sábado, novembro 05, 2011

Carneiros, ovelhas e outros seres

É curiosa (mais) esta polémica com a igreja católica a propósito do mais recente livro de José Rodrigues dos Santos. No P2 deste sábado, no artigo assinado por Natália Faria, tenta-se enquadrar a polémica apresentando argumentos de vários dos polemistas. Chamou-me a atenção a passagem que diz que «ao padre Anselmo Borges não custa admitir que a Igreja “deve formar melhor os seus fiéis e promover um maior esclarecimento sobre a figura de Jesus Cristo”.»

Parece-me que o problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a igreja católica encara os seus fiéis sob a figura, não tão metafórica quanto isso, de um rebanho. O padre é um pastor e todos sabemos que o pastor não explica às suas ovelhas as qualidades nutricionais das ervas que elas pastam pacientemente e em silêncio, com mais prazer do que volúpia. O problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a educação católica ensina a não questionar as “verdades” porque questioná-las é um pecado e indicia ausência de Fé. A Fé dos católicos é sinónimo de crença total e entrega absoluta.

A Fé não se explica, ela é alimento para a alma dos católicos tal como a tenra erva é alimento para as dóceis ovelhinhas e é esta Fé que permite a existência pacífica de Deus. Sem Fé a existência de Deus pode transformar-se num problema de contornos monstruosos. Bastará olhar com um mínimo de atenção para o Homem, que se diz criado à Sua imagem e semelhança. Qualquer postura que questione a Fé põe em causa os fundamentos básicos da religião católica cujos pilares assentam na infalibilidade dos dogmas tão ferozmente defendidos ao longo dos séculos, nomeadamente desde a cisão protestante.

Coisas tão prosaicas quanto este livro de José Rodrigues dos Santos fazem vacilar os pilares dogmáticos do catolicismo, humanizam as ovelhas e os seres humanos contemporâneos não simpatizam muito com a ideia de que fazem parte de um rebanho, pelo menos em teoria. A igreja católica lida muito melhor com balidos de ovelhas que com vozearia humana. Parece-me que à igreja custa admitir que são os seus fiéis que a constroem e que não é ela a construir a identidade individual desses fiéis. A ignorância sempre foi o combustível principal da chama que anima a Fé católica. Substituí-la pelo conhecimento poderá equivaler a deitar água na fogueira.

Talvez por isso, de cada vez que há um livro, um filme ou uma figura pública que ponham em causa os seus dogmas, a igreja católica sai a terreiro com quatro pedras em cada mão, disfarçada de David perante pobres Golias que de gigantes têm muito pouco e desata a apedrejá-los até estes ficarem de joelhos, pedindo perdão por um crime que não cometeram. Sim, porque questionar dogmas tão estapafúrdios quanto a virgindade de Maria ou o carácter divino de um homem simples não pode ser considerado crime digno de lapidação pública como a que se está a tentar fazer a José Rodrigues dos Santos. Deixem lá o homem escrever o que muito bem entende. Se é mentira porque ficam tão excitados? Deus haverá de o castigar, não acham?

(carta enviada à directora do jornal Público)

Nota final: Não li este nem nenhum outro livro do autor citado e, muito sinceramente, não tenciono vir a fazê-lo.

quinta-feira, novembro 03, 2011

A Zaragata

 
A Europa precisa de uma narrativa comum que contribua para o despertar de uma consciência colectiva dos diferentes povos que a compõem. Uma narrativa épica que faça sentido e nos permita voltar a sonhar. Precisamos de qualquer coisa de utópico, uma narrativa plena de ideais humanistas que nos permita recuperar o orgulho de ser europeus. Precisamos de uma narrativa à maneira das narrativas religiosas, que elegem uma personagem central e a elevam à categoria de divindade, rodeada de uma série de proféticas personagens secundárias. Precisamos de uma narrativa como as dos inventores dos nacionalismos oitocentistas que foram remexer os baús de memórias populares; lendas, mitos e personagens maravilhosas, ressuscitando velhos heróis, maquilhando-os de modernidade para fundarem os nacionalismos que hoje enxameiam o espaço europeu e impedem o nascimento de uma consciência comum aos habitantes deste continente.

Cada povo adora os respectivos santinhos e crê na sua teia particular de acontecimentos milagrosos que lhes permite ter orgulho naquilo que putativamente são. Os impérios sempre assentaram tanto na força quanto na fé, na sua capacidade de oferecer uma ilusão aos que neles vivem. O que tem a União Europeia para nos oferecer? Qual o sonho comum a todos os europeus? Actualmente a União Europeia é pouco mais que uma teia de burocratas sustentados por uma comandita de usurários a que se dá o nome, um tanto enigmático, de “mercados”. Nos últimos tempos a União comunica com os cidadãos através de uma linguagem exclusivamente económica. A heroína desta narrativa confusa é a Economia, uma espécie de divindade volúvel, vingativa e insaciável, mais apropriada para assustar as criancinhas que não querem comer a sopa do que para inspirar sonhos de grandeza humanista. E nós, europeus, portamo-nos como crianças obedientes e um tanto imbecis. Para aqui andamos, feitos baratas tontas, a esquecer o significado da palavra solidariedade e os fundamentos básicos da Democracia, a trocar direitos por deveres que aqui há uns anos atrás nem sequer nos passava pela cabeça aceitar. 

Precisamos de um herói que nos inspire e faça renascer os nossos sonhos de grandeza. Precisamos de uma narrativa suficientemente global, que seja compreendida por todos os cidadãos, capaz de fazer que com ela nos identifiquemos. Mas, problema supremo: onde vamos nós desencantar essa personagem extraordinária? Que narrativa maravilhosa poderá unir os europeus em redor de um projecto civilizacional comum que tenha como base a Democracia e o Humanismo por fundamento? Após longa e aturada reflexão proponho que o herói seja Astérix. Tem a vantagem de ser uma personagem universal, apesar da sua origem gaulesa, compreensível para todos os escalões etários e há uma aventura desta personagem que poderá levar-nos a pensar sobre o que andamos para aqui a fazer, a tal narrativa luminosa e potencialmente unificadora. Falo de A Zaragata. Este livro genial dos geniais profetas Goscinny e Uderzo, deveria passar a ser leitura obrigatória para todas as crianças (e adultos) habitantes do território europeu. Impõe-se a vulgarização de uma hermenêutica de A Zaragata. Com urgência.

terça-feira, novembro 01, 2011

Europa, o que és tu?

A Europa está em maus lençóis. Tem-se deitado com quem não devia e, ao acordar, tenta perceber onde está e a merda que fez. Um clássico da leviandade. Acorda-se com a boca seca e uma grande dor de cabeça, sem saber onde se deixaram as calças nem as cuecas que hão-de estar algures. Longe ou perto? Vá-se lá saber.

Talvez que a culpa tenha sido de Zeus, essa divindade viciada em sexo com tudo o que tivesse um sopro vida. Desde que raptou Europa naquela sua célebre golpada do touro branco que a dita cuja nunca mais atinou com as companhias. Anda por aí, perdida ou envergonhada, não se percebe bem. A única certeza é que Europa tem graves problemas de identidade.

A Europa dá-se com gente pouco recomendável e anda a vender-se a pataco. Tornou-se uma puta de berma de estrada, sem grandes cuidados na sua higiene íntima e lambe qualquer bota que lhe pise os calos. Se não mudar de vida ainda vai pegar doenças infecciosas a quem com ela se deitar.

domingo, outubro 30, 2011

E a Islândia, pá?

Andamos para aqui todos às marradas nas notícias sobre a crise do euro, procupados com a dívida, a pagar juros pornográficos aos amigos que nos emprestam dinheiro, andamos tão aflitos que nem temos reparado que as notícias sobre a Islândia são mais raras que gajos honestos numa secretaria de estado.

Basta fazer uma pesquisa no google sobre notícias escritas em português que tenham a Islândia por tema nos tempos mais recentes. Coisa rara. Ficamos a saber que uma islandesa mijou em público (até tem direito a vídeo) e pouco mais, além de uma balelas sobre desporto. Notícias relevantes sobre a evolução da situação económica daquele país parecem não existir.

As agências noticiosas não se interessam por esse tema? Seja lá o que for, a Islândia parece ter sido tragada pelo mar, parece ter deixado de existir. Há aqui qualquer coisa de incomodativo ou então sou eu que sou preguiçoso demais para encontrar notícias específicas sobre a crise islandesa.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Como se fosse um periquito (só para dar um exemplo emplumado)

Leio no jornal que Madoff (sim, esse Madoff, haverá outro?) diz que é mais feliz na prisão. O exemplo fica mais claro com a transcrição da coisa: " Bernard Madoff, responsável por uma fraude que superou os 50 mil milhões de dólares, afirma que é mais feliz na prisão do que quando estava livre, porque não vive no receio permanente de ser preso. À jornalista Barbara Walters, Madoff confessou que chegou a pensar em sucicídio, mas recuperou a coragem e abandonou a ideia". Diz lá tu, caríssimo leitor, se não é isto uma coisa bonita!? Bonita de se dizer mas, mais linda ainda, bonita de se poder pensar. É ou não é?

Ler este excertozinho deixou-me próximo de um nirvana qualquer, nem sei bem qual (há diferentes nirvanas? O que é "O" nirvana?), comoveu-me mesmo. E comoveu-me porque as palavras de Madoff me permitiram compreender melhor uns seres que, até aqui, me estavam interditos em termos de compreensão. Para nos podermos sentir mais próximos de um animal nada melhor que outro animal que nos permita encetar essa extraordinária tentativa de aproximação entre espécies. Penso que agora compreendo melhor a passarada que, estando fechada na gaiola, salta, dança e ainda canta ou simplesmente chilreia alegremente, enchendo-me a imaginação de coisinhas indecifráveis mas quase boas e quase, quase bonitas.

Madoff explica-nos, na singeleza do seu pensamento retorcido, como é ser-se um bípede saltitante dentro do espaço reduzido de uma gaiola. Mas sentimos como é sê-lo alegremente, à semelhança de qualquer periquito que, apesar de ser difícil de compreender através da observação directa da sua fisionomia, nos parece um passarito suficientemente feliz e coiso e tal.

Sinto-me apaziguado. Meter bichos dentro de gaiolas não é, afinal de contas, uma atitude tão cruel quanto eu pensava.

terça-feira, outubro 25, 2011

O horror

Aconteceu-me aqui há dias, estava eu sozinho no remanso do lar. Abri o frigorífico e deparei com um inesperado "pack" de 6 cervejas que me pareceram cervejas pretas. Tirei uma garrafa, abri-a e bebi um golo. Horror!!! Sabia mal como nunca uma cerveja me havia antes sabido. Que porcaria era aquela!? Decerto estava estragada. Ainda meio confuso abri de novo a porta do frigorífico e reparei que o cartão do "pack" tinha algo de estranho. Era um "pack" de 6 cervejas 6 com sabor a ... CHOCOLATE!!!

Uma vez refeito do susto tentei racionalizar a coisa. Cerveja com sabor a chocolate? Mas que puta de ideia! Depois lembrei-me de uma notícia que havia lido há uns anos no jornal sobre tentativas feitas por... cientistas? Inventores? Simplesmente malucos? Bom, experiências levadas a cabo, algures (não recordo onde), para produção de legumes com sabor a chocolate. A questão era simples: as crianças não gostam de legumes, que lhes fazem falta para uma alimentação saudável, mas adoram chocolate. Basta juntar dois mais dois e tem-se uma coisa para lá de aberrante: legumes com sabor a chocolate.

Não me consta que os tais legumes tenham saído do mundo das possibilidades. O que não imaginava era que a doçura tinha invadido o território sagrado da bela cerveja. Qual poderá ser a intenção?

Os putos de hoje pouca água bebem. É só sumos e açúcar em tudo quanto é alimento. Vendo bem as coisas até faz sentido que os produtores de cerveja não queiram perder clientes e se metam a inventar merdas destas. Assim, ao entrarem numa coisa parecida com a idade adulta, os jovens consumidores poderão iniciar-se no mundo alucinogénico da bebedeira mas com a boquinha adoçada e um vómito mais cheirosinho.

Enfim... o "pack" lá está no frigorífico (foi oferta e eu não sabia) com 5 garrafas 5 à espera de quem as beba. A que experimentei despejei-a cano abaixo. Gosto muito de chcolate mas também gosto muito de cerveja. Acho que, por isso mesmo, fui incapaz de a beber. Mas talvez seja, apenas, má vontade da minha parte.

domingo, outubro 23, 2011

Não ver

Consegui não ver as imagens do assassinato do tirano líbio.

Kadafi apareceu algumas vezes aqui, no 100 Cabeças, principalmente na sua qualidade de amigo dos líderes mundiais. Eram fotos glamourosas que mostravam um homem bem vestido e arrogante abraçado ou apertando a mão dos poderosos das democracias ocidentais. Nalgumas atestava-lhes, até, umas beijocas!

A forma como caíu em desgraça e acabou, abatido como um rato de esgoto, mostram bem a fragilidade da condição política no mundo em que vivemos. Hoje és um gajo poderoso, amanhã és um cadáver sujo de sangue e de merda. Hoje vales tudo o que imaginas e, se calhar, até um pouco mais, amanhã não vales mesmo nada. É a vida... e a morte.

Não sei bem como aconteceu mas li algures que as imagens da morte de Kadafi eram indecorosas. Acreditei e não vi, muito menos as procurei. Não quero vê-las, não quero saber, a exibição da morte enoja-me. Enojaram-me as imagnes das execuções de Saddam Hussein e de Ceausescu, certamente iria acontecer o mesmo com Kadafi. Morreu, está morto. Espero que o enterrem.

Não deixa de ser irónico que Kadafi e Saddam tenham sido ambos apanhados enfiados em buracos, como bichos.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Sociedade criativa

Nos últimos tempos tenho lido vários artigos que depositam todas as esperanças de um futuro melhor naquilo que é, mais ou menos, genericamente designado por "sociedade da criatividade". Num desses artigos o autor explanava uma interessante teoria segundo a qual após uma sociedade agrícola que foi suplantada pela sociedade industrial que viria a ser ultrapassada pela sociedade do conhecimento estamos agora a assistir à deslumbrante aurora da sociedade criativa. É bonito.

Esta proposição faz todo o sentido. A sucessão de acontecimentos encaixa melhor que as peças de um puzzle para meninos pequenos e o resultado é de um brilho cristalino. Imaginar uma sociedade da criatividade na qual o sucesso está ao alcance de qualquer um (que benificie dos sucessos da outras sociedades entretanto ultrapassadas e tenha acesso ao consumo de bens agrícolas, industriais e tecnológicos), imaginar uma sociedade deste tipo dá algum conforto nos tempos que correm.

Para uma pessoa como eu, que me imagino criativo, um cenário deste tipo proporciona um certo alento. O problema é como rentabilizar a minha criatividade? Aí é que as coisas começam a retorcer-se um bocadinho; é que a criatividade, encarada por esta perspectiva, é coisa para gerar riqueza e, nesse aspecto, sinto-me um tanto falhado.

Quero dizer, penso que a criatividade pode gerar muitos tipos diferentes de riqueza que não são, obrigatoriamente, do tipo monetário ou económico. A beleza, a solidariedade, a felicidade, as coisas que me comovem, nem sempre valem dinheiro. Vendo bem as coisas, raramente valem dinheiro e, quase sempre, exigem muito trabalho.

Lamento dizê-lo a mim próprio (e a ti, caro leitor, que tens a paciência de ainda aqui estar): a criativade é um bicho do mato que não aceita a gaiola onde a queremos meter para poder gerar proveito económico, como se fosse animal de circo. Isto necessita de mais reflexão. Quem sabe onde poderemos chegar? Se formos criativos...

domingo, outubro 16, 2011

Semente

Ontem foi dia de manifestação em Lisboa. Seria banal (quantas manifestações já se fizeram em Lisboa, meu Deus?) se não tivesse sido dia de manifestação em mais umas quantas centenas de cidades por esse mundo fora. Talvez me engane mas penso poder afirmar que assistimos à primeira manifestação global na sociedade da informação. E do consumo.

O que levou tantos milhares de pessoas (todas juntas terão atingido os milhões?) a sairem para a rua gritando palavras de ordem tão diferentes umas das outras, numa verdadeira Torre de Babel de sentimentos e reivindicações? Na Ásia, na América, na Europa, um pouco por todo o universo democrático, os cidadãos revoltam-se contra a gula insaciável do capitalismo selvagem.

Penso que o que está a despertar no íntimo de cada um de nós é a percepção de um paradoxo destruidor de boas vontades: dizem-nos que somos livres e tratam-nos como escravos.

O que irá sair daqui? Não sabemos. Quem pode prever o futuro? Ninguém. O que podemos perceber com algum grau de segurança é que está lançada a semente de alguma coisa nova que irá crescer e tomar o seu lugar no horizonte dentro de algum tempo.

É uma semente de revolta (chamam-lhe "indignação") que questiona o sistema pós-democrático com frontalidade. Já todos percebemos que não somos governados por aqueles que elegemos por sufrágio universal e directo, mas sim por personagens que desconhecemos em absoluto que decidem as políticas macro-económicas em nome do enriquecimento faraónico de nem sabemos quem!

Alguma coisa está a mudar.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Sangrar não basta!

OK, isto anda parecido com merda a boiar num penico. Portugal, a União Europeia, o horizonte, nada parece ajustar-se, tudo surge apocalíptico e desanimador. O desânimo ganha lugar na sala e senta-se sem que ninguém o convide. Puta que o pariu, puta que pariu o desânimo!

O mundo parece desfazer-se numa espécie de merda que não é bem merda mas uma coisa parecida. Uma coisa parecida com merda, está bom de ver. Entretanto fui ver o mais recente filme de João Canijo, Sangue do meu sangue e, caramba! Que grande filme.

Se há um cinema português este filme é o melhor exemplo que poderia encontrar para o caracterizar. Não explico porquê, afirmo-o apenas e simplesmente. As conclusões ficarão para quem tiver oportunidade de o ver. Direi apenas que sangrar não basta; temos ainda de viver o que resta das nossas existências. Com o orgulho do costume e a Fé que nunca somos capazes de ter mas, ainda assim, nos anima na dose certa para continuarmos a olhar o céu como se ele não fosse mais que aquela coisa azul que costumamos imaginar estar lá em cima, o lugar que Deus habita.

Haja lugar para sermos humanos.

terça-feira, outubro 11, 2011

Linguagem figurada

A democracia portuguesa parece estar doente. Pensando bem, a democracia portuguesa parece sofrer de alguma doença congénita, uma malformação que lhe tem impedido um desenvolvimento saudável. Para funcionar convenientemente, uma democracia carece não só de liberdade de escolha e de opinião, mas também de instrumentos que fiscalizem de forma objectiva e isenta as instituições democráticas. É nesta capacidade de fiscalização que a nossa democracia falha completamente desde a mais tenra idade.

O sistema democrático baseia-se grandemente na qualidade dos cidadãos e na confiança que estes estabelecem com as suas instituições. No caso do nosso pais toda a gente sabe que não se pode confiar no estado nem nos tribunais e, muitas vezes, nem sequer se pode confiar nas forças policiais, mesmo nas situações mais comezinhas do quotidiano. Os cidadãos vivem em permanente confronto com instituições cuja principal razão de existência seria a sua protecção e não a sua repressão, como frequentemente acontece.

Quando digo “cidadãos” excluo as minorias privilegiadas que erradamente designamos, com demasiada frequência, por “elites”, uma vez que o conceito de elite está relacionado com aquilo que de melhor existe numa sociedade e não com a capacidade de contornar as leis e as regras em proveito próprio. Vivemos num pais que se diz democrático e que, na prática, se comporta como se o não fosse. Tal como uma grande parte dos católicos se dizem “não praticantes”, assim somos nós, os portugueses, no que toca à democracia.

Temos uma sociedade civil fraca e que facilmente é “metida na ordem”. Basta agitar um qualquer papão mais ou menos assustador e aqueles que ontem se manifestavam e agitavam as ruas da cidade de imediato se perfilam, lavadinhos e brilhantes, perante o olhar benevolamente reprovador do chefe ao passar em revista as forças produtivas da nação. Somos assim, ladramos demasiado, mordemos muito pouco e acabamos quase sempre a lamber as botas que nos pontapeiam com desprezo.

E somos governados por personagens sem fulgor nem a mínima centelha do mais pequeno génio. Algumas dessas personagens são mesmo desonestas e nós aceitamo-las e oferecemos-lhes o poder de mão beijada. Somos governados com demasiada frequência por pessoas ignorantes e incultas, com uma visão do mundo própria de crianças acabadinhas de sair de uma aula de catequese na qual lhes explicaram o inferno e as fizeram nele piamente acreditar. E agora não são capazes de acreditar nem compreender mais nada. São pequeninos.

Uma democracia exige governantes humanistas e não simples tecnocratas de pacotilha para os quais “ser humano” é igual a “doismaisdoissãoquatro”. Após 37 anos de democracia alguns de nós ainda dizem que se trata de uma jovem democracia. Quando se tornará ela adulta a ponto de se emancipar dos fantasmas do salazarismo e do PREC? Somos como uma multidão de cegos guiada por um pequeno grupo de líderes cujas barrigas não lhes permitem ver onde poisam os sapatinhos.

sábado, outubro 08, 2011

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Enriquecer ainda mais é um risco para todos
os ricos (como uma epidemia),
e tal só não ameaça também os pobres porque
acerca destes não é adequado utilizar a expressão
«ainda mais». E os pobres

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sendo como toda a gente sabe,
moralmente muito mais bem apetrechados
que os milionários, não querem enriquecer ainda mais,
querem apenas enriquecer a todo o custo,
pisando quem quer que passe
à sua frente. Os pobres não são bons, murmurava o meu
                                                                           [pai
têm é menos dinheiro para exercer a maldade.

in Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 139/140

sexta-feira, outubro 07, 2011

Reflexo cão (ou "reflexão")

Por vezes olho para o espelho e digo ao gajo que de lá me retribui a atenção: "És fodido!" e o gajo nem diz nada. Quem assim fala consigo próprio, o máximo que merece é um pouco menos que desprezo, muito menos compaixão.

Na verdade, seja lá isso o que for, cada um de nós recebe de si próprio a medida exacta daquilo que a si oferece. Nem outra coisa seria de esperar!  Haverá alguém mais capaz de nos compreender que o reflexo no espelho?

domingo, outubro 02, 2011

O Futuro

O Futuro é uma coisa mais ou menos misteriosa por estarmos sempre a viver no Presente. Há quem diga que o Futuro depende do Passado mas, estou em crer, isso não é bem assim e talvez até seja ao contrário. Talvez o Passado dependa mais do Futuro que vice-versa.

Isto porque são os vencedores que governam o Futuro aqueles que determinam a melhor forma de explicar o Passado que os conduziu até ao poder que agora ostentam e utilizam como se fosse um objecto de luxo rebrilhante.

Diz o povo que "o Futuro a Deus pertence" mas nós, que vivemos o Futuro entretanto transformado, primeiro em Presente e logo depois em Passado, sabemos bem a quem pertence  o quê e percebemos que a sabedoria popular por alguma razão o é e quanto fica a dever, em perspectiva e exactidão, à outra sabedoria, aquela que vem impressa em letra de imprensa e faz escola.

Deus não é para aqui chamado por ser coisa encerrada em doutrinas que O não deixam sair de onde está e que acaba quase sempre por ser algo que poucos acreditam que Ele possa ser. O Futuro é coisa que parece estar fora do Seu divino alcance, enquanto Ele for aquilo que dizem que Ele é e não aquilo que Ele é, lá na Sua inalcançável realidade metafísica. Acredito que lá, onde Deus vive, não há Passado, nem Presente, nem, por maioria de razão, há Futuro nenhum e nem isso Lhe interessa.

O Futuro é uma coisa complexa, imprevisível, caprichosa como uma tempestade tropical ou uma menina mimada. Talvez a coisa mais parecida com o Futuro seja Deus. Sentado no Seu trono, lá naquele lugar onde mais ou menos existe. Sem Passado, nem Presente, nem, por maioria de razão, a mínima sombra de Futuro.

Neste passo o leitor, já algo aborrecido com os tropeções da lógica ao longo deste pequeno texto, dirá: então o Futuro existe num local onde não há Futuro? Eu respondo: Precisamente!

sexta-feira, setembro 30, 2011

Uma coisa nova


Já tinhamos o Capitalismo Selvagem, coisa mais ou menos usada e meio escondida que vimos a conhecer melhor nos últimos tempos. Agora começamos a perceber que, na China, há mesmo uma coisa nova, uma coisa que poderíamos chamar de Capitalismo Comunista.

Se os sinais enviados desde Pequim nos anos mais recentes não fossem o suficiente para podermos acreditar que, de facto, por lá se anda a construir essa espécie de Frankenstein político-social, a notícia recente de que um tal de Liang Wengen (ler aqui) se está a chegar ao Comité Central do Partido Comunista Chinês é elucidativa.

O senhor Wengen representa "as mais avançadas forças produtivas", eufemismo chinês para designar uma sanguessuga capitalista, um empresário cujo único objectivo é o lucro, personagens que, durante a Revolução Cultural eram considerados pouco mais do que demónios (talvez até fossem considerados menos), mas que agora surgem como uma espécie de nova vanguarda, admirável e, sobretudo, vanguarda exemplar.

O que se pode esperar de um sistema como este? O Capitalismo Selvagem já nós conhecemos e sabemos (mais ou menos) do que ele é capaz para satisfazer o seu apetite impossível de satisfazer. E deste novo primo, um nadinha mais jovem, que agora vê despontar os primeiros pêlos púbicos, lá para os lados do Oriente, o que poderemos nós esperar?

Seja lá o que for, será, decerto, bom e bonito. Como é costume.

segunda-feira, setembro 26, 2011

A árvore

É um dos mistérios da minha existência humana. A árvore, tal como é vulgarmente representada; tronco castanho, copa verde, et voilá!

Se propusermos a uma criancinha que pinte a árvore com outras cores ela vai lançar-nos um olhar entre o incrédulo e o furioso, que é lá isso!!!??? Uma árvore é castanha e verde, ponto final. Há coisas que não se discutem e o aspecto de uma árvore faz parte dessas coisas eternas e universais, por muito que a inteligência ou um simples olhar nos digam o contrário.

Não sei bem de onde vem esta ideia estereotipada e tão fortemente enraizada no imaginário colectivo mas que lá está, disso não podemos ter a mínima dúvida. Nem o Outono nos salva do senso comum que começa, estou em crer, nas mentes das nossas professoras primárias que nos dizem que é assim e nós acreditamos, mesmo depois de entrados na idade que designamos por "adulta".

Quem diz a árvore, diz muitas outras coisas. Demasiadas coisas. Coisas que nos entram na imaginação e por lá ficam sentadas, deitadas, a ressonar, preguiçosas, adquiridas, coisas que nunca mais questionamos e que acabam por solidificar erradamente. Quase monstros.

Coisas que cristalizam e nunca mais se alteram dentro de nós apesar de  um simples olhar lá para fora, para fora da caverna dos nossos crânios, ser o bastante para nos mostrar a evidência de que as coisas raramente são o que parecem, quanto mais aquilo que nós imaginamos sem sequer as questionarmos.

domingo, setembro 25, 2011

Já podemos arrumar os capacetes

Pronto, "o satélite não comandado UARS da Agência Espacial Norte Americana afundou-se neste sábado algures no oceano Pacífico, entre as 4h23 e as 6h09 (hora de Lisboa), disse a NASA." (ver informação interessante aqui) Podemos arrumar os capacetes e voltar a sair à rua sem andarmos com o nariz apontado às nuvens, tentando descortinar algum parafuso que venha do espaço exterior em direcção às nossas cabeças.

A questão do lixo espacial deveria preocupar-nos um pouco mais mas a verdade é que também cá por baixo a lixaria não nos deixa sossegados. Uma economia global pujante e capaz de crescer todos os anos tem os seus custos. O crescimeto dos detritos que vão forrando o nosso planeta é directamente proporcional aos lucros económicos com que gostamos de enfeitar os discursos sobre o bem-estar das populações.

Resumindo e concluindo, o nosso bem-estar (leia-se: os nossos níveis de consumo) exige a produção de tanto lixo que, em breve, será impossível disfarçar a porcaria continuando a varrê-la para debaixo do tapete. Ou seja, o nosso bem-estar actual será a causa principal do nosso mal-estar futuro. Paradoxal, não?

quinta-feira, setembro 22, 2011

Mémé

Nunca te apeteceu pegar num martelo e perguntar " quem é quem?" a este mundo de merda?
Se nunca sentiste esse impulso peço perdão por te informar que: ou és um "deles" ou então mereces ser tosquiado na próxima estação, quando vierem por aí abaixo os gajos que nos rapam o pêlo, nos afinfam um carimbo no lombo e gritam por cima do ombro: "venha outro!".

Se aquilo que atrás ficou escrito fez saltar alguma pequena peça do teu corpo, não hesites mais; pega no martelo, aperta-o bem, até que faça parte do teu braço, olha o mundo nos olhos e faz a pergunta, como se fosses a rainha má da Branca da Neve: "quem é quem?". O mundo deve-te respeito. Exige-o, não sejas carneiro ou ovelha mansa. Transforma o teu balido num som que se ouça de outro modo.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Lixo do céu

Toda a gente sabe que os valorosos gauleses apenas temiam uma coisa: que o céu lhes caísse em cima da cabeça! Esta era uma das piadas que Goscinny inventou para nos divertir com a ingenuidade de Astérix, Obélix e demais companheiros e nós sorríamos; como era enternecedora esta ideia escanifobética, o céu a cair em cima da cabeça de quem quer que fosse? Não me lixem.

Mas a verdade é que o mundo contemporâneo, supertecnológico, superdesenvolvido, super tudo e mais alguma coisa, transformou o temor dos gauleses em algo a ser levado a sério. A notícia de que um satélite vai cair na Terra entre quinta-feira e sábado em local desconhecido (ler aqui) é algo que já não surpreende ninguém. A queda de pedaços de lixo espacial que mais ou menos se desintegram quando entram na atmosfera do nosso planeta é coisa corriqueira.

Diz a notícia que "a probabilidade de alguém ser atingido e morrer devido à queda do UARS (é este o nome do bicho que vem por aí abaixo) é de um em 3200, menor que 0,05 por cento". OK, a probabilidade é baixa mas... existe, é um facto.

Talvez fosse disto que Astérix tinha medo ou talvez fosse de outra coisa. Alguma coisa menos racional mas igualmente perigosa e improvável. Os deuses são o que são e o lixo espacial também.

sábado, setembro 17, 2011

Não pensar

Todo o cidadão tem o direito de não pensar sempre que isso lhe parecer a melhor forma de ocupar o tempo. Pensar sempre, a toda a hora, sem intervalos para vegetar livremente, não é bom para a saúde.

Não ler, não ver cinema, não ir ao teatro, não desenhar, não pintar, em suma, não fazer rigorosamente nada, é uma medida preventiva a aplicar sempre que a cabeça começa a inchar.

Essa inactividade pode ser agradavelmente preenchida por uma tarde a olhar para a televisão vendo jogos de futebol do campeonato argentino entre equipas das quais nem sabemos o nome, de preferência um daqueles jogos que terminam com um zero a zero preguiçoso no placard.

Ou então vendo um filme com o Jean Claude van Damme a desancar tudo quanto lhe passa à distância de um braço. Assistir a um debate sobre a vida sexual na terceira idade também é uma opção interessante mas mais difícil de encontrar.

Todo o cidadão tem direito a uma boa dose de estupidez desde que não se habitue. A inteligência também precisa de períodos de descanso.

domingo, setembro 11, 2011

Mudar de assunto

Hoje é dia 11 de Setembro. É aquele dia, vocês sabem. Todos os meios de comunicação social trazem toneladas de informação sobre os ataques terroristas de há dez anos. Como foi, como seria se não tivesse sido, como é, como será, é impressionante a nossa capacidade para gerar informação, multiplicar os factos, impressiona a nossa capacidade de construir esta extraordinária torre de Babel com uma data inscrita na base.

Ontem fui ao Teatro Nacional Dona Maria II assistir à peça "Amadeus" e é sobre isso que me apetece escrever hoje. Não tenho muita coisa a dizer. Apenas quero sublinhar a excelência desta produção e afirmar que Diogo Infante interpreta um Salieri estratosférico. O elenco tem, de uma forma geral, um desempenho sólido e eficaz, mas o director do teatro mostra que atingiu um patamar muito elevado.

A não perder.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Conversa

Não resta a mais pequena dúvida, o grande problema com que um ser humano se debate é o da comunicação. Encostado ao balcão da tasca, bebendo uma imperial enquanto passo os olhos pelas letras gordas do Record, ouço distraidamente uma troca de palavras entre a senhora que está do lado de lá e uma outra, cliente, como eu, que quase se deita sobre o dito balcão.

É uma conversa indolente, num nível de linguagem bastante pobre. Não percebo bem o assunto nem isso me interessa particularmente. Falam sobre questões do quotidiano, coisas vagamente dolorosas que parecem ocupar-lhes o espírito com alguma urgência. Não me parece que procurem respostas ou que, sequer, reflictam sobre nada em especial. Limitam-se a falar, preenchendo uma necessidade urgente.

A conversa terminou sem aparente conclusão. Suspendeu-se de súbito. Olhei de soslaio as duas senhoras. Pareciam aliviadas. Despediram-se: até amanhã se Deus quiser; e pronto. As coisas ficaram assim mesmo, resolvidas ou por resolver, isso não pareceu ter importância.

Há quem pague a um psicólogo, há quem escreva em blogues, há quem escreva livros com centenas de páginas, há quem se dedique à política, todos querem comunicar e ter alguém que os ouça. Pelo menos isso. Sobretudo isso.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Comer ou não comer, eis a questão!

Este é um tema melindroso. Sim, porque falar em gordura, falar de pessoas gordas como elefantes marinhos, pessoas que comem descontroladamente tudo aquilo que lhes passa a menos de cinco centímetros das beiças pode deixar ofendidos esses candidatos a mastodonte. Não é correcto.

Já aqueles que (como eu) não resistem à tentação de fumar uma cigarrada (vou já acender mais um cigarro que estou a ficar nervoso) podem ser enxovalhados à vontade. Somos uns fracos, uns miseráveis, uns bandalhos capazes de pôr em risco a própria saúde e a daqueles que nos rodeiam e que, pelos vistos, não amamos tanto quanto imaginamos.

Assim sendo é justo que o imposto sobre o tabaco vá subindo como um alpinista em direcção ao cume do Everest. É castigo merecido para os que (como eu) pintam em tons de alcatrão os pulmões que Deus lhes (nos) deu o que, ainda por cima, deve ser pecado. Mas, isso eu sei, a gula é pecado mortal e o vício do tabaco não consta da lista. Eheheheh.

A ideia de taxar extraordináriamente também os produtos alimentares que contribuam para a degradação da saúde dos consumidores (ver aqui) entra na mesma linha de raciocínio lógico daquela ideia que faz com que o imposto sobre o tabaco aumente a olhos vistos. Ou não?

Na verdade, cá no fundo, estou-me bem a lixar para esta discussão. Ninguém come estúpidamente ou fuma desalmadamente por falta de informação. Uma coisa será tão estúpida e desalmada quanto a outra. A questão dos impostos tem outra origem: a necessidade de inventar receitas extra para os cofres do estado.

Depois deste cigarrinho talvez vá ali acima ao McDonald's (há tantos!!!) e coma um hamburguer daqueles que engordam mas deixam a alma mais sossegada. É uma questão de opção.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Aprender a ir no comboio do romance

Ontem acabei de ler este "Aprender a rezar na Era da Técnica" de Gonçalo M. Tavares. Li-o com agrado e estranheza. Não é o 1º livro que leio deste autor mas, até agora, foi aquele que me deu vontade de escrever qualquer coisa sobre o que acabei de ler.

O facto de ser uma narrativa muito fragmentada e reflexiva a um nível quase incomodativo, transforma a leitura num constante exercício de aprendizagem. Aprendi a ler, aprendi a pensar com a ajuda daquilo que estava a ler, aprendi a ver, aprendi a fazer um grande número de coisas que já tinha aprendido anteriormente mas que agora aprendi outra vez. Só que de outra forma.

Aprendi isto "daquela" forma que é necessário aprender para poder entrar nos carris que orientam o comboio da narrativa deste romance. Sem pagar bilhete. Vai-se porque se quer ir. Com alguma sorte chega-se no preciso momento em que a personagem central abandona o palco.

Como digo, aprendi muita coisa mas não aprendi a rezar.

Dúvidas


Será necessário voltar a encarar a educação dos nossos jovens como sendo parte de uma doutrinação social?

Não teremos deixado uma margem demasiado folgada nos prgramas escolares e, principalmente, na vertente das atitudes e valores, no capítulo dos comportamentos e objectivos globais do papel da escola na vida da comunidade?

A ideia instalada de que o moralismo é errado e que não há necessidade de ensinar a "ser", que somos todos "bons selvagens" num mundo doentiamente consumista não nos terá conduzido a um estado de enfermidade social difícil de ultrapassar?

O que poderemos fazer no sentido de recuperar o Humanismo enquanto motor da coisa pública?

A quem interessa encontrar respostas para estas dúvidas?

domingo, setembro 04, 2011

O peso certo


Como todos os obesos o estado tem o direito de desejar perder peso. Se tem gorduras a mais é justo que faça os possíveis para as dispensar. Já o desejo de fazer os impossíveis me parece algo exagerado, até eventualmente perigoso. Haverá  um peso certo, um equilíbrio desejável. Olhando para os esforços que este governo vai desenvolvendo fico um pouco confuso. Há por ali uma desordem, uma ânsia, uma angústia meio marada. 

Será que o estado pretende livrar-se de tudo o que não lhe (nos) interessa ou, ai Jesus!, está a cumprir um plano mais ambicioso e menos confessável? Privatizar serviços de interesse público não parece medida muito católica. Entregar nas mãos dos mercados, sempre tão nervosos, voláteis e volúveis, sectores como, por exemplo, o das águas não augura nada de bom. Mas será que o ensino ou a saúde irão resistir por muito tempo ao apetite dos tais mercados que, desta forma, estão a ficar, eles sim, obesos e gordos como porcos bons para fazer presunto? 

Há, no entanto, sectores que parecem sagrados e intocáveis. A justiça e a segurança pública não correm riscos de privatização. É como se os governantes estivessem orientados no sentido da criação de um estado cuja preocupação exclusiva é a manutenção de um ambiente suficientemente seguro e estável para que se possam desenvolver um certo número de negócios rentáveis em benefício de uma elite económica que, ela sim, é gorda e governa o mundo em que vivemos.

Será que o peso certo dos estados pós-democráticos em que habitamos é resumir os seus gastos na administração de uma espécie de justiça caricatural, garantindo a ordem pública através do investimento em forças militares e policiais que mantenham os cidadãos nos seus cantos específicos sem gerarem ondas de perturbação que possam por em causa a saúde psíquica dos tais mercados?

Estaremos nós a assistir ao nascimento de uma nova ordem social onde, em nome do bem-estar dos mercados de capitais, os cidadãos vêem esvaziados os direitos sociais que tanto suor lhes custou a adquirir? A Europa vai desaparecendo na paisagem e nós assistimos passivamente, com a canga a pesar-nos no costado.

sábado, setembro 03, 2011

Coisas que flutuam


O país afunda-se juntamente com a Europa. Uma ou outra coisa vai-se mantendo à tona, flutuando, mas a sensação geral é de afundamento.

No museu do Louvre está a tela monumental de Gericault, A Jangada do Medusa. Parece-me uma boa metáfora visual para o estado geral da União Europeia. Estamos desesperados, começa a haver casos de canibalismo, não se vislumbra a mínima possibilidade de socorro no horizonte. No entanto esbracejamos furiosamente.

Valha-nos Deus.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Amigos da Líbia

Estão reunidos em Paris uns quantos amigos da Líbia. Sim, são amigos do país, a Líbia, assim mesmo, em abstracto. Alguns já o são há muito tempo, outros serão mais recentes. Incluo umas quantas imagens para que possamos recordar algumas dessas amizades,
É fácil perceber que isto de ser amigo de um país obriga a tomar atitudes um tanto... como dizer? Um tanto discutíveis? Ou será esta amizade aquilo que poderemos designar sem rodeios como uma amizade de merda?

quarta-feira, agosto 31, 2011

Visitar a Mona

Visitar a Mona é uma espécie de ritual cumprido por gente que vem de todos os cantos deste planeta e, eventualmente, gente que vem de outros mundos que não este. Entra-se naquele palácio infinito, aquele palácio palácio pesado e pejado de objectos de arte das mais variadas proveniências cujo valor, todo somado, é muito mais do que incalculável.

O espólio do Louvre é o somatório desconcertante de sucessivos saques e roubos descarados levados a cabo por uma França que já foi imperial nos quatro cantos do tal planeta que alberga a maioria dos visitantes. Talvez por isso atraia tantos visitantes, por ser o centro, o buraco que absorve tantas coisas, vindas de todos os pontos do planeta Terra. Se um dia houver colonização espacial, decerto trarão novas relíquias para este lugar onde o tempo se transforma em pântano e arte se transmuta em fast-food para consumo imediato e digestão super rápida. A casa da Mona é uma fábrica de dinheiro.

Os visitantes da Mona, quando encontram uns cartazes a indicar a direcção e o sentido dos seus passos para que se dirijam até à sala onde ela está, lançam-se como zombies montados em galinhas com pernas poderosas através de salas e corredores e mais salas e mais corredores e mais salas, numa espiral meio demente, meio desvairada, ignorando olimpicamente a maior parte (se não a totalidade) das coisas por ali penduradas e expostas segundo uma lógica decerto inquestionável. Poucos se apercebem que, num dos corredores de acesso à sala da Mona, há mais 4 ou 5 (já não me lembro bem) pinturas do divino Leonardo. O pintor da cidade de Vinci.

Depois, lá no fim de tudo, no espaço fechado que se abre nas escarpas do deslumbramento pacóvio, lá está ela! A velha Mona do sorriso críptico, rodeada de uma multidão que fica sem saber bem o que faz ali, uma multidão a pairar num espaço mítico que, afinal, pouco tem de transcendente. Talvez por isso a maioria dos visitantes têm os braços erguidos e seguram objectos que fotografam a imagem profana mais sagrada do mundo. É um salão amplo, repleto de obras extraordinárias onde se destaca a monumental obra de Paolo Veronese representando as bodas de Canaã que é por muitos vista de costas.

O Louvre é isto mesmo, um imenso repositório de tesouros artísticos a maioria dos quais acaba ignorada pela esmagadora maioria dos visitantes que se contentam em visitar a Mona.

terça-feira, agosto 30, 2011

Da natureza (e da arte)

Quando regressamos a um local que nos impressionou as nossas expectativas são conforme a nitidez das recordações que dele guardámos. O tempo encarrega-se de colorir e fazer brilhar as imagens ou, pelo contrário, dá-lhes contornos inesperadamente desagradáveis e obscuros; a memória está longe de ser algo em que possamos confiar plenamente.

Há uns anos atrás estive no Museu do Louvre e, nessa ocasião (ver aqui post sobre essa memória), procurara em 1º lugar "A Virgem do Chanceler Rolin", uma pinturinha de Jan Van Eyck que, na altura, me cortou o fôlego de forma tão absoluta e avassaladora que me fez chorar de comoção. A recordação que guardei foi de tal modo marcante que, neste regresso ao mesmo local, lá andei até encontrar a dita tábua pintada pelo mestre flamengo.

O tempo passou mais sobre mim que sobre a dita pintura que já vai na provecta idade de cinco séculos, mais coisa menos coisa e eu nem meio século tenho ainda. Sobre um objecto como aquele o tempo de vida já pouco poder o tempo detém mas, sobre um tipo como eu, o tempo muito pode e muito faz. A memória de um objecto luminoso e colorido como poucos (ou mesmo nenhum outro) excitava-me os sentidos. Neste reencontro tudo me pareceu diferente.

A tabuinha lá estava, rodeada por outras obras de que guardava, também, gratas recordações mas, desta vez, pareceu-me tristonha e pouco vibrante. Aguardei pacientemente que alguns visitantes munidos de "audio-guides" passassem ao ponto seguinte do seu percurso. Aproveitei para rever com detalhe a obra de Rogier van der Weyden, o "Tríptico da Família Braque" que também me apareceu escura e pouco de acordo com a memória gloriosa que dela guardava. Que raio!

Quando o espaço em redor da "Virgem..." se desocupou tomei o meu lugar. Sentia um direito especial para a contemplação daquela obra-prima da pintura universal. Afinal de contas fizera-me chorar na ocasião do nosso primeiro encontro e, desta vez, a química extraordinária que entre nós se havia estabelecido estava mais fraquinha que uma vela a tentar brilhar junto de um holofote.

Olhei e voltei a olhar. Mudei de posição, torci a cabeça, semicerrei os olhos e... nada! A magia não estava ali. Senti-me inquieto, incomodado mesmo. Olhei em volta mas não notei nada de especial nas outras pessoas. Tudo parecia estar dentro da mais aborrecida das normalidades.

Reli o post que escrevi em Março de 2006 sobre esta pintura e fiquei (estou) a pensar.

Talvez as condições de iluminação da sala agora sejam diferentes (tenho a sensação de que se trata de outra sala!), não posso afirmar nada de concreto. Talvez não seja possível repetir uma sensação tão marcante e avassaladora como aquela que quase me derrubou da primeira vez que vi "A Virgem...", talvez...

Agora sinto-me um pouco triste. Não encontrei outra vez aquela sensação de extraordinária felicidade que tivera anteriormente. Talvez nunca mais a encontre. É como recordar a primeira paixão. Lembras-te, estimado leitor? Lembras-te de sentir o coração aos pulos, o olhar desorientado, o corpo a ser atraído para a pessoa amada como se ela fosse um irresistível ímane que atraísse a tua carne, que atraísse todo o teu ser e te sugasse a alma? Há quanto tempo não experimentas essa sensação?

Há coisas que se sentem uma vez na vida. O resto será sempre saudade.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Não morri (na blogosfera) estive de férias

Após uns dias de férias na cidade de Paris, França, estou de regresso a casa e ao 100 Cabeças.
Paris, a Grande, a Enorme, a desmesurada cidade imperial das avenidas infinitas e dos milhentos palácios. Paris, a cidade do Louvre e de centenas de museus e catedrais e dos comedores de baguettes, Paris, capital, apenas, de França e não do mundo inteiro como por vezes os parisienses parecem imaginá-la.

Este regresso à Cidade Luz permitiu-me revisitar locais e rever objectos dos quais já só guardava memórias. Memórias agora reavivadas, memórias revigoradas que irão, com o passar do tempo, perder outra vez o seu brilho e voltar ao estado de vagas recordações que é a forma como conseguimos recuperar à distância o que guardamos nas prateleirazinhas do nosso cérebro.

Uma das coisas que trouxe de volta no avião foi a constatação de que prefiro a arte que é janela à arte que é espelho. Prefiro portas que se abrem no espaço e no tempo a objectos que me devolvem o olhar e me fazem reflectir sobre o que vejo sem me oferecer a contemplação de algo mais, algo mágico para lá do objecto.

Este é um tema que pede mais conversa e exige novos posts sobre ele. Por agora fico-me assim mesmo, a curtir apenas o regresso que é uma das grandes conquistas que se fazem quando viajamos.

terça-feira, agosto 16, 2011

A fronteira de mim próprio

Há dias em que, à noite, me deito a pensar seja lá no que for. No dia seguinte, quando acordo, tenho a sensação que deixei algo importante no sonho. Esforço a memória mas não consigo recordar, não consigo trazer comigo aquelas matérias que tanto trabalho me deram durante o tempo em que estive adormecido. Coisas que, por qualquer razão, ficaram retidas na alfândega de Despertar. É como se houvesse alguma coisa (uma entidade?) a regular o tráfego de informação entre este mundo e o outro, a impedir o contrabando de segredos que transformariam a nossa existência em algo impossível de acontecer e ser vivido. Coço a cabeça, semicerro os olhos, torço o pescoço mas... nada! Ficou lá tudo. Sobra apenas esta sensação que pode nem ser verdadeira, que pode ser apenas uma réstea de sonho a ser ainda sonhado, um momento prolongado entre lá e cá, comigo no meio, o meu cérebro transformado em nada mais que mera fronteira. Há dias em que acordo a sonhar que sonhei algo que não consigo recordar.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Uma porta confusa

Começar o dia lendo o jornal é uma estranha forma de entrar no mundo enquanto dele se foge em simultâneo. Porque a leitura exige algum recato e uma certa concentração. Desligamos do mundozinho mais próximo, do lugar onde estamos estacionados, para podermos mergulhar no universo algo abstracto da informação. É uma porta por onde se entra ao mesmo tempo que se sai, o que me faz ter uma estranha e quase indecifrável sensação de que, por um infindável e curtíssimo momento, cada lugar pode ser o mesmo que todos os outros lugares não sendo igual a mais lugar nenhum. Confuso não é? Também acho. Não sei bem o que quero dizer com isto mas, como o tinha registado no meu caderninho de apontamentos, achei por bem verter aqui este pedaço de prosa próximo do intragável.

sábado, agosto 13, 2011

Um livro muito bom

Uma pessoa leva o tempo que leva a encontrar certas coisas que lhe parecem estar destinadas a ser encontradas. "a máquina de fazer espanhóis" é um livro que me faz imaginar que é assim, que há destino e que está escrito e pronto. Trata-se de um livro que já foi lido por milhares de pessoas e que eu estou agora a ler. Não é novidade para as pessoas que já o leram mas está a sê-lo para mim. E é uma coisa absolutamente deslumbrante. O autor é valter hugo mãe que assina e escreve assim mesmo, tudo com minúsculas. Uma personagem interessante. Parece-me.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Os monstros

A partir de agora, quando as crianças não queiserem comer a sopa poderemos ameaçá-las com os hooligans caso o papão já não faça efeito. Cada época tem direito aos seus próprios monstros e, nos últimos dias em Inglaterra, assistimos ao nascimento de toda uma nova estirpe de coisas más. Os bandos desvairados que têm posto a ferro e fogo as terras de Sua Majestade funcionam como estranhos espelhos da sociedade em que vamos vivendo.

Os bandidos são de géneros variados e diferentes proveniências. Vão desde crianças de tenra idade a rapariguinhas em idade escolar ou homens feitos, com responsabilidades em casa e família para educar. São de várias estratos sociais, uns pobres, outros nem por isso, alguns são assim-assim. A barbárie eclodiu em Londres mas depressa alastrou  a outras cidades, um pouco por todo o reino. Isto mostra que o fenómeno é complexo e com múltiplas razões de ser.

O que tem toda esta gente em comum (ler aqui)? O que liga estas pessoas, aparentemente tão distintas? Meu deus, o que se passa? Ao que parece as motivações dos amotinados não são de ordem social, não têm a ver com questões raciais, não estamos perante um fenómeno de reivindicação de melhores condições de vida. Ao que tudo indica, os distúrbios generalizados por toda a Inglaterra estão relacionados com o mero e simples saque.

Sim, parece que é isso: saque, pirataria em terra firme. Tudo começou com um protesto junto a uma esquadra de polícia em Tottenham após a morte de um cidadão às balas da polícia mas a coisa descambou. Os bandos de delinquentes rapidamente concentraram as suas atenções em lojas de bens de consumo e foi isso que lhes serviu de motivação principal: consumir.

Os bandidos são, afinal de contas, consumidores que, de outro modo, não teriam acesso aos bens que tanto desejam. Vai daí, toca a partir, a pilhar, a incendiar, numa orgia consumista saída das profundezas do inferno. São monstros, terríveis monstros em busca de consumo fácil. Só isso. Tão simples e tão aterradoramente poético. Má poesia, mas, ainda assim, poesia urbana.