sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?


quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ser e parecer



André Ventura é uma daquelas personagens que não se acanham. O teor das suas afirmações públicas não coincide com o manifesto que juntou às assinaturas recolhidas com a finalidade de fazer aprovar o Chega, esse projecto de partido que gatinha graças à exposição mediática conseguida por Ventura nos espaços de debate futebolístico da CMTV. 

Perante os juízes do Tribunal Constitucional, Ventura faz luzir sobre a cabeça uma auréola de santinho respeitador da Constituição, cá fora, quando lhe é oferecido o espaço mediático, não se coíbe em mostrar os dentes e afirmar aquilo que não se atreve a registar no manifesto. André ora é bom ou mau, afável ou agressivo, tudo depende. Sendo contido numa certa comparação zoológica pode-se considerar que André é um camaleão.

A Democracia tem destas coisas, permite que germinem no seu seio personagens que a odeiam e que tudo farão para acabar com ela. Personagens como André Ventura chegam montadas em cavalos brancos, prometendo isto e aquilo, de acordo com o que lhes pareça ser o sentimento mais larvar e profundo que germine no descontentamento de certas tribos mais ou menos marginais à inteligência humana. 

Na maior parte dos casos, estes napoleões de pacotilha não conseguem desmontar do cavalo, não têm estofo para cavalgar outra coisa que não seja a desgraça e o descontentamento o que acaba por levá-los numa correria louca em direcção ao abismo do esquecimento quando o logro que é o seu completo vazio se revelar aos olhos de todos, correligionários incluídos. 

André Ventura quer ser uma coisa parecendo outra e vice-versa; Ventura é uma excrescência na Democracia. Pim.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Estupidez

As tristemente célebres fake news são como vírus que infectam os seres humanos e, consequentemente, empestam as relações sociais degradando por completo a coisa pública. A doença contrai-se com surpreendente facilidade. Basta aparecer uma atoarda qualquer  numa rede social e... zzzzzzt, propaga-se como incêndio num palheiro.

Na maioria das situações a notícia falsa é fácil de desmontar. Bastaria uma busca um pouco mais transversal ou ligeiramente mais profunda e a verdade viria ao de cima. Mas dá algum trabalho, o Saber não é completamente gratuito. É muito mais fácil ser-se estúpido. E está na moda.

É assim que participamos com um misto de alegria e indignação na corrupção do corpo social a que pertencemos: deixamo-nos infectar pela estupidez e, ficando estúpidos, passamos à acção agressiva, praticamos a maledicência, explodimos em indignação, as mais das vezes injustificada. Somos agentes infecciosos.

As designadas redes sociais contribuem em grande parte para esta embaraçosa desorganização do pensamento humano. Os computadores, por si sós, não fazem de nós animais mais inteligentes. Isso é que era doce!

É este o nosso admirável mundo novo. Um mundo em que as máquinas nos ajudam a ser muito mais burros do que seríamos capazes sem a sua colaboração.


sexta-feira, janeiro 18, 2019

Expor

Eu próprio junto a "Le Philosophe" desenho com canetas de gel sobre papel Fabriano, 210X150cm

Inaugura hoje uma exposição de desenhos da minha autoria. Poderia dizer que é "mais uma" mas, para ser sincero, uma nova exposição nunca é "mais uma". Antes de mais, apesar dos meus 56 anos de idade e de uma produção razoável de objectos com pendor artístico, a minha actividade expositiva é notóriamente modesta em número.

Um certo acanhamento e uma espécie larvar de modéstia (também em termos de influência) aliados a uma razoável dose de preguiça terão contribuído para que os anos tenham passado e a minha capacidade de expor trabalho publicamente se tenha revelado tão limitada. Quando penso nisso noto apenas como a intensidade dos sonhos se altera com a idade. Não me sinto injustiçado nem reconhecido. Na verdade não sinto nada de especial.

A coisa que mais me preocupa é quando perco instinto criativo, quando fico algum tempo sem sentir vontade nem impulso para voltar à ilusão de fazer um desenho ou uma pintura ou escrever um texto que me anime.

Para já tenho uma selecção de trabalhos (posso dizer que sou comissário de mim próprio) criteriosamente colocados sobre as paredes do Quarteirão das Artes, em Almada. São trabalhos realizados com esferográfica e canetas de gel sobre papel com dimensões que variam entre 50X65cm e os 210X150cm.

Quando li "Narciso e Goldmund", de Hermann Hesse, interiorizei uma possibilidade relacionada com a criação artística que me faz reflectir com frequência  sobre a hipótese de tudo isto não passar de mera exibição de vaidade. A minha educação católica faz-me envergonhar, corar um pouco, a minha experiência de vida como agnóstico leva-me a perguntar: Sim... e depois?

Fica bem que eu também.

terça-feira, janeiro 15, 2019

Reciclagem

Os miúdos são barulhentos, confusos, desorganizados; quando se encontram numa sala de aula, quando estão no recreio. Imagino que sejam assim na maioria das situações que vivem. Reproduzem constantemente a javardeira que os rodeia na cidade que habitam. 

O silêncio incomoda-os, fá-los sofrer, quando o ambiente fica silencioso os miúdos sentem-se inquietos como se fosse um mau presságio. Na ausência de ruído fica a sensação de que algo perigoso se aproxima. Talvez um monstro tenha chegado às portas da cidade, não tarda o silêncio agoirento será rasgado por gritos desesperados, o horizonte recortado pela silhueta de um Godzilla patudo a destruir tudo a cada passo. Imagino que seja algo assim, talvez pior.

Há uma cada vez mais complexa fusão entre o Inferno e o imaginário infanto-juvenil, o que gera personagens estranhíssimas: coisas fofinhas com dentes afiados como facas ou coisas horrendas com cauda de coelhinho lãzudo. 

Se pretendemos manter abertas as vias de diálogo com a putalhada precisamos de reciclar profundamente as nossas galerias de heróis e respectivas correspondentes de vilões. 

domingo, janeiro 13, 2019

Humanidade

Os olhos, por si sós, não vislumbram a alma das coisas; como fariam os cegos para poderem saber? Falta o coração, junta-se-lhe a mente, de tudo junto se constrói a máquina que vê, com mais ou menos peças, um ou outro método de funcionamento. Eis a poderosa possibilidade de haver deslumbramento.

As coisas mais banais, as aparentemente simples, as artificialmente complexas ou afectadas, o mundo abarca tudo com as nossas almas lá dentro. O mundo é constituído pelas coisas que podemos perceber e por aquelas que, sem o sabermos, nos escapam. Nessas coisas também estamos nós.

Compete-nos viver.

terça-feira, janeiro 08, 2019

Tecnologia de estimação

O meu telemóvel não é dos mais faladores, por vezes passa dias inteiros que está calado. Como um rato. Mas isso não impede que me sinta ligeiramente angustiado caso me esqueça dele poisado algures, entregue à suavíssima queda do pó que encobre o mundo.

Estranha relação esta, que estabelecemos com certos objectos tecnológicos. É quase como se fossem bichos, animais de estimação. Como se tivessem caprichos, sonhos, necessidades. Como se respirassem o mesmo ar que respiramos.

No outro dia resolvi deixar o telemóvel em casa de forma premeditada. Só para ver como seria. Foi bom. A verdade é que me senti muito mais leve. Não me roeu aquela sensação de culpa pois desta feita não me esquecera dele. Também me sossegou saber que não estava a abandoná-lo, que iria voltar a casa e ele lá estaria, fiel, à minha espera. Enfim, umas horas de liberdade sabem bem.

Certos objectos tecnológicos têm uma irritante capacidade de nos tiranizarem o dia, como se fossem animais de estimação que estragámos com demasiado mimo. Nada que uma martelada não resolva.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Naufrágio

A Europa afoga-se todos os dias um pouco mais nas águas do Mar Mediterrâneo. O projecto europeu confunde-se com um negócio feito na sombra de gabinetes luxuosos por tipos engravatados sem pingo de sensibilidade social. Vendem-se vistos "gold" que garantem a cidadania europeia a centenas de ricaços que nem precisam de justificar a origem da sua riqueza; paga-se a bandos de facínoras no norte de África para que impeçam os que tentam alcançar a Europa de meterem, sequer, os pés num barco onde arrisquem a vida mais uma vez; é assim que se alimenta a alma da União Europeia?

Velhos aliados mudam de face e tornam-se vagas ameaças. A Europa democrática vê-se inesperadamente deixada a sós pelos EUA e começa a voltar a cabeça na direcção da China(?). Os Direitos Humanos também são bens transaccionáveis.

Não há nada que una os países da União a não ser o amor e a reverência que lhes merece o deus-dinheiro. Vivemos zombificados, arrastando as nossas convicções pela lama, penosamente.

A Europa afunda-se todos os dias um pouco mais no mar das suas contradições.

sábado, janeiro 05, 2019

Magia de Ano Novo

O dia 1 de Janeiro é, afinal, um dia como outro qualquer. O calendário não tem propriedades mágicas. Se, porventura, alguma coisa muda com a passagem de ano, isso fica a dever-se a uma eventual vontade de mudança que trazemos dentro de nós.
A haver alguma magia nesta coisa, a magia somos nós.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Festas

Ano após ano Cristo nasce para mais daqui por uns meses morrer e depois ressuscitar em glória, patati, patatá, a coisa nem se discute entre os crentes. Há expectativas que se criam, sonhos que se insinuam, vidas que se organizam, tudo baseado na fé de que Cristo nasceu-morreu-ressuscitou e que tudo isto sejam factos irrefutáveis, que sejam verdade e realidade ao mesmo tempo. Haja quem acredite.

Ano após ano os comerciantes preparam os livros de contas para inscreverem neles os lucros concretizados por ocasião das várias épocas festivas. Ora se vendem todo o tipo de produtos (no Natal) ora se investe na parafernália mística mais específica dos milagres da ressurreição e etc. (durante a Páscoa), uma coisa é comum a estas festas e a tantas outras: a comida.

Cada festa tem o seu menu especial que pode variar de uma zona para outra, mesmo num país tão pequeno como Portugal. Seja perú, borrego, leitão, polvo, bacalhau, há sempre um animal adequado à comezaina que se impõe. Fica a sensação de que se festeja a capacidade de comer alarvemente, a capacidade de pôr mesas fartas e variadas. A mortandade é apocalíptica, a gula um pecado esquecido.

A festa não fica completa sem quantidades generosas de álcool.

Haja riso e alegria.

terça-feira, novembro 06, 2018

Questões

Sempre me confundiu a ideia de que a Economia estivesse em constante crescimento, como se fosse um Universo em expansão. Para mim as coisas são como balões, enchem, enchem, enchem, enchem até à quase loucura, enchem até à eminência do desastre, até à eminência do susto e... pum!

O crescimento constante, o Infinito, decididamente são conceitos que ficam muito para lá da minha capacidade de compreensão.

Nos últimos tempos tenho juntado outra perplexidade a esta lista. Pode uma sociedade evoluir seguramente em direcção a... bom, em direcção a algo melhor... algo diferente? Algo diferente não implica algo melhor e o conceito de evolução social tem muito que se lhe diga. É aqui que enfio os pés na lama e começo a ter dificuldades em movimentar as ideias.

Para mim uma sociedade melhor implica uma maior distribuição dos bens e da riqueza, implica uma maior liberdade individual e de expressão. Implica que um indivíduo possa ser quem quiser, optar pelo estilo de vida que lhe pareça mais cómodo. Uma sociedade melhor implica que os direitos das minorias sejam reconhecidos e respeitados, que os fortes sejam solidários com os fracos.

Poderia estar para aqui a estender a lista mas estes aspectos já me chegam para questionar: há outro tipo de evolução social? Algum destes aspectos é condenável à luz de uma ideologia social justa e equilibrada?

Para já fica a questão, lançada no abismo silencioso da zumbisfera.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Deuses aos pontapés

Os irlandeses decidiram acabar com a penalização legal para a blasfémia. Benza-os Deus. O crime de blasfémia foi apagado da lei com 65% de votos a favor e 35 contra. É nesses 35% que se foca a minha atenção.

35% de defensores da manutenção da blasfémia (mas que merda é essa, blasfémia!?) na letra da lei é muito. São demasiados os que consideram necessário proteger das palavras dos comuns mortais um ser que é, supostamente, omnipresente e, sobretudo, omnipotente. Se Deus existe não precisa de protecção deste género. Parece-me excesso de zelo.

Fico a imaginar que esses 35% são um bando de velhos a fazer contas à hora da morte e que pretendem apresentar-se perante Deus o mais limpinhos que forem capazes. Não garanto que, daqui por uns anos, eu não faça parte dessa brigada do reumático que só quer fazer-se notar pelo Criador.

No Paquistão causou furor e espanto a decisão de um tribunal em absolver uma cristã acusada de blasfémia (terá insultado Maomé com 3 afirmações difamatórias e sarcásticas, segundo a acusação). Houve ameaças de morte contra os juízes, a mulher, entretanto libertada, vê-se obrigada a emigrar com a família por temer a fúria dos defensores do bom nome de Deus.

Irlanda e Paquistão, duas nações tão diferentes, dois deuses que não são, ao que parece, o mesmo; cada qual com os seus profetas e respectivos exércitos dementes. Apesar de todas as diferenças e distâncias geográficas, os radicais defensores de Deus mostram a mesma adoração pela repressão do outro, são sádicos morais, assassinos aos olhos de qualquer animal minimamente racional.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Questão de coração

Andamos todos confusos com o desenrolar alucinante dos acontecimentos que nos últimos tempos têm alterado a ordem que vinha definindo o nosso mundo. A coisa passa-se tão perto de nós, tão à frente do nosso nariz, que não temos afastamento suficiente que nos permita percepcionar os contornos do bicho, compreender o fenómeno.

Há quem trema de receio que o Fascismo regresse, quem levante as bandeiras do "politicamente correcto", quem aponte o dedo acusador aos emigrantes, aos pretos, aos pobres, aos comunistas, aos homossexuais, aos velhinhos e aos amantes da Natureza, há grupos de apoio para tudo e de oposição a mais alguma coisa. Andamos numa roda-viva.

No meio da refrega vemo-nos impelidos a escolher um dos lados da barricada e é nesta situação que se revela a massa de que somos feitos pois uma escolha como esta é feita com o coração; absolutamente. Eu sei que procuramos uma justificação mais ou menos racional que corrobore a nossa opção mas isso não passa de reflexo cerebral condicionado, é no tambor do nosso coração que encontramos a explicação para a essência das escolhas que fazemos nesta refrega.

Assim vivemos estes acontecimentos pré-apocalípticos com o coração ao pé da boca. Braços no ar, punhos erguidos contra mãos estendidas, a história a repetir-se, desta vez como Tragédia. Novos fascistas, novos comunistas, novos anarquistas, novos sociais-democratas, socialistas, tudo remisturado pela varinha mágica do tempo, preparando-se para um novo embate, semelhante a todos os anteriores mas em diferentes locais, com novos actores, diferentes figurinos e cenografia renovada.

Nesta Tragédia cada um escolhe a personagem que pretende interpretar. Segue o teu coração.

quarta-feira, outubro 24, 2018

Cães vadios, ratazanas e carraças

É como aquela cena do Yin e Yang, cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. A um post fofinho deve suceder outro que seja azedo. Somos todos alimento uns dos outros (peixes grandes comem peixes pequenos) e foi assim que Deus fez o Paraíso.

Quero dizer, ao que consta Deus não pôs logo a bicharada a ferrar a dentuça no parceiro do lado; dizem para aí que, nos primórdios do Paraíso os leões eram amigos dos cordeiros (sim, havia leões e cordeiros deitados no mesmo prado verdejante) e até a carraça era uma bicha pacífica. Não nos explicam de que se alimentavam estas bestiolas mas era tudo na base do "peace and love".

Sinceramente não sei quando é que a cena descambou. Terá sido por causa do Pecado Original? É bem capaz de ter sido isso: Eva convenceu Adão a dar uma trinca numa maçã (uma maçã!!!???) e pronto, lixou-se tudo. O casal apercebeu-se de uma série de coisas que até ali não lhes diziam nada, foi a expulsão do Paraíso e por aí fora. Não tenho a certeza de o que leão tenha ferrado o dente no cordeiro logo a seguir ou se ainda andou algum tempo a pensar sobre o assunto, o que sabemos é que todo o mundo passou a babar-se quando lhe chega às fuças o odor do sangue fresco e a sentir um prazer mórbido perante o espectáculo da dor alheia.

Voltando ao princípio em volta circular e completa: cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. Que raio de coisa terá passado pela cabeça a Deus para espoletar tamanha loucura generalizada estragando de um momento para o outro a doce pasmaceira que animava o Paraíso? Tédio divino? Falta de imaginação? Incompetência pura e simples? Terá Ele inventado o sadismo naquele preciso instante (apesar de só ter permitido que o Divino Marquês viesse ao Mundo muito, muito tempo depois)? Nunca saberemos a resposta. Deus não fala connosco, muito menos frequenta Blogues. Quando muito deita o olho ao Facebook!

Passarinhos, gatinhos e crianças

Há tantas coisas bonitas, porra! Tantas coisas capazes de comover um gajo até que verta lágrimas, lágrimas daquelas que se separam dos olhos quando estão maduras de bondade e nos fazem sentir o coração como se fosse feito de pão-de-ló. Nem é preciso procurar muito. Basta estar atento, que coisas dessas há-as por aí, à espera de serem encontradas. É por isso que são coisas bonitas, coisas boas.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Quem somos (de onde vimos, para onde vamos)?

Não compreendo bem a presunção daqueles que se pretendem superiores ou mais sagazes ou mais inteligentes. Afinal de contas descendemos todos do mesmo monte de merda primordial a partir do qual Deus moldou o primeiro de nós. Não compro aquela história de sermos feitos de pó.

Depois é a evolução da espécie; se aceitarmos como correcta a ideia de que estamos a evoluir em direcção a alguma coisa mais expressiva que a tal matéria primeva que Deus terá usado para moldar o primeiro ser humano.

Convém sublinhar a ideia de que Deus terá sujado as mãos para nos criar e que, a partir daí, nunca mais foi o mesmo. Ter as mãos sujas de merda e ser Deus não augura nada de bom para Si próprio nem para a Sua criação. Os deuses não têm sempre boas ideias, certo e sabido. Olhem para nós: comprovadíssimo!

Esta conversa enrolada para tentar compreender que raio de coisa é esta em que o Mundo Humano se está a envolver, a transformar, a arriscar... enfim, esta conversa enrolada para tentar compreender porque estamos nós a regredir em termos civilizacionais em direcção à barbárie. Outra vez.

Depois de muito matutar cheguei à brilhante conclusão do monte de merda primordial. Se fôssemos feitos de pó não seríamos assim tão merdosos. Entretanto sempre há uma boa notícia: o planeta ficará bem melhor quando regressarmos a um estado civilizacional vegetativo.

terça-feira, outubro 16, 2018

Sapiens-sapiens

Anda meio mundo a aturar outro meio.
Falamos deste lado, respondem-nos aos gritos do lado de lá, ecoamos com gritaria redobrada, a comunicação está difícil. Uma vez por outra ouvimos com clareza o que nos é dito pelos que compõem o outro lado mas isso apenas serve para aumentar o nosso grau de indignação. E vice-versa. A discussão cresce de tom.

Ouvir é equivalente a olhar, são acções que não implicam, obrigatoriamente, reflexão. "Entra por um ouvido sai pelo outro" é um ditado da família do "boi a olhar para o palácio". Mesmo quando se estabelece diálogo não parece haver vontade de debate. Queremos apenas marcar a nossa posição, manifestar a nossa autoridade moral, sublinhar a inquestionável superioridade da nossa visão, a única realmente inteligente. Somos "sapiens-sapiens", isso diz tudo mas não implica sapiência. Nem por sombras.

A coisa está a esticar-se. Cada vez mais há gente a deslocar-se para os extremos da corda com uma vontade redobrada de a puxar com o máximo de violência que forem capazes. Os que vão ficando no meio olham para um lado e para o outro como galinhas tontas sem saberem o que fazer, sem perceberem a que ponto da corda se deverão agarrar ou, sequer, se haverão de puxá-la. E são cada vez menos, eles que já foram tantos.

Por enquanto anda meio mundo a aturar outro meio. Tenho a impressão que a paciência está a esgotar-se rapidamente.

domingo, outubro 14, 2018

Tretas

Um gajo abre o Facebook e encontra esta conversa com alguma frequência:
"As tuas memórias no Facebook
Rui, as memórias que partilhas são importantes para nós. Pensámos que gostarias de recordar esta publicação de há 7 anos." 

As minhas memórias são importantes para "eles"? Por que raio de carga de água haveriam as minhas memórias de ser importantes para "eles"?

É por estas e por outras que me vou refugiando por aqui, por estas bandas.

sexta-feira, outubro 12, 2018

O Mundo a caminhar

Por vezes dou comigo a pensar "que merda de mundo estamos a construir?"; a resposta é tão simples que arrepia: não estamos a construir mundo nenhum.

Aquela pergunta só me vem dançaricar na cabeça porque sou um gajo esquecido. Essa propensão para o esquecimento faz-me perder o foco no mais importante ensinamento que a Escola jamais me proporcionou (englobando aqui todas as escolas por onde passei) que foi a imortal Lei de Lavoisier.

Quando caio em mim e lembro que "na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma" percebo que estamos a transformar o mundo que herdámos dos nossos pais que, por sua vez, haviam transformado aquele que herdaram dos nossos avós. E por aí fora, até chegarmos ao Futuro. Até chegarmos ao mundo dos nossos filhos, no qual viveremos os nossos derradeiros dias neste planeta.

Voltando ao início deste texto, não construímos o mundo, transformamo-lo. Se é pior ou melhor... será uma outra questão. Que será diferente, disso não resta a mais pequena das dúvidas.