A questão anda a ser discutida: Portugal tem uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo. Que fazer para contrariar este facto embaraçoso?
A Oposição acusa o Governo, o Governo acusa... as cegonhas? As cegonhas não têm voto na matéria e, sem aparentar ligar muito à conversa mediática, o povinho vai fazendo cada vez menos filhos. A população envelhece a olhos vistos.
Prometem-se incentivos fiscais, melhoria nas condições de acesso das criancinhas às creches e jardins de infância, tentam inventar-se modos de entusiasmar as pessoas a ter mais filhos. Mas, será que tudo isto faz algum sentido? Há 50 anos atrás, quando nasci, a população era miserável, as condições de vida da maioria quase animalescas e os portugueses constituíam famílias numerosas que criavam com dificuldades enormes, é certo, mas não deixavam de ter filhos por isso.
Mais do que as condições de vida o que parece influenciar o desejo de alargar a família será o modo como cada um de nós entende o seu lugar particular neste mundo.
Na sociedade actual o individualismo e o desejo de viver uma vida plena de aventura e acontecimentos extraordinários faz hesitar os mais jovens quando se trata de encomendar uma criança aos próprios sonhos. Mais do que problemas económicos, penso eu, a questão é cultural.
Enquanto o mundo for olhado como uma espécie de objecto de consumo colocado à nossa disposição para dele usufruirmos como se fosse uma viagem de férias a um resort na costa mexicana, os filhos serão sempre encarados como empecilhos.
A questão económica é, decerto, importante mas o principal problema é, a meu ver, andarmos apaixonados por nós próprios o que não deixa grande espaço para a possibilidade de nos apaixonarmos por um bebé que nem sequer conhecemos, caraças!
Talvez a solução passe por uma campanha publicitária que venda a ideia de que a paternidade é a maior aventura a que cada um de nós poderá alguma vez aspirar.
domingo, julho 20, 2014
sexta-feira, julho 18, 2014
Ser ou não ser (arte)
Avaliar é tarefa complexa. Pretender classificar com um valor numérico o objecto da nossa avaliação é praticamente magia.
Analisamos um texto, forma e conteúdo, comparamos o que vamos compreendendo com uma tabela onde estão definidos os critérios segundo os quais devemos orientar a nossa leitura... ou então observamos atentamente um desenho e aplicamos à nossa alma esse tratamento que consiste em acreditar que podemos seriar de forma justa e sistemática uma quantidade maior ou menor de objectos, artísticos, nos casos acima referidos. Escrita e desenho, artes.
Se olharmos bem para os desenhos na parede e depois para a pauta onde se alinham os valores que lhes atribuímos estamos a ver coisas muito diferentes que se referem ao mesmo objecto. Temos o desenho e uma sua representação abstracta, a nota atribuída. Temos na parede uma natureza-morta (um faisão e duas esferográficas) e na pauta temos 16 (dezasseis). Isto é alquimia!
Poderemos substituir a exposição de vinte desenhos por uma simples pauta afixada na parede? Vinte desenhos com características específicas, muito diferentes uns dos outros, resumidos e retratados assim, de forma sintética, por uma coluna de números e algarismos.
Ou, no lugar de um caderno de contos, uma pauta colada à parede, a prosa e a poesia reduzidas à condição de uns e dois e três e por aí adiante, sem nunca atingir, sequer, o infinito.
Se uma pauta afixada na parede não é arte conceptual então não sei o que possa ser arte conceptual.
segunda-feira, julho 14, 2014
Uma paixão infinita
Um jogo de futebol tem 90 minutos (120 se for num jogo a eliminar). Depois acaba.
Tenho dificuldade em compreender as pessoas que ficam exasperadas quando perdem, principalmente se a frustração não lhes sai do pêlo, no máximo, meia hora após o apito do árbitro que manda terminar o jogo. É para mim impossível compreender aqueles que perdem o apetite, os que batem na mulher e nos filhos ou os que, simplesmente, perdem a vontade de viver quando a equipa dos seus amores é derrotada.
Ok, dependendo da profundidade da paixão de cada um, a coisa poderá prolongar-se por uns minutos, algumas horas... um dia já me parece exagerado mas sei que há malucos para tudo. Dois dias? Já me cheira mal.
Do mesmo modo mas em sentido contrário, gostaria de compreender o que fica realmente dentro do peito dos vencedores, passada a euforia da vitória.
Resumindo: merecerá o futebol, na sua qualidade de fenómeno desportivo-que-o-já-não-é, a atenção mediática doentia que lhe é dedicada? Merecerá o futebol a paixão desmedida que por ele é nutrida por um número estonteante de pessoas espalhadas por todo o mundo?
Nos próximos posts gostaria de ajuda para reflectir sobre as razões que nos fazem cair, tão perdidamente, de amores por um ex-desporto como aquele.
Tenho dificuldade em compreender as pessoas que ficam exasperadas quando perdem, principalmente se a frustração não lhes sai do pêlo, no máximo, meia hora após o apito do árbitro que manda terminar o jogo. É para mim impossível compreender aqueles que perdem o apetite, os que batem na mulher e nos filhos ou os que, simplesmente, perdem a vontade de viver quando a equipa dos seus amores é derrotada.
Ok, dependendo da profundidade da paixão de cada um, a coisa poderá prolongar-se por uns minutos, algumas horas... um dia já me parece exagerado mas sei que há malucos para tudo. Dois dias? Já me cheira mal.
Do mesmo modo mas em sentido contrário, gostaria de compreender o que fica realmente dentro do peito dos vencedores, passada a euforia da vitória.
Resumindo: merecerá o futebol, na sua qualidade de fenómeno desportivo-que-o-já-não-é, a atenção mediática doentia que lhe é dedicada? Merecerá o futebol a paixão desmedida que por ele é nutrida por um número estonteante de pessoas espalhadas por todo o mundo?
Nos próximos posts gostaria de ajuda para reflectir sobre as razões que nos fazem cair, tão perdidamente, de amores por um ex-desporto como aquele.
quarta-feira, julho 09, 2014
Da ganância
Um fato, uma gravata e uma cara de pau que até mete medo. Ou então um sorriso fácil e uma simpatia sem fronteiras; estes são tão perigosos como os outros. São os banqueiros, senhores do dinheiro, guardiões dos nossos sonhos, conhecedores dos nossos desejos, eles regulam o mundo.
Os dias passam, a crise permanece. Compreendemos melhor o significado de insignificância e a rapidez da nossa cavalgada pela vida quando percebemos o tempo de recuperação que uma coisa destas necessita. Dizem-nos que a economia levará 20 anos a recuperar, 30 anos a recuperar, tempo demais, na minha humilde mas particular perspectiva. Quando a crise passar e regressarem os tempos do vinho e das rosas, o mais provável é eu já ter batido as botas.
Antes de mim haverão de patinar os mais velhos destes tais banqueiros que, no entanto, agem como se fossem viver eternamente. A sua ganância é lendária, a sua capacidade de amontoar dinheiro e distribuir miséria parece coisa divina. De todos os bichos, o bicho Homem é o que tem maior capacidade para amealhar aquilo de que não tem necessidade.
Sinceramente não compreendo estes seres vivos, estes banqueiros. Não compreendo para que querem mais dinheiro, mais poder, mais miséria. Isto vai muito para lá da minha capacidade de compreensão. Mas as coisas são assim mesmo. Também não compreendo Deus. A única diferença entre os banqueiros e Deus é que os banqueiros existem de facto, sem margem para dúvidas.
Os dias passam, a crise permanece. Compreendemos melhor o significado de insignificância e a rapidez da nossa cavalgada pela vida quando percebemos o tempo de recuperação que uma coisa destas necessita. Dizem-nos que a economia levará 20 anos a recuperar, 30 anos a recuperar, tempo demais, na minha humilde mas particular perspectiva. Quando a crise passar e regressarem os tempos do vinho e das rosas, o mais provável é eu já ter batido as botas.
Antes de mim haverão de patinar os mais velhos destes tais banqueiros que, no entanto, agem como se fossem viver eternamente. A sua ganância é lendária, a sua capacidade de amontoar dinheiro e distribuir miséria parece coisa divina. De todos os bichos, o bicho Homem é o que tem maior capacidade para amealhar aquilo de que não tem necessidade.
Sinceramente não compreendo estes seres vivos, estes banqueiros. Não compreendo para que querem mais dinheiro, mais poder, mais miséria. Isto vai muito para lá da minha capacidade de compreensão. Mas as coisas são assim mesmo. Também não compreendo Deus. A única diferença entre os banqueiros e Deus é que os banqueiros existem de facto, sem margem para dúvidas.
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segunda-feira, julho 07, 2014
Crescimento
Quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a imagem de Iznogoud aos pulos, furioso, gritando que quer ser califa no lugar do califa. Quero dizer: "ERA" esta a primeira coisa que me vinha à cabeça, reminiscências da infância e da Banda Desenhada (ainda tenho um ou dois livros de Iznogoud na prateleira).
De há um ou dois dias para cá, quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a guerra no Iraque e na Síria, a confusão com o Curdistão, a questão turca e os receios do Irão e da Arábia Saudita relativamente ao poder do ISIS e a forma angustiada como os ocidentais olham para tudo isto sem saber nem ter grande coisa para fazer.
Como é que uma coisa tão simples (a imagem de Iznogoud) pode ser substituída por outra tão complicada (aquela baralhação sobre a situação política e militar no Próximo e Médio Oriente)? A resposta é simples: cresci como o caraças!
Como agora sou crescido e tenho uma perspectiva muito mais ampla do mundo que me rodeia consigo compreender as coisas com outra profundidade, não me deixo impressionar com a primeira tolice que me sopra o espírito. Não, agora sou capaz de pensar pela minha cabeça e não me deixo enganar com facilidade.
"Califa" é muito mais do que um bonequito de Banda Desenhada que me fazia rir e proporcionava momentos de puro prazer quando me levava para fora deste planeta. "Califa" agora é Abu Bakr al-Baghdadi o autoproclamado sucessor de Maomé, aquele que vem impor a sharia a todo o mundo, para glória de Alá.
Para quem não tinha compreendido, crescer é sinónimo de complicar.
De há um ou dois dias para cá, quando ouço a palavra "califa" a primeira coisa que me vem à cabeça é a guerra no Iraque e na Síria, a confusão com o Curdistão, a questão turca e os receios do Irão e da Arábia Saudita relativamente ao poder do ISIS e a forma angustiada como os ocidentais olham para tudo isto sem saber nem ter grande coisa para fazer.
Como é que uma coisa tão simples (a imagem de Iznogoud) pode ser substituída por outra tão complicada (aquela baralhação sobre a situação política e militar no Próximo e Médio Oriente)? A resposta é simples: cresci como o caraças!
Como agora sou crescido e tenho uma perspectiva muito mais ampla do mundo que me rodeia consigo compreender as coisas com outra profundidade, não me deixo impressionar com a primeira tolice que me sopra o espírito. Não, agora sou capaz de pensar pela minha cabeça e não me deixo enganar com facilidade.
"Califa" é muito mais do que um bonequito de Banda Desenhada que me fazia rir e proporcionava momentos de puro prazer quando me levava para fora deste planeta. "Califa" agora é Abu Bakr al-Baghdadi o autoproclamado sucessor de Maomé, aquele que vem impor a sharia a todo o mundo, para glória de Alá.
Para quem não tinha compreendido, crescer é sinónimo de complicar.
sexta-feira, julho 04, 2014
Ser feliz
A felicidade é volúvel, tem mais formas que todas as formas deste mundo. Como definir Felicidade? Em que poderemos basear essa definição? O conceito de Felicidade muda conforme cada um de nós, muda com o espaço, com o tempo, com o local, com a ocasião. Um dia estamos felizes por isto, outro dia estamos felizes por aquilo.
A Felicidade sente-se, persegue-se, é sonhada. Procurar a Felicidade é perder-mo-nos num labirinto de estímulos e emoções. Quantas vezes nos perguntamos: o que é a Felicidade? Podemos viver uma vida inteira sem encontrarmos as resposta.
Por isso precisamos de ajuda. Há quem nos indique o caminho a seguir: os líderes, as religiões, as ideologias, os profetas...
No mundo Ocidental e consumista em que vivemos, associamos Felicidade à posse de coisas que, em princípio a proporcionam ou, na mais fraca das hipóteses, a potenciam. Neste mundo a publicidade e a manipulação da informação são processos de orientação dos cidadãos/consumidores nos caminhos que conduzem à Felicidade.
E nós ouvimos, acreditamos e vamos.
A Felicidade sente-se, persegue-se, é sonhada. Procurar a Felicidade é perder-mo-nos num labirinto de estímulos e emoções. Quantas vezes nos perguntamos: o que é a Felicidade? Podemos viver uma vida inteira sem encontrarmos as resposta.
Por isso precisamos de ajuda. Há quem nos indique o caminho a seguir: os líderes, as religiões, as ideologias, os profetas...
No mundo Ocidental e consumista em que vivemos, associamos Felicidade à posse de coisas que, em princípio a proporcionam ou, na mais fraca das hipóteses, a potenciam. Neste mundo a publicidade e a manipulação da informação são processos de orientação dos cidadãos/consumidores nos caminhos que conduzem à Felicidade.
E nós ouvimos, acreditamos e vamos.
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quinta-feira, junho 26, 2014
o grande ecrã
Pronto, lá se foi a selecção portuguesa, malas aviadas, fora do Campeonato do Mundo. A nossa equipa deixou uma imagem estranha: jogadores cheios de estilo (penteados, barbas, tatuagens, roupas e sei lá que mais) mas a cair como tordos. Perdi a conta aos jogadores lesionados ao longo destes 3 jogos.
Mas que raio!? Porque caíam os nossos jogadores e os outros não? Não foi do calor, não foi o temido dengue, tiveram todas as mordomias, porque saíram tantos dos nossos agarrados às penas, a chorar, como bons portugueses?
Mas já me estou a desviar daquilo que queria dizer, o assunto que queria referir: o grande ecrã!
Decerto reparaste, futebolista leitor, nos olhares vagos que todos, jogadores e treinadores (nos árbitros não reparamos que não são assim tão focados pelas câmaras de filmar) vão lançando para o alto no decorrer das partidas. Eles olham para cima, não para Deus mas para si próprios. E o mais interessado na imagem que exporta (se não O mais, pela certa um dos mais) é o nosso craque, o maior do mundo: Cristiano Ronaldo.
Adoro aquele jogador enquanto atleta. Não nutro por ele grande simpatia enquanto pessoa, embora possa compreender que para vingar ao nível que ele atinge num mundo tão merdoso como o mundo do futebol seja necessário um ego do tamanho de um continente. O de Ronaldo é, deveras, enorme.
Nota tu, amigo meu, que em 3 jogos o considerado melhor jogador do mundo apresentou 3 cortes de cabelo/penteados diferentes. Olhou-se, mirou-se e remirou-se, sobrancelhas arranjadinhas, milhões de teenagers a suspirar pelo seu corpo de estátua... bom, nem as estátuas gregas são tão perfeitas como Ronaldo (o Cristiano, não o Fenómeno). E marcou apenas um golo.
O rapaz não tem tempo para pensar em futebol enquanto evolui no relvado ou, pelo menos, tem de distribuir a sua atenção entre a bola, as chuteiras dos adversários, a baliza e o tal grande e famigerado ecrã.
Decerto não terá sido isso a única razão da nossa triste passagem pelo Brasil. Mas lá que as nossas vedetas parecem personagens de telenovela venezuelana... por favor, retirem aquela coisa dos estádios. Serve apenas para distrair toda a gente do essencial.
Mas que raio!? Porque caíam os nossos jogadores e os outros não? Não foi do calor, não foi o temido dengue, tiveram todas as mordomias, porque saíram tantos dos nossos agarrados às penas, a chorar, como bons portugueses?
Mas já me estou a desviar daquilo que queria dizer, o assunto que queria referir: o grande ecrã!
Decerto reparaste, futebolista leitor, nos olhares vagos que todos, jogadores e treinadores (nos árbitros não reparamos que não são assim tão focados pelas câmaras de filmar) vão lançando para o alto no decorrer das partidas. Eles olham para cima, não para Deus mas para si próprios. E o mais interessado na imagem que exporta (se não O mais, pela certa um dos mais) é o nosso craque, o maior do mundo: Cristiano Ronaldo.
Adoro aquele jogador enquanto atleta. Não nutro por ele grande simpatia enquanto pessoa, embora possa compreender que para vingar ao nível que ele atinge num mundo tão merdoso como o mundo do futebol seja necessário um ego do tamanho de um continente. O de Ronaldo é, deveras, enorme.
Nota tu, amigo meu, que em 3 jogos o considerado melhor jogador do mundo apresentou 3 cortes de cabelo/penteados diferentes. Olhou-se, mirou-se e remirou-se, sobrancelhas arranjadinhas, milhões de teenagers a suspirar pelo seu corpo de estátua... bom, nem as estátuas gregas são tão perfeitas como Ronaldo (o Cristiano, não o Fenómeno). E marcou apenas um golo.
O rapaz não tem tempo para pensar em futebol enquanto evolui no relvado ou, pelo menos, tem de distribuir a sua atenção entre a bola, as chuteiras dos adversários, a baliza e o tal grande e famigerado ecrã.
Decerto não terá sido isso a única razão da nossa triste passagem pelo Brasil. Mas lá que as nossas vedetas parecem personagens de telenovela venezuelana... por favor, retirem aquela coisa dos estádios. Serve apenas para distrair toda a gente do essencial.
quarta-feira, junho 25, 2014
Manifesto escondido?
O caso tem todos os contornos de uma coisa infinitamente estúpida. Quem terá decidido que a obra "Portugal Enforcado", um trabalho escolar da autoria de um tal Élsio Menau, era merecedora de censura por parte do estado? Fazendo uma pesquisa breve na Net compreendemos tratar-se de um trabalho inofensivo e pueril.
O que me surpreende mais até é a nota de 18 valores com que o objecto acabou por ser avaliado. Eu sei que nessa avaliação está também considerada a dimensão conceptual da proposta plástica mas, tendo em conta a redundância da coisa, é precisamente por isso que me parece uma avaliação exagerada. Decerto os avaliadores estão lixados com a forma como o governo tem apertado o nó na garganta de cada um de nós, aqui representados por uma bandeira de algum modo colocada numa forca.
Decerto que não foi a discordância com a nota atribuída que levou um cidadão deste país a acusar de desrespeito ao símbolo nacional o "Portugal Enforcado" e, por arrasto, o seu autor. A motivação pidesca e rasteira de tal denúncia diz tudo o que haja a dizer sobre o seu autor.
Há, no entanto, uma possibilidade que ainda não foi considerada: e se o denunciante for um artista plástico (assumido ou que ainda não tenha compreendido a sua vocação artística) e a denúncia for a sua obra? E se este caricato caso de justiça não for mais do que um manifesto artístico escondido que reflecte sobre a vacuidade da justiça em Portugal? Se o artista pretender insinuar que os tribunais são uma das traves que sustentam a forca em que Portugal vai dependurado?
A Arte Conceptual leva-nos para territórios verdadeiramente selvagens.
O que me surpreende mais até é a nota de 18 valores com que o objecto acabou por ser avaliado. Eu sei que nessa avaliação está também considerada a dimensão conceptual da proposta plástica mas, tendo em conta a redundância da coisa, é precisamente por isso que me parece uma avaliação exagerada. Decerto os avaliadores estão lixados com a forma como o governo tem apertado o nó na garganta de cada um de nós, aqui representados por uma bandeira de algum modo colocada numa forca.
Decerto que não foi a discordância com a nota atribuída que levou um cidadão deste país a acusar de desrespeito ao símbolo nacional o "Portugal Enforcado" e, por arrasto, o seu autor. A motivação pidesca e rasteira de tal denúncia diz tudo o que haja a dizer sobre o seu autor.
Há, no entanto, uma possibilidade que ainda não foi considerada: e se o denunciante for um artista plástico (assumido ou que ainda não tenha compreendido a sua vocação artística) e a denúncia for a sua obra? E se este caricato caso de justiça não for mais do que um manifesto artístico escondido que reflecte sobre a vacuidade da justiça em Portugal? Se o artista pretender insinuar que os tribunais são uma das traves que sustentam a forca em que Portugal vai dependurado?
A Arte Conceptual leva-nos para territórios verdadeiramente selvagens.
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quinta-feira, junho 19, 2014
Curva cega
Há sensações que brotam do nosso corpo, que rebentam, que vêm, que se revelam através das mais variadas manifestações. Saem disparadas como gritos, poemas, borbulhas, erupções cutâneas, desenhos, canções, palavras doces, palavras tôlas, azedas e nem por isso. Palavras redondas ou cortantes como lâminas que reverberam na escuridão, produzindo uma lúgubre canção de embalar.
Falamos, gritamos, cantamos desalmadamente; tentamos explicar este aperto, esta secura, a tontura, a falta de ar, o súbito calor que de tão forte desorienta e provoca vertigem, logo um frio de rachar vem ocupar o seu lugar. Rilhamos os dentes e desejamos fazer mal, infligir dor. Estamos desorientados, perdidos nos nossos próprios sentimentos que já não nos pertencem, que agora são esta ansiedade, esta coisa que se mexe e nos aperta o peito do lado de dentro, este bicho que nos quer consumir à força de lambidelas.
Ok, ok, chega. Mas que raio de coisa estou para aqui a tentar escrever?
A verdade é que isto não significa nada, é escrita vazia, curva apertada e cega que não sei para onde vai nem quer ir para lado nenhum. A verdade, verdadinha, é que estou a ficar impaciente pois a minha filha regressa amanhã após seis meses em Bratislava onde esteve no âmbito do programa Erasmus. Neste estado não escrevo, não desenho, pouco penso... mas aquela cena do aperto no peito ali mais atrás, olha, se calhar até nem é totalmente vazia de sentido.
Falamos, gritamos, cantamos desalmadamente; tentamos explicar este aperto, esta secura, a tontura, a falta de ar, o súbito calor que de tão forte desorienta e provoca vertigem, logo um frio de rachar vem ocupar o seu lugar. Rilhamos os dentes e desejamos fazer mal, infligir dor. Estamos desorientados, perdidos nos nossos próprios sentimentos que já não nos pertencem, que agora são esta ansiedade, esta coisa que se mexe e nos aperta o peito do lado de dentro, este bicho que nos quer consumir à força de lambidelas.
Ok, ok, chega. Mas que raio de coisa estou para aqui a tentar escrever?
A verdade é que isto não significa nada, é escrita vazia, curva apertada e cega que não sei para onde vai nem quer ir para lado nenhum. A verdade, verdadinha, é que estou a ficar impaciente pois a minha filha regressa amanhã após seis meses em Bratislava onde esteve no âmbito do programa Erasmus. Neste estado não escrevo, não desenho, pouco penso... mas aquela cena do aperto no peito ali mais atrás, olha, se calhar até nem é totalmente vazia de sentido.
quarta-feira, junho 18, 2014
Da Razão e do Vazio
Disse para aí um poeta, se não erro, que "há razões que a Razão desconhece". Concordo perfeita e absolutamente. Pobre Razão! Ela não compreende a maior parte das coisas, como poderia?
A própria palavra "razão" soa estranha. Assim isolada parece-me referir a trajectória de algo que passa muitíssimo perto de outra coisa, algo que passa tão a rasar, tão a rasar, que faz um razão!!! Ora, como pode algo assim atingir o âmago da questão?
Não, a razão não me parece resposta que se procure como se dela dependesse o entendimento do mundo ou a compreensão da lonjura das fronteiras que confinam a alma humana. A razão, quando muito, poderá proporcionar agradáveis discussões na tasca, sempre que discutimos Filosofia com um belo copo à frente do nariz; copo que vem e vai, despejado e logo recarregado daquilo que nele faz falta quando vazio fica.
Mas, se me esquivo a aceitar a Razão, o que resta?
Se formulaste esta questão mereces resposta, aveludado leitor. O que resta, queres tu saber? Pois, na minha estrábica perspectiva, parece-me que não resta nada mas apenas o Vazio (que não tenho a certeza que seja alguma coisa).
E quem quer viver no Vazio? Impacientas-te tu com uma certa dose de... razão.
Pois olha, amigo meu, isso não te posso responder porque, tal como o outro, "só sei que nada sei" embora, cá no fundo, que sou pessoa um tanto convencida e vaidosa, não acredite em tanta ignorância nem esteja tão convicto das qualidades extraordinárias do Vazio e nem dos defeitos impraticáveis da Razão.
A própria palavra "razão" soa estranha. Assim isolada parece-me referir a trajectória de algo que passa muitíssimo perto de outra coisa, algo que passa tão a rasar, tão a rasar, que faz um razão!!! Ora, como pode algo assim atingir o âmago da questão?
Não, a razão não me parece resposta que se procure como se dela dependesse o entendimento do mundo ou a compreensão da lonjura das fronteiras que confinam a alma humana. A razão, quando muito, poderá proporcionar agradáveis discussões na tasca, sempre que discutimos Filosofia com um belo copo à frente do nariz; copo que vem e vai, despejado e logo recarregado daquilo que nele faz falta quando vazio fica.
Mas, se me esquivo a aceitar a Razão, o que resta?
Se formulaste esta questão mereces resposta, aveludado leitor. O que resta, queres tu saber? Pois, na minha estrábica perspectiva, parece-me que não resta nada mas apenas o Vazio (que não tenho a certeza que seja alguma coisa).
E quem quer viver no Vazio? Impacientas-te tu com uma certa dose de... razão.
Pois olha, amigo meu, isso não te posso responder porque, tal como o outro, "só sei que nada sei" embora, cá no fundo, que sou pessoa um tanto convencida e vaidosa, não acredite em tanta ignorância nem esteja tão convicto das qualidades extraordinárias do Vazio e nem dos defeitos impraticáveis da Razão.
Já ia fechar a loja quando encontrei isto algures aí pelo espaço virtual. Pareceu-me a propósito embora não subscreva.
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terça-feira, junho 10, 2014
Selvajaria
Terá o primeiro ser humano
pressentido a felicidade? Tê-la-á sentido, de facto, em alguma ocasião? Talvez
essa sensação, esse pressentimento, essa coisa instalada no peito, talvez tenha
servido de motivação para que os nossos antepassados mais remotos tenham
começado esta infindável luta pela sobrevivência da espécie.
Talvez a felicidade seja a
principal razão pela qual todos os animais se esforçam por sobreviver. Talvez
devêssemos chamar instinto à felicidade; e não sentimento, ou lá o que chamamos
a isso. E os animais que mais lutam, os que mais se esforçam no desespero de
prevalecer, os reis da selva, talvez sejam os que mais sentem (ou pressentem) a
felicidade na sua forma mais pura, quase, quase, a felicidade tal como ela é.
Talvez lhes venha daí a
agressividade extraordinária, a capacidade de trucidar e matar, despedaçar os
outros animais, seja à dentada, seja à força de patadas violentas. Talvez o
desejo de felicidade nos transforme em feras.
Entre nós, seres humanos,
felicidade e amor parecem vir amiúde emparelhados, uma coisa a permitir a
existência da outra e vice-versa. Talvez a violência seja o resultado de uma
certa necessidade de amor. Talvez o amor seja a sublimação da mais absoluta
selvajaria.
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quarta-feira, junho 04, 2014
O Mundo muda bué
Muito barafustamos nós com os chineses por eles não serem como nós dizemos que somos nem respeitarem os princípios que nós imaginamos respeitar.
Que não há Democracia na China, que não há Direitos Humanos. Ora bolas... os chineses que se lixem? Isso é que era doce!!!
A Democracia e os Direitos Humanos são invenções nossas, coisas surgidas no Ocidente, criaturas da nossa civilização, porque carga de água haveriam de dizer o que quer que fosse aos habitantes do Império do Meio?
Pois é mas... segundo rezam recentes previsões de encartados bruxos, o Produto Interno Bruto da China será maior que o dos Estados Unidos já em 2016, faltam dois anitos! A China será a maior economia do mundo em 2021, a sua moeda substituirá o dólar como reserva mundial em 2027 e, trema-se de pavor, será a potência militar mais poderosa do universo em 2030. Com alguma sorte ainda por cá andarei para assistir a algumas destas mudanças, com algum azar ainda por cá andarei para assistir a todas elas.
Quererá tudo isto dizer que, muito em breve, o mundo começará a estudar as línguas faladas na China para, dentro de um ou dois séculos, esquecer o inglês? Irão os Direitos Humanos tornar-se ainda mais deslocados e desprezados quando nós, os orgulhosos e petulantes ocidentais nos voltarmos de mão estendida para a imensa China?
Eu sei que o Mundo muda bué, que não há Valores Universais, que os Valores (com "V" maiúsculo) são muito parciais mas, caramba, isso não me ajuda a aceitar os valores de outros povos e de outras civilizações assim, de monco caído.
Irá o Ocidente praticar a secular arte de engolir sapos vivos?
Que não há Democracia na China, que não há Direitos Humanos. Ora bolas... os chineses que se lixem? Isso é que era doce!!!
A Democracia e os Direitos Humanos são invenções nossas, coisas surgidas no Ocidente, criaturas da nossa civilização, porque carga de água haveriam de dizer o que quer que fosse aos habitantes do Império do Meio?
Pois é mas... segundo rezam recentes previsões de encartados bruxos, o Produto Interno Bruto da China será maior que o dos Estados Unidos já em 2016, faltam dois anitos! A China será a maior economia do mundo em 2021, a sua moeda substituirá o dólar como reserva mundial em 2027 e, trema-se de pavor, será a potência militar mais poderosa do universo em 2030. Com alguma sorte ainda por cá andarei para assistir a algumas destas mudanças, com algum azar ainda por cá andarei para assistir a todas elas.
Quererá tudo isto dizer que, muito em breve, o mundo começará a estudar as línguas faladas na China para, dentro de um ou dois séculos, esquecer o inglês? Irão os Direitos Humanos tornar-se ainda mais deslocados e desprezados quando nós, os orgulhosos e petulantes ocidentais nos voltarmos de mão estendida para a imensa China?
Eu sei que o Mundo muda bué, que não há Valores Universais, que os Valores (com "V" maiúsculo) são muito parciais mas, caramba, isso não me ajuda a aceitar os valores de outros povos e de outras civilizações assim, de monco caído.
Irá o Ocidente praticar a secular arte de engolir sapos vivos?
segunda-feira, junho 02, 2014
Cauda de lagartixa
A nossa necessidade de atenção e compreensão é uma coisa de dimensão cósmica.
Ao terminar a frase registada acima reparei como poderia ter escrito "cómica" no lugar de "cósmica" e o discurso seguiria por caminhos bem distintos... ou não?
Bom, este é um bom exemplo daquilo que os meus professores classificavam como um "espírito disperso". A facilidade com que mudo de direcção deveria preocupar-me caso fosse um profissional de ciência exacta. A verdade é que, na maior parte das actividades que desenvolvo, este pensamento errático serve bem enquanto ferramenta de trabalho.
Repare, caríssimo leitor, como estou já longe da ideia inicial. É isso um problema? Diga-me você.
Voltando atrás: necessidade cósmica? Sim, isto porque imaginamos um Deus omnipresente e omnipotente que, no entanto, hesita nos sinais que envia para nos ir informando dos seus objectivos, orientações e reprovações. Na verdade, quem acredita em Deus, vive para tentar compreendê-Lo e, desse modo, justificar os próprios actos. Não há Livre Arbítrio para esta facção da Humanidade.
Ora, para um gajo como eu, cuja capacidade de concentração é como um pássaro que se esqueceu do lugar onde fez o ninho, Deus é uma presença ocasional; posso estar a tentar contactar com Ele através da oração e, por exemplo, distrair-me com o "agora e na hora da nossa morte", do Pai Nosso. Sim, a frase poderá sugerir que, quando eu morrer e os restantes pecadores baterem a bota, Ele morre também.
Ok, estou a forçar a coisa para poder continuar a derivar e a contorcer o discurso, justificando o título deste post provando a minha capacidade de perder o fio sem perder a meada e vice-versa. Isto serve-me às mil maravilhas para dar uma aula ou fazer um desenho (nunca, ou muito raramente, faço um esboço) mas, imagine o leitor, as dificuldades que se colocam quando tenho de cumprir os deveres burocráticos que infernizam a existência dos professores mais capazes de organizar o pensamento.
Voltando atrás: dimensão cómica? Sim, quando era criança achava tanta graça às contorções de uma cauda de lagartixa que estropiava alegremente os animaizinhos. Sabia bem que o irrequieto apêndice haveria de crescer outra vez, milagre de regeneração de tecidos. Tal como as ideias, tal como os pensamentos...
Ao terminar a frase registada acima reparei como poderia ter escrito "cómica" no lugar de "cósmica" e o discurso seguiria por caminhos bem distintos... ou não?
Bom, este é um bom exemplo daquilo que os meus professores classificavam como um "espírito disperso". A facilidade com que mudo de direcção deveria preocupar-me caso fosse um profissional de ciência exacta. A verdade é que, na maior parte das actividades que desenvolvo, este pensamento errático serve bem enquanto ferramenta de trabalho.
Repare, caríssimo leitor, como estou já longe da ideia inicial. É isso um problema? Diga-me você.
Voltando atrás: necessidade cósmica? Sim, isto porque imaginamos um Deus omnipresente e omnipotente que, no entanto, hesita nos sinais que envia para nos ir informando dos seus objectivos, orientações e reprovações. Na verdade, quem acredita em Deus, vive para tentar compreendê-Lo e, desse modo, justificar os próprios actos. Não há Livre Arbítrio para esta facção da Humanidade.
Ora, para um gajo como eu, cuja capacidade de concentração é como um pássaro que se esqueceu do lugar onde fez o ninho, Deus é uma presença ocasional; posso estar a tentar contactar com Ele através da oração e, por exemplo, distrair-me com o "agora e na hora da nossa morte", do Pai Nosso. Sim, a frase poderá sugerir que, quando eu morrer e os restantes pecadores baterem a bota, Ele morre também.
Ok, estou a forçar a coisa para poder continuar a derivar e a contorcer o discurso, justificando o título deste post provando a minha capacidade de perder o fio sem perder a meada e vice-versa. Isto serve-me às mil maravilhas para dar uma aula ou fazer um desenho (nunca, ou muito raramente, faço um esboço) mas, imagine o leitor, as dificuldades que se colocam quando tenho de cumprir os deveres burocráticos que infernizam a existência dos professores mais capazes de organizar o pensamento.
Voltando atrás: dimensão cómica? Sim, quando era criança achava tanta graça às contorções de uma cauda de lagartixa que estropiava alegremente os animaizinhos. Sabia bem que o irrequieto apêndice haveria de crescer outra vez, milagre de regeneração de tecidos. Tal como as ideias, tal como os pensamentos...
terça-feira, maio 27, 2014
Não ter medo
Como podemos nós, europeus, ressuscitar o mais terrível monstro da nossa História comum e trazê-lo desta forma para dentro de casa? O que faz com que, num país como a França, os eleitores votem maioritariamente num partido assumidamente nazi?
Muitas vezes tenho aqui expressado o meu descontentamento com "o estado a que isto chegou" mas era incapaz de imaginar uma coisa tão abjecta.
Muitas vezes penso: será que um nazi olha para mim, por ser de esquerda, com um asco equivalente ao que sinto por ele? Imagino que o sentimento dele seja mais forte do que o meu.
Esse é o problema com esta gente; desenvolvem uma incrível capacidade para odiar aquilo que receiam ao ponto de se animalizarem. Com os nazis não há discussão nem debate: há porrada! Estaremos nós a caminhar para uma Europa onde grandes as decisões se vão decidir segundo o método nazi?
Não há que ter medo, há que estar preparado.
sexta-feira, maio 23, 2014
Vislumbre
A voz era morna e bem torneada, como são sempre as vozes dos locutores, mas a forma como dizia as coisas que tinha para dizer era de uma inexpressão, de uma frieza distanciada, que me fez recordar os tempos em que, miúdo, ouvia certos colegas a ler nas aulas de Português. Sabiam ler, é certo, mas davam a sensação de não compreender nem um bocadinho o conteúdo das suas leituras. A máquina funcionava mas produzia ruído e pouco mais.
Assim fiquei; estático por momentos, sem dar atenção ao texto, focado exclusivamente no tom. Tive um vislumbre daquilo que (compreendo agora) se está a transformar a nossa sociedade Ocidental: uma coisa vazia e ôca, travestida, uma falsidade que se afirma genuína constantemente, uma beleza horrível de tão perversa (que a beleza pode ser horrível sem ferir mais do que a susceptibilidade de alguns ou apenas da maioria).
Saí do carro como um zombie. Subi a rua sem me aperceber dos passos que dei, levava a cabeça perdida no tal sítio, a cabeça perdida num lugar que é apenas uma visão.
Quando dei por mim estava encostado ao balcão da pastelaria a beber um café. Fui trazido de regresso à realidade pela voz de flauta esganiçada de uma senhora que costuma tomar o pequeno-almoço naquele lugar e fala sempre como se estivesse a discursar sem microfone num comício. Que senhora tão irritante.
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terça-feira, maio 20, 2014
Admirável país novo
Continuamos a tratar os nossos alunos como animaizinhos de
circo. Treinamo-los na repetição de tarefas, oferecemos-lhes um doce quando
cumprem com sucesso o comando que lhes é dado e ficamos todos satisfeitos
(pais, professores, ministro, técnicos especialistas, auxiliares de educação,
pessoal administrativo, tios, primos, avós, padrinhos e demais encarregados de
educação) quando nos momentos de maior pressão, na realização de testes de
exame, a maioria dos meninos alcançam médias a rondar a fronteira da negativa.
É um triunfo, a marca do sucesso do nosso sistema educativo. Se a coisa
funcionar assim, poucos cidadãos irão ficar incomodados com o facto de que a
maioria dos meninos não seja capaz de argumentar a sustentação de um ponto de
vista de forma lógica e fundamentada.
Não é que eles não tenham essa
capacidade, simplesmente não são estimulados a fazê-lo porque não há tempo. Há
um programa a cumprir, muitos meninos na sala, alguma confusão, muito açúcar ao
pequeno-almoço, não sobra espaço para grandes conversas que não se cinjam
estritamente à “matéria”, preferencialmente a “matéria” de exame.
Eles são
treinados: primeiro para copiar o que o professor escreve no quadro e decorar
os textos dos manuaizinhos, depois para perceber a melhor forma de debitar tal
e qual a informação retida no local correcto.
A coisa resume-se muito a isto;
trabalha-se com os meninos como se trabalha com macaquinhos acrobatas ou leões
anestesiados, faz-se da escola uma arena de circo, os professores são como
domadores. Um dia mais tarde os meninos serão adultos e, com alguma sorte,
continuarão a ser acríticos, a torcer o nariz sempre que lhes cheira a
discussão de ideias, dóceis como carneiros de cada vez que os chefes e os
poderosos lhes abram os olhos e os mandem obedecer.
É este o desígnio do nosso
sistema de ensino? Assim se constrói um admirável país novo.
domingo, maio 18, 2014
Pesadelo dominical
Poderá a Democracia sobreviver a si própria? A abertura dos regimes democráticos permite a proliferação de todo o tipo de agremiações de sacanas e de filhos da puta.
A mentira (ou "inverdade", como por vezes se diz) passa com facilidade para a opinião pública travestida de verdade inquestionável. O espaço de reflexão colectiva fervilha de propaganda e tende a menosprezar o pensamento estruturado, a frase curta é uma bomba que faz explodir em bocadinhos o pensamento especulativo. A nossa Democracia idolatra a Facilidade e teme a Dificuldade. Assim resvalamos alegremente para uma fossa repleta de merda.
A Economia ocupa todo o horizonte, nada mais parece visível aos olhos da maioria: só vemos dinheiro, sonhamos com dinheiro, desejamos dinheiro. A Solidariedade, base dos regimes democráticos, é olhada com indiferença, quando não com desdém. O mundo Ocidental contorce-se com dores difíceis de suportar num parto que promete trazer a este mundo um qualquer ser social monstruoso.
Assistimos a tudo isto com uma sensação de impotência, um torpor estupidificante, que parece impedir-nos de pensar e agir. A Política perde terreno, afunda-se em contradições e recuos impensáveis perante a Grande Finança. O que vai sair daqui?
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quarta-feira, maio 14, 2014
Milagres
Ontem foi dia de comemorar milagre. Saí à rua a olhar para cima, não fosse a Virgem passar por ali e eu, distraído, a não visse. Pensei em todos aqueles milhares de peregrinos que palmilham as estradas de Portugal em direcção a Fátima, terão eles a secreta esperança de dar de caras com Nossa Senhora?
Cansado de olhar por detrás de cada nuvem à cata de uma aparição, lá me orientei por entre os prédios, o lixo, os automóveis e as pessoas com olhar de zombie, penetrando no meu quotidiano delirante com aquela segurança abstracta que define o modo de ser do citadino contemporâneo: "sou um estereotipo", pensei. "Espera, sou um estereotipo que pensa; menos mau."
É bastante frequente ter pensamentos deste tipo, pensamentos que me sossegam, como se desse palmadinhas no ombro a mim próprio: "deixa lá isso, pá, o mundo é uma merda mas tu até nem estás mal"; é assim que nos distraímos dos passos que damos e nos arriscamos a dar de trombas com um santo qualquer?
Talvez não, esta capacidade para a auto-complacência pelo contrário, deve ser coisa para afugentar as bondosas criaturas celestiais. Imagino que um gajo como eu não precise de um santinho que o salve quando se tem a si próprio. Os santos decerto encontram pessoal bem mais precisadinho das suas capacidades curativas.
Ontem foi dia de comemorar milagre mas os milagres são para quem tem a felicidade de tropeçar neles e não para quem deles anda à procura.
domingo, maio 04, 2014
Domingo
Esta
gentinha que nos governa não tem classificação possível. Quando frequentei a
escola de Belas Artes, nas disciplinas práticas, não havia classificações
negativas. Abaixo de 10 a pauta referia apenas “não apto”.
Assim classifico
Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e restantes sócios. Não merecem mais, eles
não estão aptos para a governação, tentar classificá-los faz de nós piores
pessoas pois, com facilidade, caímos no desprezo intestino e no insulto soez.
Não quero ser como eles, quero ser diferente, eu sou diferente destas coisas,
eu sou uma pessoa, tenho princípios, acredito que a vida tem um sentido e que
esse sentido é fazer do nosso mundo, da nossa sociedade, um lugar melhor para
as gerações que se seguem. Recuso a mentira, acredito na Palavra. Recuso a
habilidade retórica, acredito nos Valores.
Se calhar
não há saída para o buraco em que vivemos, se calhar a realidade é a Caverna e as
sombras são a única possibilidade que temos de apreender a realidade. Se calhar
as correntes que nos ferem os tornozelos são o melhor que os deuses têm para
nos oferecer. Mas, se tiver de eleger um herói, eu elejo Ulisses e desafio os
deuses. Os deuses que se lixem. Que se lixem os nervos dos mercados e que se
lixem os cenhos franzidos dos deuses nórdicos, eu sou ibérico, vivo debaixo do
sol, dificilmente aceito uma divindade que se alimente da sombra.
Esta
gentinha que nos governa não imagina o que sejam divindades. São uma turba de
paloncitos engravatados, inebriados pelo pivete do perfume com que tentam esconder
o fedor que lhes envolve as almas. Não tenho pena deles, sei que vão arder nas
chamas de infernos de 3ª categoria enquanto os demónios que os tutelam tiverem
capacidade para pagar a conta do gás. Quando lhes acabar a verba vão rebentar
de frio. Terão sempre aquilo que a sua soberba e a sua ignorância lhes reserva.
Nem mais nem menos.
Apesar de tudo o universo rege-se por uma espécie de
justiça um tanto complicada, é certo, mas justiça.
domingo, abril 27, 2014
sábado, abril 26, 2014
26 de Abril
Ontem comemorou-se o 40º aniversário da revolução portuguesa de 25 de Abril.Como o número era redondo houve um pouco mais de agitação mediática em volta do muito nosso Dia da Liberdade. Nos últimos anos a coisa tinha vindo a esmorecer um bocadinho mas ontem a festa foi de arromba.
Bom, festa, festa... talvez seja um pouco forçado chamar festa ao que ontem por aí se viu. Manifestações, palavras de ordem, discursos chatos, empolgantes, curtos e compridos, de tudo ao povo foi servido mas a impressão com que se fica é a de que anda o pessoalzinho todo lixado com a forma como o poder democrático está a ser exercido na lusa pátria.
Há mesmo quem se atreva a sugerir nova revolução! Mas que revolução seria essa? Poderia o nosso país voltar à rua para apear um governo, ainda para mais democraticamente eleito? Não me parece que seja uma revolução desse tipo a que poderemos agora almejar.
A revolução terá de ser outra coisa, terá de começar dentro de cada um de nós. Temos de pensar nisso!
Bom, festa, festa... talvez seja um pouco forçado chamar festa ao que ontem por aí se viu. Manifestações, palavras de ordem, discursos chatos, empolgantes, curtos e compridos, de tudo ao povo foi servido mas a impressão com que se fica é a de que anda o pessoalzinho todo lixado com a forma como o poder democrático está a ser exercido na lusa pátria.
Há mesmo quem se atreva a sugerir nova revolução! Mas que revolução seria essa? Poderia o nosso país voltar à rua para apear um governo, ainda para mais democraticamente eleito? Não me parece que seja uma revolução desse tipo a que poderemos agora almejar.
A revolução terá de ser outra coisa, terá de começar dentro de cada um de nós. Temos de pensar nisso!
sexta-feira, abril 18, 2014
Regresso e fuga
Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.
Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.
Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.
Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.
Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.
Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.
Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.
Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.
Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.
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quinta-feira, março 27, 2014
Beleza
As coisas não têm, obrigatoriamente, que ser belas. As coisas têm, isso sim, de fazer sentido e nós, se fizermos sentido com elas, poderemos compreendê-las. É na nossa capacidade de compreensão que reside a beleza do mundo: descobrir o sentido das coisas faz de nós artistas.
A beleza é uma possibilidade universal e latente. Na verdade todas as coisas do mundo são potencialmente belas pois todas elas (todas elas) fazem sentido. Uma nuvem é bela, um grão de areia é belo, um monte de merda tem a sua beleza. Um parafuso ou um caracol são fontes de inesgotável beleza. Compete-nos a nós compreender o sentido que estas coisas fazem e descortinar a beleza que possuem.
A beleza das coisas depende muito de quem as vê, ouve, sente; seja um ser humano ou qualquer outro tipo de entidade, animal ou nem por isso. A beleza está aí, em todo o lado, à espera de ser percepcionada. Há, no entanto, milhões de coisas às quais nunca ninguém sentiu, viu ou ouviu o mais leve traço de beleza.
Não sei se não são essas as coisas perigosas...
A beleza é uma possibilidade universal e latente. Na verdade todas as coisas do mundo são potencialmente belas pois todas elas (todas elas) fazem sentido. Uma nuvem é bela, um grão de areia é belo, um monte de merda tem a sua beleza. Um parafuso ou um caracol são fontes de inesgotável beleza. Compete-nos a nós compreender o sentido que estas coisas fazem e descortinar a beleza que possuem.
A beleza das coisas depende muito de quem as vê, ouve, sente; seja um ser humano ou qualquer outro tipo de entidade, animal ou nem por isso. A beleza está aí, em todo o lado, à espera de ser percepcionada. Há, no entanto, milhões de coisas às quais nunca ninguém sentiu, viu ou ouviu o mais leve traço de beleza.
Não sei se não são essas as coisas perigosas...
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sexta-feira, março 14, 2014
Numeração humana
A nós tatuam-nos uma série de numerozinhos no cartão de cidadão: identificação fiscal, utente de saúde, segurança social e mais uns quantos, um pouco menos perceptíveis mas, decerto, individualizados.
Há também os números das contas bancárias (que alguns de nós tatuam na memória), além dos números dos cartões de débito ou de crédito que funcionam como aquelas tatuagens que saem como brinde nas guloseimas das crianças; aquelas que se "tatuam" com água e vão desaparecendo com o tempo.
Estamos todos escrevinhados, riscados e carimbados, identificados, numerados e chipados. Somos como pombos com anilha electrónica, não damos um passo que não possa vir a ser reconstituído no futuro caso seja necessário alguma autoridade saber onde fomos, por forma a poder decidir o que andámos a fazer.
Virá o dia em que todo e cada ser humano será chipado à nascença, um chip enfiado algures, num lugar de onde seja inamovível. Todos os números guardados bem fundo do ser, o sonho de qualquer sistema burocrático contemporâneo.
Estamos marcados para a vida e, decerto, um dia que nos enfiem num caixote e nos enterrem algures, haveremos de ter um numerozinho qualquer que nos identifique, individualize e permita saber com exactidão onde foram depositados os nossos restos mortais.
sábado, março 08, 2014
Ahoy!
A Ode Marítima, está em cena no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, com Diogo Infante a representar e João Gil, sentado sob uma ténue luz, tocando guitarra de quando em vez.
Infante leva o texto de Álvaro de Campos numa viagem ora suave ora lugubremente alucinada. Gil está lá, umas vezes silencioso, outras dedilhando a guitarra de forma irrepreensível.
O espectáculo é excelente.
Ahoy! A palavra, caraças! A palavra...
Infante leva o texto de Álvaro de Campos numa viagem ora suave ora lugubremente alucinada. Gil está lá, umas vezes silencioso, outras dedilhando a guitarra de forma irrepreensível.
O espectáculo é excelente.
Ahoy! A palavra, caraças! A palavra...
quarta-feira, março 05, 2014
Aos amigos brasileiros
![]() |
| Capa da edição do Público de 5 de Março de 2014, a ilustração é de Adriana Calcanhoto |
Hoje é dia de aniversário do jornal Público, um dos diários portugueses de maior tiragem no país. Todos os anos o jornal comemora o aniversário convidando alguém para ser director por um dia.
Este ano o Público convidou Adriana Calcanhoto e o número de hoje (ver aqui) é totalmente dedicado ao Brasil. Uma visita ao site do jornal permite ver uma série de reportagens, entrevistas e outras peças jornalísticas dedicadas ao que aqui designamos por País Irmão.
Parece-me uma coisa interessante. Adriana Calcanhoto assina um editorial muito bom e, logo a seguir, na página 3, é publicado um excerto da carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei Dom Manuel por ocasião do achamento da Terra da Vera Cruz. Ao longo do jornal, mais excertos vão aparecendo, como se estivessemos a desvendar o Brasil à medida que vamos avançando na leitura. Essa Adriana tem ideias...
Um número de festa com o Brasil em pano de fundo.
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terça-feira, março 04, 2014
A pergunta
Nos últimos dias tenho acordado da forma habitual: pronto para dormir, como diz a canção de Manuel da Cruz. À medida que me vou deslocando de modo automático no regresso a este mundo vem-me à cabeça uma pergunta.
A guerra terá começado?
A situação na Crimeia parece explosiva. Russos de um lado, ucranianos do outro, a comunidade internacional a enviar recados. Os meios de comunicação abordam a questão oscilando entre um tom apocalíptico e outro mais optimista. É uma situação estranha. O conflito parece ser inevitável mas ninguém, deste lado do mundo, quer realmente acreditar nessa possibilidade.
E se a guerra estoirar, de facto? Como vai ser? Irão os ucranianos ser abafados pelo exèrcito russo numa batalha desigual? O que farão os Estados Unidos e a União Europeia? Não foi mais ou menos assim que começaram as duas grandes guerras do século passado?
Faço café e torradas, leio mais umas páginas da Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster. Vou tomar banho. Depois tenho de me deslocar ao banco (o meu cartão de débito foi engolido por uma máquina que não mo devolveu) e levar o computador a um feiticeiro informático qualquer (o computador pifou, morreu, foi-se), um feiticeiro que, pelo menos, lhe recupere a memória.
É assim; pouco tempo após ter regressado ao mundo real a realidade vai-se transformando em algo próximo, comezinho, vulgar. O futuro deste mundo discute-se lá longe, na Crimeia, mas, para já, as minhas preocupações são outras.
Terá a guerra começado enquanto escrevi estas palavras?
A guerra terá começado?
A situação na Crimeia parece explosiva. Russos de um lado, ucranianos do outro, a comunidade internacional a enviar recados. Os meios de comunicação abordam a questão oscilando entre um tom apocalíptico e outro mais optimista. É uma situação estranha. O conflito parece ser inevitável mas ninguém, deste lado do mundo, quer realmente acreditar nessa possibilidade.
E se a guerra estoirar, de facto? Como vai ser? Irão os ucranianos ser abafados pelo exèrcito russo numa batalha desigual? O que farão os Estados Unidos e a União Europeia? Não foi mais ou menos assim que começaram as duas grandes guerras do século passado?
Faço café e torradas, leio mais umas páginas da Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster. Vou tomar banho. Depois tenho de me deslocar ao banco (o meu cartão de débito foi engolido por uma máquina que não mo devolveu) e levar o computador a um feiticeiro informático qualquer (o computador pifou, morreu, foi-se), um feiticeiro que, pelo menos, lhe recupere a memória.
É assim; pouco tempo após ter regressado ao mundo real a realidade vai-se transformando em algo próximo, comezinho, vulgar. O futuro deste mundo discute-se lá longe, na Crimeia, mas, para já, as minhas preocupações são outras.
Terá a guerra começado enquanto escrevi estas palavras?
domingo, março 02, 2014
Vénus de Vison
O Teatro em Portugal é ainda uma espécie de coisa estranha, quase secreta. Basta olhar a programação cultural nas páginas dos jornais para perceber que a oferta é cada vez mais rara e ir a uma sala para constatar que não é propriamente um fenómeno de massas.
Não sou um espectador particularmente assíduo mas assisto a um número razoável de espectáculos, principalmente em Lisboa e Almada. Raramente saio desiludido.
Na passada quarta-feira fui ao Teatro Aberto (aqui) onde está em cena Vénus de Vison (ver aqui). A sala tinha aproxiamadamente um terço das cadeiras ocupadas. No final os actores foram brindados com uma merecida ovação. Ana Guiomar e Pedro Laginha formam um par extremamente competente, atingindo momentos de representação de uma intensidade assinalável.
Um espectáculo despretensioso que merece a tua visita, caro leitor.
Não sou um espectador particularmente assíduo mas assisto a um número razoável de espectáculos, principalmente em Lisboa e Almada. Raramente saio desiludido.
Na passada quarta-feira fui ao Teatro Aberto (aqui) onde está em cena Vénus de Vison (ver aqui). A sala tinha aproxiamadamente um terço das cadeiras ocupadas. No final os actores foram brindados com uma merecida ovação. Ana Guiomar e Pedro Laginha formam um par extremamente competente, atingindo momentos de representação de uma intensidade assinalável.
Um espectáculo despretensioso que merece a tua visita, caro leitor.
sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Uma alegoria
Her (uma História de Amor, na versão portuguesa) é um filme que nos coloca perante uma estranha história de paixão assolapada.
A acção evolui num ambiente moderadamente futurista onde as calças dos homens são demasiado subidas na cintura e a maioria anda de mala a tiracolo pelas ruas da cidade. É um mundo tecnológico e os computadores rondam o interior das cabeças das personagens.
A narrativa desenrola-se num tom melancólico, oscilando entre momentos de comédia e momentos de alguma tensão dramática. Joaquin Phoenix tem um desempenho excelente, como é seu hábito, Amy Adams e a voz de Scarlett Johansson cumprem os respectivos papéis com brilhantismo. Banda sonora a preceito e realização impecável de Spike Jonzee. Deve dar para perceber que gostei bastante do filme.
A história é de amor, como o subtítulo em português sublinha a traço grosso, um amor improvável entre um ser humano e outro que não se percebe muito bem o que é. Parece-me uma alegoria, por vezes quase pueril, sobre o que somos e aquilo em que nos estamos a transformar.
Uma visão plausível do futuro (do presente?) das relações entre seres humanos e outros... objectos. Ou talvez vice-versa...
A acção evolui num ambiente moderadamente futurista onde as calças dos homens são demasiado subidas na cintura e a maioria anda de mala a tiracolo pelas ruas da cidade. É um mundo tecnológico e os computadores rondam o interior das cabeças das personagens.
A narrativa desenrola-se num tom melancólico, oscilando entre momentos de comédia e momentos de alguma tensão dramática. Joaquin Phoenix tem um desempenho excelente, como é seu hábito, Amy Adams e a voz de Scarlett Johansson cumprem os respectivos papéis com brilhantismo. Banda sonora a preceito e realização impecável de Spike Jonzee. Deve dar para perceber que gostei bastante do filme.
A história é de amor, como o subtítulo em português sublinha a traço grosso, um amor improvável entre um ser humano e outro que não se percebe muito bem o que é. Parece-me uma alegoria, por vezes quase pueril, sobre o que somos e aquilo em que nos estamos a transformar.
Uma visão plausível do futuro (do presente?) das relações entre seres humanos e outros... objectos. Ou talvez vice-versa...
segunda-feira, fevereiro 24, 2014
A Princesa Jornalista
Eu não sei, sinceramente, não sei grande coisa sobre esta menina. Estou em crer que seja uma mulher. Grande. Uma grande mulher. Não a conheço nem creio que alguma vez venha a conhecê-la pessoalmente. Leio-a. Há muito tempo que a leio nas páginas do jornal Público.
De há uns anos para cá que ela foi para o Brasil. Agora escreve sobre o Brasil. Está no Brasil, vive no Brasil e escreve sobre a sua estadia, a sua vida, a vida do Brasil (olha ela rindo com seu Jô ali na foto).
Os textos de Alexandra Lucas Coelho vão sendo publicados semanalmente no suplemento 2, que acompanha o jornal todos os Domingos e podem ser lidos aqui, no blogue Atlântico-Sul, o título da sua página semanal na tal revista.
Alexandra é uma Princesa Jornalista. Não precisa de ter tido pai que fosse rei, a realeza de Alexandra é daquelas que se conquistam pela excelência.
Se eu vivesse no Brasil ia ficar feliz por ter uma Princesa assim a viver no meu país. Como vivo em Portugal fico triste por não ter a minha Princesa mais perto. Assim sendo vou vendo o Brasil (onde nunca fui) através dos seus olhos maravilhosos.
Que coisa extraordinária!
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sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Apolos
Oh, quantas vezes esquecemos, quantas vezes ignoramos as divindades! É como com as fadas nas histórias infantis: se não se acredita nelas acabam por desfalecer e, no extremo, batem as botinhas e vão desta pra melhor. Adeus, até nunca mais...
Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.
Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!
Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).
Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).
Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.
Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!
Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...
Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.
Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!
Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).
Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).
Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.
Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!
Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...
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terça-feira, fevereiro 18, 2014
sábado, fevereiro 15, 2014
Viva Dada!
Ontem fui assistir ao concerto dos Mler If Dada no CCB. Passaram mais ou menos 30 anos desde a última vez que os tinha visto actuar ao vivo. De lá para cá tinha ouvido os CD's, principalmente "Coisas que fascinam".
Sinceramente, quando entrei na sala já ia à espera de algo transcendente mas estava longe de imaginar um espectáculo de tal forma magnífico! Sentadinho na confortável cadeira dei por mim a sorrir embasbacado, embevecido, completamente rendido. Terei viajado no tempo? Estou em crer que sim.
Anabela Duarte foi de uma expressividade deslumbrante, Nuno Rebelo mostrou o seu virtuosismo instrumental e genialidade enquanto compositor. A banda foi irrepreensível A sala veio abaixo várias vezes e sempre se reergueu pois havia mais música, mais espectáculo, mais milagres para acontecer.
Quando terminou a função o público ovacionou em pé os extraordinários artistas durante largos minutos. Toda a gente sorria embasbacada, embevecida, toda a gente a sorrir. Cá em baixo e lá em cima, no palco. Uma coisa mais do que bonita, um verdadeiro acontecimento Dada!!!
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
Namoros
Hoje é dia de trabalho rotineiro para o Cupido em que ele faz horas extraordinárias. É suposto que ofereçamos coisas que, de algum modo, simbolizem e comemorem o amor.
Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.
Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.
Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?
Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.
Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?
O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.
Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.
Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.
Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?
Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.
Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?
O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Ai, Miró!
Há 40 anos
era muito pior. Há 40 anos uma percentagem assustadora dos nossos não sabia ler
nem escrever embora fosse capaz de fazer contas. Uns contavam pelos dedos
outros faziam contas de cabeça.
Há 40 anos poucos (mas mesmo muito poucos) dos
nossos sabiam quem era Miró que ainda por aí andava a fazer coisas daquelas. Há
40 anos o nosso Secretário de Estado da Cultura actual já sabia ler e, decerto,
já saberia escrever.
Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso.
Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso.
Há
40 anos éramos um povo de pobres labregos, um país sem estradas nem comércio e,
apesar de termos já muitos ladrões de fato e gravata, estávamos longe de
atingir os níveis de corrupção de que hoje nos orgulhamos nas reuniões da
Internacional Capitalista.
Há 40 anos Portugal era a preto e branco, hoje já
vai havendo uns arco-íris a espreitar detrás da porta do armário. Há 40 anos éramos
governados por um bando de velhacos hoje… bom, hoje somos governados por um
grupo de senhoras e senhores que me abstenho de classificar.
Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.
Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.
Hoje, como
há 40 anos, poucos dos nossos (mas ainda assim muitos mais do que há 40 anos)
têm consciência de quem foi Miró e o que fez enquanto por aí andou. Hoje o Secretário
de Estado sabe ler, escrever e assinar despachos (deve ser lixado representar a
Cultura num governo como este!).
O pessoal já emigra de avião, com uma revista
científica debaixo do braço. Hoje temos muitas autoestradas e o Presidente da
República, embora pouco mais faça que descerrar placas comemorativas, é eleito,
efectivamente, por nós. Continuamos a ter muitos tubarões aldrabões mas isso é fado
de um país que vive junto ao mar.
Miró faz-me pensar no resto, no que era
realmente importante e ficou por cumprir. As 85 telas do mestre apenas servem
para mostrar quão surreal é o mundo em vivemos. O “caso” Miró lembra a quem
pode a urgência de uma verdadeira revolução, uma revolução Dadaísta, que faça
dos urinóis deste mundo peças de arte nas quais possamos mijar à vontade,
aliviando a bexiga à boleia do alívio da alma.
A sensação com que fico é que,
40 anos depois de termos imaginado um país decente e de alguns de nós, que
ainda por aí andam, terem sonhado com isso, falhámos completamente o nosso
objectivo.
Somos um povo que habita um país falhado. Precisamos de recomeçar tudo de novo mas agora os meninos maus ficam de castigo e os mais estúpidos não podem ser chefes de nada.
quinta-feira, janeiro 30, 2014
Momento introspectivo
Ensinar a desenhar é uma coisa divertida. É como fazer uma viagem com a diferença de que, no mundo real, quando viajamos para algum lugar, esse lugar, em princípio, existe e está lá, à nossa espera. No mundo do ensino do Desenho, o lugar para onde vamos ainda não existe; imaginamos que vá existindo, à medida que avançamos.
Um dos maiores desafios para não nos perdermos na floresta (por onde sempre temos de meter quando vamos em frente na aprendizagem das coisas do Desenho) é sermos capazes de verbalizar o que nos corre pela cabeça ao tentar explicar qualquer coisa ao jovem aluno. É como se fossemos construindo a estrada à medida que a vamos pisando.
Descobrir palavras capazes de dizer coisas que (ainda) não existem e que, mesmo depois de ditas, podem continuar a não significar nada que se compreenda, exige, mais do que imaginação, alguma inconsciência.
Sim, para ensinar Desenho não podemos ser completamente sãos da cabeça (pelo menos no sentido em que normalmente se aponta a sanidade mental característica de uma sociedade economicista que é o sermos pouco mais que um calhau com laivos de Humanidade) recomenda-se até uma certa dose de infantilidade e uma dose razoável de erudição visual.
Isso é fundamental porque, quando nos faltam as palavras e aquelas que inventamos se parecem demasiado com coisas banais, há sempre a possibilidade de recorrer a uma referência visual adequada à situação. E, com um computador por perto, o Santo Google fornece-nos todas as imagens com a velocidade instantânea de um dinossauro raptor.
Quando dou aulas de Desenho sinto-me frequentemente fora do tempo. Imagino que seja isto a Fonte da Juventude.
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pensamento profundíssimo
quarta-feira, janeiro 29, 2014
domingo, janeiro 26, 2014
Momento literário
Aos poucos fomos assentando as nossas ideias, revendo-as de trás para a frente durante umas semanas até chegarmos a um projecto final. "Forma e coerência - disse o mestre. - Estrutura, ritmo e surpresa."
Paul Auster in Mr. Vertigo
Forma e coerência. Estrutura, ritmo e surpresa... uma receita promissora para todo o aspirante a criador. Se Deus tivesse lido Mr. Vertigo talvez o mundo não fosse tão merdoso.
Paul Auster in Mr. Vertigo
Forma e coerência. Estrutura, ritmo e surpresa... uma receita promissora para todo o aspirante a criador. Se Deus tivesse lido Mr. Vertigo talvez o mundo não fosse tão merdoso.
sábado, janeiro 25, 2014
Partidos
O recente episódio da disciplina de voto dos representantes do PSD no
Parlamento causou algum estrondo na opinião pública mas é bom notar que, longe
de ser um caso isolado, é apenas mais um capítulo na longa telenovela da
história da nossa Assembleia da República. Uma telenovela com argumento de faca
e alguidar e um casting cada vez mais
miserável.
Ao longo dos anos os grupos parlamentares têm oferecido espectáculos
deste nível a todos nós sem que ninguém mexa uma palha para fazer cumprir a lei
que os próprios deputados desrespeitam. A disciplina de voto no Parlamento é
uma aberração democrática e uma alarvidade partidária. Os deputados que a ela
se sujeitam deixam de merecer a confiança de quem os elegeu e mostram que o
número de cadeiras no Parlamento à disposição dos aparelhos partidários é, pelo
menos, exagerado.
Pessoalmente,
o que me preocupa é que se estes tipos se comportam assim à vista de toda a
gente como serão na intimidade e aconchego das respectivas sedes partidárias? Se
perante o país os deputados mostram que a sua liberdade de opinião não vale um
chavo tenho dificuldades em imaginar o que será uma reunião para decidir os
representantes do partido nas listas seja para que eleição for. Será como
escolher cabeças de gado manso para o redil parlamentar?
O sistema
partidário, tal como funciona, é um entrave à Democracia. A opacidade das
decisões políticas, as negociatas feitas à descarada, o evidente aproveitamento
da coisa pública por aqueles que dela deviam zelar sem que isso lhes traga o
mínimo amargo de boca, a sensação que o Zé Povo tem de estar a ser
constantemente roubado e enganado, deveriam fazer pensar os responsáveis pelos
partidos e levá-los a tentar inventar alguma coisa que inverta a actual
situação. Caso contrário, talvez a próxima Revolução seja contra eles.
quarta-feira, janeiro 22, 2014
Aparição
Rodou os olhos para fora da janela. Parecia estupidificada, sem compreender o que fazia ali, como se regressasse ao mundo dos vivos após uma breve estadia no Além. Exalava tristeza por todos os poros ao ponto de criar uma névoa breve que lhe envolvia a expressão facial.
Escrevi estas palavras no meu bloco de notas e, quando olhei de novo, a senhora já lá não estava. Desaparecera do mesmo modo que surgira, num silêncio sepulcral. Fiquei a duvidar dos meus sentidos.
domingo, janeiro 19, 2014
Transparência
Foto de João Menéres retirada daqui
Disse o Jorge Pinheiro que "Cidade Transparente", o mais recente livro de Eduardo Lunardelli, se lê de um fôlego. Eu li em dois.
De início pensei estar a mergulhar nas memórias de Eduardo. Depois percebi que não era bem assim, que os diferentes textos/capítulos do livro me levavam numa espécie de comboio a viajar numa montanha russa. Tão depressa estava lá em cima como a seguir era levado encosta abaixo em grande velocidade. De repente parava. Logo a seguir recomeçava a viagem.
Há histórias sem Eduardo, outras com ele mesmo e outras ainda talvez o tenham por lá, mais ou menos escondido, mais ou menos revelado.
Em Paraty encontrei-me a mim próprio, quase quase personagem ficcionada, a olhar em frente ao lado de Picasso com quem Eduardo conversara. No final visitei a Cidade Transparente, esse lugar extrordinário que haverá de acabar por ser de insuportável transparência.
Para terminar este post quero agradecer a Eduardo ter-me oferecido esta viagem, coisa que apenas um amigo poderia oferecer.
Obrigado Eduardo.
sexta-feira, janeiro 17, 2014
Constatação
Por vezes sinto vergonha de ser português. Noutras ocasiões sou invadido por um orgulho tremendo pelo simples facto de fazer parte deste povo. Ser português é uma esquizofrenia cavalgante.
Imagino que esta bipolaridade não seja um exclusivo do povinho cá da terra. Todo o ser humano haverá de balançar entre o aperto no coração e a largueza do espírito. Tem dias.
Uma coisa começo a notar: são os engravatados, os doutores, os espertos e outras bestas do género que me envenenam o peito. Os mais burgêssos, os simplórios, os que falam "achim" e "dijem" "coijas" banais são os que me fazem sentir mais próximo de uma humanidade que anseio seja a minha.
Sou gajo de tasca (das antigas, sujas e a cheirar a vinho a martelo, não destas limpinhas e cheias de tiques que agora ostentam "tasca" no nome e cobram caro pelo mais singelo chouriço); muitos talheres e vários copos sobre a mesa coberta com toalha de pano fazem-me tremer a merda das pernas.
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Uma pessoa
Pelo olhar percebia-se logo que era uma pessoa muito grande enfiada num corpo pequenino. Ainda por cima era um corpo mal acabado, como se a Natureza estivesse apressada ou bêbeda no dia em que aquela pessoa extraordinária viu pela primeira vez a luz que ilumina este mundo.
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personagens (reais ou nem por isso)
domingo, janeiro 12, 2014
Elegia
Eusébio,
Tusébio,
Elesébio,
Nósèbio,
Vósèbio,
Eles aproveitam-se da tua imagem de um modo que até mete nojo. Roubam-te, vendem-te, dão-te lustro, empacotam-te, mandam-te para o Panteão, exibem-te na lapela em forma de lamento. Não imagino coisa mais feia que fazer se possa.
Tusébio,
Elesébio,
Nósèbio,
Vósèbio,
Eles aproveitam-se da tua imagem de um modo que até mete nojo. Roubam-te, vendem-te, dão-te lustro, empacotam-te, mandam-te para o Panteão, exibem-te na lapela em forma de lamento. Não imagino coisa mais feia que fazer se possa.
sábado, janeiro 11, 2014
A moldura
Nunca fui grande admirador da pintura de Renoir. Nem quando a conhecia apenas através de fotografias, bastante menos, ainda, depois de ter visto ao vivo umas quantas obras do grande mestre francês. Parece-me uma coisa pesada, sofrida, um tanto forçada. Mas é a minha opinião pessoal que vale o que vale.
Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).
Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.
A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.
A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.
Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!
Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).
Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.
A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.
A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.
Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!
quinta-feira, janeiro 09, 2014
Solidões (fica estranho no plural)
A solidão é um deserto enfiado no prato do almoço. Mesmo os feijões parecem desirmanados, estranhos que apenas se encontram quando enfiados na boca, mastigados e empurrados goela abaixo feitos papa. Aí sim, os feijões lá se entendem uns com os outros. Ás voltas no intestino já não há divergências, ciúmes, diz-que-disse, tentativas de burla, nada disso: ás voltas no intestino os feijões são todos irmãos.
A solidão é um deserto imenso (como todos os desertos) e é um deserto pequenino, como o prato vazio que espera o calor do almoço. A solidão, como o deserto, está rodeada de coisas por todos os lados. A solidão e o deserto são apenas ilhas no imenso arquipélago de silêncios e ausências em que se vai transformando a nossa existência.
A capacidade de verbalizar o que nos vai na mente pode não ser o suficiente para construir uma mensagem eficaz. As pessoas que falam e escrevem com dificuldade em concluir de forma clara uma ideia que preencha com eficácia os canais de comunicação, têm, muitas vezes, dificuldades em construir as ideias no próprio cérebro.
Ainda as ideias lhes dançam dentro do crânio e já lhes faltam peças. Quando saem para os ouvidos e os olhos do interlocutor, são já coisas disformes, muito diferentes das maravilhas pensadas. A distância entre o que se pensa e o que diz pode ser imensa... como um deserto. Muita gente se perde nessa distância e fica só. Como um único feijão no fundo do prato do almoço. Promessa de solidão e fome.
A solidão é um deserto imenso (como todos os desertos) e é um deserto pequenino, como o prato vazio que espera o calor do almoço. A solidão, como o deserto, está rodeada de coisas por todos os lados. A solidão e o deserto são apenas ilhas no imenso arquipélago de silêncios e ausências em que se vai transformando a nossa existência.
A capacidade de verbalizar o que nos vai na mente pode não ser o suficiente para construir uma mensagem eficaz. As pessoas que falam e escrevem com dificuldade em concluir de forma clara uma ideia que preencha com eficácia os canais de comunicação, têm, muitas vezes, dificuldades em construir as ideias no próprio cérebro.
Ainda as ideias lhes dançam dentro do crânio e já lhes faltam peças. Quando saem para os ouvidos e os olhos do interlocutor, são já coisas disformes, muito diferentes das maravilhas pensadas. A distância entre o que se pensa e o que diz pode ser imensa... como um deserto. Muita gente se perde nessa distância e fica só. Como um único feijão no fundo do prato do almoço. Promessa de solidão e fome.
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reflexão
segunda-feira, janeiro 06, 2014
O Eusébio
Faleceu Eusébio da Silva Ferreira. A comoção é grande, o país está de luto. Tenho sensações estranhas em relação a isto.
A onda de notícias, opiniões, testemunhos, epitáfios e mensagens de condolência é avassaladora, um maremoto de tristeza a varrer o mapa de Portugal. Pensei que me era indiferente mas já me comovi uma ou outra vez ao ouvir o rádio. Sobretudo ao ouvir palavras de pessoas anónimas em programas radiofónicos. Palavras simples de agradecimento e admiração por um homem cuja principal qualidade fora dos relvados de futebol era, ao que parece, uma extrema simplicidade.
O que me comove, penso eu, é constatar que, para o cidadão comum, a simplicidade é um valor superior. Num mundo doentiamente mediatizado e repleto de vedetas em pose surge este ícone modesto e de face humana. Um deus dentro do campo e um ser humano fora dele.
Quanto mais não seja é isto que a gradeço ao Eusébio. Todos o tratávamos por "o" Eusébio. Único e irrepetível Eusébio.
A onda de notícias, opiniões, testemunhos, epitáfios e mensagens de condolência é avassaladora, um maremoto de tristeza a varrer o mapa de Portugal. Pensei que me era indiferente mas já me comovi uma ou outra vez ao ouvir o rádio. Sobretudo ao ouvir palavras de pessoas anónimas em programas radiofónicos. Palavras simples de agradecimento e admiração por um homem cuja principal qualidade fora dos relvados de futebol era, ao que parece, uma extrema simplicidade.
O que me comove, penso eu, é constatar que, para o cidadão comum, a simplicidade é um valor superior. Num mundo doentiamente mediatizado e repleto de vedetas em pose surge este ícone modesto e de face humana. Um deus dentro do campo e um ser humano fora dele.
Quanto mais não seja é isto que a gradeço ao Eusébio. Todos o tratávamos por "o" Eusébio. Único e irrepetível Eusébio.
quinta-feira, janeiro 02, 2014
Roma
Palazzo, chiesa, pizza, spaghetti, spaghetti, pizza, chiesa, palazzo. Haverá país no mundo com mais igrejas do que Itália? Sendo Roma a capital, haverá cidade no mundo com mais igrejas do que Roma? Pizzarias e spaghetterias. Palácios... caramba, quantos palácios tem Roma?
Ruas estreitas, igrejas e palácios. Ristorantes aos molhos e milhares de turistas caminhando. A cidade está repleta de pormenores artísticos. É uma coisa esmagadora e deslumbrante. Palácio, igreja, igreja, palácio. Entrar numa igreja ou outra, assim, ao acaso, é uma experiência estonteante. Encontram-se coisas magníficas! E, de vez em quando, um rasto de Deus.
O Panteão, as piazzas, bom, as piazzas... a Piazza Navona é uma feira permanente, a Piazza dei Fiori é uma feira ocasional, a Fontana dei Trevi não percebi o que é. Fiquei com a impressão que é um portal para outra dimensão mas não posso afirmá-lo com toda a certeza.
Enfim, alguns dias a percorrer as vias romanas deixaram-me com vontade de o fazer de novo. Um dia voltarei e talvez veja o Papa. Desta vez fui ver a Capela Sistina. Para a próxima vou fazer-te uma visita, Chico, fica combinado.
Arrivederci Roma.
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