Não é que desejasse estar morto mas, dadas as circunstâncias, estar vivo era condição que não o deixava particularmente feliz. "Deus fez-nos imperfeitos," - pensou - "entre a vida e a morte deveríamos dispor de uma terceira opção, uma espécie de estado de hibernação, como têm outros bichos." A ideia pareceu-lhe tão extraordinária que não demorou a registá-la no caderninho que sempre transportava no bolso das calças. Aquilo animou-o um pouco mas não o suficiente para que pudesse desfrutar em pleno do sol, da brisa que dançava nas árvores, nem do cão que continuamente lhe vinha depositar aos pés a bola de ténis que maquinalmente atirava uma e outra vez para não tão longe quanto isso.
"Ainda não tinha reparado naquela árvore em forma de avião." Levantou-se, deu dois passos em frente e a árvore desapareceu. Estacou, siderado. O cão saltitava em redor do homem transformado em estátua, a bola de ténis bem presa entre os dentes, póin, póin, póin, parecia um boneco mecânico. Era como se a árvore tivesse voado dali para fora. Era como se a árvore se tivesse eclipsado por magia. Fosse o que fosse, algo acontecera que ultrapassava completamente as capacidades perceptivas daquele homem deprimido, ali especado de boca aberta, a fitar um ponto indefinido. "Deus me valha."
O cão acabou por desistir dos saltos e está agora sentado a olhar para o homem. Ambos estão perfeitamente estáticos (o cão nem sequer abana a cauda). Um e outro tentando compreender o que se passa. Como sempre, de resto. As respostas não parecem ser satisfatórias. "Pai Nosso que estais no céu..."
Sem comentários:
Enviar um comentário