sexta-feira, janeiro 24, 2025

O Jardim das Notícias

 

Em A Traição das Imagens, Magritte explicou com clareza a distância que vai de um cachimbo a uma coisa pintada. As coisas não deviam confundir-se com a sua representação. Ficámos avisados. Picasso terá dito que o desenho “é uma grande mentira que nos ajuda a compreender melhor a verdade” mas, terá acrescentado, na medida em que formos capazes de a compreender. Ficámos a pensar.

Construir uma visão do mundo em que vivemos depende muito da perspectiva a partir da qual tentamos a sua construção. Seja uma visão mais poética ou mais técnica, mais humana ou artificialmente inteligente, a recolha de informação é essencial para que a coisa possa acontecer. Fica a sensação de que a Verdade é um absoluto inalcançável que faz de nós e do ChatGPT amargas anedotas de gosto duvidoso. Na impossibilidade de sucesso vamos semeando o planeta com as nossas tentativas de o compreender, registar e retratar.

Sabemos que o mundo está povoado de monstruosidades ameaçadoras mas temos dificuldade em evitá-las. Chegamos a deixar-nos seduzir pela sua abjecta lengalenga e, como o Flautista levando crianças e ratazanas em direcção ao precipício, arrebanhados marchamos atrás das bestas com o vazio por destino. 

Vindos de Oeste, divisam-se no horizonte os cavaleiros do Apocalipse Chunga. Vêm montados em artefactos tecnológicos, agitam riquezas que seguram nas mãozinhas pequeninas e nas dentuças muito brancas, escorrendo babugem raivosa pelos cantos das fendas que lhes servem de bocas. A Nordeste um aprendiz de feiticeiro imagina-se imortal e tenta afastar a morte bebendo o sangue de povos inteiros. Lá para as bandas do Oriente alinham-se divindades ameaçadores que comandam exércitos de seres muito puros e despidos de pecado. E nós, demónios outrora poderosos, agora velhos e exauridos, aguardamos resignadamente o embate. A guerra não corre de feição mas estamos muito longe de termos sido derrotados.

quarta-feira, janeiro 22, 2025

Súbita interrupção

     Agrada-te o silêncio, a solidão não te incomoda. As coisas quietas e estáveis mantêm-se equilibradas dentro do teu espírito. Sentes-te em paz. A única brusquidão é a das ideias, capazes de saltar e vaguear como cabras numa escarpa pedregosa, a escarpa da tua imaginação. Olhas para baixo, não lhe vês o fundo. Não há limite nem medida seja qual for a direcção do teu olhar.

    Não há mais ninguém na sala. 30 cadeiras vazias, ruídos esparsos vindos de divisões contíguas. Uma ou outra voz disfarçada de eco ressalta nas paredes do corredor. Alguém passa junto à porta. Há um lado de lá, momentaneamente separado de ti, um lado de lá do qual certamente nunca farás parte embora te mistures com ele todos os dias em doses homeopáticas.

    Agrada-te a solidão, não te incomoda o silêncio. A fórmula admite ainda algumas variações mas deixas as coisas como estão neste momento.

terça-feira, janeiro 21, 2025

Uma certeza (quase) absoluta

     O aspirador fazendo o seu trabalho substitui o som áspero que ouvias no Spotify; Jack White e a sua guitarra tão eléctrica. Procuras as ideias que se escondem de cada vez que voltas a cabeça da alma. São esquivas, as filhas-da-puta. Já se te mostraram claramente, à luz do que quer que seja que te ilumina o interior, lá, onde a tua vida paralela se desenrola dia após dia. Contas de outro rosário.

    Lá dentro costuma estar tudo silencioso. Não há aspiradores nem automóveis nem aviões a grunhir ao longe nas alturas. Lá dentro só tu és próximo de qualquer coisa que possas relacionar directamente com a realidade. Tudo o mais são ideias, sensações, coisas ainda não nomeadas. Assim, como aquelas ideias que ainda agora sentiste a deslizar lá ao fundo, sob o que poderia corresponder à entrada de uma gruta, à soleira de uma porta, lugar sombrio capaz de esconder tudo o que possa e o que não possa ser escondido. Ali a sombra é como tinta da China.

    O aspirador continua a trabalhar e tu desistes. Melhor, tu adias a busca das ideias furtivas, pequenos diabretes malvados. A ocasião há-de oferecer-se e tu vais deitar-lhes a mão. Tão certinho como seres quem és!

sábado, janeiro 18, 2025

Paternalismo

     "Cada cabeça, sua sentença", "o mundo de cada um é os olhos que tem", "quem o feio ama, bonito lhe parece", "rebéubéu, pardais ao ninho". A ideia de que cabe a cada um de nós confrontar-se com o mundo utilizando as armas de que dispõe na luta diária pela sobrevivência parece-nos incontroversa. 

    O que será controverso é a ideia de que "cada um é como cada qual" e fica tudo dito, nada a fazer, "sou assim mesmo" e está resolvido. Errado. Acredito piamente que "só os burros não mudam de opinião". Seres assim não significa que vais morrer tal qual és agora. 

    O mundo muda, o teu corpo altera-se, os olhos perdem fulgor, o bonito pode transformar-se em algo feio ou vice-versa. Tu bem desejas que as coisas se passam como imaginas e continuem assim até à extinção do Sol; fechas a cabecinha. Lá dentro está tudo arrumadinho em prateleiras perfeitamente alinhadas e todos os dias limpas o pó de modo a que a luz não surpreenda um grãozinho que seja poisado onde não deve.

    Vivemos num mundo atulhado de estímulos, saturado de estímulos, soterrado em estímulos mas não é isso que o torna estimulante. Tens alguma responsabilidade nisso, na descoberta dos estímulos capazes de transformar a tua experiência de vida em algo mais... estimulante? "É como procurar uma agulha num palheiro", dizes tu. Eu sei. Mas, toma atenção, a propaganda tenta substituir-te nessa tarefa. Não deixes que isso aconteça, não te satisfaças com coisas oferecidas. Luta por ti, abre o teu espaço, sente-te.

quarta-feira, janeiro 15, 2025

Apocalipse Chunga

     É estranho. Os cidadãos do chamado Mundo Ocidental parecem viver num acentuado estado de zombificação. O modo como vêm aceitando e escolhendo líderes medíocres (sendo benevolente na avaliação e contido na escolha da palavra) deixa-me estupefacto. O nivelamento do pensamento pelo zero é uma opção inesperada. Será isto resultado da massificação absoluta da informação?

    Talvez a tendência tenha sido sempre esta, talvez que Musks, Trumps, Zuckerbergs e outras merdas do género tenham estado sempre no subconsciente das massas, adormecidos, à espera que os piores receios de Deus pudessem enfim encarnar, iniciando a sua caminhada sobre a Terra. Eles aí estão.

    São os Cavaleiros do Apocalipse Chunga, com eles assistimos ao início da derradeira etapa desta civilização em direcção ao Abismo. O que aconteceu a grandes civilizações do passado? Como desapareceram da face da Terra quase sem deixar rasto? Tiveram também os seus Musks e Trumps e Putins a conduzi-las como o Flautista levando ratazanas e crianças em direcção ao precipício? Imagino que assim tenha sido.

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Ser como a lesma

     Tenho uma ideia nova. Esqueço-a. Não sei bem se a perdi pois que dela guardo apenas uma vaga recordação. Vá-se lá saber! Talvez não tenha perdido grande coisa. Na verdade nem sei bem se não terei ganho algo. Por vezes tenho ideias que me parecem muito boas e, mais tarde, envergonho-me, não sei se de as ter tido se de as ter imaginado como algo que fizesse sentido. É assim que na minha cabeça se define mais ou menos o conceito de embaraço. Perdi uma ideia, não sei se estou embaraçado ou haveria de vir a está-lo. Assim fiquei. Tudo na mesma. Como a lesma.

sábado, janeiro 11, 2025

Fartura

     Suportar o tédio é um exercício complexo. No início podes até sorrir, menear a cabeça com leveza, tamborilar com os dedos o tampo da mesinha mas, à medida que o tempo vai passando, a bonomia transforma-se em aborrecimento doloroso, não tarda vai já em  modo de agressividade eléctrica. E assomam aos teus lábios palavras proibidas.

    Mas que porra!? Esta gente não se enxerga? Terão consciência das enormidades que arrastam atrás das ideias que tentam expor? Procuram manter os pezinhos bem assentes no vazio que os sustenta mas sente-se-lhes a insegurança como se pisassem sala atapetada a pão-de-ló. Na dúvida resolvem preencher o tempo com palavreado sem sentido. Que chatice!

    Estou farto disto.

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Os porcos e as vacas

    Sangue, dor e sofrimento, eis a perfeita trilogia da essência da notícia. Notícia que é notícia não prescinde do tom apocalíptico transmitido em directo do local (o diferido também é aceitável mas perde algum impacto) com repórter enquadrado no palco (ou parte dele) onde a ocorrência acontece(u). 

    Guerras, desastres (naturais ou de outra índole), aberrações, conspirações, coisas extraordinariamente estapafúrdias que possam ser servidas em pequenas doses (3 minutos é longa-metragem), constituem a base do sistema informativo que engolimos como porcos e regurgitamos como vacas. Diariamente, 24 sobre 24 horas.

    

terça-feira, janeiro 07, 2025

Ser quadrado

     Vivemos uma vida inteira apontando o nariz a rectângulos de dimensões variadas. Portas, janelas, telas, ecrãs, folhas de papel e páginas de livros; os quatro lados do rectângulo enquadram a informação que recebemos.

    Será por isso que estamos a ficar tendencialmente quadrados individual e, sobretudo, colectivamente? Sim, o quadrado é, como sabes, um rectângulo particular por ter os lados todos iguais. Transformamo-nos naquilo que olhamos?

terça-feira, dezembro 31, 2024

2024 ao fundo

     O pior cego é o que não quer ver, o mais ignorante o que não quer aprender. É a pescadinha com o rabo na boca, o cão que persegue a cauda a mordiscar na atmosfera, o imbecil que continua a julgar-se um grande cromo. Somos nós.

    Tentamos novas soluções apoiados em velhas ideias, repetimos os erros convictamente, seremos assim até à dissolução do ser, pouco mais poderemos projectar que não esbarre na parede inevitável. Mas, no entanto, poderia não ser exactamente assim. Poderíamos errar com panache, poderíamos ter orgulho por, pelo menos, tentarmos ser criativos. Mas não. Somos tugas, erramos como sempre e temos ódio a quem nos aponte uma possibilidade diferente para o exercício da nossa atávica estupidez.

    O ano acaba hoje. Amanhã seremos os mesmos de sempre. Tudo bem, cá andaremos com a cabeça entre as orelhas.

domingo, dezembro 29, 2024

O que Deus quiser

     Não sei se acontece contigo, estimado leitor, mas há dias em que me sinto um pouco cansado, um tanto murcho, como planta a quem a água seja desviada da raiz. Não percebo porquê, de onde vem esta canseira, mas também não procuro compreender. Deixo andar, a coisa que se arraste.

    E vem o dia seguinte e vem o dia depois e... nada. Sempre esta secura, esta falta de vontade que me impede de erguer o olhar, os olhos sempre a fitar o muro, muro cinzento e sem graça. Não sei se te acontece também a ti, não acontecendo é mais complicado explicar.

    A verdade é que também não me apetece ir mais além do que já fui, este lugar serve muito bem para te dizer adeus. Faço o esforço de erguer o braço, dedos esticados, aceno. Adeus ou até à vista; seja o que Deus quiser.

domingo, dezembro 22, 2024

Até aqui tudo bem

     O mundo nunca foi um lugar seguro. Nem para os seres humanos nem para a restante bicharada. O facto de nascermos defeituosos e condenados a uma morte certa terá muito a ver com essa sensação de insegurança permanente que nos torna desconfiados e nos leva a cometer frequentes actos um pouco desesperados.

    A crueldade espreita a cada curva dos nossos cérebros. Inventamos torturas variadas. Há-as físicas ou psicológicas, desenvolvemos com volúpia narrativas aterrorizadoras para nos distraírem da monotonia que eventualmente nos venha amodorrar a existência. Nada nos satisfaz, forçamos constantemente os limites da imaginação. 

    Nos decénios mais recentes desenvolvemos dispositivos capazes de acabar com tudo o que nos rodeia de forma avassaladora e quase imediata. Trouxemos o armagedão das narrativas bíblicas para este nosso quotidiano delirante. Até ao momento em que escrevo estas linhas estamos a dar-nos mais ou menos bem com isso.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Beber ou não beber (uma bujeca) eis uma questão

     Decerto te terá também acontecido: tiveste uma ideia luminosa, uma revelação fulgurante, o mundo ganhou um contorno mais nítido, viveste um momento de fugacíssima felicidade. Tens a sensação de teres encontrado um pequeno tesouro escondido dentro de ti. Descobriste um fragmento da Verdade, foste tu quem o descobriu!

    Iupi!

    A sensação da descoberta de algo especial faz com que te sintas igualmente raro. Por momentos és um esteta, és um profeta, um cientista da alma. Mais adiante ouves uma frase, lês um parágrafo num livro de páginas amarelentas, lembras-te de algo que há muito havias esquecido e percebes. Percebes que a tal ideia, o tal tesouro, haviam já sido encontrados ou intuídos por alguém antes de ti. Ó tristeza, ó decepção!

    A mim já isto aconteceu muito mais que  várias vezes. Afinal sou um gajo como os outros, não posso considerar-me particularmente brilhante por ter descoberto o que outros já haviam encontrado, observado e dissecado antes de mim. Isso não faz de mim uma fraude, apenas uma pessoa iludida. Mas se tudo for apenas ilusão serei pouco mais do que alguém perfeitamente integrado no nada que tudo abarca.

    Não tenho a certeza de ter chegado a uma conclusão, nem sei se isso terá alguma utilidade (a incerteza ou a conclusão). O melhor é beber uma bujeca. Ou não.

domingo, dezembro 15, 2024

Lista de coisas fundamentais

1 - Acordei bem-disposto.
2 - Li coisas interessantes.
2 - Fiz uma caminhada.
3 - Vi pessoas.
4 - Comprei mantimentos no supermercado.
5 -Tomei um duche.
6 - Lavei louça.
7 - Almocei.
8 - Limpei arquivos no computador.
9 - Escrevi esta lista.
O dia ainda vai a meio.

terça-feira, dezembro 10, 2024

Espécie de elegia

     Não sei o que dizer. Sinceramente!? Nem sequer sei o que fazer. Assim sendo, deixo o trabalho entregue aos mecanismos do relógio na esperança de que as coisas possam fazer algum sentido caso seja o Tempo a responsabilizar-se pelo desenrolar dos acontecimentos. Entregar o destino a molas e rodas dentadas, ponteiros presos ao centro da circunferência das horas do dia.

    A impotência é grande. Perante a inevitabilidade dos acontecimentos encolho-me, abstenho-me, anulo-me. Faço a única coisa que me parece estar ao meu alcance: desenho. Como se cada imagem pudesse sublimar tudo o que se revolve dentro do meu ser; as tripas misturadas com a alma, o coração a tentar ser inteligente, as mãos resolvendo o que o cérebro não abrange sequer, coisas impossíveis, coisas patéticas: humanidade.

    Tivesse eu garras e presas, fosse eu todo músculo, todo instinto, todo arrojo, fosse eu um lobo faminto e talvez o mundo fizesse mais sentido, talvez pudesse viver mais sossegado, apesar do frio, apesar da fome, apesar dos homens.

domingo, dezembro 08, 2024

O problema

     É tão difícil compreender o que quer que seja mais complexo do que "o sol nasce - o sol põe-se". Mesmo isso pode tornar-se complicado, o Mundo não se deixa capturar. De forma nenhuma. Tenta-se a matemática, tenta-se a poesia, o esoterismo e a filosofia. Seja qual for a linguagem através da qual tentemos ler os sinais que o Mundo nos vai deixando a pontuar o caminho percorrido pela nossa espécie ao atravessar a floresta do Tempo, seremos sempre pequenos polegares perdidos e aterrorizados à procura de conforto e protecção.

    O caminho individual não parece funcionar lá muito bem, precisamos de companhia. Há passarões fantasmagóricos sempre dispostos a bicarem os sinais deixados pelo Mundo, os passarões querem a nossa perdição. E nós perdemo-nos. O entendimento do Mundo é assunto tão vasto e complexo que inventámos máquinas para o entenderem por nós. Mas são máquinas, Senhor! Os resultados das suas reflexões serão sempre insuficientes, desviados do Humano, pensamentos artificiais. Não servem para nós, não resolvem o nosso problema.

    Quanto mais depressa nos desenganarmos melhor. Melhor e pior. Quanto mais depressa percebermos que estamos sós, que fomos abandonados na floresta, quanto mais depressa abrirmos os olhos para a espessa escuridão que nos envolve, mais depressa perceberemos que não existe nada que possamos designar por "salvação". Para nos "salvarmos" teríamos de nos exterminar a nós próprios e, caso o fizéssemos, nunca poderíamos confirmar ter encontrado a solução do problema.

    Somos como um cão. Um cão que tente morder a própria cauda acabada de cortar rente com uma navalha afiada.

segunda-feira, dezembro 02, 2024

19 anos

     No passado dia 28 de Novembro o 100 Cabeças completou 19 anos de existência virtual. Não há qualquer sentimento especial associado à data. Não há qualquer situação extraordinária a reportar. As coisas são o que são, são pouco ou nada. E 19 anos a escrevinhar posts num Blogue são isso mesmo.

    Os textos que aqui vou deixando têm-me sido úteis em várias situações. Já me serviram para escrever peças de Teatro, já me serviram para programas de exposições e apresentações públicas. O 100 Cabeças é uma espécie de ferramenta.

    Irei continuar a fazer isto até não conseguir mais fazê-lo. Ainda o farei dentro de 19 anos?

sábado, novembro 30, 2024

Vinha trazer-vos o Amor

     Vinha trazer-vos o Amor mas tenho a sensação de ser coisa que vos não faz falta. Tendes as Black Friday, tendes o Tik Tok e o Facebook, os smartphones e as companhias low cost, tendes tudo e tanta coisa, que falta vos poderá fazer algo tão etéreo, vago e indefinido como "é coisa que arde sem se ver"?

    Vinha trazer-vos o Amor mas decidi ficar-me pela tasca da esquina a comer um choco frito pobremente regado com uma imperial, fresca q.b.

quinta-feira, novembro 28, 2024

Ausência absoluta

     A sala estava silenciosa, todo o ruído provinha do exterior. Vozes que ondulavam no esforço de penetrar as paredes, ultrapassar as janelas fechadas, vozes que haveriam de pertencer a alguém mas que por agora não tinham rosto. Talvez nunca tivessem. Uma sirene distante encantou o silêncio quase conseguindo levá-lo com ela. Lá longe, para longe. Uma sirene...

    A sala permanecia, boiando no silêncio.

    Quatro filas de carteiras com tampo bege, cadeiras nem todas devidamente arrumadas, nem todas iguais. Aquele espaço era o seu reino. Paredes sujas, a porta com um vidro magrinho, plantado ao alto, um ecrã e um projector e um computador asmático, companheiro de trabalho mais ou menos fiel, escravo de quantos sentavam o cu naquela cadeira onde escrevia, agora mesmo, estas palavras. Passos no corredor, vozes, cadeiras arrastadas no andar de cima. Silêncio. Silêncio outra vez.

    A sala, vazia e pouco limpa, era o seu reino apesar de não ser rei  de coisa nenhuma, de não pertencer a lugar algum, nem em sonhos. Talvez não quisesse ser nem pertencer. Talvez não quisesse nada, nem sequer ser personagem deste conto mal ajambrado. Talvez não existisse, não exista. Porra...

    A sala, vazia! Todo o ruído ondulando do exterior. Luz acesa, computador ligado. Sala silenciosa. Há um encanto indefinível na ausência absoluta, talvez por podermos apenas imaginá-la. Sons cada vez mais espaçados, mais distantes, o vulto de um pássaro na janela, recortado sobre o céu que escurece com a tarde a ir embora, um céu agora apenas azulado. O apito de um professor de educação física soou longe, como se fosse um lamento.

    A sala não existia mas, no entanto, ali estava. Vazia. Silenciosa. Abandonada.

domingo, novembro 24, 2024

Leitura

     Influenciado pela imaginação de Borges (aliada à minha com o fito de me fazer planar algures entre o céu e o inferno) folheei brevemente a Divina Comédia (edição bilingue com tradução de Vasco Graça Moura). Senti o impacto da coisa, tal qual Borges descreve na sua conferência em Sete Noites (vi Cerebro com uma nitidez nunca antes sequer imaginada). 

    Um gajo, não tendo problemas de guito, pensa logo: "podia comprar isto". Mas depois de reflectir um pouco, este gajo, percebe que nunca iria ler a cena até ao fim, que seria mais um belo livro a fazer-lhe caretas lá do cimo da prateleira. Devolvido o livro ao seu lugar um gajo pensa: "nem sequer Os Lusíadas fui ainda capaz de ler".

    Que livros ler, quando os ler, como os ler, o que deixar de fazer para fazê-lo? Eis uma sequência de incómodas questões que o gajo prefere ignorar.

quinta-feira, novembro 21, 2024

Bom dia

     Não deveria esquecer-me de que todos os dias podem começar como este começou. Começou com a leitura de uma das conferências de Borges publicadas em Sete Noites (esta versando a Divina Comédia). Não tanto pela imensa erudição que irradia das palavras escritas, não tanto pela beleza rítmica da forma (que mesmo na tradução para português não é perdida), não tanto pelo poço celestial do conteúdo: os dias deviam começar desta forma pois é leitura que me faz recordar o prazer que tenho em estar vivo.

    Dou por mim a pensar como seria agradável que após a hora da nossa morte pudéssemos continuar a ler; como seria agradável que o universo continuasse para lá da cortina dos sentidos, uma infindável biblioteca, como o terá sonhado Borges; dou por mim a pensar que o inferno decerto será semelhante ao silencioso deserto de ideias que imaginei ainda há pouco.

sábado, novembro 16, 2024

Amanhã é dia do Senhor

     Celebrar o Nada, adorar o Vazio, eis a essência de todas as religiões. Ora tentamos preencher as lacunas criadas pela ausência de raciocínio, ora as ignoramos, afirmando tratar-se a ignorância de um mistério. Não fosse a religião manifestação da nossa absoluta incapacidade para compreender o mundo, poderíamos imaginá-la fruto de algum tipo de construção intelectual destinada a preencher o Nada, destinada a agitar o Vazio.

    A religião será, então, uma emanação da nossa impotência, da nossa incapacidade para encontrarmos justificação para sermos aquilo que somos (mesmo que não sejamos capazes de o compreender). 

    Estou convencido de que, sendo nós bichos como os outros, não existe o Nada, muito menos o Vazio; isto dispensa por completo Deus de ser o que imaginamos que Ele seja, o que decerto muito O aliviará. Isto porque Deus, a existir, não seria capaz de evitar esta mesma sensação de perda constante, esta angústia de não encontrar um sentido para o que quer que seja. Afinal de contas, não fomos nós criados à Sua imagem e semelhança?

sábado, novembro 09, 2024

A felicidade num buraco

     Ficar na sombra não é das coisas mais fáceis a que um gajo possa aspirar. A tentação de deitar um cornicho de fora é muito forte. Querer banhar a fronte na luz do sol, mostrar o sorriso, explicar a quem esteja a ouvir como somos gajos espectaculares, a compulsão da exposição social fala alto. Mas não tão alto que abafe a tendência natural para a anulação do ego. Quando esta existe.

    Uma educação católica em meio rural cava profundas valas onde semeamos modéstia com uma eficácia tal que a colheita dura a vida toda. E tentamos mudar, tentamos deixar a agricultura, imaginar outras actividades, mas nada funciona. Campónio uma vez, campónio a vida toda. Nunca deixarei de ser um campónio. Tempos houve em que a constatação dessa evidência me incomodou. Nos tempos que correm a condição de eterno campónio enche-me de orgulho. Vai na volta esse orgulho não é mais que auto-defesa. É bem possível que assim seja. 

    A passagem do tempo fornece a cada um de nós a possibilidade de vestir uma armadura mais ou menos eficaz contra os temores que o mundo vai sendo capaz de nos infundir. O mundo que se infunda! Que se infunda esta merda toda. Vou cavar um buraquinho onde possa aninhar-me confortavelmente, como imaginei a toca da raposa Salta Pocinhas, heroína imbatível da minha mais tenra infância. E nesse buraquinho serei feliz, até ao esquecimento absoluto.

quinta-feira, novembro 07, 2024

Um lugar infecto

     O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Para eles o ouro não chega a ser uma miragem. Nunca sairão daquele lugar infecto. "Que é o único lugar a que têm direito", pensou o homenzinho no guichet enquanto contava notas de 5 e 10 euros.

    O Pedinte e o Troglodita são extremos de uma linha sinuosa. O Pedinte não desiste da existência. Estende a mão, implora baixinho. Podemos não o ver mas não é porque seja invisível. É por sermos cegos. 

    O Troglodita é um gajo um pouco perigoso. Não percebe bem nada do que o rodeia. Tem feelings, por vezes feelings muito ásperos; tem sentimentos confusos. Antipatiza naturalmente com o Pedinte talvez por sentir que há entre eles algum tipo de competição. Por atenção? Por espaço? O Troglodita não compreende nada.

    "São umas bestas!" - o homenzinho do guichet não passa de um miserável (a vários níveis) mas contemplar aqueles dois maltrapilhos, que vivem e cagam no meio da rua, fá-lo sentir-se um nadinha poderoso. O suficiente para se imaginar uma personagem importante.

    O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Nunca sairão daquele lugar infecto.

quinta-feira, outubro 31, 2024

Momento perdido

     Ler e reler o que antes escrevera vestia-lhe o espírito com um fato confusor, como o de Fred, a personagem de K. Dick. "Não sou ninguém" - pensou ele. Na verdade queria dizer que poderia ser qualquer um, que seria sempre alguém, porventura alguma coisa. Tremiam-lhe as mãos.

    Quis escrever algo que fizesse sentido mas não foi capaz.

quarta-feira, outubro 30, 2024

Enfartamento

     Hoje sinto-me incrivelmente farto desta merda toda. Talvez amanhã tenha perdido esta estranha sensação de vazio, de falta de motivação. Motivação para quê? - perguntarás tu, leitor amigo. Também não sei, respondo eu. Motivação para nada, motivação para tudo ou apenas para alguma coisa. Suspeito que é precisamente por não saber do que estou a falar que sinto esta espécie de náusea, esta espécie de vertigem, este desgosto em relação ao mundo. E a mim próprio.

    Sinto-me incrivelmente farto desta merda toda.

segunda-feira, outubro 28, 2024

Fábula abstrusa

     Cantam passarinhos dentro desta minha cabeça. Piu, piu, repiupiupiu, cantam eles e eu avanço feliz, aos pulinhos pelo trilho da floresta. As árvores são de betão, as vacas deslocam-se sobre rodas, o prado é pintado de verde com umas pintas vermelhas aqui e acolá. São papoilas. 

    Não tenho tempo a ganhar, como tal não poderei perdê-lo. Um pterodáctilo passeia lá bem no alto, um macaquito sem pêlo olha-me de soslaio. Esconde qualquer coisa encostada ao peito ao virar-me as costas. Não me interesso por ele, muito menos por aquilo que esconde. Quero que o macaco se lixe. Prefiro dar atenção aos passarinhos que me esvoaçam no sótão. Piu-piu-piu-trólarópiupiu. A música é alegre e deixa-me bem disposto.

    Chego finalmente à escola. Tudo parece continuar no devido lugar. A bicharada esvoaça, rasteja, saltita, urra, pipila, zurra, tudo parece confirmar a torpe banalidade dos costumes. Quem tiver de comer haverá de fazê-lo, quem tiver sina de ser comido haverá de tentar escapar à dentuça alheia.

    Peixes grandes comem peixes pequenos.

terça-feira, outubro 22, 2024

Babel

     O Antigo Testamento é uma obra muito lida e muito comentada. Os exegetas cristãos esforçam-se por fazer leituras que não provoquem desconforto a Jeová, não vá o Diabo tecê-las. Assim, a tradição vai esclerosando o texto e nada de novo acontece. Ler a Bíblia é como ler o manual de montagem de uma estante do Ikea, está lá tudo muito explicadinho e não restam dúvidas, não há margem para erros de interpretação.

    Aconteceu-me recentemente com a passagem que refere a Torre de Babel (Génesis:11).

    Os exegetas interpretam a confusão linguística como sendo um castigo de Deus, penalizando a soberba humana, por pretenderem os homens construir uma torre que alcançasse os céus. Não me parece justo. Segundo a narrativa, a construção da Torre de Babel começa pouco tempo após o Dilúvio (esse sim, um inequívoco castigo divino, narrado em várias histórias anteriores ao texto bíblico, nomeadamente no Gilgamesh).

    Na minha maneira de ver, depois do Dilúvio a raça humana ficou traumatizada e terá sido o cagaço o combustível que pôs em andamento a construção da torre. Os homens não queriam aproximar-se fisicamente de Deus. Isso não faz sentido, qual a razão que os levaria a pretender proximidade com um ser incorpóreo que, ainda por cima, é omnipresente. Nem um macaco pensaria em semelhante patetice!

    Na minha maneira de ver, a construção da torre teve como principal motivo afastar os homens de um possível segundo dilúvio. Eles não queriam aproximar-se de nada, apenas afastar-se de nova subida das águas. 

    Então, porque haveria Jeová de impedir tal coisa? Porque Jeová é um Deus ciumento, vingativo e controlador e, evitando que os seres humanos conseguissem protecção nas alturas, conseguiria mantê-los sob pressão e ameaça, garantido desse modo que as suas leis e regras seriam mais facilmente observadas. Deus queria carneiros no Seu rebanho.

    Só não percebo muito bem porque carga de água criou Ele o homem se a carneirada lhe convinha muitíssimo melhor. Talvez por ser um Deus cínico? Se Ele criou o homem à sua imagem e semelhança decerto não lhe terá transmitido apenas a beleza simétrica que nos caracteriza. Somos bichos de personalidade bem vincada, Pai.

quinta-feira, outubro 17, 2024

Palavras em palco

     A palavra ou vem controlada, com intenção, ou transporta consigo uma certa dose de confusão e  arrisca-se a arrastar a cena penosamente. Os actores parecem improvisar o gesto com mais à vontade do que improvisam com palavras. 

    Tudo isto poderá confirmar a ideia de que precisamos de saber o que fazer no palco antes de nos atirarmos a fazê-lo. Mesmo os resultados positivos de uma improvisação são mais tarde recuperados em sessões de ensaio de modo a procurar um sentido mais estruturado para o seu significado. Não consigo imaginar os espectáculos idealizados por Merce Cunningham.

    Lá no fundo, a ideia é não sermos demasiado obcecados com regras na abordagem ao objecto artístico. Nem tão radicais como Cunningham nem tão rígidos como um ídolo cicládico.

domingo, outubro 13, 2024

Diálogo ao pé da escada

     - Mas isso é mentira!

     - Isto é mentira? Isto é mentira... mas em que mundo vives tu? Nos dias que correm a mentira é uma questão de opinião.

     - Então, e a verdade?

     - A verdade é um conceito plástico; molda-se de acordo com os teus objectivos. Porra, não aprendes nada comigo!?

     - Estou a tentar, mas não é fácil. Contigo nada é definido, nada é concreto, está sempre tudo a mudar. Uma coisa é isto e, um minuto mais tarde, essa coisa já se transformou em outra coisa. É confuso.

    - É confuso porque eu sou bom naquilo que faço.

    - Eu sei, mas é difícil acompanhar as tuas constantes mudanças de opinião.

    - Eu não mudo de opinião, limito-me a variar o ponto de vista, encaro as situações de diferentes perspectivas logo, a mesma questão admite uma certa variedade de respostas. Não aprendes mesmo nada comigo.

sábado, outubro 12, 2024

Dito repensado

     Comeram-me a carne mas não hão-de roer-me os ossos. Os meus ossos, quem os rói sou eu!

segunda-feira, outubro 07, 2024

Ai, ai...

     Estou confuso; não distingo verdade de mentira. Não distingo o primeiro do segundo nem uma coisa da outra. Estou confuso. Não consigo separar o erro da coisa certa e a verdade nem sempre parece ser a coisa certa. Estou confuso; a mentira, muitas vezes, corrige erros profundos, terríveis erros. Sinto-me confuso, ai, ai, sinto-me confuso.

domingo, outubro 06, 2024

Os nervos

    - Dói-me o sistema nervoso, ando a tomar uns comprimidos. Mas os comprimidos desarranjam-me a bexiga. E mijo como uma doida.

    - E depois?

    - E depois? Depois estou numa reunião, estou num ensaio, estou na cama e... tungas! Dá-e uma ânsia mijadeira que não me aguento.

    - Mas ficas bem?

    - Mal não fico, mas o bem que os comprimidos me fazem, mijo-o todo e voltam-me os nervos a ficar doridos.

    - Vives num autêntico circo vicioso.

    - É um circo com leões, com cães e com macacos!

sábado, setembro 28, 2024

A Arte Abstracta é coisa que se veja?

     A designada Arte Abstracta transporta consigo uma tremenda confusão. A Arte Abstracta é uma Cavalo de Tróia da Confusão. A Confusão entra em nós alojada no estômago da Arte Abstracta. 

    Tem tudo a ver com aquela coisa de se representar ou não aquilo que os os nossos olhos vêem ou que imaginamos ver ou lá o que é. Magritte terá tentado apunhalar o o dito cavalo pintando A Traição das Imagens mas o cavalo, além de ser de pau, é demasiado grande para que possamos importuná-lo com um punhal insignificante.

    E é assim que a Arte Abstracta sobrevive a todas as tentativas de esclarecimento sobre a sua origem, a sua substância e (pormenor menos interessante) para onde se dirige. A expressão é caricatural e, talvez por isso, assumiu um papel importante no imaginário popular. Quando se fala de Arte Abstracta toda a gente sabe o que ela é, apesar de não ser bem coisa nenhuma.

quinta-feira, setembro 26, 2024

Pinta, linha e plano

     Hoje apercebi-me daquilo que me parece ser um erro de alguma gravidade. Quando falamos em "elementos básicos da linguagem visual" referimos sempre o ponto, a linha e o plano. É uma sequência lógica que parte do mais ínfimo elemento dessa linguagem para o mais vasto. Partimos do princípio que estamos a referir conceitos tradutíveis por sinais gráficos, mas a coisa não é assim tão pacífica.

    Um ponto é, por definição, um lugar geométrico que resulta da combinação de um determinado conjunto de coordenadas. É uma abstracção, Como podemos pretender que uma pintinha no meio de uma folha em branco represente um ponto? Magritte mostrou-nos, com A Traição das Imagens, que uma pintura de um cachimbo não é um cachimbo. Logo, uma pinta não é um ponto. É uma pinta que, nas nossas monas, significa e representa um ponto.

    Assim, proponho que passemos a designar os elementos básicos da linguagem visual como "pinta, linha e plano", sabendo que a questão da linha ("é um ponto que foi dar um passeio", segundo Paul Klee) e a do plano (será uma recta a rebolar sobre si própria?) também merecem alguma atenção e muita, muita reflexão.

terça-feira, setembro 24, 2024

Cheirar mijo

     Tinha saudade do tempo em que as coisas eram como Deus quis que elas fossem. O tempo em que aquela senhora correria atrás do seu nariz, o tempo dos passarinhos cantando nos ninhos enquanto ele desceria a rua que desagua no Tejo; e a rua não cheiraria tanto a mijo. Havia de cheirar a mijo, mas menos, porque era um tempo em que as coisas eram como Deus quis que elas fossem.

    Se Deus quisesse que as ruas tresandassem a mijo daquela maneira talvez vivêssemos uma idade sempre média.

    No chão da praça espalhavam-se restos do passado e pairava um discreto cheiro a mijo adocicando a atmosfera. Um grupo de vadios grisalhos focava toda a sua atenção numa coisa qualquer que um deles segurava à altura dos narizes. 

    Na esplanada sentava-se um filho da puta perfumado de cuja existência já se havia esquecido. Lembrava-se bem de ser aquilo um autêntico cabrão, apesar das camisinhas e dos sapatinhos de vela, mas falhava-lhe o nome. 

    "Não preciso de me lembrar do nome daquele monte de merda" pensou "basta-me saber a porcaria que ele é". E cuspiu no chão. O desprezo que sentia abriu-lhe um pequeno orifício no peito da alma. Cheirava a mijo pra caralho!

sexta-feira, setembro 20, 2024

Continuar esta vida

     Cada vez mais se ouve falar em guerra nuclear. Aquela falta de ar que nos apoquentava nos anos 70, quando a palavra de ordem que ladrávamos era "no future", reaparece, vinda detrás de uma esquina da memória. Afinal esteve sempre ali, distraída, à espera, sempre ali esteve. A diferença é que já não sou um adolescente, sou um homem na casa dos sessenta. Tanto quanto sou capaz de perceber sinto as coisas de uma outra maneira.

    Há dias em que penso no tempo de vida que me resta. Calculo: 10, 20 anos? Talvez mais, talvez menos. Já me tinha esquecido da sensação de poder contar o futuro em meses, ou semanas, dias, horas. um míssil russo leva 3 minutos e 20 segundos a chegar a Estrasburgo. Minutos.

    Nada disto é agradável. Tento afastar pensamentos angustiantes, o que consigo com relativa facilidade. Pelo menos por agora. Ou será que ter vivido sessenta anos me confere algum desapego em relação à vida? Duvido. Duvido muito. Mas, a verdade, verdadinha, é que prefiro não tentar compreender. A verdade, verdadinha é que gosto da vida que tenho e preferia continuar a vivê-la. Se pudesse ser.

quinta-feira, setembro 12, 2024

Abstraccionismo Narrativo

      Faz hoje ou fez ontem 9 anos que inaugurei uma exposição de desenho, pintura e colagens à qual dei o título bastante descritivo de "Abstraccionismo Narrativo". Vasculhando um pouco aqui, o 100 Cabeças, encontrei apenas referência directa ao acontecimento neste post. Pelos vistos também eu não considerei a coisa digna de muito mais que uma referência lateral. Passados 9 anos sobre o acontecimento dou por mim a pensar que o conceito de Abstraccionismo Narrativo merece um olhar mais atento.

      O conceito de abstracção associado à criação nas artes plásticas remete para objectos que prescindem de uma linguagem visual que possa relacioná-los de forma mais ou menos imediata com o mundo que nos rodeia. Os primeiros passos deliberadamente nesse sentido terão sido dados por Kandinsky que, ao longo do trajecto, foi encontrando uma e outra situação capaz de tornar mais consistente o seu projecto artístico.

    O abstraccionismo de Kandinsky estaria relacionado com a invenção de um sistema criativo capaz de associar forma e cor numa espécie de tabela esquemática onde a influência da música foi também introduzida. Penso que vem daí o conceito, agora tão vulgar, de composição visual por associação ao de composição musical. Uma composição musical era formada por sons, tons, silêncios, tempos, a composição visual por linhas, pontos, manchas, cores, espaços vazios...  numa relação aparentemente fácil de estabelecer e de compreensão imediata, mesmo para os leigos na matéria.

    Várias e diferentes interpretações do conceito de abstraccionismo vieram à luz do dia, todas elas focadas essencialmente na questão da não representação da realidade aparente dos objectos e das formas que nos rodeiam. A criação abstracta não copia a natureza, cria uma outra natureza; não reproduz, acrescenta - ideias deste género ganharam pernas e foram à sua vida. Vamos então sendo educados para que, sempre que um objecto artístico não represente nada que possamos identificar através de uma relação reflexa com o mundo "real", possamos afirmar, sem tremura na voz, estarmos perante Arte Abstracta (assim mesmo, com "AA").

    Os meus trabalhos têm sempre referências formais mais ou menos identificáveis. O carácter fantástico ou repulsivo de certas figuras e outras bizarrias formais levam o observador ocasional a relacionar o que faço com um universo surrealista. Aceito e compreendo mas não posso concordar em absoluto. Foi a partir de conversas mais ou menos inocentes sobre esta questão que percebi a existência de uma fortíssima componente abstracta no meu trabalho, localizada no campo temático e narrativo. 

    Não retirei a literatura da pintura nem reneguei o mimetismo nos meus trabalhos mas as narrativas que desenvolvo podem ser absolutamente herméticas e eventualmente indecifráveis dada a forma absolutamente caótica como vou juntando referências de diferentes naturezas nos objectos que crio. Cada objecto se transforma numa aparente anarquia visual e narrativa (na verdade há sempre ali muita coisa meticulosamente pensada), propondo ao espectador que se confronte com aquilo que vê e crie, ele próprio, a sua história.

    Apercebo-me que este texto, indo já longo, não serve, nem de longe nem de perto, a exposição exaustiva do conceito mas, parece-me, explica o fundamento da coisa. Fico-me por aqui. 

segunda-feira, setembro 09, 2024

Caçar a ideia

     Perseguir uma ideia é como caçar. Apercebemo-nos de leves indícios, uma pista. Seguimos-lhe o rasto. Se intuirmos ser uma boa ideia perseguimo-la até onde for necessário desde que possamos apanhá-la. Seja como for, o resultado da caçada depende muito da natureza da ideia perseguida.

    Há ideias que quando se apercebem que estão a ser perseguidas esperam por nós de sorriso afivelado e se deixam capturar com alegria. Outras são esquivas e deslocam-se com uma rapidez incrível nunca deixando a protecção das sombras que povoam a nossa imaginação. Há ideias que conseguimos encurralar mas que nos resistem com heróica ferocidade por não quererem ser nossas. Ideias admiráveis. 

    Há ideias que são como borboletas, que se mascaram com grandes olhos e cores provocantes para confundirem os predadores e outras ideias que são como camaleões perfeitos. Embora saibamos que estão ali mesmo à nossa frente não conseguimos isolá-las nem distingui-las da paisagem. Movem-se com uma lentidão exasperante e, no entanto, são praticamente inalcançáveis. Ideias terríveis.

    Caçar ideias é uma actividade que poderá ter tanto de apaixonante como de frustrante. Importa saber o que fazer com uma ideia após a sua captura: se a destruímos, se a engaiolamos, se a tentamos domesticar ou a deixamos ir à sua vida. 

    Se a ideia gera algum tipo de expectativa em nós, seus captores, poderemos guardá-la, observá-la, ver como cresce e se transforma. Esse processo gera com frequência alterações tanto no captor quanto na presa engaiolada.

    Imagino que tenha sido assim que surgiram os primeiros deuses e, por consequência, nós tenhamos sido por eles criados.

Melodrama

     Procurava uma máscara que pudesse adaptar ao terror absoluto que lhe assaltava o sono. Todas as noites eram para ele lugares de tremenda insegurança. O sono vinha acompanhado de sonhos que eram, quase sempre, pesadelos. Ao acordar encharcado em suor sentia ténue alívio por adivinhar que se seguiria um dia inteiro a viver mais ou menos sossegado consoante se aproximava a noite. Na escuridão do seu modesto quarto  resistia como podia ao peso do sono que adivinhava outra vez tremendo. O cansaço acabava sempre por vencer. Fechados os olhos regressava o melodrama.

terça-feira, agosto 27, 2024

Vaidade e miséria

     Muitos de nós, precisam de sentir que são importantes. Para sermos felizes (ou algo aproximado) precisamos de sentir que outras pessoas escutam atentamente quando dizemos um disparate qualquer, que outras pessoas nos olham quando passamos na rua ou entramos na pastelaria; precisamos de sentir que não somos invisíveis, como o mendigo andrajoso, ali de rastos à porta do supermercado, invisível por ninguém olhar para ele. Provavelmente mal saberá falar.

    Pelas razões atrás expostas, muitos de nós falam aos gritos nem que seja para explicar como cozinharam frango cozido; vestimo-nos como palhaços de circo fingindo ter escolhido aquelas roupas por mero acaso (a graça é um dom) e fazemos vista grossa à miséria que à nossa volta prolifera. Acima de tudo fazemos vista grossa à miséria que arrastamos agarrada à nossa sombra projectada.

segunda-feira, agosto 26, 2024

Dúvida existencial

     Há coisas assim, coisas que se alimentam de si próprias e como que ganham vida se bem que a não tenham. Tantas pequenas merdinhas podiam ser compradas por tuta-e-meia! Coisinhas de comer como batatas fritas, tiras de milho, baldes de gelado, a escolha era muita e variada. 

    Ele alimentava a Angústia e o Desespero com igual desvelo e sentido de justiça. Engordavam juntos, os três. E, enquanto o seu corpo ganhava peso e volume, a suas protegidas floresciam imparáveis! O ecrã da TV por horizonte, a vida a entrar num declive acentuado e ele, implacável, continuava sempre, sem temor e sem remorso.

    Não será isto o Inferno?

quinta-feira, agosto 22, 2024

Um raio de luz

     O tempo tinha passado e ele imaginava não ter muito futuro. Nada fazia adivinhar que o fim estivesse próximo mas, como se diz, a idade não engana. Que fazer? 

    Pensou que seria agradável desfrutar de pequenos prazeres: uma musiquinha, um livro divertido, outro desenho, talvez numa superfície mais generosa. Mas, para quê? Para viver, ora essa! 

    Tudo isto lhe passava pela cabeça quando um raio de sol forçou passagem e iluminou o copo sobre a mesa. A estranha sombra que projectou distraiu-lhe os macaquinhos no sótão e ele sorriu para si próprio.

segunda-feira, agosto 19, 2024

Comunicação

    Estivera tanto tempo calado que havia esquecido o dom da fala. Observando uma mulher que passava no caminho, ao fundo da ravina, quis chamá-la. Abriu a garganta, abriu a boca, encheu os pulmões de ar e emitiu um som absolutamente aterrador. Lá em baixo a pobre mulher desatou a correr como se fosse doida, levantando uma nuvem de poeira que poderia confundir-se com a nuvem produzida por um pequeno exército em debandada.

    Abatido pelo resultado da desastrada tentativa, o eremita regressou à escuridão do seu buraco e meditou. Meditou durante muito tempo. Ao que se sabe a meditação não lhe restituiu o dom da fala mas levou o eremita a tomar a decisão de regressar ao convívio dos seus semelhantes. 

    Ainda hoje pedia esmola junto ao templo, protegido pela sombra da muralha. Todos julgam que ele é mudo. 

    Continua a meditar.

quinta-feira, julho 25, 2024

Impasse

    Contar uma história não é tarefa fácil, principalmente quando não temos a mínima ideia da história que queremos contar. Sim, porque uma coisa é querer contar uma história e outra coisa, bastante diferente, é sabermos que história é essa. Nesta situação encontramo-nos num impasse.

    No entanto, um impasse, este impasse, pode constituir um ponto de partida razoável para contarmos uma história. Imaginemos um início, uma primeira frase: "Ela queria contar uma história mas não sabia que história contar."

    Partindo daqui quem sabe onde poderemos nós ir parar!?

terça-feira, julho 23, 2024

Questão de perspectiva

     O espelho insistia em manter-se discreto; não reflectia, não especulava. Olhava-o com disfarçada insistência, de soslaio, tentando passar despercebido mas ele, o espelho, não reflectia. Nem especulava. Era como se eu não existisse apesar da consciência que me habitava (e ainda habita) e me fazia acreditar estar aqui.

    O problema prendia-se, exactamente, com esse tal "aqui". Aqui no mundo físico? Aqui, no mundo virtual? Ou aqui, reflectido no espelho?

    Uma vez que o espelho se recusava a devolver-me o olhar que lhe oferecia duvidei do meu ser. Imaginei-me vampiro, fantasma, imaginei ter passado para um qualquer estado de existência desconhecido e sem expressão física. Senti já ali não estar.

    Foi então que decidi avançar na direcção do espelho, interpelá-lo frontalmente, oferecer-me sem receio à prospecção que ele faria do meu rosto, do meu corpo, do meu ser. Desse por onde desse, fossem quais fossem as consequências, enfrentei-o.

    Ali estava o meu eu reflectido. Afinal não era um fantasma, nem nada daquelas coisas mirabolantes que imaginei; era eu mesmo, o ser habitual e imperfeito, o bicho, o homem, as mesmas dúvidas, as mesmas rugas, os olhos no lugar devido. O espelho não me reflectira por mera questão de perspectiva.

sábado, julho 20, 2024

Uma igreja na floresta

     Era uma vez um Pato casado com um Gato, juntos tiveram um filho a quem chamaram Cão. Viviam junto ao mar, numa floresta de árvores azuladas atapetada de estranhas flores. Viviam felizes a ladrar, a miar, a grasnar, a floresta ecoava alegria e boa disposição, o mar trazia nas ondas coisas agradáveis.

    Um dia o Cão conheceu o Tubarão e ficaram amigos. De quem eles não gostavam era do Pinguim, não simpatizavam com ele nem um bocadinho. Apesar de todos os esforços que fazia para soar bem educado, o Cão e o Tubarão achavam que o Pinguim era um convencido de merda por andar sempre de fraque; fizesse frio ou calor, nunca tirava a fatiota de cerimónia. Palonço!

    Fosse como fosse, tudo corria bem na floresta: vida fácil, alimento abundante, sol ou sombra, secura ou humidade, tudo consoante as necessidades de cada um e ninguém metia o nariz onde não era chamado. Um paraíso. Até que um dia Deus reparou na floresta e lembrou-se que a tinha esquecido. Como é apanágio de um Ser tão perfeito e completo, decidiu agir visto que tinha ideias muito específicas sobre o que era bom e o que era mau e, ao contrário dos habitantes da floresta, Deus não se estava a cagar.

    O Pato, o Gato, o Cão e o Tubarão não percebiam nada do que Deus lhes impunha. O Pinguim percebia mais ou menos. Farto de tentar explicar-se e não ter sucesso, Deus nomeou o Pinguim como seu sacerdote e incumbiu-o de zelar pela ordem e desenvolvimento das coisas divinas na circunscrição daquela floresta (onde nunca nada havia faltado). Nem alimento, nem comodidade, nem boa disposição. Ali o que mais faltava era tristeza, era violência ou falsidade absoluta.

    Deus nomeou o Pinguim seu sacerdote e lá foi, regular as vidas de outros animais, noutras florestas. A floresta de árvores azuis ganhou uma igreja que era coisa que nunca antes ali existira e da qual nunca ninguém tinha sentido falta nenhuma. Nem Deus.

    A partir daquela aquisição supérflua, a influência do Pinguim cresceu de tal maneira que o Gato, o Pato e o Cão, seu filho, fartos de tanta regra, tanta admoestação e castigos imbecis, se mudaram para perto da fronteira com o deserto. O Tubarão foi perseguir focas para outras paragens. O Pinguim inchou, inchou e ficou tão gordo que deixou de pôr uma pata que fosse fora da igreja. Mas isso já é uma outra história. A Girafa que a conte.

terça-feira, julho 16, 2024

Coisas que acontecem

     Não sei se também te acontece, há dias em que nada me convence e quase nada me comove. Dias em que não acredito em ninguém, em que não suporto a grandeza de gestos magnânimos e nem sequer chego a indignar-me com a baixeza de espírito que caracteriza certos estúpidos e a maior parte dos filhos da puta. Dias como este, em que escrevo as palavras que agora lês.

    Sinto uma espécie de vazio chato, um vazio mau. É mais um bicho que se me alojou ali entre o peito e o estômago e não me deixa sossegar, um bicho que me aperta o coração a ponto de eu soltar suspiros que há muito mantinha prisioneiros da minha boa disposição que entretanto vai tendo dificuldade em se manter equilibrada na única perna que lhe resta.

    Apetece-me fazer alguma coisa, seja o que for? Não. Não me apetece fazer nada mas ainda vou ter que me levantar, vestir uma roupa mais decente, sair de casa e ir ao teatro ver uma peça cuja perspectiva não me entusiasma por aí além. 

    A esperança é que esta aparente valente seca tenha um efeito regenerador, que a deslocação me desperte um pouco, que o teatro me anime, enfim, a esperança é que a vida aconteça e que o tal bicho vá chatear outro. Não sei se já te aconteceu.

sábado, julho 13, 2024

Ser (o fantasma)

     Pode a invisibilidade crítica provocar azedume ao ponto de causar forte azia e levar o invisível (o fantasma) a vociferar que nem um porco? Pode. Pode o anonimato levar o anónimo (o fantasma) a desesperar ao ponto de pensar em largar os pincéis e dedicar-se à pesca com cana e anzol? Pode. Pode a falta de reconhecimento público fazer crescer dentro do ignorado (o fantasma) uma inveja biliosa que ele confunde com injustiça? Claro que sim, pode.

    Pode um gajo persistir em fazer pintura, desenhar, imaginar e sonhar, década após década sem que nada de relevante aconteça e ele (o fantasma) se vá esquecendo de quem foi, fique confuso com aquilo que é e, apesar de tudo, deseje ser algo diferente (do fantasma) um dia que ainda está para vir. Sim, pode (que aborrecido). "Pode alguém ser quem não é?" Isso, agora...

quinta-feira, julho 11, 2024

Reflexão indolente

     O discurso da crítica, estou a pensar na crítica das artes plásticas mas penso que a coisa se pode estender a outros géneros de expressão artística, vive muito do gosto pessoal de quem critica. É pouco justo? É. É potencialmente faccioso? Sem dúvida. Parcial? Vale a pena continuar a desfiar as contas deste rosário? É tudo isso e um par de botas. 

    Mas, outro aspecto interessante deste, chamemos-lhe: universo, é o facto de haver muita arte produzida por muitos artistas que, simplesmente, não existe (nem a arte nem o artista). Ou melhor, existe num limbo muito particular que é o da invisibilidade crítica. Como se rompe este véu que impede o público de ver o que está em causa? Também não sei.

    Na verdade tenho cá a impressão de que as coisas poderiam ser de outro modo, poderiam ser diferentes, poderiam... mas não são. São assim mesmo e eu, continuo a dizer a minha (já velha) frase: eu sei que não existo, no entanto estou aqui.

quarta-feira, julho 10, 2024

Amizade genuína

     Será a solidão o mais assustador dos problemas que um ser humano pode encontrar ao longo da vida? Há quem diga que não tem medo da morte mas que a perspectiva de viver uma vida solitária sim, é coisa que lhe provoca desarranjo intestinal. 

    Nos tempos que correm não sei bem o que possa ser considerado "solidão". Todos nós temos dezenas, senão mesmo centenas, de amigos no Facebook. Eles nunca irão abandonar-nos, nunca ficaremos sós. Logo, a solidão parece-me um falso problema (há ainda o Instagram,o TikTok, eu sei lá que mais!).

    A menos que a ausência de toque, de calor humano, a ausência efectiva de um corpo real na nossa zona de acção seja considerado "solidão", o mundo virtual encarrega-se de nos preencher o dia-a-dia, encarrega-se de nos oferecer um objectivo de vida (ou vários). 

    O computador, o objecto em si, é um amigo (tocamos-lhe, sentimos o seu calor, ouvimo-lo, falamos com ele e através dele...), o computador é um amigo e um amigo fiel, diria eu!

    Fico já por aqui, não te chateio mais: se pretendes uma amizade efectiva e genuína olha bem para o objecto que tens à tua frente (se estiveres a utilizar um telemóvel também serve) e sorri-lhe. Ele merece-te e tu merece-lo a ele. Sejam felizes!

terça-feira, julho 09, 2024

Gravidade

     Por vezes dou por mim muito longe de mim próprio. Logo a seguir é como se acordasse subitamente de um vôo planante sobre o meu corpo e nele caísse vertiginosamente, por ele sugado como só o nosso corpo nos pode sugar quando, por momentos, o havíamos esquecido. Slurp! Estou de regresso.

    É difícil explicar por palavras estas coisas que parecem não acontecer mas que acontecem. É como quando estou a desenhar ou a pintar. Nessas ocasiões é bastante comum perder-me na floresta dos minutos. Entro na floresta e logo me deixo envolver pelo silêncio, pela frescura, pela doce escuridão do seu espaço. E pinto como se caminhasse, sonho como se escrevesse, divago como se alma e corpo fossem coisa única; ocasiões houve em que tive a sensação de sermos coisa universal, ínfima parte do Todo.

    A lista das maravilhas é mais extensa, sei que é, mas de momento estou incapaz de acrescentar mais o que quer que seja. A realidade é a força da gravidade do espírito.

segunda-feira, julho 08, 2024

A Santa oculta

     Estou numa posição que não me permite ver o écran, ouço apenas as vozes que saem da televisão. Passa um noticiário. A pivot fala de alterações climáticas, refere temperaturas abrasadoras algures, um pouco ou muito longe daqui. Depois refere um ataque russo a Kiev sublinhando o número de mortos. A sensação que tenho é que ambas as notícias soam a coisas distantes, algo que não nos acontecerá aqui, no cu da Europa.

    Os mísseis russos, por enquanto, não me parecem ser coisa a temer. Já a caloraça... se vivesse no interior talvez começasse a pensar mais seriamente no assunto. 

    Os noticiários internacionais dão sempre a sensação de que aqui no cantinho estamos seguros, estamos protegidos. Concluo que, embora na cabeça do povão seja a Nossa Senhora de Fátima quem olha por nós, é a Geografia quem nos protege verdadeiramente. A Santa Geografia.

    É de ponderar a possibilidade de escrever uma cartinha ao Papa a sondar o que poderá Sua Santidade pensar sobre tão abstruso e delicado assunto.


sexta-feira, julho 05, 2024

Bestas

     O espaço virtual coloca-nos perante estranhas situações que, com o passar do tempo, se vão tornando menos estranhas. Uma dessas situações é o que acontece quando "encontramos" um estranho e com ele estabelecemos contacto. Pode acontecer, por exemplo, na caixa de comentários de um jornal. O nosso interlocutor reduz-se a uma designação (raramente o nome verdadeiro da entidade) e um pequeno texto escrito no qual emite a sua opinião (ou algo parecido) relativa a uma notícia ou, aí está, a uma opinião que nós próprios publicámos.

    Quando entramos em diálogo a coisa pode tomar caminhos inesperados. A ausência de contacto físico impele com frequência os dialogantes a tomarem atitudes menos civilizadas e muitas vezes a conversa descamba. É aí que a coisa se torna interessante ao mostrar que, escondidos na sombra do anonimato virtual, somos bestas em potência.