domingo, maio 25, 2008

Classicismo

De cima para baixo: Augusto de Prima Porta reconstituído, pintado com lábios de meretriz e tudo; um belo gnomo de jardim caçador de borboletas todo pintadinho como convém e, finalmente, uma cabecinha de Calígula meio pintada e meio como devia ser e nunca foi.

É certo e sabido, a imagem que construímos da arte chamada clássica assenta num erro de palmatória. Desde que o interesse pelos mármores romanos atingiu a intelectualidade europeia no século XVIII, no dealbar da época artística que conhecemos pelo rótulo de Neoclassicismo, começámos a construir uma ideia errada sobre os gostos dos nossos antepassados.

O contacto com essas obras deu-se muitos séculos após a sua realização e o tempo tratou-as com grande falta de respeito, adulterando-as por completo. As tintas que as cobriam desapareceram ao olho nú e frequentemente tomou-se por obra prima aquilo que mais não era que mera cópia.

É conhecido o fascínio dos romanos pela grandeza da cultura grega. Isso levou a que copiassem obras importantes da estatuária grega trabalhando-as em mármore. Quando essas cópias foram redescobertas no século XVIII foram tomadas por originais e assim admiradas, estudadas e copiadas, tornando-se paradigmas do ensino académico. A força deste erro foi tal que se impôs como gosto dominante até aos dias de hoje.

Recentes estudos, baseados em técnicas de análise bem mais rigorosas, mostram como estávamos profundamente enganados. Afinal, gregos e romanos, pintavam as suas estátuas numa tentativa consciente de aproximarem as suas obras dos modelos que representavam. A cor conferia à tridimensionalidade das estátuas o derradeiro toque realista que tanto agradava, sobretudo, ao espírito prático dos romanos.

Vestígios de tinta e outros materiais utlizados na Antiguidade permitem refazer os modelos considerados clássicos, dando-lhes um aspecto bem mais vivo do que o habitual monocromatismo a que estivemos habituados nos últimos três séculos. Afinal a sobriedade com que nos habituámos a olhar para a escultura da Antiguidade necessita de uma revisão bem mais estridente. As obras têm um aspecto próximo daquilo que hoje consideramos kitsch, ao nível de um gnomo de jardim ou de um dálmata de louça.

Enfim, isto mostra-nos como escrever História é um exercício arriscado. Corremos o risco de desenvlovermos raciocínios tendo como ponto de partida grosseiros erros de análise e, depois, torna-se complicado "refazer" a verdade quando nos apercebemos do logro. No caso das artes plásticas a coisa não é nada pacífica, havendo muito boa gente que prefere ignorar os factos para continuar a glorificar formas artísticas que nunca existiram. Ou melhor, há muito boa gente que prefere continuar a admirar obras primas realizadas pelo Tempo sobre os originais de artistas esquecidos que, afinal, tinham um mau gosto do caraças. Ou não.

sábado, maio 24, 2008

Eurorratas

Deus renegando a alheira e o queijinho da Serra


A União Europeia é uma coisa que se inventa nos corredores e gabinetes de edifícios em que se sonha não haver ratazanas nem baratas (pelo menos das que andam descalças). Edifícios que têm temperatura ambiente regulada com ar forçado, nem muito quente nem muito fria e a água nas torneiras é mais equilibrada que um dos halteres utilizados no ginásio do rés-do-chão.

Os gajos que trabalham nesses edifícios são os "operários construtores" dos fundamentos da União. Consta que não se peidam e que todos usam fio dental (nos dentes). Os gajos vestem fatos e usam gravata. As gajas também, mas nem todas. Há daquilo para mulher, para homem e, viva a igualdade de direitos, para todo o tipo de pessoas, conforme (ou independentemente d)a sua orientação sexual. Cinzento, azul escuro, castanhos vários, sei lá, a paleta não é muito alegre nem variada que estes gajos e gajas não são ninguém em particular. São os chamados "eurocratas" (por mim até podiam ser "eurorratas" que é basicamente a mesmíssima merda).

Não se percebe muito bem se por falta de ar puro (ou, pelo menos, ar não-forçado) se por não terem mais que fazer ou se, muito simplesmente, por serem verdadeiramente broncos que nem calhaus, os "eurorratas" (gosto desta palavra) lembram-se com frequência de propor e impor regras absurdas.

A paranóia com a designada "segurança alimentar" é inacreditável e consegue levar à loucura as mentes mais avisadas. Habituados a comer pizza e hamburguer, lasagna de pacote e leite hiperpasteurizado, adoradores do plasticozinho empacotante e da uniformidade mais absoluta, os "eurorratas" não têm mãos a medir. As regras de higiene impostas são tão estúpidas que nem consigo encontrar adjectivo que se lhes cole com justeza. Um dia destes acaba-se o queijo da Serra da Estrela ou os presuntos de Chaves. Vão-se as alheiras de Mirandela e até os pastéis de Belém passam a ter que ser ensacados antes de irem para a vitrine. Faz algum sentido? Quem pediu a estes retardados para nos virem proteger?

Entretanto e ao que parece a McDonald's não deverá ter problemas, nem a Pizza Hut, nem as multinacionais da comida merdosa, porque as regras parecem ser feitas a pensar na forma como esses gajos enchem o pessoal de merda até à raíz cabelos com comida do pior. Mas sabe tão bem!

Por cá a ASAE vai-se tornando uma espécie de papão (um papão é um gajo que é mais papista que o Papa) e fecha manjedouras umas atrás das outras e deita fora tudo o que for papinha e que não esteja devidamente embalado, etiquetado, pintado, corado, bem cortado e atado com fiozinho de plástico nº6, conforme a norma 886C/08 emanada no próximo dia 29 do corrente com efeitos retroactivos e coimas tabeladas de acordo com o ordenado mínimo de um inspector finlandês. Estes gajos já fedem.

Um dia destes vamos ter de ir a restaurantes clandestinos para podermos comer certos produtos que, não tarda muito, vão ser coisa ilegal. Vamos arriscar multas e, quem sabe, a prisão, para podermos saborear um bom queijo ou um bom enchido, degustado na cave da esquina com pistoleiros à porta prontos a abater o primeiro fiscal da ASAE que atravesse a rua.

Resumindo e concluindo, está na hora dos "eurorratas" começarem a saír dos buracos onde se escondem para pensarem o mundo. Está na hora de perceberem que a Europa não é aquela porcaria que eles imaginam e que os europeus não precisam de "eurorratas" que lhes digam o que podem e não podem comer. Isto já é demais.

Nota: não deixa de ser irónico que este post surja a seguir ao anterior...

sexta-feira, maio 23, 2008

Portugal...


Sente-se. É como o vento. A pobreza instala-se comodamente e nada parece capaz de a fazer levantar o cú do nosso país. Antes da revolução era extrema, visível, fazia parte da paisagem. Bairros de barracas, esgotos a céu aberto, putos ranhosos a correrem rua abaixo numa nuvem de poeira. 30 e tal anos depois conseguimos escondê-la mais ou menos. Alojámo-la em bairros sociais, vestimo-la com roupas de marca contrafeitas e até lhe conseguimos oferecer um telemóvel. Para disfarçar. E ela fica. Vai ficando. E cresce e tudo.
Confirma-se. Portugal é o país da União que maior fosso cava entre os mais ricos e os mais pobres. E parecemos conformados com essa vergonhosa condição. As classes dirigentes assobiam para o lado, dizem que não é bem assim, que é mais tipo talvez não. Os príncipes da economia explicam a coisa com gráficos coloridos e expressões impenetráveis. Ele é a conjuntura internacional, o preço dos combustíveis e o diabo a quatro. Tudo se explica e sonha-se com a retoma.
Mas a fomeca bate fundo nas costelas. E quem tem fome não quer saber da conjuntura nem da puta que a pariu. E é de fome que se fala quando se fala de pobreza. Não é só a exclusão do tecido consumista, não é só a falta de um computador pessoal na salinha de estar ou um comando MEO na palma da mão. É pão e sopa. É falta de tudo, até do essencial.
Isto está verdadeiramente mau. Mau de mais para ser verdade a suportar durante muito tempo. Há por aí uma guerra surda. Já não será uma simples luta, quando estalar vai ser uma guerra. Mas o estado policial tem meios para se defender e manter os pobres do lado de lá da cerca. Um dia destes vai ser complicado olhar para o espelho. O que ainda é mais lixado é que não se vislumbra processo nem vontade de dar uma volta a esta merda.
Ai Portugal, Portugal...

quarta-feira, maio 21, 2008

Esta fechou, Sr. Ministério


A escola Anselmo de Andrade esteve fechada todo o dia. Terá sido uma das únicas em todo o país, a fazer fé nos dados fornecidos pelos serviços do Ministério da Educação. O fecho dos portões ficou a dever-se a uma greve que, para o mesmo Ministério, foi "inexplicável". A vida tem destas coisas, mistérios!

Mais uma vez Sindicatos e Ministério parecem viver em universos paralelos e falam linguagens tão diferentes que ninguém os entende. O mesmo facto merece leituras diametralmente opostas e a comunicação social não parece ter capacidade (ou será falta de interesse?) para clarificar a questão.

Fica a Greve, real e explicada para quem for capaz de tentar compreender as motivações dos grevistas. A minha Escola fechou e, ao que vejo, muitas outras por esse país fora. A questão prende-se com a precaridade de emprego dos designados Auxiliares de Acção Educativa. Cada vez são menos e a sua raridade começa a provocar sérios problemas de funcionamento no quotidiano das escolas. Com o despedimento ou aposentação de alguns milhares a adivinhar-se para o final deste ano lectivo, o início do próximo promete confusão. Mas depois se verá. Com este Ministério é sempre assim, os problemas resolvem-se em cima do joelho ou então ignoram-se, mais pura e muito mais simplesmente.

A ver vamos, como diz o cego.

segunda-feira, maio 19, 2008

Superhipersensibilidade

Anda por aí uma discussão meio velada desde que Bob Geldof afirmou, numa conferência promovida pelo BES sobre desenvolvimento sustentável, que "Angola é um país gerido por criminosos". As reacções da imprensa angolana não se fizeram esperar e, entre insultos vários e conselhos explícitos, mostraram que os interesses comerciais e económicos podem fazer da liberdade de expressão uma mera questão de pormenor.

É claro que os visados pelas palavras de Geldof estão no direito de se sentirem insultados. É também evidente que o músico e activista irlandês ultrapassou as habituais fronteiras de contenção verbal que são normalmente exigidas pela diplomacia do discurso público. Resta saber até que ponto há exagero nos termos utilizados por um e outro dos lados desta polémica.

Geldof será um bêbado? Talvez se enfrasque de vez em quando, decerto que o faz. Um ponto a favor dos anónimos articulistas do Jornal de Angola. José Eduardo dos Santos tem as mãos limpas de sangue mal vertido? O que dizer dos assassinatos sistemáticos de membros da UNITA? Marca Bob Geldof. 1-1.

E poderíamos ir por aí fora, num jogo de ataque e contra-ataque, num embate com resultado previsivelmente favorável ao ex-vocalista dos Boomtown Rats. O que me faz referir este episódio no 100 Cabeças é mais o que se não disse ou tenta ignorar. Nas reacções angolanas há uma imensidão de recados mais ou menos cifrados que aconselham juizinho a certos actores relevantes da economia portuguesa. Conselhos de juizinho, boca calada e até alguma acentuada curvatura na coluna vertebral sempre que se refiram ao Presidente angolano e seus comparsas não merecem troco por parte dos visados cá do burgo.

Para compreendermos um pouco melhor o grau de hipersensibilidade que afecta os poderosos angolanos e seus mais indefectíveis guardas da revolução lancemos um olhar sobre a polémica provocada por José Eduardo Agualusa que afirmou que Agostinho Neto foi um poeta medíocre. Há uma espécie de estado de intocabilidade para as figuras cimeiras da mitologia angolana contemporânea e quem se atreve a pô-las em causa, seja com bons ou maus modos, está debaixo do fogo cerrado dos defensores da pureza absoluta dos líderes angolanos. Disparam insultos, insinuações, parvoíces várias e maus-fígados.

É no entanto de notar um pormenor interessante; no meio de todo o palavreado de defesa da moral e dos bons costumes raramente se encontra um desmentido ou um argumento que contradiga com clareza as acusações ou meras observações feitas pelos supostos inimigos da bondade de Eduardo dos Santos, respectiva família, demais amigos dirigentes e restantes divindades revolucionárias angolanas. Há ameaças expressas ou veladas, sugestões de vícios horrendos que afectam os "outros" (depreende-se que os defendidos sejam puros como água da chuva) mas os factos invocados não são rebatidos nem desmentidos. Há como que uma aceitação da corrupção evidente dos poderosos e dos seus actos públicos e notórios que devem, muito simplesmente ser omitidos e ignorados por todos tal como o são pela imprensa angolana. A mensagem é clara: não se morde a mão que nos dá que comer (mesmo que tenhamos dentes bem afiados).

Em Angola parece existir um estado surrealista, governado por personagens literárias que retratam alguns dos instintos mais impróprios do ser humano. Infelizmente para muitos essa aparente ficção é dura realidade. Para outros é uma espécie de mentira que importa proteger pois apesar de dura é também doce.

Questões de perspectiva?

domingo, maio 18, 2008

Fazer o que tem de ser feito


Todos os dias há alguém a choramingar que este país não tem saída, que somos uma corja de ingratos, incapazes de fazer funcionar uma sociedade de consumo baseada na livre concorrência. Todos os dias somos confrontados com a inoperância das nossas instituições, com juízes sem juízo e fiscais que actuam em alcateia tentando provar ao mundo que as leis em Portugal são para cumprir e que quem as não cumpre leva porrada com medida certa e bitola cega. Não há cá pão pra malucos!
Não passa um dia sem que a Assembleia Legistativa legisle mais um pouco, na sua via para o Nirvana social, e nos brinde com mais uma ou outra pérola legal em benefício do colectivo e para gáudio de certos particulares.
Não passa um dia sem que alguns de nós morram porque tiveram de esperar numa urgência hospitalar mais do que permitia a força humana, enquanto outros são recebidos por enfermeiras boazudas num átrio com música ambiente para desencravarem a merda da unha do dedo mindinho da pata esquerda. Já mancava.
Não passa um minuto sem que sejamos confrontados com provas inequívocas de Portugal é uma tremenda ficção mas, mesmo assim e apesar de tudo, uma ficção em que até nem é mau de todo viver... desde que estejamos do lado certo da barricada. Do lado de cá do muro que divide os muito pobres dos pobres mais-ou-menos-ricos.
Falta fazer aquilo que tem de ser feito. Falta conseguir despoletar o milagre. Se a Nossa Senhora de Fátima tiver que regressar que regresse. Que venha às oito da noite que é o horário em que as coisas públicas acontecem. Que venha e nos una uns aos outros, que nos ponha a todos a trabalhar no mesmo projecto. Que nos convença por maravilhosas artes divinas que a vida tem um sentido. Que explique à Judite de Sousa ou ao Rodrigo Guedes de Carvalho (não acredito que a Virgem aguentasse uma entrevista com a Manuela Moura Guedes) que o sentido da vida é construir um mundo melhor para os que hão-de vir a seguir a nós. E que assim, o mundo será um lugar cada vez mais aprazível em direcção ao Nirvana social. A Virgem que explique que o mundo não é para consumir mas sim para melhorar e construir.
Pronto, está feito. Acabei a minha oração dominical.
Amen.

sábado, maio 17, 2008

Rauschenberg morreu, Lucien Freud nem por isso


Aqui há dias morreu Robert Rauschenberg (recordêmo-lo jovem e a preto e branco). Com ele foi-se uma boa parte da energia dinâmica que ainda restava a uma certa maneira de produzir objectos com possibilidades de virem a ser encarados como sendo artísticos. Não há muito tempo visitei com os meus alunos alunos a exposição deste matador de toiros académicos que esteve patente em Serralves. Foi uma tarde de exclamações e perplexidades. Mesmo em 2008 os trabalhos do velho "Rauchas" fazem mossa nos nossos preconceitos mais arreigados. Um gajo com qualidades artísticas invulgares e um humor corrosivo. Lá vai ele em direcção ao Grande-Sabe-se-Lá-O-Quê.
Cá na Terra mantém-se firme o inigualável Lucien Freud. Foi também notícia mas porque se vendeu uma obra sua (na imagem acima) por um daqueles preços astronómicos cujo número não faz sequer sentido. Bem vistas as coisas, Freud tem já 86 anos. É um daqueles tipos que têm mais que fazer do que morrer mas os investidores em coisas pintadas já desatam o cordame da bolsa com o à vontade proporcionado pela miragem do negócio chorudo. Um dia destes vai fazer companhia ao "Rauchas" e o balúrdio que se pagou pela "Big Sue" multiplica-se mais do que uma vez. Simples e eficaz.
Rauschenberg e Freud, diferentes como só podem ser diferentes dois criadores em campos diversos. As obras de um e outro estão aí, na História da arte, dois mitos capazes de saborearem o ser mito durante a vida que viveram. Já vou escrevendo o verbo viver no passado pois o neto do mais famoso dos psis já tem, pelo menos, um pé para a cova. Quando ele morrer falecer-nos-à um soberbo criador de imagens. E são cada vewz mais poucos.

quinta-feira, maio 15, 2008

Desculpas


O Bartoon de hoje no suplemento P2 do Público lança um olhar sobre a (quase) patética questão do "fumício" ministerial no já tristemente célebre vôo em direcção a Caracas. O 1º ministro pediu desculpas e até tomou a decisão de deixar de fumar. Parece pretender colocar uma pedra sobre o assunto ao assumir esta espécie de auto-flagelação como forma de expiar o seu pecado cívico.
Luís Afonso é um cartoonista genial. A sua capacidade de acompanhar os acontecimentos do nosso quotidiano com leituras extremamente inteligentes e estimulantes é assinalável.
A questão que eu gostaria de colocar é a seguinte: basta um pedido de desculpas para que possamos passar adiante de tão ridículo acontecimento?
Quer-me parecer que, antes de passarmos adiante, deveremos reflectir um pouco mais sobre a natureza e o espírito da coisa. Por um lado, Sócrates e os seus "muchachos" foram (e são) responsáveis por uma lei antitabagista arrasadora e fundamentalista e respectiva aplicação.
Começa a constituir motivo de lenda a forma desapaixonada e descabelada como a ASAE actua em todas as situações de repressão perante o desrespeito da Lei. Funciona quase como uma seita, uma espécie de Ku Klux Klan, que nos protege de nós próprios e da nossa tendência para caírmos que nem patinhos nas terríveis malhas que o vício tece. O guru máximo da coisa é o próprio Sócrates, agente implacável das reformas necessárias para colocar Portugal nos eixos, conferindo-lhe alguma credibilidade num contexto de "limpeza" eco-democrática. O próprio 1º ministro faz jogging para as câmaras de TV, mostrando saúde e, pelos vistos, fuma umas cigarradas lá atrás, nos bastidores. Está mal.
O problema de se ter tornado público o episódio do fumo aéreo da comitiva ministerial não é tanto o acto em si mas sim o que ele tem de simbólico. Então o guru da sanidade cívica desrespeita uma regra de ouro da coisa? É como aqueles puritanos fanáticos religiosos que são apanhados a dar umas quecas descontroladas em prostitutas de luxo ou entregando-se a devaneios homossexuais que publicamente repudiam.
"Faz o que eu digo, não faças o que eu faço". Sócrates poderia assumir esta postura mas não. Ele pretende ser perfeito. Pretende ser Engenheiro e tudo. Sócrates, ao fumar naquele fatídico vôo intercontnental, mostrou que não passa de um pretensioso. Aquela imagem de rigor implacável que tão meticulosamente alimenta é, afinal, de uma fragilidade vítrea. Se cede tão facilmente ao vício de fumar que desrespeita alegremente uma lei por ele imposta com soberba e paixão exagerada, como será com questões de outra natureza que exijam concentração e seriedade? Um homem de Estado como o que Sócrates pretende ser, está muito acima destas merdices. É muito superior a isto. Mas, afinal, Sócrates mostra que não é aquilo que pretende ser. É um fracote como eu que continuo de cigarro ao canto da boca e procuro a todo o momento desculpas para ir contra as minhas próprias convicções desde que isso me proporcione prazer imediato ou atenue uma qualquer sensação de desconforto.
Não, meu caro, esse seu pedido de desculpas não basta. Pode ter a certeza que vai ter de pagar por isso. Falta decidir ou desvendar essa forma de pagamento.

quarta-feira, maio 14, 2008

Se fosse haxixe era pior! Seria?


O episódio da fumaça em viagem sobre o Oceano Atlântico mostra como a lei é encarada por aqueles que nos governam. Para eles, a lei é coisa que se aplica aos outros. Quantas vezes vemos carros da polícia estacionados em segunda fila ou professores a atenderem telemóveis no meio de reuniões sem pestanejarem sequer? Mas isto não é defeito, é feitio. Dizem que até os romanos se arrepiavam com os nossos antepassados lusitanos, uma malta que nem se governava nem se deixava governar, segundo consta.

A dificuldade de aplicação das leis é um fado português. A nossa Assembleia legisla que desunha. Legisla sobre tudo e sobre nada. Piercings, fumo, galheteiros, nada escapa à apertada malha da legislação nacional. Mas na prática fica tudo em águas de bacalhau e ninguém cumpre e só é castigada pelo incumprimento uma mão-cheia de gajos azarados que têm o galo de serem apanhados por um agente da lei mal humorado.

O caso, na verdade, nem merece comentário. Mas sempre vos digo, amigos meus, se fosse haxixe que o engenheiro e o Pinho estivessem a enchaminar lá no alto da barriga do avião era pior. Ou talvez não fosse. Se fumassem uma ganzita de vez em quando talvez não andassem por aí a semear tantas leis tão sisudas e disparatadas. Talvez ...

segunda-feira, maio 12, 2008

Este gajo (já) não tem graça nenhuma

Herman José já me fez rir a bom rir. Muitas vezes. Há muito tempo atrás. Desde que se convenceu que tinha outras qualidades para lá da representação humorística começou a decair e a definhar a olhos vistos. Os seus talk shows eram cada vez mais deprimentes, a sua incapacidade para perceber a fronteira entre a inteligência e a indigência intelectual cresceu, cresceu, cresceu e, finalmente, rebentou. Herman transformou-se num palhaço mau e sem graça. Um chato da pior espécie. Da espécie de chatos que pensam que os outros todos é que o são. Aquela espécie de chato que se considera muito bom, grande, incomparável.

Caído no esquecimento, ultrapassado em popularidade por todos os humoristas que fazem humor, Herman é hoje um tipo ressabiado e com maus fígados, com sorriso forçado e riso de plástico. Um dia destes vai regressar como apresentador de um concurso televisivo, mas isso não disfarça a sua falta de capacidade para compreender que a fazer o que faz agora não presta. Herman não perde uma oportunidade para mostrar a sua imbecilidade infinita. Esta noite, na gala dos Globos de Ouro na SIC, foi chamado ao palco para entregar o prémio ao melhor intérprete musical masculino. Decerto porque o concurso que vai apresentar tem qualquer coisa a ver com música mas ele vai transformá-lo numa imensa celebração da sua miséria intelectual, como de costume. E foi isso que Herman fez de novo, esta noite. Jorge Palma receberia o Globo de Ouro mas teve o azar de ser o palhacito a passar-lho para as mãos.

O que se passou no palco foi miserável. Herman José não sabe deixar-se ficar no seu lugar e está em permanente over-acting. Jorge Palma bem tentou disfarçar a porcaria que o suposto humorista provocou. Mas era impossível. Herman quis pegar-lhe ás cavalitas mas fê-lo cair sobre os cotovelos. Palma tentou manter a compostura fazendo os agradecimentos deitado no palco mas Herman estava imparável na sua boçalidade e, incapaz de conter a sua ânsia de ter alguma graça, por muito pouca que fosse, agarrou o cantor pelas pernas e tentou puxá-lo para fora de cena. Não parou um segundo de fazer coisas parvas... inconcebivel, um espectáculo deprimente, como se fosse uma criança habituada a ser o centro das atenções mas que cresceu e se tornou um adolescente com borbulhas a pingar pus, Herman foi o mais imbecil dos imbecis que já vi fingirem ter graça.

Pacman, dos The Weasel, veio ao palco alguns minutos depois para receber um Globo e sentiu necessidade de afirmar a grandeza de Jorge Palma no panorama musical em contraponto à pequenez do ex-humorista. Só lamento que Jorge Palma se tenha visto envolvido nesta exibição lamacenta de falta de charme e ausência de qualidade. Quando vejo Herman a ser ele próprio, compreendo que o que me fazia rir não era ele. Era outra coisa que ele já não tem: gajos que lhe escrevam textos capazes de lhe disfarçar a falta de graça.

domingo, maio 11, 2008

A verdade da mentira*



O reitor do santuário de Fátima assinou um artigo no jornal lá do sítio, disparando em todas as direcções acusações de mentira, pretendendo atingir com elas o maior número de mentirosos possível. Saiu o artigo no Voz de Fátima, a notícia do artigo no Público online, o mundo roda pacífico como é costume.

O senhor Reitor afirma: "Mente-se nas grandes instituições, mente-se entre as pessoas responsáveis pela sua liderança, mente-se nas nações, nos Governos, nos sindicatos, nas empresas, nos partidos, em toda a espécie de associações (e não só no futebol), mente-se até nas instituições criadas para educar e defender as crianças” ao que parece só não se mente no seio da Igreja a que ele pertence.

Estamos a dois dias da comemoração de mais um aniversário da aparição da Nossa Senhora aos três porquinhos. Os peregrinos já se dirigem para Fátima aos magotes. Os comerciantes limpam o pó às santinhas mais carunchosas e os vendedores de sonhos impossíveis treinam mais uma reza infalível para curar cancros, furúnculos ou mais simplesmente para curar a fadiga que é, para muitos, o simples facto de existirem.

Já nem sei há quantos anos dizem que se deu a coisa. Vai para uma carrada deles. Todos os anos a igreja católica reafirma a fé nas aparições e cita-as como exemplos de esperança para a humanidade em busca de um lugar de redenção. Parte-se do princípio, é claro, de que as aparições foram um facto, que quando se fala delas, quando se afirma que elas foram verdadeiras, não se está a mentir.

Aceita-se o sacrifício dos peregrinos que se arrastam pelo chão pagando promessas à Virgem sem os tentar demover. Uma espécie de banquete onde o sofrimento é o prato principal e o misticismo serve de molho. Tem crendice para a sobremesa. Tudo isto em nome da verdade. Tudo isto com o fito de aguilhoar a mentira e o cepticismo daqueles que não acreditam na bondade da mensagem mariana e pensam, como eu, que o verdadeiro milagre de Fátima reside na transmutação da economia em fé cega (e vice-versa).

*A Verdade da Mentira, filme de James Cameron com Arnie Schwazzie e a Jamie Lee Boobies a protagonizarem a função.

Extra Terrestre



Hoje (já passa da meia-noite e por isso parece que hoje já é amanhã) fui ver o concerto de Diamanda Galás na Aula Magna, em Lisboa. Absolutamente, simplesmente, completamente. Uma coisa digna de ser vista (a sala estava aí por menos de metade). A mulher é indescritível, uma diva extra terrestre. Sozinha sobre o palco com um piano de cauda que toca magistralmente, Diamanda Galás arrasou com a cumplicidade discreta de um técnico de som capaz de levar a voz dela até ao Paraíso, para incómodo de Deus. Lindo de tão estranho. Seguramente um dos melhores (e mais perfeitos) acontecimentos que já vi sobre um palco. Estou rendido.

quinta-feira, maio 08, 2008

segunda-feira, maio 05, 2008

A grande ilusão


Afinal a Democracia não puxa tanto pelos cidadãos quanto devia. Pelo menos a nossa. Parece até que nos empurra para o sofá, que nos quer ali, de boca aberta, a olhar para a televisão, a ver programas meio imbecis. Telejornais infindáveis com intervalo e publicidade que se batem com as telenovelas em termos de audiências. Estranho? Não, nem por isso. Os telejornais têm alinhamentos que fazem deles uma espécie de super-novelas, com o picantezinho da realidade a excitar o pessoal. É a velhinha que foi mordida por um cão perigoso, logo após as últimas das eleições para a liderança do PSD. Segue-se a crise alimentar. E o pessoalzinho vai jantando enquanto assiste. O “caso Maddie”. Pão e circo. Depois as novelas, propriamente ditas, as líderes de audiências só vêem o seu reinado abalado de cada vez que há um jogo de futebol com o Benfica ou com a selecção nacional. Coisas grandes e deveras importantes.
A Democracia precisa de cidadãos intervenientes e interessados na gestão da coisa pública. Se a Democracia proporcionar aos cidadãos instrumentos adequados a essa participação talvez eles avancem. Talvez, não é certo. Porque se a Democracia não puxa por estes cidadãos que nós somos, também nós não puxamos lá grande coisa por ela. Somos mais de ficar sentados no sofá, boca aberta, telejornal, Benfica, novela, do que de sair para assistirmos à Assembleia Municipal. Chiça, vade retro!!!
A Democracia é coisa para os políticos. A esses pagam-lhes para fazerem funcionar a coisa. A nós não nos dão nada. Olhemos para Santana Lopes. Esse sim, é um animal político, que conhece os atalhos todos à selva e não tem medo de por lá se perder. Agora nós, simples cidadãos anónimos, se metemos um pezinho numa Distrital em tempo de campanha, zás, somos logo papados até à cabeça! Mais vale ficar pelo sofá, Benfica, novela, telejornal… coisas que se compreendem e são para nós. A política não, que ninguém nos paga para isso.
Agora começamos a olhar para a nossa querida alternância democrática com a sensação de que ela pode vir a ficar coxa do PSD. Os socialistas de Sócrates esfregam as mãos de contentes. É a Democracia a falhar? Não me parece. É mais a Democracia a definhar. É como quando abriram os canais privados de TV. Prometiam variedade e competição na diversidade da oferta. Novos horizontes se abriam para a nossa eternamente jovem Democracia. E o que aconteceu? RTP, SIC, TVI: telejornais, futebol e novelas. Afinal a promessa não foi cumprida. Por razões óbvias todos os canais oferecem os mesmíssimos produtos. Tal como os diferentes partidos do chamado “arco do poder” oferecem os mesmíssimos tipos de candidatos para os lugares de governação.
Querem lá ver que andamos a ser enganados! Ou preferimos assim? O melhor é ir sentar-me ali no sofá e pegar no comando da televisão. Vou ligar-me ao mundo, olhar para a grande ilusão. Telejornal, futebol e novela. Democracia, enfim.

sábado, maio 03, 2008

Algo banal

Este filme é de uma banalidade tão banal que nem chega a poder considerar-se como tal. Pronto, está bem, a frase anterior é um bocado parva, até mesmo um pouco pretensiosa. Enfim, quis dar uma entrada a este post que estivesse de acordo com o tom geral deste "88 Minutos", um filme medíocre.
Há um actor em cena, claro que estou a falar de Al Pacino, e pouco mais. A trama pretende ser inteligente e não passa de ser entediante. A realização cumpre serviços mínimos, como se tivesse estado em greve durante a rodagem e as personagens não chegam a ganhar consistência. Enfim, tempo perdido (um pouco mais do que os 88 minutos do título). Como disse salva-se apenas o cabeça de cartaz que parece caído num planeta errado para seres da sua espécie.
A não ver. Ou talvez seja de ir ver, não sei. Que se lixe, é um filme bem merdoso.

sexta-feira, maio 02, 2008

Rebentamento

Há um conceito que me custa perceber. Mas custa mesmo muito. É a ideia de que uma economia deve crescer todos os anos, crescer sempre. As economias nacionais, locais, mundiais e todas as outras que tais. Crescem, crescem, crescem... até onde? Até quando podem continuar a crescer?

Nas empresas a questão é semelhante. Se um ano a empresa não cresce mais que no anterior, socorro, tá-se mal! É preciso despedir trabalhadores, deslocalizar a coisa para um território onde a miséria ainda seja um modo de vida aceitável. E lá vai. Lá vai a empresa embora levando consigo os postos de trabalho e pedaços significativos da vida de muita gente que fica a salivar defronte às montras do Centro Comercial.

E a economia sempre a crescer. Um bocadinho aqui, um bocadinho muito mais ali, cresce, cresce, cresce. O mundo não estica. Os recursos naturais também não. Esses, parece-me que diminuem à medida que a economia cresce. Mas cresce até onde? Qual é o limite?

Será o rebentamento?

Para ilustrar o post anterior



Meredith bem mais jovem do que aquela que eu vi (e ouvi) há uns dias em Lisboa. Igualmente estonteante.Igualmente brilhante.



Cave igualzinho ao que vi (e ouvi) há uns dias em Lisboa. Menos amorfo mas nem por isso empolgante. Ou será apenas impressão minha?

quarta-feira, abril 30, 2008

Duas coisas completamente diferentes

É assim mesmo, após uma ausência longa, o 100 Cabeças regressa para dar notícia de uma perplexidade. Recentemente assisti a dois concertos (em cima imagem dos bilhetes que será analisada lá mais para o fim do post).

Primeiro o de Nick Cave, no Coliseu de Lisboa. As expectativas num concerto deste matreco são sempre elevadas. Antes deste já tinha assistido a vários espectáculos do velho Nick mais os seus Bad Seeds. As memórias eram boas. Intensidade, dinamismo, rock'n'roll. Esperava mais do mesmo. Só isso.

A sala estava a abarrotar de um público rendido à partida, entusiasta, como de costume. Nick Cave tem em Portugal uma legião de adeptos fiéis e conhecedores nos quais me incluo. Mais ou menos. Mas o que eu vi e ouvi não foi aquilo que esperava. Vi um Nick Cave algo enfadado (talvez seja a idade a pregar partidas, a dele e aminha, não sei bem) e ouvi uma banda desacertada, amorfa, a cumprir a função sem ponta de entusiasmo. Uma espécie de coisa inevitável. Nós compramos bilhete, eles tocam e pronto. Está feito. É negócio, como dizia Frank Zappa no título de um dos seus numerosos álbuns de originais.

Saí igualzinho ao que tinha entrado. Nem sequer posso dizer que fiquei desiludido.


5 dias mais tarde fui ao Grande Auditório do CCB para ver e ouvir Meredith Monk uma senhora com 65 anos que faz música muito estranha. As minhas expectativas eram pouco elevadas. Esperava passar um bom bocado mas imaginava um bocejo aqui, uma pálpebra mais pesadota ali, enfim, fui mais pela companhia, tempo e espaço, menos pela hipótese musical.

Mas, surpresa das surpresas, a coisa funcionou em pleno. O concerto foi estranhamente agradável. Pela diferença, pelo inesperado, pelo resultado estonteante que Meredith Monk consegue obter aplicando processos criativos de uma simplicidade desarmante. Beleza pura como só a beleza pode ser.

Em tempos de empacotamento global com rótulo digital, os bilhetes dos dois concertos (imagem acima) são iguais como duas folhas da mesma árvore. Os espectáculos com eles relacionados não podiam ser mais diversos. Aqui há uns anos, os bilhetes dos concertos eram "personalizados" ao ponto de serem guardados com algum prazer de coleccionador (ainda tenho alguns por aí esquecidos). Os bilhetes diziam qualquer do artista e da sua performance. Hoje sai tudo da mesma maquineta. Sinal dos tempos.

Outra coisa que me ficou destes dois bilhetes tão parecidos foi perceber (mais uma vez, andava meio esquecido) como o preconceito em questões relacionadas com a arte pode deixar-nos longe de objectos excelentes e levar-nos para perto de outros bem mais modestos na sua essência mas cuja aparência nos atrai como borboletas para a luz de uma vela.
Perigoso!

domingo, abril 20, 2008

Uma sociedade do consumo


Aqui em casa começamos a olhar a nossa sociedade segundo um novo paradigma: a Ana "descobriu" que o conceito de cidadania está a ser substituído pelo conceito de "consumismo". Explico melhor, cada vez menos olhamos o nosso lugar no mundo que nos rodeia enquanto cidadãos para começarmos a pensar preferencialmente em nós próprios na qualidade de consumidores.

Isto faz com a "lista" de direitos e deveres que nos preocupam e caracterizam seja progressivamente alterada.

Como é fácil de entender, essa "lista" vai-se desumanizando, por assim dizer, para se transformar cada vez mais numa lista de supermercado. O direito à liberdade individual vai sendo substituído pelo direito ao consumo, as pessoas preocupam-se mais com o que podem meter nos carrinhos de compras do que com a possibilidade de debater e intervir na construção da coisa social.

É assim que o capitalismo selvagem triunfa e se insinua nas mentes do pessoalzinho. O direito ao consumo apaga em nós qualquer instinto revolucionário e tende a suavizar a nossa capacidade reivindicativa relativamente a aspectos sociais importantes e prementes.

Será assim? Fica a questão. Reflictamos amigos, reflictamos...

sexta-feira, abril 18, 2008

A propósito dessa coisa que é a língua portuguesa


"Silvares, e para nós aqui, vocês falarem que nossa lingua é "brasileiro" ou que palavras ou expressões são em brasileiro, nos soa muito curioso, pois temos para nós que NOSSA língua é o Português! ~C;-))"
Este comentário do Eduardo Lunardelli a um post aqui mais abaixo (Good Feelings) fez-me acordar. Realmente não me lembro de alguma vez me ter referido à língua falada no Brasil como sendo Português. Brasileiro ou, na melhor das hipóteses, Português do Brasil, são formas de referir a língua falada naquele país, o que mostra uma certa distância que não é apenas marcada pelo Oceano Atlântico.
Como sou professor e gosto de perceber o que vai na alma dos meus alunos em relação ao mundo que nos rodeia, lancei, assim como quem não quer a coisa, a questão do acordo ortográfico no início de uma aula. Qual não foi o meu espanto ao perceber que o "problema", para os que resolveram dar a sua opinião, se prende com a propriedade da língua. Ou seja, argumentava uma rapariga de 17 anos que não podia aceitar modificações na ortografia do português que fossem impostas na aplicação do acordo pela simples razão de que quem fala Português somos nós, em Portugal, e não os brasileiros, lá do outro lado do mar oceano. Quando muito aceitaria uma alteração que implicasse uma aproximação que não mudasse o que quer que fosse na ortografia praticada cá deste lado. Os brasileiros que escrevam as consoantes mudas, tentem perceber a acentuação praticada pelo pessoal e mais nada! Chiça, fiquei espantado com tanta suave agressividade, a rapariga é verdadeiramente ciosa da "sua" propriedade linguística.
Um aqui, outro ali, as opiniões não divergiam muito. Estranho, pensava que houvesse maior abertura de espírito nesta questão.
Outro pormenor que incomoda é que, quando se fala neste acordo ortográfico, a questão é colocada entre Portugal e o Brasil, esquecendo frequentemente que o mundo lusófono é muito mais vasto e tem aquelas bandeirinhas todas que rodam aí em cima e que essas bandeirinhas representam uns quantos milhões mais de falantes em todos os cantos do planeta. Que lêem, escrevem e falam português sem pensarem muito na propriedade das palavras que lhes saem da boca.
"A minha pátria é a língua portuguesa". Com ou sem acordo ortográfico.

terça-feira, abril 15, 2008

Mais umas coisinhas


A partir de agora voltam as letrinhas para comentar. Ultimamente são demasiadas as vezes que deixam aqui aquelas armadilhas do "see here" e o pessoal vai ver e ganha um vírus mais para somar aos que já lhe deixam o computador meio maluco.

Quanto ao assunto do post anterior, o célebre Acordo Ortográfico, quero ainda dizer que os internautas brasileiros são do melhor que a gente tem. Não são só os seus posts, é também a sua proverbial abertura para a conversa sadia e aberta que muito me agrada e me leva a escrever em "brasileiro" muitas vezes. E são os seus blogues, muitos e variados, que tanta viagem me têem proporcionado e muitos momentos de prazer me oferecem.

Aqui não há acordo, não há nada, há uma comunidade que em português se compreende e, estou convicto, não quer saber de acordo para nada porque nem faz sentido nem vale a pena estar a discutir. A menos que queiramos ter o prazerzinho de uma boa discussãozinha. Só isso e nada mais. Faz bem ao espírito discutir.

Ainda hoje uma aluna minha do 12º ano resolveu irbuscar à biblioteca pública uma edição de uma obra de Freud, a propósito de um tema debatidona aula e era... em brasileiro. Perfeito, nada a dizer a não ser que um bom livro não tem barreira linguística.

A questão do Acordo é uma falsa questão.

Acordem!


Caramba, a coisa anda assim a dar para o confuso. Nos últimos dias muitas têm sido as vozes levantadas contra ou a favor da entrada em cena do acordo ortográfico para a língua portuguesa. Invasão, clamam uns, inevitabilidade, rematam outros. E, por estas bandas, ninguém parece capaz de chegar a uma conclusão definitiva.
Pessoalmente julgo que sou a favor. Julgo? Não tenho a certeza? Não, sinceramente não tenho. Nem sei se me interessa construir uma opinião sobre o assunto.
Uma coisa eu sei. Decretar ortografia não chega para a unificar de facto. Os erros ou desvios ou o que queiramos chamar-lhes, são de variada ordem e têm o peso que têm. Na maior parte dos casos são inofensivos, servem até para nos fazer rir ou sorrir, conforme as personagens, as situações e o grau da enormidade implicada. Mas a língua é uma coisa viva e não depende da ortografia nem um bocadinho. A ortografia e a escrita são forma e veículo da palavra que é muito mais utilizada na sua forma sonora que na gráfica. E eu gosto de escrever. E escrevo com acentos e consoantes mudas, como me ensinou a minha mãe. E, dê lá por onde der, assine-se ou não acordo, não estou na disposição de mudar a minha ortografia. Ficarei fora-de-moda ou fora-da-lei, qualquer coisa algures por aí. Perante este caso, na verdade, não estou muito preocupado (vai na volta nem sequer quero saber) o que vier estará bem. Porque, pessoalmente, não tenciono mudar nem deitar fora os livros que povoam as minhas prateleiras.

segunda-feira, abril 14, 2008

Good Feelings

Nunca é Tarde Demais (The Bucket List, no original) é mais um filme com a assinatura de Rob Reiner. Consultando a sua filmografia decerto o leitor encontrará um ou mais filmes que já tenha visto realizados por ele. Recentemente tinha visto em DVD Misery, com a família, adaptação cinematográfica de uma obra de Stephen King pela mão de Reiner. Mas tenho uma memória muito forte de Conta Comigo (Stand by Me) filme que vi repetidamente pelas mais diversas razões e mais uns quantos que não me deixaram marcas tão nítidas.
Enfim, tenho a sensação que Reiner é um cineasta que gosta de tratar temas relacionados com os sentimentos, de preferência temas em que os bons sentimentos acabem por triunfar como é o caso deste Bucket List que põe meia sala de cinema a fungar e a choramingar com a maior das eficácias e o peitinho a bater meio a descompasso.
Morgan Freeman e Jack Nicholson formam uma parelha que a sabe toda! Contracenam nas calmas, fazendo de cada plano, de cada diálogo, de cada minutinho de filme, um acontecimento a seguir ao outro, com toda a naturalidade, sem esforço aparente.
Pode-se não simpatizar com a forma como Reiner entra por nós dentro com cenas tão melosas e tão evidentemente engraçadas e ternurentas. Por vezes fica a sensação de que está a brincar com os nossos sentimentos, formatando-os pintados com cores primárias de forma demasiado fácil e simplista. Mas a coisa fica-lhe bem, Reiner faz aquilo com uma certa graça Pop, o amor e a amizade, a morte inevitável, acabam por ficar ao alcance de toda a gente, com facilidade adocicada e não há que ter vergonha. Porque sabe bem.

sábado, abril 12, 2008

Viva Ernst


Capa da edição portuguesa de A Mulher 100 Cabeças e duas ilustrações.
Max Ernst é grande.
A propósito sugiro um salto ao Blogue O Século Prodigioso, a Arte no Século XX.



sexta-feira, abril 11, 2008

Para acabar de vez com uma treta


Uma mentira muitas vezes repetida começa a parecer-se cada vez mais com a verdade que não é.

O caso do cãozinho "assassinado" por um artista desumano é um exemplo paradoxal de desinformação e empolamento. As pessoas, boazinhas por natureza, perante um relato parcial de um acontecimento possível, deixam-se levar na onda e acabam a fazer um papel que decerto não estavam interessadas em desempenhar.

Esta história tem feito correr muito e-mail e abaixo-assinados, fruto de um impulso irracional que nos assalta quando somos confrontados com os limites da nossa prórpia bondade. A maioria pretende afirmar a sua humanidade que se reflecte no amor pelo próximo e, prova suprema, no amor pelos animais. Esquecendo que os comemos assados, cozidos, estufados, etc. e tal, depois de mortos no matadouro e devidamente retalhados, muitos de nós bradam aos céus sem hesitar sempre que lhes (nos) cheira a injustiça animal.

É um fenómeno intrigante que não pretendo aqui explorar. Quero apenas deixar mais uma entrada para um local na NET onde a história é, finalmente, muito bem contada e devidamente explicada.

Convido o leitor a consultar esta Onda Punk e, por uma vez que seja, deixar-se influenciar por uma notícia (aparentemente) bem fundamentada e apresentada de forma descomprometida. Um trabalho excelente a todos os níveis, uma pequena lição de clarividência.


Mais uma vez foi através do Bitaites que lá cheguei. O "anónimo" que comentou um post aí mais para trás, se estiver a ler estas linhas, tenha um pouco de coragem e, pelo menos defronte ao espelho, assuma a sua... falta de rigor. Fiquemos por aqui.

segunda-feira, abril 07, 2008

Ser Humano

A chama que arde a arder

As peripécias por que tem passado a chama olímpica na sua caminhada em direcção a Pequim deixam adivinhar uns jogos bem estranhos. Ainda a procissão vai no adro e já há mais confusão que em todas as anteriores viagens juntas. Em Londres foi o que se viu, com os fleumáticos bófias lá do sítio a passarem-se como gente grande e a empurrarem o pessoalzinho com braços de atleta furibundo. Em Paris, segundo os últimos relatos, a chama teve de ser apagada para poder entrar num autocarro! A chama teve de ser apagada!? Cruzes, credo!!!
Sendo a chama um símbolo do olimpismo com toda uma carga simbólica associada à fraternidade entre os povos unidos no espírito imaculado do desportivismo cavalheiresco, tal como o imaginou Pierre de Coubertin, podemos dizer que este apagamento não é nada um bom augúrio.
Os jogos de Pequim serão previsivelmente uns dos mais politizados de todos os tempos. Não só pela questão tibetana mas também porque, a cada dia que passa, os cidadãos do planeta Terra anseiam cada vez mais por fazerem parte do mundo mediático, contribuindo para ele com acções espectaculares e, de preferência, radicais. O imediatismo da informação que salta da rua para o espaço virtual da NET em apenas alguns minutinhos dá uma sensação de poder que tem tanto de inebriante como de duvidoso.
Os Jogos irão para a frente, o Tibete continuará debaixo da manápula chinesa (como manda a História) e quem se lixa são os atletas que vão correr a maratona nas ruas de uma cidade hiper-poluída sem poderem levar uma garrafinha de oxigénio às costas.
Aguardam-se novos episódios de uma telenovela que promete surpresa e qualidade extra seja no enredo, seja na qualidade da produção.

domingo, abril 06, 2008

The Mist

Stephen King já há muito que entrou para a história da cultura popular na qualidade de mais prolífico autor de contos e romances de terror ou, mais simplesmente, fantásticos. Além disso as suas histórias mirabolantes revelam um potencial narrativo de tal modo intenso que se tornou, de longe e sem competição possível, o autor mais adaptado para cinema, sendo difícil contabilizar todos os filmes produzidos pela máquina industrial de Hollywood que tiveram como base e ponto de partida a escrita de King.
Em The Mist http://www.themist-movie.com/(O Nevoeiro Misterioso no subtítulo para as salas portuguesas) o realizador Frank Darabont trabalha pela 3ª vez (se é que contei decentemente) sobre a imaginação do mestre Stephen. Se nos anteriores Os Condenados da Shawshank e The Green Mile, os resultados alcançados foram razoáveis mesmo sem suscitar grandes excitações críticas nem da parte do público, neste The Mist, as coisas já não são tão anódinas assim.
The Mist é um filme clássico na sua estrutura, com uma narrativa escorreita e quase totalmente limpa de impurezas, actores típicos de uma série B que se leva a sério, com a participação estonteante e fora-de-série dessa actriz de outro planeta que dá pelo nome de Marcia Gay Harden. Portentosa!
Os efeitos especiais, em particular os monstrecos, são um tanto pueris. Quase parecem saídos de um filme de animação produzido por Tim Burton, com o seu quê de anedótico e vagamente divertido, mas acabam por cumprir a função com eficácia. Aliás, eficácia poderá ser a palavra-chave para este filme, na generalidade.
Outro ponto forte de The Mist, é a reflexão que nos é proposta pelo desenvolvimento da situação do grupo de personagens que se vêem encurraladas e rápidamente desesperam.
Resumindo e concluindo, um filmezinho bem interessante para quem não tiver demasiados preconceitos em relação ao género e não se importar de reencontrar um ou outro cliché cinematográfico, característico de uma série B de terror ou ficção científica. Os aspirantes a intelectuais e amadores de cinema de autor poderão saír da sala a tapar o nariz. Tal como o final do filme, a vida é um risco e as decisões que tomamos em determinadas ocasiões podem ser como tiros que saem pela culatra e nos rebentam a face.
Bonito, não?

sexta-feira, abril 04, 2008

Demagogia feita à maneira é como queijo numa ratoeira (Lena D'àgua :-)

Afinal não foi assim. Tudo isto não passa de histeria e desinformação (desculpem lá os amigos que engoliram isto) leiam o post que indico abaixo e percebam quenão há ninguém assim tão desumano.


A propósito da petição que anda por aí contra o artista-que-matou-o-cão, um tal de Guillermo Vargas Habacuc que tantos ódios tem feito estalar nos nossos peitos impolutos, recomendo a leitura deste post. Sinceramente custava-me a acreditar em tão grande crueldade e estupidez tão absoluta. Este post repõe as coisas nos seus devidos lugares.

Anjinhos

Todos temos um anjinho que nos guarda das coisas más e nos orienta em direcção às boas. Um anjinho discreto que age apenas animado pela bondade divina que o sopra e inspira. A maior parte das vezes safamo-nos das boas sem saber como. Foi o anjinho. Outras vezes metemos a pata na poça de forma tão estúpida que o anjinho só pode ter estado distraído. Acontece.

sábado, março 29, 2008

Jornais


Ao fim-de-semana mesmo os diários pesam toneladas. Caramba, tanto papel! Os semanários são verdadeiros monumentos às artes gráficas e um incentivo às empresas de celulose.

Toneladas de papel, mega toneladas de informação, uma espécie de outro mundo, também ele virtual, onde nos movemos como zombies em busca de alimento fresco. Eu, particularmente, sou um verdadeiro zombie da informação jornalística. Talvez mesmo um vampiro. Mas começo a estar cansado. Não tenho capacidade de armazenamento para tanta coisa, tanta notícia, tanta opinião. Começo a fraquejar. O tempo que gasto (não sei se o perco se o ganho, há esta confusão com o Tempo...) a ler jornais fica em falta para ler outras coisas. É um tempo que convida a uma espécie de preguiça que não é bem preguiça, é mais uma letargia, uma suspensão, sei lá o que é. É um café pela manhã (já houve tempos em que era também um cigarro), é uma esplanada ensolarada nesta época do ano, um sofá debaixo do candeeiro de pé ou uma cadeira verde na varanda. o tempo do jornal é isto tudo e mais uma mão-cheia de outras coisas. E metemos informação para dentro. Tanta informação que, depois, sentimos necessidade de a expelir. Somos como romanos antigos numa orgia, comer, comer, beber e beber até ser preciso vomitar para voltar ao salão e, mais uma vez, comer, comer e beber, beber. Começo a olhar aqui para o 100 Cabeças e o que vejo? A informação com que atafulhei o espírito aqui esparramada. Como se isto fosse um vomitório.

Mmmmmh, que imagem tão nojenta.

sexta-feira, março 28, 2008

Sobre a Pintura


Little Cadet, Zhang Xiaogang, oil on canvas, 2001

Toda a pintura é natureza morta, natureza mumificada, cristalizada, embalsamada por métodos resultantes de uma sabedoria instintiva, anterior à própria consciência de sermos humanos. Terá sido com o contributo desse incomparável acto de magia que os nossos antepassados descobriram algumas diferenças substanciais entre si próprios e os bicharocos que devoravam gulosamente. Estou em crer que foi a pintura a fazer-nos humanos e não o contrário.

Flores no alcatrão


Viver na cidade afasta-nos tanto da natureza que chegamos a esquecer a nossa própria condição animal. A chuva é uma maçada, o sol incomoda, o vento desorganiza. As manifestações da natureza não se coadunam com a nossa perspectiva da passagem do tempo urbano. Tempo urbano tem a ver com relógio. Tempo que se perde, tempo que se ganha quando é vendido ou comprado. Como se pode perder ou ganhar uma coisa tão abstracta como o tempo?

Na cidade não há bem Primavera nem Inverno. Não damos atenção aos sinais das diferentes estações do ano porque o nosso ritmo quotidiano não se organiza de acordo com elas mas sim apesar delas, ignorando-as o mais possível. O nosso ritmo quotidiano é organizado de acordo com a agenda, o calendário e, outra vez, o relógio. O relógio, o relógio... que se lixe o relógio!

Os animais vivem em apartamentos e vêm à rua pela trela fazer cócó, já nem sequer se diz que cagam. Pobres animais. Até a fruta, que dantes anunciava as estações do ano mais ou menos como as andorinhas, até a fruta aparece sem ordem natural que o explique, exposta nos supermercados a preços tão estranhos como a sua presença fora de época.
Na cidade a natureza vive também fechada em pequenos quartos, escondida em memórias que ansiosamente temem ser esquecidas de uma vez por todas. Vive em vasos, nas varandas ou em canteiros devidamente delimitados e organizados. Ou se porta bem ou é metida na ordem.

O que nos vale é que, algures lá fora, longe dos prédios e dos automóveis, sem computadores nem écrans de TV que estão sempre a falar, a falar, a falar, há-de haver pelo menos um lugar qualquer que ainda respeita aquilo que aprendemos nos livros de leitura (quando éramos pequeninos e íamos à escola aprender a ler e a perceber melhor o mundo que nos rodeava).
Eu sei que esse lugar existe.
Quer dizer, acho que existe.
Caraças, TEM de existir um lugar assim!!!!
Mas, no entanto, gosto de viver na cidade. E tu? trocavas a poluição e o ruído por ar puro e silêncio absoluto? Então de que estás à espera?

terça-feira, março 25, 2008

Ensinar a ensinar

O título deste post não é bom mas isso também não é particularmente importante. O vídeo(legendado em português) chegou-me via e-mail por mão amiga. São 6 minutos e mais uns trocos de uma palestra de Heidi e Alvin Toffler (lembram-se de A 3ª Vaga?)sobre o sistema de ensino tal como é encarado pelas sociedades industrializadas contemporâneas. Perante a actual discussão meio descabelada sobre aquilo que se passa e não passa nas nossas escolas, este vídeo tem o dom de fornecer mais uma perspectiva sobre o assunto. Parece-me interessante. Será que vale a pena oferecer 6 minutos do nosso tempo a estes dois velhotes e ouvir o que têm a dizer sobre toda esta salsada? É questão de experimentar.

segunda-feira, março 24, 2008

Com o coração nas mãos


Easter Bunny meets The King


Tive problemas com o acesso à NET e vi-me uns dias sem poder por aqui andar. Ao princípio foi complicado, há hábitos difíceis de ultrapassar. Entretanto fiz a peregrinação anual por esta data festiva até à minha santa terrinha. Fui ver pessoas, lugares e respirar o ar gélido soprado das serras. Senti-me limpo e, uma vez mais, foi tempo de fazer as pazes com esta merda toda. A Páscoa é assim mesmo. Dou uma beijoca num crucifixo metálico (trazido este ano pelo meu velho amigo Amílcar, fazia muito tempo que o não via tão feliz), num Cristo com os pés mais frios que um focinho de cão, como tem de ser.
Vem o padre benzer a casa, espirrando água-benta e umas falas meio engonhadas que não se percebem nem me parece que sejam para ser percebidas. Come-se uma porcariazeca qualquer (ninguém tem apetite nenhum porque toda a gente acabou de morfar um almoço dos antigos e, ainda a digestão vai no adro, já se está a emborcar outra vez um bolinho ou uma amêndoa...), bebe-se mais um copo de qualquer coisa, o que calhar está bem, e o padre bem se tenta escapar ao copito mas nem sempre tem sorte. Lá mais para o fim da tarde já há-de andar com uma perna a lamber a outra que isto de representar Deus no dia em que se festeja a morte e ressureição do Filho não é para todos e, mesmo para os que é, é barra pesada.
Enfim, Domingo de Páscoa é dia de andar com o coração nas mãos. Rever amigos, memórias e fantasmas, fazer de contas que um Cristo de lata tem alguma magia e perceber como o amor ao próximo é a coisa mais suave que a existência tem para nos deixar aproveitar enquanto é tempo. O resto... o resto que se lixe, perante tal suavidade e transparência não vale a pena estar a perder tempo com coisas porventura mais importantes mas, sem dúvida, muito menos belas.
Boa Páscoa (que já lá vai).

terça-feira, março 18, 2008

Rota dos mamarrachos

O centro comercial conhecido como Fórum Almada (ou será Almada Fórum?), um forte candidato a figurar numa rota dos mamarrachos do concelho com a sua inenarrável sereia como ponto de interesse particular


Uma ideia para promover certas zonas dos país em termos quase turísticos: estabelecer rotas locais de mamarrachos. A minha querida cidade de Almada, por exemplo. Vítima do implacável correr do tempo, é uma cidade feia de meter medo. Debruçada nas costas do rio, mais para cá do que para lá, tem nas paisagens que rouba a Lisboa o ponto alto do interesse estético em termos urbanos.


A cidade, própriamente dita, é de fugir. A arquitectura caótica e a atávica ausência de um plano urbanístico fazem de Almada uma espécie de gigantesco projecto assinado por um qualquer engenheiro de quinta categoria. Horripilante e deprimente, são dois vocábulos que me assaltam a mente de imediato e sem esforço.



O ponto alto de Almada (literalmente) é o Cristo Rei. Mas os turistas deslocam-se em direcção a esse monumento ignorando a restante cidade. No lugar deles faria o mesmo. Mas, imaginemos, se houvesse uma promoção adequada de certos mamarrachos que não sei bem se desfeiam se alindam a cidade, talvez se pudesse aguçar uma certa curiosidade mórbida, levando os turistas a procurarem os locais indicados na perspectiva excitante de poderem gozar um pouco a desgraça alheia. Assim a modos que uma feira de enormidades com a mulher barbuda ou o homem-tronco a acender cigarros sem a ajuda de braços nem de pernas.



Quem diz Almada diz inúmeras urbes horrendas que pagam o preço de séculos de boçalidade e ignorância estética (para não falar da ausência de ética) e que pontuam o mapa de Portugal com os seus nomes tenebrosos. Aqui fica esta proposta, à atenção dos autarcas da minha terra: promovam-se as rotas dos mamarrachos. Façamos do horrível algo de belo, quanto mais não seja tentemos rir da nossa desgraça. Sem medos.

sexta-feira, março 14, 2008

Que grande McEwan!!!


Há grandes escritores, escritores geniais, maus escritores, escritores assim-assim. Há plagiadores e autómatos agarrados ao teclado, há milhentas formas de escrever e ser escritor. Depois, para lá de tudo isto, sem rótulo que se lhe agarre nem prateleira que lhe sustente a categoria, há Ian McEwan.

Sábado é simplesmente... um livro de McEwan. Nem sequer dá para afirmar que é um livro genial. Não chega.

quinta-feira, março 13, 2008

Fervente


As coisas fervem mas não se passa nada.
Anda por aí muita gente nervosa, muita gente serena, muita gente que nem se dá bem conta de o ser. Mas a coisa ferve, está em ebulição. No entanto... não se passa nada de nada.
Os dias rolam com a cumplicidade do relógio (amigos desde sempre), os carros continuam a passar do lado de lá da janela como se não fosse nada com eles. Os aviões continuam a voar sobre a cabeça do Cristo Rei, lá ao fundo da janela, chegam vindos de não-interessa-onde com destino aqui mesmo.
As coisas estão a ferver. Pode demorar um certo tempo até entrarem em ebulição.
Quando isso finalmente acontecer a tampa vai saltar. Aí sim, será o bom e o bonito.
Entretanto os mundo nas voltas que dá gera a vaga possibilidade de uma espécie de justiça poética: e se o sucessor de Bush na Casa Branca for o Presidente Hussein, dos EUA? Era lindo, não era? O Presidente Barack Hussein Obama... vingança da História sobre um facínora que só a tem desfigurado.
Entretanto a coisa vai fervendo...

terça-feira, março 11, 2008

As manas Bolena


Gostas de filmes de época? Tens uma certa admiração por actores capazes de fazerem algo mais do que serem bonitos sem mais nada? O guarda-roupa é uma das coisas que mais te prende a atenção quando vais ao teatro ou ao cinema? Não te importas de ver um filme a dois tempos? Então está fixe, podes avançar sem medos para a sala mais próxima onde estiver a passar este Duas Irmãs, um Rei, título da versão portuguesa de The Other Boleyn Girl http://www.theotherboleyngirlmovie.co.uk/.

A reconstituição da corte inglesa no tempo em que era dominada pela figura algo inquietante de Henrique VIII parece impecável. Já o dito cujo, interpretado por Eric Bana, talvez pudesse ter uma exposição narrativa mais densa por forma a ganhar alguma "espessura" aos olhos do espectador. As manas Bolena são impecáveis! Não, não apenas por serem interpretadas por Scarlett Johansson e Natalie Portman mas também por isso. Na verdade são impecáveis precisamente por isso. Por estarmos perante duas excelentes actrizes no pleno esplendor da juventude. Bonito.

Depois há o guarda-roupa (aparentemente) irrepreensível. Lindo de se ver. Há momentos em que parece estarmos a assistir a uma passagem de modelos do século XVI!

Então será um filme perfeito, não? Não.

Em termos de dinâmica narrativa há um tremendo desiquilibrio. A história desenrola-se num determinado ritmo, as cenas vão-se sucedendo com um certo tempo característico e, de súbito, nos últimos minutos, tudo se precipita. O filme parece acordar de repente e, qual coelho branco, descobre que está atrasado. A partir daí as cenas sucedem-se a uma velocidade alucinante o que leva o filme a dar um ou outro trambolhão. Nada de muito grave mas talvez a produção pudesse ter permitido mais uns minutinhos de filme. Decerto não foi por falta de material que as coisas aceleram daquela maneira até ao último suspiro. Do filme e do espectador. Que cansaço!

Seja como for dá pra ver com agrado apesar da vertigem final.

segunda-feira, março 10, 2008

Carta

Problemas

Na noite de Sábado, após a manifestação dos professores, veio a ministra da educação defender a tese de que tentar resolver os problemas do sector com a sua demissão seria a forma mais fácil de lidar com a situação. Ao reafirmar a sua determinação em manter-se no cargo e prosseguir com a implementação das medidas que tanta tinta têm feito correr, Maria de Lurdes Rodrigues estaria a optar pela via mais complicada mas, a seu ver, a via correcta para tirar o sistema educativo do buraco escuro em que se encontra.
Fica a impressão de que, no entender da ministra, os problemas complicados exigem soluções complexas numa lógica de equiparação entre problema e solução que não é assim tão linear. Por vezes questões extremamente complicadas resolvem-se de forma surpreendentemente simples.
Basta olhar para o organigrama da avaliação do desempenho dos professores para perceber que aquilo que lhes é proposto padece de uma tremenda maleita. É uma confusão. As mentes (decerto brilhantes) que estão por detrás daquele amontoado de dados contraditórios e de naturezas tão diversas não terão imaginado que haverá respostas mais simples para a questão em análise?
Uma coisa que não é fácil de explicar aos jovens estudantes é que uma resposta extensa não é, obrigatoriamente, uma boa resposta. É uma luta constante tentar provar-lhes que a objectividade é um bem precioso e a capacidade de síntese uma arte difícil, precisamente por procurar formas simples de expor ideias complexas. Após um teste de avaliação é comum ouvir um aluno afirmar que lhe correu bem pois escreveu muito. Toda a gente percebe que escrever muito não garante à partida a qualidade do trabalho.
O ministério da 5 de Outubro deve estar convencido que, produzindo constantemente páginas imensas de uma legislação enigmática, está a contribuir para solucionar os problemas da educação. Quem trabalha nas escolas sabe que as ordens e contra-ordens com que têm sido bombardeadas nos últimos meses apenas têm servido para lhes complicar o trabalho. É tempo de explicar a todos os que circulam nos gabinetes ministeriais que na quantidade é possivelmente mais difícil encontrar alguma qualidade e que a aparente complexidade de um problema não obriga a uma resposta igualmente confusa. Talvez a via difícil não seja a mais apropriada para dar resposta aos nossos problemas.



Carta enviada hoje ao Director do jornal Público

Comunistas aos pontapés

Nos últimos tempos temos ouvido as mais variadas vozes indignadas afirmarem que por trás da contestação social se encontra, sempre a manobrar na sombra de forma malévola, o Partido Comunista.
Os professores manifestam-se na rua? Estão a ser manipulados pelos comunistas!
Há berraria à porta das sedes do PS? São berradores comunistas que estão ali a berrar!
Há descontentamento generalizado entre a população? São os comunistas a minar a ordem pública!
Os nossos governantes vêem comunistas em todo o lado. Deve ser incomodativo. Soa a paranóia.
A questão interessante é que em todas estas situações se fala dos comunistas como se eles tivessem lepra ou andassem por aí na clandestinidade a preparar golpes profundos nas instituições democráticas. Os militantes do Partido Socialista merecem outro tipo de abordagem? Quando são eles a preparar acções de agitação e propaganda podemos ficar mais descansados do que quando são os comunistas a fazê-lo?
Quem esteve ontem na manifestação dos professores sabe perfeitamente que não houve qualquer tipo de manipulação de tamanha multidão. E quem não esteve também deve ter um mínimo de discernimento para compreender a estupidez de tal ideia, quanto mais de tal afirmação.
Não consigo compreender como podem ter tanto asco aos comunistas e ainda andarem a agitar o papão totalitário da ditadura do proletariado 34 anos depois da Revolução e fazendo Portugal parte da Comunidade Europeia.
O PCP faz parte da vida política do nosso país tal como os outros partidos mas é tratado como uma associação de malfeitores e pouca gente parece incomodar-se com isso.
Pessoalmente não gosto muito do PCP (gosto mesmo muito pouco) mas daí a considerá-lo algo de subversivo vai um passo de gigante ou uma minúscula reflexão.
Ontem não me senti "um soldado do partido comunista" nem nada que se pareça. Senti-me, isso sim, um cidadão que exerce em plenitude o seu direito a manifestar publicamente uma posição política. A Marcha da Indignação foi uma verdadeira lição de maioridade democrática. Coisa que deve deixar o Sócrates a roer as unhas e a chamar nomes feios a quem o não pode ouvir. Ele e o Santos Silva, esse denodado defensor das liberdades democráticas.


sábado, março 08, 2008

100 mil cabeças

Contas feitas, diz quem as fez, estiveram hoje entre 80 mil (contas da polícia) e 100 mil (contas dos organizadores) a descer as avenidas lisboetas até ao Terreiro do Paço. Poderemos então ficar pelas 90 mil cabeças, tentando não exagerar por excesso nem defeito.
Seja como for, assistiu-se a uma manifestação como não há memória em Portugal. Se, a fazer fé nos números oficiais, há 136 mil professores no activo, então, esta tarde, estiveram aproximadamente 2/3 do total a marchar avenida abaixo. Viemos de todo o lado. Do Minho ao Algarve, de autocarro, de automóvel, de barco, a pé, de comboio, todos os meios de transporte foram bons para nos levar até ao local de concentração.
A manifestação surpreendeu pela dimensão, ultrapassando os números mais arrojados que os organizadores pudessem ter sonhado. Foi uma prova de que a ministra não tem razão em insistir que os professores descontentes não devem compreender a bondade das medidas que ela vai impondo sem diálogo nem sombra de tino. Eram demasiados professores. Ou as propostas são muito complicadas de perceber (quase impossíveis de perceber) ou então, na verdade, não têm qualidade para ganhar a simpatia da classe docente.
Na minha perspectiva, as medidas impostas pela actual equipa ministerial têm um único objectivo que é o de conter gastos com a Educação ao nível dos ordenados dos professores. Nada mais interessa a esta corja de nabos que nem sequer é capaz de organizar de forma coerente um conjunto de acções que sirva de maquilhagem aos seus propósitos. São maus a governar, péssimos a comunicar e verdadeiros palhaços na hora do debate.
Hoje estiveram por ali perto de 100 mil cabeças destapadas, sem receio nem ódio. Foi a marcha da indignação.
Temo apenas que as personagens no poder não compreendam nada daquilo a que assistiram. Elas já provaram que é muito limitada a sua capacidade de compreensão. Mais do que seria aceitável.

sexta-feira, março 07, 2008

Amanhã há Marcha!

Amanhã é dia de ir à rua mostrar a estas personagens que não estamos aqui para lhes aturar as brincadeiras de ânimo leve.

A Sra. Ministra parece começar a piar mais mansinho. Parece que quer explicar às pessoas as políticas que tão denodadamente defende com mais unhas que dentes. Mas a coisa não lhe sai bem. Ela não sabe conversar, não tem arte para o debate. Mesmo a mandar ela é fracota. Faltam-lhe competências essenciais. Entre as competências que nítidamente lhe falecem podemos incluir o bom senso, elemento essencialpara manter uma conversa civilizada e decente. Quando a contrariam, a Sra. perde logo a compostura. Fica coraducha, cerra a fineza dos lábios e muda para o olhar matador. A pertir daí, desviem-se que aqui vai disto.

Já o Sr. Secretário surge nesta imagem comosurge sempre. Em fundo, como quem não quer a coisa. Se fala só diz enormidades. Se está calado está a pensar que devia falar. Uma lástima.

Todos juntos (falta aqui o 3º elemento desta santíssima trindade) não chegam a fazer um. Valem muito pouco. O problema são os lugares que ocupam. Aí, apesar do pouco que valem, conseguem fazer muita mossa.

Por essas e por outras amanhã vou estar na marcha. Eu e muitos milhares de colegas e cidadãos fartos de tanta prepotência incompetente. Só para mostrar a esta gente que a impunidade não dura eternamente. Chega o dia em que vão ter de prestar contas.




sábado, março 01, 2008

Juno, nome de divindade


http://www.foxsearchlight.com/juno/

Ora aqui está um filme que põe uma pessoa com a moral em cima. A narrativa passa por nós a correr, ligeirinha, com pantufas de peluche. O casting é absolutamente irrepreensível. Cada uma daquelas personagens é exactamente aquele actor e vice-versa. A banda sonora dá à coisa aquele aspecto adolescente, meio desajeitado, a namorar a borbulha infectada. O argumento foi "oscarizado". É um bom argumento, com muito pouca moral americana, mas também não chega a ser bem uma crítica feroz. Para utilizar uma linguagem mais a dar para o crítico encartado, diria que se trata de um argumento mordaz. As personagens são (quase) todas tão positivas que se nota perfeitamente estarmos perante uma fábula. Não há tanta gente tão fixe assim aglomerada por metro quadrado. Uma história tão mirabolante só pode ser do tempo em que os animais falavam e se pareciam tanto com pessoas que agora confundimos tudo e não percebemos quando estamos a ver um elefante ou uma girafinha bébé que, realmente, não são pessoas embora pareçam mesmo. São animais que falam. Não há pessoas daquelas! Não há pessoas tão boas e, muito menos, com um sentido de humor tão arrasador e contínuo.
Enfim, um filme light que faz bem ao corpo. Para limpar a alma.

Segue o tema musical que abre o filme (não sei quem é o cantor mas, já agora, há mais uns quantos vídeos interessantes entre os que o YouTube oferece)