sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Outra vez Rauschenberg


Robert Rauschenberg (American, b. 1925). Minutiae, 1954. Freestanding combine. 214.6 x 205.7 x 77.4 cm (84 1/2 x 81 x 30 1/2 in.). Private collection, Switzerland.

"(...)o respeito pela identididade de cada um dos elementos intervenientes na sua prática artística, a ausência de dados que sugiram a predominância do gosto ou da personalidade do artista como factores que orientem a construção da obra, uma generosa disponibilidade no que respeita aos materiais a utilizar, a justaposição de elementos díspares, a noção de colaboração mais que de manipulação, a importância do investimento do espectador na experiência das suas obras e a abertura da obra de arte à vida real, na forma de incorporação dos seus objectos quotidianos."

Excerto do texto de Bruno Marchand intitulado "Intervalo lugar comum: A obra de Robert Rauschenberg entre 1949 e 1974" no volume 10 da Colecção de Arte Contemporânea Público/Serralves. Aqui o autor do texto caracteriza a atitude e os objectivos de Rauschenberg no seu processo criativo.

O que me parece possível retirar deste conjunto de sugestões de Marchand para mapear a actividade artística do velho Bob é a sensação de que o artista é como que um casamenteiro discreto, mediando uma possível relação entre o espectador e a obra que lhe é apresentada tendo em vista um possível casamento com felicidade à mistura.
O criador toma uma atitude imparcial, como se o objecto que cria tivesse vida própria, não dependendo da sua vontade tal existência no mundo dos objectos reais. Rauschenberg seria uma espécie de arqueólogo a desenterrar coisas no mundo das ideias, trazendo-as à luz dos nossos dias aqui, no mundo real, dando-lhes um nome, revelando-lhes a forma.
É uma perspectiva curiosa. Mais uma vez se convoca a responsabilidade do espectador no acto de completar o objecto artístico contemporâneo através da sua própria experiência pessoal, estética ou de diferente natureza.
Quem estiver disposto a aceitar esse estatuto de participante activo no fenómeno criativo, investindo o trabalho de olhar inteligentemente as propostas artísticas que lhe são apresentadas, terá dado um passo em direcção à possibilidade de vir um dia a poder desfrutar da Revelação, estado supremo da relação amorosa entre espectador e objecto de arte, espécie de Nirvana com as botas calçadas.
A exposição de Rauschenberg no Porto tem sido apontada como um êxito em termos de número de visitantes. Ao que ouvi dizer estiveram cerca de duas mil pessoas em Serralves no dia da inauguração. Pessoalmente tenho uma tremenda curiosidade em saber o que pensaram essas pessoas ao sairem do Museu. É que a exposição do Bob não é nada fácil de consumir. Não se mastiga com a facilidade de um Big Mac. Aquilo é mais tipo bife da testa, duro de roer como o caraças. Serão assim tantos os que estão dispostos a estragar a dentuça no esforço de mastigar aquela coisa? Temo nunca vir a satisfazer esta minha curiosidade mesquinha mas acho que posso bem conviver com esta dúvida.

2 comentários:

Eduardo P.L. disse...

É verdade. Osso duro de roer!
Tenho essa curiosidade também. Morreremos com ela!

Silvares disse...

Caro Eduardo, este Rauschenberg é um artista bem interessante. Misterioso, quase, e afinal tão amigo da banalidade dos objectos! Um caso a observar com atenção.