sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida do simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos, pedimos-lhe uma selfie,somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

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