quinta-feira, novembro 25, 2021

Universos

     Espanta-nos a desfaçatez dos ricaços que se consideram acima da Lei? Não devia espantar, ou melhor, espanta-nos porque não fazemos ideia do que significa ter tanto dinheiro, ser tão ricaço. Somos uns ignorantes das coisas do poder. Pobres pobretanas.

    Já por várias vezes aqui declarei a minha incapacidade para lidar com números. A partir da ordem das centenas começo a perder o sentido à coisa, ultrapassando os milhares fico deveras aflito e, chegado aos milhões, é como se fosse teologia avançada. Transpondo esses números para dinheiro, euros ou outra materialização da divindade, então é que nada faz nem o mais pequeno dos sentidos.

    Confunde-me a necessidade de acumulação infinita que parece ser o mantra da nossa sociedade capitalista. Agimos como se nada tivesse um limite, banalizámos perigosamente o conceito de Universo. A Economia tem de crescer em flecha, ano após ano, a capacidade tecnológica não admite fronteiras para as possibilidades que nos oferece, criando um Universo paralelo no qual todos podemos ser felizes embora nem todos lá tenhamos um lugar à nossa espera. 

    Tudo é infinito, desde a felicidade que nos é prometida pelas campanhas publicitárias até à capacidade de enriquecimento dos ricaços, passando pela capacidade de ser miserável que caracteriza aquilo a que designamos por "franjas" da sociedade. Tudo constitui um universo separado e particular, movemo-nos entre o universo mediático e o universo económico e o universo da Marvel e da DC Comics e o universo do desporto de alta competição; universo, universo, universo, tantos universos! Todos eles infinitos e em expansão. 

    Quem conseguir compreender este fenómeno improvável (infinito em expansão) por favor: EXPLIQUE-ME! Mas de forma a que eu seja capaz de compreender. Acho que vou incluir este pedido na minha carta deste ano para o Pai Natal.

quarta-feira, novembro 24, 2021

That's life!

  https://youtu.be/HUgZ7kztPBs

     Cada novo dia soa a velho. Há qualquer coisa de arrogante nesta minha perspectiva, um convencimento tácito trazido pela acumulação de anos de vida. Será que o tempo que vivemos nos permite olhar para a frente com o desencanto de quem experimentou tantas coisas que já nada o poderá surpreender? Isso é que era doce!

    Cada novo dia atemoriza por ser novo. 360º, ângulo giro, uma volta inteira na perspectiva do parágrafo anterior. Lembro a fábula da raposa e das uvas; a novidade, o desconhecido, recusados mas desejados: oxalá caíssem e pudesse eu abocanhá-los sem ter de me pôr em bicos dos pés! E, mesmo nos bicos dos pés, correr o risco de os não alcançar. A idade a tornar-me incapaz, a incapacidade confundida com sabedoria...

    Cada novo dia é uma aventura inesperada. Poesia barata, discurso motivacional, conversa banal sem significado nem objectivo palpável. Talvez seja esta a formulação mais justa. 

    Talvez a vida, a minha vida, a nossa vidinha, caríssimo leitor, a vida de um cidadão ocidental, num sistema democrático, um cidadão comum, com direitos, num estado de direito, seja assim mesmo. Cada novo dia não tem de soar a velho, embora possa acontecer, nem atemorizar, embora isso seja possível, nem tem de ser propriamente uma aventura ou o seu contrário. Cada novo dia é mais um dia de vida. 

    Acabamos sempre a enfiar La Palice pelas orelhas abaixo.

sexta-feira, novembro 19, 2021

É a vida

    Antes de continuar a avançar pensou que seria aconselhável verificar com rigor onde colocar o pé direito. Assim fez. Pisou com segurança o degrau seguinte. Pé ante pé foi subindo, sempre com absoluta certeza de que não pisaria em falso, que cada novo passo o conduziria um pouco mais acima, um pouco mais perto do seu objectivo.

    Chegado ao topo olhou para trás. A escadaria perdia-se numa escuridão profunda e assustadora. Ali estava num patamar que não conduzia a lugar algum. O espaço esgotava-se no plano onde assentava os pés. Andou de um lado para o outro tentando perceber a razão que o levara a subir até ali mas não foi capaz de recordar o objectivo da sua cuidadosa viagem.

    Sentou-se, cruzou as pernas numa posição que sugeria meditação mas, na verdade, tinha o espírito vazio. Que fazer, agora que estava ali? Quando iniciou a subida não sabia o que iria encontrar. Imaginou muitas coisas diferentes, sentira uma espécie de promessa surda, uma esperança qualquer mas não estava preparado para algo tão cruel como aquele patamar vazio no topo da escuridão.  

    O que fazer? Esperar que a fome e a sede se tornassem insuportáveis? Descer a escadaria regressando ao ponto de partida? Não concebia nada que lhe parecesse lógico nem correcto. Levantou-se, apoiou as mãos no resguardo metálico e enferrujado que circundava o patamar. Olhou para o vazio negro e...

quinta-feira, novembro 11, 2021

Irritação

     Somos mesmo uns animais um bocadinho irritantes. Não sei se sentes o mesmo, amigo leitor, irritam-me profundamente aqueles que insistem em ter sempre razão. É uma casmurrice imbecil, uma necessidade de afirmação digna de um macaco narigudo: ter razão.

     Termos razão quando asseguramos que café sem açúcar é melhor do que com, que o nosso mecânico não só é justo nos preços que cobra como também revela capacidades técnicas e conhecimentos incomparáveis, que o Doutor que nos trata da cabeça tem um dom que só pode ser oferta divina, termos sempre razão equivale a dizer que fazemos sempre a melhor escolha. Sempre, sem margem de erro nem espaço para arrependimentos. Ter sempre razão é ser, sem dúvida, o maior.

    Apesar da irritação que me provocam costumo deixar passar sem remoque estas exibições egoístas mais ou menos inofensivas. É como ter uma comichão e evitar coçá-la para não agravar o desconforto. Mesmo quando a nossa ausência de resposta provoca no irritante aquela expressão pouco subtil de superioridade, aquele repuxar discreto do canto do lábio, aquele sobrancelha ligeiramente erguida, o ajeitar do cabelo como se a afirmação de excelência fosse tão forte que tivesse despenteado o soberbo.

    Não quero reclamar qualquer tipo de sabedoria especial que me leva a evitar confrontar um ego desmesurado; seria mostrar semelhança com o irritante. Tenho uma vaga esperança de que a minha ausência de reacção o incomode, lhe faça cair o cantinho do lábio, lhe amanse a sobrancelha e o despenteie de facto. 

    Acho que isto é ficar próximo de estar velho.

segunda-feira, novembro 08, 2021

Mudar o futuro

 

Precisamos de acreditar que a vida pode ser outra coisa, que não é só isto, que a realidade não se esgota nos factos comprovados, que a verdade pode estar escondida à vista de toda a gente. Precisamos de não baixar os braços e não desistir. Não somos números nem são os números que definem quem somos. Lutar contra a estupidez é um desígnio, combater a ignorância é o processo. Precisamos de quem exija o impossível, quem imagine o que nem conseguimos sonhar. Tem de haver alternativa! Precisamos de mudar o futuro. 

Carta enviada ao Director do jornal Público

Esperança

    Nem sempre é fácil, diria mesmo que é frequentemente difícil. No entanto isso não é razão para desistir, antes pelo contrário; a ideia é insistir. Uma, duas, três, as vezes todas que forem necessárias, insistir sempre. Desistir não é opção.

    Mesmo após o golpe de misericórdia que nos atira ao tapete, mesmo com dificuldade em levantar a cabeça, estancar o sangue, recordar o nome ou o local onde estamos, desistir não é opção. A ideia é içar o corpo com o guindaste da vontade, acreditar em coisas impossíveis, invocar o auxílio das fadas e dos duendes e continuar a lutar.

    Quem não desiste nunca morre.

sexta-feira, novembro 05, 2021

A Lei

    O fim de uma coisa significa o início de outra? Haverá um encadeamento de situações mais ou menos catastróficas que se estenda infinitamente? O mundo a desenrolar-se diante de si próprio, magnífico e sem fim, indiferente aos deuses e à sua mútua destruição?  

    A Lei de Lavoisier é a única verdade comprovada. Teremos apenas que extrapolar da Natureza para o Universo: "No Universo nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Transforma-se a matéria, transforma-se o sonho, transforma-se a realidade, nunca nada é como é eternamente.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Yupi

    Hoje é aquele dia confuso. Os mais velhos chamam-lhe "de todos os santos" ou "de finados", é o dia dos mortos. Ontem foi o "halloween", para a pequenada. Há aqui uma quase sobreposição nas datas e uma certa confusão nas celebrações. 

    O "halloween" é uma importação um bocado forçada que confunde os mortos com monstros e a putalhada confunde monstros com gulodices. A celebração da memória dos antepassados acaba por misturar-se com uma parada de monstrecos estapafúrdios, numa espécie de Entrudo meio imbecil e fora de tempo. 

    O 31 de Outubro acaba por ser um dia um bocado tolo. Não é nosso, nem sequer pode ser ainda considerado uma tradição. É como substituir as touradas por rodeos e fazer de contas que foi sempre assim, tudo com chapéus de caubói a gritar "yahoo" nas bancadas e a comer "hot dogs" enquanto na arena os touros são montados e não espetados com farpas nem pegados por tipos com calças demasiado apertadas nos tomates.

    Mas pronto, é o tal mundo global onde tudo era de plástico mas agora vai passar a ser de algum material alternativo que permita cores berrantes e brilhos despropositados. Um dia seremos todos americanos e gordos como bisontes pelados. 

    Yupi.

Luta desesperada

    É muita hipocrisia. Dizemos que queremos salvar o Planeta, como se o Planeta dependesse de nós. Deveríamos dizer que queremos salvar a nossa Civilização, nem sequer a Espécie Humana mas sim o regime capitalista que nos devora.

    Pessoalmente não estaria muito para aí virado, salvar o capitalismo, mas a verdade é que estou viciado no modo de vida que este regime me permite. Não imagino outro modo de vida. Temo o desaparecimento de certos luxos, uns maiores outros menores; impressionam-me o desaparecimento de outras espécies animais, o aquecimento global, os continentes de lixo flutuante mas continuo a viajar no meu carro a gasóleo e a utilizar os meus sacos de plástico. 

    Sei que as grandes empresas e aqueles que delas beneficiam a um nível que nem sou capaz de imaginar, vão fazendo com que me sinta culpado por ser um dos milhares de milhões de Seres Humanos que poluem o planeta. São capazes de me tornar inimigo de mim próprio. 

    E eu luto contra mim. Umas vezes ganho, outras vezes perco a luta. Luto todos os dias, desde que acordo até que fecho os olhos e mergulho no universo dos sonhos. Sou um lutador incansável. Umas vezes ganho, outra vezes perco. Luto comigo próprio, sinto cada golpe e respondo na mesma moeda. É uma luta desesperada.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Fome e sede

    Continuamos a necessitar de alguém que exija o impossível. Se ficarmos pela reivindicação daquilo que o mundo está disposto a oferecer-nos, se nos conformarmos a esperar a benevolência dos coiotes sociais, então estamos fritos, amigo leitor. Estamos fritos.

    Há muito que aprendi a pedir 1000 se espero obter 100 ou mesmo 10. Lutar pela mais tremenda das utopias é a única forma que temos de nos abeirarmos de um mínimo de justiça social. Ser modesto na exigência é coisa de católico alienado, é coisa de quem espera retribuição na outra vida, quem espera recompensa depois da morte. Eu estou vivo e interessado em viver o melhor que possa.

    Peço desculpa, Senhor, mas não acredito na bondade dos ricos, não acredito na magnanimidade dos poderosos. Acredito apenas na fome e na sede de justiça.

terça-feira, outubro 26, 2021

Tempestade

    A alegria é uma tempestade na alma que quando amaina fica um mar chão de tristeza.

    Então atiramos o olhar lá para a linha de horizonte na esperança do regresso de um relâmpago seguido de eufórico trovão.

    Lá vem, de novo, tempestade. É a alegria que regressa.

quinta-feira, outubro 21, 2021

As ruas do meu sonho

Não vejo ninguém passeando nas ruas do meu sonho. Longas sombras marcam o fim do dia, fronteira nocturna. Pairamos na penumbra. Ruas vazias, solitários cães à sorte abandonados. Comboio que ecoa no esquecimento. Espaço metálico, melancólico vidro sujo sobre alcatrão infinito. Estão vazias, as ruas do meu sonho. E tu não voltas, o regresso é impossível. Nunca mais serei o que já fui. Nem mesmo nas ruas do meu sonho.

sexta-feira, outubro 15, 2021

O pedido

     Agora via como fora ridículo ao puxar o lustro aos galões por serem galões tão modestos; o latão não tem o esplendor brilhante da pepita de ouro. Imaginava o constrangimento do outro que, quando o olhou, parecia ter vontade de chorar - decerto não o imaginara  tão mesquinho nos sonhos, tão servil no momento de pedir - via-lhe agora nos olhos o choro a transformar-se em riso. Entre a compaixão e o gozo a distância de um momento.

    Arrependeu-se tanto de ter aberto em si aquela janela debruçada sobre o horizonte de quem é. Caíra-lhe o céu, ficou-lhe a sombra. Pediu ao chão que se lhe abrisse debaixo dos pés mas o chão, indiferente, permaneceu. Há coisas que nunca mudam. Quando nascemos no meio do estrume dificilmente nos habituaremos às discretas nuances do perfume.

     Não sabia se havia de chorar, gargalhar ou fugir dali para fora. Ficou o silêncio, especado no soalho que brilhava como louco batido pelo sol do meio-dia.

    

sábado, outubro 09, 2021

Fugir

     Todos nós sentimos uma ou outra vez um certo fastio em sermos quem somos. Quem nunca se cansou de viver consigo próprio que atire a primeira pedra! Falando por mim: não é raro querer fugir da minha própria companhia. O problema reside em que estratagema experimentar na tentativa de evasão.

    Os truques disponíveis não são assim tantos nem particularmente eficazes e insistir na fuga poderá ter resultados catastróficos. O melhor será fazer tentativas esporádicas.

    Quando, por vezes, a fuga é coroada de sucesso sentimo-nos reis do mundo, por um momento que seja. Mas há um problema irresolúvel: acabamos sempre por regressar. Ao nosso corpo, à nossa vida, enfim, é impossível fugirmos daquilo que somos.

    Parece-me insofismável afirmar que o corpo acaba sempre por triunfar sobre a mente. Mesmo quando alguns de nós perdem a noção do Ser acabam a vegetar dentro de si próprios, como cães perdidos a farejar num cemitério; não é fuga, é esquecimento.

    Resta-nos então a morte, esse imenso mistério.

Nota: tenho andado a ler Nada a Temer de Julian Barnes, uma longa reflexão sobre a morte.

sexta-feira, outubro 08, 2021

Matar a fome

     É possível uma pessoa ter baixas expectativas em relação a um certo acontecimento e, ainda assim, ficar desapontada com o seu desfecho? Sim, claro! Porque não? É aquela cena da Lei de Murphy ou lá o que é. Estás lixado? Espera e verás o que é bom e o que é bonito.

    É possível sentir desapontamento e, ainda assim, fingir que está tudo a correr da melhor forma possível? Também. Será uma espécie de ironia positiva, o sarcasmo ao serviço das coisas boas. E das bonitas. É um gajo a torcer o volante durante o despiste na tentativa de evitar aquilo que já está a acontecer naquele momento. Deve uma pessoa desistir perante o inevitável? Nunca! Jamais!

    Resumindo: podemos viver em simultâneo o pior e o seu contrário? Depende de ti, acho eu. Depende da tua capacidade para engolires sapos imaginando-os príncipes encantados (no caso da Lei de Murphy) ou imaginando-os belos frangos assados. Tudo depende da tua capacidade te enganares a ti próprio, enganando o mundo que te rodeia.

    Pela conversa vejo que já te perdeste há um bom bocado e que aquilo que dizes deixou de fazer sentido logo no primeiro parágrafo.

    Porra! Nunca te deixas enganar!

    A tua capacidade para te enganares a ti próprio não é particularmente brilhante.

   Estou com fome. Vou comer qualquer coisa.

quinta-feira, outubro 07, 2021

Robots

    Muito raramente lá aparece um comentário neste blogue. Abro a caixinha e... é mensagem de um robot. Não fico desiludido, nem desalentado, nem acabrunhado, nem antes pelo contrário. Estou habituado ao eco silencioso da zumbisfera, sei que poucos humanos se deslocam nesta ruína abandonada. Dou por mim a sorrir e a pensar como será quando o mundo "real" ficar assim, semelhante à zumbisfera, um habitante aqui, outro ali, sobrevivendo de memórias e ténues esperanças. Quando encontrar um robot na rua for tão reconfortante como encontrar a nossa tia velhinha que já não víamos há um ror de tempo.

    Estes robots que habitam as caixas de comentários têm dois tipos diferentes de personalidades (a expressão aplica-se a robots?): uns tentam convencer-te de que ficaram agradados com o teu blogue e teriam todo o prazer em que retribuísses a visita; outros atacam logo com um lugar virtual, sem conversas prévias nem qualquer tipo de simpatia artificial, impõem-se sem rebuço. Sim, porque neste mundo tudo corre o risco de se tornar artificial, mesmo nós.

    Seja como for podes apenas ignorar o robot, não é relevante. Por enquanto podemos virar-lhes as costas, fingir que não existem. Será assim para todo o sempre?

quarta-feira, outubro 06, 2021

Na fronteira

Sinto-me a existir cada vez mais próximo de uma fronteira que separa aquilo que sou daquilo que esperam que eu seja. Essa fronteira sempre esteve lá mas o longe vai-se fazendo perto. O passar dos anos é caminho que vai sendo feito e parece-me que avisto já a guarita do guarda alfandegário.

Estar mais velho provoca-me situações de alguma vertigem, algum desconforto. Principalmente quando estou com pessoas mais jovens e conversamos. Seja qual for o tema há sempre uma história a propósito que posso contar. A sério? Que seca! Talvez devesse calar a boca, mas não, dou por mim e já avanço em passo de corrida história adentro. Arrependo-me sempre tarde de mais.

Depois começa a acontecer-me não ter a certeza se já contei aquela história àquela pessoa.

O guarda alfandegário tem uma farda cinzenta (ou será azul clara?) e está a ler um jornal enorme, com folhas que parecem lençóis. Uma ligeira brisa dificulta-lhe a leitura e ele parece irritado. Acho que me vou sentar um pouco e esperar que tudo passe ou, pelo menos, que tudo acalme. Então será tempo de avançar.

segunda-feira, outubro 04, 2021

Cínico

Estava para aqui a pensar que o exotismo é algo exageradamente valorizado e que a banalidade nem sempre merece o desprezo que lhe atiram à cara. Pensava também que nem a riqueza é assim tão apetecível. Por cada rico que se pavoneia neste mundo há milhares (ou milhões) de miseráveis que lhe enchem a peida. Estava para aqui a pensar que muito do glamour que nos preenche o imaginário tem o brilho de lixo polido com luva branca. E muito do lixo que atiramos ao rio acaba a flutuar.

Não estou a fazer grande sentido, e depois? Fazer sentido não depende de mim. Depende de ti, depende de nós.

Estava para aqui a pensar que a vida não tem assim tanto valor porque se tivesse havíamos de olhar uns para os outros com olhos mais límpidos e coração mais aberto. Se a bondade verdadeiramente importasse não seríamos tão cínicos.

Talvez o problema resida na certeza de que um dia vamos todos morrer.

Caramba! Que coisa, que conversa tão banal. Que pobreza, que discurso tão sujo! Quanto cinismo, benza-me Deus!!!

sexta-feira, outubro 01, 2021

Ser zombie

Ser um zombie e saber o que se é custa e dói. Nem sempre me apercebo dessa minha condição de morto-vivo (umas vezes mais morto outras nem por isso) mas a sensação está lá, alojada nalguma prega do meu cérebro. Zomzomzomzomzom, a moer, a moer, a moer, zom, zomb, zombi, zombie!

Quando a coisa bate, olho em volta e vejo. Vejo os outros que, como eu, arrastam os pés, caminhando todos na mesma direcção, olhares vazios, caras pálidas uns, apáticas outros, narizes a apontar ao peito, muitos. Raspamos a plataforma com as solas dos sapatos, dos ténis, das botas, das sandálias, a variedade dos trapinhos dá-nos uma falsa sensação de individualidade.

Não! Somos todos iguais perante a morte, na putrefacção e na morte. Aquele já não tem nariz, o outro perdeu parte do couro cabeludo, a senhora do vestido vermelho precisa de encontrar umas pernas ou então nunca mais vai sair dali. 

Talvez até fosse divertido.

sexta-feira, setembro 24, 2021

Conversa de merda

Se pudesse fazer acontecer aquilo que desejasse... um acontecimento apenas, aquilo que desejasse, como o Aladino... seria eu capaz de pensar no planeta e esquecer o corpo que me alberga? Se pudesse salvar a Humanidade invocando um milagre qualquer (que de momento não me ocorre) ou, em alternativa, pudesse garantir uma vida magnífica para mim próprio nos anos que me restam e para a minha descendência enquanto durar a Eternidade... qual seria a minha escolha?

Suspendo por momentos o acto de pensar. Retomo a actividade e percebo que estou a fazer uma reflexão de merda. Vou visitar aquela exposição ou fico em casa? Esta sim, é uma dúvida importante no futuro imediato.

terça-feira, setembro 21, 2021

Morte aos feios!

Nos últimos dias tenho matutado sobre as qualidades exigidas (ou não) aos candidatos às eleições autárquicas do próximo Domingo. Sendo esta a disputa eleitoral mais abrangente, a que exige um maior esforço popular de participação em termos de disponibilidade para o exercício de cargos na "coisa pública", era de esperar que surgissem uns quantos cromos. Perfeitamente natural.

Não estava era preparado para a enormidade de certos cromos que vão aparecendo. Alguns são maluquinhos de camisa-de-forças, sem tirar nem pôr.

Para ser professor é-me exigido um certificado de "robustez física e mental". Ok, eu sei como esse documento é lavrado, mas não deixa de ser uma exigência que tenta evitar que as crianças fiquem expostas a algum maluquinho-de-hospício. E para ser presidente da junta? Pode um candidato ser completa e absolutamente lunático? Pelos vistos pode.

Estou para aqui preocupado com meia dúzia de juntas de freguesia e uma ou outra câmara municipal perdidas no portugalzinho profundo, quando os dois maiores exemplos de malucos perigosos eleitos o foram para a presidência da república. Do Brasil e dos Estados Unidos. Nestes casos com a agravante de terem sido eleitos dois sociopatas narcisistas e, ainda por cima, feios pra caralho. 

Caso para proclamar a "morte aos feios"?

sexta-feira, setembro 17, 2021

No future

No future. A velha palavra de ordem que tanto me fez saltar e espernear quando era ainda um teenager sem juízo que pudesse ignorar parece estar de regresso. O contexto é outro, a envolvência muito diferente mas, imagino eu, a sensação de vazio que ora te põe em pulgas ora te deixa prostrado é decerto semelhante.

Nos anos 70 o problema era a Guerra Fria e a iminência de uma guerra nuclear que arrasasse o planeta de um momento para o outro. Esta pressão constante fazia com que fosse urgente viver tudo, "a vida num só dia", aproveitar cada minuto para rebentar a cabeça e explodir em delírio permanente. A música punk é uma boa metáfora de como nos sentíamos.

Neste final do primeiro quartel do século XXI o problema é a certeza da degradação das condições de vida sobre o planeta devido à poluição e às alterações climáticas. Embora saibamos qual o final anunciado devido aos constantes spoilers produzidos pelos cientistas sobre a História da Humanidade, não somos capazes de evitar o desastre. A nossa sociedade global já não consegue travar a tempo de evitar o mergulho no precipício.

Antes o temor da morte súbita, agora a certeza da morte lenta. Isto não são invenções ou delírios juvenis, são coisas que acontecem. O Ser Humano não tem hipóteses de ser outra coisa a não ser predador de si próprio. Somos como o tal escorpião que atravessa o rio no lombo do sapo.

terça-feira, setembro 14, 2021

Magia a preto e branco (outras vezes com cores)

                                           Monstro, canetas de gel sobre papel, 50X65cm

 

Tenho receio de ser mal compreendido. Tenho receio de ser demasiado bem compreendido. Do mesmo modo, tenho receio de eu próprio não ter compreendido. O melhor é deixar cada um compreender aquilo que for capaz de compreender e não pensar mais nisso, deixar a coisa passar e fazer outro desenho. É sempre assim, após realizar um desenho começo a pensar no seguinte. 

É como um rio de imagens que nasce algures dentro da minha cabeça e corre por mim abaixo até me encontrar as pontas dos dedos e as canetas, os pincéis, os pastéis, os lápis, os tubos de cola, as tesouras, as superfícies de suporte. Aquilo vai tudo de enxurrada! Plof, catrapumbas, slooooosh... as imagens ganham forma e têm sempre um título.

Forma e conteúdo, técnica e narrativa. Esta magia é maravilhosa. O que está ali, naquele papel, naquela imagem? Tantas coisas, tantos mundos, tantas histórias diferentes. Esta magia é maravilhosa...


terça-feira, setembro 07, 2021

Mais um dia no reino da tua cabeça

O dia hesita em começar apesar de trazer a minha cabeça ligada há já uma hora, um pouco mais ou menos. Arrasto-me para aqui, empilho meia-dúzia de livros, deslizo para ali, enfio uns desenhos numa pasta e fecho a caixa de lata dos pastéis de óleo. Sento-me em frente ao computador e vou escrevendo isto. O dia já começa a deitar a cabecita de fora mas continua receoso de mostrar o corpo inteiro. 

Não espero nada de especial deste dia. Imagino que ele tenha o mesmo sentimento em relação a mim. Sinto-me estúpido quando digo que "é um dia igual aos outros" porque um dia nunca é igual a nenhum outro. Os dias são sempre diferentes, talvez os haja parecidos mas iguais? Isso nunca. 

Será por isso que muitos de nós se predispõem a vivê-los, um dia atrás do outro, na esperança que aconteça algo de surpreendente, algo inspirador, algo que faça sentido ou que confira algum sentido ao facto de estarmos vivos. Arrastamo-nos para aqui e trocamos dois dedos de conversa com o vizinho de baixo, deslizamos para ali e bebemos um cafézinho na esplanada, sentamo-nos em frente ao rio e ficamos uns momentos a fitar a linha do horizonte. Estas coisas acontecem.

sábado, setembro 04, 2021

Do sarcasmo

Por vezes sinto uma vontade descontrolada de ser ácido, sarcástico e usar as palavras como pequenas marretas nas cabeças de algumas pessoas que, por uma razão ou por outra, me foram desagradáveis. Sinto um ligeiro remorso mas sabe tão bem que não evito fazê-lo. De forma nenhuma!

E lá vem o problema: o facto de me ser aprazível zurzir tolices na paciência de outras pessoas dá-me esse direito? E se os outros me responderem à letra? É bem feito. E se me responderem fora do contexto com insultos directos e deselegantes? Já não me parece tão bem feito, mas acontece. O jogo do sarcasmo tem regras que se intuem mas que não estão ao alcance de qualquer macaco. Há demasiada gente com o sentido de humor de um armário de cozinha, gente que não é capaz de encaixar uma boca marada sem reagir atacando à bomba.

A meu ver precisamos de exercitar o sarcasmo com maior regularidade e outra paixão. Precisamos de ensiná-lo nas escolas, de veiculá-lo nos meios de comunicação social, precisamos de o estudar praticando-o. Estarei a ser sarcástico à medida que vou escrevendo este texto? Não sei e se soubesse também não te dizia.

 

segunda-feira, agosto 30, 2021

Questão fundamental

Já alguma vez sentiste uma vontade tremenda de acreditar em Deus mas, apesar da imensidão do teu desejo, não seres capaz? Tu a esforçares-te por acreditar e... nada! A quem poderás atribuir a culpa de tão rotundo falhanço? Se Deus existe decerto que a culpa é Dele.

Sim, eu sei, é como fazem os putos, nunca têm culpa de nada, estão sempre a procurar outro a quem possam atribuir responsabilidades. Mas se formos de facto filhos de Deus estaremos apenas a deixar correr o marfim, a sermos aquilo que somos. Já Ele, tenho as minhas dúvidas de que ande a cumprir as Suas obrigações enquanto Pai da Humanidade.

sábado, agosto 28, 2021

Ordem natural

Não sei se sou só eu, também sentes que o espaço à tua volta se contrai e tende a encerrar-te o corpo numa espécie de nuvem ansiosa? Ainda assim a coisa não parece muito grave. Há tanta gente à minha volta, tanto ruído (um vozear constante), os lugares específicos são rapidamente ocupados... e as férias ainda não acabaram, mas a coisa não parece muito grave. Parece apenas banal.

É como com a galinha e o ovo; o que nasceu primeiro, a banalidade ou o desconforto por ela provocado? Talvez os peixes se sintam oprimidos pela água, talvez os canários não se apercebam das grades da gaiola. Viver é apenas duvidar? A vida é uma dúvida em expansão, cada dia a torna maior e mais intrincada, cada dia a torna mais difícil de questionar e explicar (quem pretende explicar a vida?) até que... acaba. Parece ridículo, patético.

Mas porquê? Porquê ridículo, porquê patético? Uma galinha sem cabeça a correr de encontro às paredes sim, é ridículo. Um cão vestido com uma roupinha de cetim é patético. Uma pessoa a morrer sem ter compreendido quase nada do que lhe aconteceu ao longo da sua existência é apenas a ordem natural das coisas.

sexta-feira, agosto 27, 2021

Carrossel macabro

Perante o descalabro da situação no Afeganistão muitos analistas concluem que os valores civilizacionais não se impõem pela força. Mas que merda de conclusão. Quantas guerras inúteis foram necessárias para lá chegarem? 

Ao longo dos anos tenho escrito aqui, no 100 Cabeças, sobre várias guerras promovidas pelos EUA com a anuência dos "aliados" ocidentais. Todas essas guerras foram motivadas por cobiça, ganância ou, não sei se pior um pouco, motivadas por uma boçalidade a toda a prova, fruto de uma ignorância sobranceira que, entretanto, se foi tornando uma maneira de estar dos poderosos (com Trump a representar o seu ápice).

Acreditar que a invasão do Iraque se deveu a motivos relacionados com direito internacional é o mesmo que acreditar que os Descobrimentos foram levados a cabo por um impulso civilizacional. Não, apesar dos séculos que medeiam estes acontecimentos, ambas as aventuras tiveram motivações essencialmente económicas. As questões religiosas ou políticas surgem por acréscimo, resultando inevitáveis na sequência da agressão. São mundos diferentes que entram em rota de colisão e depois... logo se vê.

O que pretendemos nós, ocidentais, exportar para países tão diferentes dos nossos como o Iraque ou o Afeganistão? Levamos num bolso os Direitos Humanos e no outro resmas de contratos manhosos nas mais diversas áreas da actividade económica. Primeiro arrasamos e depois reconstruímos passando a factura aos derrotados que contratam as nossas empresas para levarem a cabo a tão ansiada reconstrução.

Apostamos neste carrossel macabro de morte, destruição e dinheiro. Tentamos tirar-lhes o seu Deus e substituí-lo pelo nosso: o dólar todo-poderoso. Por que razão obscura haveriam os povos de caírem alegremente nesta armadilha fajuta?

Parece estúpido (e é) que haja quem só agora conclua que, se calhar, andamos há séculos a fazer merda da grossa por esse mundo fora. Que o nosso modelo de sociedade e as nossas guerras contribuem para a degradação das condições de vida da Humanidade, que os nossos valores não vingam em todo o mundo, que nunca seremos capazes de viver num planeta onde todos os povos tenham uma perspectiva de vida unificada e justa, segundo os nossos parâmetros. Se nem sequer conseguimos isso dentro das nossas fronteiras...

terça-feira, agosto 24, 2021

Grande vitória!

Por momentos acreditei que tinha encontrado a resposta. Senti-me seguro, quase sábio. Poucos momentos durou esta magnífica sensação. Logo de seguida regressei à condição de ignorante, hesitando perante situações de aparente simplicidade. Situações que já antes vivi mil vezes geram em mim uma angústia significativa.

Será sempre assim? Algum dia terei a certeza de ter percebido alguma coisa? À medida que o tempo se vai aproximando do seu fim (quanto tempo me resta?) nada muda de substancial. Talvez seja um pouco mais observador do que era antes mas essa capacidade apenas contribui para compreender com maior acuidade a real dimensão da minha ignorância.

Talvez sinta menos ansiedade, talvez esta lenta aproximação na direcção da meta da minha existência proporcione menos desespero perante certas ocasiões. Espero que isto seja verdadeiro. Talvez não consigamos nunca mais do que isso: diminuir a ansiedade. Já não seria mau; a impossibilidade da sageza compensada por uma espécie de estupidez natural. Grande vitória!

quinta-feira, agosto 12, 2021

Perseguição sem fim

Somos como uma matilha de cães abandonados, cada um perseguindo a própria cauda. No conjunto formamos uma sociedade bem patusca, como se fôssemos uma equipa de natação sincronizada evoluindo fora de água e sem tema musical que nos oriente.

Nenhum de nós é capaz de desistir desta perseguição implacável.

quarta-feira, agosto 04, 2021

Um dia de férias

Amanhã será mais um dia de férias. Posso ocupar o tempo fazendo o que quiser. Decerto irei ler mais um pouco do livro de Julian Barnes que comecei ontem (ou terá sido anteontem?), "Nada a temer". Depois irei comprar o jornal e ler preguiçosamente as notícias. Quanto mais leio o jornal mais me convenço que a nossa luta enquanto espécie que pretende sobreviver (por enquanto ainda não desesperadamente) é contra a estupidez.

A estupidez é a mais arrasadora de todas as pandemias que alguma vez se alimentaram da Humanidade. Apesar de algumas vacinas interessantes os negacionistas levam sempre a melhor. 

1% prá Cultura, como diz o outro. Mas, lá está, é preciso ver quem é esse "outro". Proclamar amor pelas artes não é nenhum atestado de imunidade ao vírus da estupidez mais pura ou ao da estupidez mais simples. Estamos todos iludidos pelo espelho  e ficamo-nos pela coçadela dos tomates.

O que é bom nem sempre alivia (e vice-versa).

Ah. já me esquecia, estava eu a falar do que imagino que irei fazer amanhã. Após a literatura irei decerto desenhar um bocado, ver umas cenas dos Jogos Olímpicos, desenhar um bocado, ler um pouco, ver umas cenas dos Jogos Olímpicos e, finalmente, desenhar um bocado.

Se tudo correr bem o tempo há-de passar e eu chegarei vivo ao fim de mais um dia.

segunda-feira, agosto 02, 2021

Coisas da criação

O que pode desejar alguém que não existe? Comidinha? Música para os seus hipotéticos ouvidos? Uma caminhada na praia debaixo de um sol que não seja demasiado castigador... se não existe pode desejar alguma coisa? Alguma coisa que seja sua?

O que pode desejar uma personagem que não seja desejo do seu criador? Pode alguém que é inventado inventar algo? Pode o inventor cortar o cordel umbilical sem que a sua personagem morra ali, de imediato, fulminada por um raio que a parta? Até que ponto criador e personagem são uma e a mesma coisa? Até que ponto são coisas diferentes?

Tantas perguntas que talvez não mereçam resposta. E haveria muitas mais.

quinta-feira, julho 29, 2021

Vai um drink

Certas obras de arte parecem-me enormes bibelots. Instaladas nas galeria como se a galeria fosse a casa da tia, aquela tia que tem gostos requintados. E nós, pobres coitados, visitamos a tia com o arzinho enfiado de quem, não se sentindo à vontade, ainda assim, é capaz de devolver um sorriso.

A Senhora Curadora, uma espécie de governanta carrancuda, convencida de que se não fosse o azar aliado à cor errada bem podia ser ministra da cultura, a Senhora Curadora avança num passo decidido, sabendo que o seu é o papel principal.

O artista, enfiado, promovido a decorador de interiores, frequentou uns workshops de arquitectura paisagística que lhe valeram de tanto ou um pouco mais que nada. Lá está ele a dar conversa a um grupo de senhoras que não têm mais que fazer que não seja parecerem interessantes e interessadas .

Tudo beautiful people, hirtos na pose, gestos afectados, não vão desequilibrar os macaquinhos que lhes mantêm limpo o sótão quando inclinam as cabecinhas no gesto de emborcar o drink de fim de tarde. 

- Champagne?

- Obrigado.


sexta-feira, julho 23, 2021

No fim do dia

Os mais ricos de entre os ricos encontraram uma nova forma de exibirem ao mundo a sua riqueza pornográfica, atiram-se para o alto em busca da ausência de gravidade. Há quem diga que estão a conquistar o espaço e mostram-nos aqueles seres vivos no interior de naves com formas estranhas, aos guinchos, divertidos como peixes-palhaço a boiarem num aquário. Mostram-nos aquilo como se fosse algo extraordinário, coisa digna de serviço noticioso. Não me parece que seja assim tão digno de nota.

Mas, justiça seja feita, no mesmo serviço noticioso podem mostrar-nos os mais pobres e miseráveis, sofrendo das mais variadas maneiras, pairando no vácuo da indigência absoluta. O espectáculo está nos extremos: o branco e o preto, o mau e o bom, o podre de rico e o miserável, o adorável e o desprezível. E nós, agarrados ao garfo e à faca, vamos comendo, comendo, comemos tudo, como bons meninos, cidadãos exemplares, satisfeitos porque, pelo menos, não passamos aquela fome de cão que vemos estampada nos olhares perplexos de crianças-esqueleto, espantadas por ser aquilo que Deus lhes reservou à guisa de vida.

A verdade é que, com maior ou menor dificuldade, no fim do dia acabamos todos a cagar aquilo que comemos.

quarta-feira, julho 21, 2021

Muros

Até o Jardim do Éden era limitado por um muro em toda a volta. O muro separa o espaço e constitui obstáculo  para quem seja bípede baixote. A esmagadora maioria dos quadrúpedes também marra nos muros que se lixa. Os passarinhos volteiam alegremente sobre eles, um gigante dá-lhes um piparote ou levanta simplesmente a perna e continua a andar. Mas nós, pequenos seres inquietos e nervosos, sempre receosos de não termos nada para enfiar no bandulho, nós ficamos de um dos lados do muro a imaginar o que haverá do outro lado.

Como em princípio és um bípede baixote, tal qual eu, caro leitor, sabes bem do que falo. Sabes bem o que é um muro intransponível que nos deixa a imaginar o que estará do outro lado ou nos conforta a alma por sabermos que dali não virá tão depressa bípede como nós que nos surpreenda e faça algum mal.

Um muro é um sentimento ambíguo.

terça-feira, julho 20, 2021

Pensamento circular

As coisas são o que são e são mesmo assim. 

Para banalidade absoluta, a frase anterior não ficou nada mal. Não sei bem porque a escrevi se a minha intenção era (e continua a ser) falar um nadinha sobre Julian Barnes. Quero dizer, falar um pouco sobre o nada que sei acerca da obra, muito menos sobre o escritor.

Bom, o que se passa é que li num suplemento de Domingo passagens de uma entrevista com Julian Barnes e algo se me acendeu no espírito dando-me uma certa vontade de ler qualquer coisa da sua autoria. O meu irmão emprestou-me "O Ruído do Tempo" que li de forma excepcionalmente rápida (já aqui escrevi várias vezes que sou um leitor lentíssimo). Logo lhe perguntei se tinha mais livros de Barnes e estou agora a derreter "Os Níveis da Vida". Ainda tenho ali outro romance à minha espera mas já não me recordo do título.

Tenho aqui um autor para ir lendo até lhe esgotar as páginas.

Voltando à frase inicial quero apenas fazer uma pergunta e uma afirmação. Pergunto: como foi possível eu ter ignorado a existência de tão genial autor durante tanto tempo? Afirmo: as coisas são como são e são mesmo assim.

quinta-feira, julho 15, 2021

Um aperitivo

- Se ganhasses o euromilhões amanhã o que é que fazias? Hã, diz lá o que é que fazias? 

Eram três amigos encostados ao balcão, bebendo uns aperitivozinhos, nitidamente felizes, apesar das máscaras entaladas entre as orelhas e os queixos. A pergunta soou a exame, prova oral do Ensino Básico. O amigo que a lançou fazia da qualidade da resposta prova de inteligência. Era coisa sobre a qual convinha pensar; ele próprio tinha alinhavada uma estratégia capaz de espantar o mais arguto dos capitalistas mas, para já, não iria revelá-la a ninguém. Era o seu pequeno tesouro.

O outro amigo vacilou, bebericou o "martini" e respondeu qualquer coisa numa vozinha tão débil que me foi impossível perceber o que disse. Rebentaram os três numa gargalhada tão forte e genuína que parecia ter estalado uma tempestade na sala. Só faltou que chovesse felicidade.

segunda-feira, julho 12, 2021

Desenho

Ser artista não é coisa evidente. Podem dizer-to e tu sem seres capaz de acreditar. Podes pensá-lo e os outros sem se aperceberem do que te vai na alma. Isto porque aqueles que se proclamam artistas aos sete ventos costumam ser olhados de soslaio: tanta publicidade deve ter uma base enganosa. O povo desconfia muito.

Se és de origem popular, então também desconfias. Muito. Eu sou do povo e não tenho grande confiança na minha cabeça quando ela pensa e me segreda ao coração: "és um artista". Pois, já me tinhas dito. Eu quero acreditar, mas desconfio.

Este problema é aparentemente insolúvel. Não há fórmula química nem operação matemática que forneça resposta satisfatória. Não há tratado nem obra publicada que esclareça a questão ou ofereça solução viável. Como resolver tamanho pequeno mistério? Como tentar encontrar uma pista que me leve para fora do labirinto de dúvidas que me aprisiona?

Bom, só tenho encontrado uma forma de tentar resolver esta coisa. Desenho.

sexta-feira, julho 09, 2021

Ser necessário

A sensação de sermos úteis pode ser fonte de renovada esperança na existência que levamos. O tempo vai passando, é sabido que não rejuvenescemos. Se com o passar do tempo vamos perdendo importância, se vamos sendo roídos pela dúvida: "mas que raio de merda faço eu aqui?" corremos sérios riscos de nos afundarmos em lamacenta melancolia.

Quando a esperança começa a ganhar cabelos brancos provocados pela angustiosa dúvida, a confiança no sentido da vida que imaginamos ter enrola-se toda e procura uma toca funda onde possa esconder-se. É um processo perigoso, o nascimento da desconfiança.

Eis senão quando, de forma mais ou menos inesperada, nos dizem que somos a solução desejada, uma espécie de herói aguardado para salvar o dia! Caramba, os pés ficam-nos leves e nós dançamos.

quarta-feira, julho 07, 2021

Ser chefe

A culpa é atributo de gente subalterna. Nunca um chefe ou um dirigente são culpados de seja o que for, muito pelo contrário: os que mandam são responsáveis apenas pelo sucesso, quando as coisas correm bem. É por isso mesmo que são chefes; recolhem os louros, distribuem o opróbrio.

segunda-feira, julho 05, 2021

Omnipresença

Há um quase silêncio na sala. Apurando o ouvido consigo detectar os automóveis que passam no alcatrão molhado ou aquilo que me parece um televisor, algures, encalhado no betão. Ignorando isso, silêncio absoluto, na medida em que podemos aspirar ao silêncio estando numa cidade sobrepovoada, sobrepoluída e, acima de tudo, esquecida pelos deuses.

Isto é o mais próximo do silêncio absoluto que  Harpócrates nos pode oferecer ou proporcionar. Perante o ruído latente, o deus coloca o indicador da mão direita sobre os lábios. Pudéssemos nós satisfazer o seu pedido, obedecer à sua ordem! 

Muito me incomoda o ruído artificial capaz de irromper na paisagem com a força de uma tempestade. Um avião de combate voando a baixa altitude é como se rasgasse um céu feito de papel imenso. Um funcionário da câmara municipal espantando as folhas caídas com o seu aspirador-ao-contrário é como se fosse um demónio a castigar os viciados na beleza sonora.

Penso no ruído como sendo, ele próprio, uma divindade moderna ou contemporânea. Os antigos, que criaram deuses aos pontapés, não foram capazes de imaginar um que protegesse o ruído? Não quiseram fazê-lo? Deve o ruído ser objecto de veneração? Seja como for, tendo ou não alteres em sua honra, o ruído é das coisas que mais se aproximam da suposta omnipresença divina. Nas cidades é mais que rei, maior que imperador, nas cidades o ruído é deus!

sexta-feira, julho 02, 2021

Conversa da treta

Nada a fazer, nada a fazer... quando a coisa é mal feita (maus actores, maus técnicos, pior realizador) não há nada a fazer. Resta-nos rezar, resta-nos desejar, resta-nos muito pouco que nos livre da desgraça que se adivinha. O filme não se aguenta.

Damos por nós a pensar "mas que raio, porque carga de água se faz uma merda destas?" e não percebemos muito bem porque carga de água se faz uma merda daquelas. E não é caso tão raro quanto seria de esperar. Os maus filmes são às centenas, são aos milhares! 

A proliferação de filmes horrendos é um dos maiores mistérios da natureza.

quarta-feira, junho 30, 2021

João Capelo Gaivota*

Ele quis ser mar, ter ondas sobre os ossos, cardumes inteiros na barriga, Poseidon sentado num trono feito no seu cérebro. 

Antes sonhara ser continente perdido, secreta Atlântida ou apenas uma ilha no meio do Mediterrâneo, uma ilha agachada dentro de um labirinto impossível de resolver por seres vivos, acessível apenas aos maiores de entre os deuses.

Ele desejara ser tantas coisas, tantos sonhos, lendas, poemas, romances, ele desejara ser... agora jazia ali, caído na dureza da rocha onde o seu corpo viera embater com violência. Tinha as asas partidas, o bico abria e fechava como uma porta sacudida pelo vento. Sentiu a vida por um último instante. Deixou de sonhar. 

* Não confundir com o Tristão.

sábado, junho 26, 2021

Veludo, lâminas e fantasmas

Visitar o passado faz-me sentir veludo na alma, quando são boas as recordações.

Saem-me lâminas do cérebro quando são más.

Rastejam fantasmas se as memórias não ganham nitidez.

Veludo, lâminas e fantasmas, eis o que trago dentro de mim.

quarta-feira, junho 16, 2021

Ser branco

Tenho um livrinho aberto nas mãos. É a "História Universal da Infâmia", essa barroca sucessão de narrativas pela voz imensamente literária de Borges, o escritor infinito. 

Olho a minha mão, o meu polegar. Olho o meu braço: qual a cor da minha pele? Tento encontrar palavras capazes de explicar aquilo que os meus olhos vêem. A cor e o tom são indefinidos, não descubro uma expressão adequada. Qual a minha cor?

De uma coisa tenho eu certeza absoluta: não sou branco! Brancas são as páginas do meu livro.

terça-feira, junho 15, 2021

Se bem me lembro

 

Tenho seguido com alguma curiosidade a polémica (no jornal Público) entre João Miguel Tavares e Pacheco Pereira a propósito da intervenção de Nuno Palma na convenção do MEL. O debate, que se desejava, vai-se transformando em discussão acalorada, que se dispensava. Nuno Palma também não se fica e vão sendo trocados epítetos vagamente coloridos, arremessados de um lado para o outro com mais violência do que pontaria. 

 Se bem compreendi o problema foi Palma ter afirmado que o Estado Novo combateu o analfabetismo lusitano com maior eficácia que a 1ª República e que convergiu com a Europa em PIB per capita de forma mais eficaz que em grande parte do regime democrático. Estas afirmações serão sustentadas por números e percentagens. Eu vivi a “primavera marcelista” bem como os últimos anos do inverno que a precedeu. E tenho algumas memórias: da ausência de saneamento básico, dos pés descalços, das caras sujas, dos putos que bebiam bagaço para aquecer e depois não conseguiam aprender grande coisa na escola, de uma sardinha ser refeição para três, tenho memória do machismo alcoólico, das estradas miseráveis que desembocavam invariavelmente em povoações de aspecto lúgubre habitadas por mulheres vestidas de negro que tinham os filhos na guerra, das ruas de terra batida com galinhas deixadas à solta e caganitas de ovelhas; tenho muitas memórias e, entre elas, uma sensação de felicidade infantil. 

Até à Revolução não me lembro de alguma vez ter ouvido a palavra “comunista”, lembro-me de chamar “cabeça de abóbora” ao Presidente da República (em voz baixa e por entre risinhos), lembro-me do respeito absoluto devido à inquestionável Santa Madre Igreja. Lembro-me das loas a Salazar e da história do Macaco do Rabo Cortado nos livros de leitura que traziam também a impressionante narrativa do aio Egas Moniz com a corda ao pescoço. 

Lembro-me de um país pobre, habitado por gente maioritariamente miserável que, mal pôde, emigrou em massa para as “franças” em condições ditadas pelo mais profundo desespero. Todas estas recordações me fazem pensar que, das duas uma, ou a Europa com a qual convergimos nesses tempos era igualmente miserável ou então o PIB teria, em certos e determinados países, destinos diferentes daqueles que o Estado Novo lhes dava. Quanto à questão da alfabetização não me custa nada admitir que o Estado Novo tenha feito muito melhor trabalho que a 1ª República, mas não tenho memórias que me ajudem a pensar no assunto. 

Ainda assim penso poder afirmar que, nesse aspecto particular, o regime Democrático tem sido muitíssimo mais eficaz do que foi o salazarismo. Estou em crer que, se trabalharmos com memórias vívidas, não há comparação possível entre o Estado Novo e o regime actual mas caso reduzamos a memória à frieza dos números talvez possa haver formas de desencantar alguma virtude à Outra Senhora.

 

carta enviada ao director do Público

quarta-feira, junho 09, 2021

Macacada

Muita gente fala e avisa que estamos a caminhar em direcção a um abismo de incompreensão entre a esquerda e a direita, que estamos com conversas cada vez mais de surdos e extremadas, muita gente fala e avisa mas parece que ninguém ouve ou dá grande importância à questão. A situação faz-me recordar (ou terei imaginado?) gritaria generalizada na aldeia dos macacos e agressões cruzadas com pedaços de merda arremessados em direcção ao oponente. Vejo merda a voar em todas as direcções. Baixo a cabeça e tento encontrar uma nesga por onde me possa escapulir deixando para trás este merdançal insuportável.

O palco mediático é alegremente entregue aos macacos mais agressivos, aos mais capazes de enterrarem as patitas na merda, aos que não hesitam em guinchar como porcos a serem capados: é deles a ribalta! A sociedade, de um modo geral, gosta de sangue e ama o sofrimento alheio. O discurso institucional está longe de admitir esta ânsia de dor mas todos compreendemos que o que a boca diz é negado pelo cérebro. 

Isto parece muito o cortejo fúnebre das democracias ocidentais.

segunda-feira, junho 07, 2021

TINA que os pariu!

Tenho a sensação de que já utilizei este título num post anterior do 100 Cabeças. Se não foi título foi tema, se não foi tema foi frase.

Vem isto a propósito da vontade manifestada pelos principais dirigentes políticos dos países do G7 em taxar os lucros das grandes multinacionais arranjando forma de lhes secar a artimanha de fugirem com o rabo à seringa indo pagar impostos para paraísos fiscais que os não cobram (!?). Esta minha explicação é um bocado tola pois não compreendo muito bem como funciona a coisa. O que eu percebo é que os poderosos estão a tentar encontrar forma de domarem um pouco a besta selvática do capitalismo.

Decerto são dirigentes muito poderosos que não dependem directamente das tetas das grandes multinacionais para saciarem a suas necessidades de consolo. Vai daí puxam-lhes as calças para baixo e ameaçam-lhes os lucros, que poderão baixar de escandalosamente pornográficos para apenas estupidamente insultuosos.

Para os defensores da ideia da TINA (There Is No Alternative) económica isto é um atestado de menoridade intelectual. Andam há anos a convencer o pagode de que não há alternativa, que os capitalistas são como as enguias e não se deixam apanhar, escapulindo-se ao menor sinal da alarme. No lado oposto muitos se recusaram a aceitar a TINA como uma fatalidade do destino. Aqui está a prova de que até mesmo os capitalistas mais viscosos e arredios acabam por ser apanhados, assim haja vontade política.

O que não estava propriamente no programa era que o método prescrito para caçar enguias no lodo da alta finança fosse criação do próprio sistema capitalista. Ou, por outro lado, o facto de ser o sistema capitalista a inventar uma forma de se travar a si próprio revela a dimensão inimaginável da roubalheira que vem sendo perpetrada há várias décadas debaixo dos nossos narizes.

Termino com toda a convicção: vão prá TINA que vos pariu!

sexta-feira, junho 04, 2021

Ser solidário

É tudo uma questão de olhar o sol a direito ou esperar pela noite para depois abrir os olhos. Entretanto muitos de nós esquecem-se de reparar nos outros, muitos não reparam, sequer, em si próprios. Ofuscados pela ilusão que é estarmos vivos, não damos o devido valor à aproximação da morte.

Procuramos uma posição confortável que nos permita ultrapassar cada dia sem grande sofrimento, de preferência sem sofrimento nenhum. A solidariedade é uma coisa complicada pois poderá perturbar o equilíbrio necessário à ausência de dor e aborrecimento. 

Ser solidário obriga a olhar o sol a direito. Muitos de nós não suportam tanta luz e refugiam-se na escuridão da ignorância. Optamos por um mundo sem luz, tornamo-nos adeptos das trevas.


domingo, maio 30, 2021

Egoísta

A vulgaridade absoluta dos dias que passam é assustadora. A sujidade incomoda, a artificialidade do discurso engarrafa-me o juízo. Não posso deixar de imaginar uma vaca imensa a pastar as cabeças dos congressistas e a mastigá-las naquele movimento característico das vacas que mastigam. Entretanto um raio de sol tenta incomodar a noite que se alegra no silêncio das ruas abandonadas. Como poderia tal coisa acontecer? O sol não sai à noite. A mãe não deixa nem o pai dá permissão. 

Escrever coisas sem sentido não me parece particularmente difícil. Registar ideias concretas de forma inteligível, isso sim, parece-me coisa complicada.

Na verdade não tenho nada a dizer. Fico com a sensação de que estou a roubar o teu tempo por não saber bem o que fazer com o meu, que este é um texto egoísta.

sábado, maio 29, 2021

Milhões

O Governo verte milhões de euros sobre o buraco disto, investe outros tantos no programa daquilo, a União Europeia disponibiliza milhões de euros para apostar na recuperação económica; milhões, milhões, milhões de euros para levantar a Humanidade da cova onde se vai enterrando. 

Lemos as notícias e, sem que nos apercebamos muito bem, sentimos um pequeno alívio: com tantos milhões vai ficar tudo bem ou, pelo menos, as coisas vão melhorar. É domínio do científico, próximo do matemático.

Esquecemos que deitar milhões de euros sobre os problemas, por si só, não os resolve. Os milhões precisam de planos que os canalizem de modo a não irem para o ralo do desperdício. Aí é que a porca torce o rabo ao ponto de ficar um saca-rolhas.

Milhões, milhões, milhões... o problema não será tanto a quantidade de dinheiro a investir mas sim a qualidade do investimento a realizar.

segunda-feira, maio 24, 2021

Sorriso amarelo

As redes sociais têm muitas coisas estúpidas. Parece-me até que têm mais coisas estúpidas do que o contrário. Basta abrir as caixas de comentários a qualquer notícia de jornal por pacífica que nos possa parecer para depararmos com um relambório de insultos e afirmações malcheirosas. As nossas caixas de email são autênticos vazadouros do lixo mais variado. Isto de andar na NET está cada vez mais penoso.

Mas, no meio de toda esta porcaria, há um fenómeno que me intriga: as piadinhas. De súbito, perante um teclado e um ecrã de computador, todos nós nos tornamos potenciais criadores de conteúdos cómicos. Eu próprio já me apanhei em flagrante, muito mais que uma vez, a escrever parvoíces imensas que, depois de ler e reler, me deixam perplexo perante a minha extraordinária cabotinice. Que porra! Fui eu quem escreveu aquilo!?

Quando me apercebo a tempo de ter sido estúpido, apago a patacoada e pronto, caso resolvido. O pior será quando não me enxergo a tempo de pôr o dedo na ferida e a coisa passa, incólume e imbecil, mundo adentro com a minha assinatura a enfeitar o cócó.

Infelizmente a estupidez não é um exclusivo da minha pessoa. 

Quando vejo amigos caindo na esparrela da piadola, dizendo parvoíces do tamanho da autocarros, fico triste. Não tenho coragem de lhes dizer "essa merda não tem piada nenhuma", calo-me bem calado e finjo que acaba ali o problema. Mas não, eu sei que não. O problema não acaba nunca. Antes se eterniza na amarelice dos sorrisos.

segunda-feira, maio 10, 2021

Noite

Não sei bem a cor dos candeeiros. Parecem-me cor de luz. Que coisa mais parva de se dizer! Envoltos pela escuridão da noite sem lua e sem estrelas os candeeiros ganham aquela tonalidade triste, iluminam sem alegria o ladrar dos cães e o ruído dos carros que passam, invisíveis, na auto-estrada. Depois há estes momentos de quase silêncio. Mas não, a ausência de ruído é uma impossibilidade. Um motor que arranca lá por detrás daquele prédio, o marulhar dos carros na auto-estrada, o som da velocidade combina com a cor dos candeeiros.

A noite não descansa.

sábado, maio 01, 2021

Vago

Tenho andado meio perdido. Quero dizer, perdido... perdido, não será bem a melhor forma de me referir ao que se tem vindo a passar comigo nos tempos mais recentes. Sei bem onde estou: não estou em lugar nenhum. Portanto estou longe de estar perdido.

Mesmo o acto de escrever estas palavras me parece algo estrambótico, como se entre mim e o teclado houvesse mais do que espaço, houvesse tempo; mas um tempo estranhamente elástico, um tempo maior do que o mostrador do relógio é capaz de nos fazer compreender. Um tempo que me alonga os dedos e faz das minhas mãos aranhiços  dançantes, aranhiços bêbados, impacientes. 

Talvez isto não faça sentido. Parecem-me apenas palavras, um pouco perdidas umas das outras. Palavras que formam ideias, ideias que chovem como se chovessem sapos.

Este texto é um daqueles que não têm princípio, nem meio, nem fim, embora possa parecer que tem essas coisas todas. Não tem. Entrei nele como aqueles vagabundos dos filmes, cuja acção se desenrola numa América triste e depressiva, que saltam para vagões abertos de comboios em andamento. E seguem viagem com o sol a pôr-se e uma tristeza grande a misturar-se com a esperança em dias melhores. As coisas boas parecem estar sempre no futuro.

E é isto. Perdido na América do meu descontentamento, viajando neste comboio de palavras, imaginando ser alguém que talvez não seja eu... perdido... perdido, não será bem a melhor forma de me referir ao que tem sido a minha vida. A verdade é que o futuro é sempre um pouco mais adiante.

sábado, abril 17, 2021

Rotina quebrada

O mundo virado de pernas para o ar é uma coisa confusa de ser vista. Se porventura já duvidávamos do lugar ocupado pelo nosso corpo em cima do planeta, alterar hábitos e distrair costumes faz dos dias máquinas de lavar minutos, cada hora uma centrifugadora da alma. Nunca gostei de lançar as ideias na vertigem da montanha russa: abrir os olhos aterroriza, fechá-los agonia; os sentidos sempre a tremerem. Para um burguês acomodado, como eu sou, a alteração das rotinas é um purgante que se toma apenas como último recurso.

É assim que se alinham os dias próximos que haverei de viver. Obras em casa, mudança para habitação emprestada, sem os meus livros nem o meu atelier, sem os meus papéis, os meus pincéis, os meus pastéis nem as minhas canetas, sem os meus lápis nem as minhas telas. As coisas que temos por nossas fazem-nos falta mesmo que as não utilizemos todos os santos dias? Até que ponto nos tornamos escravos daquilo que possuímos? São os objectos que me pertencem ou acontecerá o contrário?

Lá se enfileira mais uma coluna de perguntas de merda, como se fossem soldados a marchar entediados para combaterem na minha patética guerra contra o mundo. A verdade é que faço esta luta sozinho, esta guerra que declarei por mero fastio.

segunda-feira, abril 12, 2021

Incompatibilidade

A realidade e a ficção serão da mesma família? Imaginando que sejam, podemos especular o que aconteceria caso se encontrassem num jantar de Natal. Ou nas celebrações pascais. Ou, então, caso se encontrassem por ocasião dos festejos do 25 de Abril. Imaginemos uma dessas ocasiões em que não podemos virar o trombil a um familiar, por muito asco que ele nos provoque, independentemente do facto de termos fundadas razões para fingir que o vemos (ou não), que é transparente ou que o nosso olhar é opaco como o olhar de um calhau.

A verdade é que construímos narrativas mais ou menos complexas. Atribuímos a nós próprios um papel nessa historieta que descuidadamente engendramos e é a partir dessa ficção que imaginamos quem somos, o que fazemos, de onde vimos e, com um bocado de sorte, imaginamos para onde vamos.

Certo é o fim. O buraco na terra, o caixão, a cessação dos sentidos; a isso ninguém foge embora tendamos a acreditar em narrativas que nos prolongam a existência para lá deste mundo mesquinho e merdoso ao qual, com este corpinho, não temos por onde fugir. Somos seres fugitivos enfiados numa gaiola. A morte a todos acaba por abocanhar.

Voltando ao primeiro parágrafo: realidade e ficção encontram-se à mesma mesa. Uma come a sopa, a outra não. Uma senta-se a outra fica de pé. Uma abre os olhos sempre que a outra os fecha e sorri sempre que adivinha uma expressão carrancuda.

Admito que realidade e ficção sejam da mesma família mas, estou convicto, não jogam o mesmo jogo nem que alguém as queira obrigar a fazê-lo.

terça-feira, abril 06, 2021

Apesar das máscaras

É a Primavera! Um passinho em direcção ao renascimento social. O início do desconfinamento chega com o sol e as cadeiras nascem nos passeios como flores, como ervas, brotam da calçada e são ocupadas por pessoas que parecem passarinhos. É a Primavera, tempo de renascimentos, é a Páscoa, tempo de ressurreições, é a sociedade a reaprender ser lugar de convívio entre pessoas.

Apesar das máscaras.