segunda-feira, maio 11, 2015

Os vampiros

De que estávamos nós à espera? Que Bruxelas permitisse a um governo grego de extrema-esquerda governar de acordo com a sua ideologia? Alguém imaginou que o sistema económico e financeiro, que alicerça os seus lucros na exploração da fraqueza alheia, fosse benevolente com um governo hostil ao capitalismo, um grupo de extremistas a fazer valer a sua utopia desvairada de uma sociedade capaz de integrar os que comem dos caixotes do lixo? 

A vitória eleitoral do Syriza estava, desde o princípio, condenada a ser a materialização da derrota de todos os que sustentam um discurso anti-austeridade, por muito possível ou muito justo que ele possa ser. Os “mercados” esfregaram de contentamento as mãozinhas nervosas quando Tsypras formou governo. Alguém estava à espera que os vampiros prescindissem do seu ancestral direito a comerem tudo e não deixar nada?

Permitir ao governo grego experimentar as suas visões para a resolução dos problemas que apoquentam os famélicos da União Europeia seria extremamente perigoso para um monstro burocrático que se sustenta e alimenta da miséria alheia. Seria como acarinhar um vírus enquanto se observa a infecção por ele provocada a ganhar saúde e a contaminar a União.

Não! A Grécia terá de ser impiedosamente castigada e o seu governo humilhado até não ser mais que um bando de pedintes de mão estendida a implorar perdão e misericórdia no falso Areópago que é a Comissão Europeia.


Estamos a assistir ao fim da “Europa a 28”. A morte da utopia grega do Syriza será a morte desta coisa informe em que se transformou o sonho europeu. Trocar Valores por economia não une nações. Antes pelo contrário. 

Oremos, irmãos, para que o que o que se vai seguir não seja catastrófico.

sábado, maio 09, 2015

Boa educação

A senhora fala de um modo peculiar, com os olhos apontados a algum lugar acima da minha cabeça. O tom de voz elevado (quase esganiçado), pequenas acumulações de saliva a brilharem aos cantos da boca que se contorce como se as palavras a incomodassem, a senhora esforça-se por parecer simpática mas, infelizmente, não é nada simpática.

Suporto a troca de palavras com bravura, faço de contas que sou criança pequena, que não reparo no desconforto da senhora por se obrigar a falar comigo. Tento fixar os olhos dela nos meus como se tentasse agarrar duas bolinhas de mercúrio com as pontas dos dedos, por momentos quase consigo, mas logo o olhar baço da senhora desliza para o topo da minha cabeça (estarei despenteado?) e tudo volta à estaca zero.

Quando o assunto se esgota e ela sorri um sorriso muito mais triste que o de uma mãe no funeral do seu filho, é com mútuo alívio que desabafamos "bom dia" em uníssono e, após polidamente pedir licença, fecho a porta e regresso ao sótão onde continuo a pintar.

sexta-feira, maio 08, 2015

Estranha sensação

É uma sensação estranha. Ter plena consciência da mediocridade dos que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado. Saber, sem esforço, que ou são desonestos ou simplesmente inaptos para o desempenho dos cargos de chefia e decisão que lhes atrapalham o cinzento das ideias.

Uns são mais para o mesquinho, outros simples imbecis. Alguns são maldosos e maquiavélicos competindo com seres intelectualmente indigentes, a quem o fato e a gravata dão aquele aspecto grave e digno com que enganam as câmaras fotográficas e vão convencendo o Zé Pacóvio de possuir condições mínimas para fingirem ser o que são. Uma coisa têm em comum: são todos doutores ou, se o não são, vão sê-lo rapidamente.

É estranha esta sensação de que todos os malabaristas, palhaços, ursos, trapezistas, atiradores de facas e demais personagens circenses que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado não passam de arrivistas incultos. Devo estar a ficar velho. E jarreta.

Decerto estou a delirar, a ficar gágá, já não percebo nada do que realmente se passa à minha volta. Ando confuso. Como poderia ser verdade aquilo que imagino? Se é o povo que elege estes gajos como poderia o povo elegê-los uma e outra vez apesar de tudo? Teria de admitir a possibilidade de o povo ser simplesmente burro ou, pior hipótese, ser um povo de aspirantes a aldrabão que idolatra os que provam ser os mais aldrabões de todos vendo neles a figura do chefe ideal.

É estranha, esta sensação.

quinta-feira, maio 07, 2015

Pensamento nocturno

Hoje estou quase triste. Não tenho vontade de fazer nada. Por isso acabo aqui mesmo o que estou a fazer.

terça-feira, maio 05, 2015

Frágil oportunidade (como a vida)

Esta nossa vida virtual deixa um rasto longo e mais pegajoso que o de uma lesma gigante. Nós morremos e continuamos a receber felicitações automáticas pelo nosso aniversário, ofertas de negócios irrecusáveis, oportunidades únicas para umas férias inesquecíveis no próximo verão. Mensagens brutalmente pujantes, a transbordar de felicidade e com promessas de um futuro muito, mas mesmo muito, melhor!

Melhor do que a morte? Promessa um tanto arriscada uma vez que a vida é coisa vagamente conhecida, já a morte...

Enfim, quando morrer gostaria de ser apagado da NET. Gostaria de ficar apenas na memória daqueles que realmente me conheceram, daqueles com quem me cruzei e dexei algum tipo de impressão ao longo da minha vida verdadeira.

Que me desculpem os amigos que conheço apenas por esta via mas: blogues fora, página no Facebook apagada, e-mail eliminado, etc. até ao mais completo olvido virtual. Haverá alguma empresa que se dedique a receber estas últimas vontades e se comprometa a levá-las a cabo?

Parece-me uma frágil oportunidade de negócio para jovens informáticos com espírito empreendedor. Frágil como a vida.

sábado, maio 02, 2015

TINA que os pariu!

João Miguel Tavares veio lembrar-nos o triste TINA (There Is No Alternative), no linguajar dos súbditos de Sua Majestade britânica que ele próprio traduz com NHA (Não Há Alternativa) na bela língua de Camões. Servem os acrónimos para justificar a triste sina dos povos endividados e “ totalmente dependentes do financiamento exterior para fazer face às obrigações mais elementares” como refere o cronista no seu texto de 30 de Abril nas páginas do Público.

Até compreendo a ideia, a coisa é terrível, estamos entregues aos mercados, esses bichos temperamentais que nos emprestam dinheiro a juros. Bicharada gorda e insaciável que não abdica do direito que tem a explorar o Zé Pacóvio seja ele português, grego, espanhol ou irlandês, tal e qual como nos filmes em que os mafiosos aproveitam a fraqueza alheia (principalmente a dos tasqueiros) para ganhar dinheiro fácil. É a lei da selva, as bestas mais agressivas e poderosas regulam, a incauta carneirada tem de aguentar ou ser comida. NHA para as políticas de austeridade, o povo é que paga.

Tudo isto faz muito sentido para quem tem a barriga acomodada e um tecto jeitoso sobre a cabecinha pensadora. Conclui sabiamente João Miguel Tavares que “convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.” Eu, tal como o cronista, sou daqueles a quem a barriga não encolhe de fome nem o tecto deixa passar o frio nem chuva sobre a cabeça pensadora. Mas nós, os que vivemos com problemas suportáveis, não somos a totalidade da população, duvido até que sejamos a maioria. Há toda aquela horda de “famélicos da terra” para quem o TINA (ou NHA) significa miséria e não apenas incómodo.

A guerra é um negócio? TINA. Os países mais ricos do mundo são os principais produtores (e traficantes) de armas? TINA. A esmagadora maioria das pessoas tem de suportar condições de vida degradantes para que 1% de seres aparentemente humanos vivam de forma que nem sequer somos capazes de imaginar? TINA. O planeta tem de se parecer com uma lixeira nojenta para que este modo de vida se perpetue (até rebentar com esta coisa toda)? TINA. 

TINA mas é o caraças! Pensar que tudo se resume a TINA é ser preguiçoso, é deixar cair a ideia básica da Democracia e aceitar ser saco de sangue para vampiro. Eu digo: TINA que os pariu!


Já agora, para terminar, quero lembrar ao João Miguel Tavares que “NHA, NHA, NHA” soa a refrão de um hit de Kylie Minogue, pop bonita de ver e ouvir mas só para quem gosta ou está distraído.


terça-feira, abril 28, 2015

That's economics, stupid!

A imagem de uma horda de maltrapilhos armados até aos dentes com equipamento bélico topo de gama é coisa comum nos meios de comunicação social. Como lhes vão parar às mãos todas aquelas metralhadoras, pentes de balas, rockets e lança-rockets?

Onde conseguem estes gajos abastecer-se de munições e ter sempre disponível a opção de atirar e matar, atirar e matar, atirar e matar?

A comida esgota-se nos campos de refugiados, a água escasseia, o dinheiro nunca chega para satisfazer as necessidades básicas das populações deslocadas. Os países amigos envidam os mais esforçados esforços no sentido de reunir recursos capazes de garantir a sobrevivência de milhares, de milhões de inocentes que fogem da guerra em busca de refúgio.

Quem financia as armas? Quem financia a comida e a água? Haverá dinheiro ganho a vender armas aplicado na compra de mantimentos para os refugiados que sobreviveram aos tiros por elas disparados? E o contrário, será possível o dinheiro da água servir para comprar gás pimenta?

É bem possível, afinal de contas vivemos num mundo global e isto é o capitalismo. Não sejamos estúpidos!

sexta-feira, abril 24, 2015

Nuvens de tempestade

Andamos para aqui a derramar lágrimas de crocodilo nas águas do Nosso Mar, o Mediterrâneo. Choramos a morte de emigrantes que vêm fugidos da morte e, só quando morrem, se apercebem que a morte é certa e que, nas águas do Nosso Mar, é uma fatalidade.

De que fogem estas pessoas? Que sonhos trazem incrustados no imaginário? Para onde pensam que vêm? 3 perguntas com uma resposta e duas incógnitas.

Do que fogem estes migrantes (como agora são designados) toda a gente sabe mais ou menos, basta conhecer o seu ponto de origem. Uns fogem da guerra, outros da fome, outros da miséria, fogem da repressão ou de inimigos ancestrais. Fogem em direcção ao Mediterrâneo, África ou Próximo Oriente para trás das costas, Europa na ponta do nariz.

O que me intriga é o que imaginam eles que irão encontrar caso consigam alcançar as costas europeias?

O que me intriga é que lugar imaginam os migrantes que é a Europa? Qual o seu aspecto? Como imaginam eles os europeus?

Seja como for aí estão! Fogem das guerras e vêm cair nas mãos dos que lhes vendem as armas para se matarem uns aos outros... a poesia deste mundo continua a escapar-me.




domingo, abril 19, 2015

Abril em Portugal

Aproxima-se a data da Revolução. Falta à volta de uma semana para que passem 41 anos sobre o "tal" dia.

Os saudosistas de esquerda vão falar da alegria imensa, do céu azul, da gaivota mais aborrecida de que há memória (aquela que voava, voava), da luta contra a opressão, dos direitos dos trabalhadores, da coragem das mulheres e dos homens que resistiram à (puta da) ditadura, dos campos do Alentejo e da reforma agrária, dos operários em luta, dos sindicatos, das bandeiras vermelhas, dos cravos (vão encher a boca de cravos vermelhos) e vão cantar a Grândola, Vila Morena (choro sempre nessa parte e lembro o Zeca com muito carinho, não sei porquê, sinceramente não compreendo esta parte de mim). No fim vamos todos beber uns copázios valentes (que eu sou destes, não sou dos outros) e, por uma vez, não iremos zurzir na gentalha que agora nos governa, nem engendrar planos mais ou menos malévolos para distibuir pelo povo o que é do povo. Estamos felizes e o coração aveludado não está para venenos.

Os saudosistas de direita vão escarrar sobre os cravos, vão lembrar: "Angola é nossa!", esticar os braços direitos como se estivessem a mostrar as unhas ao mestre-escola (escondendo a do polegar... o que fazem eles com o polegar para o esconder desta forma?), talvez berrem o hino nacional, vão ao barbeiro rapar o cabelo e vão tatuar cruzes suásticas sobre o peito que o nacionalismo é muito lindo mas o internacionalismo é muito mais lindo. Há outra estirpe de gente de direita, gente educada e bem cheirosa, que vai lamentar a perda de valores, a falta de reconhecimento que os pobrezinhos mostram a quem lhes quer tão bem, as praias do Algarve cheias de gentinha mixuruca, o facto de os ricos serem cada vez mais ricos mas agora toda a gente saber e muitos não gostarem deles principalmente quando são os tais pobres, agora cada vez mais pobres, vão lembrar: "Angola é nossa!", enfim, a gente educada de direita tem tanta coisa para lembrar!

Eu era uma criança naquele tempo. Agora sou um cinquentão. Lembro-me que o 25 de Abril me comovia ao ponto de sentir o coração explodir de alegria. Com o passar do tempo a explosão foi perdendo potência e, agora, parece mais um estalinho do que bombinha de carnaval. Se nã o fosse a Grândola nem uma lágrima vertia.

Viva o 25 de Abril! 25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!!!


sexta-feira, abril 17, 2015

Hélder e Helder

Quem não cria arte facilmente mete o pezinho na poça manhosa do mito romântico do artista. O ser arrebatado, vestido de negro, vivendo no alto de uma torre de marfim rodeada por um fosso repleto de crocodilos metafísicos; um ser soturno, constantemente atormentado por grandiosas visões nas quais o mundo lhe é revelado tal qual ele é (insuportável visão para o mortal comum que o génio se vê obrigado a carregar qual besta albardada calcorreando os caminhos da eternidade); artista tristonho, cara fechada, cara pálida, lilases e brilhantes olheiras, a carne prestes a ser rasgada por ossos pontiagudos: assim é um artista que merece ser admirado! 

É este ser misterioso e pouco dado ao calor do contacto humano, este ser habitante das longas sombras que a solidão projecta sobre a aridez do mundo, este ser de nevoeiro feito, este monstro da sensibilidade inteligente, este génio inalcançável, que olhamos com uma expressão de contido espanto, é uma coisa mais ou menos com esta forma de assim que nos habituamos a imaginar ser “o” artista.

Um artista será tudo e isso e, precisamente, o oposto absoluto ou, mais concretamente, uma incerta mistura de ambos e mais um ou outro que não consigo agora imaginar como seja. Resumindo: um artista é uma pessoa tão vulgar como as outras e tão invulgar como as demais. É abusivo pretender que o artista se confunda com a sua obra e vice-versa. Pode acontecer mas não é uma constante obrigatória. Já os conheci chatos como o caraças com obras espantosas e excitantes; extremamente interessantes, de verbo fácil e conhecimento vasto com obras mais enfadonhas que a biqueira de um sapato; convencidos, arrebatados, modestos, altos, baixos, magros, de todos os sexos, alguns nem uma coisa nem outra, nem um pouco mais ou menos. As suas obras, por vezes a carinha chapada do autor, outras vezes surpresas absolutas (Nunca imaginaria que eras capaz de fazer uma cena como essa!).


Tal e qual os meus amigos que trabalham nas mais variadas profissões, que vivem as mais diferentes vidas. Uns sofrem, outros são felizes e estas condições são flutuantes. Nem todas as pessoas extraordinárias são artistas, nem todos os artistas são pessoas extraordinárias. Lá no fundo todos somos pessoas. É só isso. 

quarta-feira, abril 15, 2015

Raios de sol

São, um pouco, como os caracóis. Com o sol a afirmar-se e o calor a chegar, doces vagas de turistas inundam a cidade. Alguns vêm meio vestidos, vêm meio despidos, outros apresentam-se estranhos, simplesmente estranhos.

Custa a crer que aquela mulher use todos os dias aquela flor espetada numa espécie de torre de cabelo que equilibra no cimo da cabeça com um gesto ligeiramente oblíquo, ou que aquele homem use os shorts tão apertados quando vai trabalhar e a camisa sem mangas a descobrir uns ombros ossudos e pálidos. Aquelas coisas só podem ser incómodas. Passam divertidos, conscientes das suas máscaras. Levam-me o olhar, deixam em mim um sorriso.

Os turistas provocam-me um inveja doce, uma nostalgiazinha de trazer por casa. Parecem tão livres de constrangimentos, tão capazes de ligeiras infracções, tão leves, tão bem dispostos...

segunda-feira, abril 13, 2015

No metro

"Uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor",

Coloquei duas moedas pequenas na caixa de esmolas da ceguinha (uma cega que não tem globos oculares, apenas uma face de carne lisa). O ângulo do meu braço era estranho em relação à ranhura e, instintivamente, segurei o fundo da caixa com a outra mão, de modo a compensar os balanços da carruagem de metro.

De imediato senti os dedos da cega a cravarem-se-me na mão. Larguei as moedas em menos que nada mas a mulher só afrouxou o gesto quando soltei a caixa e então ela avançou: "uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor", repetia a lenga-lenga com voz frágil, uma súplica nada condizente com a forma quase selvagem como protegera o seu pequeno cofre, contentor de duvidoso tesouro; "uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor", sussurrado lamento.

Compreendi como fora incauto o meu gesto reflexo de segurar a caixa, como despertei o instinto de defesa na mulher que, sendo cega, não podia avaliar a minha linguagem corporal. Compreendi que numa selva sem luz as sensações tácteis ou auditivas ou olfactivas ganham dimensões que eu nem sequer suspeito.

Aquela mulher vive num mundo bem mais selvagem do que aquele que eu habito. E ela está atenta, ela defende-se, o mundo todo será potencial ameaça. Ela defende-se como qualquer animal se defende dos animais que desconhece.

domingo, abril 12, 2015

Leituras

"Palácio da Lua", "Nocturno Chileno", "A Balada de Adam Henry". Raras vezes tive oportunidade de ler em sequência 3 autores que tanto admiro (se bem que, na minha escala de grandezas, Paul Auster não chegue aos calcanhares de McEwan e muito menos às plantas dos pés de Bolaño).

Raras vezes, disse? Nunca, que me lembre, tinha acontecido tal alinhamento na minha mesinha de cabeceira. É como se os planetas ajustassem vontades de acordo com a satisfação da felicidade de um indivíduo em particular. Eu.

Como se os planetas tivessem vontades...

Auster é um mestre, Bolaño um supraterrestre e Mc Ewan é outra coisa qualquer. A literatura ainda tem muito para nos oferecer. A literatura oferece-nos a possibilidade de salvação da alma. Veja-se a Bíblia, veja-se o Corão, a Torah.

Se aqueles que dedicam a vida a ler um único livro fossem capazes de variar a sua leitura o mundo estaria salvo, o Paraíso à distância de um passo de anão.

sexta-feira, abril 10, 2015

Idades

Não sei se acontece contigo, afectuoso leitor, talvez também te aconteça sentires-te estranho uma vez por outra. Talvez te aconteça sentir que és olhado com um misto de desdém e piedade por alguém que tu olhas com desdém e piedade. Seja como for, há ocasiões em que percebes que a imagem que estás a exportar não produz o efeito que desejarias ou, pelo menos, o efeito que esperavas produzir.

Da parte que me toca apercebo-me que à medida que aumenta em mim essa incómoda sensação desenvolvo também a capacidade de ignorar os sinais que os outros me enviam: "És maluco?"; "És estranho."; "És esquisito.", sinto-me como me sentia quando era um adolescente incompreendido pelo mundo. Oh, como é cruel o mundo!

Ah, paciente leitor, amigo leitor, agora já não fico desesperado com a crueldade alheia, com a crueldade do mundo, agora fico pior. Muito pior. Agora fico condescendente.

A insegurança da adolescência provocava em mim indignação; a segurança que me dá a idade adulta provoca em mim soberba condescendente. Sinceramente, leitor, não sei qual prefira.

Ser frágil ou ser forte? O que nos poderá valer, leitor adorado, é estarmos seguros de que há sempre outras opções embora nos queiram convencer que as coisas são a preto e branco. Ambos sabemos que isso é treta e que as opções não se limitam à sanidade ou à loucura.

quarta-feira, abril 08, 2015

Raiva

Raiva! Hoje tem sido um dia daqueles... penso que tenham sido as nuvens que me puseram assim. Tão cinzentas, escuras e pesadas, têm estado as nuvens todo o dia. A darem a impressão que o céu é um tecto e a cidade uma barraquita miserável que mal nos consegue proteger do mundo.

Raiva! Não sendo o céu a provocar em mim este sentimento tão pouco católico talvez tenham sido as pessoas. Hoje vi tanta gente que me pareceu excessiva, boçal, bruta e indiferente à boçalidade e à brutalidade. Posso ter sido eu (excessivo, bruto e boçal na minha observação) mas será impossível ter a certeza.

Seja como for: raiva! É um aperto no coração que mo leva para junto das tripas, um formigueiro na ponta dos dedos, uma leve náusea que me agita como uma brisa agita os juncos na beira do rio.

Suspiro. Raiva!

terça-feira, abril 07, 2015

Eternidade

O calendário tem uma série de datas festivas, a cada dia corresponde sempre qualquer coisa mais ou menos transcendente. Hoje comemora-se a invenção do chouriço, amanhã a descoberta das Ilhas Mijonas, a seguir o nascimento do borrego papalvo. A coisa não pára.

A Páscoa é uma daquelas festas que me levam sempre a viajar para Norte, em direcção ao lugar onde nasci. Uma vez lá chegado há uma série de tarefas a cumprir, rituais a observar. Ano após ano a coisa repete-se. Repete!?

As pessoas estão todas um ano mais velhas, a santa no altar também mas, no caso dela (por ser santa?) não se nota tanto como nos seres de carne e osso. Nos últimos anos o padre que faz a visita é sempre diferente. Pode ser novo ou velho, não há uma lógica aparente na dança do padre que vem benzer a casa.

As coisas mudam todos os anos com a finalidade de se manterem sempre iguais. E funciona quase na perfeição. Imagino que seja assim que se constrói a eternidade ou lá como se chama essa merda.

segunda-feira, abril 06, 2015

Imparcialidade

Não acredito que alguém seja absolutamente bom ou absolutamente mau. Acredito que haja, apenas, quem seja indiferente ao despeito de outros. Os que não se exaltam nem se excitam em demasia, que agem cerebralmente e conseguem, na frieza do raciocínio, manter uma posição, afirmar um ponto de vista; os que pensam sempre na vitória.

Estes sabem bem que, no fim de contas, após a luta e a discussão, a finalidade da vida consiste em entreter a morte. Sabem também que, quando a luta se revela difícil, a morte espera.

domingo, março 29, 2015

Je suis Frankenstein

Não sei me comovem os esforços (tantas vezes patéticos) daqueles que pretendem desvendar grandiosas intenções pré-determinadas quando olham, observam e veneram a obra de algum artista, objecto da sua devoção.

Quem se dedica ao acto criativo sabe bem que a sua criatura é algo independente. Somos todos Frankenstein, o criador alucinado, o visionário deslumbrado que gerou um monstro; magnífica metáfora do mais negro e belo Romantismo!

Quem cria sabe bem que a criatura deseja sempre a liberdade (pelo menos até ser capaz de compreender o que significa Liberdade).

Quem cria deve ter grandeza de espírito suficiente para se aguentar à bronca com as consequências da sua criação.

sexta-feira, março 27, 2015

Pudor

Há dias lixados: um gajo acorda com o estômago encolhido por uma espécie de náusea, uma coisa assim a dar para o esquisito. Uma náusea que até lhe é familiar mas, nessa precisa manhã, parece que não é aquela, parece que é outra náusea, outra angústia. Parece que sendo nossa, esta coisa é de uma outra pessoa.

De início não se percebe muito bem que porra é aquela. Uma angústia indefinida, um apertar do coração. Ainda que o sol brilhe num céu tão azul que parece tirado do genérico dos Simpsons, o apertão incomoda não se percebe bem nem onde nem porquê. Não faz sentido.

Depois começa-se a suspeitar que possa ser das botas. Muito calor para ter calçado aquelas merdas, uma em cada pata. Mas não, as botas que se lixem, já sei...! Dormi foi pouco. Mas até que nem é verdade. Ontem até te deitaste cedo e dormiste descansado (pelo menos é o que recordas do teu sono).

Então que raio de filha da putice é que te está a enrolar os miolos nos tomates, a deixar-te azedo e controverso?

Até te parece que estás a começar a perceber... já sabes! Mas tens pudor em falar nisso.

quarta-feira, março 25, 2015

Funeral do Rei Antigo

O povo anseia por tremendas liturgias. O Povo ama missas e cortejos, desfiles dolorosos são sempre os desfiles favoritos. O Povo saboreia a dor como uma criança se deleita com um docinho ou um urubu se deleita com bosta de cavalo sêca.

terça-feira, março 24, 2015

Fim do dia

O dia acaba escuro e levado pelo vento que traz para dentro um lugar frio.
As luzinhas da rua fazem aquele papel triste que lhes foi atribuído pelo Grande Arquitecto, fraco em urbanismo, confuso no traçado das ruas e desleixado na forma como amontoou na cidade a realidade com o sonho.
O dia acaba escuro, borrifado de receios inocentes, certos recantos fracamente iluminados por (secretos) desejos que ardem nas pedras do passeio, fantasmas de cães sem dono.
O dia acaba na certeza de que amanhã estará de volta, acompanhado da luz que o sol nos quiser oferecer.

segunda-feira, março 23, 2015

Da estupidez

A estupidez quando tem olhos é muito pior do que quando é cega.

domingo, março 22, 2015

O imbecil

Sermos pacíficos vivendo ao lado de um imbecil com tiques violentos deixa-nos vulneráveis.
O imbecil vê em nós seres inferiores a ele por não termos apetites semelhantes aos dele, apetites que lhe confundem as tripas com os testículos e o fazem desejar tudo. O imbecil deseja tudo mas não sabe para quê.

Deseja por desejar, deseja para possuir, para usar e, depois de usar, atirar para um canto o que usurpou. É preciso ter cuidado com o imbecil. Quando ele investe, bruto e violento, pouco mais podemos fazer que desviar a cabeça quando atira o primeiro soco.

O imbecil violento é um imbecil perigoso.

quinta-feira, março 19, 2015

Momentos gloriosos (1)

Está um gajo a mijar encostado a uma parede nas traseiras de um prédio de apartamentos ranhosos. Passa um cão magricela que se prepara para uma bela duma  cagadela. O mijão, indignado, mete a gaita pra dentro e afinfa uma valente biqueirada no canídeo que sai dali a ganir e a arrastar o cú pelo chão, deixando um rasto de merda no empedrado. "Ganda porco, este cão" pensa o mijão.

quarta-feira, março 18, 2015

A ferrugem

Andam por aí a dizer que isto ou aquilo não passam de contos para crianças. Querem dizer que são coisas parvas, coisas estúpidas, coisas que não passam de patranhas. Ilusões, enredos enganosos.

Pois, então é assim que tratamos as nossas crianças? As histórias que lhes contamos não têm outra intenção ou função que não seja menorizá-las (a elas que, por definição, já são menores)?

Na verdade, à medida que o tempo passa, as histórias infantis parecem tender para a imbecilidade graças à paranóia das pedagogias que nascem de posturas politicamente correctas. Mas as crianças não são as únicas vítimas desta plastificação da inteligência humana, os adultos também levam pela medida grossa.

Tal como nos contos infantis os lobos maus e as bruxas canibais parecem estar disfarçados de outras coisas para não traumatizar os mais sensíveis, também nos meios de comunicação social a bicharada mais peluda e de dentuça afiada, com hálito podre e merdoso, nos aparece em pose angelical e com discurso melífluo.

Andamos a pintar de fresco uma sociedade ferrugenta. Pintamos por cima sem limpar primeiro. A ferrugem continua lá, por baixo, a corroer, a corroer, a corroer...

segunda-feira, março 16, 2015

Nós, portugueses

Os portugueses não acreditam no diálogo; "falam, falam, falam e não dizem nada!"
Os portugueses não acreditam que possam ser chave para resolver um problema; "não sou eu quem vai mudar o mundo!"
Os portugueses têm baixa auto-estima, não acreditam que a critividade possa ser raíz para solução de seja qual for a natureza do problema que os aflige..
Os portugueses têm da arte uma visão patética que oscila entre a ignorância boçal e o pretensiosismo snob de uma auto-declarada elite que se compraz na sua pequenez intelectual.
As elites portuguesas são uma desgraça.

No entanto é pelos portugueses que nos apaixonamos facilmente. Por serem cépticos, desconfiados, conservadores, crédulos, falsamente vaidosos, orgulhosos de serem tal qual são, por serem um pouco estúpidos e razoavelmente imbecis.

Ok, ok, há quem esteja a ler estas linhas e a pensar: "são tudo isso, os portugueses, tal qual tu és." Não poderia estar mais de acordo: tal qual eu sou.

No dia em que todos tivermos coragem para nos olharmos ao espelho com olhos de ver quem somos (um povo que marca greves para as sextas-feiras) talvez possa existir a vaga possibilidade de mudar algo, por poucochinho que seja.

Até lá, cá andaremos com a cabeça entre as orelhas.

quarta-feira, março 11, 2015

Comboio em fuga

As pessoas tombam constantemente para dentro de pequeníssimos écrãs. Inclinadas sobre rectângulozinhos que seguram entre dedos ágeis e esguios concentram toda a sua atenção naquele pedacinho de universo que paira um palmo abaixo dos respectivos narizes.

Na carruagem são a maioria, a quase totalidade. Alguns dos adoradores do écrãzinho elevam-no ao nível dos olhos num gesto elegante que tem algo de litúrgico, fazem lembrar o padre e a hóstia.

Um ou outro velhote, um ou outro cidadão mais entrado nos anos que a vida tem para lhes cobrar não se curvam sobre o écrãzinho, não fogem por ali. Decerto escapam também pelos olhos mas fazem-no através das janelas, através da biqueira das botas, da biqueira dos sapatos, através do olhar lançado muito simplesmente no vazio mental.

Todos estamos concentrados, cada um na sua prisão. Todos queremos libertar-nos desta, todos correremos para dentro de outra. Somos um comboio em fuga.



quarta-feira, março 04, 2015

Fazer

Fazer. Fazer algo que não constitui obrigação. Fazer algo que resulte de uma vontade que pode até nem ser muito forte. Fazer algo que vem de algum lado, calmamente, a espreitar o mundo, algo que vem de algum lado dentro de nós, a querer mundo. Fazer. Apenas. Fazer.

terça-feira, março 03, 2015

Democracia

Alguma vez terá existido Democracia?

Se existiu deixou de existir; é passado, dificilmente será futuro outra vez. Governantes e governados deixaram de ter tempo para pensar nesse assunto.

Andamos todos demasiado ocupados a tentar ganhar dinheiro e a discutir como se pode arranjar mais dinheiro e quem deve dinheiro a quem e qual a melhor forma de cobrar a dívida e a menos ruinosa de pagar os juros agiotas que quem empresta dinheiro sempre cobra.

A Democracia vende-se e compra-se, troca-se, empresta-se e negoceia-se.

A Democracia é um franchise de uma marca made in USA que comprou os direitos de representação à Europa ali por volta dos tempos do pós 2ª guerra. A Democracia é fabricada na China por operários que trabalham 20 horas num dia e recebem uma tigela de arroz em troca do seu trabalho.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

A leveza de não ser

A coisa não anda fácil para os poderosos deste mundo. Quero dizer, difícil também não anda mas dá a impressão que o povo tem de olhos demasiado abertos, o que é embaraçoso para os verdadeiros ricalhaços. Eles são como vampiros, discretos, movem-se noutros patamares de realidade, não pisam o mesmo chão que nós pisamos. Ouvi dizer que há quem só pise alcatifa desde o dia em que nasce até ao dia em que é levado.

Mas a coisa anda agitada, anda sim senhor. Todos os dias há um destes que mostra o rabito, um novo processo que é instaurado, dúvidas que se levantam, reputações que se deitam. Fala-se demasiado sobre formas de enriquecimento, sobre fugas ao fisco, dinheiros sujos, dinheiros lavados, contas em bancos de uma opacidade total (o que não é bom nem para os bancos nem para a opacidade).

O povo anda mais atento e capaz de perseguir estas sombras, estes gajos que se esgueiram entre brechas na realidade ou estão apenas a atirar-nos uns quantos sacrificados para que os devoremos em praça pública, aplacando assim a nossa necessidade de justiça?

O povo anda de dente aguçado. Alguém vai ter que se lixar. Tenho a impressão que serão uns meros badamecos, uns ricaços de terceira categoria, carne para comunicação social. Os verdadeiros bosses, a esses ninguém chega. Nem Deus. Só o Diabo quando, finalmente, batem as botas e regressam ao ponto de partida.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

A pirâmide




Reflectindo só um pouco, quase nada, reflectindo levemente, muito levemente sobre a condição humana e a organização social fico surpreendido por encontrar uma constante luta entre poderosos e oprimidos (para simplificar).

Nos tempos pré-históricos não sabemos muito bem o que se passava (o termo "pré-história" explica a ausência de dados mais ou menos fiáveis) mas basta avançar um nadinha e começamos a encontrar os ricos, os muito ricos, os riquíssimos, os riquérrimos e os deuses na Terra. Meia-dúzia de personagens a dominar multidões de milhões de escravos, trabalhadores manuais, gente miserável ofuscada pelo brilho de existências gloriosas ou intelectuais prontos a fazer o inventário dos bens do senhor ou a escrever poemas épicos sobre a sua grandeza incomparável.

O tempo vai rodando e as personagens mudam de aspecto, o cenário transforma-se ao sabor do que é moderno em cada época, mas as relações entre os poderosos e os seus servos parecem permanecer teimosamente inalteradas.

Por momentos sonho, tenho ilusões, sinto o peito inchar de esperança, uma vertigem faz-me acreditar na mudança. Quero acreditar e a mudança parece acontecer. Mas logo após, pouco tempo corrido, aí está a realidade para iludir a verdade.

O cenário cai, volto a ver a estrutura da coisa, o esqueleto do mundo e lá está: o faraó, o imperador, o rei absoluto, o senhor do mundo no topo da pirâmide e a multidão, cá em baixo, agita-se qual montanha de insectos impacientes.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Ser (alguma coisa)

O Poder existe para se auto perpetuar. Os poderosos estão-se bem a cagar na populaça, por eles podíamos todos morrer afogados em merda que nem lhes bulia o coração. Quando se é Poderoso tem-se o vício do Poder e nada mais interessa, nada mais tem o mínimo valor.

Se o dinheiro dá Poder então os Poderosos querem dinheiro. Quanto mais melhor. Por muito que se tenha, ter-se mais nunca é demais; e mais, mais e mais e mais, até à loucura, até à dissolução do Outro, até fundir toda a gente na paisagem.

Pessoas transformadas em tijolos, em paredes de betão, em alcatrão sobre o qual rola o Rolls Royce, pessoas transformadas em coisas e objectos. Pessoas como adereços, pessoas que só interessam quando deixam de o ser. Urgh!

Somos alimento do Poder. Somos como bichos cortados às postas, feitos bifes, desmembrados, desossados, expostos em vitrines frigoríficas, rosados, húmidos, apetitosos pedaços de carne pronta a fritar, assar, cozer, estufar. Temos tão pouca importância! Coisa de baixo valor, eis o que somos.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Do Amor

Foi no Dia dos Namorados. Na peixaria encontrei o coração que a imagem acima ilustra. Uma representação de um coração ou, talvez seja mais exacto, uma representação do Amor.

Quem idealizou aquela pequena instalação artística? Não faço ideia. Talvez uma peixeira, não sei. Quando os meus olhos embateram na coisa fiquei meio hipnotizado.

Grotesco.

Aterrador ou enternecedor? O meu coração balançou perigosamente à beira de um abismo estético.

Discretamente fotografei a coisa com o meu telemóvel. Enquanto esperava a minha vez para ser atendido (Um polvo, se faz favor.) reflecti sobre o impulso de quem concebeu aquele pequeno mas fascinante horror.

As pescadas formando um coração, o pormenor colorido dos morangos, como dois coraçõezinhos mais pequenos (ou dois pingos de sangue?). Decerto aquela imagem fora concebida e construída sob o signo da Beleza. Quem fez aquilo, decerto considerou o conjunto como uma expressão de Beleza. Disso não restarão grandes dúvidas.

Esta manifestação de sensibilidade artística merecia lugar em qualquer galeria de arte contemporânea.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Homenagem





A arte contemporânea não se cansa de tentar morder a própria cauda, reflectindo sobre si própria num jogo de espelhos infinito e tantas vezes monótono. Deslumbram-se alguns com a sua capacidade de síntese, outros com a complexidade intelectual do artista. 

Com frequência somos conduzidos para espaços imensos, sem referência espacial perceptível nem narrativa que nos permita fingir que olhar para aquilo faz algum sentido. É a velha (e estafada) história do boi e do palácio tantas vezes já contada e utilizada neste blogue.


Vem esta revisitação a propósito da genialidade revelada pela criação de algumas obras de arte de rua, . A síntese sugestiva de muitas delas é absolutamente extraordinária. A forma directa e eloquente como atingem os seus propósitos comunicacionais colocam estes objectos ao nível das maiores criações do génio humano.


Muitas considerações poderia aqui explanar (talvez em próximos posts) mas não pretendo alongar-me. Quero apenas prestar homenagem a tantos artistas geniais, muitos dos quais nem o nome conheço, que muito admiro e muito me fazem pensar.






quinta-feira, fevereiro 12, 2015

É a realidade autêntica?

Aqui há dias tinha lido a notícia sobre a descoberta de duas esculturas em bronze atribuídas a Miguel Ângelo Buonarroti, o celebérrimo escultor renascentista que foi imortalizado por ter pintado o tecto da Capela Sistina, em Roma.

Apesar dos indícios que apontam Miguel Ângelo como mentor da criação das referidas esculturas, a dúvida mantém-se.

Agora surge nova notícia, desta vez sobre a recuperação de uma pintura atribuída a Leonardo Da Vinci. Em ambos os casos o que me rói a curiosidade é imaginar o que rola dentro da cabeça dos sábios historiadores de arte que têm o poder de declarar, ou não, a autenticidade das peças.

Basta uma palavra destes senhores (ou senhoras) para que aquele pedaço de tela (ou de bronze) passe a valer uma fortuna incalculável. Que tipo de sensações andarão aos saltos no coração e dentro da cabeças destes homens (ou mulheres)?

Quantas obras se perderam (e continuam a perder), quantos artistas geniais foram (e são) ignorados? Quem escreve a História constrói a realidade.

A questão final: até que ponto é a realidade autêntica?

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Vai à vida monstro!

A sensação que fica é a de que o monstro cresceu tanto que já não há tratador que dê conta dele nem chicote que o atormente. O monstro cresceu tanto que não há alimento suficiente para o satisfazer, precisa de mais. Muito mais!

Das duas uma: ou o monstro vai cair para o lado, a espernear e a morrer de fome ou vai sair da toca, esfomeado e esbaforido, saindo a correr com violência para ir procurar alimento noutras paragens.

Aqui já não há nada para ele comer.
Somos pouca carne e muito osso.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Estranha oferta

Esta manhã caminhei bastante. Deambulei por caminhos que normalmente não trilho. Entrei no metro de superfície quando cruzei a linha, saí do metro numa paragem mais ou menos ao acaso. Segui por aquela rua porque sim, podia ter perfeitamente enfiado pela outra, mas não.

Foi então que, numa rua iluminada pelo sol que brilhava no frio cortante, vi o sacana. Era o gajo, cuspido e escarrado, um vigaristazeco a quem um dia vendi um carro em 3ª ou 4ª mão. Papéis assinados, apertos de mão, o carro estava tão desgraçado que nem me lembro quanto custou ao escroque, mas lembro-me que foi praticamente oferecido.

Bem que desconfiei, o tipo falava pelos cotovelos, pelos pulsos, pelos tornozelos, o tipo era uma máquina de palavras absolutamente imparável; o aspecto dele: fato a duas cores, gravata colorida, anéis de ouro um pouco por todo o lado (o cachucho no mindinho)... porra! Precisava eu de mais alarmes para perceber o vígaro que tinha à minha frente? A minha natureza é muitas vezes contrária ao senso comum e devo ter pensado: "que se lixe, o aspecto não conta." Enganei-me.

Andei anos a receber multas e intimações da polícia, selos do carro para pagar, tudo porque o gajo, ao invés do prometido a mãos juntas com juras sobre a saúde da mãe, nunca mudou o registo de propriedade e o carro esteve sempre em meu nome. O número de telefone dele deixara de funcionar havia muito tempo.

Portanto, cada merdice relacionada com o malfadado veículo era da minha responsabilidade. Acabei por resolver o assunto após perder bastante tempo, algum dinheiro , toneladas de paciência e, sobretudo, após ter perdido alguma da confiança que tinha nos meus semelhantes.

Hoje, sob o sol matinal, lá estava ele, não havia dúvidas, o cabrãozeco; em carne e osso! Era como se o mundo me estivesse a oferecer uma oportunidade de colocar algumas cenas em pratos limpos. Aproximei-me com o intuito de falar com ele mas, quando estava mais perto, reparei no aspecto do homem.

Estava muito diferente do gajo que me enganou. Sujo, despenteado, roupa amarrotada. Olhou-me mas não me reconheceu (gajos como eu deve ele ter enganado às pázadas, devemos parecer-lhe todos iguais, não sei...). O olhar turvado (álcool?), passo titubeante, um farrapo humano. Passei por ele sem sorrir nem sentir nada de especial. O frio da manhã envolvia-me o coração.

Agradeci ao mundo a oferta que me fazia mas, não, obrigadinho, mundo, podes ficar com este gajo para ti, não o quero para nada. Já passou à condição de fantasma. Mais uns dias e torna-se completamente invisível.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Se

E se, na verdade, os gajos que nos explicam o nosso mal, os gajos que nos indicam o caminho (caminho correcto, dizem eles), se na verdade esses gajos não sabem do que estão a falar ou, na melhor das hipóteses, estão enganados? Na pior das hipóteses não estão errados, sabem bem o que estão a fazer e querem apenas enganar-nos.

E se andamos este tempo todo a confiar em gajos que não têm a mínima noção do que andam para aqui a fazer?

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Personagem

Todos somos potenciais personagens literárias mas muitos não têm consciência desse facto. Ou porque não sabem ler, ou porque, sabendo ler, não lêem, ou porque lendo não sabem o que lêem, ou ainda porque, apesar de lerem e compreenderem o que lêem, não querem acreditar que a sua carne pode tornar-se papel, folhas de um livro, imaginação de um autor ou retrato, produto da argúcia de alguém que nos observa e podemos nem sequer conhecer.

Esta constatação poderá ser de extrema utilidade. Em caso de necessidade podemos poupar no psicanalista se analisarmos com calma e cuidado a evolução da nossa personagem ao longo da narrativa que é a vida que vivemos.

Em momentos de tédio podemos distrair-nos passando para o papel a descrição do momento que a nossa personagem viveu ou está a viver (descrever o próprio tédio). Podemos imaginar algo para lá do papel grosseiro com que a realidade embrulha a nossa existência, rasgar o embrulho, sair da escuridão para a luz, viver na imaginação, na nossa própria imaginação... mas... que digo eu? Que escrevo eu?

Será que existo? Ou este texto, este computador, esta mesa, a sala onde estou, o edifício que envolve este momento e este meu corpo, será tudo isto por mim inventado? Ou... ou... ou serei eu invenção de algum autor, algum escritor que perdeu o juízo e me deixou (mera personagem literária) tomar consciência da minha condição de ser imaginário, tomar consciência da minha carne de papel?

Alguns de nós são, na verdade, personagens literárias mas não têm consciência desse facto.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Lavoisier revisitado

Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.

O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.

Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."

Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?

Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.

Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.

Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.

É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Epifania

De súbito compreendeu: não foi o nosso corpo que Deus criou à Sua imagem e semelhança. Não! O que em nós é igual a Deus é o nosso espírito! Cada um de nós transporta Deus dentro do corpo.

Deus fechado num corpo humano anseia a morte, gera a morte com a simples finalidade de se libertar pois Deus não pode ser prisioneiro.

Após esta epifania tenebrosa cresceu dentro dele um profundo desprezo por Deus. O que O levara a cometer tão imprudente milagre? Inexperiência? Malícia pura? Não percebeu Ele que fundir espírito e carne era criar a negra morte?

"Ok, está tudo lixado!" pensou, abanando a cabeça; "o melhor é beber um copo".

Bebeu dois.

sábado, janeiro 31, 2015

Um dilema

Quando penso nas lutas sociais que constantemente são travadas neste mundo que habito sinto um nó no estômago. De que lado devo colocar a minha força e a minha vontade?

Desde sempre tive uma vida razoavelmente desafogada. A minha família, com maiores ou menores dificuldades, há várias gerações que pertence ao que poderia designar por "classe média", mesmo quando essa classe era uma espécie de coisa incipiente, nos tempos da ditadura salazarista.

Olhando para o tempo que já vivi posso dizer que nunca passei fome por necessidade embora, nos meus tempos de estudante, tenha passado alguma fomeca por opção. Gastava o dinheiro noutras coisas que, à época, me pareciam mais essenciais do que a paparoca. Tartava-se de uma questão de opção.

Nos tempos que correm sinto-me privilegiado. Tenho emprego fixo e uma condição social razoável. Posso preocupar-me com assuntos muito para além da satisfação das minhas necessidades básiicas. Ao mesmo tempo vejo aumentar a fome e a miséria entre os mais desfavorecidos, pessoas que tiveram a pouca sorte de nascer em meios sociais estigmatizados, pessoas que não têm opção e se vêm empurradas para uma luta que se parece com o esbracejar de alguém que se afoga no mar alto.

Quando chega a hora de tomar um lado nas barricadas das lutas sociais sinto que devo lutar contra alguns dos privilégios que fazem da minha vida algo agradável, sinto que deveria ser capaz de viver com menos e partilhar mais. Sou inimigo de mim próprio?

Confesso que este dilema me confunde mas, no entanto, continuo a comer bem, a dormir melhor e a acordar todos os dias com uma boa disposição que não me incomoda. Mas, no entanto...


quarta-feira, janeiro 28, 2015

O futuro

As coisas são o que são e têm um tempo de gestação próprio. Não adianta muito querer correr mais depressa que o futuro.

O novo governo grego, as reuniões e negociações que hão-de vir com a troika, as consequências desta aventura para o futuro da União Europeia e da Zona Euro, ai Jesus, tanta dúvida a afundar-se na densidade do nevoeiro, não se vê bem, não se percebe nada!

Estranhamente a maioria dos políticos europeus e os seus donos, os habitualmente nervosos  Mercados, não têm mostrado grandes sinais da sua proverbial histeria sempre que a realidade se limita a acontecer conforme Deus quis que acontecesse. A vitória do Syriza não os tirou do sério... mmmmmh... não percebo muito bem o que está a acontecer. Que fazer?

Talvez possa matar uma galinha e espalhar as tripas da bicha em cima da mesa da cozinha tentando ler o futuro entre o sangue e os órgãos do galináceo. Deve haver muitas entradas para páginas que ensinam a ler tripa de galinha se procurar no Google como deve ser.

Talvez possa sentar-me uma tarde inteira a assistir a debates entre especialistas das mais variadas áreas do Saber e da Ignorância vertendo ciência certa e desvendando as imprecisões do futuro.

Ou talvez possa ir vivendo a minha vida e esperar que o futuro venha ter com o tempo presente como costuma fazer todos os dias. Vou estar atento, nunca se sabe quando nos cruzamos com o futuro e podemos dar-lhe uma palavrinha, meter uma cunha pelos nossos sonhos, vender-lhe um ou outro dos nossos anseios.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Pequena Esperança

E pronto, o Syriza ganhou as eleições na Grécia. Está feito, a sorte está lançada, etc. e tal.

Agora resta-nos observar. O que irá acontecer? Algo vai mudar, de facto? A Europa poderá suportar tal prova de rebeldia dada por um povo inteiro? Não sei, caro leitor, não sabemos. Ainda.

O que me faz sonhar um pouco é perceber que ainda há quem tenha impulsos corajosos, quem não tema o desconhecido. Como diz a canção: pra pior já basta assim! A Esperança renasce um pouquinho, débil, temerosa, pequena Esperança esta mas Esperança!

Talvez o mundo não tenha de ser como nos querem obrigar a acreditar. Talvez o Destino não seja mais que uma mentira que nos querem impingir. Talvez possamos ter uma palavra a dizer na construção das nossas vidas.

Ou então não.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Liberdade

A liberdade de cada um depende da gaiola em que está metido.

A liberdade total é a lei da selva.

Felizes são as feras.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Sonho de uma manhã de Inverno

Eram 3 mulheres feias e tristes. Não sei se tristes por serem feias, se feias por serem tristes. 3 mulheres no deserto da praia, escavando juras e feitiços. 3 mulheres deitadas nas pedras duras e frias, calçada abaixo. 3 mulheres sonhando com espelhos negros e cavaleiros brancos. 3 mulheres que choviam, ácidas, e vinham dissolver os anseios da multidão no medo de uma noite prematura. 3 fadas malditas e tristes. Não sei se tristes por serem malditas, se malditas por serem tristes.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Ser ou não ser

As reacções descabeladas dos muçulmanos mais radicais perante a publicação de uma nova caricatura de Maomé na capa do Charlie Hebdo mostram que não há qualquer possibilidade de entendimento entre o nosso mundo e o deles, que vivemos em mundos distintos, que não há, nem de um lado nem do outro, a mínima intenção de encontrar uma plataforma comum de convivência. Parece absolutamente impossível explicar aos radicais islâmicos que uma coisa é o Estado, outra coisa é a Religião, que as pessoas são diferentes de Deus. Nunca compreenderão a frase de Jesus “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, nem nós seremos capazes de compreender a inevitabilidade da submissão da vontade humana aos desígnios de Deus. Azeite e água misturam-se melhor?

Levámos séculos até conseguirmos separar Deus e Estado, até alcançarmos a liberdade religiosa proclamando a tolerância como valor universal. Está bem abelha, vai contar essa aos radicais islâmicos ou aos grupelhos de extremistas xenófobos e racistas que pululam por aí. Para gente desta qualquer pretexto é bom para matar, estropiar, destruir, intimidar; a violência parece ser parte essencial da mensagem divina ou finalidade última da actividade cívica. Assassinar em nome de Deus não é considerado blasfémia, matar outro Ser Humano não é considerado crime. Blasfémia é desenhar caricaturas de uma certa personagem histórica, crime é ser estrangeiro, ser diferente. Este mundo é lixado! Vá-se lá desvendar-lhe um sentido.

Os líderes muçulmanos radicais vêm uma vez mais ameaçar de morte, guerra e destruição indiscriminada o espaço ocidental; isto na maior das calmas: voz pausada, olhar seráfico, pose flutuante, como se tivessem conferenciado com o Profeta há coisa de cinco minutos e este lhes tenha transmitido ordens directas do Big Boss. Sentem-se ofendidos com um punhado de desenhos e umas bocas foleiras. Tretas. Eles querem é um pretexto para justificar as suas acções terroristas, os seus impulsos criminosos e a sua agenda política, tal como do lado de cá uns certos hipócritas justificaram ataques assassinos em território muçulmano com a existência de armas de destruição maciça que afinal eram refinada mentira. É tudo farinha do mesmo saco. De um lado e do outro os líderes mais agressivos e sem escrúpulos conseguem arrebanhar exércitos, semear a discórdia e fazer a guerra com uma facilidade assustadora. A guerra será lucrativa para alguém, decerto para uns e outros, caso contrário haviam de se esforçar por viver em paz.


Acredito que a maioria das pessoas do outro lado sejam pessoas como eu. Acredito que tenham as suas convicções, que tenham os seus ódios e as suas fidelidades absolutas, que tomem um lado da barricada em caso de guerra mas que, acima de tudo, querem é viver em paz, ver os filhos crescer e pensar na vida como ela é, não na vida como nos querem convencer que devia ser. 

quarta-feira, janeiro 14, 2015

O Sentido da Vida

O Sentido da Vida? Caraças, não me digas que não és capaz de perceber o sentido da Vida! Até os animais mais estúpidos conseguem lá chegar.

O Sentido da Vida é a preservação da espécie.

É preciso ser mesmo muito burro para nunca ter pensado nisso, uma coisa tão simples. Repara como até as galinhas, estúpidas entre as mais estúpidas das espécies, parecem ter interiorizado esta lei, das mais óbvias que a Natureza tem para impor aos seus filhos. Lá andam elas a bicar, a bicar, a ser galadas, a pôr ovos no ninho, a aquecê-los até nascerem pintaínhos, and so on, and so on...

Enquanto seres humanos somos impelidos a preservar também a nossa Cultura. Daí que possamos considerar que o Sentido da Vida humana é ligeiramente diferente do das galinhas ou das minhocas. Acrescentamos ao comer-procriar-comer-procriar a necessidade de ensinar aos outros aquilo que nos parece ser essencial para a nossa sobrevivência e, caso os outros não se mostrem interessados em aprender, enfiamos-lhes a nossa crença pela cabeça abaixo.

Se encaramos a Vida sob esta perspectiva não me digas que a Vida não faz Sentido, porra!!! Ainda por cima é coisa de macho, impor vontades, andar à porrada.Isto sim é viver em plenitude a nossa superior humanidade. O mais forte subsiste, o mais forte é o mais bonito: o mais forte tem sempre razão!

terça-feira, janeiro 13, 2015

Obrigadinho, ó coisa

Hoje faço 52 anos. Não tenho por hábito festejar o meu aniversário, nem mesmo comentar com colegas ou coisa assim. A coisa passa, discreta e sossegada. Mais logo os meus pais irão telefonar-me, um ou outro familiar irá fazer o mesmo, talvez algum amigo. A minha mulher e a minha filha haverão de lembrar-se; talvez até tenha direito a um presente. É assim que este dia costuma encaixar-se nos outros, sem nada de especial.

Mas agora há quem se preocupe comigo, graças aos deuses. Hoje, ao abrir o meu e-mail, tinha 3 mensagens de parabéns de empresas diferentes. Todas elas me congratulavam pelo dia dia especial que é o dia de hoje e me ofereciam presentes! Claro que teria de pagar pelos presentes que me eram oferecidos mas com desconto. O meu presente era, na verdade, um desconto de 10% ou 5€ a menos no preço e portes grátis, pequenas maravilhas!

Esta amizade automática deixou-me um pouco acabrunhado. A suave magia que costumo fazer, deixar escoar o meu dia de aniversário sem que quase ninguém disso se aperceba, está ameaçada pela solicitude interesseira de quem tem por objectivo vender (livros, neste caso). Nem sequer é um vendedor untuoso, sorriso forçado e simpatia de plástico barato, a tentar impingir-me o produto, não; uma merda de uma máquina, senhores! Uma merda de uma máquina a desejar-me Feliz Aniversário!!!

Ok; obrigadinho, ó coisa.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Incomodidade

A coisa aquece lá para os lados da Grécia. As sondagens indicam vantagem do Syriza nas intenções de voto. Os mercados começam a ficar nervosos. Os mercados e os líderes dos países mais pesados na União Europeia.

À medida que força do partido extremista grego aparenta crescer os recados vão sendo mais numerosos e sobem no tom de ameaça. Resumindo: se os gregos se atreverem a escolher um partido que desagrade aos mercados e à senhora Merkel a coisa vai tremer.

Há quem diga que um lado e outro vão fazendo bluff : nem o Syriza será tão atrevido nas suas acções, caso chegue ao poder, nem os mercados entrarão em colapso nervoso caso isso aconteça. Será? Não dá para fazer previsões sobre tão complexa situação.

O que quero fazer notar é que no presente panorama económico e político que vivemos na Europa a democracia tornou-se uma coisa incómoda e dispensável. Tudo seria mais belo e mais fácil se os gregos obedecessem ao ditames da troika e da comissão europeia sem respingar, tal como fazem os bons alunos.