sexta-feira, agosto 08, 2025

Solidão macaca

    Ena, o gajo conseguiu! Grande cromo, sim senhor, nunca pensei que fosse capaz. E ainda se mantém em pé apesar de vacilar um pouco, quase não se nota. Eu reparo nas tremuras porque assisti à coisa desde o início e, muito sinceramente, nunca pensei que um ser humano pudesse realizar aquela façanha. Aquilo está ao nível das capacidades físicas de um grande símio, talvez um orangotango habilidoso conseguisse... só visto! Contado ninguém acredita, palavras não são instrumentos adequados para descrever tão insólito acontecimento.

    Além de mim só o filho mais novo do meu amigo parece ter assistido ao feito do homenzinho que agora se sentou e respira fundo; decerto tenta recuperar o coração e trazer a alma de volta ao corpo que aquilo foi coisinha para ela quase se ter perdido de quem é. Olho para o puto em busca de algum tipo de cumplicidade mas ele parece absolutamente alheado de tudo o que o rodeia. Está absorto, completamente concentrado na bolacha do gelado que começa a amolecer de forma ameaçadora. Sei que ele viu o homem a fazer aquela coisa extraordinária mas terá, de facto, reparado? Terá noção de como foi prodigioso o que vimos? O que será prodigioso para o meu pequeno amigo? Uma lagarta? Uma lagartixa?

    O homem levantou-se, vai abandonar o local. O puto já tratou do gelado, tratou da bolacha e tratou de qualquer coisa mais mas não percebi o que era e tenta agora lavar as mãos num balde plástico com água que transportou desde o mar mas onde só consegue meter dentro uma mão de cada vez. Está complicado. O puto olha para mim com uma expressão que parece solicitar ajuda. Não mostro a mais pequena disponibilidade e ele desinteressa-se e vira o balde, espalhando água em seu redor. Não lhe vejo sinais de deslumbramento nem perguntas sem resposta sobre os limites das capacidades físicas do corpo humano. O pai e a mãe continuam absortos nos respectivos telemóveis. Desenrasque-se!  Eu sinto-me muito só.

quinta-feira, agosto 07, 2025

As pombinhas da Catrina

As coisas nunca foram assim tão definidas, nunca antes a sua mente havia explicado a si própria com tamanha precisão as coisas como elas são, e pronto. 
E pronto? 
Foi-se. 
Não terá aguentado a descarga. 
 
Lá vai mais uma. 
Tragam o próximo candidato. 
É outra mulher. 
Ok, tudo bem. Pode ser que esta aguente. 
Pode ser. Era fixe. 
 
A lucidez é terrível quando cai assim, em cima de uma pessoa, toda de uma vez. 
Mas esta gente fez workshops específicos, valha-me Deus! Assinaram termos de responsabilidade!
Alguns podem ter dito que estavam a perceber sem perceberem nada, sabes que há pessoas assim. Não são workshops o que nos vai resolver o problema.
Também me parece.
Os accionistas já começam a falar. 
Por enquanto falam baixinho. 
 
Energia! 
Lá vai outra... 

quarta-feira, agosto 06, 2025

Cada mercado sua Lei

    Um gajo bem tenta fugir ao Sagrado mas o Sagrado nem se apercebe. Um gajo tenta ignorá-lo, afastá-lo, dar-lhe uma martelada, riscá-lo, metê-lo num saco e atirá-lo ao rio mas... nada! Nada resulta. O Sagrado não desaparece apenas porque alguns de nós insistem em fazer-lhe uma guerra permanente. O Sagrado é de outra dimensão, tem uma categoria muito acima das nossas capacidades cognitivas.

    Um gajo bem pode tentar fugir ao Sagrado mas o Sagrado não foge dele. Portanto está tudo lixado e nada faz sentido. Tudo lixado para o gajo que tenta fugir, porque para o Sagrado é exactamente a mesma coisa e o seu contrário. Na dimensão do Sagrado não há muito nem pouco, nem luz nem escuridão, nem certo nem errado, nem cavalo nem égua, é tudo farinha do mesmo saco, tudo serve para o alimentar continuamente de modo a que nunca sinta fome e esteja sempre saciado (se bem que, para o Sagrado, a fome e a fartura devam ser uma e a mesma coisa se bem que opostas em absoluto).

    Há neste discurso incongruências e a lógica que lhe assiste ronda perigosamente a da batata mas, como falar do Sagrado? Como estabelecer um código de linguagem que traduza a relação que estabelecemos com o Sagrado? Sim, como é que isso se faz? Há sempre um padreca ou um bispo evangélico ou outro oportunista de meia-tigela prontinho a esclarecer as tuas dúvidas, assim tenhas algo comerciável com valor determinado neste mercado de transacções.

segunda-feira, agosto 04, 2025

Euzinho

     Um gajo é bem capaz da maior das petulâncias sem que disso se aperceba. Dizer, pensar, fazer, imaginar, congeminar, trocar umas ideias sem que se esteja muito interessado naquilo que o interlocutor possa dizer. Enfim, petulância quando rima com condescendência é autêntica merda radioactiva na dimensão situada ali entre a alma e o espírito. Um gajo é bem capaz de viver assim uma vida inteira, sempre convencido de que o mundo não o compreende.

     

sábado, agosto 02, 2025

Ai, ui!

    Ai, sou tão invejoso! O que eu não dava por umas festinhas bem esfregadas no lombo deste meu ego. Umas palavrinhas doces sussurradas ao seu ouvido meio obstruído pela cêra, o meu ego a ronronar como um gato persa de 234 quilo (lembro-me sempre de uma aula de física sobre as designações das unidades de medida). Quietinho, acomodado, o meu ego a destilar amor pelo mundo graças à bajulação exagerada.

    Oh, como seria feliz se houvesse alguém capaz de vislumbrar em mim qualidades que não tenho mas que poderia ter. Bastaria que ficasse registado em lindas frases completas e devidamente estruturadas. Uma ou outra palavra destacada a "bold" as vírgulas todas bem arrumadinhas... não precisava de mais nada. Era só isso.

    Ui, como ando tão longe da felicidade. 

sexta-feira, agosto 01, 2025

E etc.

    O médico diz-me que sou habitado por  comensais. Refere-se aos fungos que, pelos vistos, me habitam e de mim se alimentam. Mais tarde dou por mim a pensar: "se os fungos fossem vacas eu seria um prado verdejante". Pareceu-me um lindo pensamento.

    Mas quem está todo manchado sou eu, não são as vaquinhas microscópicas. Vermelho sobre fundo branco leitoso. Múúúúú... a puta que pariu. Que chatice, estar assim. Ainda por cima as temperaturas trepam que não é brincadeira e, dentro de um dia ou dois, vão rondar os 40 graus. Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch.

    Não me apetece escrever, não me apetece ler, não me apetece fazer grande coisa. Será esta apatia sugerida pelo facto de agora pensar que estou a ser devorado por fungos patetas? Mas, haverá alguma coisa que exista sem que devore ou seja devorada por uma outra coisa?

    Parto do princípio que uma montanha se alimenta de tempo. E etc. 

quinta-feira, julho 31, 2025

O imperador

    Não te deixes enganar pela calmaria. A coisa é aparente. A realidade está prestes a rebentar. Explodirá o azul do céu, rasgará o silêncio do pinhal. A realidade vai desabar sobre as nossas cabeças interrompendo o longo beijo com que tentamos modificar o mundo. Estáticos sobre o penedo infinito. O mundo não quer ser alterado. O mundo tem vontade própria e nós não fazemos parte do séquito com direito a audiência e explanação de opiniões sobre o curso que as coisas do mundo poderão tomar. O mundo é rei e nós não somos seus conselheiros. Rei? O mundo é imperador, caraças! O mundo é imperador de si próprio.

quarta-feira, julho 30, 2025

O encontro

     Trazia a loucura escondida nos bolsos, nas pregas da roupa, um pouco espalhada nos cabelos, loucura que se ia desprendendo ao soprar da brisa, semeando terra que a isso estivesse disposta. Avançava feliz e confiante nas coisas boas que aquele dia haveria de trazer consigo. Ah, quanta pureza no ar, o perfume, a luz, a ausência de lamentos a ondular entre as copas das árvores que se contorciam lentamente, como se dançassem, como se estivessem a espreguiçar-se com volúpia. Que manhã gloriosa!

    Avançou pelo trilho. Árvores majestosas projectavam pequenas sombras dada a posição do sol lá no alto. O ruído provocado pelas solas dos sapatos (cada passo esmagava sempre qualquer coisa que não conseguia identificar) começou a inquietá-lo. Não havia naquele som nada de extraordinário, não era assustador, não tinha nada de especial. Simplesmente não conseguia perceber se pisava apenas gravilha ou também ramos secos ou ervas mortas ou algum insecto menos capaz de escapulir. 

    Instalou-se uma certa angústia. O ar ficou pesado, o perfume transformou-se num odor desagradável, uma nuvem escura atravessou-se entre o sol e a terra. Um pássaro piou tristemente, como se lhe tivesse morrido alguém na família.Mesmo as copas das árvores pareceram enlouquecer de súbito, sopradas e cuspidas de um lado para outro numa descontrolada sarabanda.

    O homem enfiou as mãos nos bolsos tentando desajeitadamente libertar-se da loucura que transportava. Desatou a correr esbracejando gestos desconexos. Caíram pedaços aqui e ali, a loucura ia-se espalhando no caminho, ele ofegante, aos tropeções até que avistou a senhora ao fundo do trilho. 

    Magnífica no seu vestido branco, imaculado, brilhava sob o sol como se fora aparição. Vinha de outro mundo, de um mundo livre desta loucura, desta desorganização, um mundo livre desta angústia que apertava a gorja ao maluquinho que estacou como uma lebre ao aperceber-se da presença da raposa que irá colocar em perigo a sua integridade física.

    A mulher não reparou nele de imediato o que permitiu ao homem recompor-se um pouco, alisar o cabelo com a palma da mão direita enquanto enxotava com a esquerda os restos de loucura que tinha ainda agarrados às pernas das calças. Abrandou o passo, recuperou alguma graça, sentiu de novo a brisa suave e o canto dos passarinhos. Teve presença de espírito suficiente para colher uma margarida na berma do caminho. Aproximou-se e soltou um "bom dia" na voz mais melodiosa que aquele dia haveria de ouvir fosse aqui ou em qualquer outro lugar do paraíso.

terça-feira, julho 29, 2025

Lâminas

     A mentira não crescia, mantinha-se estável, tão estável que talvez nem pudesse ser considerada traição. Os olhares tensos cruzavam-se no espaço do quarto formando uma perigosa teia de fios brilhantes, duros como aço e afiados como lâminas. Se algum dos presentes se movesse correria risco de vida imediato. Ninguém se atrevia a, sequer, piscar os olhos com receio de perder a sua pequena vantagem.

    Assim permaneceram por longos minutos até que a rapariga loira, sentada na poltrona de cabedal luzidio, resolveu quebrar o silêncio. E o tempo regressou com ela e voltou a correr. Até ao fim.

segunda-feira, julho 28, 2025

Manhã soalheira

     As coisas banais crescem como cogumelos alucinogénicos e crescem por todo o lado infectando mentes e paisagens com a sua estranheza aparentemente inofensiva. A cadeira não teria nada de extraordinário não fosse o ângulo abstruso que fazia com a mesa (que tinha uma perna ligeiramente mais curta que as outras o que a tornava instável e perigosa).

    Sobre a mesa uma jarra com água. Tudo de acordo com a mais fastidiosa das normalidades. No entanto o sol que entrava pela janela (não tão limpa quanto poderia e talvez devesse estar) trespassava também o jarro e atirava sobre o tampo da mesa um desenho feito a facadas luminosas que tremelicou quando o gato esfregou as costas ociosas na tal perna bamba fazendo oscilar todo o conjunto.

    A aranha festejou na sua teia a chegada de uma mosca incauta. 

domingo, julho 27, 2025

Romper a aurora

     Aquele momento em que se apercebia de que o sono acabava e o estado de vigília viria tomar o lugar que lhe cabia, aparentemente por direito, aquele momento era o seu preferido. Apercebia-se de que havia uma alma dentro dele, um fantasma que o habitava como se o seu corpo fosse uma casa assombrada. E isso era-lhe extremamente agradável. A vida, assim, tinha um propósito.

    Aquele momento marcava com precisão horológica a passagem do sonho para a dimensão da realidade, era a prova de que a vida é uma continuidade, que poderia ser eterna, não fosse a eternidade um logro. 

    O fantasma entrava no saco de pele e ossos que haveria de lhe servir como veículo para o tempo em que estivesse acordado e lá se deslocava, desajeitado, a lutar constantemente com a gravidade e outras leis que limitam as possibilidades da poesia sempre que nos encontramos deste lado, sujeitos às leis que fazem de nós seres humanos e dão uma forma tangível às coisas e lhes atribuem os nomes pelos quais as conhecemos.

    Tanto para fazer e tanto que nunca haverá de ser feito! 

sábado, julho 26, 2025

3 impossibilidades entre mil

     Impossível. É-me impossível manter um ritmo diário de escrita. Não é que não queira, não é que não possa, não. É porque me esqueço. Essa é a mais implacável de todas as razões e contra ela pouco há a fazer. Talvez tomando Memofante. Forte.

    Impossível escolher a quem confiar o meu voto quando nenhuma das candidaturas apresentadas me inspira confiança. Uma ou outra faz-me despertar uma confiançazinha pequenina, um broto, uma ténue sensação de "je ne sais quoi" mas nenhuma cresce o suficiente para que, no dia da verdade, cruze dois traços no quadradinho que lhe corresponda. Impossível. Resta o voto em branco. Abstenção não é opção.

    Impossível ficar indiferente ao genocídio do povo palestino. Indignação e, por vezes, raiva irrompem em mim de forma mais ou menos descontrolada perante as notícias que vão chegando. Mas todo o meu sentimentário resulta estéril. Qualquer atitude, qualquer discurso, qualquer coisa que pretenda fazer a propósito disto não representa absolutamente nada em termos práticos. Não aquece nem arrefece. E fico a pensar se a minha indignação teria o mesmo tom e semelhante intensidade caso estivesse deveras envolvido no processo, caso tivesse outra proximidade espacial e emocional à Palestina e ao seu povo. Impossível saber.

     

quarta-feira, julho 23, 2025

Vai-se a ver...

     É de ficar arrepiado, pele de galinha desde a nuca ao calcanhar. A coisa não é para menos, deixa uma pessoa indignada. Pessoalmente acho mal. Acho muito mal, mesmo. Não estou disponível para pactuar com semelhante bandalheira! Benza-me Deus, guarde-me Nossa Senhora.

    Sim, porque ontem não foram capazes de me elucidar. Antes pelo contrário! Dei-me ao trabalho de ouvir os gajos e eles falaram, falaram, falaram e no fim, nicles batatóides! Fiquei na mesma como a lesma. Valeu a pena ouvir o debate? Claro que não, foi pura perda de tempo. E tempo é coisa que não devemos desperdiçar pois nunca se sabe quando batemos a caçoleta, indo desta pra melhor. 

    A meu ver estão todos vendidos se bem que uns receberão de um lado e os outros receberão do outro, como é mais ou menos evidente. Não acredito que sejam todos pagos pelo mesmo patrão... ou então... vai na volta... afinal de contas o dinheiro é todo igual. Igualzinho mesmo!

terça-feira, julho 22, 2025

Calado como um rato

     Está tudo excitado com a retirada da sexualidade do programa da disciplina de Cidadania. Uns porque concordam e não se cansam de mostrar o quanto se sentem libertados por esta decisão. Até arfam de contentamento. Outros porque discordam em absoluto e já imaginam os putos descontrolados na pinocada sem preservativo nem tino. Um reboliço.

    Cá pra mim é conversa de surdos, como vem sendo costume. Não há debate, não há discussão. Há apenas gritaria e escavação de trincheiras, a guerra instala-se. De um lado e do outro atira-se tudo o que se tem à mão tentando causar qualquer tipo de dano que seja ao inimigo jurado. No fim do dia está tudo mais confuso, mais sujo, mais esburacado. Não há esperança.

    Pessoalmente sinto uma profunda angústia. Tenho a minha opinião mas recuso-me a partilhá-la no meio de semelhante confusão. Qualquer coisa que possa dizer será imediatamente alvo de uma etiqueta e, ai de mim, metralhado por um lado ou pelo outro (ou até pelos dois) caso não esteja de acordo com as boas práticas e os pensamentos decentes. Portanto, calo-me.

sábado, julho 19, 2025

Ai, solidão!

     A solidão parece ser o pior dos vírus, eventualmente de todos o mais mortal. Depois de instalada não precisa de muito tempo para se impor e prosperar. Alojada nos nossos corações, nos nossos cérebros ou, nos casos mais complicados, alojada nas nossas almas, a solidão faz de conta que não está lá, finge não saber quem somos. E vai ficando, vai crescendo e engordando alimentando-se de qualquer coisa que nos faça falta.

    Há diferentes tipos de solidão, diversas estirpes; umas mais encarniçadas outras menos. Umas assustadoras e repelentes outras quase fofinhas. Seja qual for o aspecto ou o grau de infecciosidade, a solidão não se recomenda nem ao gato da vizinha.

            

sexta-feira, julho 18, 2025

É assim mesmo!

     E é assim mesmo! Olhamos para os outros esperando ver-nos a nós próprios, imaginamos o mundo comparando-o com a nossa casa. Como nada se ajusta ficamos desgostosos e decepcionados. O mundo é uma merda e quanto mais conheço as pessoas mais gosto do meu cão, cenas desse calibre. É pra rir.

    Não é pêra doce aguentar o barco, suportar tanta contrariedade. Para o fazer precisamos de nos equipar com instrumentos adequados: religião, psicanálise, ideologia, arte, tudo serve para tentarmos aguentar a barcaça à tona de água, tudo ajuda a cavalgar as ondas embora o risco de naufrágio esteja sempre ali, logo após a linha do horizonte.

    A vantagem das analogias marítimas é que o horizonte vai sempre à nossa frente, é uma linha que se afasta. Está próximo, está longe?  De cada vez que para ele dirigimos o destino do barco que somos só o vemos a escapulir-se uma e outra vez até se transformar numa linha de costa. E depois atracamos e é assim mesmo.  

quinta-feira, julho 17, 2025

Candidato

     Estava-lhe entalada a vontade na garganta. Queria dizer, falar, expor, narrar a sua história pessoal era um tesouro a merecer partilha pública. Tudo dentro dele estava em alvoroço, a urgência sufocava-o. Suster a torrente discursiva era particularmente doloroso mas a ocasião assim o exigia. Não era momento adequado a dar bandeira.

    Contorceu-se um pouco na cadeira, ardia-lhe o olho do cu.

quarta-feira, julho 16, 2025

Animais de criação

     Há quem se veja a si próprio como eterna e constante vítima do "sistema". Esses encaram tal condição como sendo algo heróico, são mártires da pureza dos ideais que os animam. Se, porventura, os seus ideais vierem um dia a triunfar, os nossos candidatos ao paraíso dos deserdados ficarão órfãos da sua razão de existir. Isso é trágico.

    Há também aqueles que são, de facto, vítimas eternas e constantes do sistema mas esses, não sei bem, talvez não coloquem a questão nestes termos além de todos estarmos conscientes de que nunca, mas mesmo nunca, virão a ter direito à mais insignificante migalha de justiça. 

    Entre uns e outros está muita boa gente. Gente farta de aturar as lamentações dos justos eternamente injustiçados e que sente repulsa pelas verdadeiras vítimas. Gente na qual me incluo. Uns têm mais que fazer do que dar atenção a este tipo de questões, estão demasiado ocupados a trabalhar para poderem consumir. Outros vivem em mundos mais ou menos abstractos, não têm espaço mental para oferecer a este mundo. Outros ainda têm ódio aos primeiros e desprezam os segundos. Etc. É muita boa gente, são muitas condições diferenciadas.

    O que resta disto tudo? Um pouco de amor requentado, bastante ódio, muita estupidez e oceanos de ignorância. É a nossa espécie em todo o seu esplendor, criação divina. 

terça-feira, julho 15, 2025

Viver o momento

     Fazer citações é caminho estreito e repleto de pedregulhos, daqueles que não dão para construir castelos. Ou bem que sabemos do que estamos a falar ou melhor seria manter a boquinha trancada a sete-chaves. Mas as coisas não se passam bem assim.

    No mundo ideal, citar alguém implica recolher e acrescentar dados relacionados com a proveniência da coisa o que implica, pelo menos, um "onde" e um "quem", eventualmente um "quando", o que se aconselha vivamente. É, portanto, tarefa que impõe algum rigor e boa-fé da parte de quem cita.

    No mundo real é a confusão que se sabe. As citações chovem como sapos em narrativa bíblica. As vindas sabe-se lá de onde misturadas com as que se sabe bem de onde vêm, tudo vale a mesma coisa, não há problema de maior. A ideia original pode estar já um bocadinho distorcida, por vezes completamente adulterada mas, pronto, não vamos chatear-nos por isso. O que interessa é passar a mensagem.

    Uma citação errada pode substituir a original e correcta sem grande problema nem esforço. Basta que seja repetida as vezes suficientes para se tornar mais verdadeira que a verdade. Alguém se incomoda com isso? Não vale a pena, desde que a mensagem tenha passado estará tudo bem.

    Quem diz uma citação diz um facto. A confirmação é, muitas vezes, puro aborrecimento. Se a coisa for suficientemente sumarenta podemos ficar pela primeira forma, mesmo que não seja propriamente verdade: desfrutar do momento é o grande objectivo dos seres vivos. Seja ele qual for (o facto, o ser vivo, ambos ou vice-versa). 

segunda-feira, julho 14, 2025

Desistir é estúpido

     Hesitar perante a indefinição de uma obra é algo perfeitamente normal. Ainda não esgotámos todos os recursos técnicos, confiamos na possibilidade de que um ou outro rasgo criativo possa trazer novas orientações durante a realização da coisa mas a tentação de desistir instala-se. Acontece muitas vezes.

    Nessas ocasiões devemos invocar a nossa capacidade de resistir à tentação, insistir na continuação do processo. Há sempre uma fase complicada quando estamos a fazer um desenho ou uma pintura (imagino que possa acontecer com todos os actos criativos), uma fase em que as coisas estão feias, desajeitadas quando, na verdade, estão apenas incompletas. É como na história do Patinho Feio que, afinal, era um cisne. Ganda cena!

    Agora já não desisto quando penso nisso e sou assolado pela tentação de o fazer. A experiência mostrou-me que desistir antes do fim pode privar-me de momentos interessantes. Desistir é estúpido.