Todos somos potenciais personagens literárias mas muitos não têm consciência desse facto. Ou porque não sabem ler, ou porque, sabendo ler, não lêem, ou porque lendo não sabem o que lêem, ou ainda porque, apesar de lerem e compreenderem o que lêem, não querem acreditar que a sua carne pode tornar-se papel, folhas de um livro, imaginação de um autor ou retrato, produto da argúcia de alguém que nos observa e podemos nem sequer conhecer.
Esta constatação poderá ser de extrema utilidade. Em caso de necessidade podemos poupar no psicanalista se analisarmos com calma e cuidado a evolução da nossa personagem ao longo da narrativa que é a vida que vivemos.
Em momentos de tédio podemos distrair-nos passando para o papel a descrição do momento que a nossa personagem viveu ou está a viver (descrever o próprio tédio). Podemos imaginar algo para lá do papel grosseiro com que a realidade embrulha a nossa existência, rasgar o embrulho, sair da escuridão para a luz, viver na imaginação, na nossa própria imaginação... mas... que digo eu? Que escrevo eu?
Será que existo? Ou este texto, este computador, esta mesa, a sala onde estou, o edifício que envolve este momento e este meu corpo, será tudo isto por mim inventado? Ou... ou... ou serei eu invenção de algum autor, algum escritor que perdeu o juízo e me deixou (mera personagem literária) tomar consciência da minha condição de ser imaginário, tomar consciência da minha carne de papel?
Alguns de nós são, na verdade, personagens literárias mas não têm consciência desse facto.
quinta-feira, fevereiro 05, 2015
quarta-feira, fevereiro 04, 2015
Lavoisier revisitado
Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.
O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.
Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."
Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?
Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.
Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.
Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.
É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...
O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.
Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."
Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?
Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.
Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.
Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.
É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...
terça-feira, fevereiro 03, 2015
Epifania
De súbito compreendeu: não foi o nosso corpo que Deus criou à Sua imagem e semelhança. Não! O que em nós é igual a Deus é o nosso espírito! Cada um de nós transporta Deus dentro do corpo.
Deus fechado num corpo humano anseia a morte, gera a morte com a simples finalidade de se libertar pois Deus não pode ser prisioneiro.
Após esta epifania tenebrosa cresceu dentro dele um profundo desprezo por Deus. O que O levara a cometer tão imprudente milagre? Inexperiência? Malícia pura? Não percebeu Ele que fundir espírito e carne era criar a negra morte?
"Ok, está tudo lixado!" pensou, abanando a cabeça; "o melhor é beber um copo".
Bebeu dois.
Deus fechado num corpo humano anseia a morte, gera a morte com a simples finalidade de se libertar pois Deus não pode ser prisioneiro.
Após esta epifania tenebrosa cresceu dentro dele um profundo desprezo por Deus. O que O levara a cometer tão imprudente milagre? Inexperiência? Malícia pura? Não percebeu Ele que fundir espírito e carne era criar a negra morte?
"Ok, está tudo lixado!" pensou, abanando a cabeça; "o melhor é beber um copo".
Bebeu dois.
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sábado, janeiro 31, 2015
Um dilema
Quando penso nas lutas sociais que constantemente são travadas neste mundo que habito sinto um nó no estômago. De que lado devo colocar a minha força e a minha vontade?
Desde sempre tive uma vida razoavelmente desafogada. A minha família, com maiores ou menores dificuldades, há várias gerações que pertence ao que poderia designar por "classe média", mesmo quando essa classe era uma espécie de coisa incipiente, nos tempos da ditadura salazarista.
Olhando para o tempo que já vivi posso dizer que nunca passei fome por necessidade embora, nos meus tempos de estudante, tenha passado alguma fomeca por opção. Gastava o dinheiro noutras coisas que, à época, me pareciam mais essenciais do que a paparoca. Tratava-se de uma questão de opção.
Nos tempos que correm sinto-me privilegiado. Tenho emprego fixo e uma condição social razoável. Posso preocupar-me com assuntos muito para além da satisfação das minhas necessidades básicas. Ao mesmo tempo vejo aumentar a fome e a miséria entre os mais desfavorecidos, pessoas que tiveram a pouca sorte de nascer em meios sociais estigmatizados, pessoas que não têm opção e se vêm empurradas para uma luta que se parece com o esbracejar de alguém que se afoga no mar alto.
Quando chega a hora de escolher um dos lados na barricada das lutas sociais sinto que devo lutar contra alguns dos privilégios que fazem da minha vida algo agradável, sinto que deveria ser capaz de viver com menos e partilhar mais. Sou inimigo de mim próprio?
Confesso que este dilema me confunde mas, no entanto, continuo a comer bem, a dormir melhor e a acordar todos os dias com uma boa disposição que não me incomoda. Mas, no entanto...
Desde sempre tive uma vida razoavelmente desafogada. A minha família, com maiores ou menores dificuldades, há várias gerações que pertence ao que poderia designar por "classe média", mesmo quando essa classe era uma espécie de coisa incipiente, nos tempos da ditadura salazarista.
Olhando para o tempo que já vivi posso dizer que nunca passei fome por necessidade embora, nos meus tempos de estudante, tenha passado alguma fomeca por opção. Gastava o dinheiro noutras coisas que, à época, me pareciam mais essenciais do que a paparoca. Tratava-se de uma questão de opção.
Nos tempos que correm sinto-me privilegiado. Tenho emprego fixo e uma condição social razoável. Posso preocupar-me com assuntos muito para além da satisfação das minhas necessidades básicas. Ao mesmo tempo vejo aumentar a fome e a miséria entre os mais desfavorecidos, pessoas que tiveram a pouca sorte de nascer em meios sociais estigmatizados, pessoas que não têm opção e se vêm empurradas para uma luta que se parece com o esbracejar de alguém que se afoga no mar alto.
Quando chega a hora de escolher um dos lados na barricada das lutas sociais sinto que devo lutar contra alguns dos privilégios que fazem da minha vida algo agradável, sinto que deveria ser capaz de viver com menos e partilhar mais. Sou inimigo de mim próprio?
Confesso que este dilema me confunde mas, no entanto, continuo a comer bem, a dormir melhor e a acordar todos os dias com uma boa disposição que não me incomoda. Mas, no entanto...
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quarta-feira, janeiro 28, 2015
O futuro
As coisas são o que são e têm um tempo de gestação próprio. Não adianta muito querer correr mais depressa que o futuro.
O novo governo grego, as reuniões e negociações que hão-de vir com a troika, as consequências desta aventura para o futuro da União Europeia e da Zona Euro, ai Jesus, tanta dúvida a afundar-se na densidade do nevoeiro, não se vê bem, não se percebe nada!
Estranhamente a maioria dos políticos europeus e os seus donos, os habitualmente nervosos Mercados, não têm mostrado grandes sinais da sua proverbial histeria sempre que a realidade se limita a acontecer conforme Deus quis que acontecesse. A vitória do Syriza não os tirou do sério... mmmmmh... não percebo muito bem o que está a acontecer. Que fazer?
Talvez possa matar uma galinha e espalhar as tripas da bicha em cima da mesa da cozinha tentando ler o futuro entre o sangue e os órgãos do galináceo. Deve haver muitas entradas para páginas que ensinam a ler tripa de galinha se procurar no Google como deve ser.
Talvez possa sentar-me uma tarde inteira a assistir a debates entre especialistas das mais variadas áreas do Saber e da Ignorância vertendo ciência certa e desvendando as imprecisões do futuro.
Ou talvez possa ir vivendo a minha vida e esperar que o futuro venha ter com o tempo presente como costuma fazer todos os dias. Vou estar atento, nunca se sabe quando nos cruzamos com o futuro e podemos dar-lhe uma palavrinha, meter uma cunha pelos nossos sonhos, vender-lhe um ou outro dos nossos anseios.
O novo governo grego, as reuniões e negociações que hão-de vir com a troika, as consequências desta aventura para o futuro da União Europeia e da Zona Euro, ai Jesus, tanta dúvida a afundar-se na densidade do nevoeiro, não se vê bem, não se percebe nada!
Estranhamente a maioria dos políticos europeus e os seus donos, os habitualmente nervosos Mercados, não têm mostrado grandes sinais da sua proverbial histeria sempre que a realidade se limita a acontecer conforme Deus quis que acontecesse. A vitória do Syriza não os tirou do sério... mmmmmh... não percebo muito bem o que está a acontecer. Que fazer?
Talvez possa matar uma galinha e espalhar as tripas da bicha em cima da mesa da cozinha tentando ler o futuro entre o sangue e os órgãos do galináceo. Deve haver muitas entradas para páginas que ensinam a ler tripa de galinha se procurar no Google como deve ser.
Talvez possa sentar-me uma tarde inteira a assistir a debates entre especialistas das mais variadas áreas do Saber e da Ignorância vertendo ciência certa e desvendando as imprecisões do futuro.
Ou talvez possa ir vivendo a minha vida e esperar que o futuro venha ter com o tempo presente como costuma fazer todos os dias. Vou estar atento, nunca se sabe quando nos cruzamos com o futuro e podemos dar-lhe uma palavrinha, meter uma cunha pelos nossos sonhos, vender-lhe um ou outro dos nossos anseios.
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segunda-feira, janeiro 26, 2015
Pequena Esperança
E pronto, o Syriza ganhou as eleições na Grécia. Está feito, a sorte está lançada, etc. e tal.
Agora resta-nos observar. O que irá acontecer? Algo vai mudar, de facto? A Europa poderá suportar tal prova de rebeldia dada por um povo inteiro? Não sei, caro leitor, não sabemos. Ainda.
O que me faz sonhar um pouco é perceber que ainda há quem tenha impulsos corajosos, quem não tema o desconhecido. Como diz a canção: pra pior já basta assim! A Esperança renasce um pouquinho, débil, temerosa, pequena Esperança esta mas Esperança!
Talvez o mundo não tenha de ser como nos querem obrigar a acreditar. Talvez o Destino não seja mais que uma mentira que nos querem impingir. Talvez possamos ter uma palavra a dizer na construção das nossas vidas.
Ou então não.
Agora resta-nos observar. O que irá acontecer? Algo vai mudar, de facto? A Europa poderá suportar tal prova de rebeldia dada por um povo inteiro? Não sei, caro leitor, não sabemos. Ainda.
O que me faz sonhar um pouco é perceber que ainda há quem tenha impulsos corajosos, quem não tema o desconhecido. Como diz a canção: pra pior já basta assim! A Esperança renasce um pouquinho, débil, temerosa, pequena Esperança esta mas Esperança!
Talvez o mundo não tenha de ser como nos querem obrigar a acreditar. Talvez o Destino não seja mais que uma mentira que nos querem impingir. Talvez possamos ter uma palavra a dizer na construção das nossas vidas.
Ou então não.
quinta-feira, janeiro 22, 2015
Liberdade
A liberdade de cada um depende da gaiola em que está metido.
A liberdade total é a lei da selva.
Felizes são as feras.
A liberdade total é a lei da selva.
Felizes são as feras.
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terça-feira, janeiro 20, 2015
Sonho de uma manhã de Inverno
Eram 3 mulheres feias e tristes. Não sei se tristes por serem feias, se feias por serem tristes. 3 mulheres no deserto da praia, escavando juras e feitiços. 3 mulheres deitadas nas pedras duras e frias, calçada abaixo. 3 mulheres sonhando com espelhos negros e cavaleiros brancos. 3 mulheres que choviam, ácidas, e vinham dissolver os anseios da multidão no medo de uma noite prematura. 3 fadas malditas e tristes. Não sei se tristes por serem malditas, se malditas por serem tristes.
quinta-feira, janeiro 15, 2015
Ser ou não ser
As reacções descabeladas dos muçulmanos mais
radicais perante a publicação de uma nova caricatura de Maomé na capa do
Charlie Hebdo mostram que não há qualquer possibilidade de entendimento entre o
nosso mundo e o deles, que vivemos em mundos distintos, que não há, nem de um
lado nem do outro, a mínima intenção de encontrar uma plataforma comum de
convivência. Parece absolutamente impossível explicar aos radicais islâmicos
que uma coisa é o Estado, outra coisa é a Religião, que as pessoas são
diferentes de Deus. Nunca compreenderão a frase de Jesus “dai a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus”, nem nós seremos capazes de compreender a
inevitabilidade da submissão da vontade humana aos desígnios de Deus. Azeite e
água misturam-se melhor?
Levámos séculos até conseguirmos separar Deus e
Estado, até alcançarmos a liberdade religiosa proclamando a tolerância como
valor universal. Está bem abelha, vai contar essa aos radicais islâmicos ou aos
grupelhos de extremistas xenófobos e racistas que pululam por aí. Para gente
desta qualquer pretexto é bom para matar, estropiar, destruir, intimidar; a
violência parece ser parte essencial da mensagem divina ou finalidade última da
actividade cívica. Assassinar em nome de Deus não é considerado blasfémia,
matar outro Ser Humano não é considerado crime. Blasfémia é desenhar
caricaturas de uma certa personagem histórica, crime é ser estrangeiro, ser
diferente. Este mundo é lixado! Vá-se lá desvendar-lhe um sentido.
Os líderes muçulmanos radicais vêm uma vez mais ameaçar
de morte, guerra e destruição indiscriminada o espaço ocidental; isto na maior
das calmas: voz pausada, olhar seráfico, pose flutuante, como se tivessem
conferenciado com o Profeta há coisa de cinco minutos e este lhes tenha
transmitido ordens directas do Big Boss.
Sentem-se ofendidos com um punhado de desenhos e umas bocas foleiras. Tretas. Eles
querem é um pretexto para justificar as suas acções terroristas, os seus
impulsos criminosos e a sua agenda política, tal como do lado de cá uns certos
hipócritas justificaram ataques assassinos em território muçulmano com a
existência de armas de destruição maciça que afinal eram refinada mentira. É tudo
farinha do mesmo saco. De um lado e do outro os líderes mais agressivos e sem
escrúpulos conseguem arrebanhar exércitos, semear a discórdia e fazer a guerra
com uma facilidade assustadora. A guerra será lucrativa para alguém, decerto
para uns e outros, caso contrário haviam de se esforçar por viver em paz.
Acredito que a maioria das pessoas do outro lado
sejam pessoas como eu. Acredito que tenham as suas convicções, que tenham os
seus ódios e as suas fidelidades absolutas, que tomem um lado da barricada em
caso de guerra mas que, acima de tudo, querem é viver em paz, ver os filhos
crescer e pensar na vida como ela é, não na vida como nos querem convencer que
devia ser.
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quarta-feira, janeiro 14, 2015
O Sentido da Vida
O Sentido da Vida? Caraças, não me digas que não és capaz de perceber o sentido da Vida! Até os animais mais estúpidos conseguem lá chegar.
O Sentido da Vida é a preservação da espécie.
É preciso ser mesmo muito burro para nunca ter pensado nisso, uma coisa tão simples. Repara como até as galinhas, estúpidas entre as mais estúpidas das espécies, parecem ter interiorizado esta lei, das mais óbvias que a Natureza tem para impor aos seus filhos. Lá andam elas a bicar, a bicar, a ser galadas, a pôr ovos no ninho, a aquecê-los até nascerem pintaínhos, and so on, and so on...
Enquanto seres humanos somos impelidos a preservar também a nossa Cultura. Daí que possamos considerar que o Sentido da Vida humana é ligeiramente diferente do das galinhas ou das minhocas. Acrescentamos ao comer-procriar-comer-procriar a necessidade de ensinar aos outros aquilo que nos parece ser essencial para a nossa sobrevivência e, caso os outros não se mostrem interessados em aprender, enfiamos-lhes a nossa crença pela cabeça abaixo.
Se encaramos a Vida sob esta perspectiva não me digas que a Vida não faz Sentido, porra!!! Ainda por cima é coisa de macho, impor vontades, andar à porrada.Isto sim é viver em plenitude a nossa superior humanidade. O mais forte subsiste, o mais forte é o mais bonito: o mais forte tem sempre razão!
O Sentido da Vida é a preservação da espécie.
É preciso ser mesmo muito burro para nunca ter pensado nisso, uma coisa tão simples. Repara como até as galinhas, estúpidas entre as mais estúpidas das espécies, parecem ter interiorizado esta lei, das mais óbvias que a Natureza tem para impor aos seus filhos. Lá andam elas a bicar, a bicar, a ser galadas, a pôr ovos no ninho, a aquecê-los até nascerem pintaínhos, and so on, and so on...
Enquanto seres humanos somos impelidos a preservar também a nossa Cultura. Daí que possamos considerar que o Sentido da Vida humana é ligeiramente diferente do das galinhas ou das minhocas. Acrescentamos ao comer-procriar-comer-procriar a necessidade de ensinar aos outros aquilo que nos parece ser essencial para a nossa sobrevivência e, caso os outros não se mostrem interessados em aprender, enfiamos-lhes a nossa crença pela cabeça abaixo.
Se encaramos a Vida sob esta perspectiva não me digas que a Vida não faz Sentido, porra!!! Ainda por cima é coisa de macho, impor vontades, andar à porrada.Isto sim é viver em plenitude a nossa superior humanidade. O mais forte subsiste, o mais forte é o mais bonito: o mais forte tem sempre razão!
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terça-feira, janeiro 13, 2015
Obrigadinho, ó coisa
Hoje faço 52 anos. Não tenho por hábito festejar o meu aniversário, nem mesmo comentar com colegas ou coisa assim. A coisa passa, discreta e sossegada. Mais logo os meus pais irão telefonar-me, um ou outro familiar irá fazer o mesmo, talvez algum amigo. A minha mulher e a minha filha haverão de lembrar-se; talvez até tenha direito a um presente. É assim que este dia costuma encaixar-se nos outros, sem nada de especial.
Mas agora há quem se preocupe comigo, graças aos deuses. Hoje, ao abrir o meu e-mail, tinha 3 mensagens de parabéns de empresas diferentes. Todas elas me congratulavam pelo dia dia especial que é o dia de hoje e me ofereciam presentes! Claro que teria de pagar pelos presentes que me eram oferecidos mas com desconto. O meu presente era, na verdade, um desconto de 10% ou 5€ a menos no preço e portes grátis, pequenas maravilhas!
Esta amizade automática deixou-me um pouco acabrunhado. A suave magia que costumo fazer, deixar escoar o meu dia de aniversário sem que quase ninguém disso se aperceba, está ameaçada pela solicitude interesseira de quem tem por objectivo vender (livros, neste caso). Nem sequer é um vendedor untuoso, sorriso forçado e simpatia de plástico barato, a tentar impingir-me o produto, não; uma merda de uma máquina, senhores! Uma merda de uma máquina a desejar-me Feliz Aniversário!!!
Ok; obrigadinho, ó coisa.
Mas agora há quem se preocupe comigo, graças aos deuses. Hoje, ao abrir o meu e-mail, tinha 3 mensagens de parabéns de empresas diferentes. Todas elas me congratulavam pelo dia dia especial que é o dia de hoje e me ofereciam presentes! Claro que teria de pagar pelos presentes que me eram oferecidos mas com desconto. O meu presente era, na verdade, um desconto de 10% ou 5€ a menos no preço e portes grátis, pequenas maravilhas!
Esta amizade automática deixou-me um pouco acabrunhado. A suave magia que costumo fazer, deixar escoar o meu dia de aniversário sem que quase ninguém disso se aperceba, está ameaçada pela solicitude interesseira de quem tem por objectivo vender (livros, neste caso). Nem sequer é um vendedor untuoso, sorriso forçado e simpatia de plástico barato, a tentar impingir-me o produto, não; uma merda de uma máquina, senhores! Uma merda de uma máquina a desejar-me Feliz Aniversário!!!
Ok; obrigadinho, ó coisa.
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quarta-feira, janeiro 07, 2015
Incomodidade
A coisa aquece lá para os lados da Grécia. As sondagens indicam vantagem do Syriza nas intenções de voto. Os mercados começam a ficar nervosos. Os mercados e os líderes dos países mais pesados na União Europeia.
À medida que força do partido extremista grego aparenta crescer os recados vão sendo mais numerosos e sobem no tom de ameaça. Resumindo: se os gregos se atreverem a escolher um partido que desagrade aos mercados e à senhora Merkel a coisa vai tremer.
Há quem diga que um lado e outro vão fazendo bluff : nem o Syriza será tão atrevido nas suas acções, caso chegue ao poder, nem os mercados entrarão em colapso nervoso caso isso aconteça. Será? Não dá para fazer previsões sobre tão complexa situação.
O que quero fazer notar é que no presente panorama económico e político que vivemos na Europa a democracia tornou-se uma coisa incómoda e dispensável. Tudo seria mais belo e mais fácil se os gregos obedecessem ao ditames da troika e da comissão europeia sem respingar, tal como fazem os bons alunos.
À medida que força do partido extremista grego aparenta crescer os recados vão sendo mais numerosos e sobem no tom de ameaça. Resumindo: se os gregos se atreverem a escolher um partido que desagrade aos mercados e à senhora Merkel a coisa vai tremer.
Há quem diga que um lado e outro vão fazendo bluff : nem o Syriza será tão atrevido nas suas acções, caso chegue ao poder, nem os mercados entrarão em colapso nervoso caso isso aconteça. Será? Não dá para fazer previsões sobre tão complexa situação.
O que quero fazer notar é que no presente panorama económico e político que vivemos na Europa a democracia tornou-se uma coisa incómoda e dispensável. Tudo seria mais belo e mais fácil se os gregos obedecessem ao ditames da troika e da comissão europeia sem respingar, tal como fazem os bons alunos.
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sábado, dezembro 27, 2014
Votos para 2015
Quando era pequeno aprendi a respeitar os mais velhos. Num ambiente salazarista isto implicava também respeitar, sem questionar, os chefes, os poderosos, Deus, os apóstolos, o padre, o professor, enfim, toda uma legião de seres, reais ou imaginários, que pareciam investidos de um direito especial para ditar orientações, limites e rezar sentenças definitivas. A vida era simples como as botas do ditador. Se alguém ocupava um cargo de responsabilidade e chefia era porque, decerto, tinha capacidades que o habilitavam a desempenhar as suas funções de acordo com as necessidades do povo e a boa ordem divina.
Depois cresci, deu-se o 25 de Abril e as coisas mudaram. Percebi que a credulidade tem limites e que o respeitinho não é nada bonito.
O direito dos poderosos deixou de ser vitalício, hereditário ou benzido pela nunciatura, agora era o povo que acreditava na sua capacidade para escolher os que governariam a coisa pública. Assim fomos andando até chegarmos aqui mesmo, a este preciso momento: 2014 a morrer.
Já não acredito que quem ocupa cargos de responsabilidade e chefia o faça por ter capacidades especiais para o desempenho das suas funções. Acredito que os governantes e os poderosos resultam de acidentes da História, más escolhas, jogos de influências, interesses inconfessáveis.
Percebo também que a dimensão ética não tem que ter cabelos brancos, que há velhos bem vestidos e perfumados que mentem mais e com maior maldade que um puto que seja simplesmente estúpido e a cheirar a cócó. Já não aceito o exercício da autoridade sem o questionar e não confio em quase ninguém que ocupe um cargo de governação. De crédulo a céptico o caminho foi longo mas surpreendentemente fácil.
O panorama político do “centrão” é uma paisagem árida, povoada por arbustos ressequidos e seres rastejantes, de formas indefinidas, que se movem furtivamente em busca da sombra protectora.
Em 2015 iremos votar outra vez. Terá o povo coragem para escolher governantes diferentes daqueles que nos trouxeram até aqui, à beira do abismo? Faço votos de que seja esse o caminho, ainda que desconhecido ou perigoso.
sábado, dezembro 20, 2014
Meninos, é hora da barrela!
As recentes notícias sobre o chamado “processo dos
submarinos” confirmam que o principal problema do nosso país é a falta de
qualidades daqueles que compõem as “elites” com poder de decisão sobre a coisa
pública.
O caso de Paulo Portas é bem revelador da opacidade com que as coisas se processam. Das duas, uma: ou Portas agiu de boa-fé e revelou ser um idiota, ou agiu de má-fé, comportando-se como um vigarista vulgar.
O modo como as suas estranhas decisões foram caucionadas por Santana Lopes talvez comece a levantar uma pontinha do véu sobre as razões que levaram Jorge Sampaio a dissolver a Assembleia, mandando o governo destes senhores direitinho às urtigas, o seu lugar natural.
Idiota ou vigarista, Portas não tem condições para se manter no governo nem mais um dia. Suportando uma personagem deste calibre, Passos Coelho, outro figurante de 2ª categoria na farsa do poder que nos é servida diariamente, mostra, também, as suas qualidades extraordinárias para o exercício do cargo que ocupa. De Cavaco, o Magnânimo, nem vale a pena falar, coitado.
Sim, porque os figurantes de 1ª categoria como Ricardo Salgado, também se afirmam ignorantes da verdade e, sem querer, enchem a bocarra de mentiras. Neste país não há verdade que não seja mentira e vice-versa. Está na hora da barrela.
O caso de Paulo Portas é bem revelador da opacidade com que as coisas se processam. Das duas, uma: ou Portas agiu de boa-fé e revelou ser um idiota, ou agiu de má-fé, comportando-se como um vigarista vulgar.
O modo como as suas estranhas decisões foram caucionadas por Santana Lopes talvez comece a levantar uma pontinha do véu sobre as razões que levaram Jorge Sampaio a dissolver a Assembleia, mandando o governo destes senhores direitinho às urtigas, o seu lugar natural.
Idiota ou vigarista, Portas não tem condições para se manter no governo nem mais um dia. Suportando uma personagem deste calibre, Passos Coelho, outro figurante de 2ª categoria na farsa do poder que nos é servida diariamente, mostra, também, as suas qualidades extraordinárias para o exercício do cargo que ocupa. De Cavaco, o Magnânimo, nem vale a pena falar, coitado.
Sim, porque os figurantes de 1ª categoria como Ricardo Salgado, também se afirmam ignorantes da verdade e, sem querer, enchem a bocarra de mentiras. Neste país não há verdade que não seja mentira e vice-versa. Está na hora da barrela.
domingo, dezembro 14, 2014
É agora!
A coisa parece impossível de resolver. Aparentemente não haverá nada que se possa fazer para contrariar tão nefasta maré, estamos condenados.
O céu esconde-se, envergonhado, atrás de uma espessa cortina de nuvens mais cinzentas que a cinza, nuvens gordas, promessas de tempestade. Os pássaros voam rápido e baixo, piando de um modo que arrepia os mais corajosos e experimentados nos mistérios do oculto. Uma brisa gelada lembra-nos que temos uma ponta no nariz.
De súbito tudo pára. O vento pára, os pássaros param, as nuvens não mudam de forma nem se mexem no céu, petrificadas, o mar ficou sem ondulação, como se fosse um espelho gelado reflectindo o cinzento do céu, tornando o mundo todo cinzento. Cinzento. Um silêncio opressor abafa tudo. É agora!
O céu esconde-se, envergonhado, atrás de uma espessa cortina de nuvens mais cinzentas que a cinza, nuvens gordas, promessas de tempestade. Os pássaros voam rápido e baixo, piando de um modo que arrepia os mais corajosos e experimentados nos mistérios do oculto. Uma brisa gelada lembra-nos que temos uma ponta no nariz.
De súbito tudo pára. O vento pára, os pássaros param, as nuvens não mudam de forma nem se mexem no céu, petrificadas, o mar ficou sem ondulação, como se fosse um espelho gelado reflectindo o cinzento do céu, tornando o mundo todo cinzento. Cinzento. Um silêncio opressor abafa tudo. É agora!
quinta-feira, dezembro 11, 2014
Momento fora do tempo
Ok, sou um gajo capaz de obedecer à mais rigorosa das rotinas tão depressa quanto posso deixá-la para trás em absoluto esquecimento. Fazer uma nova rotina da ausência de rotina. A verdade é que tenho uma mente errática e uma capacidade de reflexão muito difusa.
Isto seria agradável se o meu trabalho exigisse de mim que fosse um tipo criativo, um inventor, poeta, artista, coisas assim, daquelas que impressionam as senhoras sentadas em volta da mesinha tomando chá em adoráveis chaveninhas, mindinho espetado e lábios em bico de passarinho que o chá vem quente. Contar histórias de grande moral interpretadas por personagens de ética estratosférica, o sonho de qualquer mortal que tenha vivido por estas bandas lá para finais do século XVIII, a montar os primeiros anos do século XIX.
Pois, mas eu falhei essa parte, a parte de impressionar velhinhas sem ocupação às cinco de la tarde.
O problema é quando o trabalho exige de mim competências burocráticas e uma disciplina metálica. Ui, ui, nessas ocasiões faço um esforço tremendo, quero concentrar-me, fechar as ideias em gaiolas individualizadas para que não se influenciem mutuamente ou se infectem com algum vírus esquisito. Mas. qual quê!?
As pessoas são animais e há animais que são como pessoas. Obviamente.
Isto seria agradável se o meu trabalho exigisse de mim que fosse um tipo criativo, um inventor, poeta, artista, coisas assim, daquelas que impressionam as senhoras sentadas em volta da mesinha tomando chá em adoráveis chaveninhas, mindinho espetado e lábios em bico de passarinho que o chá vem quente. Contar histórias de grande moral interpretadas por personagens de ética estratosférica, o sonho de qualquer mortal que tenha vivido por estas bandas lá para finais do século XVIII, a montar os primeiros anos do século XIX.
Pois, mas eu falhei essa parte, a parte de impressionar velhinhas sem ocupação às cinco de la tarde.
O problema é quando o trabalho exige de mim competências burocráticas e uma disciplina metálica. Ui, ui, nessas ocasiões faço um esforço tremendo, quero concentrar-me, fechar as ideias em gaiolas individualizadas para que não se influenciem mutuamente ou se infectem com algum vírus esquisito. Mas. qual quê!?
As pessoas são animais e há animais que são como pessoas. Obviamente.
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terça-feira, dezembro 09, 2014
Impotência intelectual?
De cada vez que leio os trabalhos e os testes dos meus alunos sinto uma pequena vertigem, uma espécie de vento no interior do crânio. Fico arrepiado.
Não é apenas a escrita indigente, os constantes erros ortográficos ou a incrível dificuldade na conjugação dos tempos verbais mais simples, na maioria dos casos vejo um infinito deserto de ideias, uma apatia crítica extraordinária.
Por mais que os pique, por mais que quase os insulte, raramente obtenho mais que um ajeitar na cadeira, uma mudança da mão que sustenta o queixo ou mesmo a cabeça, que é coisa que parece estar sempre a cair-lhes abaixo do pescoço.
Será que o facto de terem todos os conteúdos escarrapachados no Google, ao alcance de um clic, lhes retira o entusiasmo pelo saber? Será que a superficialidade uniforme da maior parte dessa informação faz deles uma espécie de amálgama cultural, sem curiosidade nem opinião própria para lá do que lhes é impingido pela publicidade e pela informação mastigada e colocada à disposição no Google? Receio bem que assim seja.
O Google está a criar uma geração de cidadãos intelectualmente impotentes? Honra seja feita aos putos que, no meio de toda esta caca, conseguem inventar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.
Não é apenas a escrita indigente, os constantes erros ortográficos ou a incrível dificuldade na conjugação dos tempos verbais mais simples, na maioria dos casos vejo um infinito deserto de ideias, uma apatia crítica extraordinária.
Por mais que os pique, por mais que quase os insulte, raramente obtenho mais que um ajeitar na cadeira, uma mudança da mão que sustenta o queixo ou mesmo a cabeça, que é coisa que parece estar sempre a cair-lhes abaixo do pescoço.
Será que o facto de terem todos os conteúdos escarrapachados no Google, ao alcance de um clic, lhes retira o entusiasmo pelo saber? Será que a superficialidade uniforme da maior parte dessa informação faz deles uma espécie de amálgama cultural, sem curiosidade nem opinião própria para lá do que lhes é impingido pela publicidade e pela informação mastigada e colocada à disposição no Google? Receio bem que assim seja.
O Google está a criar uma geração de cidadãos intelectualmente impotentes? Honra seja feita aos putos que, no meio de toda esta caca, conseguem inventar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.
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quarta-feira, dezembro 03, 2014
Húbris para que te quero!?
"Aquele
a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco." A frase
de Eurípides é terrível mas revela-nos uma certa perspectiva da existência
humana.
Quantas vezes não pensamos para nós próprios que o mundo está louco, querendo dizer que toda a gente que pisa este mundo é completamente louca? Talvez seja obra dos deuses.
Indo um pouco mais fundo; sabemos bem quem é responsável pela existência dos deuses. Logo não é de admirar que, sendo os criadores loucos, as criaturas o sejam igualmente. A tendência suicida da espécie humana terá também passado para os deuses?
Esta hipótese é inquietante. Talvez devêssemos pensar em retirar certos poderes às divindades que inventamos.
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terça-feira, dezembro 02, 2014
Vazio
O vazio é um espaço cheio de nada... mas que raio de coisa é essa: o nada!?
Se tem nome é porque é alguma coisa embora pareça querer esconder-se ou passar despercebido.
O nada tenta fazer-se transparentemente camaleónico, confunde-se na paisagem, enrola-se na ausência de outras coisas, quer-nos fazer acreditar que não é o que, na realidade, é. O nada é um espião.
Tenta ser zero, ser vazio, tenta não ser nada, suprema artimanha, algo que tenta não ser aquilo que é.
Por vezes suspeito que o nada seja uma divindade maligna que se vai encostando nas dobras do nosso pensamento como quem não quer a coisa, à espera... eternamente à espera.
Se tem nome é porque é alguma coisa embora pareça querer esconder-se ou passar despercebido.
O nada tenta fazer-se transparentemente camaleónico, confunde-se na paisagem, enrola-se na ausência de outras coisas, quer-nos fazer acreditar que não é o que, na realidade, é. O nada é um espião.
Tenta ser zero, ser vazio, tenta não ser nada, suprema artimanha, algo que tenta não ser aquilo que é.
Por vezes suspeito que o nada seja uma divindade maligna que se vai encostando nas dobras do nosso pensamento como quem não quer a coisa, à espera... eternamente à espera.
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quinta-feira, novembro 27, 2014
Dúvida existencial
Hoje vi uma mulher que levava um puto pequeno sentado num carrinho de compras e falava muito alto com outra mulher que a acompanhava. Não dei atenção ao que dizia, falava de qualquer coisa banal, não me lembro. Registei apenas o tom de voz e a aparência desorbitada da senhora, um certo ar de louca com um sorriso estampado no rosto.
O puto conduzia as operações. Quando a senhora ia virando o carrinho para a direita, travou subitamente e voltou com brusquidão à esquerda, alardeando o facto de ter sido o pequenote a orientá-la. A senhora não ria, não mostrava qualquer expressão particular que pudesse desvelar-lhe o estado de espírito. Mantinha, apenas, aquele sorriso estampado no rosto como se fosse resultado de alguma cirurgia plástica e ela vá sorrir assim para todo o sempre. E falava alto (talvez exagerasse se dissesse que a senhora berrava).
Mais tarde, quando seguia ao volante do meu carro, dei por mim a olhar um sinal vermelho e a pensar que aquela senhora tinha fortes probabilidades de ser aquilo a que chamamos maluca. Se assim fosse (a senhora maluca) e o puto filho dela...será a maluquice hereditária? Quero dizer, uma criança nasce maluca ou fica maluca pela convivência e contacto directo com malucos encartados?
Seja como for, o que me confortou nesta situação e me levou a registá-la aqui, foi ter pensado como é estranhamente bela a loucura e como lhe reconhecemos o direito à vida. O que seria deste mundo sem os biliões de malucos que nele habitam?
O puto conduzia as operações. Quando a senhora ia virando o carrinho para a direita, travou subitamente e voltou com brusquidão à esquerda, alardeando o facto de ter sido o pequenote a orientá-la. A senhora não ria, não mostrava qualquer expressão particular que pudesse desvelar-lhe o estado de espírito. Mantinha, apenas, aquele sorriso estampado no rosto como se fosse resultado de alguma cirurgia plástica e ela vá sorrir assim para todo o sempre. E falava alto (talvez exagerasse se dissesse que a senhora berrava).
Mais tarde, quando seguia ao volante do meu carro, dei por mim a olhar um sinal vermelho e a pensar que aquela senhora tinha fortes probabilidades de ser aquilo a que chamamos maluca. Se assim fosse (a senhora maluca) e o puto filho dela...será a maluquice hereditária? Quero dizer, uma criança nasce maluca ou fica maluca pela convivência e contacto directo com malucos encartados?
Seja como for, o que me confortou nesta situação e me levou a registá-la aqui, foi ter pensado como é estranhamente bela a loucura e como lhe reconhecemos o direito à vida. O que seria deste mundo sem os biliões de malucos que nele habitam?
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quarta-feira, novembro 26, 2014
A doninha e a galinha
É complicado aceitar que não haja ninguém capaz de governar um país sem meter as mãos na merda. A rectidão e a honestidade são, cada vez mais, assuntos de fábula, coisas próprias de um tempo em que os animais falavam.
Como pode um homem honesto resistir às forças e tentações que lhe caem no colo mal senta o rabo na cadeira do poder? Como pode ele ignorar o canto insidioso das criaturas que pairam, sobrevoando nos ares, em volta da cabeça dos poderosos? Será necessária uma força de carácter apenas ao alcance de alguns heróis mitológicos.
Precisamos de um Ulisses ou de um Hércules para nos governar. Como podemos confiar numa doninha como Passos Coelho ou uma galinha como Paulo Portas?
Como pode um homem honesto resistir às forças e tentações que lhe caem no colo mal senta o rabo na cadeira do poder? Como pode ele ignorar o canto insidioso das criaturas que pairam, sobrevoando nos ares, em volta da cabeça dos poderosos? Será necessária uma força de carácter apenas ao alcance de alguns heróis mitológicos.
Precisamos de um Ulisses ou de um Hércules para nos governar. Como podemos confiar numa doninha como Passos Coelho ou uma galinha como Paulo Portas?
quarta-feira, novembro 19, 2014
Luta
O surto de legionella ou a já esquecida ameaça apocalíptica do ébola vão produzindo efeitos mirabolantes dentro de certas cabeças. Imagino que dentro de muitas, muito mais que 100 cabeças.
Pessoas que não lêem jornais, que ouvem o noticiário televisivo com ouvidos de burro ou se limitam a recolher informação vinda da boca do vizinho, criam imagens incríveis dentro da cabeça e não hesitam em dispará-las cá para fora com uma violência e um alarmismo dignos de prémio internacional. É inquietante.
Colocadas perante a evidência de que a sua opinião é uma coisa estúpida e sem fundamento essas pessoas, em vez de ficarem descansadas e aliviadas, tornam-se teimosas, quase agressivas: que ouviram, que lhes disseram, que vai morrer uma cambada de gente, que a coisa é gravíssima. Em última análise vamos todos morrer, eu, ele, ela, os nossos filhos, os nossos pais, os nossos amigos. Só ficam para semente aqueles de quem não gostamos e os nossos piores inimigos.
Fico descoroçoado. Não consigo acreditar. É como se a ignorância produzisse dentro de nós um indomável desejo de que as coisas corram mal, uma espécie de estranho ódio ao mundo e a nós próprios.
Todos os dias tento combater a ignorância mas raramente tenho a certeza de estar a ganhar a luta.
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sexta-feira, novembro 14, 2014
Vampirices
Porque devemos nós preocupar-nos com a nacionalidade dos capitalistas que nos exploram?
Se uma noite destas for abordado na rua mal iluminada por dois sinistros vampiros, um originário da Transilvânia e outro, ali, da Bobadela, deverei eu oferecer o pescoço e o sangue ao vampiro nacional? É claro que se o outro for mais agressivo é ele quem acabará por me cravar a dentuça no pescoço. É a Lei do Mercado.
Assim; porque devemos indignar-nos com o facto de haver cada vez mais chineses, brasileiros e angolanos a investir o seu dinheiro em empresas portuguesas? Uma empresa deixa de ser portuguesa se for gerida por um alemão? Desde que tenha emprego, salário certo e contrato de trabalho devo preocupar-me com a origem do meu patrão?
Tal como o capital, também a honestidade e a filha-da-putice não têm nacionalidade.
Se uma noite destas for abordado na rua mal iluminada por dois sinistros vampiros, um originário da Transilvânia e outro, ali, da Bobadela, deverei eu oferecer o pescoço e o sangue ao vampiro nacional? É claro que se o outro for mais agressivo é ele quem acabará por me cravar a dentuça no pescoço. É a Lei do Mercado.
Assim; porque devemos indignar-nos com o facto de haver cada vez mais chineses, brasileiros e angolanos a investir o seu dinheiro em empresas portuguesas? Uma empresa deixa de ser portuguesa se for gerida por um alemão? Desde que tenha emprego, salário certo e contrato de trabalho devo preocupar-me com a origem do meu patrão?
Tal como o capital, também a honestidade e a filha-da-putice não têm nacionalidade.
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terça-feira, novembro 11, 2014
Noite e dia
O dia não acaba com a chegada da noite. Se tem 24 horas, dizer noite e dizer dia é coisa que faz pouco sentido. O relógio não se compadece com a luz. O relógio marca o tempo de forma implacável e o dia tem 24 horas. Nem mais nem menos um segundinho que seja.
Talvez estejamos precisados de uma outra palavra para significar esse espaço de 24 horas que o relógio marca e onde encaixamos as nossas existências independentemente da luz e da sombra, do calor, do frio, seja lá do que for! Tentamos organizar as nossas existências em função das 24 horas do relógio, é assim que acreditamos ser feitos e acreditamos fazer a vida.
O dia de 24 horas é uma coisa artificial; invenção humana. O dia tem a ver com a luz do sol e a chegada da lua. No dia de 24 horas não há lugar para o crepúsculo! Tenho saudades do tempo em que o dia era uma coisa viva.
Talvez estejamos precisados de uma outra palavra para significar esse espaço de 24 horas que o relógio marca e onde encaixamos as nossas existências independentemente da luz e da sombra, do calor, do frio, seja lá do que for! Tentamos organizar as nossas existências em função das 24 horas do relógio, é assim que acreditamos ser feitos e acreditamos fazer a vida.
O dia de 24 horas é uma coisa artificial; invenção humana. O dia tem a ver com a luz do sol e a chegada da lua. No dia de 24 horas não há lugar para o crepúsculo! Tenho saudades do tempo em que o dia era uma coisa viva.
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quinta-feira, novembro 06, 2014
Ver habilitações
Diz o povo que "quem vê caras não vê corações" mas não diz que "quem vê caras não vê habilitações".
Há certas personagens que pelo seu simples aspecto parecem trazer estampado no rosto um carimbo de competência profissional em determinada área. Vem isto a propósito de Teodora Cardoso, essa aparente luminária das finanças nacionais.
O "boneco" desta senhora parece confirmar tudo aquilo que se poderia esperar da caricatura de alguém que, sendo mulher, tenha dedicado a sua vida ao estudo da obscura arte negra das finanças. Ela até pode ser uma nulidade, ter algum parafuso desapertado, alguma porca mal rodada, mas que tem pinta de entendida na matéria, isso ninguém pode negar.
Teodora (até o nome tem um ressonância que impõe respeito mesmo num corredor de mármore, iluminado por janelas abertas sobre um jardim bem tratado por um jardineiro profissional) é a nossa presidenta: preside ao Conselho das Finanças Públicas e, olhando para ela, ficamos de imediato sossegados; acreditamos que uma mulher assim seja uma trabalhadora incansável que guarda apenas para os números todo o espaço que haja vago lá nas circunvoluções do seu cérebro cinzento.
O povo bem poderia dizer, em honra de Dona Teodora, que "quem vê caras vê habilitações".
Há certas personagens que pelo seu simples aspecto parecem trazer estampado no rosto um carimbo de competência profissional em determinada área. Vem isto a propósito de Teodora Cardoso, essa aparente luminária das finanças nacionais.
O "boneco" desta senhora parece confirmar tudo aquilo que se poderia esperar da caricatura de alguém que, sendo mulher, tenha dedicado a sua vida ao estudo da obscura arte negra das finanças. Ela até pode ser uma nulidade, ter algum parafuso desapertado, alguma porca mal rodada, mas que tem pinta de entendida na matéria, isso ninguém pode negar.
Teodora (até o nome tem um ressonância que impõe respeito mesmo num corredor de mármore, iluminado por janelas abertas sobre um jardim bem tratado por um jardineiro profissional) é a nossa presidenta: preside ao Conselho das Finanças Públicas e, olhando para ela, ficamos de imediato sossegados; acreditamos que uma mulher assim seja uma trabalhadora incansável que guarda apenas para os números todo o espaço que haja vago lá nas circunvoluções do seu cérebro cinzento.
O povo bem poderia dizer, em honra de Dona Teodora, que "quem vê caras vê habilitações".
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terça-feira, novembro 04, 2014
Da estupidez
A arrogância pretensiosa de um ignorante é dos espectáculos mais irritantes que a Natureza inventou para nos distrair. Aquela segurança vazia, aquele olhar indolente, o meio sorriso escondido no canto da boca... ha, a estupidez!
O mais espantoso é a forma como os ignorantes são incapazes de pôr em causa a sua visão imbecil sobre o que quer que seja. Para um estúpido a estupidez funciona no lugar da inteligência. Uma pessoa inteligente consegue desconfiar do que lhe vai na alma, um estúpido ignorante vive soterrado em certezas.
A maioria das pessoas passa por uma fase na vida em que patinha perigosamente no pântano da estupidez. Ninguém nasce ensinado, à partida somos todos ignorantes.
Não é um espectáculo bonito de se ver, um adolescente burro como uma porta, seduzido pela imagem que faz de si próprio. A paixão por nós próprios é uma das mais temíveis armadilhas da existência humana.
Narciso sem Eco olha-se numa poça de lama.
O mais espantoso é a forma como os ignorantes são incapazes de pôr em causa a sua visão imbecil sobre o que quer que seja. Para um estúpido a estupidez funciona no lugar da inteligência. Uma pessoa inteligente consegue desconfiar do que lhe vai na alma, um estúpido ignorante vive soterrado em certezas.
A maioria das pessoas passa por uma fase na vida em que patinha perigosamente no pântano da estupidez. Ninguém nasce ensinado, à partida somos todos ignorantes.
Não é um espectáculo bonito de se ver, um adolescente burro como uma porta, seduzido pela imagem que faz de si próprio. A paixão por nós próprios é uma das mais temíveis armadilhas da existência humana.
Narciso sem Eco olha-se numa poça de lama.
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segunda-feira, novembro 03, 2014
Midas
A passagem mais famosa do mito do rei Midas é aquela em que ele consegue de Dioniso o dom de transformar em ouro tudo aquilo em que toca. O pormenor de Midas ser pessoa de raciocínio lento, um estúpido, se não estivermos com rodeios, nem sempre é devidamente salientado.
Após se ter apercebido da enormidade do dom que obtivera, Midas beneficia da compreensão de Dioniso (teve sorte!) e a coisa resolve-se com um mero banho na nascente de um rio. Mas a tacanhez de espírito de Midas vai valer-lhe as célebres orelhas de burro, presente de um Apolo irritado.
O mito é daqueles bem conhecidos mas o que me impressiona é a burrice da personagem. Como se a concupiscência decorresse de uma notória incapacidade para compreender o mundo. Midas, estúpido como um calhau, é a imagem da ambição desumana. As orelhas de burro o símbolo da sua glória.
Após se ter apercebido da enormidade do dom que obtivera, Midas beneficia da compreensão de Dioniso (teve sorte!) e a coisa resolve-se com um mero banho na nascente de um rio. Mas a tacanhez de espírito de Midas vai valer-lhe as célebres orelhas de burro, presente de um Apolo irritado.
O mito é daqueles bem conhecidos mas o que me impressiona é a burrice da personagem. Como se a concupiscência decorresse de uma notória incapacidade para compreender o mundo. Midas, estúpido como um calhau, é a imagem da ambição desumana. As orelhas de burro o símbolo da sua glória.
quinta-feira, outubro 30, 2014
Paranóia ou nem por isso?
É impressão minha ou a paranóia descabelada provocada pelo Ébola nos países ocidentais está a diminuir?
Em muitos países de África sim, a situação é terrível. Já morreram milhares de pessoas. Deste lado do Mar Mediterrânico a contagem de casos ainda não ultrapassou a casa das unidades mas, no entanto, não fomos poupados a alertas desesperados avisando-nos sobre a proximidade do Apocalipse.
De onde vem este desejo masoquista de que um dia (esse dia virá!?) uma epidemia devastadora caia sobre nós e deixe a nossa sociedade num estado tipo Walkingdead? Será isto resultado de um sentimento de remorso, um recalcamento católico que nos faz olhar ao espelho e ver uma sociedade merecedora de um novo Dilúvio ou coisa ainda pior?
Há certas personagens que nestas ocasiões vêm para os écrãs de TV fazer cara de cú, franzir a sobrancelha e explicar à populaça que eles bem tinham avisado; que a grande epidemia da nossa geração é esta (agora é que é!!!), que estamos lixados e o melhor é ir encomendando a alminha ao Criador.
Parece que esses caras-de-cú se enganaram (mais uma vez) e que, oh céus!, ainda não é desta que vamos andar a enterrar as nossas famílias em valas-comuns.
O risco de infecção existe, não haja dúvidas quanto a isso. Ninguém está livre do Ébola do mesmo modo que ninguém está livre do HIV ou do Influenza.
Resumindo: não fiques desatento, caro leitor, se pisares cócó na rua tem cuidado ao limpar a sola do sapato, o cócó pode estar cheio de vírus Ébola! O mesmo com chichi ou escarretas. Não mexas em escarretas de desconhecidos, nem em poças de vomitado por identificar. Tem cuidado leitor amigo. Já são poucos os que visitam Blogues, não queremos que o Ébola te leve.
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quarta-feira, outubro 29, 2014
Dúvida existencial
Ir acordando todos os dias num lugar pacífico onde as regras vão sendo cumpridas com maior ou menor esforço desde que o sol brilhe lá no lugar dele.
Tomar banho de água quente, beber café com açúcar, ter a sorte de sair à rua de cabeça erguida sem precisar de procurar atiradores furtivos ou outras coisas explosivas que caiam do céu... será isto o Paraíso?
A mulher atarracada que sorri e dá os bons dias, o homenzinho gorducho que conta histórias insalubres por detrás do balcão e serve cafés, a rapariga elegante que passa como se os pés não tocassem o chão... serão anjos?
Estarei vivo ou serei apenas um fantasma? Fantasma no Paraíso.
Tomar banho de água quente, beber café com açúcar, ter a sorte de sair à rua de cabeça erguida sem precisar de procurar atiradores furtivos ou outras coisas explosivas que caiam do céu... será isto o Paraíso?
A mulher atarracada que sorri e dá os bons dias, o homenzinho gorducho que conta histórias insalubres por detrás do balcão e serve cafés, a rapariga elegante que passa como se os pés não tocassem o chão... serão anjos?
Estarei vivo ou serei apenas um fantasma? Fantasma no Paraíso.
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terça-feira, outubro 28, 2014
Reflexão matinal
A missão do poeta grego na era clássica seria a de educar os homens livres. A ser assim haveria uma perspectiva utilitária da obra de arte? A arte com uma função didáctica ao serviço de um regime político e de uma ideologia? A democracia grega foi entretecida com a religião e com o mito numa estranha síntese que, depois de tantos séculos, está no estado que nós sabemos.
A democracia nasceu em Atenas, cidade orgulhosa da liberdade dos seus cidadãos. Cidadãos que, na sua esmagadora maioria, se não na totalidade, possuíam escravos.
Diz o povo que "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita". Talvez a democracia não dispense o trabalho escravo. Talvez o fundamento da liberdade de uns seja a prisão de outros.
Disse Proudhon que "toda a propriedade é um roubo". Haverá quem possa dizer que "toda a liberdade é uma prisão"?
Isto está complicado, já me perdi. O melhor é ficar por aqui e ir comer um pão com uma fatia de queijo e uma pequena chávena de café.
A democracia nasceu em Atenas, cidade orgulhosa da liberdade dos seus cidadãos. Cidadãos que, na sua esmagadora maioria, se não na totalidade, possuíam escravos.
Diz o povo que "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita". Talvez a democracia não dispense o trabalho escravo. Talvez o fundamento da liberdade de uns seja a prisão de outros.
Disse Proudhon que "toda a propriedade é um roubo". Haverá quem possa dizer que "toda a liberdade é uma prisão"?
Isto está complicado, já me perdi. O melhor é ficar por aqui e ir comer um pão com uma fatia de queijo e uma pequena chávena de café.
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domingo, outubro 26, 2014
Ser Humano
Os passarinhos sáo, sob um certo ponto de vista, uma coisa horrível. Não falo daqueles passarinhos azulinhos que auxiliam a Gata Borralheira a fazer o seu vestidinho para o baile do príncipe. Falo dos passarinhos reais que cagam sobre o meu carro e piam desalmadamente quando os primeiros raios de luz invadem a paisagem e um gajo tenta adormecer, apesar de tudo.
A Natureza é assim: brutal e desapaixonada, obedecendo a regras desumanas pois os humanos são, apenas, uma das espécies que habitam o planeta.As nossas regras não valem nada, nem para nós nem para os restantes filhos de Deus.
Quem diz os passarinhos diz os cães, diz os gatos, os bodes e os leões. Todo o bicho tem pele, tem barriga e aparelho digestivo. O lugar que cada um de nós ocupa neste mundo é construído apesar e contra uma série de coisas bonitas e uma série de coisas feias.
Hoje é Domingo. Sinto-me em estado catatónico após ter comido (comi coisas vegetais e coisas animais) e bebido mais do que um copo de vinho. Há em mim uma espécie de vertigem que me desapaixona e me faz amargo e cínico. É a vertigem de Ser Humano.
A Natureza é assim: brutal e desapaixonada, obedecendo a regras desumanas pois os humanos são, apenas, uma das espécies que habitam o planeta.As nossas regras não valem nada, nem para nós nem para os restantes filhos de Deus.
Quem diz os passarinhos diz os cães, diz os gatos, os bodes e os leões. Todo o bicho tem pele, tem barriga e aparelho digestivo. O lugar que cada um de nós ocupa neste mundo é construído apesar e contra uma série de coisas bonitas e uma série de coisas feias.
Hoje é Domingo. Sinto-me em estado catatónico após ter comido (comi coisas vegetais e coisas animais) e bebido mais do que um copo de vinho. Há em mim uma espécie de vertigem que me desapaixona e me faz amargo e cínico. É a vertigem de Ser Humano.
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quinta-feira, outubro 23, 2014
Monumento e bibelot
As Benevolentes intimidam o leitor lá do alto das suas 896 páginas. Ao olhar o volume, que na edição portuguesa tem na capa vermelha uma reprodução de uma tela de Lucio Fontana, um gajo menos corajoso fica logo a pensar em coisas como: "que tijolo!" ou "ler isto é como ter um emprego". Mas não é pela escala do discurso, nas suas páginas de texto denso e compacto, que este livro pode ser considerado um monumento.
Do mesmo modo O Francoatirador Paciente, livrinho de 240 páginas bem polvilhadas por animados diálogos que lhe aligeiram o peso global, não poderá ser por isso considerado um bibelot poisado num naperon rendilhado. Até porque o tema de Pérez-Reverte é muito interessante e actual e a essência da sua história transporta uma certa mistura de melancolia e raiva, mistura, a meu ver, bem espanhola.
Não será por As Benevolentes me terem transportado para lá das fronteiras da imagem que eu tinha do Ser Humano e por O Francoatirador me ter parecido redondinho e rechonchudo no final da leitura. Não. Não é por nenhuma destas razões que um livro me parece um monumento e outro me sugere um bibelot.
A sensação que tenho é que Littell escreveu o seu tijolo exactamente da forma que tinha de fazê-lo. Aquilo é uma coisa em se acredita e é aí que reside o sublime desconforto de o ler. Já Pérez-Reverte dá a sensação de estar a escrever a sua renda de casa, o jantar com a família e a viagem de férias. O livro é bem escrito mas falta-lhe qualquer coisinha para descolar a sensação de estarmos a ler uma obrigação editorial.
Seja como for não dou por mal empregue nem um dos minutos que levei a ler um e outro destes livros. Não me interpretes mal, gentil leitor. Tanto me sinto maravilhado quando entro no espaço infinito da Sagrada Família como quando descanso o olhar no bibelot do menino que mija entre um gole e outro e mais um sorriso da minha querida tia, que é muito velhota mas gosta sempre de me ver.
terça-feira, outubro 21, 2014
Falar com as paredes
O mundo está repleto de sinais, o mundo comunica com cada um de nós de uma forma muito particular. A cena é sermos capazes de ler esses sinais e compreender o que o mundo nos quer dizer.
São pequenos sinais, mensagens mais ou menos subtis, normalmente repetições que é a forma mais evidente de nos apercebermos que o mundo está bem e disposto a contar-nos uma anedota.
Quando está zangado o mundo atira-se a nós sem aviso.
Para comunicar com o mundo precisamos apenas de acreditar... e estar atentos.
São pequenos sinais, mensagens mais ou menos subtis, normalmente repetições que é a forma mais evidente de nos apercebermos que o mundo está bem e disposto a contar-nos uma anedota.
Quando está zangado o mundo atira-se a nós sem aviso.
Para comunicar com o mundo precisamos apenas de acreditar... e estar atentos.
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quarta-feira, outubro 15, 2014
Rei-coisa
Há um mar inteiro dentro da minha cabeça. Um mar onde se afogam as ideias e os desejos tentam aprender a nadar. Cardumes de coisinhas sem nome movem-se daqui para ali fugindo dos raios de luz, essa luz que penetra a fundura. São raios atirados à água, raios como farpas que perdem fulgor à medida que desistem de iluminar este mundo submerso, mundo sombrio, palácio de um rei monstruoso, forma negra, estática, que por mim espera lá no fundo do abismo. Um dia irei conhecê-lo. Por agora sinto-o mas não o vejo. É o rei-coisa, imperador deste mundo inexistente.
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segunda-feira, outubro 13, 2014
Vida em diferido
Tampas de esgoto que saltaram permitindo fontes violentas de água que jorra alegremente num espectáculo surpreendente. Tudo isto aconteceu em Lisboa. Hoje.
Hoje fui a Lisboa. Para lá fui de barco, fui de metro. Como de costume viajei debaixo das ruas.De metro regressei ao cais, depois o barco. Balanço bom, chuvinha caindo, quase simpática. Nada daquilo que a TV mostra.
Tem acontecido isto. Já aconteceu, pelo menos, uma outra vez. Lisboa alaga-se, deixa-se enganar pelas águas que o céu lhe atira para cima com toda a força, eu vou a Lisboa e não vejo nada disto. Nadinha de nada. Vejo as cheias e as enxurradas na TV, em diferido.
É uma sensação estranha. Como se, para mim, houvesse apenas normalidade mesmo quando passo perto do acontecimento extraordinário. Como se, para mim, a vida fosse uma rotina segurinha, sempre longe das coisas espantosas que acabo por ver, apenas, em diferido, na TV.
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sexta-feira, outubro 10, 2014
Socorro!!!
Começou a campanha de desinformação e exploração do medo. Haverá por aí alguém interessado em explorar a ingenuidade alheia?
A ignorância é importante e há quem trabalhe arduamente no sentido de a manter forte e actuante. Um ignorante está mais desprotegido perante o temido novo flagelo divino.
Quem pretende lucrar com esta nova paranóia colectiva? Ainda não percebi mas decerto irá surgir em breve algum negócio chorudo associado ao novo medo da década.
Cuidado, vem aí o vírus do Ébola!!!
quarta-feira, outubro 08, 2014
Espírito tuga
três destes gajos já voltaram para a sombra mas a maioria mantem-se no poder
Tenho alguma dificuldade em compreender o modo de pensar da maioria dos portugueses que ainda se dignam ir votar quando são chamados a participar em eleições. Ontem ao fim da tarde, quando fui, como é meu hábito, à tasca da esquina beber uma imperial e passar os olhos pelo jornal desportivo tive uma desconcertante conversa com um cliente meu conhecido e a senhora, do outro lado do balcão.
Foi o meu amigo quem puxou o tema de conversa: que o ministro da educação é um incompetente, a senhora sabia que eu sou professor e juntou mais uma ou outra acha para a fogueira que acendi alegremente e com alguma fúria à mistura.
Quem me conhece sabe que fervo em pouca água e que sou capaz de arrancar num discurso inflamado com uma velocidade estonteante, não preciso de ganhar embalagem. Deram-me os meios para fazer um pequeno comício anti-governo e não enjeitei a oportunidade, falando para quem quisesse ouvir.
Toda a gente concordou que estes governantes são péssimos, que o trabalho por eles desenvolvido cheira a vigarice, que a sua preocupação com o povo português soa a conversa fiada. Ainda assim, alguém trouxe a questão da eventual substituição do actual primeiro ministro e restante associação de malfeitores por outra gente. Foi aqui que voltei a deparar com o povo que somos.
Estava esquecido.
Embora todos estivéssemos de acordo quanto à falta de qualidade destes gajos, as dúvidas surgiram: mas, se eles saírem, quem colocamos lá? A vontade de mudar depressa se transformou em receio e conformismo.
A crítica desapareceu tão depressa quanto havia surgido. Confrontada com a responsabilidade de escolher uma alternativa toda a minha companhia preferiu encontrar razões para não mudar nada e manter a merda em que vivemos tal qual ela está. Ah, este bom e velho espírito tuga!
Fiz notar que a porcaria de governo que temos não surgiu por obra e graça do Espírito Santo (ou terá surgido?), que fomos nós, o povo, quem escolheu a malandragem que nos governa; a responsabilidade é nossa.
Tentei argumentar a favor da possibilidade de deitar tudo fora e começar de novo: se isto, assim, não funciona, é tempo de experimentar algo completamente diferente.
Nada a fazer, todos os presentes falaram para dentro, abanaram as cabeças e balbuciaram qualquer coisa acerca de com este governo, ao menos, já sabermos o que nos espera. Inacreditável! Inacreditável? Nããããããooo, qual é a surpresa!? Isto é portugal.
Saímos dali exactamente da mesma forma que havíamos entrado: com o rabo entre as penas e a nossa condição animal pura e intocada.
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domingo, setembro 21, 2014
A pele e os sapatos
Em Portugal (não sei se a expressão é válida noutros países lusófonos) quando pretendemos compreender ou explicar sensações ou atitudes de outra pessoa dizemos: "não lhe queria estar na pele" ou "é preciso estar na pele dele"; "estar na pele" é uma expressão muito forte.
Tentamos expressar a dificuldade extrema de compreender o que vai na alma alheia, assumindo que a única forma de podermos ter uma ideia aproximada do que é o outro seria estar-lhe na pele, habitar o seu próprio corpo.
Os ingleses têm uma expressão vagamente equivalente. Trocam a pele pelos sapatos do outro. "To be in someone's shoes" será, para quem fala esta língua, o suficiente para trocar de lugar com outra pessoa. Quererá isto dizer a mesma coisa?
Convenhamos que as expressões idiomáticas são pistas tortuosas mas significativas daquilo que nos vai na alma... e debaixo da pele.
Tentamos expressar a dificuldade extrema de compreender o que vai na alma alheia, assumindo que a única forma de podermos ter uma ideia aproximada do que é o outro seria estar-lhe na pele, habitar o seu próprio corpo.
Os ingleses têm uma expressão vagamente equivalente. Trocam a pele pelos sapatos do outro. "To be in someone's shoes" será, para quem fala esta língua, o suficiente para trocar de lugar com outra pessoa. Quererá isto dizer a mesma coisa?
Convenhamos que as expressões idiomáticas são pistas tortuosas mas significativas daquilo que nos vai na alma... e debaixo da pele.
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segunda-feira, setembro 15, 2014
Romantismo
Para compreender melhor esta imagem procurar aqui
Os artistas românticos tinham aquele jeito especial de ligar o estado de espírito dos seus heróis e personagens às condições climatéricas e meteorológicas que os envolviam. Personagem e cenário eram um só, o mundo sob o olhar de forças superiores, o homem joguete das forças cósmicas, ok, ok, a gente sabe.
Hoje é o 1º dia de trabalho mais a sério na escola. Embora ainda não haja aulas está a fazer-se a recepção aos alunos. Lá fora chove como já não me lembrava que pudesse chover. Chove a cântaros, chovem cães e gatos, o céu desaba sobre o espaço de recreio que, ao contrário do que seria de esperar num 1º dia de aulas, está completamente vazio. Ninguém no seu perfeito juízo iria meter a cabecinha de fora com um dilúvio desta magnitude.
Ora, se o mundo responde aos estados de espírito dos heróis (ou o contrário, também serve), então hoje há no universo humano uma tristeza de tal modo insuportável que obriga este mundo a chorar baba e ranho sobre si próprio. Deve haver tantos alunos e professores com o coração destroçado por voltarem ao espaço escolar que o céu chora como uma Madalena arrependida.
Só pode ser isso! Esta é uma explicação perfeitamente plausível para esta chuvada inesperada.
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sexta-feira, setembro 05, 2014
100 cabeças num outro lugar
No último mês dediquei grande parte do meu tempo à execução de 5 pinturas em superficíes quadrangulares de 1 metro de lado. Se tudo correr conforme o previsto irei expor estes trabalhos num bar/oficina de bicicletas que fica em Cacilhas, o Mundofixie. O título da coisa será 5m2; óbvio. A organização do evento tem o selo do Cidadão Exemplar.
Aqui ficam imagens dos trabalhos a apresentar nessa exposição que ainda não tem data marcada.
De cima para baixo: "Escravos do Dever"; "Marilyn"; "Nightmare in Escola Primária Street"; "O Mundo Morreu na Guerra" e "Canção de Embalar".
Aqui ficam imagens dos trabalhos a apresentar nessa exposição que ainda não tem data marcada.
De cima para baixo: "Escravos do Dever"; "Marilyn"; "Nightmare in Escola Primária Street"; "O Mundo Morreu na Guerra" e "Canção de Embalar".
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quarta-feira, agosto 20, 2014
Guerra Mundial?
Síria, Gaza, Iraque, Ucrânia, Líbia, Somália, assim de repente, sem puxar muito pela cabeça, nomeio 6 países em guerra; Próximo Oriente, Europa, África.
Isto deixa-me a pensar: o que é necessário para estarmos perante uma guerra mundial? Que as grandes potências estejam directamente envolvidas nos conflitos? Que haja um ditador desvairado com pornográficos sonhos de conquista?
Talvez seja necessário que exista um conflito generalizado com dois blocos em confronto e não vários conflitos espalhados e com motivações diferenciadas. Talvez seja isso.
No entanto, embora não chamemos Guerra Mundial à carnificina que vai evoluindo em diferentes continentes, temos o Mundo em pé de guerra, lá isso temos!
Isto deixa-me a pensar: o que é necessário para estarmos perante uma guerra mundial? Que as grandes potências estejam directamente envolvidas nos conflitos? Que haja um ditador desvairado com pornográficos sonhos de conquista?
Talvez seja necessário que exista um conflito generalizado com dois blocos em confronto e não vários conflitos espalhados e com motivações diferenciadas. Talvez seja isso.
No entanto, embora não chamemos Guerra Mundial à carnificina que vai evoluindo em diferentes continentes, temos o Mundo em pé de guerra, lá isso temos!
domingo, agosto 17, 2014
Paradoxo
Já não tenho paciência para a bondade "standard" esse cancro idiota que grassa nas redes sociais. Irritam-me as frases bonitas que, dizendo tudo, soam vazias quando escritas nas "paredes" do Facebook e acabam por não significar nada.
Serei mau carácter, bicho-do-mato, uma merda qualquer; mas tanta bondade empacotada provoca-me vertigens terríveis. O Mundo, desde que é Mundo, está a desfazer-se em caca. Eu preferia acreditar nessa tais frases mas a verdade é que não sou capaz.
Esforço-me por ser bonzinho, sorrio, mostro os dentes amarelados pela nicotina e pela cafeína, sinto o coração fraquejar a cada batida mas a náusea instala-se quando me dizem coisas que soam vazias, plastificadas.
Mas, mas, mas... raio de coisa, esta dúvida, esta ânsia, esta falta de confiança na Humanidade. É que, no fundo da minha alma, estou apaixonado pela Humanidade. Amo-a mais do que a odeio e, no entanto, tenho-lhe um ódio de morte.
Serei mau carácter, bicho-do-mato, uma merda qualquer; mas tanta bondade empacotada provoca-me vertigens terríveis. O Mundo, desde que é Mundo, está a desfazer-se em caca. Eu preferia acreditar nessa tais frases mas a verdade é que não sou capaz.
Esforço-me por ser bonzinho, sorrio, mostro os dentes amarelados pela nicotina e pela cafeína, sinto o coração fraquejar a cada batida mas a náusea instala-se quando me dizem coisas que soam vazias, plastificadas.
Mas, mas, mas... raio de coisa, esta dúvida, esta ânsia, esta falta de confiança na Humanidade. É que, no fundo da minha alma, estou apaixonado pela Humanidade. Amo-a mais do que a odeio e, no entanto, tenho-lhe um ódio de morte.
domingo, julho 20, 2014
A grande aventura
A questão anda a ser discutida: Portugal tem uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo. Que fazer para contrariar este facto embaraçoso?
A Oposição acusa o Governo, o Governo acusa... as cegonhas? As cegonhas não têm voto na matéria e, sem aparentar ligar muito à conversa mediática, o povinho vai fazendo cada vez menos filhos. A população envelhece a olhos vistos.
Prometem-se incentivos fiscais, melhoria nas condições de acesso das criancinhas às creches e jardins de infância, tentam inventar-se modos de entusiasmar as pessoas a ter mais filhos. Mas, será que tudo isto faz algum sentido? Há 50 anos atrás, quando nasci, a população era miserável, as condições de vida da maioria quase animalescas e os portugueses constituíam famílias numerosas que criavam com dificuldades enormes, é certo, mas não deixavam de ter filhos por isso.
Mais do que as condições de vida o que parece influenciar o desejo de alargar a família será o modo como cada um de nós entende o seu lugar particular neste mundo.
Na sociedade actual o individualismo e o desejo de viver uma vida plena de aventura e acontecimentos extraordinários faz hesitar os mais jovens quando se trata de encomendar uma criança aos próprios sonhos. Mais do que problemas económicos, penso eu, a questão é cultural.
Enquanto o mundo for olhado como uma espécie de objecto de consumo colocado à nossa disposição para dele usufruirmos como se fosse uma viagem de férias a um resort na costa mexicana, os filhos serão sempre encarados como empecilhos.
A questão económica é, decerto, importante mas o principal problema é, a meu ver, andarmos apaixonados por nós próprios o que não deixa grande espaço para a possibilidade de nos apaixonarmos por um bebé que nem sequer conhecemos, caraças!
Talvez a solução passe por uma campanha publicitária que venda a ideia de que a paternidade é a maior aventura a que cada um de nós poderá alguma vez aspirar.
A Oposição acusa o Governo, o Governo acusa... as cegonhas? As cegonhas não têm voto na matéria e, sem aparentar ligar muito à conversa mediática, o povinho vai fazendo cada vez menos filhos. A população envelhece a olhos vistos.
Prometem-se incentivos fiscais, melhoria nas condições de acesso das criancinhas às creches e jardins de infância, tentam inventar-se modos de entusiasmar as pessoas a ter mais filhos. Mas, será que tudo isto faz algum sentido? Há 50 anos atrás, quando nasci, a população era miserável, as condições de vida da maioria quase animalescas e os portugueses constituíam famílias numerosas que criavam com dificuldades enormes, é certo, mas não deixavam de ter filhos por isso.
Mais do que as condições de vida o que parece influenciar o desejo de alargar a família será o modo como cada um de nós entende o seu lugar particular neste mundo.
Na sociedade actual o individualismo e o desejo de viver uma vida plena de aventura e acontecimentos extraordinários faz hesitar os mais jovens quando se trata de encomendar uma criança aos próprios sonhos. Mais do que problemas económicos, penso eu, a questão é cultural.
Enquanto o mundo for olhado como uma espécie de objecto de consumo colocado à nossa disposição para dele usufruirmos como se fosse uma viagem de férias a um resort na costa mexicana, os filhos serão sempre encarados como empecilhos.
A questão económica é, decerto, importante mas o principal problema é, a meu ver, andarmos apaixonados por nós próprios o que não deixa grande espaço para a possibilidade de nos apaixonarmos por um bebé que nem sequer conhecemos, caraças!
Talvez a solução passe por uma campanha publicitária que venda a ideia de que a paternidade é a maior aventura a que cada um de nós poderá alguma vez aspirar.
sexta-feira, julho 18, 2014
Ser ou não ser (arte)
Avaliar é tarefa complexa. Pretender classificar com um valor numérico o objecto da nossa avaliação é praticamente magia.
Analisamos um texto, forma e conteúdo, comparamos o que vamos compreendendo com uma tabela onde estão definidos os critérios segundo os quais devemos orientar a nossa leitura... ou então observamos atentamente um desenho e aplicamos à nossa alma esse tratamento que consiste em acreditar que podemos seriar de forma justa e sistemática uma quantidade maior ou menor de objectos, artísticos, nos casos acima referidos. Escrita e desenho, artes.
Se olharmos bem para os desenhos na parede e depois para a pauta onde se alinham os valores que lhes atribuímos estamos a ver coisas muito diferentes que se referem ao mesmo objecto. Temos o desenho e uma sua representação abstracta, a nota atribuída. Temos na parede uma natureza-morta (um faisão e duas esferográficas) e na pauta temos 16 (dezasseis). Isto é alquimia!
Poderemos substituir a exposição de vinte desenhos por uma simples pauta afixada na parede? Vinte desenhos com características específicas, muito diferentes uns dos outros, resumidos e retratados assim, de forma sintética, por uma coluna de números e algarismos.
Ou, no lugar de um caderno de contos, uma pauta colada à parede, a prosa e a poesia reduzidas à condição de uns e dois e três e por aí adiante, sem nunca atingir, sequer, o infinito.
Se uma pauta afixada na parede não é arte conceptual então não sei o que possa ser arte conceptual.
segunda-feira, julho 14, 2014
Uma paixão infinita
Um jogo de futebol tem 90 minutos (120 se for num jogo a eliminar). Depois acaba.
Tenho dificuldade em compreender as pessoas que ficam exasperadas quando perdem, principalmente se a frustração não lhes sai do pêlo, no máximo, meia hora após o apito do árbitro que manda terminar o jogo. É para mim impossível compreender aqueles que perdem o apetite, os que batem na mulher e nos filhos ou os que, simplesmente, perdem a vontade de viver quando a equipa dos seus amores é derrotada.
Ok, dependendo da profundidade da paixão de cada um, a coisa poderá prolongar-se por uns minutos, algumas horas... um dia já me parece exagerado mas sei que há malucos para tudo. Dois dias? Já me cheira mal.
Do mesmo modo mas em sentido contrário, gostaria de compreender o que fica realmente dentro do peito dos vencedores, passada a euforia da vitória.
Resumindo: merecerá o futebol, na sua qualidade de fenómeno desportivo-que-o-já-não-é, a atenção mediática doentia que lhe é dedicada? Merecerá o futebol a paixão desmedida que por ele é nutrida por um número estonteante de pessoas espalhadas por todo o mundo?
Nos próximos posts gostaria de ajuda para reflectir sobre as razões que nos fazem cair, tão perdidamente, de amores por um ex-desporto como aquele.
Tenho dificuldade em compreender as pessoas que ficam exasperadas quando perdem, principalmente se a frustração não lhes sai do pêlo, no máximo, meia hora após o apito do árbitro que manda terminar o jogo. É para mim impossível compreender aqueles que perdem o apetite, os que batem na mulher e nos filhos ou os que, simplesmente, perdem a vontade de viver quando a equipa dos seus amores é derrotada.
Ok, dependendo da profundidade da paixão de cada um, a coisa poderá prolongar-se por uns minutos, algumas horas... um dia já me parece exagerado mas sei que há malucos para tudo. Dois dias? Já me cheira mal.
Do mesmo modo mas em sentido contrário, gostaria de compreender o que fica realmente dentro do peito dos vencedores, passada a euforia da vitória.
Resumindo: merecerá o futebol, na sua qualidade de fenómeno desportivo-que-o-já-não-é, a atenção mediática doentia que lhe é dedicada? Merecerá o futebol a paixão desmedida que por ele é nutrida por um número estonteante de pessoas espalhadas por todo o mundo?
Nos próximos posts gostaria de ajuda para reflectir sobre as razões que nos fazem cair, tão perdidamente, de amores por um ex-desporto como aquele.
quarta-feira, julho 09, 2014
Da ganância
Um fato, uma gravata e uma cara de pau que até mete medo. Ou então um sorriso fácil e uma simpatia sem fronteiras; estes são tão perigosos como os outros. São os banqueiros, senhores do dinheiro, guardiões dos nossos sonhos, conhecedores dos nossos desejos, eles regulam o mundo.
Os dias passam, a crise permanece. Compreendemos melhor o significado de insignificância e a rapidez da nossa cavalgada pela vida quando percebemos o tempo de recuperação que uma coisa destas necessita. Dizem-nos que a economia levará 20 anos a recuperar, 30 anos a recuperar, tempo demais, na minha humilde mas particular perspectiva. Quando a crise passar e regressarem os tempos do vinho e das rosas, o mais provável é eu já ter batido as botas.
Antes de mim haverão de patinar os mais velhos destes tais banqueiros que, no entanto, agem como se fossem viver eternamente. A sua ganância é lendária, a sua capacidade de amontoar dinheiro e distribuir miséria parece coisa divina. De todos os bichos, o bicho Homem é o que tem maior capacidade para amealhar aquilo de que não tem necessidade.
Sinceramente não compreendo estes seres vivos, estes banqueiros. Não compreendo para que querem mais dinheiro, mais poder, mais miséria. Isto vai muito para lá da minha capacidade de compreensão. Mas as coisas são assim mesmo. Também não compreendo Deus. A única diferença entre os banqueiros e Deus é que os banqueiros existem de facto, sem margem para dúvidas.
Os dias passam, a crise permanece. Compreendemos melhor o significado de insignificância e a rapidez da nossa cavalgada pela vida quando percebemos o tempo de recuperação que uma coisa destas necessita. Dizem-nos que a economia levará 20 anos a recuperar, 30 anos a recuperar, tempo demais, na minha humilde mas particular perspectiva. Quando a crise passar e regressarem os tempos do vinho e das rosas, o mais provável é eu já ter batido as botas.
Antes de mim haverão de patinar os mais velhos destes tais banqueiros que, no entanto, agem como se fossem viver eternamente. A sua ganância é lendária, a sua capacidade de amontoar dinheiro e distribuir miséria parece coisa divina. De todos os bichos, o bicho Homem é o que tem maior capacidade para amealhar aquilo de que não tem necessidade.
Sinceramente não compreendo estes seres vivos, estes banqueiros. Não compreendo para que querem mais dinheiro, mais poder, mais miséria. Isto vai muito para lá da minha capacidade de compreensão. Mas as coisas são assim mesmo. Também não compreendo Deus. A única diferença entre os banqueiros e Deus é que os banqueiros existem de facto, sem margem para dúvidas.
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segunda-feira, julho 07, 2014
Crescimento
Quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a imagem de Iznogoud aos pulos, furioso, gritando que quer ser califa no lugar do califa. Quero dizer: "ERA" esta a primeira coisa que me vinha à cabeça, reminiscências da infância e da Banda Desenhada (ainda tenho um ou dois livros de Iznogoud na prateleira).
De há um ou dois dias para cá, quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a guerra no Iraque e na Síria, a confusão com o Curdistão, a questão turca e os receios do Irão e da Arábia Saudita relativamente ao poder do ISIS e a forma angustiada como os ocidentais olham para tudo isto sem saber nem ter grande coisa para fazer.
Como é que uma coisa tão simples (a imagem de Iznogoud) pode ser substituída por outra tão complicada (aquela baralhação sobre a situação política e militar no Próximo e Médio Oriente)? A resposta é simples: cresci como o caraças!
Como agora sou crescido e tenho uma perspectiva muito mais ampla do mundo que me rodeia consigo compreender as coisas com outra profundidade, não me deixo impressionar com a primeira tolice que me sopra o espírito. Não, agora sou capaz de pensar pela minha cabeça e não me deixo enganar com facilidade.
"Califa" é muito mais do que um bonequito de Banda Desenhada que me fazia rir e proporcionava momentos de puro prazer quando me levava para fora deste planeta. "Califa" agora é Abu Bakr al-Baghdadi o autoproclamado sucessor de Maomé, aquele que vem impor a sharia a todo o mundo, para glória de Alá.
Para quem não tinha compreendido, crescer é sinónimo de complicar.
De há um ou dois dias para cá, quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a guerra no Iraque e na Síria, a confusão com o Curdistão, a questão turca e os receios do Irão e da Arábia Saudita relativamente ao poder do ISIS e a forma angustiada como os ocidentais olham para tudo isto sem saber nem ter grande coisa para fazer.
Como é que uma coisa tão simples (a imagem de Iznogoud) pode ser substituída por outra tão complicada (aquela baralhação sobre a situação política e militar no Próximo e Médio Oriente)? A resposta é simples: cresci como o caraças!
Como agora sou crescido e tenho uma perspectiva muito mais ampla do mundo que me rodeia consigo compreender as coisas com outra profundidade, não me deixo impressionar com a primeira tolice que me sopra o espírito. Não, agora sou capaz de pensar pela minha cabeça e não me deixo enganar com facilidade.
"Califa" é muito mais do que um bonequito de Banda Desenhada que me fazia rir e proporcionava momentos de puro prazer quando me levava para fora deste planeta. "Califa" agora é Abu Bakr al-Baghdadi o autoproclamado sucessor de Maomé, aquele que vem impor a sharia a todo o mundo, para glória de Alá.
Para quem não tinha compreendido, crescer é sinónimo de complicar.
sexta-feira, julho 04, 2014
Ser feliz
A felicidade é volúvel, tem mais formas que todas as formas deste mundo. Como definir Felicidade? Em que poderemos basear essa definição? O conceito de Felicidade muda conforme cada um de nós, muda com o espaço, com o tempo, com o local, com a ocasião. Um dia estamos felizes por isto, outro dia estamos felizes por aquilo.
A Felicidade sente-se, persegue-se, é sonhada. Procurar a Felicidade é perder-mo-nos num labirinto de estímulos e emoções. Quantas vezes nos perguntamos: o que é a Felicidade? Podemos viver uma vida inteira sem encontrarmos as resposta.
Por isso precisamos de ajuda. Há quem nos indique o caminho a seguir: os líderes, as religiões, as ideologias, os profetas...
No mundo Ocidental e consumista em que vivemos, associamos Felicidade à posse de coisas que, em princípio a proporcionam ou, na mais fraca das hipóteses, a potenciam. Neste mundo a publicidade e a manipulação da informação são processos de orientação dos cidadãos/consumidores nos caminhos que conduzem à Felicidade.
E nós ouvimos, acreditamos e vamos.
A Felicidade sente-se, persegue-se, é sonhada. Procurar a Felicidade é perder-mo-nos num labirinto de estímulos e emoções. Quantas vezes nos perguntamos: o que é a Felicidade? Podemos viver uma vida inteira sem encontrarmos as resposta.
Por isso precisamos de ajuda. Há quem nos indique o caminho a seguir: os líderes, as religiões, as ideologias, os profetas...
No mundo Ocidental e consumista em que vivemos, associamos Felicidade à posse de coisas que, em princípio a proporcionam ou, na mais fraca das hipóteses, a potenciam. Neste mundo a publicidade e a manipulação da informação são processos de orientação dos cidadãos/consumidores nos caminhos que conduzem à Felicidade.
E nós ouvimos, acreditamos e vamos.
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