhecido pelos olhos dos que olham a sublime grandeza. Queria partilhar a Luz com os semi-deuses, saltitar na escadaria do Olimpo como criança que brinca defronte à catedral no final de uma manhã de Domingo (o Padre ainda lá dentro a passar a mão pelo lombo das matronas com os pescoços enrolados em peles de bicheza morta). Queria sei lá o quê! Queria tudo, queria poder tudo, poder salvar a vida dos que morrem para não me morrer (também) o meu pai. Queria não sentir saudade, não chorar quando recordo, queria ser meio de pau, como o Pinóquio. Eu que tento não mentir a comparar-me com o Pinóquio... se me crescesse o nariz a cada mentira não havia de ser maior que um lápis de grafite, digo eu; mas eu sei lá o que é mentir ou a mentira! Queria compreender que raio de merda é a vida e que raio de merda fazer com ela. Queria tanta coisa que sei ser impossível que não terei nunca o descanso desejado (queria também descansar como se fosse um penedo). No fim e no limite o que eu queria realmente era não querer absolutamente nada.

domingo, janeiro 15, 2023

Da melancolia

     Assistir à desistência da vida é uma coisa muito triste. Perceber o esvaziamento, a energia vital a diluir-se no sopro frágil da respiração, cada movimento do peito mais próximo de ser o último que haverá de ser feito. É assim com todos nós, cada momento mais longe do início, mais próximo do fim. Mas não costumamos pensar nisso, não costumamos assistir a isso. Vê-lo é ver o lamento da existência, ver a vida a enrodilhar-se na morte. Não é belo, não é feio, apenas profundamente melancólico.

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Vulgaridade

     Reflectir sobre coisas sem sentido, eis algo que perdera o interesse, algo que já não provocava nele o habitual entusiasmo do mergulho nas ondas de um pensamento puramente especulativo; fosse na questão da pertinência da letra do hino nacional, fosse nas razões que provocam a incompreensível desigualdade social entre ricos e pobres. O mesmo não se poderia dizer sobre as diferenças entre os vivos e os mortos.

    Tudo era confuso, as formas das coisas pareciam diluir-se no espaço em volta.

    Levantara-se inquieto, o cérebro como uma colmeia em intensa actividade. Deslocou-se pela casa sem perceber muito bem o que fazia, muito menos o que pretendia fazer. Parecia-lhe que esbarrava em coisas invisíveis, coisas que o atravessavam ou ele atravessava, o mundo, naquela manhã, apresentava-se inconsistente. Talvez fosse apenas viver mais um dia igual aos outros.

    Aí pelas quatro da tarde sentiu um certo cansaço. Ainda faltavam oito horas para que as vinte e quatro marcadas pelo relógio atingissem o limite e já tinha vivido tantas coisas extraordinárias! Aquele dia era, definitivamente, igual a tantos outros, mais um dia de vulgaridade absoluta.

quinta-feira, janeiro 12, 2023

Visão abjecta

     A Estupidez e a Ignorância passeiam sempre de mãos dadas. Quando encontram a Crueldade (nefastas ocasiões!) organizam orgias sangrentas.

segunda-feira, janeiro 09, 2023

Acreditar

     Sim, a arte, por vezes, faz-me acreditar em coisas impossíveis. Quando disso me apercebo instala-se a dúvida: se penso uma coisa ela será impossível? A imaginação resulta numa possibilidade. Esta afirmação parece-me sólida, indiscutível. 

    São tantas as vezes em que sinto as fronteiras da realidade tremendo perante coisas impossíveis que ganham consistência, são tantas as vezes em que sinto o sonho irrompendo neste quotidiano delirante em que me movo, isto acontece tantas vezes que desisti de duvidar. Agora acredito que o impossível pode muito bem acontecer. Ou não.

    Apesar de tudo há uma coisa na qual não sou capaz de acreditar por muito que me esforce (o esforço raramente resulta quando se trata de acreditar em alguma coisa): não consigo acreditar em Deus. E Ele sabe bem que tenho tentado.

quinta-feira, janeiro 05, 2023

Parvo

     Quanto tempo é necessário para que uma coisa nova se transforme em tradição? Sim, porque todas as tradições, por mais antigas que sejam, tiveram o seu momento primordial. É como o Universo? Talvez o conceito de Universo seja, também ele, uma tradição, nada mais do que isso. Talvez nós sejamos ilusões.

    É assim, não consigo evitá-lo (não sei se também te acontece), dá-me para o devaneio ou para a parvoíce e fico imparável até que me apercebo de que posso estar a escrever coisas ridículas. Nesse momento... alto, parou! E fico-me imediatamente por ali (por aqui). Calo-me.

    Silêncio e quietude.

quarta-feira, janeiro 04, 2023

Alegoria

         Por vezes penso: a Caverna da alegoria platónica é a caverna do meu crânio. O gajo especado defronte à parede é o meu cérebro e as sombras projectadas são as imagens recebidas pela minha retina. E concluo: cada um de nós é, ele próprio, a Alegoria da Caverna.

terça-feira, janeiro 03, 2023

Mentiras

     Demasiados espaços em branco, memória esburacada (se comparasse a minha memória com um queijo suíço estaria a derrapar no lugar comum). Não sei se deva preocupar-me com tamanhas falhas de memória, na verdade consigo recordar certos pormenores de coisas há muito passadas mas isso sabe-me a pouco. Tenho fome de recordações.

    Diz o outro que "recordar é viver". E não ser capaz de o fazer, será o quê? O contrário de viver é morrer? Não me parece, seria demasiado óbvio. O contrário de viver é andar para aí a fornicar a existência de quem nem sequer conhecemos, o contrário de viver é matar não é morrer.

    Não ter memória obriga a uma grande concentração no momento imediato, obriga a vasculhar no presente sinais que nos orientem num possível regresso ao passado. Sim, porque há sempre um vislumbre, uma cortina translúcida a esvoaçar, uma forma que se destaca do nevoeiro até fazer sentido. A mente é uma coisa traiçoeira. A mente mente.

segunda-feira, janeiro 02, 2023

Morbidez evitável

     Podes viver sem pensar na morte? Claro que sim! Seria impossível caminhar, rir, saltar ao eixo, conduzir o automóvel, impossível passeares o cão (apanhar-lhe a merda) ou imaginar alimentar o periquito. Se pensasses na morte terias uma vida menos preenchida por possibilidades de alegria genuína? Pensas na morte? Eu tenho pensado.

    Tenho pensado na morte e não adianta nada. Para mim não adianta nada. Pensar na morte faz-me compreender que é muito mais nítido viver cada dia e celebrar a vida. Quando a morte chegar logo se vê.

domingo, janeiro 01, 2023

23

     Começa o ano com o céu repleto de nuvens sombrias. Algumas dessas nuvens escurecem de forma ameaçadora, imagino-as de um negro tão profundo que choverão lamentos. Tenho, no entanto, esperança de que haja espaços azuis entre elas.

quinta-feira, dezembro 29, 2022

Dos mistérios do diálogo

     Conversar nem sempre é fácil. Conversar com alguém que não conhecemos na tentativa de esclarecer uma situação desagradável provocada por esse alguém poder ser complicado. Muito complicado. 

    Se o nosso interlocutor for uma pessoa com vistas (aparentemente) curtas ou (verdadeiramente) muito curtas, o diálogo resvala para as bermas da impossibilidade comunicativa. Podemos ter necessidade de repetir a mesma coisa várias vezes tentando a cada repetição ser mais objectivos e, mesmo assim, após 10, 15, 20 repetições, permanecer a sensação de que não estamos a ser compreendidos. 

    Que fazer? Penso que a melhor solução, eventualmente a única solução, é insistir, tentar uma e outra vez sem alterar o tom de voz, mantendo uma certa suavidade no discurso e a possibilidade de um sorriso. Um sorriso é sempre uma "arma" a considerar nestas situações mesmo quando do outro lado encontramos uma cara trancada numa expressão de desconfiança (vistas curtas geram expressões estranhas e sombrias na face de quem as tem).

    Chegados ao termo da conversa a coisa poderá não se ter resolvido mas, pelo menos, teremos encontrado a plataforma de entendimento possível e, quem sabe, numa próxima ocasião possamos alcançar um patamar mais elevado para a resolução do problema. Sabemos bem que a esperança é a última coisa a morrer apesar de não gozar do dom da imortalidade.

sexta-feira, dezembro 23, 2022

Mundo maravilhoso

     O mundo está tão cheio de coisas extraordinárias que é difícil perceber a reles ordinarice.

quarta-feira, dezembro 21, 2022

É Natal (outra vez)

    Deixemo-nos de merdas, o Natal é uma treta. Bem que há quem se esforce por recuperar o Espírito da coisa mas... nada feito. O Natal é, cada vez mais, avidez e desespero, uma espécie de black friday à escala de uma comunidade muito para lá da católica. Uma confusão de conceitos e tradições que por pouco não provoca uma cena de pugilato entre o Pai Natal e o Menino Jesus.

    O Natal transformou-se num imenso negócio. Sem vergonha nem pudor. Todos celebram o Natal sejam católicos, apostólicos, judeus, muçulmanos... todos o celebram de alguma maneira quanto mais não seja a vender alguma coisa a quem tenha feito uma árvore travestida de paradoxo lá num canto da sala de estar. 

    Seria interessante haver quem se desse ao trabalho de calcular a pegada ecológica do Natal.

quarta-feira, dezembro 14, 2022

Só

     Deu por si estava sozinho, mais só que um perú bêbado na véspera de Natal. Acreditara que fazia parte de um todo, que havia mais gente como ele, que tudo haveria de acabar bem. Mas não. Percebia agora que vivera uma ilusão, que as pessoas boas não eram de fiar, que as más eram ainda piores do que ousara imaginar. Ele era o último, o único, o mais puro de todos os homens; mulheres incluídas.

    Virou outra página mas não lia o livro pousado sobre a mesa. Passeava os olhos pelas palavras sem as perceber, sem tentar sequer receber-lhes o sentido. A sua mente divagava, perdido que estava naquele mundo agreste que, decididamente, não o merecia. Nem vice-versa. Num assomo de virilidade encheu mais um copo de vinho tinto e forte bebendo-o num trago vigoroso. Os olhos lacrimejaram, o cérebro desencaixou-se um pouco mais e levantou-se.

    Deu um passo em frente sentindo o vazio imenso de um precipício que o fez perder a noção do espaço e o equilíbrio. Caiu de borco. Ali ficou. O mundo não o merecia, nem vice nem versa.

segunda-feira, dezembro 12, 2022

História do Futuro

    Está bem, pois sim, claro que tem toda a razão! Nunca em tempo algum me passaria sequer pela cabeça contrariar a sua opinião... que digo? Peço humildemente vosso perdão e clemência, o senhor não emite opiniões, apenas e sempre saem da sua boca verdades absolutas momentos antes formadas no vosso espírito inabarcável. Curvo-me humildemente perante Vossa Grandeza.

    Seria assim no tempo dos monarcas absolutos? Gente curvada a parecer marreca mesmo que tivesse nascido com o cu virado para a lua? Nem esses teriam direito a contrariar ou pôr em causa o rei sem correrem o risco de virem a ser rapados, depenados e dependurados, como porcos à espera de serem desmanchados. E a populaça? Lixo, merda, detritos.

    Quanto ódio recalcado não esteve na criação do mundo em que vivemos! Quanto ódio estará ainda reservado para com ele escrevermos as páginas da História do Futuro?

sábado, dezembro 10, 2022

Quietude

    Não se ouvia grande coisa: ruídos esparsos, pequena barulheira indefinida, uma espécie de marulhar urbano. Conhecendo o lugar onde ficava a praia sabia bem que aqueles sons não poderiam nunca ser um eco da voz potente de Poseidon, alguma coisa seriam, só que não o mar, o mar não, isso com toda a certeza.

    Nem sequer apurou o ouvido, nada daquela coisa meio suja poderia alguma vez vir a  interessá-lo. No entanto sentia dentro de si palavras que se deslocavam em conjunto, palavras que formavam frases e pareciam produzir algo semelhante a música; música estranhamente sincopada, animada por ritmos desconexos mas nem por isso menos agradáveis.

    Apercebeu-se de que algo estaria para acontecer; que tudo aquilo: os sons, as palavras mudas, a estranha sensação que dentro dele se formava, tudo aquilo fazia parte de um todo monstruoso, uma dilúvio, um vulcão, uma avalanche que estaria quase, quase a acontecer. Deixou-se estar, mais absorto do que atento, mais morto do que vivo, deixou-se estar assim, tão quieto, tão descansado que até mesmo o deserto dele teve inveja.

quinta-feira, dezembro 08, 2022

7 mares

     Veio-me à cabeça a cantiga dos Sétima Legião, "se os mares são só sete..." e, enquanto a cantarolava mentalmente, apercebi-me que a visão de 7 mares nunca fez parte da paisagem mental de Sócrates (nem da de Platão). Esse conhecimento que, como toneladas de tantos outros, está ao alcance de qualquer estudante do primeiro ciclo do ensino básico nos dias que correm.

    Espantei-me com tanto conhecimento com o qual Sócrates (ou Platão) nunca sonhou (nunca sonharam) e que está aí, à mão de semear de qualquer um que tenha um mínimo de curiosidade ou não tenha nada melhor para fazer. Foi então que me apercebi (mais uma vez?) que a informação está muito longe da sabedoria, ainda mais neste mundo piolhoso, coberto e repleto de macacos que saltam e guincham, alguns até com alegria!

domingo, dezembro 04, 2022

É o bicho, é o bicho!

     A nossa opinião, a minha, a tua, as opiniões dos nossos familiares, dos nossos amigos, devem ter algum valor. Não sei se muito, se pouco, mas algum valor haverão de ter para que sejam empregues tantos meios na tentativa de as orientar, manipular e condicionar.

    Por vezes dou por mim a pensar se a diferença entre um estado democrático e um estado autocrático (ou de outra qualquer natureza política) não será, no fim das contas bem feitas, essencialmente uma questão de maquilhagem. Mas depois lembro-me da Liberdade de Expressão e as dúvidas acabam logo ali.

    As democracias vivem tempos difíceis (alguma vez viveram tempos fáceis?) pois estão infectadas por um capitalismo selvagem que é maleita peçonhenta e incapacitante. As leis complicam-se e engalfinham-se umas nas outras numa confusão que ora mete ordem no bicho capitalista, ora parece protegê-lo como se corresse risco de extinção. E o bicho cresce e fica cada vez mais agressivo.

    Teremos futuro enquanto sociedade democrática? Depende muito de nós mas nem David teve desafio tão angustiante.

    

sábado, dezembro 03, 2022

Cabeçadas

     Andar por aí a bater com a cabeça nas paredes não me parece maneira de estar nesta vida. Reconheço que não é fácil manter o ânimo, sei bem como é complicado descobrir razões que ajudem a manter os olhos abertos, tentar ver mais do que olhar apenas, mas nada disso é pretexto para alimentar a cegueira com pratadas de indiferença e estupidez à mistura.

sexta-feira, novembro 25, 2022

Fábula comigo dentro

     Não tenho bem a certeza se gostaria de ser recordado lá mais para a frente, quando já cá não estiver. Convenhamos que se trata de um falso problema ou, pelo menos, de uma falsa questão; que incómodo me poderá causar o que alguém possa pensar de mim depois de estar morto e enterrado? Talvez por isso, não me tira o sono imaginar a forma como preferiria ser recordado.

    Quando era jovem ambicionava um lugar na História (ah, a vaidade humana!), imaginava a Humanidade como coisa eterna. Agora que se me embutiu no espírito a certeza de que a humanidade é, afinal, coisa breve, um piscar de olhos de algum deus distraído, nem essa ambição merdosa me atormenta. É um pouco como a fábula da raposa e das uvas.

segunda-feira, novembro 14, 2022

O ponto não está à janela

Notas introdutórias à minha intervenção na conversa/debate "O ponto não está à janela" a realizar no próximo dia 16 deste mês e deste ano

 

Vou basear o meu discurso em algumas coisas nas quais acredito mas que não tenho como provar. Serão ideias discutíveis e talvez, por isso mesmo, possamos trocar umas ideias sobre o assunto.

Vou partir do princípio de que toda a representação simbólica do mundo que nos rodeia tem, na sua génese, um impulso mágico que é, como quem diz, um impulso poético.

Estou convencido que o impulso que origina o discurso poético é diverso do que origina o pensamento científico, embora possam existir momentos em que estes discursos, aparentemente antagónicos, se aproximam e se completam.

Afinal de contas, poesia e ciência, magia e matemática, teatro e astrofísica, são formas de representação do mundo, tentativas de nos aproximar um pouco mais dos mistérios da existência humana. Mistérios esses que, no limite, podem nem sequer existir (ou podem ser representados como na simbologia de Almada Negreiros, 1+1=1).

Acredito que a criação da representação simbólica é muito semelhante às brincadeiras de criança, quando sentimos o impulso incontrolável de tentamos encontrar uma narrativa que faça sentido e a moldamos de acordo com os nossos anseios.

Os adultos informam-nos de que existe uma grande distância entre “real” e “imaginário” e que a “realidade” tem um valor muito superior ao “faz-de-contas” mas não nos convencem. Só deixamos de acreditar no mundo que inventamos quando entramos definitivamente no universo dos adultos e corremos o risco de nos perdermos para sempre.

Quando somos crianças imaginamos a vida como um teatro contínuo. E é assim que eu imagino o teatro: a representação incessante da infância inultrapassável e infinita que é a principal e única característica do Ser Humano.

(claro que continua!)

 

quarta-feira, novembro 09, 2022

Como uma barata (tonta)

     Ai as alterações climáticas, valha-me Nossa Senhora! E a guerra? Benza-me Deus!!! Os aumentos de preços dos combustíveis, das rendas de casa, do chá, do café, da laranjada, dos livros (ai, o preço dos livros...), da inflacção, dos juros da dívida, o aumento da ansiedade generalizada, a deterioração da saúde mental dos jovens (como se os adultos fossem impunes à loucura); estamos fodidos? Um gajo quer  perguntar mas não sabe bem a quem dirigir a questão. Alguém que me ouça? Alguém que me responda?

    Acordar e regressar ao mundo dos vivos é todo um processo de aceitação. Enquanto o mundo circundante não ganha consistência absoluta, o cidadão comum pode imaginar que vive num lugar justo e equilibrado. É como viver a infância toda nos primeiros 10 minutos de cada novo dia. Passada a magia do despertar eis-nos de regresso a este "awful place", como na canção dos Clash. A angústia é normalmente pouco, ou mesmo nada, dispendiosa e encontra-se em qualquer recanto do planeta.

    Viver cada dia como se o objectivo fosse mais ser feliz do que apenas chegar ao outro lado do fim da tarde. Caso contrário corremos o risco de nos tornarmos baratas, baratas daquelas que são tontas.

terça-feira, novembro 08, 2022

O urso

     E é assim, a Memória é como um urso, mas com períodos de hibernação imprevisíveis. Pode acomodar-se na caverna do crânio humano e dormitar para sempre ou deixar-se apaixonar pela luz de cada despertar e não parar de atormentar a quem de direito. A Memória como urso... até poderia funcionar mas parece-me uma metáfora entre o perigoso e o merdoso (rima fácil e evidente).

    A sucessão do Secretário Geral do Partido Comunista Português gerou um pequeno sururu entre alguns comunistas frequentadores do Facebook. Li com razoável atenção certa troca de ideias entre eles e o meu urso rolou sobre a barriga, deitando-se para o outro lado, levantando uma pequena nuvem de memórias na minha caverna craniana (não consigo libertar-me desta metáfora!?).

    Aqui estava eu nos meus 14/15 anos, pleno de confiança em mim próprio, confiança essa gerada por uma ignorância quase absoluta em relação a tudo o que fosse coisa, mas irradiando uma aura de energia positiva capaz de atrair outras pessoas para o meu mundo indefinido, onde ainda não houvera tempo para a criação de pântanos. Foi assim que me vi a frequentar a sede do PCP lá em Viseu sem perceber muito bem onde me estava a meter.

    À época havia a UEC, dos estudantes, e a UJC, dos jovens trabalhadores. A JCP seria fundada mais tarde. Se, por um lado, consegui a atenção dos estudantes, muitos deles, tal como eu, oriundos da pequeníssima burguesia, já do lado dos operários e camponeses apenas recebi desconfiança. A minha militância era errática e frágil e o camarada controleiro, montado numa motoreta e com um aspecto grave e concentrado, demasiado grave e demasiado concentrado para alguém pouco mais velho do que eu, olhava-me com vago desprezo. E tinha toda a razão.

    Nunca tive consciência de classe pois nunca percebi muito bem a que classe pertencia (pertenço) embora reconheça e esteja convencido de que a luta de classes é, sem sombra para dúvidas, a seiva das sociedades humanas. Mas o camarada da motoreta sabia (soube-o antes de mim) que eu não estava pronto a abdicar dos meus anseios em favor da Causa. Afinal de contas eu vivia no universo de Ian Dury e do seu Sex and drugs and rock'n'roll. Estava apanhado, a minha luta era outra: a luta pela sanidade mental.

segunda-feira, novembro 07, 2022

Memorabilia

     Não sei se também te acontece, leitor amigo, olhares para trás (olhares o teu passado) e pensares: não vejo nada! A mim acontece-me quase sempre que olho com a vista desarmada. Não alcanço o que vivi e se sinto uma ligeira brisa a agitar-me a memória, rapidamente a janela se fecha e tudo volta à sua habitual quietude de recanto e sombra. Em matéria de memória sou aparentado ao granito.

    Vivo, no entanto, experiências transcendentais quando coloco na mente o potente telescópio da literatura (ia dizer "os óculos da literatura" mas pareceu-me tão fraquinho...) e o meu corpo é trespassado por memórias de toda a índole. É uma experiência com o seu quê de estranheza mas decerto tudo se explicaria com a maior das naturalidades, fosse eu capaz de compreender os contornos do fenómeno.

    Estou a ler "Lições", o mais recente romance de Ian McEwan, e tem sido uma girândola de sensações perdidas e sensações reencontradas; outras, apesar da sua provecta idade, são sensações que me surgem desvendadas como se regressasse momentaneamente à minha infância, à adolescência. 

    Eu sei que as minhas experiências de vida hão-de estar gravadas no meu cérebro: arrumadinhas, sempre disponíveis caso eu possa chegar-lhes, estão à minha espera. Mas, sem ajuda, sem a prótese poderosa da literatura. as prateleiras onde se alinham as memórias são sempre demasiado altas, demasiado confusas e desarrumadas, afundando o passado no caldo tépido do esquecimento.

terça-feira, novembro 01, 2022

O cavaleiro do Apocalipse

     Com o fim do mundo humano a ganhar forma (sim à guerra, as alterações climáticas que se lixem) Deus vencerá a disputa eleitoral com a Democracia, derrotando-a por larga margem. Em momentos de desespero provocados pela iminência do fim até o mais empedernido dos ateus sente um frémitozinho que o leva a ponderar a possibilidade de haver algo mais do que a morte. Perante a morte a Ciência tende a perder razão; Deus não.

    As narrativas do ano mil informam-nos de uma loucura suplementar que tomou as mentes dos seres humanos perante a aparente inevitabilidade do fim dos tempos. O desvario transforma-se em norma quando a racionalidade é engolida pelo medo. O medo é o grande lobista de Deus e parece trabalhar a troco de nada, como trabalham os demónios, apenas pelo prazer de mostrar a sua força, a sua razão, a sua omnipotência.

    Virão em breve tempos de desespero absoluto com Deus montado na sua terrível sede de vingança, capaz de julgar-nos a todos culpados da sua inépcia criadora? O Apocalipse tem um cavaleiro, apenas um.

domingo, outubro 30, 2022

Pequenas coisas

     Há uma estranha sensação a pairar no espaço livre entre o meu crânio e o seu cérebro. É assim como uma pequena mão, mas feita de papel, que não percebo se me afaga se me arranha o juízo. Não chega a ser áspera mas está longe de ser macia. Muito longe de ser macia.

    Há uma névoa incómoda que me impede de ver com clareza os contornos dos pensamentos que vou debitando. Como se pensar fosse algo como fazer "enter" numa caixa registadora: mais um pensamento, mais riqueza, mais valor acrescentado, tlim, tlim. Feito e registado. Próximo cliente!

    Há mil e uma pequenas coisas incómodas das quais não convém falar em voz alta para não aborrecer quem incomoda pois convém não incomodar ninguém. Posso bem suportar eu essa pequena cruz. Como um pequeno Cristo. Fraquíssimo imitador de coisa nenhuma.

sexta-feira, outubro 28, 2022

Coisa boa

     Não sei como funciona. Por vezes sinto uma coisa dentro de mim (talvez no cérebro ou no coração, talvez nas tripas) que faz com que as coisas que me rodeiam ganhem significados aumentados. Em certas ocasiões dura apenas um momento e logo se desvanece ou desliza rapidamente para algum lugar escondido. Noutras situações, a coisa ganha alguma consistência e permanece comigo tempo suficiente para que lhe perceba minimamente a forma e o conteúdo.

    Imagino que seja isto a criatividade. Se soubesse como funciona havia de registar a patente para a oferecer a quem quisesse dela usufruir. Talvez isso fosse uma coisa boa. O mundo está a precisar de coisas boas.

terça-feira, outubro 25, 2022

Heróis

     Todos temos os nossos heróis. Por esta ou aquela razão elegemos personagens às quais prestamos homenagem e com elas constituímos os nossos panteões pessoais e personalizados. É como se fôssemos gregos antigos ou romanos, como se fôssemos vikings ou adoradores de santinhos católicos. todos temos os nossos heróis e não somos muito receptivos a críticas que possam conspurcar as imagens que deles construímos; nem um bocadinho!

    Tenho a sensação de que a forma como vamos elegendo e elevando as ditas personagens tem sempre algo de religioso. Os nossos heróis são geralmente impolutos, capazes de feitos extraordinários, seja no campo das acções seja no campo do pensamento, há muitos lugares em diferentes prateleiras. São fortes de carácter e os sonhos que sonham são universais. Nós somos os discípulos dilectos, guardiões da chama que arde nos seus altares.

    Os nossos heróis tornam-nos cegos. Antes nos tornassem surdos e mudos.

segunda-feira, outubro 17, 2022

Castigos

     Padres pedófilos cometem crime ou pecado? Não sei o que lhes vai na cabeça mas se acreditam verdadeiramente em Iavé devem estar a tremer como varas verdes... ou não? Se o deus do Antigo Testamento for tão violento com os molestadores de criancinhas como é com os inimigos do povo de Israel, é caso para ter os tomates gelados. Mas se, pelo contrário, então está-se bem. "No problemo", citando Bart Simpson, esse filósofo dos tempos modernos.

    Molestar criancinhas é pecado? Há alguma passagem na Bíblia que condene especificamente os que metem as patas onde não devem e pior ainda? Não sei não. Talvez isso possa explicar a atitude laxista dos bispos e outros bosses da igreja católica em relação aos porcalhões que militam nas fileiras das suas tropas evangelizadoras. A coisa fica em casa, lá entre eles, uma família exclusivamente masculina que é como Iavé quer, acho eu. O que têm de meter o bedelho juízes, bófias e pedopsicólogos? 

    Talvez os abusadores de sacristia vão directamente para o inferno. Na volta é o castigo que lhes está reservado e a bispalhada não vê razão para que lhes seja aplicada outra pena, uns anos de prisão, por exemplo. Eles sabem que bater com os ossos na choça não se compara a ter um satanazim a enfiar-lhes uma forquilha na tromba por toda a Eternidade. Nem nada que se pareça.

quinta-feira, outubro 13, 2022

Ele

     O homem (seria um rapaz?) não tinha dentes e também parecia não ter o juízo todo. Deitado no banco, próximo de uma esplanada bem composta de cidadãos respeitáveis, pediu-me que lhe pagasse um abatanado. Dei-lhe 2€. Pediu-me que entrasse no café e lhe trouxesse o abatanado. Disse-lhe que não se esticasse.

    Apesar do calor, estava coberto com umas mantas sebosas. No chão espalhavam-se restos de coisas que talvez tivesse comido. Uma embalagem vazia, brilhante de gordura, dava guarida a uma pequena multidão de moscas nervosas. Ele perguntou-me "gostas de poesia?" ao que respondi qualquer coisa que nem eu próprio fui capaz de compreender. Ele disse-me "vou dizer-te um poema".

    Começou pelo título: "Eles". E foi por ali fora "blãblãblãbambalhã", foi por ali fora e, fitando-me nos olhos, declamou a coisa num longuíssimo e único fôlego apenas interrompido por muito curtas pausas para respirar. Não percebi uma única palavra. Ficou-me uma espécie de música, uma prece, qualquer coisa assim: "blãblãblãbambalhã"; seria um lamento?

    As moscas distraíam-me mas, fosse como fosse, nunca poderia perceber uma palavra do que ele disse além de "eles", única palavra nítida que irrompia aqui e ali, nos momentos das suas curtíssimas golfadas de ar. As gengivas rebrilhantes, sem um único dente à vista, a língua a formar os estranhos sons que eram, afinal, um poema, os lábios húmidos num sorriso que podia ser feito de urgência. A urgência de não perder o espectador ocasional da sua saga.

    Quando finalmente terminou deu uma risadinha mostrando a totalidade das gengivas. "Fica bem" disse-lhe eu. E fui embora com um misto de alívio e traição alojado no peito. Dali em diante tudo mudou de aspecto. A rua pareceu-me mais suja e mais triste, as pessoas pareceram-me apenas pessoas.

    Eu sabia que era aquele poema ("blãblãblãbambalhã") a provocar em mim um certo desconforto, um desajuste na pele que me cobria o corpo. Apanhei o barco e subi ruas de Lisboa mais ou menos atento, mais ou menos desorientado, até encontrar a Ana. Nesse momento as coisas voltaram a ser mais ou menos o que já tinham sido.