O vazio é um espaço cheio de nada... mas que raio de coisa é essa: o nada!?
Se tem nome é porque é alguma coisa embora pareça querer esconder-se ou passar despercebido.
O nada tenta fazer-se transparentemente camaleónico, confunde-se na paisagem, enrola-se na ausência de outras coisas, quer-nos fazer acreditar que não é o que, na realidade, é. O nada é um espião.
Tenta ser zero, ser vazio, tenta não ser nada, suprema artimanha, algo que tenta não ser aquilo que é.
Por vezes suspeito que o nada seja uma divindade maligna que se vai encostando nas dobras do nosso pensamento como quem não quer a coisa, à espera... eternamente à espera.
terça-feira, dezembro 02, 2014
quinta-feira, novembro 27, 2014
Dúvida existencial
Hoje vi uma mulher que levava um puto pequeno sentado num carrinho de compras e falava muito alto com outra mulher que a acompanhava. Não dei atenção ao que dizia, falava de qualquer coisa banal, não me lembro. Registei apenas o tom de voz e a aparência desorbitada da senhora, um certo ar de louca com um sorriso estampado no rosto.
O puto conduzia as operações. Quando a senhora ia virando o carrinho para a direita, travou subitamente e voltou com brusquidão à esquerda, alardeando o facto de ter sido o pequenote a orientá-la. A senhora não ria, não mostrava qualquer expressão particular que pudesse desvelar-lhe o estado de espírito. Mantinha, apenas, aquele sorriso estampado no rosto como se fosse resultado de alguma cirurgia plástica e ela vá sorrir assim para todo o sempre. E falava alto (talvez exagerasse se dissesse que a senhora berrava).
Mais tarde, quando seguia ao volante do meu carro, dei por mim a olhar um sinal vermelho e a pensar que aquela senhora tinha fortes probabilidades de ser aquilo a que chamamos maluca. Se assim fosse (a senhora maluca) e o puto filho dela...será a maluquice hereditária? Quero dizer, uma criança nasce maluca ou fica maluca pela convivência e contacto directo com malucos encartados?
Seja como for, o que me confortou nesta situação e me levou a registá-la aqui, foi ter pensado como é estranhamente bela a loucura e como lhe reconhecemos o direito à vida. O que seria deste mundo sem os biliões de malucos que nele habitam?
O puto conduzia as operações. Quando a senhora ia virando o carrinho para a direita, travou subitamente e voltou com brusquidão à esquerda, alardeando o facto de ter sido o pequenote a orientá-la. A senhora não ria, não mostrava qualquer expressão particular que pudesse desvelar-lhe o estado de espírito. Mantinha, apenas, aquele sorriso estampado no rosto como se fosse resultado de alguma cirurgia plástica e ela vá sorrir assim para todo o sempre. E falava alto (talvez exagerasse se dissesse que a senhora berrava).
Mais tarde, quando seguia ao volante do meu carro, dei por mim a olhar um sinal vermelho e a pensar que aquela senhora tinha fortes probabilidades de ser aquilo a que chamamos maluca. Se assim fosse (a senhora maluca) e o puto filho dela...será a maluquice hereditária? Quero dizer, uma criança nasce maluca ou fica maluca pela convivência e contacto directo com malucos encartados?
Seja como for, o que me confortou nesta situação e me levou a registá-la aqui, foi ter pensado como é estranhamente bela a loucura e como lhe reconhecemos o direito à vida. O que seria deste mundo sem os biliões de malucos que nele habitam?
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quarta-feira, novembro 26, 2014
A doninha e a galinha
É complicado aceitar que não haja ninguém capaz de governar um país sem meter as mãos na merda. A rectidão e a honestidade são, cada vez mais, assuntos de fábula, coisas próprias de um tempo em que os animais falavam.
Como pode um homem honesto resistir às forças e tentações que lhe caem no colo mal senta o rabo na cadeira do poder? Como pode ele ignorar o canto insidioso das criaturas que pairam, sobrevoando nos ares, em volta da cabeça dos poderosos? Será necessária uma força de carácter apenas ao alcance de alguns heróis mitológicos.
Precisamos de um Ulisses ou de um Hércules para nos governar. Como podemos confiar numa doninha como Passos Coelho ou uma galinha como Paulo Portas?
Como pode um homem honesto resistir às forças e tentações que lhe caem no colo mal senta o rabo na cadeira do poder? Como pode ele ignorar o canto insidioso das criaturas que pairam, sobrevoando nos ares, em volta da cabeça dos poderosos? Será necessária uma força de carácter apenas ao alcance de alguns heróis mitológicos.
Precisamos de um Ulisses ou de um Hércules para nos governar. Como podemos confiar numa doninha como Passos Coelho ou uma galinha como Paulo Portas?
quarta-feira, novembro 19, 2014
Luta
O surto de legionella ou a já esquecida ameaça apocalíptica do ébola vão produzindo efeitos mirabolantes dentro de certas cabeças. Imagino que dentro de muitas, muito mais que 100 cabeças.
Pessoas que não lêem jornais, que ouvem o noticiário televisivo com ouvidos de burro ou se limitam a recolher informação vinda da boca do vizinho, criam imagens incríveis dentro da cabeça e não hesitam em dispará-las cá para fora com uma violência e um alarmismo dignos de prémio internacional. É inquietante.
Colocadas perante a evidência de que a sua opinião é uma coisa estúpida e sem fundamento essas pessoas, em vez de ficarem descansadas e aliviadas, tornam-se teimosas, quase agressivas: que ouviram, que lhes disseram, que vai morrer uma cambada de gente, que a coisa é gravíssima. Em última análise vamos todos morrer, eu, ele, ela, os nossos filhos, os nossos pais, os nossos amigos. Só ficam para semente aqueles de quem não gostamos e os nossos piores inimigos.
Fico descoroçoado. Não consigo acreditar. É como se a ignorância produzisse dentro de nós um indomável desejo de que as coisas corram mal, uma espécie de estranho ódio ao mundo e a nós próprios.
Todos os dias tento combater a ignorância mas raramente tenho a certeza de estar a ganhar a luta.
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sexta-feira, novembro 14, 2014
Vampirices
Porque devemos nós preocupar-nos com a nacionalidade dos capitalistas que nos exploram?
Se uma noite destas for abordado na rua mal iluminada por dois sinistros vampiros, um originário da Transilvânia e outro, ali, da Bobadela, deverei eu oferecer o pescoço e o sangue ao vampiro nacional? É claro que se o outro for mais agressivo é ele quem acabará por me cravar a dentuça no pescoço. É a Lei do Mercado.
Assim; porque devemos indignar-nos com o facto de haver cada vez mais chineses, brasileiros e angolanos a investir o seu dinheiro em empresas portuguesas? Uma empresa deixa de ser portuguesa se for gerida por um alemão? Desde que tenha emprego, salário certo e contrato de trabalho devo preocupar-me com a origem do meu patrão?
Tal como o capital, também a honestidade e a filha-da-putice não têm nacionalidade.
Se uma noite destas for abordado na rua mal iluminada por dois sinistros vampiros, um originário da Transilvânia e outro, ali, da Bobadela, deverei eu oferecer o pescoço e o sangue ao vampiro nacional? É claro que se o outro for mais agressivo é ele quem acabará por me cravar a dentuça no pescoço. É a Lei do Mercado.
Assim; porque devemos indignar-nos com o facto de haver cada vez mais chineses, brasileiros e angolanos a investir o seu dinheiro em empresas portuguesas? Uma empresa deixa de ser portuguesa se for gerida por um alemão? Desde que tenha emprego, salário certo e contrato de trabalho devo preocupar-me com a origem do meu patrão?
Tal como o capital, também a honestidade e a filha-da-putice não têm nacionalidade.
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terça-feira, novembro 11, 2014
Noite e dia
O dia não acaba com a chegada da noite. Se tem 24 horas, dizer noite e dizer dia é coisa que faz pouco sentido. O relógio não se compadece com a luz. O relógio marca o tempo de forma implacável e o dia tem 24 horas. Nem mais nem menos um segundinho que seja.
Talvez estejamos precisados de uma outra palavra para significar esse espaço de 24 horas que o relógio marca e onde encaixamos as nossas existências independentemente da luz e da sombra, do calor, do frio, seja lá do que for! Tentamos organizar as nossas existências em função das 24 horas do relógio, é assim que acreditamos ser feitos e acreditamos fazer a vida.
O dia de 24 horas é uma coisa artificial; invenção humana. O dia tem a ver com a luz do sol e a chegada da lua. No dia de 24 horas não há lugar para o crepúsculo! Tenho saudades do tempo em que o dia era uma coisa viva.
Talvez estejamos precisados de uma outra palavra para significar esse espaço de 24 horas que o relógio marca e onde encaixamos as nossas existências independentemente da luz e da sombra, do calor, do frio, seja lá do que for! Tentamos organizar as nossas existências em função das 24 horas do relógio, é assim que acreditamos ser feitos e acreditamos fazer a vida.
O dia de 24 horas é uma coisa artificial; invenção humana. O dia tem a ver com a luz do sol e a chegada da lua. No dia de 24 horas não há lugar para o crepúsculo! Tenho saudades do tempo em que o dia era uma coisa viva.
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quinta-feira, novembro 06, 2014
Ver habilitações
Diz o povo que "quem vê caras não vê corações" mas não diz que "quem vê caras não vê habilitações".
Há certas personagens que pelo seu simples aspecto parecem trazer estampado no rosto um carimbo de competência profissional em determinada área. Vem isto a propósito de Teodora Cardoso, essa aparente luminária das finanças nacionais.
O "boneco" desta senhora parece confirmar tudo aquilo que se poderia esperar da caricatura de alguém que, sendo mulher, tenha dedicado a sua vida ao estudo da obscura arte negra das finanças. Ela até pode ser uma nulidade, ter algum parafuso desapertado, alguma porca mal rodada, mas que tem pinta de entendida na matéria, isso ninguém pode negar.
Teodora (até o nome tem um ressonância que impõe respeito mesmo num corredor de mármore, iluminado por janelas abertas sobre um jardim bem tratado por um jardineiro profissional) é a nossa presidenta: preside ao Conselho das Finanças Públicas e, olhando para ela, ficamos de imediato sossegados; acreditamos que uma mulher assim seja uma trabalhadora incansável que guarda apenas para os números todo o espaço que haja vago lá nas circunvoluções do seu cérebro cinzento.
O povo bem poderia dizer, em honra de Dona Teodora, que "quem vê caras vê habilitações".
Há certas personagens que pelo seu simples aspecto parecem trazer estampado no rosto um carimbo de competência profissional em determinada área. Vem isto a propósito de Teodora Cardoso, essa aparente luminária das finanças nacionais.
O "boneco" desta senhora parece confirmar tudo aquilo que se poderia esperar da caricatura de alguém que, sendo mulher, tenha dedicado a sua vida ao estudo da obscura arte negra das finanças. Ela até pode ser uma nulidade, ter algum parafuso desapertado, alguma porca mal rodada, mas que tem pinta de entendida na matéria, isso ninguém pode negar.
Teodora (até o nome tem um ressonância que impõe respeito mesmo num corredor de mármore, iluminado por janelas abertas sobre um jardim bem tratado por um jardineiro profissional) é a nossa presidenta: preside ao Conselho das Finanças Públicas e, olhando para ela, ficamos de imediato sossegados; acreditamos que uma mulher assim seja uma trabalhadora incansável que guarda apenas para os números todo o espaço que haja vago lá nas circunvoluções do seu cérebro cinzento.
O povo bem poderia dizer, em honra de Dona Teodora, que "quem vê caras vê habilitações".
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terça-feira, novembro 04, 2014
Da estupidez
A arrogância pretensiosa de um ignorante é dos espectáculos mais irritantes que a Natureza inventou para nos distrair. Aquela segurança vazia, aquele olhar indolente, o meio sorriso escondido no canto da boca... ha, a estupidez!
O mais espantoso é a forma como os ignorantes são incapazes de pôr em causa a sua visão imbecil sobre o que quer que seja. Para um estúpido a estupidez funciona no lugar da inteligência. Uma pessoa inteligente consegue desconfiar do que lhe vai na alma, um estúpido ignorante vive soterrado em certezas.
A maioria das pessoas passa por uma fase na vida em que patinha perigosamente no pântano da estupidez. Ninguém nasce ensinado, à partida somos todos ignorantes.
Não é um espectáculo bonito de se ver, um adolescente burro como uma porta, seduzido pela imagem que faz de si próprio. A paixão por nós próprios é uma das mais temíveis armadilhas da existência humana.
Narciso sem Eco olha-se numa poça de lama.
O mais espantoso é a forma como os ignorantes são incapazes de pôr em causa a sua visão imbecil sobre o que quer que seja. Para um estúpido a estupidez funciona no lugar da inteligência. Uma pessoa inteligente consegue desconfiar do que lhe vai na alma, um estúpido ignorante vive soterrado em certezas.
A maioria das pessoas passa por uma fase na vida em que patinha perigosamente no pântano da estupidez. Ninguém nasce ensinado, à partida somos todos ignorantes.
Não é um espectáculo bonito de se ver, um adolescente burro como uma porta, seduzido pela imagem que faz de si próprio. A paixão por nós próprios é uma das mais temíveis armadilhas da existência humana.
Narciso sem Eco olha-se numa poça de lama.
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segunda-feira, novembro 03, 2014
Midas
A passagem mais famosa do mito do rei Midas é aquela em que ele consegue de Dioniso o dom de transformar em ouro tudo aquilo em que toca. O pormenor de Midas ser pessoa de raciocínio lento, um estúpido, se não estivermos com rodeios, nem sempre é devidamente salientado.
Após se ter apercebido da enormidade do dom que obtivera, Midas beneficia da compreensão de Dioniso (teve sorte!) e a coisa resolve-se com um mero banho na nascente de um rio. Mas a tacanhez de espírito de Midas vai valer-lhe as célebres orelhas de burro, presente de um Apolo irritado.
O mito é daqueles bem conhecidos mas o que me impressiona é a burrice da personagem. Como se a concupiscência decorresse de uma notória incapacidade para compreender o mundo. Midas, estúpido como um calhau, é a imagem da ambição desumana. As orelhas de burro o símbolo da sua glória.
Após se ter apercebido da enormidade do dom que obtivera, Midas beneficia da compreensão de Dioniso (teve sorte!) e a coisa resolve-se com um mero banho na nascente de um rio. Mas a tacanhez de espírito de Midas vai valer-lhe as célebres orelhas de burro, presente de um Apolo irritado.
O mito é daqueles bem conhecidos mas o que me impressiona é a burrice da personagem. Como se a concupiscência decorresse de uma notória incapacidade para compreender o mundo. Midas, estúpido como um calhau, é a imagem da ambição desumana. As orelhas de burro o símbolo da sua glória.
quinta-feira, outubro 30, 2014
Paranóia ou nem por isso?
É impressão minha ou a paranóia descabelada provocada pelo Ébola nos países ocidentais está a diminuir?
Em muitos países de África sim, a situação é terrível. Já morreram milhares de pessoas. Deste lado do Mar Mediterrânico a contagem de casos ainda não ultrapassou a casa das unidades mas, no entanto, não fomos poupados a alertas desesperados avisando-nos sobre a proximidade do Apocalipse.
De onde vem este desejo masoquista de que um dia (esse dia virá!?) uma epidemia devastadora caia sobre nós e deixe a nossa sociedade num estado tipo Walkingdead? Será isto resultado de um sentimento de remorso, um recalcamento católico que nos faz olhar ao espelho e ver uma sociedade merecedora de um novo Dilúvio ou coisa ainda pior?
Há certas personagens que nestas ocasiões vêm para os écrãs de TV fazer cara de cú, franzir a sobrancelha e explicar à populaça que eles bem tinham avisado; que a grande epidemia da nossa geração é esta (agora é que é!!!), que estamos lixados e o melhor é ir encomendando a alminha ao Criador.
Parece que esses caras-de-cú se enganaram (mais uma vez) e que, oh céus!, ainda não é desta que vamos andar a enterrar as nossas famílias em valas-comuns.
O risco de infecção existe, não haja dúvidas quanto a isso. Ninguém está livre do Ébola do mesmo modo que ninguém está livre do HIV ou do Influenza.
Resumindo: não fiques desatento, caro leitor, se pisares cócó na rua tem cuidado ao limpar a sola do sapato, o cócó pode estar cheio de vírus Ébola! O mesmo com chichi ou escarretas. Não mexas em escarretas de desconhecidos, nem em poças de vomitado por identificar. Tem cuidado leitor amigo. Já são poucos os que visitam Blogues, não queremos que o Ébola te leve.
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quarta-feira, outubro 29, 2014
Dúvida existencial
Ir acordando todos os dias num lugar pacífico onde as regras vão sendo cumpridas com maior ou menor esforço desde que o sol brilhe lá no lugar dele.
Tomar banho de água quente, beber café com açúcar, ter a sorte de sair à rua de cabeça erguida sem precisar de procurar atiradores furtivos ou outras coisas explosivas que caiam do céu... será isto o Paraíso?
A mulher atarracada que sorri e dá os bons dias, o homenzinho gorducho que conta histórias insalubres por detrás do balcão e serve cafés, a rapariga elegante que passa como se os pés não tocassem o chão... serão anjos?
Estarei vivo ou serei apenas um fantasma? Fantasma no Paraíso.
Tomar banho de água quente, beber café com açúcar, ter a sorte de sair à rua de cabeça erguida sem precisar de procurar atiradores furtivos ou outras coisas explosivas que caiam do céu... será isto o Paraíso?
A mulher atarracada que sorri e dá os bons dias, o homenzinho gorducho que conta histórias insalubres por detrás do balcão e serve cafés, a rapariga elegante que passa como se os pés não tocassem o chão... serão anjos?
Estarei vivo ou serei apenas um fantasma? Fantasma no Paraíso.
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terça-feira, outubro 28, 2014
Reflexão matinal
A missão do poeta grego na era clássica seria a de educar os homens livres. A ser assim haveria uma perspectiva utilitária da obra de arte? A arte com uma função didáctica ao serviço de um regime político e de uma ideologia? A democracia grega foi entretecida com a religião e com o mito numa estranha síntese que, depois de tantos séculos, está no estado que nós sabemos.
A democracia nasceu em Atenas, cidade orgulhosa da liberdade dos seus cidadãos. Cidadãos que, na sua esmagadora maioria, se não na totalidade, possuíam escravos.
Diz o povo que "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita". Talvez a democracia não dispense o trabalho escravo. Talvez o fundamento da liberdade de uns seja a prisão de outros.
Disse Proudhon que "toda a propriedade é um roubo". Haverá quem possa dizer que "toda a liberdade é uma prisão"?
Isto está complicado, já me perdi. O melhor é ficar por aqui e ir comer um pão com uma fatia de queijo e uma pequena chávena de café.
A democracia nasceu em Atenas, cidade orgulhosa da liberdade dos seus cidadãos. Cidadãos que, na sua esmagadora maioria, se não na totalidade, possuíam escravos.
Diz o povo que "o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita". Talvez a democracia não dispense o trabalho escravo. Talvez o fundamento da liberdade de uns seja a prisão de outros.
Disse Proudhon que "toda a propriedade é um roubo". Haverá quem possa dizer que "toda a liberdade é uma prisão"?
Isto está complicado, já me perdi. O melhor é ficar por aqui e ir comer um pão com uma fatia de queijo e uma pequena chávena de café.
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domingo, outubro 26, 2014
Ser Humano
Os passarinhos sáo, sob um certo ponto de vista, uma coisa horrível. Não falo daqueles passarinhos azulinhos que auxiliam a Gata Borralheira a fazer o seu vestidinho para o baile do príncipe. Falo dos passarinhos reais que cagam sobre o meu carro e piam desalmadamente quando os primeiros raios de luz invadem a paisagem e um gajo tenta adormecer, apesar de tudo.
A Natureza é assim: brutal e desapaixonada, obedecendo a regras desumanas pois os humanos são, apenas, uma das espécies que habitam o planeta.As nossas regras não valem nada, nem para nós nem para os restantes filhos de Deus.
Quem diz os passarinhos diz os cães, diz os gatos, os bodes e os leões. Todo o bicho tem pele, tem barriga e aparelho digestivo. O lugar que cada um de nós ocupa neste mundo é construído apesar e contra uma série de coisas bonitas e uma série de coisas feias.
Hoje é Domingo. Sinto-me em estado catatónico após ter comido (comi coisas vegetais e coisas animais) e bebido mais do que um copo de vinho. Há em mim uma espécie de vertigem que me desapaixona e me faz amargo e cínico. É a vertigem de Ser Humano.
A Natureza é assim: brutal e desapaixonada, obedecendo a regras desumanas pois os humanos são, apenas, uma das espécies que habitam o planeta.As nossas regras não valem nada, nem para nós nem para os restantes filhos de Deus.
Quem diz os passarinhos diz os cães, diz os gatos, os bodes e os leões. Todo o bicho tem pele, tem barriga e aparelho digestivo. O lugar que cada um de nós ocupa neste mundo é construído apesar e contra uma série de coisas bonitas e uma série de coisas feias.
Hoje é Domingo. Sinto-me em estado catatónico após ter comido (comi coisas vegetais e coisas animais) e bebido mais do que um copo de vinho. Há em mim uma espécie de vertigem que me desapaixona e me faz amargo e cínico. É a vertigem de Ser Humano.
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quinta-feira, outubro 23, 2014
Monumento e bibelot
As Benevolentes intimidam o leitor lá do alto das suas 896 páginas. Ao olhar o volume, que na edição portuguesa tem na capa vermelha uma reprodução de uma tela de Lucio Fontana, um gajo menos corajoso fica logo a pensar em coisas como: "que tijolo!" ou "ler isto é como ter um emprego". Mas não é pela escala do discurso, nas suas páginas de texto denso e compacto, que este livro pode ser considerado um monumento.
Do mesmo modo O Francoatirador Paciente, livrinho de 240 páginas bem polvilhadas por animados diálogos que lhe aligeiram o peso global, não poderá ser por isso considerado um bibelot poisado num naperon rendilhado. Até porque o tema de Pérez-Reverte é muito interessante e actual e a essência da sua história transporta uma certa mistura de melancolia e raiva, mistura, a meu ver, bem espanhola.
Não será por As Benevolentes me terem transportado para lá das fronteiras da imagem que eu tinha do Ser Humano e por O Francoatirador me ter parecido redondinho e rechonchudo no final da leitura. Não. Não é por nenhuma destas razões que um livro me parece um monumento e outro me sugere um bibelot.
A sensação que tenho é que Littell escreveu o seu tijolo exactamente da forma que tinha de fazê-lo. Aquilo é uma coisa em se acredita e é aí que reside o sublime desconforto de o ler. Já Pérez-Reverte dá a sensação de estar a escrever a sua renda de casa, o jantar com a família e a viagem de férias. O livro é bem escrito mas falta-lhe qualquer coisinha para descolar a sensação de estarmos a ler uma obrigação editorial.
Seja como for não dou por mal empregue nem um dos minutos que levei a ler um e outro destes livros. Não me interpretes mal, gentil leitor. Tanto me sinto maravilhado quando entro no espaço infinito da Sagrada Família como quando descanso o olhar no bibelot do menino que mija entre um gole e outro e mais um sorriso da minha querida tia, que é muito velhota mas gosta sempre de me ver.
terça-feira, outubro 21, 2014
Falar com as paredes
O mundo está repleto de sinais, o mundo comunica com cada um de nós de uma forma muito particular. A cena é sermos capazes de ler esses sinais e compreender o que o mundo nos quer dizer.
São pequenos sinais, mensagens mais ou menos subtis, normalmente repetições que é a forma mais evidente de nos apercebermos que o mundo está bem e disposto a contar-nos uma anedota.
Quando está zangado o mundo atira-se a nós sem aviso.
Para comunicar com o mundo precisamos apenas de acreditar... e estar atentos.
São pequenos sinais, mensagens mais ou menos subtis, normalmente repetições que é a forma mais evidente de nos apercebermos que o mundo está bem e disposto a contar-nos uma anedota.
Quando está zangado o mundo atira-se a nós sem aviso.
Para comunicar com o mundo precisamos apenas de acreditar... e estar atentos.
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quarta-feira, outubro 15, 2014
Rei-coisa
Há um mar inteiro dentro da minha cabeça. Um mar onde se afogam as ideias e os desejos tentam aprender a nadar. Cardumes de coisinhas sem nome movem-se daqui para ali fugindo dos raios de luz, essa luz que penetra a fundura. São raios atirados à água, raios como farpas que perdem fulgor à medida que desistem de iluminar este mundo submerso, mundo sombrio, palácio de um rei monstruoso, forma negra, estática, que por mim espera lá no fundo do abismo. Um dia irei conhecê-lo. Por agora sinto-o mas não o vejo. É o rei-coisa, imperador deste mundo inexistente.
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segunda-feira, outubro 13, 2014
Vida em diferido
Tampas de esgoto que saltaram permitindo fontes violentas de água que jorra alegremente num espectáculo surpreendente. Tudo isto aconteceu em Lisboa. Hoje.
Hoje fui a Lisboa. Para lá fui de barco, fui de metro. Como de costume viajei debaixo das ruas.De metro regressei ao cais, depois o barco. Balanço bom, chuvinha caindo, quase simpática. Nada daquilo que a TV mostra.
Tem acontecido isto. Já aconteceu, pelo menos, uma outra vez. Lisboa alaga-se, deixa-se enganar pelas águas que o céu lhe atira para cima com toda a força, eu vou a Lisboa e não vejo nada disto. Nadinha de nada. Vejo as cheias e as enxurradas na TV, em diferido.
É uma sensação estranha. Como se, para mim, houvesse apenas normalidade mesmo quando passo perto do acontecimento extraordinário. Como se, para mim, a vida fosse uma rotina segurinha, sempre longe das coisas espantosas que acabo por ver, apenas, em diferido, na TV.
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sexta-feira, outubro 10, 2014
Socorro!!!
Começou a campanha de desinformação e exploração do medo. Haverá por aí alguém interessado em explorar a ingenuidade alheia?
A ignorância é importante e há quem trabalhe arduamente no sentido de a manter forte e actuante. Um ignorante está mais desprotegido perante o temido novo flagelo divino.
Quem pretende lucrar com esta nova paranóia colectiva? Ainda não percebi mas decerto irá surgir em breve algum negócio chorudo associado ao novo medo da década.
Cuidado, vem aí o vírus do Ébola!!!
quarta-feira, outubro 08, 2014
Espírito tuga
três destes gajos já voltaram para a sombra mas a maioria mantem-se no poder
Tenho alguma dificuldade em compreender o modo de pensar da maioria dos portugueses que ainda se dignam ir votar quando são chamados a participar em eleições. Ontem ao fim da tarde, quando fui, como é meu hábito, à tasca da esquina beber uma imperial e passar os olhos pelo jornal desportivo tive uma desconcertante conversa com um cliente meu conhecido e a senhora, do outro lado do balcão.
Foi o meu amigo quem puxou o tema de conversa: que o ministro da educação é um incompetente, a senhora sabia que eu sou professor e juntou mais uma ou outra acha para a fogueira que acendi alegremente e com alguma fúria à mistura.
Quem me conhece sabe que fervo em pouca água e que sou capaz de arrancar num discurso inflamado com uma velocidade estonteante, não preciso de ganhar embalagem. Deram-me os meios para fazer um pequeno comício anti-governo e não enjeitei a oportunidade, falando para quem quisesse ouvir.
Toda a gente concordou que estes governantes são péssimos, que o trabalho por eles desenvolvido cheira a vigarice, que a sua preocupação com o povo português soa a conversa fiada. Ainda assim, alguém trouxe a questão da eventual substituição do actual primeiro ministro e restante associação de malfeitores por outra gente. Foi aqui que voltei a deparar com o povo que somos.
Estava esquecido.
Embora todos estivéssemos de acordo quanto à falta de qualidade destes gajos, as dúvidas surgiram: mas, se eles saírem, quem colocamos lá? A vontade de mudar depressa se transformou em receio e conformismo.
A crítica desapareceu tão depressa quanto havia surgido. Confrontada com a responsabilidade de escolher uma alternativa toda a minha companhia preferiu encontrar razões para não mudar nada e manter a merda em que vivemos tal qual ela está. Ah, este bom e velho espírito tuga!
Fiz notar que a porcaria de governo que temos não surgiu por obra e graça do Espírito Santo (ou terá surgido?), que fomos nós, o povo, quem escolheu a malandragem que nos governa; a responsabilidade é nossa.
Tentei argumentar a favor da possibilidade de deitar tudo fora e começar de novo: se isto, assim, não funciona, é tempo de experimentar algo completamente diferente.
Nada a fazer, todos os presentes falaram para dentro, abanaram as cabeças e balbuciaram qualquer coisa acerca de com este governo, ao menos, já sabermos o que nos espera. Inacreditável! Inacreditável? Nããããããooo, qual é a surpresa!? Isto é portugal.
Saímos dali exactamente da mesma forma que havíamos entrado: com o rabo entre as penas e a nossa condição animal pura e intocada.
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domingo, setembro 21, 2014
A pele e os sapatos
Em Portugal (não sei se a expressão é válida noutros países lusófonos) quando pretendemos compreender ou explicar sensações ou atitudes de outra pessoa dizemos: "não lhe queria estar na pele" ou "é preciso estar na pele dele"; "estar na pele" é uma expressão muito forte.
Tentamos expressar a dificuldade extrema de compreender o que vai na alma alheia, assumindo que a única forma de podermos ter uma ideia aproximada do que é o outro seria estar-lhe na pele, habitar o seu próprio corpo.
Os ingleses têm uma expressão vagamente equivalente. Trocam a pele pelos sapatos do outro. "To be in someone's shoes" será, para quem fala esta língua, o suficiente para trocar de lugar com outra pessoa. Quererá isto dizer a mesma coisa?
Convenhamos que as expressões idiomáticas são pistas tortuosas mas significativas daquilo que nos vai na alma... e debaixo da pele.
Tentamos expressar a dificuldade extrema de compreender o que vai na alma alheia, assumindo que a única forma de podermos ter uma ideia aproximada do que é o outro seria estar-lhe na pele, habitar o seu próprio corpo.
Os ingleses têm uma expressão vagamente equivalente. Trocam a pele pelos sapatos do outro. "To be in someone's shoes" será, para quem fala esta língua, o suficiente para trocar de lugar com outra pessoa. Quererá isto dizer a mesma coisa?
Convenhamos que as expressões idiomáticas são pistas tortuosas mas significativas daquilo que nos vai na alma... e debaixo da pele.
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