domingo, março 02, 2025

Coro dos Cidadãos

 

Curvo a espinha

que a culpa é minha,

limpo do chão

a merda do cão.

 

Subo a avenida

no autocarro

e pago-te a conta

com um escarro.

 

Já não há um comunista

a zelar em cada esquina,

ele é mais muito turista

subindo a pé rua acima.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 (decrescendo de volume até ao silêncio)

sábado, março 01, 2025

O Tempo das Bestas

 
Besta Doméstica

Os Bichos, desenho nº5, Janeiro 2024

    Não se fala de outra coisa: Trump, Vance e Rubio a rodearem Zelensky na Casa Branca e a darem-lhe um enxerto de porrada verbal. O pequenote ucraniano a esbracejar, respondão, mas os rufias, muito maiores e bem mais gordos, mais desbocados, sem pingo de empatia ou de boa educação, não se apiedaram e a coisa foi penosa de assistir.
 
    É a nova Ordem Mundial, a ordem dos labregos maldosos e ressabiados. É o Tempo das  Bestas. E não temos quem nos defenda, estamos entregues aos bichos.

 

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Um casal

     Um ser com aspecto de estar vivo repuxava a fenda que lhe abria a pele abaixo do nariz, fazia qualquer coisa semelhante a um sorriso. Trazia um chapéu alto, uma cartola, e um casaco comprido com gola de pele, ao pescoço a memória de uma morte e sequente esfolamento, violências necessárias à satisfação de algum obscuro anseio daquele ser inquietante, com aspecto de estar vivo.

    Do lado esquerdo uma senhora muito elegante num vestido esverdeado e fechado em folhos até ao queixo poderoso como o de um pugilista. Um complexo chapéu, sedas, flores e fingimento, dava a sensação de poder acasalar com a cartola daquele ser, agora parecia estar morto, que a seu lado se mantinha especado como cruz de pau em chão de pedra. A senhora era tão feia como a coisa mais feia que sejas capaz de imaginar. Sorria.

    Mais estranhos seres compunham o ramalhete de personagens que me ocupavam o horizonte imediato mas aquele casal (seriam um casal?) prendeu-me o olhar de tal modo que senti um leve rubor a atravessar-me a face quando o olhar da senhora com o meu se cruzou. Inclinei levemente a cabeça enquanto assentava o peso do meu corpo no calcanhar esquerdo. Rodei sobre mim próprio e saí dali em passada militar tentando não mostrar a inquietação que me atordoava por completo.

    Lá fui. 

(a partir da observação de uma reprodução truncada de A Intriga, pintura de James Ensor datada de 1890)

quinta-feira, fevereiro 20, 2025

Sonhos

    Acabo de me aperceber que os sonhos não morrem, apenas deixam de ser sonhados. Mesmo que abandonados os sonhos lá permanecem, no espaço mágico onde eternamente se desenrolam, independentes daqueles que primeiro os sonharam.

    Há sonhos que são exclusivos do sonhador e outros que são sonhados por mais gente. Uns e outros feitos da mesma substância, prontos a entrar rompendo nossas noites sem aviso. Sonhos furiosos, sonhos lânguidos, fracos ou fortes sonhos, todos podem vir a ser nossos, assim aconteça que nos cruzemos nas imensidões do acaso de que é tecido a Existência.

    Os sonhos não morrem, esmorecem se deixados de sonhar. Mas não desaparecem! Os sonhos não se esfumam, pairam eternamente, esperando. Como animais esfomeados, esperam voltar a ser sonhados.

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Memória rafada

     Gaivotas trotam sobre o lajeado, uns tipos das piscinas limpam a superfície da água com uma rede pequenina, azul, tão pequenina que mal daria para pescar um casal de sardinhas.

    O céu descido sobre a praça, o frio a fazer-se sentir, não me apetecia muito ir por aí além.

    Imagino ser o passado presente para melhor acomodar as ideias nos tempos verbais de modo a que talvez possa fazer, quando escrito, mais sentido do que vai fazendo na minha cabeça enquanto escrevo.

terça-feira, fevereiro 18, 2025

A Paz como Comédia

 Descia a avenida depois de umas horas na Biblioteca onde começara por ler e consultar as notas de A Paz de Aristófanes (diverti-me muito com o diálogo dos escravos que alimentam de merda o escaravelho que servirá de montada a Trigeu) e, já de saída, passei os olhos pelos primeiros versos de A Divina Comédia na tradução de Vasco Graça Moura.

Dizia eu que descia a avenida depois destas indolentes leituras quando fui assaltado pelas palavras que a seguir transcrevo:

A vida de cada um não passa de intervalo 
durante o qual o corpo de alma é disfarçado. 

Parei no passeio e registei a coisa no caderno que trazia no bolso esquerdo do casaco.

domingo, fevereiro 16, 2025

Quem é Deus?

    Três mulheres calçadas com sapatos rasos e saiões caídos até aos tornozelos erguem-se com se um muro fossem, plantado em plena calçada portuguesa. Plantadas estão defronte à ampla entrada do interface do Cais do Sodré, entrada que nos engole a todos. As três mulheres, mais hirtas que firmes, são solenes sentinelas de um palácio celestial invisível.

    Completa-as um escaparate móvel com folhetos e revistas piedosas que no topo anuncia uma pergunta: "Quem é Deus?"... quem é Deus? A sério? Que merda de pergunta é aquela? Serão aqueles três saiotes capazes de me dar uma resposta? Sinto a tentação de me abeirar e pedir-lhes que me digam quem é Deus.

    Acabo por ser como todos os outros e passar em silêncio desdenhoso deixando-me engolir pela entrada até ser cuspido e escarrado do lado de lá, em direcção ao cais, em direcção ao barco.

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

Eis São Cagão

A forma alucinada como Trump se vê a si próprio e é nisso secundado pela sua corte de pategos é, simplesmente, assustadora. Trump imagina-se um enviado de Deus mas qual é o seu desígnio? Fazer a América grande outra vez? Isso não cheira demasiado à merduncha do tenebroso Deus israelita e à patacoada do Povo Escolhido? 

Quando alguém fala com Deus e conhece o Seu plano está o caldo entornado. Entorna-se o caldo para os que não acreditam nessa treta tanto quanto se entorna para os que nela embarcam. Entra-se numa dimensão paralela, tipo Stranger Things, onde as regras Humanistas se distorcem até serem o seu oposto absoluto. Deus devora tudo, inimigos e devotos, porque ser Deus é ser um monstro.

O Deus destes gajos só ama aqueles que o amam, da mesma forma que um criador de gado ama as suas vacas. É uma personagem perversa, prepotente e vingativa, daí Trump imaginar haver uma ligação especial entre ambos; figuras de opereta.

Vaidoso e estúpido, o presidente norte americano ostenta óbvios sinais de demência. O olhar dele está cada vez mais alucinado, a expressão facial é dura, talhada à machadada até se transformar num focinho. As mãozinhas, a boquinha, o discurso melífluo carregado de veneno, o ódio que lhe escorre das beiças, Trump imagina-se santo.

É o São Cagão.

segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Tempos difíceis

Passei a vida toda a tentar ser um gajo fixe. Muitas vezes tive dificuldade em limitar os meus apetites ou contrariar paixões egoístas. Muitas vezes falhei e contribuí para a infelicidade de outras pessoas, fui cabrãozote. Com o passar do tempo consegui ir limando certas arestas da minha personalidade. Não sendo santo pelo menos não sou filho-da-puta. Mas agora começo a pensar se conseguirei manter este "low profile" por muito mais tempo.

Olho para a transformação do modo de estar do cidadão do chamado Mundo Ocidental. A ascensão dos monstros nazis e fascistas fazem-me duvidar da minha postura. Terei necessidade de trabalhar o meu ser no sentido inverso do que tenho vindo a fazer? Temo bem que sim. A guerra aproxima-se,

sexta-feira, fevereiro 07, 2025

Coro dos Desalojados

 

Coro dos Desalojados

A luta continua,

vamos todos para a lua;

para a lua vamos todos

empurrados com bons modos.

 

Uns dias amam-nos muito

outros dias nem por isso;

tudo depende do guito,

guito paga compromisso.

 

Nas ruas desta cidade

já nem os pardais têm asas

e são os filhos da puta

quem nos fica com as casas.

 

Quem manda é gente de bem,

gente suja e perfumada,

uns grandes filhos da mãe

que nos pagam com porrada.

 

Hoje não tenho casa,

não tenho sequer barraca,

trago uns filhos na escola

outros a pedir esmola.

 

A luta continua,

vamos todos para a lua;

para a lua vamos todos

empurrados com bons modos.

 

 

sexta-feira, janeiro 24, 2025

O Jardim das Notícias

 

Em A Traição das Imagens, Magritte explicou com clareza a distância que vai de um cachimbo a uma coisa pintada. As coisas não deviam confundir-se com a sua representação. Ficámos avisados. Picasso terá dito que o desenho “é uma grande mentira que nos ajuda a compreender melhor a verdade” mas, terá acrescentado, na medida em que formos capazes de a compreender. Ficámos a pensar.

Construir uma visão do mundo em que vivemos depende muito da perspectiva a partir da qual tentamos a sua construção. Seja uma visão mais poética ou mais técnica, mais humana ou artificialmente inteligente, a recolha de informação é essencial para que a coisa possa acontecer. Fica a sensação de que a Verdade é um absoluto inalcançável que faz de nós e do ChatGPT amargas anedotas de gosto duvidoso. Na impossibilidade de sucesso vamos semeando o planeta com as nossas tentativas de o compreender, registar e retratar.

Sabemos que o mundo está povoado de monstruosidades ameaçadoras mas temos dificuldade em evitá-las. Chegamos a deixar-nos seduzir pela sua abjecta lengalenga e, como o Flautista levando crianças e ratazanas em direcção ao precipício, arrebanhados marchamos atrás das bestas com o vazio por destino. 

Vindos de Oeste, divisam-se no horizonte os cavaleiros do Apocalipse Chunga. Vêm montados em artefactos tecnológicos, agitam riquezas que seguram nas mãozinhas pequeninas e nas dentuças muito brancas, escorrendo babugem raivosa pelos cantos das fendas que lhes servem de bocas. A Nordeste um aprendiz de feiticeiro imagina-se imortal e tenta afastar a morte bebendo o sangue de povos inteiros. Lá para as bandas do Oriente alinham-se divindades ameaçadores que comandam exércitos de seres muito puros e despidos de pecado. E nós, demónios outrora poderosos, agora velhos e exauridos, aguardamos resignadamente o embate. A guerra não corre de feição mas estamos muito longe de termos sido derrotados.

quarta-feira, janeiro 22, 2025

Súbita interrupção

     Agrada-te o silêncio, a solidão não te incomoda. As coisas quietas e estáveis mantêm-se equilibradas dentro do teu espírito. Sentes-te em paz. A única brusquidão é a das ideias, capazes de saltar e vaguear como cabras numa escarpa pedregosa, a escarpa da tua imaginação. Olhas para baixo, não lhe vês o fundo. Não há limite nem medida seja qual for a direcção do teu olhar.

    Não há mais ninguém na sala. 30 cadeiras vazias, ruídos esparsos vindos de divisões contíguas. Uma ou outra voz disfarçada de eco ressalta nas paredes do corredor. Alguém passa junto à porta. Há um lado de lá, momentaneamente separado de ti, um lado de lá do qual certamente nunca farás parte embora te mistures com ele todos os dias em doses homeopáticas.

    Agrada-te a solidão, não te incomoda o silêncio. A fórmula admite ainda algumas variações mas deixas as coisas como estão neste momento.

terça-feira, janeiro 21, 2025

Uma certeza (quase) absoluta

     O aspirador fazendo o seu trabalho substitui o som áspero que ouvias no Spotify; Jack White e a sua guitarra tão eléctrica. Procuras as ideias que se escondem de cada vez que voltas a cabeça da alma. São esquivas, as filhas-da-puta. Já se te mostraram claramente, à luz do que quer que seja que te ilumina o interior, lá, onde a tua vida paralela se desenrola dia após dia. Contas de outro rosário.

    Lá dentro costuma estar tudo silencioso. Não há aspiradores nem automóveis nem aviões a grunhir ao longe nas alturas. Lá dentro só tu és próximo de qualquer coisa que possas relacionar directamente com a realidade. Tudo o mais são ideias, sensações, coisas ainda não nomeadas. Assim, como aquelas ideias que ainda agora sentiste a deslizar lá ao fundo, sob o que poderia corresponder à entrada de uma gruta, à soleira de uma porta, lugar sombrio capaz de esconder tudo o que possa e o que não possa ser escondido. Ali a sombra é como tinta da China.

    O aspirador continua a trabalhar e tu desistes. Melhor, tu adias a busca das ideias furtivas, pequenos diabretes malvados. A ocasião há-de oferecer-se e tu vais deitar-lhes a mão. Tão certinho como seres quem és!

sábado, janeiro 18, 2025

Paternalismo

     "Cada cabeça, sua sentença", "o mundo de cada um é os olhos que tem", "quem o feio ama, bonito lhe parece", "rebéubéu, pardais ao ninho". A ideia de que cabe a cada um de nós confrontar-se com o mundo utilizando as armas de que dispõe na luta diária pela sobrevivência parece-nos incontroversa. 

    O que será controverso é a ideia de que "cada um é como cada qual" e fica tudo dito, nada a fazer, "sou assim mesmo" e está resolvido. Errado. Acredito piamente que "só os burros não mudam de opinião". Seres assim não significa que vais morrer tal qual és agora. 

    O mundo muda, o teu corpo altera-se, os olhos perdem fulgor, o bonito pode transformar-se em algo feio ou vice-versa. Tu bem desejas que as coisas se passam como imaginas e continuem assim até à extinção do Sol; fechas a cabecinha. Lá dentro está tudo arrumadinho em prateleiras perfeitamente alinhadas e todos os dias limpas o pó de modo a que a luz não surpreenda um grãozinho que seja poisado onde não deve.

    Vivemos num mundo atulhado de estímulos, saturado de estímulos, soterrado em estímulos mas não é isso que o torna estimulante. Tens alguma responsabilidade nisso, na descoberta dos estímulos capazes de transformar a tua experiência de vida em algo mais... estimulante? "É como procurar uma agulha num palheiro", dizes tu. Eu sei. Mas, toma atenção, a propaganda tenta substituir-te nessa tarefa. Não deixes que isso aconteça, não te satisfaças com coisas oferecidas. Luta por ti, abre o teu espaço, sente-te.

quarta-feira, janeiro 15, 2025

Apocalipse Chunga

     É estranho. Os cidadãos do chamado Mundo Ocidental parecem viver num acentuado estado de zombificação. O modo como vêm aceitando e escolhendo líderes medíocres (sendo benevolente na avaliação e contido na escolha da palavra) deixa-me estupefacto. O nivelamento do pensamento pelo zero é uma opção inesperada. Será isto resultado da massificação absoluta da informação?

    Talvez a tendência tenha sido sempre esta, talvez que Musks, Trumps, Zuckerbergs e outras merdas do género tenham estado sempre no subconsciente das massas, adormecidos, à espera que os piores receios de Deus pudessem enfim encarnar, iniciando a sua caminhada sobre a Terra. Eles aí estão.

    São os Cavaleiros do Apocalipse Chunga, com eles assistimos ao início da derradeira etapa desta civilização em direcção ao Abismo. O que aconteceu a grandes civilizações do passado? Como desapareceram da face da Terra quase sem deixar rasto? Tiveram também os seus Musks e Trumps e Putins a conduzi-las como o Flautista levando ratazanas e crianças em direcção ao precipício? Imagino que assim tenha sido.

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Ser como a lesma

     Tenho uma ideia nova. Esqueço-a. Não sei bem se a perdi pois que dela guardo apenas uma vaga recordação. Vá-se lá saber! Talvez não tenha perdido grande coisa. Na verdade nem sei bem se não terei ganho algo. Por vezes tenho ideias que me parecem muito boas e, mais tarde, envergonho-me, não sei se de as ter tido se de as ter imaginado como algo que fizesse sentido. É assim que na minha cabeça se define mais ou menos o conceito de embaraço. Perdi uma ideia, não sei se estou embaraçado ou haveria de vir a está-lo. Assim fiquei. Tudo na mesma. Como a lesma.

sábado, janeiro 11, 2025

Fartura

     Suportar o tédio é um exercício complexo. No início podes até sorrir, menear a cabeça com leveza, tamborilar com os dedos o tampo da mesinha mas, à medida que o tempo vai passando, a bonomia transforma-se em aborrecimento doloroso, não tarda vai já em  modo de agressividade eléctrica. E assomam aos teus lábios palavras proibidas.

    Mas que porra!? Esta gente não se enxerga? Terão consciência das enormidades que arrastam atrás das ideias que tentam expor? Procuram manter os pezinhos bem assentes no vazio que os sustenta mas sente-se-lhes a insegurança como se pisassem sala atapetada a pão-de-ló. Na dúvida resolvem preencher o tempo com palavreado sem sentido. Que chatice!

    Estou farto disto.

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Os porcos e as vacas

    Sangue, dor e sofrimento, eis a perfeita trilogia da essência da notícia. Notícia que é notícia não prescinde do tom apocalíptico transmitido em directo do local (o diferido também é aceitável mas perde algum impacto) com repórter enquadrado no palco (ou parte dele) onde a ocorrência acontece(u). 

    Guerras, desastres (naturais ou de outra índole), aberrações, conspirações, coisas extraordinariamente estapafúrdias que possam ser servidas em pequenas doses (3 minutos é longa-metragem), constituem a base do sistema informativo que engolimos como porcos e regurgitamos como vacas. Diariamente, 24 sobre 24 horas.

    

terça-feira, janeiro 07, 2025

Ser quadrado

     Vivemos uma vida inteira apontando o nariz a rectângulos de dimensões variadas. Portas, janelas, telas, ecrãs, folhas de papel e páginas de livros; os quatro lados do rectângulo enquadram a informação que recebemos.

    Será por isso que estamos a ficar tendencialmente quadrados individual e, sobretudo, colectivamente? Sim, o quadrado é, como sabes, um rectângulo particular por ter os lados todos iguais. Transformamo-nos naquilo que olhamos?

terça-feira, dezembro 31, 2024

2024 ao fundo

     O pior cego é o que não quer ver, o mais ignorante o que não quer aprender. É a pescadinha com o rabo na boca, o cão que persegue a cauda a mordiscar na atmosfera, o imbecil que continua a julgar-se um grande cromo. Somos nós.

    Tentamos novas soluções apoiados em velhas ideias, repetimos os erros convictamente, seremos assim até à dissolução do ser, pouco mais poderemos projectar que não esbarre na parede inevitável. Mas, no entanto, poderia não ser exactamente assim. Poderíamos errar com panache, poderíamos ter orgulho por, pelo menos, tentarmos ser criativos. Mas não. Somos tugas, erramos como sempre e temos ódio a quem nos aponte uma possibilidade diferente para o exercício da nossa atávica estupidez.

    O ano acaba hoje. Amanhã seremos os mesmos de sempre. Tudo bem, cá andaremos com a cabeça entre as orelhas.

domingo, dezembro 29, 2024

O que Deus quiser

     Não sei se acontece contigo, estimado leitor, mas há dias em que me sinto um pouco cansado, um tanto murcho, como planta a quem a água seja desviada da raiz. Não percebo porquê, de onde vem esta canseira, mas também não procuro compreender. Deixo andar, a coisa que se arraste.

    E vem o dia seguinte e vem o dia depois e... nada. Sempre esta secura, esta falta de vontade que me impede de erguer o olhar, os olhos sempre a fitar o muro, muro cinzento e sem graça. Não sei se te acontece também a ti, não acontecendo é mais complicado explicar.

    A verdade é que também não me apetece ir mais além do que já fui, este lugar serve muito bem para te dizer adeus. Faço o esforço de erguer o braço, dedos esticados, aceno. Adeus ou até à vista; seja o que Deus quiser.

domingo, dezembro 22, 2024

Até aqui tudo bem

     O mundo nunca foi um lugar seguro. Nem para os seres humanos nem para a restante bicharada. O facto de nascermos defeituosos e condenados a uma morte certa terá muito a ver com essa sensação de insegurança permanente que nos torna desconfiados e nos leva a cometer frequentes actos um pouco desesperados.

    A crueldade espreita a cada curva dos nossos cérebros. Inventamos torturas variadas. Há-as físicas ou psicológicas, desenvolvemos com volúpia narrativas aterrorizadoras para nos distraírem da monotonia que eventualmente nos venha amodorrar a existência. Nada nos satisfaz, forçamos constantemente os limites da imaginação. 

    Nos decénios mais recentes desenvolvemos dispositivos capazes de acabar com tudo o que nos rodeia de forma avassaladora e quase imediata. Trouxemos o armagedão das narrativas bíblicas para este nosso quotidiano delirante. Até ao momento em que escrevo estas linhas estamos a dar-nos mais ou menos bem com isso.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Beber ou não beber (uma bujeca) eis uma questão

     Decerto te terá também acontecido: tiveste uma ideia luminosa, uma revelação fulgurante, o mundo ganhou um contorno mais nítido, viveste um momento de fugacíssima felicidade. Tens a sensação de teres encontrado um pequeno tesouro escondido dentro de ti. Descobriste um fragmento da Verdade, foste tu quem o descobriu!

    Iupi!

    A sensação da descoberta de algo especial faz com que te sintas igualmente raro. Por momentos és um esteta, és um profeta, um cientista da alma. Mais adiante ouves uma frase, lês um parágrafo num livro de páginas amarelentas, lembras-te de algo que há muito havias esquecido e percebes. Percebes que a tal ideia, o tal tesouro, haviam já sido encontrados ou intuídos por alguém antes de ti. Ó tristeza, ó decepção!

    A mim já isto aconteceu muito mais que  várias vezes. Afinal sou um gajo como os outros, não posso considerar-me particularmente brilhante por ter descoberto o que outros já haviam encontrado, observado e dissecado antes de mim. Isso não faz de mim uma fraude, apenas uma pessoa iludida. Mas se tudo for apenas ilusão serei pouco mais do que alguém perfeitamente integrado no nada que tudo abarca.

    Não tenho a certeza de ter chegado a uma conclusão, nem sei se isso terá alguma utilidade (a incerteza ou a conclusão). O melhor é beber uma bujeca. Ou não.

domingo, dezembro 15, 2024

Lista de coisas fundamentais

1 - Acordei bem-disposto.
2 - Li coisas interessantes.
2 - Fiz uma caminhada.
3 - Vi pessoas.
4 - Comprei mantimentos no supermercado.
5 -Tomei um duche.
6 - Lavei louça.
7 - Almocei.
8 - Limpei arquivos no computador.
9 - Escrevi esta lista.
O dia ainda vai a meio.

terça-feira, dezembro 10, 2024

Espécie de elegia

     Não sei o que dizer. Sinceramente!? Nem sequer sei o que fazer. Assim sendo, deixo o trabalho entregue aos mecanismos do relógio na esperança de que as coisas possam fazer algum sentido caso seja o Tempo a responsabilizar-se pelo desenrolar dos acontecimentos. Entregar o destino a molas e rodas dentadas, ponteiros presos ao centro da circunferência das horas do dia.

    A impotência é grande. Perante a inevitabilidade dos acontecimentos encolho-me, abstenho-me, anulo-me. Faço a única coisa que me parece estar ao meu alcance: desenho. Como se cada imagem pudesse sublimar tudo o que se revolve dentro do meu ser; as tripas misturadas com a alma, o coração a tentar ser inteligente, as mãos resolvendo o que o cérebro não abrange sequer, coisas impossíveis, coisas patéticas: humanidade.

    Tivesse eu garras e presas, fosse eu todo músculo, todo instinto, todo arrojo, fosse eu um lobo faminto e talvez o mundo fizesse mais sentido, talvez pudesse viver mais sossegado, apesar do frio, apesar da fome, apesar dos homens.

domingo, dezembro 08, 2024

O problema

     É tão difícil compreender o que quer que seja mais complexo do que "o sol nasce - o sol põe-se". Mesmo isso pode tornar-se complicado, o Mundo não se deixa capturar. De forma nenhuma. Tenta-se a matemática, tenta-se a poesia, o esoterismo e a filosofia. Seja qual for a linguagem através da qual tentemos ler os sinais que o Mundo nos vai deixando a pontuar o caminho percorrido pela nossa espécie ao atravessar a floresta do Tempo, seremos sempre pequenos polegares perdidos e aterrorizados à procura de conforto e protecção.

    O caminho individual não parece funcionar lá muito bem, precisamos de companhia. Há passarões fantasmagóricos sempre dispostos a bicarem os sinais deixados pelo Mundo, os passarões querem a nossa perdição. E nós perdemo-nos. O entendimento do Mundo é assunto tão vasto e complexo que inventámos máquinas para o entenderem por nós. Mas são máquinas, Senhor! Os resultados das suas reflexões serão sempre insuficientes, desviados do Humano, pensamentos artificiais. Não servem para nós, não resolvem o nosso problema.

    Quanto mais depressa nos desenganarmos melhor. Melhor e pior. Quanto mais depressa percebermos que estamos sós, que fomos abandonados na floresta, quanto mais depressa abrirmos os olhos para a espessa escuridão que nos envolve, mais depressa perceberemos que não existe nada que possamos designar por "salvação". Para nos "salvarmos" teríamos de nos exterminar a nós próprios e, caso o fizéssemos, nunca poderíamos confirmar ter encontrado a solução do problema.

    Somos como um cão. Um cão que tente morder a própria cauda acabada de cortar rente com uma navalha afiada.

segunda-feira, dezembro 02, 2024

19 anos

     No passado dia 28 de Novembro o 100 Cabeças completou 19 anos de existência virtual. Não há qualquer sentimento especial associado à data. Não há qualquer situação extraordinária a reportar. As coisas são o que são, são pouco ou nada. E 19 anos a escrevinhar posts num Blogue são isso mesmo.

    Os textos que aqui vou deixando têm-me sido úteis em várias situações. Já me serviram para escrever peças de Teatro, já me serviram para programas de exposições e apresentações públicas. O 100 Cabeças é uma espécie de ferramenta.

    Irei continuar a fazer isto até não conseguir mais fazê-lo. Ainda o farei dentro de 19 anos?

sábado, novembro 30, 2024

Vinha trazer-vos o Amor

     Vinha trazer-vos o Amor mas tenho a sensação de ser coisa que vos não faz falta. Tendes as Black Friday, tendes o Tik Tok e o Facebook, os smartphones e as companhias low cost, tendes tudo e tanta coisa, que falta vos poderá fazer algo tão etéreo, vago e indefinido como "é coisa que arde sem se ver"?

    Vinha trazer-vos o Amor mas decidi ficar-me pela tasca da esquina a comer um choco frito pobremente regado com uma imperial, fresca q.b.

quinta-feira, novembro 28, 2024

Ausência absoluta

     A sala estava silenciosa, todo o ruído provinha do exterior. Vozes que ondulavam no esforço de penetrar as paredes, ultrapassar as janelas fechadas, vozes que haveriam de pertencer a alguém mas que por agora não tinham rosto. Talvez nunca tivessem. Uma sirene distante encantou o silêncio quase conseguindo levá-lo com ela. Lá longe, para longe. Uma sirene...

    A sala permanecia, boiando no silêncio.

    Quatro filas de carteiras com tampo bege, cadeiras nem todas devidamente arrumadas, nem todas iguais. Aquele espaço era o seu reino. Paredes sujas, a porta com um vidro magrinho, plantado ao alto, um ecrã e um projector e um computador asmático, companheiro de trabalho mais ou menos fiel, escravo de quantos sentavam o cu naquela cadeira onde escrevia, agora mesmo, estas palavras. Passos no corredor, vozes, cadeiras arrastadas no andar de cima. Silêncio. Silêncio outra vez.

    A sala, vazia e pouco limpa, era o seu reino apesar de não ser rei  de coisa nenhuma, de não pertencer a lugar algum, nem em sonhos. Talvez não quisesse ser nem pertencer. Talvez não quisesse nada, nem sequer ser personagem deste conto mal ajambrado. Talvez não existisse, não exista. Porra...

    A sala, vazia! Todo o ruído ondulando do exterior. Luz acesa, computador ligado. Sala silenciosa. Há um encanto indefinível na ausência absoluta, talvez por podermos apenas imaginá-la. Sons cada vez mais espaçados, mais distantes, o vulto de um pássaro na janela, recortado sobre o céu que escurece com a tarde a ir embora, um céu agora apenas azulado. O apito de um professor de educação física soou longe, como se fosse um lamento.

    A sala não existia mas, no entanto, ali estava. Vazia. Silenciosa. Abandonada.

domingo, novembro 24, 2024

Leitura

     Influenciado pela imaginação de Borges (aliada à minha com o fito de me fazer planar algures entre o céu e o inferno) folheei brevemente a Divina Comédia (edição bilingue com tradução de Vasco Graça Moura). Senti o impacto da coisa, tal qual Borges descreve na sua conferência em Sete Noites (vi Cerebro com uma nitidez nunca antes sequer imaginada). 

    Um gajo, não tendo problemas de guito, pensa logo: "podia comprar isto". Mas depois de reflectir um pouco, este gajo, percebe que nunca iria ler a cena até ao fim, que seria mais um belo livro a fazer-lhe caretas lá do cimo da prateleira. Devolvido o livro ao seu lugar um gajo pensa: "nem sequer Os Lusíadas fui ainda capaz de ler".

    Que livros ler, quando os ler, como os ler, o que deixar de fazer para fazê-lo? Eis uma sequência de incómodas questões que o gajo prefere ignorar.

quinta-feira, novembro 21, 2024

Bom dia

     Não deveria esquecer-me de que todos os dias podem começar como este começou. Começou com a leitura de uma das conferências de Borges publicadas em Sete Noites (esta versando a Divina Comédia). Não tanto pela imensa erudição que irradia das palavras escritas, não tanto pela beleza rítmica da forma (que mesmo na tradução para português não é perdida), não tanto pelo poço celestial do conteúdo: os dias deviam começar desta forma pois é leitura que me faz recordar o prazer que tenho em estar vivo.

    Dou por mim a pensar como seria agradável que após a hora da nossa morte pudéssemos continuar a ler; como seria agradável que o universo continuasse para lá da cortina dos sentidos, uma infindável biblioteca, como o terá sonhado Borges; dou por mim a pensar que o inferno decerto será semelhante ao silencioso deserto de ideias que imaginei ainda há pouco.

sábado, novembro 16, 2024

Amanhã é dia do Senhor

     Celebrar o Nada, adorar o Vazio, eis a essência de todas as religiões. Ora tentamos preencher as lacunas criadas pela ausência de raciocínio, ora as ignoramos, afirmando tratar-se a ignorância de um mistério. Não fosse a religião manifestação da nossa absoluta incapacidade para compreender o mundo, poderíamos imaginá-la fruto de algum tipo de construção intelectual destinada a preencher o Nada, destinada a agitar o Vazio.

    A religião será, então, uma emanação da nossa impotência, da nossa incapacidade para encontrarmos justificação para sermos aquilo que somos (mesmo que não sejamos capazes de o compreender). 

    Estou convencido de que, sendo nós bichos como os outros, não existe o Nada, muito menos o Vazio; isto dispensa por completo Deus de ser o que imaginamos que Ele seja, o que decerto muito O aliviará. Isto porque Deus, a existir, não seria capaz de evitar esta mesma sensação de perda constante, esta angústia de não encontrar um sentido para o que quer que seja. Afinal de contas, não fomos nós criados à Sua imagem e semelhança?

sábado, novembro 09, 2024

A felicidade num buraco

     Ficar na sombra não é das coisas mais fáceis a que um gajo possa aspirar. A tentação de deitar um cornicho de fora é muito forte. Querer banhar a fronte na luz do sol, mostrar o sorriso, explicar a quem esteja a ouvir como somos gajos espectaculares, a compulsão da exposição social fala alto. Mas não tão alto que abafe a tendência natural para a anulação do ego. Quando esta existe.

    Uma educação católica em meio rural cava profundas valas onde semeamos modéstia com uma eficácia tal que a colheita dura a vida toda. E tentamos mudar, tentamos deixar a agricultura, imaginar outras actividades, mas nada funciona. Campónio uma vez, campónio a vida toda. Nunca deixarei de ser um campónio. Tempos houve em que a constatação dessa evidência me incomodou. Nos tempos que correm a condição de eterno campónio enche-me de orgulho. Vai na volta esse orgulho não é mais que auto-defesa. É bem possível que assim seja. 

    A passagem do tempo fornece a cada um de nós a possibilidade de vestir uma armadura mais ou menos eficaz contra os temores que o mundo vai sendo capaz de nos infundir. O mundo que se infunda! Que se infunda esta merda toda. Vou cavar um buraquinho onde possa aninhar-me confortavelmente, como imaginei a toca da raposa Salta Pocinhas, heroína imbatível da minha mais tenra infância. E nesse buraquinho serei feliz, até ao esquecimento absoluto.

quinta-feira, novembro 07, 2024

Um lugar infecto

     O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Para eles o ouro não chega a ser uma miragem. Nunca sairão daquele lugar infecto. "Que é o único lugar a que têm direito", pensou o homenzinho no guichet enquanto contava notas de 5 e 10 euros.

    O Pedinte e o Troglodita são extremos de uma linha sinuosa. O Pedinte não desiste da existência. Estende a mão, implora baixinho. Podemos não o ver mas não é porque seja invisível. É por sermos cegos. 

    O Troglodita é um gajo um pouco perigoso. Não percebe bem nada do que o rodeia. Tem feelings, por vezes feelings muito ásperos; tem sentimentos confusos. Antipatiza naturalmente com o Pedinte talvez por sentir que há entre eles algum tipo de competição. Por atenção? Por espaço? O Troglodita não compreende nada.

    "São umas bestas!" - o homenzinho do guichet não passa de um miserável (a vários níveis) mas contemplar aqueles dois maltrapilhos, que vivem e cagam no meio da rua, fá-lo sentir-se um nadinha poderoso. O suficiente para se imaginar uma personagem importante.

    O Troglodita adiantou-se ao Pedinte mas nem um nem outro terão, jamais, acesso à informação necessária. Nunca sairão daquele lugar infecto.