segunda-feira, setembro 14, 2026

Momento exacto

     Entre uma notícia e a próxima, entre uma angústia nova e outra, velha, eis que os obituários marcam a passagem do tempo na sua cadência implacável. Morre mais um, falece mais outra. Excepto naqueles casos em que as pessoas são levadas por alguma doença repentina ou por acidente imprevisto, a morte vai-se encarregando de cumprir a função que lhe está destinada com a eficácia e a frieza dos funcionários competentíssimos. Deus só pode estar satisfeito com a sua produtividade.

    Um gajo vai envelhecendo. Cai o cabelo, cresce a barriga, umas coisas compensam outras. Instala-se uma certa saudade (não sei não é tristeza). Fico com a sensação de que poderia ter feito muito mais coisas, que poderia ter sido muito diferente, a minha vida, eu próprio, tudo muito diferente. Depois penso que se tivesse vivido essa diferença, essa vida paralela, talvez estivesse agora a suspirar por esta. Sim, porque quando pensamos que as coisas poderiam ter corrido de outra maneira, que poderíamos ter vivido uma vida que não esta, não pensamos que, estaríamos, eventualmente, a sonhar com esta que vivemos agora. É confuso? Não me parece.

    Imagino que nos vamos habituando à presença da morte. Cada vez mais vão pessoas que conhecemos mais ou menos bem, pessoas que tinham a nossa idade (era um rapaz tão novo), os nossos mais velhos. Vão morrendo um atrás do outro, a morte a cumprir o plano da burocracia da vida; este morreu por isto, aquele foi por aquilo e nós ali sentados, na fila, sabemos que haverá de chegar a nossa hora. O nosso minuto. Melhor, haverá de chegar o micro segundo, aquele momento exacto em que vamos desta pra melhor (esperamos nós que seja pra melhor).

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