quarta-feira, agosto 10, 2011

Sonho de uma noite de Verão

Hoje acordei com o rosto vestido de cores muito desmaiadas. Ao entrar na pastelaria, para tomar o meu café queimado, não sabia ainda se deveria falar com o empregado de balcão sobre o tempo que fazia, se de futebol ou do sentido da vida, coisa que se me revelara, para meu eterno espanto, durante o sono da noite anterior.

Fiquei-me pelos resultados futebolísticos da véspera e sobre a questão, não tão pouco metafísica quanto isso, de raramente haver coincidência entre o desejo do adepto e as realizações, sobre o relvado, da equipa que nos bombeia o sangue nas veias.

Percebi que, mais por pudor que por dúvida fundada, dificilmente poderia revelar a quem quer que fosse a revelação extraordinária que me visitara o sonho da noite anterior. Penso que foi logo ali que comecei a esquecer o sentido da vida, coisa que quase toda a gente tem por segredo divino. Isso, porque falar de futebol é bem mais fácil que jogá-lo e falar de coisas transcendentes não acompanha muito bem o cafézinho matinal, por muito queimado que seja e açúcar que lhe deitemos dentro.

Se assim não fosse (se falar da beleza fosse fácil) muitos de nós haveriam de se dedicar à prática quotidiana da Filosofia, como Sócrates na ágora. No café, no mercado, na paragem de autocarro, havíamos de filosofar sem remorso nem receio de sermos tomados por lorpas.

Talvez até pudessemos colher aquelas floritas amarelas que crescem bravias nos montículos de sujidade que se erguem com timidez entre os prédios e levá-las na mão sem ter vergonha dos olhares por trás dos cortinados e do vento, tão ligeiro. Talvez pudessemos levar as floritas na mão, como uma criança que transporta um motivo de orgulho contra o peito (uma rã ou um gafanhoto ou um passarinho caído em desgraça) com aquele gesto que, em simultâneo, protege e revela ao mundo uma coisa que não espanta ninguém mas faz de nós o mais feliz dos animais em volta.

terça-feira, agosto 09, 2011

segunda-feira, agosto 08, 2011

Luta de classes

Portugal, Egipto, Espanha, Israel, Inglaterra; as manifestações populares ganham formas e características particulares mas haverá algo de comum entre elas? Os problemas variam ligeiramente; desemprego entre as camadas mais jovens da população, dificuldades em conseguir um modo de vida que possa ser considerado digno, desencanto perante a realidade, desajustamento entre o sonho e a realidade. O mundo em que vivemos não é nada parecido com aquele em que julgamos viver. A constatação desse facto provoca a revolta e a rua é o palco de todas as representações desse desencanto.

Se isto a que assistimos não é uma luta de classes à escala global, alguém me explique que raio de coisa é esta? Se isto a que assistimos entre o almoço e o jantar não é a revelação da falência do sistema capitalista selvagem que engole o nosso modo de vida e a utopia civilizacional de matriz social-democrata que nos permitiu sonhar com uma Europa unida, alguém que me explique que porcaria é esta.
Deixámo-nos enganar, deixámo-nos seduzir por um modelo consumista de matriz hedonista e entregámos os nossos valores humanistas em troca de uma mão-cheia de gadgets made in Taiwan. Trocámos o sonho americano (que era muito semelhante ao sonho europeu) pelo pesadelo chinês e é isso que iremos viver. Nós e todos os outros.

Desigualdade, injustiça social, desequilíbrio na distribuição da riqueza, perda de direitos básicos, o retrato da realidade que nos apoquenta dificilmente poderia ser pintado com tons mais obscuros. A solidariedade é transformada numa anedota de mau gosto. 

Por todo o planeta assistimos a manifestações que reclamam apenas uma e a mesma coisa, seja no mundo árabe ou na Europa, todos clamamos por justiça! Esse é o denominador comum: queremos justiça, queremos pôr fim à corrupção e à impunidade daqueles que, sob o manto diáfano do capitalismo, contribuem diariamente para atiçar este incêndio que está a consumir o mundo contemporâneo até o deixar num monte de cinzas fumegantes. Estamos em luta contra a única Internacional que sobreviveu à antiga (e reconhecida) luta de classes: a Internacional Capitalista. Enquanto não formos capazes de identificar o inimigo comum com a clareza que se impõe estaremos à beira do abismo civilizacional. É tempo de recuperar e reenquadrar o conceito de luta de classes. 

É necessário refrear o ímpeto capitalista que transforma este mundo numa selva onde a única lei que perdura é a lei do mais forte.

domingo, agosto 07, 2011

Pode um filme aterrorizar alguém?

Hoje fui ver "Insidious", o filme de terror. Antes de qualquer outro tipo de considerações gostaria de deixar um pequeno tema de reflexão: que tipo de filme pode aterrorizar uma pessoa adulta? Bom, a resposta parece estar na ponta da língua: depende da pessoa adulta! Sim, talvez a pessoa seja o factor principal para a erupção do terror. O filme, as imagens, o som, a cadência narrativa, o momento do saltinho na cadeira, tudo isso são elementos potenciadores do terror.

O medo é diferente do susto. O medo permanece, o susto não é mais do que um momento, uma picadinha na alma que até nos pode fazer rir. De nervos. Os filmes de terror assustam mais do que infundem medo ou pavor no espectador. Se isso acontecer, se um filme for capaz de lhe deixar uma sensação de mal-estar depois de ter saído da sala de cinema, o melhor, caríssimo leitor, será desistir de ver esse tipo de filmes. Fazem-lhe mal. É por isso que, normalmente, estes filmes são para maiores de 16 anos e não é aconselhável deixar criancinhas ver coisas deste calibre.

Voltando a "Insidious" poderei dizer que é um filme de género, com os condimentos do costume. Alguns sustos, fotografia interessante, banda sonora a propósito, enfim, um objecto que revela uma competência industrial muito aceitável mas que falha no capítulo do terror, propriamente dito. Bom para trincar pipocas com mais força do que o habitual.

Tem aquele problemazinho de mostrar com demasiado pormenor os elementos aterradores, ao ponto de os transformar em bonecos pouco assustadores. Sou de opinião que um bom filme de terror deve esconder mais do que revelar, deve deixar à nossa imaginação a possibilidade de encontrar o motivo do horror. Mas, estou em crer, isso não é fácil e decerto vende muito menos pipocas!

sexta-feira, agosto 05, 2011

Há sempre uma esperança qualquer

Conta-se aquela história do gajo que se atira da janela de um 40º andar e, mal se lança no vazio, de imediato se arrepende de se ter lançado. À medida que se aproxima do chão vai pensando "já caí 20 andares e, até aqui, tudo bem... já caí 30 andares e, até aqui, tudo bem" quando toca o solo deixa de pensar o que quer que seja mas, até esse momento fatídico, foi alimentando rapidamente uma esperança qualquer de que pudesse acontecer alguma coisa absolutamente extraordinária que o mantivesse deste lado da vida.

Olho para as noticias que todos os dias vão dando conta do desmoronamento económico da União Europeia e das tentativas insistentes de alguns dos seus dirigentes em apagar este incêndio incontrolável que ameaça deixar em cinzas fumegantes o sonho das últimas décadas de construir na Europa uma nação comum a todos os europeus. Esses dirigentes fazem-me recordar o suicida da história que contei mais acima.

Era um sonho bonito mas, olhado de dentro, começa a transformar-se em pesadelo. Falta-nos quase tudo para podermos continuar a sonhar. Talvez seja tempo de despertar e olhar em volta. Ou acordar e manter os olhos cerrados.

domingo, julho 31, 2011

Horizontes esquecidos?

Sentei-me num lugar qualquer, próximo da janela.Sentei-me ali só para sentir a paisagem já que a sujidade é tanta que de transparente o vidro só tem a translucidez. Lisboa, do outro lado do rio, é uma sombra luminosa quando olhada através da janela do cacilheiro. Dali olhada Lisboa é um borrão, sete colinas indefinidas, a capital de um Portugal meio desfocado, que é o que Portugal vai sendo nos dias que flutuam muito mais do que correm, como seria de bom tom.

A meu lado está um cidadão com aquele ar sizudo que tão bem assenta aos cidadãos da nação lusa. Tem aquela expressão grave de quem está a par das dores do mundo tanto quanto se sente enfastiado por saber tudo o que de importante o mundo tem para oferecer aos comuns mortais. Segura na mão uma daquelas coisas que são uma espécie de telemóvel.

Digo uma espécie de telemóvel porque o cidadão a meu lado entrega-se a uma actividade frenética. Parece-me que joga um jogo. O cidadão não despega dele os olhos nem o larga das unhas que saltitam no écrãzinho espelhado com uma rapidez estonteante. Pipópópipóóó, faz o objecto. Logo a seguir uns momentos de silêncio e, depois, pic, pic, pic, ao ritmo dos toques com que o meu vizinho o matraqueia, pic, pic, pic, pipópópipóóó.

Finjo que não reparo, é evidente, e tento olhar para Lisboa que o barco já vai navegando. Mas a cidade lá está, fantasmática e desinteressante por não se poder ver quase nada da sua afamada beleza luminosa. Olho em frente e uma jovem cidadã segura outro objecto daquele género, um paralelipípedozinho mágico. Do dela sai um fio que o liga às orelhas. Muito hirta, escondida atrás de uns óculos muito escuros, a rapariga parece uma estátua vagamente grega, mais na brancura que na forma.

Vou olhando um e outro dos meus companheiros naquela curta viagem e a maioria está absorta com uma maquinetazinha qualquer. Uns falam para ela, outros olham-na com concentração, outros afagam-na ou batem-lhe com alguma leveza, como continua a fazer o meu vizinho. As pessoas estão ali e não estão. Estão juntas mas nítidamente afastadas. A experiência da travessia do Tejo não tem quase nada em comum para os que, como eu, se sentam no ventre da barcaça que corta suavemente a ondulação do rio.

Olho outra vez através da janela, a margem norte está já quase ali. Levanto-me e percebo que o horizonte deixou de ser uma prioridade para os cidadãos. Os seus olhares caem-lhes logo à frente do nariz, um pouco acima do umbigo. Os olhares encerram-se nos écrãzinhos das maquinetas e ignoram o mundo que os rodeia. Teremos nós perdido os horizontes? Talvez os tenhamos esquecido! Apenas e simplesmente.

sexta-feira, julho 29, 2011

Desprezo

Só sinto desprezo por aquele cabrão filho-da-puta que assassinou dezenas de putos noruegueses após ter feito rebentar uma bomba em Oslo tendo morto, logo aí, uns quantos cidadãos. As coisas que esse animal deixou escritas e as fotos com que se ilustrou enquanto ser vivo mostram apenas uma coisa: vaidade.

Essa besta é tudo o que agora quisermos que seja. O animal é nazi, é terrorista, é fundamentalista católico, é louco, é psicopata, o que quisermos. Será tudo isso, mas tudo isso reflecte uma vaidade imbecil na sua cabeça loira e nos seus olhos claros. Um verme nojento daquele calibre pode apenas merecer desprezo.

Por mim enfiava-lhe uma bala nos cornos e acabava logo ali com uma existência prejudicial à espécie humana. Gajos assim fazem vacilar as minhas convicções em termos de tolerância e respeito pela vida humana. Tenho dificuldade em reconhecer num monstro deste género o mais leve pingo  de humanidade. As bestas raivosas matam-se, para evitar que espalhem a raiva.

Já escrevi mais do que queria escrever sobre esta coisa pestilenta. Os noruegueses deram-lhe um tratamento razoável. Se era exposição pública que o bicho queria, isolaram-no por completo. O problema é que vai ter um julgamento justo. É isso que distingue as vítimas do assassino mas, caraças, ele não merece ser tratado como aquilo que não é, não merece ser tratado como um ser humano.

segunda-feira, julho 25, 2011

domingo, julho 24, 2011

Mais um anjinho


Morreu Amy Winehouse (toda a gente sabe, claro). Pois foi, lá se passou a cantora da imagem esquisita, tinha os tais 27 anos. A lista de personagens geniais do mundo da música que faleceram com essa idade fatídica é impressionante. No jornal chamam-lhe o "clube dos 27": Brian Jones, Jim Morrison, Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Curt Cobain, uma coincidência dos diabos!
Cá para mim, as almas destas personagens estão algures no Paraíso, são anjos, não restam dúvidas. Deus não cometeria a imprudência de prescindir dos serviços de tão distintos fantasmas. Sem eles o Paraíso seria, definitivamente, o tal lugar aborrecido que muitos imaginam mas que, estou em crer, terá concertos divinais com uma frequência extraordinária como só pode acontecer no Mundo das Nuvens.
Talvez Lucian Freud lhe pinte o retrato.

sexta-feira, julho 22, 2011

Lucian Freud


Morreu o pintor Lucian Freud, 88 anos, cidadão inglês, considerado pela crítica como um dos mais excelentes pintores, senão mesmo o maior, dos últimos anos em todo o mundo. Um pintor deveras marcante. Uma pintura de Freud é uma coisa desconcertante.

Segundo o velho pintor, a solidão do trabalho proporcionava-lhe muita alegria e não gostava que o vissem durante o acto de pintar. Mas quando um observador se confronta com uma tela saída das suas mãos poderosas é isso que ele pode apreciar: a pintura. Não vendo artista em acção, a observação de uma obra de Freud mostra-nos o poder mágico do gesto pictórico.

Uma pintura é um repositório de energia em suspensão. Quando o observador cruza o olhar com o objecto de arte acciona uma fusão de energias, a sua própria com aquela que obra contém, pondo em movimento os mecanismos maravilhosos do fenómeno da revelação artística.

Foi isto que Lucian Freud nos legou, obras de uma energia intensa, capazes de gerar campos de força avassaladores que nos sugam a alma para o centro de uma tremenda tempestade pictórica. Paz à sua alma, lá na solidão da morte.

terça-feira, julho 19, 2011

Vestuário


Não vejo porque será controversa a decisão do Conselho Académico da Universidade Católica no sentido de estabelecer um código de vestuário para os seres humanos que frequentam as suas instalações. Por mim até me parece uma decisão muito correcta, diria mesmo, uma santa decisão! (ver aqui)

É evidente que raparigas de mini-saia ou rapazes em calções, com a penugem dos pernis ao vento, não é forma decente de se entrar em estabelecimentos de ensino tão devotos e magníficos como aqueles que cumprem a sua missão evangelizadora sob o signo da Igreja Católica, como é o caso desta provecta Universidade.

Note-se que o memorando que estabelece as tais regras adverte discretamente que "Modos de trajes e formas de apresentação próprias de local de lazer e de desporto não são adequados na universidade."  Quem pode contestar uma formulação tão pueril e justa como esta? É evidente que estudar não é coisa vã, muito menos diversão!

Aliás, quem vê a estudantada toda enfiocada em capas e batinas negras como o breu por ocasião da Semana Académica apenas poderá estranhar esta discreta imposição por não estar a ver modosde vestuário  impróprios entre tão escura clientela.

Do mesmo modo que um operário tem de usar capacete de protecção quando trabalha numa obra ou um jogador de futebol entra em campo de calções e camisa especial ou um padre vai para a missa devidamente aparelhado, é justo impor aos estudantes de uma Universidade que aspira ao Reino de Deus regras específicas de vestuário.

Sim, porque universidades há muitas e quem se sentir mal por não poder mostrar os seus atributozinhos através de um decote generoso ou expor a sua masculinidade numa bela camisinha de cavas pode sempre experimentar outro estabelecimento de ensino onde o Reitor não esteja tão preocupado com a salvação das almas.

Para terminar noto apenas que o bonequinho que embeleza o logotipo da Universidade Católica Portuguesa se apresenta em trajes muito reduzidos. Talvez fosse conveniente vestir-lhe qualquer coisa mais decentezinha.
Ámen.

domingo, julho 17, 2011

Mijo, pó, merda e música ao vivo

Ok, eu não devia meter-me nestas coisas. Na verdade aquilo não é bem para mim e, em última análise, poderia dizer que não fui para ali chamado. Mas, vendo as coisas por um prisma consumista, diria que não é bem assim.

Tudo começou há 4 anos atrás, quando os Arcade Fire fizeram o seu concerto no Super Bock Super Rock que, nesse ano, foi no Parque do Tejo, ou lá como se designa aquele lugar, um sítio razoavelmente decente, com condições de habitabilidade que não envergonhariam o Porquinho Babe. Consultando os arquivos do 100 Cabeças encontro aqui o registo entusiástico que então me mereceu o meu primeiro contacto live com a banda canadiana.

O ano passado já o festival se desenrolou no local onde agora se mantém, algures para os lados de Sesimbra, num local onde aqui há uns 15 anos atrás (mais coisa menos  coisa) fazia piqueniques em famíla com amigos e etc. O ano passado fui lá para ver o Prince (registo aqui) e não gostei nadinha das condições do recinto. Saí de lá a jurar baixinho nunca mais meter lá os pés.

Jura vã, está bom de ver. Quem iria adivinhar que, na edição deste ano, o cartaz haveria de ter um dia em que surgiriam no mesmo palco e consecutivamente os Portishead e os Arcade Fire!? A perspectiva de assistir a estes concertos apagou por completo tudo o que de mau me tinha levado a jurar a tal jura. E lá fui.

Resumindo. o Super Bock Super Rock é um festival de lixo! Há merda e mijo em doses industriais se bem que, principalmente a merda, devidamente confinados em sanitários móveis de plástico, ora verdes ora cor-de-laranja, mas igualmente pestilentos. Sim, porque o mijo, a partir de uma certa hora, começa a ser mijado por toda a parte pelos elementos do sexo masculino que foram abençoados com a maravilhosa capacidade de mijar em pé.

Depois há o lixo, os copos de plástico, os invólucros das mais variadas comiditas, papéis, garrafas, maços de tabaco, eu sei lá, é difícil nomear toda a sorte de porcaria que parece brotar do solo arenoso... por falar em solo, temos aqui o protagonista, a verdadeira e autêntica vedeta de toda a função: o pó!

O pó está por todo o lado. É omnipotente e omnipresente, uma divindade daquelas que comandam os destinos do inferno. Levanta-se ao menor movimento, eleva-se e insinua-se, penetra-nos, envolve-nos, domina a nossa existência naquele local.

Finalmente, abreviando, falemos um pouco de música. Saltando sobre todas as outras bandas aterremos no momento em que os Arcade Fire irromperam no palco. Tal como há 4 anos atrás as palavras não servem para descrever o que a seguir aconteceu lá em cima e cá em baixo. A multidão apinhava-se com feijão numa lata e cantava como um bando de piratas após um saque magnífico. Esta multidão de feijões piratas levantava uma poeirada apocalíptica enquanto dançava frenéticamente. O pó, sempre o pó!

Mas as emoções estavam longe de se ter esgotado. Quando o concerto acabou, por volta das 2 da manhã, e toda aquela mole humana se movimentou em simultâneo a coisa tornou-se dantesca. Imagina, leitor amigo, aquela manifestação grandiosa da poeirada absoluta.

Mas o pior ainda estava para vir. Sair dali, no carro, foi outra história épica a que te vou poupar. Cheguei a casa para lá das 4 da manhã, cansado, sujo e não tão feliz quanto seria de esperar. Fica a moral desta história: não encurtes a memória, amigo leitor, se um dia viveste momentos verdadeiramente merdosos não o esqueças. Repetir a experiência pode dar-te a sensação de seres mais burro que um jumento.

sexta-feira, julho 15, 2011

Pensamento profundo como um chapéu de palha em dia de sol abrasador

Um homem só está completo quando se apercebe da sua absoluta imperfeição. É esse o estado mais próximo de alguma coisa que jamais conseguimos alcançar: compreender com a clareza possível o pouco que somos e o nada a que podemos honestamente aspirar. A partir daqui tudo será possível.

quarta-feira, julho 13, 2011

Em nome do povo

Nós, o povo, não queremos cá saber de intelectualices, coisas que nos obriguem a puxar pela mioleira se as quisermos atingir e entender. Nós, o povo, não compreendemos que alguém possa ter prazer em exercícios reflexivos complicados que, para nós, é coisa própria de masoquistas.

Nós, o povo, gostamos de coisas simples e intelectualmente aerodinâmicas: um soco no focinho que parta ossos (com som), uma manápula peluda a esfregar as mucosas vaginais de uma Maria qualquer ou uma biqueirada violenta numa bola que voa e voa e voa e que entra, supersónica, pela baliza dentro. Goooooolooooo, coisa máilindaaaaa!!!

Também gostamos muito de novelas.

terça-feira, julho 12, 2011

Clica sobre a imagem se quiseres ler

Isto é uma página do meu caderno. 
A escrita manual tem, para mim, uma dimensão estranha ao teclado do computador.
No Carapau Staline haverá outras páginas deste caderno e, também aqui, outras se seguirão. 
Assim Deus mo permita.

segunda-feira, julho 11, 2011

Tangueria

 Martina Gusman e Ricardo Darin numa cena de infinita ternura...

Aqui há uns tempos largos tinha lido a crónica do Beto Canales (ver aqui) no blogue Cinema e Bobagens (aqui também) sobre o filme O Segredo dos Seus Olhos, do realizador argentino Juan José Campanella e tudo o que ele dizia soava justo e certeiro: um certo cinema argentino passa na tela com uma naturalidade que até parece ser a vida a imitar aqueles filmes e não o contrário. Como se, sentados na sala de cinema, os espectadores fossem aqueles tipos acorrentados na caverna da alegoria platónica.


De Campanella já tinha visto com estranho prazer O Filho da Noiva e, mais recentemente, vi (em DVD, sem legendas, descobri que compreendo o argentino com alguma eficácia) o espectacular Luna de Avellaneda. 3 filmes com Ricardo Darin como denominador comum, além do realizador, está bom de ver. O que me deixa agarrado a estes filmes é a forma escorreita como nos é contada uma história por actores magistralmente dirigidos. A representação elevada à categoria de arte maior.

Mas o que me levou a escrever este post foi uma ida recente ao cinema para ver Carancho (Abutres, na versão portuguesa) de um tal Pablo Trapero. Mais uma vez Ricardo Darin a dar corpo à personagem principal e novamente uma exibição de virtuosismo estonteante. Sem efeitos especiais e (decerto) sem um orçamento astronómico cria-se uma obra de arte cinematográfica exemplar.

O tango que abre a banda sonora de Carancho dá o mote; há um país na Amércia Latina onde os cineastas fazem cinema como se ele nunca tivesse morrido sufocado por toneladas de pipocas ou afogado num mar de Pepsi Cola. Na Argentina assistimos a um autêntico Renascimento cinematográfico. Buenos Aires está para o cinema como Florença esteve para as artes, que agora chamamos plásticas, lá para o fim da Idade Média.

sábado, julho 09, 2011

Recuperar

Hoje recuperei os meus olhos. Tive de me chatear e ameaçar que faria uma reclamação naquele livrinho que há nos estabelecimentos comerciais e quejandos. Com a ameaça lá se despoletou o processo que deveria ter corrido naturalmente e não sob a pressão artificial do meu mau génio e, pronto, já tenho olhos outra vez.

Quando coloquei os óculos no lugar foi como se tivesse recuperado uma força que já andava a esquecer. A luz subiu dois tons e os contornos dos objectos regressaram com uma nitidez enternecedora. Foi como se estivesse a segurar uma vela que, de súbito, se transformou numa espada de laser como aquelas dos heróis da Guerra das Estrelas. Beleza!

De imediato li o jornal de fio a pavio e senti um certo alívio por poder ver melhor as olheiras na cabeça que estava no espelho a olhar para mim. É notável a forma como não damos importância a pequenas coisas que têm uma importância enorme até que elas falham. A privação da banalidade é uma coisa extraordinária.

quarta-feira, julho 06, 2011

Visão


O valor das coisas é relativo. É quando as coisas falham que lhes damos a atenção devida. Estou a escrever este texto e as palavras vão-se alinhando no écrã. Isso vejo muito bem, as linhas. Já as palavras... bom, confio que estou a escrever tudo de acordo com as regreas ortográficas já que não consigo distinguir as letras com clareza. Nem nada que se pareça!

Acontece que tive necessidade de mudar as lentes dos óculos. Andava com dificuldades na leitura das letras pequeninas dos contratos e das instruções de utilizaçãonas embalagens de certos produtos. Estou a utilizar uns óculos antigos para poder ter esta visão nublada. Sem eles sinto-me como deve sentir-se uma toupeira fora da toca. O oculista explicou-me, com um grande sorriso, que só amanhã (ou depois, meu Deus, ou depois!!!) terei de volta a minha visão de curto alcance. Estou triste.

O jornal matinal é um sacrifício, o "Crime e Castigo" uma impossivilidade absoluta. Enquanto não tiver os óculos de volta sinto-me uma espécie de semi-analfabeto. A falta de visão pode ser uma forma suave de tortura.

Aguardo com alguma ansiedade a chamada telefónica que me devolverá a extraordinária magia da visão plena. "Os seus óculos estão prontos, pode vir buscá-los."; amanhã, por favor, que seja amanhã!

sexta-feira, julho 01, 2011

Pequeno conto fantasma

Havia dias em que aquela sensação se instalava. Era um apertozinho no lugar onde deveria estar o coração. Era uma coisa tão leve, tão discreta que, não fora a doçura do mal-estar que provocava, poderia passar despercebida mesmo para aquele que, inadvertidamente, era o seu dono.

Quando aquela coisa dava sinal, ele lembrava-se que apenas a tinha esquecido. A coisinha decerto sempre lá estivera, escondida ou a preguiçar, isso pouco significado tinha neste caso. Como a sensação de desconforto não ultrapassava a discreta força de uma brisa interior ele nunca se inquietava, era coisa de pouca importância. Mas, naquela dia, naquela visita, havia algo ligeiramente diferente. Uma diferença mínima que, como iremos compreender daqui a nada, acabaria por se revelar determinante.

Desta vez, aquela coisinha que noutras ocasiões até lhe trouxera aos lábios sorrisos enternecidos, pareceu-lhe manhosa, foi capaz de o desassossegar. Ainda assim não se sobressaltou de imediato. Não era possível, a coisinha, desta vez, parecia-lhe perigosa! De súbito suspeitou que, na verdade, ela sempre fora um perigo. Que era uma coisa dissimulada, que sempre disfarçara a sua verdadeira força, a sua origem demoníaca e que agora atirava para trás o manto de bonomia que lhe escondera as intenções destruidoras. Finalmente sentia-se capaz de cumprir a sua missão e punha-se assim, a descoberto.

Ele estremeceu amedrontado. Sucumbia à temível revelação. Albergara durante tanto tempo aquele terrível inimigo no aconchego do seu peito, acarinhara um mal maior do que era capaz de imaginar e agora era tarde para o enfrentar. Demasiado tarde.

Compreendeu que aquela ligeira sensação de desconforto se tornava dura e efectiva. Rodava-lhe no peito como uma serra eléctrica capaz de despedaçar o pouco que restava da sua habitual confiança na solidez inabalável do quotidiano. Compreendeu que tudo se iria desmoronar nos próximos instantes e ele nada poderia fazer para impedir a hecatombe. Compreendeu que aquilo que estava a acontecer iria transformar por completo o seu papel neste mundo e no outro. 

Foi nesse instante que se viu a si próprio sentado onde estava, estupefacto. Viu claramente que era dois corpos com uma só e a mesma alma e a inteligência do mundo dividida em duas. Sentiu uma vertigem. Planou. Por momentos sentiu-se a planar para logo regressar a um dos seus dois corpos, continuando dentro do outro, o que estava ali sentado com extrema dificuldade em abarcar a brutalidade do momento. 

O outro ele encostava-se calmamente ao parapeito de uma janela aberta no vazio entre os dois mundos simultâneos que, percebia agora, sempre habitara sem saber. Olhava-se, sentado naquela estúpida cadeira, como se sempre ali tivesse estado, esperando este momento decisivo. Aquela coisinha inquietante sempre habitara o aconchego do seu peito e agora, finalmente, nascia. Nascia no dia e no momento da sua própria morte.

quarta-feira, junho 29, 2011

Bondade monstruosa

Nosso Senhor castigou-lhe a tremenda soberba com uma sensibilidade própria de um Cristo lamechas cruzada com a raiva furiosa de um Barrabás assustador. O tipo, normalmente, mete medo mas também pode comover quem o observa na forma obsessiva como se entrega às pessoas que experimenta amar. Também aí, no amor assolapado, e exactamente por isso, o tipo mete medo.
Como se sentirá um gajo que, mesmo quando ama, repele mais do que atrai? Aquele gajo é um oásis fedorento no meio de um deserto perfumado, um desrto com o chão repleto de pétalas amarelas. Aquilo não pode ser fácil. A vida dele é uma tortura pois o bicho compreende o que se passa, não quer que as coisas assim aconteçam e, no entanto, a vida é o que é e ele o monstro mais desconcertante dez mil quilómetros em redor.
Sente bem fundo como a sua bondade é uma coisa montruosa e compreende que ser covarde é muito mais gratificante do que ter coragem.

segunda-feira, junho 27, 2011

Farto de fatos


Rebentei! Estou farto de fatos e de factos. Estou farto dos factos comentados por fatos com gravata e umas cabeças falantes a saírem pelo colarinho da camisa. Pátátá, pitititi, falam, falam, falam. Todos eles sabem tudo, têm perspectivas inteligentíssimas sobre todo e qualquer tema, não lhes escapa nada. Ocupam milhentos espaços informativos em vários canais televisivos. Podem ser vistos a toda a hora, debitando toneladas de ideias magníficas. Saturam o imaginário colectivo, inundam o espaço público com palavras. Comentam tudo, sabem tudo e, no entanto, não resolvem nada. Como é possível haver tantos homens (e algumas mulheres, pouquinhas) tão sábios e não se encontrar uma solução credível nem para o problema do cócó de cão nos passeios públicos? Estou farto destes gajos, dos seus fatos e dos factos que continuamente comentam, analisam, dissecam e... e nada! Caraças, que raio de coisa é esta?

sexta-feira, junho 24, 2011

O regresso do Carapau (Staline)

Foi de repente. Uma coisa passou-me pela cabeça e, tungas, reanimei o velho Carapau Staline que já estava farto de não fazer nada e de nada por lá passar. Para quem não está ao corrente, o Carapau Staline é um blogue onde coloco os meus trabalhos de artes plásticas. Desenhos, pinturas, colagens, colagens desenhadas e desenhos colados, e depois pintados e voltados a desenhar e a pintar. O contrário também acontece.

Estava parado desde Outubro passado. Mais por preguiça que por outra coisa qualquer. Também porque, durante algum tempo, andei a namorar o Facebook mas cansei-me daquilo. Cansei-me dos "likes" e dos toques e dos convites e dos encontros ocasionais e dos reencontros nem tanto assim. A reabertura do Carapau Staline é um regresso ao passado, naquele preciso momento em que ele se cruza com o futuro.

Para já publiquei uma coisa que acabei de fazer hoje de manhã, a "Olímpia Gaga". Não ponho aqui imagem nenhuma porque as imagens estão todas lá, no Carapau Staline. Desfrutem.

Weiwei na gaiola grande


O caso da detenção de Ai Weiwei deu que falar em todo o mundo lá para o início do passado mês de Abril. As autoridades chinesas eclipsaram o artista sem qualquer justificação. Depois veio a suspeitar-se que o problema era relacionado com pornografia, finalmente estabeleceu-se que Weiwei tinha problemas graves com o fisco e, por isso, havia argumentos suficientes para o engavetar em parte incerta e deixá-lo sem contacto com o mundo exterior.

O regime chinês é uma coisa estranha. Nem comunista, nem capitalista, talvez uma miscelânea de ambas as coisas, cozinhada em lume pouco brando. O poder central põe e dispõe das vidas dos cidadãos, das leis, das regras, enfim, mete o nariz em todo o lado e tenta controlar tudo o que pode em proveito próprio.

Weiwei foi libertado. Finalmente! Mas, tal como em tantas outras situações, também aqui o governo chinês inovou. Ao que consta o artista foi libertado com a condição de se manter caladinho durante um ano (ver aqui) e não pode ausentar-se da sua residência. Abriram-lhe a porta da gaiolinha onde o mantinham sem contacto com o mundo exterior, para o colocarem numa outra gaiola.

O que pensará agora Weiwei sobre a liberdade? O que é ser livre na China? Um tipo fechado à chave está preso, sem dúvida. E um tipo impedido de falar abertamente mas que pode passear o cú pelas ruas? Estará livre? Imagino que sempre seja melhor poder passear mas duma coisa tenho a certeza: não é suficiente!

sábado, junho 18, 2011

Examinações


Na minha qualidade de professor numa escola pública onde se realizam exames, a nível de escola e a nível nacional, tenho como uma das minhas tarefas obrigatórias a vigilância. Todos os anos reunimos os professores numa sala e assistimos a uma longa e monótona exposição dos passos a seguir para que tudo se processe conforme a regras determinadas pelos serviços do ministério. São regras apertadas, dignas dos guerreiros de Esparta. Afinal de contas trata-se de impedir situações fraudulentas que os alunos examinados são adolescentes ardilosos, capazes dos  mais inimagináveis expedientes para aldrabar o sistema.
É assim todos os anos.

Só que este ano a coisa ganha contornos especiais. Ficamos com o olhar mais focado no nosso desempenho como vigilantes uma vez que os acontecimentos recentes num exame do Curso Normal de Magistrados Judiciais e do Ministério Público colocaram a aldrabice num novo patamar de realização (ver aqui). Os aspirantes a juízes da nação portuguesa copiaram forte e feio, mostrando a todo o povo português a dimensão ética que os enforma.

A situação é patética mas, mais patética ainda, foi a primeira decisão dos responsáveis pelo dito exame. Os pequenos projectos de magistrado copiaram? Ok, a coisa resolve-se; passam todos com 10 valores. O caso transpirou para os jornais e o escândalo obrigou a revisão desta decisão aviltante. Resta-nos aguardar o desenlace desta palhaçada.

Ficamos a conhecer melhor aqueles que nos julgam  e compreendemos um pouco de certas situações incompreensíveis que acontecem nos tribunais.

quarta-feira, junho 15, 2011

Civilidade formal


Somos tãããããão civilizados quando respondemos a um inquérito telefónico a propósito (neste caso) de um serviço de revisão do automóvel numa oficina da marca do dito cujo.

Do outro lado, uma voz feminina muito pouco melodiosa, com aquele timbre vagamente metálico e nasalado que costumam ter as pessoas que preenchem formulários e lêm as perguntas a que teremos de responder seca e objectivamente. Sem agressividade nem ponta de familiariedade. Uma espécie de máquina de colocar questões e registar opiniões. Sei que está uma mulher, do outro lado, mas sou absolutamente incapaz de criar a mais ténue imagem da sua figura.

As minhas respostas soam-me distantes. Nesta conversa sou identificado pelo nome e por uma matrícula. Surpreendo-me com o tom de voz que coloco no telefone e, imagino, soo igualmente maquinal e destituído de paixão. Uma cordialidade fria, quase gelada, domina a troca de palavras. Estou satisfeito.

Noto que havia um outro patamar de satisfação, o "muito satisfeito", mas esse estado de graça reservo-o para outras situações que não o serviço de revisão automóvel. Dificilmente poderia declara-me "muito satisfeito" com uma coisa dessa natureza. Que satisfação extrema poderemos encontrar numa ida a uma oficina automóvel?

A despedida é tão cortês quanto impessoal. A senhora metálica garante-me que as minhas opiniões são muito valiosas para ela e para a empresa que representa. Eu agradeço e desligo. Não se passou nada e, no entanto, alguma coisa se terá passado.

terça-feira, junho 14, 2011

???


Deus é omnipresente; vê tudo, sabe tudo, nada lhe escapa (a menos que durma).
Deus é omnipotente; pode tudo, tudo depende Dele (excepto quando dorme).
Resumindo; Deus é... um dorminhoco? Um burocrata? Não é nada? Deus é a crueldade absoluta? Um velho impotente? Uma coisa incompreensível? Uma folha de cálculo perfeita?

domingo, junho 12, 2011

Música portuguesa que ouço com prazer (desmedido)-3



Ontem assisti ao concerto do Jorge Palma no Teatro Municipal de Almada. É sempre um prazer.

sábado, junho 11, 2011

O peso da leveza



Rezam as crónicas que ontem, nas celebrações do Dia de Portugal em Castelo Branco, os nossos dois primeiro-ministros deixavam transparecer disitntos estados de espírito. Grave e um tanto abstracto, Passos Coelho, o primeiro-ministro que se segue, leve e quase descontraído, Sócrates, o que vai embora.

Sempre me intrigou o apetite de certos gabirus por cargos dirigentes. O que leva homens e mulheres aparentemente normais a procurar, com todas as suas forças, chegar aos mais altos cargos da nação?

Até aqui há uns anos atrás acreditava que seria por motivos ideológicos. Os candidatos a chefe teriam razões políticas, sonhos utópicos haveriam de os mover em direcção à fogueira do poder. Mas, nos últimos tempos, as ideologias foram desaparecendo, a economia engoliu-as. As utopias foram substituídas por folhas de cálculo, o pensamento político esmagado pela inevitabilidade contabilística... o que poderá então mover os sapatinhos desta gente?

Olhando Sócrates e Passos Coelho compreendo que as suas principais qualidades, eles nisto equivalem-se, é ficarem bem nas fotografias. São dois gajos que proporcionam bons bonecos para as páginas dos jornais e animam as novelas dos noticiários. As velhotas suspiram por uma beijoca durante as campanhas eleitorais e nas cerimónias oficiais. Note-se que o próximo primeiro-ministro é muito mais beijoqueiro que Sócrates, um tanto distante, por vezes próximo do esfíngico. Em termos de qualidades de estadista já é outra conversa.

Pelo que acima fica exposto e por muito mais que aqui não cabe, convenço-me que a motivação principal destes dois impagáveis parlapatões será uma vaidade sem limites que faria a Rainha Má da Branca de Neve parecer uma rapariga simples quando comparada com eles.

Ontem percebeu-se que quem sai vai aliviado e quem entra começa a sentir a canga da função a pesar-lhe no cachaço. Sõcrates, o Odioso, dentro de dias parecerá um simpático intelectual ignorante e Passos Coelho, o Bonitinho, definhará em rugas impensáveis e discursos cada vez mais crispados. É o preço do poder.

sexta-feira, junho 10, 2011

Dia de Portugal


Hoje é dia de comemorações. Celebra-se não sei bem o quê. Ao que parece celebra-se Portugal e as suas comunidades, espalhadas pelo mundo em dia de vendaval e celebra-se a genialidade de Camões, esse princípe dos poetas de Espanha, conforme reza numa edição dos Lusíadas feita sob domínio dos Filipes, esse curto intervalo na imensidão dos séculos que leva de duração a portugalidade.

É dia de entregar condecorações e fazer discursos solenes sobre o estado miserando em que se encontra a pátria. É dia de declarar fé no futuro tendo como pano de fundo um passado que entendemos como tendo sido glorioso. O tempo e a distância desfocam a perspectiva e o poema épico de Camões ajuda à festa.

Acima de tudo é dia feriado e o povo aproveita para desfrutar do sol, essa riqueza branca e luminosa que ninguém nos tira. O povo costuma estar sereno neste dia. Talvez possamos dizer que o 10 de Junho é, além do dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas, o Dia da Serenidade Nacional.

Desfrutemos.

quarta-feira, junho 08, 2011

Momento de glória


A rapariga era demasiado bonita. O rapaz imaginava. Sentia o mundo todo atirado para dentro do seu coração. Os olhos dela podiam passar por ele apenas como um pano de pó que limpa com desinteresse o tampo de uma mesa de café. Mas, na imaginação do rapaz, aqueles olhos enfiavam-lhe o mundo todo dentro do coração que mais parecia o tambor dos Cramps. E ele a fazer de herói, a exagerar na bravura.

O rapaz era um matulão pleno de coragem infantil a fintar os adversários. Um, dois, com menos dois palmos que ele e, ainda, a fintar um terceiro, apenas imaginário. Finalmente lá estava ele defronte à baliza, a desferir um remate potentíssimo perante um guarda-redes pequenino, como um passarito caído do ninho. O remate estoirou e o guarda-redes de boca aberta, olhos fechados, cabeça encolhida, esticou os braços com timidez, sentindo apenas o silvo abrasador da bola que passou por ele e entrou baliza dentro a voar como um míssil Tomahawk.

E o rapagão sempre a imaginar que os olhos da menina, bonita como o sol, a imaginar que os olhos dela vêem o mesmo que os dele, agora fechados, saboreando a glória, a imaginar que os olhos dela vêem o mesmo que os dele imaginam.

O rapagão convicto que ela sente o mesmo que o seu cérebro em brasa vai cravando, a fogo apaixonado, no seu próprio imaginário: um herói completo! Parte Hellboy, parte Batman, parte Wolverine, com um toque bem visível de Spongebob Squarepants, que a maturidade não dá para aguentar tanto músculo nem tanto potencial de malvadez.

O rapaz festeja o golo. Braços erguidos em "V", uma corrida sinuosa, os gritos da multidão atroam-lhe os ouvidos. Quando regressar verá que a menina já se foi embora e que os outros jogadores estão, apenas, profundamente irritados e desgostosos de tão evidente supremacia. Mas ele não vai compreender nada por tudo ser tão real!

segunda-feira, junho 06, 2011

O que podemos desejar?


Este é um tema algo polémico. Tem a ver com as expectativas de cada um de nós perante um objecto estético de contornos desconhecidos, a forma como estabelecemos relação directa com ele, como se materializa no nosso espírito o resultado de uma revelação.

Ah, pois, esqueci-me de dizer que tema estou a tentar trazer para a conversa. A coisa tem a ver com o comentário do Jorge Pinheiro, do Expresso da Linha, ao meu post anterior. O tema é a velhíssima questão das diferentes opiniões que construímos perante o mesmo objecto plástico. A forma como os nossos olhos e a nossa mente estabelecem contacto e criam uma sensação particular, quando estimulados pela energia que emana de determinada obra de arte.

A questão tem (pelo menos) duas situações diferentes: ou temos um qualquer tipo de informação prévia sobre o objecto que iremos fruir, informação essa que nos cria expectativas específicas e nos ajuda a construir uma sensação por antecipação a que poderíamos chamar "pré-conceito"; ou então vamos para defronte do objecto sem qualquer tipo de informação e total ausência de expectativas. Nesta situação de virgindade absoluta, geradora da maior das ingenuidades, a surpresa é o maior dos riscos que corremos.

Esta introdução vem a propósito de "A Árvore da Vida" o mais recente filme de Terrence Malick . Trata-se de um objecto fílmico algo desconcertante por não obedecer àquilo que, normalmente, estamos habituados a receber quando nos sentamos numa sala de cinema depois de termos pago o nosso bilhete.

Penso que a nossa reacção pode ser determinada por factores muito variados e manifestar-se de diferentes formas que aqui vou tentar sintetizar em, apenas, duas: ou se ama ou se odeia. Não me parece que seja coisa para deixar nenhum espectador indiferente, situação muito comum nas salas de cinema quando vemos um daqueles filmes que é, apenas, "mais do mesmo".

Sendo a indignação uma das consequências possíveis (penso que foi, mais ou menos, o que aconteceu ao Jorge Pinheiro) é extraordinário, ou talvez não, que o espectador possa ficar deslumbrado, que foi o que me aconteceu a mim.

Talvez estas situações extremas possam mostrar até que ponto "A Árvore da Vida" é um filme interessante, deixando o potencial espectador em suspenso até entrar em contacto com o filme. Irás tu amá-lo ou odiá-lo, carissimo leitor? Não posso responder-te. Nem eu nem ninguém... apenas tu poderás encontrar a resposta.

quinta-feira, junho 02, 2011

Contemplação


"A Árvore da Vida" é um filme que me deixa a pensar que o cinema podia ser assim, como o faz Terrence Malick. Este trailer não dá uma imagem muito fiel daquilo que nos é oferecido. Fico com a sensação que os publicitários pretendem induzir o espectador em erro.

O ritmo do filme é outro (ou são outros, é um filme com ritmos diferentes ao longo das cenas), é uma coisa fora do comum. É como se Malick nos abrisse uma janela sobre um tempo e um espaço que a vida quotidiana nos esconde. Somos convidados a contemplar, a respirar as imagens.

O trabalho da câmara de filmar é extraordinário e a narrativa é um longo momento de reflexão que se estende em várias direcções e nos deixa a flutuar nas ideias e nas imagens, como se fossem uma coisa apenas. Ideia e imagem.

Não há palavras suficientemente eloquentes ou justas para descrever o que se passa em "A Árvore da Vida". Talvez uma palavra, apenas... contemplação. Sinto que, por uma vez na vida, me contemplei a mim próprio e, estranhamente, contemplei o mundo todo.

O cinema podia ser todo assim...

terça-feira, maio 31, 2011

Personagens (1)

O rapaz comporta-se como se estivesse sob vigilância constante de uma câmara de filmar manuseada por um grande realizador que fizesse um documentário sobre a sua vida. A vida daquele rapaz, aparentemente banal mas que, na realidade, poderia servir de argumento para todo o género de filmes. Desde filmes de acção a filmes de mistério e espionagem, por aí fora, até uma pungente comédia romântica que ainda não aconteceu na vida daquele rapaz mas que irá colorir a sua existência, mais dia menos dia. Fatal como o destino!

E vê-se tudo isto no seu olhar semicerrado, na sua postura arrogante, na cabeça atirada para trás, no gesto afectado do seu braço esquerdo que parece combater o direito na busca de uma expressão física que retrate toda a magnificência incógnita que o caracteriza mas que apenas pode ser captada pela tal câmara escondida, pela genialidade do tal realizador que discretamente o acompanha. Mas nem esse génio cinematográfico é capaz de compreender toda a grandeza desta personagem. Nada nem ninguém poderá alguma vez abarcar nem uma ínfima parte da complexidade do seu ser.

Como ele, todos os outros. Todos os rapazes são estrelas do seu próprio filme. Estrelas esquecidas na imensidão do firmamento que é a cidade e os que nela habitam as horas. E evitam os minutos.

quinta-feira, maio 26, 2011

Abusos


A Democracia é vítima dos mais variados abusos. Abusam dela os que nela dizem acreditar e também aqueles que a desprezam. O seu nome é utilizado para defender uma determinada posição e a posição contrária. Os mais descarados déspotas usam-na para legitimar poderes intermináveis e os que são por esses déspotas oprimidos gritam por ela nas ruas ou no silêncio dos seus lares. A Democracia é uma Deusa.


Tal como o nome de Deus (qualquer um dos numerosíssimos nomes de Deus) é invocado para justificar crimes hediondos ou para patrocinar actos de amor e profunda compaixão, os valores democráticos são reclamados nas mais improváveis situações e pelos mais caricatos actores desta farsa a que chamamos Mundo Real.

Serve para ilustrar o que afirmo acima uma notícia que acabo de ler (ver aqui) e que tem por título: "FMI: China espera decisão democrática na sucessão de Strauss-Kahn". Por um lado parece-me extraordinário que um governo não-democrático invoque a Democracia nesta situação. Por outro lado parece-me fantástico que, numa instituição como o FMI, se possa utilizar o processo democrático para escolha de um líder que tem como missão principal ignorar os sistemas democráticos dos países onde leva a cabo as suas missões de inspiração apocalíptico-económica.

O nome da Deusa Democracia é constantemente invocado em vão. E não parece ser grande pecado.

domingo, maio 22, 2011

Democracia e pós-democracia

 Manifestação em Madrid e manifestação em Lisboa, a Ibéria está a arder?



Depois da Avenida da Liberdade, as Portas do Sol. Os cidadãos manifestam-se abertamente contra o rumo que a sociedade ibérica vai tomando, esta coisa que teimamos em designar preguiçosamente por “democracia”. Os que se manifestam são, na sua esmagadora maioria, jovens que nasceram em sociedades onde a liberdade de expressão é, sem sombra de dúvidas, o maior de todos os bens. Para eles, para todos nós, a possibilidade de expressar abertamente a opinião é tudo o que resta já que o voto, essa utópica “arma do povo”, nos é constantemente usurpado pelos políticos que elegemos ciclicamente em eleições que mais se parecem com grotescas caricaturas daquilo em que acreditamos. O regime transformou os cidadãos em consumidores, prometendo o acesso global a bens de consumo que nos são impostos através de campanhas publicitárias totalitárias, em tudo semelhantes às campanhas eleitorais. Há quem se gabe de “vender” presidentes e primeiros-ministros como se vendesse sabonetes ou qualquer outro produto comercial. Vivemos tempos em que parecer é muito mais valioso do que ser.


Fala-se por aí em “pós-democracia”, um regime em que somos governados por grupos económicos que não se sujeitam ao escrutínio popular e se representam exclusivamente a si próprios e fazem prevalecer os seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos. Observando o que se passa actualmente nos países da Zona Euro estupidamente caídos em desgraça, com as imposições draconianas ditadas por poderes económicos que praticam a usura como se ela fosse um direito divino, o conceito de “pós-democracia” não só faz todo o sentido como se mostra um retrato perfeito da realidade que vivemos. 

A “democracia” tal como nos ensinam nos bancos da escola, já se diluiu nesta coisa pastosa das agências de rating e dos bancos privados e do capitalismo selvagem. Diluiu-se, desapareceu, acabou, transformou-se noutra coisa. Transformou-se num lobo esfomeado vestido com a pele imaculada de um cordeiro oferecido em sacrifício aos deuses da economia, essas divindades canibais e insaciáveis que quanto mais carne humana comem com mais fome ficam.

Vivemos tempos de mudança, tempos de redefinição. E é nas ruas que o sinal está ser dado. São os mais jovens a despoletar o processo porque sentem na pele a injustiça pós-democrática que os coloca na prateleira, a amadurecer, enquanto os mais velhos vão sendo devorados.
Este estado de coisas está a chegar a um ponto extremo de saturação. Ou deixamos a coisa estoirar por si, o que será uma desgraça absoluta, ou tentamos provocar e controlar o seu estoiro e talvez tenhamos alguma esperança numa desgraça relativa. Não podemos continuar a olhar para os senhores “pós-democráticos” como se eles estivessem preocupados com o nosso modo de vida. 

Alguma coisa tem de mudar para que tudo mude, de facto. É urgente refundar o conceito de Democracia. E, por muito que isso custe às luminárias do regime, essa refundação vai ter de ser feita nas ruas.

terça-feira, maio 17, 2011


O estranho caso do senhor DSK tem ocupado todos os noticiários e põe a cabeça a andar à roda aos socialistas franceses. Tem todos os ingredientes para proporcionar uma reflexão trepidante: sexo, dinheiro e muito poder. Mas não foi esse o assunto que hoje me fez pensar na vida. Não. O que me fez pensar na vida hoje foi um assunto de merda.


Leio no jornal uma notícia que fala de um movimento de cidadãos preocupados com a merda dos cães nos passeios das cidades portuguesas (ler aqui). Pedem os promotores desse movimento (que tem uma página no Facebook aqui) que lhes sejam enviadas fotos de poias abandonadas pelas ruas. Apresentam umas ideias curiosas, se bem que algo bizarras, relacionadas com a falta de civismo de muitos cidadãos, incapazes de recolher as caganitas deixadas pelos seus animais de estimação.

Mas o que me faz escrever estas linhas é outra coisa. Lembro-me bem, aqui há uns anos atrás havia muitos cães vadios, alguns deslocando-se em matilhas quase selvagens, deambulando por todo o lado. Em algumas situações chegavam mesmo a colocar as pessoas em situações embaraçosas. Quantas vezes não tive de me defender à pedrada ou ao pontapé ou tive mesmo de correr para me pôr ao fresco! Com a crescente organização dos serviços municipalizados essa bicharada foi desaparecendo de circulação, enfiada em canis. As ruas tornaram-se mais seguras.

Agora só há cães com dono, bichos fechados em casa que saem ao caír da tarde para fazerem os respectivos chichis e cócós, a maior parte das vezes seguros por trelas e com um ar pouco feliz.

Aconteceu algo semelhante com as crianças. Quero dizer, deixei de ver bandos de putos a correr ou a jogar à bola ou, simplesmente, aos pinotes e aos gritos pela rua. Agora jogam futebol em escolas especiais para aspirantes a Cristianos Ronaldos e jogam jogos de consola, enfiados nos seus quartos, com bonequinhos virtuais que correm por eles, saltam por eles e gritam por eles.

Nas ruas passam carros incessantemente, o vozear da petizada substituído pelo ronco dos motores, a cidade a deixar-se dominar pelo poder das máquinas. Mas, ao que parece, ainda com muita merda nos passeios.

domingo, maio 15, 2011

Contemplação

 

Nos últimos dias tenho caminhado. Vou andando por ruas ensolaradas como se isso fizesse sentido mesmo que, aparentemente, não faça qualquer sentido. Apercebi-me que este mundo, o mundo urbano, é cada vez menos contemplado. É uma paisagem para se percorrer em trajectos viciados com o objectivo de ligar pontos mais ou menos distantes, não parece haver uma intenção específica de criar lugares para descansar o espírito ou o olhar que o alimenta. Ou, então, há quem tenha essa intenção mas ela parece não ser apreendida pela maioria dos que percorrem as ruas.

A pé ou de carro ou de autocarro (os que vão em meios de transporte subterrâneos representam o paradigma da situação que tento aqui expor) os olhares parecem não ser capazes de se fixar na paisagem urbana. As pessoas atiram os olhos para o fundo de telemóveis (ou aparelhos desse género) buscando constantemente imagens que não estão ali, à sua volta, como se o objectivo das suas vidas fosse, simplesmente, consumir imagens artificiais que lhes chegam constantemente, produzidas por outras pessoas.

É uma espécie de magia trecnológica que nos coloca em espaços virtuais alternativos e nos rouba ao lugar onde nos encontramos. É como na canção de António Variações  que diz: "eu só estou bem, aonde não estou e eu só quero ir aonde não vou...", fugimos sempre do "aqui e agora" sem nos apercebermos que assim poderemos estar a fugir daquilo que somos, de quem somos. Qual é o problema? Também não sei bem.

É aqui que entra aquilo que chamamos de "street art". Os gajos que pintam as paredes das ruas criam momentos específicos na monotonia da paisagem urbana, roubam-nos a atenção para fora de nós próprios, devolvem-nos o olhar particular e individual que nos caracteriza e distingue uns dos outros e dos bichos que connosco convivem nos esgotos. Tornam possível o acto de contemplar o mundo artificial em que nos movemos como autómatos. "Sujam-no", fazem dele um espaço imperfeito e, como tal, humanizam esse espaço.