quarta-feira, agosto 05, 2020

Ausência

Acontece de cada vez que regresso à cidade onde vivi até aos meus 18 anos de idade. Venho com muito tempo de intervalo entre cada visita e, como seria de esperar, não percorro todos os trajectos que preencheram o meu passado. É por isso que, de vez em quando, me acontece esbarrar com lugares que, estando ali mesmo, à minha frente, são lugares que já não existem.

Hoje vi o lugar onde já não existe a casa onde habitou o meu avô. Já lá não está o gradeamento, nem o portão, nem as escadas gémeas que subiam até ao patamar da porta com o batente de ferro em forma de mão. Já lá não estão as japoneiras, nada resta do meu passado. Agora há um prédio em construção com operários a suar sob um sol abrasador, tudo isto produz um estranho silêncio dentro de mim.

Fiquei estúpido, a olhar. Tirei uma foto com o telemóvel que enviei ao meu irmão com a legenda: "A casa do avô Mário!"

O meu irmão não respondeu.

domingo, agosto 02, 2020

Os bichos

Cada vez mais sinto que a espécie humana é uma espécie usurpadora deste mundo em que vivemos. Tomamos tudo o que podemos violentando a natureza, assassinando outras espécies animais, alimentando-nos delas com prazer; pretendemos acreditar que estamos no nosso direito, que Deus criou o mundo para proveito da Humanidade fazendo do planeta Terra uma espécie de reserva natural para o Ser Humano. Talvez Deus nos visite de tempos a tempos para nos observar como fazem as nossas crianças em visita ao jardim zoológico.

A nossa dimensão animal é, de todas as que compõem o espírito, a mais expressiva. Sensibilidade e inteligência são meros adereços; somos bichos. O senso comum acredita que somos os únicos bichos inteligentes mas já percebemos que isso não é verdade. Então, se não temos o exclusivo da inteligência, justificamos a nossa existência com o conceito de civilização: somos os únicos civilizados, o que é, igualmente, muito discutível. De cada vez que percebemos ser impossível olharmo-nos ao espelho sem ver um monstro tentamos uma nova maquilhagem que nos dê um aspecto menos odioso. Trabalho árduo e inglório.

Que nos resta senão aceitarmos que somos bichos?

sábado, julho 25, 2020

Irritação e fúria

Não sei se a ti também te acontece, caríssimo leitor, não sei se te irritam profundamente os noticiários incendiários, literalmente incendiários, nos quais se fala do medo, da tragédia, do terror causados pelos fogos de Verão. De súbito um Portugal anónimo, perdido dentro de si próprio, surge em nossas casas na moldura da TV.

São aldeias esquecidas, habitadas por pessoas curtidas pelo sol e pelo frio; mulheres rijas e homens de boné com as faces semelhantes a cascas de árvore; aldeias invadidas pelo fumo, pelos bombeiros e por aqueles que me irritam à quinta casa: os repórteres de TV incumbidos de nos falar em directo. Não consigo aturá-los nem um bocadinho. Se tenho o comando na mão salto imediatamente para outro lado, se alguém insiste em assistir a esses directos, saio da sala o mais depressa que me é possível.

Os directos irritam-me, de um modo geral, mas os dos incêndios enfurecem-me. Sinto ali a marca do vampiro. As pessoas embasbacadas, atordoadas, tentando encontrar uma forma de combater a adversidade e um caramelo qualquer, de microfone em punho a fazer aquela excelente pergunta: como é que se sente? Foda-se! Isso é coisa que se pergunte, em directo, a uma pessoa desesperada?

Quando não estão a perseguir desgraçados fazem eles o papel de desgraçadinhos. Plantados defronte à câmara de filmar com fumo e fogo no enquadramento, ao fundo, debitam tolices e informação, as mais das vezes, redundante, desinteressante, caninos cravados na jugular da catástrofe a chupar, a chupar, a chupar. Não consigo aguentar tanta nojeira.

domingo, julho 19, 2020

Mitologia de taberna

A Dúvida é meia-irmã da Consciência, geradas na união da mesma mãe, a Verdade, com pais diferentes, ambos incógnitos e arredios, como tantas vezes acontece, pais que um dia foram comprar fósforos para acenderem o cigarro no fim da refeição nocturna e nunca mais voltaram. A Verdade é assim mesmo, enganada uma e outra vez por parceiros sedutores e pouco honestos. Cabrões aproveitadores.

E lá cresceram juntas, as miúdas, num lar problemático, discutindo amiúde, discordando por tudo e por nada. A Dúvida sempre insegura, a Consciência descobrindo a cada passo princípios orientadores do pensamento mas nunca capaz de os demonstrar de forma inequívoca. Pobre mãe, a Verdade, hesitante na educação das suas crias, amando-as por igual, eternamente.

Esta abstrusa mitologia de taberna é, toda ela, protagonizada por personagens femininas e quase sempre discutida e enriquecida por homens bêbados que se distraem e confundem, observando o Mundo através de lentes distorcidas, mais propensas a produzir cegueira que capazes de definir os contornos das coisas com um mínimo de rigor e clareza.

terça-feira, julho 14, 2020

O futuro até pode já ter acontecido

O futuro começa a tomar forma. O "sonho americano" revela-se "notícia falsa" e o "pesadelo chinês" parece ganhar força, alastrando no mapa planetário. Onde se encaixa a União Europeia nesta ordem mundial que se redesenha? Seja qual for o modelo onírico prevalecente será sempre o dinheiro a ditar os contornos definitivos da coisa social.

Deus reaparece em força. Ele sempre andou por aí. Já se sabe que os americanos confiam nele (afirmam-no nas notas de dólar), que os iranianos obedecem à sua lei, que os turcos são um povo devoto e os brasileiros acreditam que Deus é natural do Rio de Janeiro. Sabe-se também que Paulo Portas é confidente da Virgem Maria, que Putin se vem convertendo em ícone russo e que Israel é o povo escolhido e tudo o que faz é mero reflexo da vontade inquestionável e inatingível de Jeová. Esta acumulação patética de hipocrisia e agressividade moral tem muita influência na definição dos traços carregados que contornam o futuro.

As coisas acontecem num determinado momento, o ponto exacto da quebra, da transformação de algo numa outra coisa. Pode ser amanhã, daqui a dez anos, pode ter sido agora mesmo ou até, algures, no passado sem que nos tenhamos apercebido da importância radical de um qualquer acontecimento que desviou o futuro daquilo que imaginávamos que viria a ser. O tempo do comboio a vapor acabou há muito. Hoje dirigimo-nos para o nosso destino a bordo de um comboio-bala desenfreado. A chegada à estação não se adivinha auspiciosa.

À medida que vou escrevendo estas palavras uma pergunta vai-se formando no meu espírito inquieto: e se o futuro já tiver acontecido?

quarta-feira, julho 08, 2020

Pretensão e água-benta

Ai, as palavras (suspiro). Como podem elas enredar-nos o entendimento e pescá-lo como se fosse carapau do gato! A comunicação feita assim, à distância de um teclado, na solidão de um ecrã, ganha muitas vezes a rigidez de uma estátua de mármore plantada num jardim, a imitar vagos ecos de uma antiguidade desconhecida.

A frase anterior, por exemplo, que coisa pomposa e, temo bem, confusa como o caraças. Na minha cabeça faz sentido, a metáfora até funciona, mas tenho a sensação que para ti, amigo leitor, possa não se parecer com nada. Ou talvez ganhe um significado inesperado, o seu sentido a escorregar-me da ponta dos dedos como uma enguia furtiva. São palavras.

Queria eu dizer que a comunicação a distância, sem presença física, se presta a parecer algo que não passa de cópia farsola de uma conversa verdadeira e que, ainda por cima, quando rebuscamos as palavras, poderá tornar-se pretensiosa.

Lá no fundo é o que este post é: pretensioso. Mas não era para ser, garanto-te, quando comecei a escrever o texto não fazia a mínima ideia de que iria acabar, precisamente, aqui.

terça-feira, julho 07, 2020

A Fé e as máscaras

Estou confuso. Não sei se estou confinado ou antes pelo contrário. Saio de casa com a máscara sempre à mão, esguicho gel na entrada das lojas (já me caiu num pé, já por várias vezes falhei o alvo) e também à saída. Chego a casa e descalço-me, lavo as mãos e pronto. É tudo. Novas rotinas.

Fico sempre com a sensação de que estes hábitos que se vão entranhando têm uma eficácia limitada mas, seja como for, evito ignorá-los. É como aquele dito de quem não acredita em bruxas.

O distanciamento social vai funcionando. Agora há em todo o lado marcas no chão. "X" vermelho - não passar; seta verde - avançar por aqui; linhas amarelas - stop, é fronteira intransponível, muro imaginário, limite a respeitar. Tudo isto me parece um tanto apatetado mas respeito. Socialmente sou um tipo atreito a regras, mesmo aquelas que me deixam na dúvida.

Acredito piamente que tudo isto irá acabar um dia. Tenho fé.


quarta-feira, julho 01, 2020

Complexo da avestruz

Enquanto os sinais de desmoronamento civilizacional se adensam à nossa volta nós ansiamos regressar à normalidade, um novo "Ó tempo, volta pra trás" sem a Severa na história mas com o desejo de que o sol nos ilumine a paisagem que se estende para o lado de lá da janela. É o "novo normal".

Mas, para um "novo normal" terá de existir uma nova anormalidade, como é óbvio. É o Yin e o Yang, o Tom e o Jerry, Deus e o Diabo, a velha história da beleza do mundo, o equilíbrio entre luz e treva, o risco de habitar na penumbra. Será a existência da vida enformada naquela merdice do "eterno retorno"?

Resta-nos a velha táctica da "fuga para a frente"? Fugir para trás, ao que parece, está fora de questão. Há ainda imensos areais com muito espaço para enterrarmos as nossas cabeças.

domingo, junho 28, 2020

Haja saúde

Ele há coisas que acontecem, outras coisas, nem por isso. Há perguntas que me apetecia mesmo, mesmo, mesmo fazer mas que, por razões tão obscuras que me envergonham, prefiro calar e esquecer. Esquecer o quê? De que perguntas estaria eu a falar? Está esquecido.

Não sei se é sinal de crescimento e, sendo, crescimento do quê? A cada dia que passa, cada semana, cada mês, desde o início do confinamento, sinto uma espécie de desencanto que me vai pavimentando o coração até o aplanar e endurecer com uma crosta de descrença. Descreio da nossa capacidade de regenerar a sociedade, da nossa capacidade de assinar um armistício com o planeta, descreio da nossa marcha em direcção ao futuro de tal modo estamos encerrados nos preconceitos que nos construíram o passado.

Será isto um reflexo de aproximação à terceira idade? Esta pergunta atrevo-me a fazê-la mas a resposta é iludida por uma outra questão: o que é a terceira idade? Olho para a terceira idade como um reflexo da idade de reforma, a cada ano que passa ela avança mais uns meses, mais uns anos e nunca mais chega. Mas, o facto indesmentível, é que estou cada vez mais próximo dela (da terceira idade, da reforma), assim Deus me dê saúde e não me interrompa o contrato antecipadamente nem me ponha em lay off com alguma doença daquelas que, não nos matando, nos incapacita por tempo indeterminado.

Esta coisa da pandemia veio confundir a minha alegria de viver, aumentar as dúvidas, azedar certezas. A única coisa que não consegue incomodar é o amor que sinto pelas pessoas que me são mais próximas. Haja saúde!

terça-feira, junho 23, 2020

Discurso indirecto

Há gajos a quem se dá um bocadinho de corda e vão por aí fora: falam, falam, falam, principalmente se o tema forem eles próprios. Falam do que sabem e do que não sabem desde que isso lhes sirva para polirem um bocadinho mais a ponta do seu nariz. Há gajos deslumbrados consigo próprios. Emproados, vaidosos, convencidos de que há dentro deles um poço sem fundo prestes a ficar pleno de sabedoria. Mas, não o somos todos? Deslumbrados com a imagem que fazemos de nós próprios? Sábios incompreendidos? Sei que alguns têm baixa auto-estima mas esses são uma minoria. Serão? Espera aí, paciente leitor, que faço eu? Estou com a corda toda! E falo, falo, falo, pouco dizendo que se aproveite. Ainda por cima o tema não sou eu próprio... ou serei? Escrevo estas coisas para me convencer de que há algo de substancial no meu pensamento? Isto é o meu pensamento? Se não me ponho a pau dou tal polimento à ponta do meu nariz que ainda fico ofuscado pelo reflexo da luz a incidir sobre ele. Calo-me. Paro de escrever. O melhor será reflectir sobre o assunto. Calado.

domingo, junho 21, 2020

Escassez de sorrisos

Andamos todos mascarados. Imagino que para uma criança com imaginação unicórnica isto seja um manancial infinito de situações maravilhosas. Para mim, que já vou sentindo alguns músculos a chiar, isto da mascarada contribui fortemente para me deixar acabrunhado.

Ainda por cima, cá em casa, temos umas máscaras de plástico transparente que nos deixam o sorriso à mostra. Quando vou a um local onde todos somos obrigados a usar a máscara, continuo a sorrir com a cara toda mas os que me respondem sorriem-me apenas com os olhos. Ou então nem sequer respondem ao meu sorriso de igual modo, nem sempre dá para perceber.

Se a imposição da máscara se mantiver por muito mais tempo decerto se vulgarizarão modelos mais arrojados que a vulgar máscara cirúrgica. As grandes marcas irão colocar no mercado máscaras distintivas, símbolos de poder económico, não obrigatoriamente de bom gosto. As marcas desportivas desenvolverão máscaras que melhorem a filtragem do ar, empreendedores imaginativos lançarão modelos extravagantes.

Nos tempos que correm faltam sorrisos, vão sobrando olhares. Os sorrisos fazem-me falta.

domingo, junho 14, 2020

Sonho de Verão

A praia estava vazia. Não se via ninguém no extenso areal.Talvez houvesse gente para lá das dunas mas, para já, não fosse o mar era um deserto. Saltaram do bote, pés em terra, um consolo! Um deles deu uma corridinha, braços ao ar, gritando como uma criança: iupi, iupi, iupi! O mais alto - barba comprida, olhar fechado, braços como troncos de árvore - fez um gesto elevando a mão em concha na direcção do céu cinzento e disse "esta praia é minha". Sem entoação particular nem emoção sensível. Apenas aquilo, aquela praia, agora, era dele. Os outros homens pareceram contentes com a declaração do chefe.

Palavras não eram ditas quando viram surgir na linha em que a duna tocava o céu um grupo de outros homens. O caldo estava entornado.

quinta-feira, junho 11, 2020

O tempo dos monstros

O clima é de conflito latente. Talvez seja exagero chamar-lhe clima de guerra mas que é propício à bordoada, disso não tenho grandes dúvidas. 

Habituámo-nos a pensar que a Democracia se constrói com base no diálogo, na confrontação de ideias que estão na base de perspectivas diferentes para a organização da sociedade. Imaginámos que seria possível perpetuar esses sistema de funcionamento, delegando os nossos interesses em representantes eleitos que procurariam consensos nos Parlamentos, buscando soluções adequadas e tendo como finalidade o bem comum. 

Tudo isto só poderia correr bem pois um desses objectivos seria a educação das populações, a elevação da sua capacidade de reflexão e discernimento. Com uma sociedade cada vez mais informada o Nirvana começava a desenhar-se no horizonte próximo. Só faltavam os unicórnios e os passarinhos.

Esquecemos a tendência natural do ser humano para a boçalidade, a agressão e a necessidade típica do macho em ser o bicho dominante, o líder da manada. A Democracia revela-se demasiado frágil precisamente num dos seus aspectos mais importantes: a tolerância.

Nos tempos que correm o diálogo não ultrapassa o nível da conversa de surdos. E, como qualquer conversa de surdos, degenera em gritaria. As ideias transformam-se em verdades absolutas, o consenso é uma impossibilidade. Erguem-se barreiras de incompreensão que se transformam em barricadas. Estamos prontos para o que der e vier.

Precisamos de estar alerta, precisamos de elevar a nossa capacidade de conter a raiva e continuar a procurar o diálogo. Alguns antagonistas recentes poderão ser os nossos aliados do futuro próximo. Para mantermos a possibilidade de uma sociedade democrática devemos identificar com clareza os verdadeiros inimigos mortais, para os derrotarmos alianças estranhas terão de ser estabelecidas. A sobrevivência daquilo em que acreditamos exige atitudes extraordinárias.

Vem aí o tempo dos monstros.

segunda-feira, junho 08, 2020

Uma questão de sorte

Longos diálogos, ideias curtas e um sol abrasador a bater-lhe na testa faziam com que a situação fosse mais penosa do que estranha. Não havia trânsito a atrapalhar, nem havia cães vadios, nem vizinhos à janela, não havia quase nada a não ser aqueles dois vultos inconstantes que não paravam de dialogar. Mantinham uma conversa capaz de fazer adormecer um muro de granito.

Pousou a mão pelo bolso traseiro das calças. O livrinho continuava lá, aconchegado, provocando um calor do caraças, à espera de ser lido. Mas, por educação, seria necessário aguardar uma pausa na conversa dos fantasmas antes que pudesse ler as últimas páginas que haviam de revelar o desfecho do romance. O sol, a conversa, a curiosidade, tudo concorria num ponto único dentro da cabeça dele, como setas voando em direcção ao alvo.

O espectro da esquerda pareceu tremelicar e o da direita perdeu definição, começando a assemelhar-se a uma nuvem de fumo de cigarro muito espessa. Ainda assim continuavam, incansáveis, dissertando sobre um mundo que ele desconhecia em absoluto. Impossível reconhecer o que quer que fosse daquela conversação. Paisagens inimagináveis, situações abstrusas, coisas do Além.

Foi então que se lembrou de soprar.

E fez como o Lobo Mau; encheu o peito de ar até ficar com os ouvidos a zumbir e soprou, soprou, soprou, sentindo as têmporas a latejar, o peito a esvaziar-se de forma violenta. De imediato os fantasmas se enrolaram um no outro e se dissolveram na atmosfera brilhante e dura daquela tarde de Verão. Aquilo foi pior que má educação mas a leitura vale tudo!

Pegou no livro, leu as últimas páginas e ficou desiludido com o que aconteceu ao protagonista da história. Já não havia nada que pudesse fazer para trazer os fantasmas de volta. Resignado, dirigiu-se ao quiosque para comprar outro livrinho. Talvez com este tivesse mais sorte.

quinta-feira, junho 04, 2020

Ocupar o corpo

Dom Quixote (volume2), Pais e Filhos de Turgueniev, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro de Machado de Assis, assim tenho vogado na canoa das minhas leituras neste charco pestilento da pandemia. Devagar,lentamente, remando umas vezes, outras deixando-me ir na correnteza; umas quantas páginas por dia.

A literatura é um prazer.

Ontem comecei um livrinho de Simenon editado na Colecção Vampiro, o primeiro que leio com o Comissário Maigret como protagonista. Tenho ali mais uns quatro ou cinco que trouxe da casa de São Miguel que ainda contém, em repouso, os livros do meu avô. Dezenas de "vampiros" me aguardam.

Talvez devesse dedicar mais tempo à literatura mas o jornal, o computador e, sobretudo, a pintura e o desenho, ocupam-me boa parte do dia. Por vezes sinto a tentação da escrita mas acabo a distraí-la aqui, no 100 Cabeças, e fico satisfeito por não me dispersar ainda mais.

Tudo isto me cheira a matança do tempo mas algo me diz tratar-se de ocupação do corpo. Ficamos assim.

domingo, maio 31, 2020

O regresso dos fantasmas

Fazer regressar fantasmas do passado, ainda que fantasmas simpáticos tipo Gasparzinho, pode não ser a melhor das terapias em tempo de desorientação e ansiedade. Ainda assim, que se lixe, venham eles! E eles lá vêm, regressam informes ou com aspectos diferentes daqueles que recordávamos.

Um paira dois palmos acima do chão, é um amontoado de carne, pêlos, músculos expostos, tudo amalgamado sem tino nem propósito; outro arrasta uma perna de frango ensanguentada no lugar que deveria ostentar um belo pé esculpido à maneira de Fídias e tem uma cabeçorra de meter medo ao susto. Um terceiro é apenas sombra, apenas ausência, este é, de todos, o mais angustiante.

Vão passando como num desfile de moda tenebroso. Alguns vão ficando por ali, encostados aos cantos, colados ao tecto, olhares vazios, bocas fechadas, outros não mostram vontade de ficar e dirigem-se para lá dos limites da realidade. Este mundo não é para eles.

quinta-feira, maio 28, 2020

Um momento

Havia ali uns gajos, uns músicos sentados na penumbra do palco, a imitarem a morte na forma como retorciam os seus instrumentos sonolentos.

Não consta que alguém tivesse falecido ao observar a função. Diz-se que alguns estiveram lá perto mas, naquela noite, só morreram doentes no hospital que ficava num outro quarteirão.

Cromo

Pode parecer snobismo meu. Decerto que é. No fundo sou um snob de merda. Não suporto a indiferença alheia e armo-me em campeão. Imagino-me vencedor eterno do campeonato da inteligência. Não tenho rival à altura. Venço sempre.

Leio o que outros escrevem: (bocejo) é que é só banalidade! Que frouxidão argumentativa, que tédio lexical, que incongruência absoluta naquela vírgula, naquele ponto que não poderia ser final. De forma alguma. Escrevo muito melhor.

Vejo o que outros desenham. San-to-de-us! Gatafunhos, tremideiras, hesitações, cromatismo primário (não no conjunto das cores aplicadas mas na forma como são conjugadas). Enfim, cambada de amadores ineptos. Imbecis que se imaginam algo que nunca virão a ser. Nem sonham.

Poderia continuar. A lista das maravilhas de que sou capaz é imensa (não sou tão vaidoso que a considere infinita) e não há quem se me compare. Mas fico-me por aqui. Já dei um cheirinho do perfume requintado que é o meu ser, o resto imaginá-lo-ias se fosses capaz de compreender a sombra com que cubro a tua existência miserável.

Um dia erguer-me-ão uma estátua.

domingo, maio 24, 2020

Desenho e pintura

Muita reflexão também não faz bem a ninguém. Ainda menos bem fará se for espicaçada por uma situação de confinamento. Uma gajo metido entre paredes contra vontade deveria evitar muita meditação sobre as questões habituais: "quem sou eu" (ou "o que sou eu"), "o que faço aqui" (pois, lá está, esta pergunta refere-se ao mundo, eventualmente ao universo, não à sala de estar ou ao quarto de banho) e, last but not least, "para onde vou" (vou para o quarto, vou para a cozinha)? Como facilmente se percebe estas questões, nos dias que ainda correm, estão todas armadilhadas, trazem coletes explosivos a envolvê-las e podem rebentar inadvertidamente.

Vivemos tempos propícios ao reforço da saúde dos macaquinhos que normalmente nos habitam o sótão. Da parte que me toca tenho evitado o espelho. Não é que seja pessoa assídua na contemplação da minha própria fachada, não é meu costume mirar a paisagem do corpo que habito, mas tenho tido um receio acrescido de olhar para os meus olhos. Dias há que os sinto mortiços, caídos para dentro e, verdade seja dita, prefiro poupar-me a semelhante espectáculo.

Estranhamente a leitura também não me tem puxado muita atenção. No início desta coisa pensei que iria ler e ler e ler, mas não. Tenho lido pouco.

Resumindo, a vida vai-se arrastando. A única coisa que me vai valendo, para lá da proximidade da família mais chegada (ah, como amo a minha família!) é o desenho e a pintura.  "Desenho e pintura?" dizes tu, "Isso são duas coisas!" Não são. Desenho e pintura, quando vêm juntos,são uma e a mesma coisa. E é essa coisa que me tem valido e ajudado a manter distraídos os macaquinhos e o sótão razoavelmente limpo.

sexta-feira, maio 22, 2020

Lição leonina

E é assim. Anuncia-se uma nova normalidade para os tempos futuros. Que faremos desta (futura) velha anormalidade? Iremos nós apagar o isolamento voluntário, transformá-lo em isolamento forçado ou iremos simplesmente aguardar que tudo se dissolva nas voltas do tempo? O tempo tem peso? O tempo ocupa espaço?

Já se nota o desafogo. As pessoas andam com fome de rua, estão capazes de comer pedras da calçada. Já começamos a cagar para o confinamento, o confinamento que se foda! Ansiosos por fazer do presente um qualquer passado longínquo fingimos nunca termos acreditado na nossa própria morte às mãos do novo coronavírus (até porque mãos são coisa que ele não tem).

E é assim, começamos a sentir aquela coragem que nos nasce no peito quando o medo passa e ganhamos uma certa sobranceria, quando o perigo passou somos todos uns valentes. Torço o nariz a tudo isto. Sinto-me como os porquinhos da história quando o lobo aparece vindo do nada depois de termos imaginado que regressara em definitivo à profundeza perdida da floresta (estou a inventar à pressão a história dos 3 porquinhos).

Bem vistas as coisas havemos todos de esticar o pernil, a nossa civilização baterá a bota, tal como outras bateram a sandália ou lá o que calçavam os que as ergueram das cinzas da civilização anterior. É o ciclo da vida. Aprende-se no Rei Leão.

domingo, maio 17, 2020

Normalidade suicida

Veio o calor, veio o sol, regressou uma certa descontracção. As notícias sobre os números da pandemia começam a enfraquecer o temor da populaça. O primeiro ministro dá o exemplo e passeia com a sua mais-que-tudo pelas lojas de Lisboa fazendo compras, que é preciso espevitar a economia. Tudo isto com máscara e distância social conveniente.

Os que sempre rejeitaram o confinamento olham para tudo isto com um esgar de desdém, os que viveram convictamente o isolamento vão espreitando, receosos, a ver no que isto dá. Acontece em Portugal e um pouco por toda a Europa. O mundo inteiro vai aquecendo os motores. A Natureza, se tiver consciência, há-de estar a lamentar o fim anunciado deste tempo de descanso que ainda vive e vai-se preparando para o regresso em força de todas as formas de agressão habituais.

É o lento regresso à normalidade suicida.

quinta-feira, maio 14, 2020

Paradisíaca pasmaceira

Reflectindo um pouco sobre a imagem canónica do Paraíso, o Jardim de Éden ou das Delícias Terrenas, verificamos que é um lugar pouco apetecível para os potenciais novos crentes, habitantes do século XXI.

A Árvore da Vida, a nascente dos 4 rios, o sossego total (uma inesperada muralha de fogo em toda a volta) não são grandes cartões de visita. Já a espectacular polícia angelical, constituída por querubins armados com espadas flamejantes e uma divindade que topa tudo e não deixa escapar um pintelho (como foi possível o Pecado Original com este Big Brother divino?) não incomodará por aí além quem está habituado a publicar notícia constante de cada peidinho que dá nas redes sociais.

O paraíso do futuro terá, obrigatoriamente, acesso livre e ilimitado a uma qualquer rede que ligue os bem-aventurados. Caso contrário, a promessa de eterna pasmaceira que tanto fascinou gerações antepassadas, não será o suficiente para encaminhar renovados rebanhos em direcção à porta da igreja, redil das almas.

Pasmaceira? Sim. Mas pasmaceira em rede. Para isolamento bem basta o confinamento pandémico.

Noite sem estrelas

Enxertar rebentos da realidade numa planta inexistente: é essa a actividade do artista, jardineiro dos sonhos no magnífico jardim do Marajá.
Nuvens que parecem impossíveis são recortadas no céu cinzento escuro. Um gajo não sente medo até começar a pensar.
Uma trela é terrível símbolo de domesticação. Também o são o chicote, a jaula e a gaiolinha dourada onde morrem pássaros cantores.
O verme nocturno rasteja até junto dos meus pés mas não chega a tocar-me.
Agora durmo.
Mais logo sonharei.

terça-feira, maio 12, 2020

Coração assassino

Uma família enfiada numa salinha esconsa reúne-se para celebrar o aniversário de um dos seus mas, desafortunadamente, esse dia coincide com a morte de um dos familiares (aquele que nunca mais chegava). A data passa a marcar um dia em que sempre surgem sentimentos contraditórios. Princípio e fim, nascimento e morte, traçados a ponto de cruz pela megera do destino.

A euforia do encontro entre pessoas que já se não viam vai para quase um ano é incomodada por uma bruta tristeza que, por mais que tentem, não conseguem disfarçar. Os gestos destas pessoas são como  gestos de árvores de uma floresta plantada por um deus louco que se tenha esquecido de ensinar ao vento o modo correcto como devia soprar.

A euforia plasma-se na mais profunda prostração, sorrisos transmutados em lentos esgares de tristeza e desconforto. Chorar - chorar a rir e chorar de dor. O coração dispara em todos os sentidos. Coração assassino.

segunda-feira, maio 11, 2020

Cara laroca


A carreira política de Nuno Melo sempre foi, para mim, motivo de algum espanto. Tendo-se tornado ainda jovem uma cara conhecida do CDS, eleito para a Assembleia da República por várias vezes e, agora, representante desse partido no Parlamento Europeu, não me recordo, no entanto, de qualquer contributo relevante para a coisa pública vinda da parte do deputado. 

Fazendo um esforço de memória lembro a sua participação em debates televisivos e sou apenas capaz de evocar um discurso errático, por vezes brejeiro, uma postura repleta de trejeitos e olhares marotos, sorrisos trocistas, como que a camuflar um imenso vazio interior e uma ausência confrangedora de eloquência e sageza. 

A recente polémica provocada pelas suas observações, comprovadamente falsas, sobre Rui Tavares vem confirmar as minhas impressões relativas a lacunas de substância, política e humana, deste eterno “servidor” do Estado, espécie de encarnação do Calisto Elói de Camilo Castelo Branco. E, lá está, que misteriosas razões terão contribuído para tão longa e persistente carreira tribunícia?

Aqui há uns anos Jerónimo de Sousa pretendeu apoucar as listas de candidatos do Bloco de Esquerda a uma qualquer eleição insinuando que as escolhas teriam como critério principal as “carinhas larocas” de certas candidatas. Penso que Jerónimo errou o alvo.

carta enviada ao Director do Público

domingo, maio 10, 2020

Matrioska

Fechou tudo dentro da cabeça, depois fechou a própria cabeça dentro de um saco e meteu o saco numa gaveta. Aguardou. Aguardou durante muito tempo, fechada na gaveta, a cabeça dentro do saco, o mundo era agora uma escuridão absoluta. Os sons reduzidos a rumores, os perfumes ausentes, nem amigos nem família, nada! Apenas a cabeça dentro do saco, o saco dentro da gaveta, a gaveta e a escuridão absoluta dentro dela. As coisas que fechara dentro da cabeça começaram a fechar-se, também elas, umas dentro das outras, tudo cada vez mais isolado, mais longínquo, menos tudo. Aguardou e continuou a aguardar até que esqueceu a cabeça, esqueceu a gaveta e as coisas que guardara dentro.
Esqueceu tudo e lá continuou a ser a coisa nova que agora era.

sábado, maio 09, 2020

Vazio

A pandemia parece tolher-me o espírito. É como se tivesse a obrigação de reflectir acerca daquilo que ela significa mas não me apetece fazer isso. Aparentemente é um tema do caraças mas, na verdade, é uma merda de tema. A pandemia suga tudo à sua volta, infecta todas as coisas, retira-lhes a vitalidade até só restar uma coisa seca e engelhada.

Sinto... não sou capaz de reflectir sobre o que sinto. Penso? Acho que sim, não tenho bem a certeza.


sexta-feira, maio 08, 2020

Rima

Um cão dificilmente aprenderá a miar. E, mesmo que mie, a sua vontade será sempre ladrar.

domingo, maio 03, 2020

Bestas

É curioso que o principal argumento que vem sendo agitado por aqueles que criticam a bizarra manifestação do 1º de Maio de 2020 seja a comparação com o dia 13 do mesmo mês e a manifestação de fé na Virgem Maria. 

Muitas vezes se compara o fervor comunista com a atitude dogmática exigida a um católico para poder pertencer à congregação. Afinal de contas não haverá distinção muito vincada entre o Homem Novo e os declarados filhos de Adão, todos acreditam na supremacia excepcional do seu ponto de vista no caminho para a Salvação. 


Os padres e os dirigentes sindicais esgrimem argumentos. De facto, seja para erguer o punho ou bater com ele no peito, as regras deveriam ser universais. Só assim se poderiam combater os mais perigosos inimigos com que nos confrontamos desde o início dos tempos: a ignorância e a estupidez. Estou em crer que o coronavírus é apenas uma besta ocasional, já o fanatismo é uma besta intemporal.


carta enviada ao Director do Público

quinta-feira, abril 30, 2020

Paraíso algures

 A Invenção do Amor (pintura em progresso)


Ando a ler um livro que tinha para aqui esquecido na prateleira, "Uma História do Paraíso" de Jean Delumeau, editado em 1992. Esta redescoberta não será estranha ao facto de estar a pintar uma tela cuja acção decorre, precisamente, no Paraíso dos cristãos, o tal Jardim de Éden.

É estranho imaginar o que passaria na cabeça dos tipos que descreveram, por vezes com uma minúcia delirante, aquele lugar que muitos acreditavam ser um espaço real, localizado algures para Oriente. O conhecimento limitado da geografia terrestre explica tal crendice o que já não se engole com facilidade é que, nos dias de hoje, haja quem faça ainda interpretações literais do Livro do Génesis. Como entender o que passa pela cabeça dos terraplanistas do século XXI?

O fechamento do universo intelectual é milho para os pardais da estupidez e para os pombos da imbecilidade. Ser capaz de cortar todos os laços com o conhecimento é obra que, ao que parece, não exige um esforço impossível.

Hoje vou pintar pés.

segunda-feira, abril 27, 2020

Tempo enlatado

O tempo enlatado tem um estranho sabor. Fechado na caixa da casa, consumido uniformemente, o tempo ganha uma consistência esponjosa e vagamente indistinta ao paladar. Posso perceber ligeiríssimas diferenças, mas seria capaz de jurar que hoje estou a consumir exactamente o mesmo produto que ontem saboreei.

O tempo enlatado faz com que os dias se confundam uns nos outros e a palavra "semana" ganhe dimensão de coisa única, sem parcelas nem compartimentos. Uma semana assemelha-se a um dia, um dia fica parecido com uma hora e assim sucessivamente. O tempo enlatado é como uma matrioska, só que nós estamos dentro dela.

O tempo enlatado é tão denso! Envolve-nos como lama e deixa-nos viver como se vive nos sonhos.

domingo, abril 19, 2020

Um mundo pior

 cartaz de uma exposição na Galeria Abysmo por volta de 2016 (se não estou em erro)


"Vai ficar tudo bem", a frase vai-se espalhando como perfume primaveril. Ao lê-la renasce a esperança nos nossos corações aborrecidos, um sorriso triste desenha-se nos lábios, o olhar atira-se da janela num salto, saudoso de rua, saudoso de paisagem, saudoso de toda a banalidade entretanto perdida.


Mas, pensando melhor, para que tudo fique bem muita coisa terá de mudar radicalmente em relação ao mundo pré-covid19. Sim, porque o covid-19 veio apenas suspender algo que, sejamos justos, não estava lá muito bem, antes pelo contrário. A pandemia proporciona um mundo pior para a maioria das pessoas; para a minoria que já vivia num mundo bom tanto se lhe dá como se lhe fica.


sexta-feira, abril 17, 2020

Aborrecimento

Sinto um tremendo cansaço, uma espécie de indiferença, sinto-me incapaz. Os dias de confinamento vão causando mossa. Um após outro, são dias gémeos, indiferenciáveis, dias aborrecidos.

Percebo agora que o simples acto de pôr os pés fora de casa é, para mim, uma fonte de inspiração. Percebo agora que olhar os outros na sua rotina diária provoca em mim uma torrente de emoções. Percebo que a aparente sensaboria quotidiana é o combustível que me põe a imaginação a arder, que é a matéria dos meus delírios.

Preciso de voltar a sair sem razão nenhuma, de caminhar numa direcção e, de súbito, voltar para trás apenas porque sim, porque não ia a lado nenhum e, caminhando no sentido oposto, aparentemente acontece a mesma coisa.

Sinto falta de me aborrecer lá fora de modo a que, regressado a casa, as coisas ganhem sentido.

quinta-feira, abril 16, 2020

Grande D. Quixote

Faltam-me 7 páginas para terminar a leitura do 2º volume do D. Quixote de la Mancha, tradução de Aquilino Ribeiro, ilustrações de Gustave Doré, editado pelo Público aqui há uns anos. Reservo esse derradeiro capítulo, "de como D. Quixote caiu doente, do testamento que fez e da sua morte" mais umas horas.

A viagem que venho fazendo na companhia do Cavaleiro de Triste Figura aka Cavaleiro do Leões e do seu fiel escudeiro Sancho Pança, mais as cavalgaduras que com eles alombam, o Rocinante e o Ruço, tem sido espantosa.

Agora compreendo porque é o D. Quixote tão imenso. Todos temos a impressão de conhecer este cavaleiro andante, as mais das vezes através de ecos da sua fama que nos chegam tomando as mais variadas formas mas, em boa verdade te digo, amigo leitor, que nada se compara ao contacto directo com a obra... mas isso já tu suspeitavas.

Começo a sentir uma pontinha de saudade da leitura desta obra monumental.

terça-feira, abril 14, 2020

Zanga

Nos dias que correm sinto que vou perdendo a capacidade de me zangar. Parece estranho que, numa situação como esta em que um gajo se fecha em casa meio por vontade própria e outro meio por imposição, a fúria se me desvaneça na cabeça e no peito como fumo ao vento.

Reflectindo sobre esta inesperada sensação pré-beatífica tento perceber como é que um tipo pode sentir-se sereno perante esta enormidade social, que é o confinamento a que estamos sujeitos. Será a sensação do cordeiro aninhado no altar do sacrifício?

Será a percepção do lugar da Humanidade no Planeta? Somos para a Terra algo semelhante ao que o Covid-19 é para o Ser Humano: um vírus terrível que estraçalha os pulmões e mata o hospedeiro em pouco tempo.

Os níveis de poluição têm diminuído extraordinariamente. Bom, não tão extraordinariamente quanto isso, parece óbvio que ficando o bicho em casa o mal que causa ao ambiente só pode diminuir. E parece-me ser esta uma das razões, se não a principal, para o abrandamento dos maus fígados que tantas vezes me consomem.

Sinto-me expectante: que lição iremos retirar desta pandemia? Temo bem que lição nenhuma, que uma vez recompostos, rapidamente tentaremos voltar a pôr de pé todo o sistema canibal que tão laboriosamente construímos ao longo de séculos. Temo bem que saltemos da frigideira outra vez em direcção lume. Lá terei que voltar a zangar-me.

sábado, abril 11, 2020

Paz de espírito

Por vezes quase me recordo de quando era um jovem ignorante cheio de certezas. Ah, como era bom estar sempre do lado da razão e ver nos meus oponentes seres merecedores de desprezo e, em última análise, merecedores de castigo.

Tinha o dom de entrar nas discussões de cabeça baixa e levar tudo à frente graças a uma distinta lata e alguma lábia que fui aprendendo entre a santa missa e a rua da aldeia em que vivi ainda antes de frequentar a escola primária. Mais tarde aprimorei esses dons com alguma literatura e amizades variadas, algumas bastante reprováveis. A rua era uma verdadeira universidade de manhosice e eu graduei-me precocemente.

A minha grande especialidade sempre foi a treta. Rapidamente percebi que a violência física não era para mim. Por um lado nunca tive compleição física que me permitisse sair vitorioso de um confronto directo, fosse com os punhos, ao pontapé ou à cabeçada. Por outro lado, cedo senti repulsa pelo sangue, fosse o meu ou o do meu oponente, e nem a calhoada me parecia coisa digna. Não! Sempre gostei de uma boa discussão e, posso dizê-lo, nesse capítulo era bem dotado.

Com a idade venho perdendo o instinto assassino da conversa agressiva mas, por vezes, ainda sinto o sangue a subir-me à cabeça e... lá vai disto! A diferença é que, ao contrário do prazer que sentia quando humilhava um oponente graças ao arremesso de metáforas corrosivas, nos dias que correm, ao aperceber-me que estou a torcer o juízo do adversário, tenho tendência para abrandar o discurso, meter travões e arranjar forma de desviar o curso dos acontecimentos.

Com a idade aprendi que não me interessa puto ter razão. Nada disso. O que me interessa é, apenas, a paz de espírito.

sexta-feira, abril 10, 2020

Da felicidade

Sempre tive a certeza de que a felicidade é uma coisa que não sabemos como é. Em geometria ensinamos aos jovens, desatentos, enfadados e despreocupados, que um ponto é uma abstracção, que não tem forma, não ocupa espaço, que na verdade não existe propriamente, um ponto é aquilo a que chamamos "um lugar geométrico". Um ponto é a conjugação de um conjunto de coordenadas que indicam um lugar no espaço, para lá do tempo.

Tenho para mim que a felicidade é vagamente semelhante a um ponto na medida em que a sua existência depende e é definida pela conjugação de uma série de factores que confluem num determinado momento das nossas vidas proporcionando conforto e bem-estar.

Uma diferença fundamental entre "felicidade" e "lugar geométrico" residirá na sua relação com o tempo.

terça-feira, abril 07, 2020

O lugar de Deus

Estou cansado das contagens. Da contagem dos mortos, dos infectados, dos recuperados, dos desempregados, dos desesperados, dos encerrados, dos assustados, dos despreocupados... tantos números, percentagens infinitas, tantas opiniões, tantos inquéritos; tudo para contabilizar o impacto da pandemia nas nossas vidas. É um martelar constante que, decerto, muito contribui para o aumento do número dos angustiados.

Por trás desta amálgama indistinta estão milhões de indivíduos, cada um seu universo, a sofrer, a perder o mundo, a obra de Deus implodindo. E Ele, o que faz? Onde está Deus? A resposta é óbvia: Deus está no Seu lugar.

domingo, abril 05, 2020

Isolado

Estar isolado é estar numa ilha. Como Robinson Crusoe, sozinho numa ilha, plantado numa ilha, como uma palmeira. Até que surge Sexta-Feira e o isolamento perde plenitude, passa a ser partilhado. Deixa de ser isolamento?

Isolamento social não é novidade. Todos nós somos ilhéus sociais de longa data.

sexta-feira, abril 03, 2020

Crise pandémica


A crise que atravessamos tem tido a terrível virtude de iluminar certos recantos obscuros do mundo em que vivemos, expondo mais claramente os traços de alguns seres que habitam na penumbra. Jair Bolsonaro e Donald Trump são dois exemplos concretos de como “o sono da razão engendra monstros”. 

Por outro lado António Costa tem-se mostrado um líder capaz de enfrentar a borrasca com razoável valentia e Rui Rio não envergonha ninguém nos tempos difíceis que vivemos. Alguém se recorda do modo soez como, no início desta crise, o deputado Ventura se tentou aproveitar da situação para insinuar que Marcelo Rebelo de Sousa estava a contribuir negativamente para o evoluir da situação, pretendendo acumular créditos para uma futura campanha presidencial?
 
Quanto a mim, esta crise pandémica mostra, a quem o quiser ver, a supremacia absoluta dos que acreditam e praticam a Democracia sobre aqueles que se imaginam a ditar regras ao sabor das suas pulsões narcísicas. Todos nós imaginamos que ultrapassada esta crise o mundo vai mudar, só não sabemos em que sentido. Oxalá o vírus tenha, pelo menos, o condão de enviar certas ratazanas para o esgoto a que pertencem.

Carta enviada ao Director do Público (duvido que seja publicada)

quinta-feira, abril 02, 2020

Manhã de Primavera

Moro num 3º andar. Da varanda da fachada vejo, do outro lado da rua, o supermercado. As pessoas alinham numa fila espaçada, respeitando, o mais que se lembram, as indicações da Direcção Geral de Saúde sobre "distanciamento social". Entram uma a uma, tenta-se que dentro da loja haja, pelo menos, distância.

Nas traseiras fica a cave do prédio onde funciona uma agência funerária. Como foi ali parar semelhante negócio, isso não sei. O dono da cave contrata a ocupação do espaço ao sabor das suas necessidades sem dar cavaco aos condóminos. Aquilo já foi de tudo, agora há, com frequência, carros fúnebres estacionados, entrada e saída de caixões lustrosos, figuras discretas e silenciosas.

Hoje, enquanto do outro lado da rua se organizava o habitual cortejo de consumidores à porta do Pingo Doce, nas traseiras acontecia uma espécie de funeral. Um grupo de homens e mulheres vestidos de negro espalhavam-se condoídos por entre os automóveis estacionados. Quatro mulheres, três delas jovens e uma senhora velhota de lenço preto amarrado sob o queixo, avançaram em direcção à entrada da cave. Roupas negras, luvas e máscaras azuis, amparavam-se umas nas outras formando um estranho quadro, ilustração eficaz do tempo que vivemos.

Olhei lá para baixo. O dia estava solarengo, ouviam-se pássaros a cantarolar, uma brisa suave aconchegava os parcos ruídos que a cidade ia oferecendo como um marulhar no marasmo do confinamento generalizado. Aquelas mulheres de negro desapareceram, engolidas pelas entranhas do prédio em visita ao seu querido cadáver.

Paz às suas almas.

domingo, março 29, 2020

Sofrimento

Poderia ter vontade de desenhar, de pintar, poderia sentir-me particularmente criativo nestes dias de reclusão mas... não. Nem por isso. Ando murcho, aborrecido, sem grande impulso ou imaginação.

Alguém me propôs que, dadas as circunstâncias, criasse imagens positivas. Pareceu-me boa ideia mas, essa intenção, para mim, que sou um gajo com uma forma de expressão plástica, no mínimo, soturna, acrescentou lentidão ao meu relentado processo criativo nos dias que correm.

Sofro.

Boa merda de sofrimento, este. Sofro? Sofro uma merda, é que sofro! Estou chateadinho? Oh, que problema! Não consigo desatar o nó criativo... grande perda para a Humanidade. A verdade é que, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, aguardo.

Aguardo o dia em que a vida volte a ser vagamente semelhante àquilo que me habituei a pensar que era.

quinta-feira, março 26, 2020

Traidores

Olhando para a TV vejo coisas.
Vejo uma conferência de imprensa de Donald Trump. Ouço as enormidades que ele diz e a forma destemperada como reage perante as perguntas de um jornalista, a forma arrogante e prepotente como ignora essas perguntas e responde ao jornalista com ameaças directas.

A ignorância e a prepotência fazem com que, tão importantes como as questões que se colocam sejam muitas questões que alguns de nós têm de calar.

Antes da pandemia várias vezes declarei aqui a minha estupefacção perante a evidente estupidez de Trump e de Bolsonaro. Mais do que estúpidos, estes dois são arrogantes e orgulhosos da sua óbvia ignorância. Como foi possível terem chegado aos cargos que ocupam?

No actual contexto da pandemia os EUA e o Brasil não podiam ter piores líderes que estes mentecaptos, aliados do vírus graças à sua imensa imbecilidade. Oxalá as suas desastrosas lideranças não provoquem os desastres humanitários que se imaginam.

Mais do que nunca, até mesmo deus merece maior confiança que estas amibas falantes, traidores da Humanidade.

terça-feira, março 24, 2020

Tempo

Com o passar dos dias fechado em casa apercebo-me que começo a deixar de ter pressa. Coisas que poderiam causar-me alguma inquietação por ficar com a sensação de estar a perder tempo passaram a ser percepcionadas de outra forma. E a ideia de "perder tempo" vai deixando de fazer sentido.

Não sei ao certo o que isto significa, nem sei se alguma vez significará algo de concreto, é apenas uma sensação e as sensações não são propriamente fiáveis. Dentro de alguns dias talvez possa compreender um pouco melhor o que quero dizer com isto, mas também isso é incerto.

A verdade é que o mundo me está a surpreender de tal modo que, depois disto, imagino, nada será como dantes.

sábado, março 21, 2020

Uma semana

Desta vez não posso usar aquela frase feita "foi uma semana como as outras" porque esta semana foi completamente diferente de todas as outras que me lembro de ter vivido. Uma semana metido em casa sem grande opção de sair que não fosse ir ali ao outro lado da rua, ao supermercado.

Esta manhã aventurei uma ida à praia, caminhar um pouco e ver o mar. Pareceu-me bem mais seguro que ir comprar laranjas. Cruzei-me com algumas pessoas, todas a mais de 10 metros de distância e não toquei em nada a não ser no meu carro. Poucas vezes a praia me pareceu tão pacífica e tão bonita.

Os dias passam. Como será daqui a mais uma semana? Por enquanto está tudo pacífico dentro da minha cabeça e à volta dela. De uma coisa estou certo, quando tudo isto parar iremos viver num mundo diferente, resta saber que mundo será esse.

Aguardemos serenamente.

quinta-feira, março 19, 2020

Ensino


Não sou grande adepto do ensino à distância. Talvez porque “burro velho não aprende línguas”, admito, mas tenho as minhas reservas quanto à qualidade do ensino assim ministrado. Acredito no contacto humano, na comunicação directa, na entoação da voz, na expressão facial, no gesto teatral. 

Duvido da eficácia de um tweet.

As ferramentas utilizadas no ensino à distância são apenas isso: ferramentas. Estou convicto de que a potencialidade de uma ferramenta depende muito do modo como é utilizada. Seja um i-phone ou uma trincha e duas latas de tinta, o utilizador determinará a qualidade do resultado do trabalho desenvolvido.

A tecnologia não é magia e, portanto, não opera milagres. Um bom professor será sempre isso mesmo e um mau professor idem aspas. O ensino à distância é, a meu ver, um recurso de emergência ou, em certas circunstâncias, um mal menor.

Quero acreditar que os resultados do ensino presencial não são melhores nem piores que os do ensino à distância, são diferentes.

segunda-feira, março 16, 2020

Uma morte

As notícias sobre a pandemia tornaram-se de tal modo absorventes que tendemos a esquecer que há tantas outras doenças a provocar medo, morte e sofrimento. Acabo de ouvir a notícia do primeiro doente falecido em Portugal em consequência de infecção com covid-19. Sabia-se que seria uma questão de tempo. Aconteceu. Morreu o primeiro de uma lista que se deseja curta. Irá isto ter alguma consequência prática no modo de agir de tantos que continuam a minimizar a gravidade da situação?

Da parte que me toca estou em recolhimento o mais absoluto que me for possível. Hoje não pus pé fora de casa. É o meu primeiro dia totalmente recolhido. Quantos se seguirão? O mais estranho de toda esta história é que não tenho como saber se estou ou não infectado. Para já não apresento qualquer sintoma mas, presumindo que o período de incubação do vírus é longo, nada me garante estar limpo.

Isto é como viver dentro de um conto de ficção científica.

domingo, março 15, 2020

Estranheza

A coisa está no início. Ontem foi o primeiro dia em que eu e a minha família evitámos ao máximo sair de casa. Ainda assim fui comprar o jornal e um maço de tabaco, depois fui, com a Ana, ao mercado de rua comprar legumes frescos e, à tarde, desloquei-me ao supermercado em frente a minha casa adquirir outros bens alimentares.

Hoje fomos à farmácia comprar alguns medicamentos para caso de emergência, passámos pela bomba de gasolina onde comprei o jornal e não um, mas dez maços de cigarros. Amanhã, penso evitar sair, de todo.

É estranho. O recolhimento voluntário, a capacidade de nos fecharmos em casa... é estranho.

sexta-feira, março 13, 2020

Encerrado

O primeiro-ministro anunciou, ontem, mais ou menos à hora da papa, uma série de medidas práticas com a finalidade de refrear o ímpeto infeccioso do covid-19. A ideia é, basicamente, fechar o país. Encerrá-lo.

Estamos desamparados perante a ameaça viral, não sabendo ao certo como combater o bicho fecham-se as portas, recolhemo-nos atrás das paredes na aparente segurança do lar e esperamos. Entretanto a vida continuará lá fora, a vida continuará cá dentro. Dentro de casa, dentro do nosso corpo, dentro dos nossos corpos. A vida não será encerrada.

É-nos sugerido um retiro auto-imposto. Apelam ao nosso espírito cívico, à nossa consciência cidadã, ao nosso amor pelo próximo. A ideia é a de um retiro espiritual em massa. Seremos capazes de realizar esta espécie de mergulho para dentro de nós próprios? Todos, em simultâneo, uma nação em recolhimento.

Tenho as mais sérias dúvidas, parece-me que será pedir demasiado ao povão mas, como diz o próprio povo, pedir não custa. O povo diz muitas coisas, umas acertadas, outras nem tanto.

Iremos nós conhecer um pouco melhor o povo português? É esta a oportunidade para nos olharmos ao espelho colectivo da nação e perceber um pouco mais os contornos da coisa que somos. Seremos algo próximo daquilo que imaginamos (se é que imaginamos ser alguma coisa)?


quinta-feira, março 12, 2020

Covid-19

Era de prever: a histeria instala-se, a vozearia confunde, os opinadores profissionais começam a delirar, seja em directo, nas televisões, seja em diferido, nos jornais, é um regabofe de prosápia e pés pelas mãos. Os decisores políticos acordam transformados em baratas tontas, as medidas de contenção da pandemia formam um novelo intrincado ao qual não se encontra ponta por onde se lhe pegue. Anda tudo para trás e para a frente, para um lado e para o outro, a nau vai de rojo no meio da tempestade. O povinho cá vai andando, a cabeça entre as orelhas, pensando que não sabe o que pensar ou que, sabendo, o mais provável é que esteja enganado.

A pandemia do covid-19 revela a consistência frágil deste nosso mundo, um mundozinho de cristal, desprotegido e incapaz de encontrar formas robustas de se afirmar perante si próprio. Quanto tempo durará esta barafunda? Qual será o aspecto do mundo global quando a poeira assentar? Aguardemos com a serenidade possível.

domingo, março 08, 2020

Vertigem de merda

Não me tinha apercebido (nem sequer pensado) que a simples presença de um monte de merda levasse tantos dos que lhe estão próximos a desejarem assemelhar-se a cagalhões. Acontece em muitos lugares e em diferentes contextos, quando os transformistas, de pessoa para cagalhão, pressentem que o monte de merda tem aceitação pública e se aproxima dos seus objectivos.

Vivemos tempos de "vale tudo" e esta vertigem mimética contribui para a paulatina transformação do ambiente social numa esterqueira, uma pocilga tão nojenta que causa repulsa ao mais porco dos porcos.

sexta-feira, março 06, 2020

Ressurreição

Uma dúvida me assalta vinda sabe Deus de onde: quando ressuscitarmos que corpos vamos utilizar no nosso regresso a este mundo? Dadas as primeiras imagens que se me formam no espírito depreendo que esta dúvida que me assalta é formada e influenciada por um misto de série de TV e educação católica demasiado esquecida.

O paraíso terreal habitado por uma multidão de zombies tipo Walking Dead, 10ª temporada, quando os corpos meio destruídos da zombieria já trazem ramos agarrados e restos dos corpos devorados pelo caminho? Não posso dizer que seja uma imagem bonita de reter mas poderei afirmar que é apropriada.

Ou bem que Deus se esmera e faz o maior de todos os milagres, restituindo um corpo limpinho aos ressuscitados ou vai haver reclamações em barda.

Mas, por falar em corpos limpinhos e partindo do princípio que os vamos ter, ressuscitaremos com que idade? Com a idade da hora da nossa morte? Regressaremos todos em corpos jovens e vigorosos? Convenhamos que são dúvidas perfeitamente plausíveis, capazes de influenciar a minha mente na hora de bater a caçoleta. Convinha estar informado.

quarta-feira, março 04, 2020

Fronteira

Todo o dia senti a proximidade da fronteira. Pequenos sinais na base da nuca, sensações mornas, vislumbres que não fui capaz de reter por mais que um momento fugaz. Sinto que são coisas de sonhos passados mas não consigo ligá-las; são coisas perdidas.

Há muito que não sentia a fronteira. Porque se aproxima ela num dia aparentemente tão normal como este, quase chegada a hora do soninho? Esta fronteira movediça que separa o lado de cá daquele outro lugar indefinível onde os animais dos sonhos se passeiam aguardando a sua oportunidade.

Todo o dia senti a proximidade da fronteira.