segunda-feira, setembro 21, 2026

Promessas desejadas

     Pode um gajo preocupar-se com aquilo que os outros venham a pensar a seu respeito no dia em que patinar lá para o outro lado? Deve um gajo pensar em manter uma certa postura, cultivar aquela imagem, querer ser melhor que a galinha da vizinha, tendo em conta a posteridade?

    Verdade seja dita, estando a fazer tijolo tanto se me dará que pensem bem de mim ou mal ou mais ou menos. Esticado o pernil passo a ser banquete para minhocas ou coisa que as valha. Perdida a consciência, perdida a sensibilidade, perdida a vida, em suma, que incómodo poderei sofrer por me ter peidado a despropósito ou ter mandado aquela velhinha para a puta que a pariu? Incómodo népias!

    Há, no entanto, uma hipótese que começou a ganhar forma dentro da minha cabeça vai para coisa de um quarto de hora, talvez mais. E se a morte for a passagem de um estado de consciência para outro, no qual manteremos presentes as coisas que dissemos, as coisas que fizemos e pensámos enquanto para aqui andámos a fazer de conta que somos? Ou seja: e se o peido e o insulto à velhinha não forem apagados, se, antes pelo contrário, forem lembrados e cobrados?

    Penso que este tipo de coisas seja algo que um tipo imagina à medida que vai avançando em direcção ao tal dia. Um tipo começa a sentir saudades da vida ainda ela promete oferecer-lhe coisas que provavelmente não tem. Um tipo engana-se a si próprio e deseja ardentemente que a mentira, por mais estapafúrdia que pareça ser, tenha lá dentro de si uma sombrazinha de verdade.

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