terça-feira, janeiro 07, 2025

Ser quadrado

     Vivemos uma vida inteira apontando o nariz a rectângulos de dimensões variadas. Portas, janelas, telas, ecrãs, folhas de papel e páginas de livros; os quatro lados do rectângulo enquadram a informação que recebemos.

    Será por isso que estamos a ficar tendencialmente quadrados individual e, sobretudo, colectivamente? Sim, o quadrado é, como sabes, um rectângulo particular por ter os lados todos iguais. Transformamo-nos naquilo que olhamos?

terça-feira, dezembro 31, 2024

2024 ao fundo

     O pior cego é o que não quer ver, o mais ignorante o que não quer aprender. É a pescadinha com o rabo na boca, o cão que persegue a cauda a mordiscar na atmosfera, o imbecil que continua a julgar-se um grande cromo. Somos nós.

    Tentamos novas soluções apoiados em velhas ideias, repetimos os erros convictamente, seremos assim até à dissolução do ser, pouco mais poderemos projectar que não esbarre na parede inevitável. Mas, no entanto, poderia não ser exactamente assim. Poderíamos errar com panache, poderíamos ter orgulho por, pelo menos, tentarmos ser criativos. Mas não. Somos tugas, erramos como sempre e temos ódio a quem nos aponte uma possibilidade diferente para o exercício da nossa atávica estupidez.

    O ano acaba hoje. Amanhã seremos os mesmos de sempre. Tudo bem, cá andaremos com a cabeça entre as orelhas.

domingo, dezembro 29, 2024

O que Deus quiser

     Não sei se acontece contigo, estimado leitor, mas há dias em que me sinto um pouco cansado, um tanto murcho, como planta a quem a água seja desviada da raiz. Não percebo porquê, de onde vem esta canseira, mas também não procuro compreender. Deixo andar, a coisa que se arraste.

    E vem o dia seguinte e vem o dia depois e... nada. Sempre esta secura, esta falta de vontade que me impede de erguer o olhar, os olhos sempre a fitar o muro, muro cinzento e sem graça. Não sei se te acontece também a ti, não acontecendo é mais complicado explicar.

    A verdade é que também não me apetece ir mais além do que já fui, este lugar serve muito bem para te dizer adeus. Faço o esforço de erguer o braço, dedos esticados, aceno. Adeus ou até à vista; seja o que Deus quiser.

domingo, dezembro 22, 2024

Até aqui tudo bem

     O mundo nunca foi um lugar seguro. Nem para os seres humanos nem para a restante bicharada. O facto de nascermos defeituosos e condenados a uma morte certa terá muito a ver com essa sensação de insegurança permanente que nos torna desconfiados e nos leva a cometer frequentes actos um pouco desesperados.

    A crueldade espreita a cada curva dos nossos cérebros. Inventamos torturas variadas. Há-as físicas ou psicológicas, desenvolvemos com volúpia narrativas aterrorizadoras para nos distraírem da monotonia que eventualmente nos venha amodorrar a existência. Nada nos satisfaz, forçamos constantemente os limites da imaginação. 

    Nos decénios mais recentes desenvolvemos dispositivos capazes de acabar com tudo o que nos rodeia de forma avassaladora e quase imediata. Trouxemos o armagedão das narrativas bíblicas para este nosso quotidiano delirante. Até ao momento em que escrevo estas linhas estamos a dar-nos mais ou menos bem com isso.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Beber ou não beber (uma bujeca) eis uma questão

     Decerto te terá também acontecido: tiveste uma ideia luminosa, uma revelação fulgurante, o mundo ganhou um contorno mais nítido, viveste um momento de fugacíssima felicidade. Tens a sensação de teres encontrado um pequeno tesouro escondido dentro de ti. Descobriste um fragmento da Verdade, foste tu quem o descobriu!

    Iupi!

    A sensação da descoberta de algo especial faz com que te sintas igualmente raro. Por momentos és um esteta, és um profeta, um cientista da alma. Mais adiante ouves uma frase, lês um parágrafo num livro de páginas amarelentas, lembras-te de algo que há muito havias esquecido e percebes. Percebes que a tal ideia, o tal tesouro, haviam já sido encontrados ou intuídos por alguém antes de ti. Ó tristeza, ó decepção!

    A mim já isto aconteceu muito mais que  várias vezes. Afinal sou um gajo como os outros, não posso considerar-me particularmente brilhante por ter descoberto o que outros já haviam encontrado, observado e dissecado antes de mim. Isso não faz de mim uma fraude, apenas uma pessoa iludida. Mas se tudo for apenas ilusão serei pouco mais do que alguém perfeitamente integrado no nada que tudo abarca.

    Não tenho a certeza de ter chegado a uma conclusão, nem sei se isso terá alguma utilidade (a incerteza ou a conclusão). O melhor é beber uma bujeca. Ou não.

domingo, dezembro 15, 2024

Lista de coisas fundamentais

1 - Acordei bem-disposto.
2 - Li coisas interessantes.
2 - Fiz uma caminhada.
3 - Vi pessoas.
4 - Comprei mantimentos no supermercado.
5 -Tomei um duche.
6 - Lavei louça.
7 - Almocei.
8 - Limpei arquivos no computador.
9 - Escrevi esta lista.
O dia ainda vai a meio.

terça-feira, dezembro 10, 2024

Espécie de elegia

     Não sei o que dizer. Sinceramente!? Nem sequer sei o que fazer. Assim sendo, deixo o trabalho entregue aos mecanismos do relógio na esperança de que as coisas possam fazer algum sentido caso seja o Tempo a responsabilizar-se pelo desenrolar dos acontecimentos. Entregar o destino a molas e rodas dentadas, ponteiros presos ao centro da circunferência das horas do dia.

    A impotência é grande. Perante a inevitabilidade dos acontecimentos encolho-me, abstenho-me, anulo-me. Faço a única coisa que me parece estar ao meu alcance: desenho. Como se cada imagem pudesse sublimar tudo o que se revolve dentro do meu ser; as tripas misturadas com a alma, o coração a tentar ser inteligente, as mãos resolvendo o que o cérebro não abrange sequer, coisas impossíveis, coisas patéticas: humanidade.

    Tivesse eu garras e presas, fosse eu todo músculo, todo instinto, todo arrojo, fosse eu um lobo faminto e talvez o mundo fizesse mais sentido, talvez pudesse viver mais sossegado, apesar do frio, apesar da fome, apesar dos homens.

domingo, dezembro 08, 2024

O problema

     É tão difícil compreender o que quer que seja mais complexo do que "o sol nasce - o sol põe-se". Mesmo isso pode tornar-se complicado, o Mundo não se deixa capturar. De forma nenhuma. Tenta-se a matemática, tenta-se a poesia, o esoterismo e a filosofia. Seja qual for a linguagem através da qual tentemos ler os sinais que o Mundo nos vai deixando a pontuar o caminho percorrido pela nossa espécie ao atravessar a floresta do Tempo, seremos sempre pequenos polegares perdidos e aterrorizados à procura de conforto e protecção.

    O caminho individual não parece funcionar lá muito bem, precisamos de companhia. Há passarões fantasmagóricos sempre dispostos a bicarem os sinais deixados pelo Mundo, os passarões querem a nossa perdição. E nós perdemo-nos. O entendimento do Mundo é assunto tão vasto e complexo que inventámos máquinas para o entenderem por nós. Mas são máquinas, Senhor! Os resultados das suas reflexões serão sempre insuficientes, desviados do Humano, pensamentos artificiais. Não servem para nós, não resolvem o nosso problema.

    Quanto mais depressa nos desenganarmos melhor. Melhor e pior. Quanto mais depressa percebermos que estamos sós, que fomos abandonados na floresta, quanto mais depressa abrirmos os olhos para a espessa escuridão que nos envolve, mais depressa perceberemos que não existe nada que possamos designar por "salvação". Para nos "salvarmos" teríamos de nos exterminar a nós próprios e, caso o fizéssemos, nunca poderíamos confirmar ter encontrado a solução do problema.

    Somos como um cão. Um cão que tente morder a própria cauda acabada de cortar rente com uma navalha afiada.

segunda-feira, dezembro 02, 2024

19 anos

     No passado dia 28 de Novembro o 100 Cabeças completou 19 anos de existência virtual. Não há qualquer sentimento especial associado à data. Não há qualquer situação extraordinária a reportar. As coisas são o que são, são pouco ou nada. E 19 anos a escrevinhar posts num Blogue são isso mesmo.

    Os textos que aqui vou deixando têm-me sido úteis em várias situações. Já me serviram para escrever peças de Teatro, já me serviram para programas de exposições e apresentações públicas. O 100 Cabeças é uma espécie de ferramenta.

    Irei continuar a fazer isto até não conseguir mais fazê-lo. Ainda o farei dentro de 19 anos?

sábado, novembro 30, 2024

Vinha trazer-vos o Amor

     Vinha trazer-vos o Amor mas tenho a sensação de ser coisa que vos não faz falta. Tendes as Black Friday, tendes o Tik Tok e o Facebook, os smartphones e as companhias low cost, tendes tudo e tanta coisa, que falta vos poderá fazer algo tão etéreo, vago e indefinido como "é coisa que arde sem se ver"?

    Vinha trazer-vos o Amor mas decidi ficar-me pela tasca da esquina a comer um choco frito pobremente regado com uma imperial, fresca q.b.

quinta-feira, novembro 28, 2024

Ausência absoluta

     A sala estava silenciosa, todo o ruído provinha do exterior. Vozes que ondulavam no esforço de penetrar as paredes, ultrapassar as janelas fechadas, vozes que haveriam de pertencer a alguém mas que por agora não tinham rosto. Talvez nunca tivessem. Uma sirene distante encantou o silêncio quase conseguindo levá-lo com ela. Lá longe, para longe. Uma sirene...

    A sala permanecia, boiando no silêncio.

    Quatro filas de carteiras com tampo bege, cadeiras nem todas devidamente arrumadas, nem todas iguais. Aquele espaço era o seu reino. Paredes sujas, a porta com um vidro magrinho, plantado ao alto, um ecrã e um projector e um computador asmático, companheiro de trabalho mais ou menos fiel, escravo de quantos sentavam o cu naquela cadeira onde escrevia, agora mesmo, estas palavras. Passos no corredor, vozes, cadeiras arrastadas no andar de cima. Silêncio. Silêncio outra vez.

    A sala, vazia e pouco limpa, era o seu reino apesar de não ser rei  de coisa nenhuma, de não pertencer a lugar algum, nem em sonhos. Talvez não quisesse ser nem pertencer. Talvez não quisesse nada, nem sequer ser personagem deste conto mal ajambrado. Talvez não existisse, não exista. Porra...

    A sala, vazia! Todo o ruído ondulando do exterior. Luz acesa, computador ligado. Sala silenciosa. Há um encanto indefinível na ausência absoluta, talvez por podermos apenas imaginá-la. Sons cada vez mais espaçados, mais distantes, o vulto de um pássaro na janela, recortado sobre o céu que escurece com a tarde a ir embora, um céu agora apenas azulado. O apito de um professor de educação física soou longe, como se fosse um lamento.

    A sala não existia mas, no entanto, ali estava. Vazia. Silenciosa. Abandonada.

domingo, novembro 24, 2024

Leitura

     Influenciado pela imaginação de Borges (aliada à minha com o fito de me fazer planar algures entre o céu e o inferno) folheei brevemente a Divina Comédia (edição bilingue com tradução de Vasco Graça Moura). Senti o impacto da coisa, tal qual Borges descreve na sua conferência em Sete Noites (vi Cerebro com uma nitidez nunca antes sequer imaginada). 

    Um gajo, não tendo problemas de guito, pensa logo: "podia comprar isto". Mas depois de reflectir um pouco, este gajo, percebe que nunca iria ler a cena até ao fim, que seria mais um belo livro a fazer-lhe caretas lá do cimo da prateleira. Devolvido o livro ao seu lugar um gajo pensa: "nem sequer Os Lusíadas fui ainda capaz de ler".

    Que livros ler, quando os ler, como os ler, o que deixar de fazer para fazê-lo? Eis uma sequência de incómodas questões que o gajo prefere ignorar.

quinta-feira, novembro 21, 2024

Bom dia

     Não deveria esquecer-me de que todos os dias podem começar como este começou. Começou com a leitura de uma das conferências de Borges publicadas em Sete Noites (esta versando a Divina Comédia). Não tanto pela imensa erudição que irradia das palavras escritas, não tanto pela beleza rítmica da forma (que mesmo na tradução para português não é perdida), não tanto pelo poço celestial do conteúdo: os dias deviam começar desta forma pois é leitura que me faz recordar o prazer que tenho em estar vivo.

    Dou por mim a pensar como seria agradável que após a hora da nossa morte pudéssemos continuar a ler; como seria agradável que o universo continuasse para lá da cortina dos sentidos, uma infindável biblioteca, como o terá sonhado Borges; dou por mim a pensar que o inferno decerto será semelhante ao silencioso deserto de ideias que imaginei ainda há pouco.

sábado, novembro 16, 2024

Amanhã é dia do Senhor

     Celebrar o Nada, adorar o Vazio, eis a essência de todas as religiões. Ora tentamos preencher as lacunas criadas pela ausência de raciocínio, ora as ignoramos, afirmando tratar-se a ignorância de um mistério. Não fosse a religião manifestação da nossa absoluta incapacidade para compreender o mundo, poderíamos imaginá-la fruto de algum tipo de construção intelectual destinada a preencher o Nada, destinada a agitar o Vazio.

    A religião será, então, uma emanação da nossa impotência, da nossa incapacidade para encontrarmos justificação para sermos aquilo que somos (mesmo que não sejamos capazes de o compreender). 

    Estou convencido de que, sendo nós bichos como os outros, não existe o Nada, muito menos o Vazio; isto dispensa por completo Deus de ser o que imaginamos que Ele seja, o que decerto muito O aliviará. Isto porque Deus, a existir, não seria capaz de evitar esta mesma sensação de perda constante, esta angústia de não encontrar um sentido para o que quer que seja. Afinal de contas, não fomos nós criados à Sua imagem e semelhança?

sábado, novembro 09, 2024

A felicidade num buraco

     Ficar na sombra não é das coisas mais fáceis a que um gajo possa aspirar. A tentação de deitar um cornicho de fora é muito forte. Querer banhar a fronte na luz do sol, mostrar o sorriso, explicar a quem esteja a ouvir como somos gajos espectaculares, a compulsão da exposição social fala alto. Mas não tão alto que abafe a tendência natural para a anulação do ego. Quando esta existe.

    Uma educação católica em meio rural cava profundas valas onde semeamos modéstia com uma eficácia tal que a colheita dura a vida toda. E tentamos mudar, tentamos deixar a agricultura, imaginar outras actividades, mas nada funciona. Campónio uma vez, campónio a vida toda. Nunca deixarei de ser um campónio. Tempos houve em que a constatação dessa evidência me incomodou. Nos tempos que correm a condição de eterno campónio enche-me de orgulho. Vai na volta esse orgulho não é mais que auto-defesa. É bem possível que assim seja. 

    A passagem do tempo fornece a cada um de nós a possibilidade de vestir uma armadura mais ou menos eficaz contra os temores que o mundo vai sendo capaz de nos infundir. O mundo que se infunda! Que se infunda esta merda toda. Vou cavar um buraquinho onde possa aninhar-me confortavelmente, como imaginei a toca da raposa Salta Pocinhas, heroína imbatível da minha mais tenra infância. E nesse buraquinho serei feliz, até ao esquecimento absoluto.

quinta-feira, novembro 07, 2024

Um lugar infecto

     O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Para eles o ouro não chega a ser uma miragem. Nunca sairão daquele lugar infecto. "Que é o único lugar a que têm direito", pensou o homenzinho no guichet enquanto contava notas de 5 e 10 euros.

    O Pedinte e o Troglodita são extremos de uma linha sinuosa. O Pedinte não desiste da existência. Estende a mão, implora baixinho. Podemos não o ver mas não é porque seja invisível. É por sermos cegos. 

    O Troglodita é um gajo um pouco perigoso. Não percebe bem nada do que o rodeia. Tem feelings, por vezes feelings muito ásperos; tem sentimentos confusos. Antipatiza naturalmente com o Pedinte talvez por sentir que há entre eles algum tipo de competição. Por atenção? Por espaço? O Troglodita não compreende nada.

    "São umas bestas!" - o homenzinho do guichet não passa de um miserável (a vários níveis) mas contemplar aqueles dois maltrapilhos, que vivem e cagam no meio da rua, fá-lo sentir-se um nadinha poderoso. O suficiente para se imaginar uma personagem importante.

    O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Nunca sairão daquele lugar infecto.

quinta-feira, outubro 31, 2024

Momento perdido

     Ler e reler o que antes escrevera vestia-lhe o espírito com um fato confusor, como o de Fred, a personagem de K. Dick. "Não sou ninguém" - pensou ele. Na verdade queria dizer que poderia ser qualquer um, que seria sempre alguém, porventura alguma coisa. Tremiam-lhe as mãos.

    Quis escrever algo que fizesse sentido mas não foi capaz.

quarta-feira, outubro 30, 2024

Enfartamento

     Hoje sinto-me incrivelmente farto desta merda toda. Talvez amanhã tenha perdido esta estranha sensação de vazio, de falta de motivação. Motivação para quê? - perguntarás tu, leitor amigo. Também não sei, respondo eu. Motivação para nada, motivação para tudo ou apenas para alguma coisa. Suspeito que é precisamente por não saber do que estou a falar que sinto esta espécie de náusea, esta espécie de vertigem, este desgosto em relação ao mundo. E a mim próprio.

    Sinto-me incrivelmente farto desta merda toda.

segunda-feira, outubro 28, 2024

Fábula abstrusa

     Cantam passarinhos dentro desta minha cabeça. Piu, piu, repiupiupiu, cantam eles e eu avanço feliz, aos pulinhos pelo trilho da floresta. As árvores são de betão, as vacas deslocam-se sobre rodas, o prado é pintado de verde com umas pintas vermelhas aqui e acolá. São papoilas. 

    Não tenho tempo a ganhar, como tal não poderei perdê-lo. Um pterodáctilo passeia lá bem no alto, um macaquito sem pêlo olha-me de soslaio. Esconde qualquer coisa encostada ao peito ao virar-me as costas. Não me interesso por ele, muito menos por aquilo que esconde. Quero que o macaco se lixe. Prefiro dar atenção aos passarinhos que me esvoaçam no sótão. Piu-piu-piu-trólarópiupiu. A música é alegre e deixa-me bem disposto.

    Chego finalmente à escola. Tudo parece continuar no devido lugar. A bicharada esvoaça, rasteja, saltita, urra, pipila, zurra, tudo parece confirmar a torpe banalidade dos costumes. Quem tiver de comer haverá de fazê-lo, quem tiver sina de ser comido haverá de tentar escapar à dentuça alheia.

    Peixes grandes comem peixes pequenos.

terça-feira, outubro 22, 2024

Babel

     O Antigo Testamento é uma obra muito lida e muito comentada. Os exegetas cristãos esforçam-se por fazer leituras que não provoquem desconforto a Jeová, não vá o Diabo tecê-las. Assim, a tradição vai esclerosando o texto e nada de novo acontece. Ler a Bíblia é como ler o manual de montagem de uma estante do Ikea, está lá tudo muito explicadinho e não restam dúvidas, não há margem para erros de interpretação.

    Aconteceu-me recentemente com a passagem que refere a Torre de Babel (Génesis:11).

    Os exegetas interpretam a confusão linguística como sendo um castigo de Deus, penalizando a soberba humana, por pretenderem os homens construir uma torre que alcançasse os céus. Não me parece justo. Segundo a narrativa, a construção da Torre de Babel começa pouco tempo após o Dilúvio (esse sim, um inequívoco castigo divino, narrado em várias histórias anteriores ao texto bíblico, nomeadamente no Gilgamesh).

    Na minha maneira de ver, depois do Dilúvio a raça humana ficou traumatizada e terá sido o cagaço o combustível que pôs em andamento a construção da torre. Os homens não queriam aproximar-se fisicamente de Deus. Isso não faz sentido, qual a razão que os levaria a pretender proximidade com um ser incorpóreo que, ainda por cima, é omnipresente. Nem um macaco pensaria em semelhante patetice!

    Na minha maneira de ver, a construção da torre teve como principal motivo afastar os homens de um possível segundo dilúvio. Eles não queriam aproximar-se de nada, apenas afastar-se de nova subida das águas. 

    Então, porque haveria Jeová de impedir tal coisa? Porque Jeová é um Deus ciumento, vingativo e controlador e, evitando que os seres humanos conseguissem protecção nas alturas, conseguiria mantê-los sob pressão e ameaça, garantido desse modo que as suas leis e regras seriam mais facilmente observadas. Deus queria carneiros no Seu rebanho.

    Só não percebo muito bem porque carga de água criou Ele o homem se a carneirada lhe convinha muitíssimo melhor. Talvez por ser um Deus cínico? Se Ele criou o homem à sua imagem e semelhança decerto não lhe terá transmitido apenas a beleza simétrica que nos caracteriza. Somos bichos de personalidade bem vincada, Pai.