quinta-feira, outubro 17, 2019

Comunistas? Fascistas?

Podemos nós olhar para Kim Jong-un, o príncipe coreano,  montado no seu cavalo branco, rodeado por neves místicas e ver nele um comunista? 

Podemos nós olhar para a China de Xi Jinping e ver um país comunista?

Porque ficam tão indignados os militantes do Partido Comunista Português sempre que alguém põe em dúvida a bondade de Vladimir Putin, esse ser que resulta do cruzamento entre um czar e um ogre? 

E Maduro, lá na sua gaiola dourada venezuelana, a esbracejar desesperado, governando ao sabor de paixões pessoais, a sobreviver muito mais do que a deixar viver? É ele o rosto da utopia comunista?

São todos personagens tão diferentes, com orientações políticas tão personalizadas e patrióticas que, a meu ver, nada os une. Vejo-os tão semelhantes uns aos outros como vejo Trump e Bolsonaro semelhantes a Órban e a Kaczinsky. Vejo homenzinhos perdidos nos seus labirintos individuais. 

Não vejo comunistas, nem fascistas, vejo apenas gente que não compreende os outros, gente que não ama, muito menos é amada, gente que imagina a sua loucura como sendo a expressão máxima do Ser Humano. 

Vejo neles escumalha, ausência de expressão do Ser Humano.

terça-feira, outubro 15, 2019

Memória de passarinho

Afiar as navalhas pareceu-lhe uma boa ideia. Abriu a gaveta e percebeu que já lá não estavam. Lembrou-se que tinha mudado as navalhas de lugar mas não conseguiu recordar o novo poiso. Caramba, e agora? Olhou pela janela. As nuvens cinzentas iam avançando lentamente na direcção do horizonte. Onde estavam as navalhas!? Um cão ladrou lá fora (ou teria sido uma gaivota?) e ele, sem as suas queridas navalhas por perto, sentiu-se triste, um pouco desamparado. As nuvens estavam cada vez mais longe, pareciam puxar lentamente o cobertor da noite que vinha para cobrir a cidade. Os candeeiros da rua ligaram-se. Pensando bem as navalhas não lhe faziam falta. Pelo menos por enquanto.

domingo, outubro 13, 2019

Dúvida

Pode um cristão ser cristão sem acreditar em Deus?
É complicado mas vale a pena tentar.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Sonho de uma manhã de Outono

Será possível a um país sobreviver no mundo globalizado sem obedecer de forma canina às (pouco) subtis orientações economicistas que orientam  a generalidade das opções políticas e sociais tomadas pelos vários governos? Será possível organizar as nossas vidas tendo como foco central o ser-se humano? Talvez...

Não será fácil pensar nas pessoas e no meio ambiente antes de pensarmos no consumo ou pensarmos no consumo em função das pessoas e do meio ambiente. A relação directa entre consumismo e riqueza monetária é o cancro que corrói as nossas vidas e faz um inferno do espaço que habitamos. Temos uma tendência doentia para valorizarmos o enriquecimento sem olharmos às consequências por ele potenciadas.

Segundo o senso comum instalado é melhor possuir do que ser, impingem-nos essa perspectiva a toda a hora e nós acreditamos porque, quando funcionamos em manada, somos estúpidos. Se cada um de nós parar para pensar um pouco sobre aquilo que está a fazer, se cada um de nós compreender a compulsão que o impele a ser um destruidor e não um construtor, decerto ficará apreensivo com as conclusões a que chegou. Agarremos essa apreensão e façamos com ela uma ideia nova.

Uma ideia nova é algo completamente diferente.


sexta-feira, outubro 04, 2019

A sombra

"Já nem sequer me assusto" disse ele para o botão das calças, o único que lhe restava capaz de ter uma conversa, "sinto-o aqui atrás, parece-me estar mesmo sobre o meu ombro, mas já nem sequer me assusto". Continuou concentrado no jornal sem registar com grande rigor a informação que ia ingerindo juntamente com o ar que respirava misturado num café amargo como a vida.

domingo, setembro 29, 2019

Dada

Disse um Dada: todos os dias acumulo cá dentro uma coisa selvagem que transformo em sossego, uma pulsão de morte que transmuto em sentido de vida. Por estranho que possa parecer acredito ser amor, essa coisa que surge do que fica dentro de mim.

Respondeu-lhe um Outro: se encontras um sentido para aquilo que constróis é porque viver consiste, quase sempre, na necessidade que tens de distrair a morte. Digo "quase sempre" porque no fim será a morte que encontras.

Concluiu o primeiro Dada: vou beber um café sem açúcar.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

terça-feira, setembro 24, 2019

Melancolia (esboço)

Por vezes não sei se sinto raiva se compaixão. É uma pressão que se me instala entre o peito e o estômago e ali fica, a pressionar-me os sentimentos ou lá o que é. Após uns momentos de pressão a coisa começa a transformar-se em angústia. Inspiro, sustenho a respiração, tento expelir aquela sensação através dos poros, pelas narinas, pelos ouvidos, nem sei que faço!

Quando nos sentimos encurralados reagimos por instinto, as nossas acções fazem um certo sentido que, naquele momento, nos escapa. Debatemo-nos.

Se porventura consigo expulsar de dentro de mim aquele feto de demónio (surgiu-me agora mesmo essa imagem, aquela pressão ser provocada por um ser maligno que começa a crescer cá dentro, tipo o Alien do filme de Ridley Scott), se consigo expulsá-lo (até hoje sempre consegui) fico melancólico.

A melancolia provém do facto de perceber que os demónios existem e vivem dentro de nós. Embora vá conseguindo vencê-los percebo facilmente que muitos de nós sucumbem à angústia e aceitam que a bestiola se instale, alimentam-na e deixam-na crescer. Nestes casos é frequente que o demónio acabe por substituir a pessoa e lhe substitua a alma por um espírito maligno.

Quando o demónio é muito poderoso e ambicioso transforma-se numa pessoa poderosa e ambiciosa, um gestor de empresas, um explorador de seres humanos. Quando ascendem a lugares de chefia tornam-se capazes de semear a angústia nos corações de centenas, de milhares, de milhões de pessoas, proporcionando um ambiente favorável ao surgimento de centenas, de milhares, de milhões de demónios.

Ao contrário do que muita gente acredita os demónios nem sempre são agressivos como os pintam. Cada demónio tem a sua personalidade própria. Quando o demónio é fracote e cobardolas transforma a pessoa numa verdadeira filha da puta. Este é o demónio mais comum.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Se Midas cagasse...

... transformava todas as sanitas do mundo em objectos de ouro, tal qual a sanita engendrada pelo Maurizio Catellan que foi roubada aqui há uns dias de um palácio inglês onde havia sido montada para exposição. Midas não podia tocar em nada que não endurecesse e ficasse brilhante e consistente como é apanágio do ouro. Não consta que o toque de Midas fosse exclusivo da ponta dos seus dedos, daí que quase tivesse morrido à fome (nem quero pensar no que seria cagar ou mijar para este  imbecil absoluto).

Mas isso é outra história, a sanita de Catellan, cuja instalação toma o nome de América, possui o fascínio que sempre acompanha todo o objecto que luz e é de oiro fino. Objectos brilhantes atraem os corvos, objectos de ouro atraem gente a dar para o abutre ou para a hiena, pobres animais incompreendidos porque necrófagos. Estes objectos correm o risco de serem roubados.

América tem algumas vantagens em relação a A Fonte, de Duchamp, desde logo porque uma sanita é, em potência, mais polivalente do que um urinol. Outra razão de peso é a da matéria prima: de um lado ouro, do outro loiça industrial. O valor material dos objectos é nitidamente desequilibrado. Já quanto a um suposto valor artístico a coisa pia mais fino.

Chegamos aqui ao pormenor curioso, diria mesmo, pitoresco: então não é que um pedaço de loiça pode ser mais valioso que um pedaço de oiro bem mais volumoso e pesado? Depende da perspectiva que orienta a avaliação. Imagino que a Teoria da Relatividade ande mais ou menos por estes caminhos mas é quando me meto nestas andanças que percebo aquela pintura do Brueghel, do cego a guiar outros cegos.




quinta-feira, setembro 12, 2019

Felicidade

Descontos, vales de oferta, negócios mirabolantes: oportunidades, oportunidades, oportunidades! Há ali fora um mundo de oportunidades que se te oferece, queridíssimo leitor, um mundo que se rege por uma única regra: fazer-te feliz! Em nome da tua felicidade o carapau vende-se ao preço da uva mijona, a varinha mágica é praticamente oferecida e o corte de cabelo!? Valha-te Deus, que mundo este, que loucura!

Comes o carapau acompanhado por um batido desfeito com a nova varinha enquanto miras de soslaio o teu novo corte de cabelo no espelho da cozinha. Continuas pouco feliz. O problema deve ser teu. Decerto não aproveitaste todas as oportunidades que tão gentilmente te ofereceram. Tens de regressar ao Templo e desejar a felicidade com mais fervor, de carteira mais aberta.

O problema só pode ser teu!

quarta-feira, setembro 11, 2019

Da inutilidade

Parecemos cansados. Mais: parecemos enfastiados. Alguma daquela informação poderia ser passada em mandarim, soaria exactamente ao mesmo. Após assinadas e carimbadas e validadas, as actas poderiam ser enviadas para a República Popular da China, os resultados seriam, decerto, muito semelhantes.

Olho em volta discretamente. Somos apenas um grupo formado por gente moderadamente só a fazer de conta que o Caos pode organizar-se um bocadinho. Sinto-me inútil.

terça-feira, setembro 10, 2019

Ir indo

Acabo de compreender que para se ter uma grande história não é preciso nada de especial. Uma grande história é sempre uma viagem. Só precisamos ir.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Especial

Não sei como é contigo, amigo leitor, a mim, as lojas personalizadas provocam-me engulhos. Detesto ir comprar café  e ter uma senhora extraodinariamente simpática a oferecer-me uma chaveninha de um novo produto, uma coisa excelente. Não gosto de estar a mirar uma coisa qualquer e ter de suportar a aproximação solícita de quem ali trabalha a perguntar-me se preciso de alguma coisa, que esteja à vontade, que faça de contas que estou em minha casa. Que coisa mais parva!

Se fosse o dono da mercearia, ainda vá que não vá, o gajo quer que eu lá volte, faz uma atençãozinha, tenta cativar-me com o jeito característico do merceeiro. Ok, lícito e límpido como água da chuva. Já uma miúda daquelas que trabalham nas lojas do centro comercial... soa a falso, tal como o merceeiro, mas sem aquela limpidez. É um "sentimento" de plástico. Desagrada-me. Tento não ser rude mas é difícil.

Parece-me ser uma estratégia mais ou menos comum, fazer com que o cliente se sinta especial. Mas é tão artificial! Talvez seja isso, talvez que ser-se especial seja uma absoluta artificialidade. Não dizem certos credos religiosos e certos credos políticos que somos todos iguais, seja perante Deus ou perante a Lei?

segunda-feira, setembro 02, 2019

A cabeça e as suas orelhas

O tempo vai passando, e a tua vontade de mudar o mundo vai-se transformando. Já não é aquele ímpeto avassalador que te fez acreditar piamente que a razão era toda tua, já não é aquele discurso estruturado e lógico que encurralava os argumentos dos teus adversários fazendo brilhar a visão do Mundo que professas, muito menos é a perspectiva do grupo com o qual te identificas uma vez que há ali muitas falhas que tentas ignorar para poderes fazer parte, sentires-te integrado.

Com o tempo nasce dentro de ti uma outra coisa, um misto de irritação, fastio e desencanto, um bicho informe que te rói o pensamento e te faz azedo aos olhos dos outros. Começas a creditar que, afinal, não há volta a dar a esta merda, começas a acreditar que foste ingénuo, que sonhar é coisa frágil. Quando chegas a este ponto estás lixado.

Que fazer, então? Como podes conviver com o tal bicho que, na verdade, és tu, um reflexo de ti? Não sei. Não tenho respostas para tais questões. Pessoalmente opto por ir alimentando o bicho na esperança de que, mais adiante, haja ainda outra coisa, uma salvação qualquer que de momento nem sequer posso adivinhar qual seja.

Como diz a canção: "cá se vai andando co'a cabeça entre as orelhas".

quinta-feira, agosto 29, 2019

Casamento falhado

Poderá a nossa espécie alguma vez recuperar o rumo que, aparentemente, havia tomado quando a Democracia se assemelhou a algo justo? O casamento da Democracia com o Capitalismo já corria mal, o pior foi quando o casal pariu a estirpe de governantes democraticamente eleitos, com merda no lugar dos miolos, que se vão assumindo os cadeirões do poder.

Percebia-se que Trump e Bolsonaro (e Duterte e Órban, etc.) eram coisas más mas estava-se longe de imaginar que fossem uma infecção tão radicalmente mortífera. O resultado será, inevitavelmente, a morte do sistema económico-social que ainda se vai aguentando no mundo global. Isto será dramático para o mundo ocidental e, estou em crer, para o mundo inteiro.

Um mundo desregrado, governado ao sabor dos caprichos destas alimárias, será ainda mais injusto e perigoso do que já era. Talvez seja necessário passar por uma fase de terrível agitação para que, no futuro, algo diferente (para melhor) possa surgir. Para ser sincero, este desejo não me desperta qualquer entusiasmo.

Não consigo acreditar que depois da tempestade que estamos a viver venha bonança capaz de nos reconciliar com a vida humana. Mas isso sou eu a imaginar o Futuro com a minha cabeça limitada. Talvez Deus exista...

terça-feira, agosto 27, 2019

Civilidade virtual

Pretender que uma comunidade humana se paute por princípios de respeito mútuo absoluto entre os seus membros é um desejo situado nas margens do ridículo.

O insulto gratuito e soez ganhou foros de cidadania nos fóruns virtuais. Imaginar que coisas como o Facebook, o Twitter ou as caixas de comentários nos jornais online seriam espaços de debate e iluminação do pensamento revelou-se algo do domínio do absurdo.

Resta-nos fingir que somos civilizados.

domingo, agosto 25, 2019

O Grande Dada

Fui, de súbito, iluminado por um relâmpago que me atingiu em cheio no meio das trombas: Deus é dadaísta! Ou, melhor: o Grande Dada é Deus! Resumindo, para explicar a coisa às almas mais simples e aos que não têm a tromba toda fo... toda chamuscada por terem sido atingidos pelo raio que os parta: Dada é Deus, Deus é Dada.

Um gajo pode andar a vida toda sem perceber patavina e, quando menos espera, ser submetido à mais arrasadora das revelações. Imagino que, para muitos de nós, a Revelação seja o fim da linha. Quantos não irão parar ao hospício da paróquia logo após a visita do Anjo? No meu caso a coisa foi, mais ou menos, pacífica. Mantive-me em casa e fui preparar um cafézinho.

Posso garantir-te, amável leitor, que saber que Deus é o Grande Dada e vice-versa, explica tudo e a vida continua, fazendo muito mais sentido. Experimenta e vais ver.

sexta-feira, agosto 23, 2019

Graal

Quando me deparei conscientemente com a questão da liberdade individual, aí pelos meus doze ou treze anos, deixei de acreditar em Deus. Era para mim impossível aceitar a ideia da Sua existência enquanto polícia, juíz e carrasco da Humanidade. Um ser omnipresente metediço e repressor omnipotente não encaixava com o ideal libertário que começava a tomar forma na minha mente.

Passei a adolescência convicto da superioridade absoluta dos meus pontos de vista apesar da fragilidade dos seus alicerces e da ignorância característica dessa idade. Apercebo-me agora que estava apenas preocupado em viver cada dia como se fosse uma promessa de algo que, então, não me passava pela cabeça, algo que viria no dia seguinte ou no outro, algo bom e completo que fizesse sentido e me permitisse uma sensação de plenitude.

Continuo à espera de perceber que coisa era essa.

Hoje já não acredito tanto que chegue a encontrar esse meu Graal pessoal e particular, ficaria satisfeito se conseguisse perceber, mesmo que apenas vagamente, os seus contornos, quanto mais a sua essência!

Chego à conclusão de que, de certo modo, nunca ultrapassei a adolescência (terei ultrapassado a infância?) e que a idade adulta é uma abstracção absoluta. Ou será a idade adulta esse tal Graal?

domingo, agosto 18, 2019

Eternidade

Demasiado ocupado a fingir não saber quem era, a fingir não pensar na morte, tropeçou numa frase imprudente e caiu numa poça de infelicidade movediça.

A lama infeliz era densa mas puxava-o para baixo. Cada nova palavra, cada gesto que imaginava redentor, só agravavam a situação e ele sentia-se engolido, desconfortável, por vezes irritado. Ficar quieto e calado afigurava-se a solução ideal, ainda que isso significasse o esquecimento absoluto, uma tristeza infinita.

Hirto como um prego, deixou-se ficar. Foi afundando, afundando... encontrara a Eternidade.

terça-feira, agosto 13, 2019

Muros

Um muro implica com a nossa posição neste mundo. Existindo, encontramo-nos de um lado ou do outro. Havendo um muro já não temos todo o espaço à nossa disposição de modo a podermos circular livremente, podemos evitá-lo, podemos ignorá-lo, não olhar para ele mas não é por isso que desaparece. O muro está lá.

Há milhões de muros por esse mundo fora. Pequenos muros, murinhos, muretes, simples cercas de madeira, barreiras com arame farpado, muros altos, muros baixos, a variedade é imensa. O território fica todo recortadinho, marcam-se itinerários em volta de muros ou através deles. Todos os muros têm portas, portões ou meras passagens que podem, ou não ser, guardadas

Além dos muros físicos, como era, por exemplo, aquele que dividia Berlim, há muros psicológicos, muros culturais, muros religiosos, há muros de todas as formas e consistências que ultrapassamos de acordo com a nossa vontade ou a nossa capacidade. Podemos desprezar um muro, não lhe darmos a mínima importância; isso acontece quando a existência da barreira não interfere directamente com a nossa vida nem ofende as nossas convicções. É fácil ignora-se um muro que incomode apenas o vizinho.

A existência dos muros justifica-se ou não: esse é o "tal" debate que não pode fazer-se em abstracto, pois cada muro é coisa demasiado concreta.

domingo, agosto 11, 2019

Barrigas simbólicas

Devo andar a passar por uma cena daquelas que têm a ver com a idade, uma crise qualquer, decerto já estudada e registada em revistas da especialidade e em revistas de curiosidades. Esta manhã dei por mim a reparar nas barrigas dos homens que iam passando. Grandes barrigas!

A minha atenção para as referidas barrigas foi atraída, decerto, por ter reparado na minha própria pança logo após a banhoca matinal. Está a ficar insistentemente proeminente, uma redondeza balofa a querer marcar posição no meu corpo. Vejo-a, penso nela, não gosto de a transportar mas, verdade seja dita, não faço nada de especial que a contrarie e a barriga vai ficando.

Voltando atrás, reparava eu nas barrigas. Contas arriscadas e feitas por alto, anotei mentalmente aí uns 80% de barrigudos. Isto entre novos e velhos e mais ou menos, a barriga não parece escolher idades. Ali estava eu, com a minha barrigota, a reparar nas dos outros. Burgueses como eu, pessoas sem aparentes problemas de subsistência, produtos acabados de um certo modo de vida que assenta no consumo, muito para lá da satisfação das necessidades básicas.

Dei por mim a pensar que estas nossas barrigas são imagem, ícone e reflexo da forma como vamos exaurindo o planeta. As barrigas simbolizam a morte lenta da Terra?

sexta-feira, agosto 09, 2019

Dor fantasma

O mundo revela, por vezes, uma capacidade surpreendente de amarfanhar o coração a um gajo. Não tem de haver nada de especial, não tem de acontecer nada de extraordinário, basta não sei o quê, uma coisinha indistinta... alguma coisa deverá acontecer para que, de repente, aquela sensação incómoda desaconchegue o coração e o ponha fora do sítio.

Um gajo põe-se a magicar: que raio aconteceu? Mas não encontra resposta, não vislumbra razão nenhuma para ter ficado assim, bisonho, meditabundo, a descortinar bolor em cada canto e tristeza em todos os sorrisos. É como uma pedrada na testa, uma coisa de fantasmas.

Não há remédio para esta sensação pois não se percebe o que seja, não há estratégia que reponha o coração no sítio. Resta esperar que passe. Um gajo tem esperança que, tal como surgiu, a coisa se vá e não volte tão depressa.

terça-feira, agosto 06, 2019

Números redondos

Ando a ler um livrinho intitulado As 10 invenções de Picasso. É interessante e dinâmico, bastante razoável... mas, o que me leva a escrever este texto não é o livro, em si, é o número "10".

É aquela suposta magia do número redondo. Porquê 10 invenções? Não terá havido mais uma? Ou menos outra? Ou duas para trás e quatro para a frente da fronteira mítica do número 10? Que raio, estará a autora a torcer os números por forma a chegar ao redondinho que faz o título da obra?

Os números redondos infectam a informação e lixam-nos o imaginário. Ele são os 100 dias de governação que servem para medir o sucesso ou a popularidade de um governo recém-empossado, o Top 10, 30, 50, o Top 100 das músicas mais ouvidas, os 500 filmes que fazem a felicidade de uma vida de cinéfilo, etc. Os exemplos de arredondamento numérico são mais que muitos.

Quantos filmes de merda foram enfiados à força na tal lista para termos 500? Que autores interessantes ficaram fora da lista de best-sellers de modo a não estragar a redondeza numérica? Qual o problema dos números angulosos e agudos, que mal poderá vir ao mundo se uma lista de excelência for composta por 11 títulos ou 23 ideias geniais?

Assim se constrói um mundo artificial.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Ler

Ler não é remédio mas alivia a solidão e pode ajudar a manter a estupidez à distância.

Sou um leitor muito lento, quase um caracol, tal o ritmo a que leio. Este ano resolvi fazer uma lista do títulos que vou lendo. Constato que não são mais nem menos do que imaginava. Os temas e os autores são tão díspares que nem eu compreendo qual a lógica das minhas escolhas. Melhor, ao passar os olhos pela lista percebo que não há qualquer lógica nas escolhas.

Romances, crónicas, ensaios, temas históricos, contos, novelas, passa tudo. A única regra é ter sempre um livro para ler. É essa a lógica!

O meu avô materno tinha um pequeno azulejo na parede da cozinha que dizia "Livros e amigos, poucos e escolhidos", nunca esqueci essa frase mas, sinceramente, não oriento a minha vida por ela. Principalmente no que diz respeito aos livros.

Apesar da lentidão com que avanço nas páginas impressas, acumulei centenas de livros nas estantes e recorro com frequência a bibliotecas públicas, muitas vezes por questões de racionalidade económica e de espaço físico. E o meu cérebro? Estarão todos os livros que li guardados nele?

terça-feira, julho 30, 2019

Passeio na praia

Hoje de manhã fui até à praia. Bem cedo, pouca gente, muito vento. Resolvi passear a favor da ventania. Pessoas para trás, pessoas para a frente, aqui e ali uma gaivota, mais adiante um verdadeiro ajuntamento desta passarada.

Nesta conjuntura o pensamento espreguiça-se e vai andando mais à frente, por vezes atrasa-se, sinto-me uma espécie de autómato.

Foi então que reparei que tenho 56 anos e ainda não aprendi quase nada. Preciso de espaço para viver a minha vida mas não percebo muito bem como vivê-la. Haverá regras? Linhas gerais de orientação? Objectivos?

Sempre fui mais de fazer do que de reflectir, assim à maneira daqueles cowboys do velho Oeste, que disparavam primeiro e perguntavam depois. Vou deixando as coisas que faço, uma pista de bolinhas de miolo de pão; talvez um dia pretenda fazer o caminho de regresso.

Olho as gaivotas. Talvez elas comam as bolinhas e eu perca a noção do caminho de regresso. Não há volta a dar, resta-me avançar, ir fazendo, reflectindo... caminhei demasiado.

Quando fiz meia volta a minha atenção foi captada por outras coisas, outros pensamentos se formaram e esqueci tudo aquilo até que, sentado em frente ao teclado do computador escrevi isto.

É assim, a vida vai-se vivendo. Estou convencido de que é feita muito mais de esquecimentos que de recordações. Posso estar enganado. Na verdade nada disto interessa.

quinta-feira, julho 25, 2019

Arte plástica

A designação "artes plásticas" começa a tornar-se algo incómoda. Falar em "plasticidade" dos materiais não soa lá muito bem. São designações que enobrecem... o plástico!

Numa época em que o plástico se tornou numa espécie de super-vilão imbatível, o super-vilão que veio para conquistar o planeta transformando-o numa lixeira quase eterna, "artes plásticas" soa mal.

Há, no entanto, algumas obras que fazem justiça à designação. E não me refiro apenas a Rauschenberg. Será isto algum género de justiça poética?

quinta-feira, julho 18, 2019

Cultura


Quando Picasso viu, pela primeira vez, máscaras africanas ficou siderado. A partir daí a história da pintura deu uma cambalhota e a grande arte do Ocidente revolucionou-se milhentas vezes. A pintura europeia é superior à pintura africana? Ridículo! Existe apenas “pintura”, independentemente do tempo e do local onde foi (e é) criada, fruto das circunstâncias que cada pintor vivencia. 

A cultura é uma coisa informe que vamos moldando ao longo da nossa existência. É permeável, influenciável, mutante. As fronteiras culturais existem apenas como indicadores, marcações abstractas que ajudam a arrumar ideias em prateleiras e a enfiar princípios em gavetinhas. As fronteiras culturais são invenções potencialmente perversas que mais não fazem que gerar sofrimento. 

Quantos deuses foram únicos e senhores absolutos? Quantas guerras santas já arrasaram o planeta em nome da bondade e da verdadeira fé? 

O tema é inesgotável porque é universal. Não pretendo ter razão.

terça-feira, julho 16, 2019

Manas siamesas

Já o afirmei muitas vezes, aqui, no 100 Cabeças, ali, na escola, aos meus alunos, aos meus colegas professores, acoli, na mesa da tasca em conversa com amigos ou, apenas, conhecidos: o maior de todos os problemas é a ignorância, irmã siamesa da estupidez. Partilham o mesmo cérebro, estão unidas pela cabeça.

Haja quem faça a operação, primeiro é necessário separá-las. Depois... aceitam-se sugestões.

quinta-feira, julho 11, 2019

Toque de Midas

É estranho. Quanto maior é a capacidade de difusão de informação menos claro se torna o "diálogo". Na verdade não é tão estranho assim. Estava a dramatizar. De que estávamos nós à espera? A verdade é que imaginámos que a Internet seria algo muito diferente daquilo que, na verdade, é.

Aconteceu algo vagamente semelhante com a televisão. À partida acreditou-se que se tornaria um veículo de difusão cultural mas depressa caímos na realidade e percebemos que é, preferencialmente, um difusor de lixo variado.

A nossa sociedade de consumo tem esta espécie de toque de Midas, transformando em merda tudo aquilo que toca. 

terça-feira, julho 09, 2019

Racismo

O racismo, o racismo, o racismo!!! Afinal de contas em que ficamos: há racismo, não há racismo, acaba-se com o racismo, não se acaba com o racismo? Luta-se, fica-se, muda-se, estuda-se? A minha cabeça rodopia e não consigo fixar uma ideia que seja.

Penso que não sou racista mas, lendo e ouvindo tantas opiniões, disparadas de todos os lados, não tenho tanto a certeza. A minha convicção é abalada.

Sei que tenho preconceitos relativamente a certas pessoas mas quase posso assegurar que esses preconceitos são ditados muito mais pelas atitudes que pela cor da pele. Não gosto de pessoas que me pareçam estúpidas, que me pareçam más, que me pareçam demasiado arrogantes, enfim, pessoas com essas "qualidades" há-as de todas as cores.

Por vezes penso que havendo dinheiro na carteira, principalmente se for dinheiro em abundância, o racismo também se dilui um bom bocado. A condição económica marca tanto como a cor da pele?

Enfim, quero acreditar que o racismo é uma questão de educação, que é uma consequência da ignorância e da estupidez que atulha com facilidade cabeças pequeninas com ideias de merda. Mas posso estar enganado.

segunda-feira, junho 24, 2019

Macacos

Há quem diga, quem pense, quem acredite: a vida não pode ser só isto! Tem de haver algo mais; outra vida após a morte? E essa vida implicará nova morte e assim por diante, vida e morte reflectido-se eternamente uma na outra e a nossa alma a ricochetear sem cessar, até à eternidade?

Mas pode ser outra coisa, a vida pode ser outra coisa que não podemos imaginar, uma coisa tão diversa daquilo que percepcionamos que não temos capacidade para imaginar o que seja. A vida pode mesmo não ser nada.

Entretanto, neste quotidiano delirante, vamos vivendo (!?), preocupamo-nos com coisinhas de nada, com merdices, ou preocupamo-nos com coisas importantes, com merdas determinantes, cenas que, se a vida for só isto, são deveras notáveis e grandes. Cada macaco no seu galho, todos os macacos pendurados na Árvore da Vida.

sexta-feira, junho 21, 2019

Desígnio

Ultimamente tem-se falado por aí da ausência (e da necessidade de a suprir) de um ideal que possa amalgamar vontades desavindas no sentido de conferir um sentido comum ao pulsar do coração lusitano. Frase complicada, não?

Resumindo de forma directa: fala-se para aí que falta um ideal que una os tugas em torno de um desígnio comum.

A coisa saltou para a arena do falatório após a leitura em voz alta do discurso do Dia de Portugal, este ano da responsabilidade do jornalista João Miguel Tavares.

Que isto, que aquilo, que é de direita, que não tem autoridade nem saber, que sim, que não, que foi mal escolhido, que não sabe o que diz, bocas a torto e a direito, umas no alvo, outras nem por isso. Pessoalmente posso dizer que gostei do discurso, que gosto do João Miguel apesar de discordar dele em muitos pontos e em muitos aspectos.

Gosto dele porque me parece inteligente e honesto. Como sou um gajo de esquerda estou habituado a pensar que inteligência e honestidade são qualidades exclusivas do meu pessoal. É assim, um gajo pensa certas coisas sem pensar nelas! Não é preciso muito tempo de reflexão para perceber que estas qualidades não são exclusivas de nenhum campo político. Há demasiados filhos-da-puta no mundo e seria uma coincidência mágica que se amontoassem todos de um dos lados da barricada ideológica.

Penitência feita.

Mas a questão do ideal unificador ficou-me a dançar na cabeça e, já agora, proponho um: lutar contra a ignorância. Ficaria muito feliz se declarássemos aberta a época da caça à estupidez sem termo certo. Seria uma caçada eterna, assim à maneira da das divindades nórdicas lá no mundo onde se divertem.

quarta-feira, junho 05, 2019

Como poderás tu saber!?

Não há que tentar dar a volta à coisa, contornar, ir por fora, fingir que não é bem assim: um gajo ou está de um lado ou fica do outro. Ninguém consegue equilibrar-se sobre uma linha imaginária que, ainda que dividindo, está longe de separar o que quer que seja. Chego a temer que a coisa seja mesmo tipo "bem contra mal", "certo contra errado" e pronto, espero que isto chegue e seja ponto final nas dicotomias que nos moldam o quotidiano.

Não quero acreditar nisto, que as coisas possam ser postas de modo assim tão simples mas... tenho a impressão que a maioria (esmagadora) das pessoas só é capaz de ponderar uma situação, analisar um problema e, Deus nos valha, imaginar uma solução se acreditar que está certa, que é boa, que não dá a mínima hipótese ao estúpido do otário que se senta ao seu lado. A tal linha divide, não separa.

Não há maneira de chegar a uma conclusão satisfatória. Certo, bom, mau, errado, certo, mau, bom, errado, etc. e por aí fora; baralha, volta a dar... estou em crer que tudo depende do buraco a partir do qual observas a situação. Como poderemos alguma vez ter a certeza!?

quarta-feira, maio 22, 2019

Porque vou votar nas europeias


Debateu-se recentemente a possibilidade alargar a fronteira do direito de voto para os cidadãos com 16 anos de idade. Uma larga maioria de deputados da Assembleia da República rejeitou a proposta e mantém-se tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. 

Decerto que a maturidade dos eleitores foi argumento tido em conta nesta questão mas, pensando um bocadinho, percebemos que a maturidade não é automática. O chip da maturidade não é activado no preciso momento em que completamos a 18ª Primavera.

Muitos dos que têm direito a voto cultivam o hábito da abstenção, ainda mais quando se trata de eleições europeias. 

Os argumentos que alguns eleitores maduros apresentam para justificar a sua abstenção são dos mais variados: que a Europa é lá longe, que os políticos são todos iguais, que não fazem nada, que só estão interessados em auferir os ordenados escandalosos (pornográficos), que nós, eleitores, somos uma espécie de idiotas que servem apenas para caucionar a existência dessa corja de mamões inúteis que vão aquecer os cadeirões do parlamento em Bruxelas. 

Sinceramente, discordo da maior parte destes argumentos e, quando me deparo com discursos deste calibre, atrevo-me a imaginar que o direito a voto poderia ser oferecido todos os cidadãos que soubessem ler e escrever, independentemente da idade, e a partir dos 18 anos, para todos mesmo, incluindo os analfabetos.

Eu vou votar nas eleições europeias do próximo Domingo porque ainda acredito no Valor da Democracia.

Carta enviada ao director do Público

terça-feira, maio 21, 2019

Outra profecia merdosa


A Deus não tenho nenhum pedido a fazer, nem sequer que me deixe em paz. Na minha adolescência a sensação de ausência de futuro derivava da Guerra Fria, do temor da Bomba, mãe do Apocalipse. Era o tempo do chamado "movimento punk".

Olho para os dias de hoje e o "no future" está aí, mais presente do que nunca; visível, palpável, irrespirável.

Nada a fazer, o nosso modo de vida definha de forma irreversível. Penso que é tempo de começarmos a preparar as gerações futuras para aquilo que aí vem. Basta de alienação. A sobrevivência da espécie exige lucidez. Ou então será a Noite dos Tempos.

sexta-feira, maio 17, 2019

Escumalha


Não podemos ignorar o facto de que falhámos. A sociedade que construímos terá já entrado em fase de degradação geral sem que o pico máximo atingido, no que diz respeito à qualidade do Ser Humano, possa ser motivo de orgulho. Longe disso.

Misturámos Democracia com Capitalismo e o resultado não poderia ser outro: o Capitalismo é um cancro no corpo da Democracia. Não há cura conhecida e os médicos estão mais focados em curar unhas encravadas e flatulência, maleitas que afectam o Capitalismo, do que em tentar desenvolver terapias que permitam debelar o cancro que corrói a Democracia e a faz definhar a olhos vistos.

Não me venham com a treta de que as coisas são assim por que têm de ser, que não há alternativa... não me lixem.

As coisas são assim porque os capitalistas, em 99% dos casos, não prestam para nada que não seja explorar pessoas, locais e sociedades inteiras. As coisas são assim porque os capitalistas se estão a catar para o mal que provocam desde que com ele recolham benefícios que possam gozar enquanto por aqui andam a espalhar a sua fá na livre circulação de capitais. Alguns sentem remorsos, é o máximo que a consciência de classe lhes permite.

A Miséria é uma coisa necessária, a Pobreza e a Morte são inevitáveis; convencem-nos de que é esta a ordem natural do mundo. Sim, é a ordem do mundo, mas não é natural, a ordem natural aplica-se à biosfera, é uma ordem artificialmente criada e aperfeiçoada ao longo de milénios em benefício de uma casta especial de bichos-homens constituída pela escumalha da sociedade à qual, ironicamente, chamamos elite.

Os ricos e poderosos são o pior que há entre nós. Aceito que haja excepções mas terão de ser provadas com factos.

segunda-feira, maio 13, 2019

Profecia óbvia

Li algures que estamos a viver tempos de uma militância sem esperança. Uma militância desesperada, portanto. Concordo.

A questão central prende-se com a constatação de que o crescimento económico, característico do sistema capitalista globalizado, consome tudo com uma voracidade inaudita e já teremos ultrapassado o ponto de não-retorno (começo a tornar-me repetitivo?). É simplesmente impossível imaginar que os nossos netos, para já não falar dos nossos filhos, possam viver numa sociedade semelhante a esta.

Aquilo que designamos por níveis de bem-estar são, em grande parte, resultado do consumo excessivo dos recursos planetários e, pior do que esse consumo, provocam níveis descontrolados de poluição. Poluição atmosférica, dos solos, das águas, poluição sonora, das mentes e, digo eu, da própria ideia de Humanidade.

Imaginámos que a Humanidade evoluiria em direcção a uma espécie de estado de semi-divindade. Não pensámos que poderia existir um ponto na curva evolutiva que marcasse o início da sua descida, o início do declínio. Talvez estejamos a viver próximos, muito próximos mesmo, desse ponto.

Com o declínio da Humanidade virão outros tipos de degradação em diferentes graus: social, civilizacional, "you name it". Os nossos descendentes passarão a viver em condições muito diferentes daquelas em que nasceram, eventualmente diferentes para pior... ou talvez não.

Como já disse em muitos posts neste 100 Cabeças: "a esperança é a última coisa a morrer", mas também morre.

terça-feira, abril 30, 2019

O Grande Banquete

É preciso estar atento. Anda por aí tanto lobo a balir que já se confundem alcateias com rebanhos. Há lobos vestidos de ovelhas e ovelhas que aspiram à condição carnívora; vivemos tempos complexos.

Os lobos que se apresentam com a dentuça a brilhar sob os holofotes, sem necessidade de aparentarem uma certa santidade: lobos machos, lobos de barba rija, esses garantem à restante bicharada que não trazem o apetite descontrolado. Estão aí para reclamar aquilo que lhes pertence por direito. Tudo segundo as regras.

O problema reside, precisamente, naquilo que a lobalhada entende por direito. No imaginário daquela malta há um direito específico para os que comem e outro para os que são comidos. Sendo que o direito dos comidos é uma espécie de anedota que provoca gargalhadas entre os comedores. O seu plano, o seu desígnio, a sua missão divina, bem vistas as coisas, consiste em alterar as regras.

Para operarem essa alteração, os lobos precisam de chegar aos cadeirões do poder (de preferência sem comerem demasiados cordeiros), de mansinho, se possível for. Será então tempo para os que andam disfarçados deixarem cair as peles de ovelha que lhes apertam os tomates e, todos os lobos em conjunto, celebrarem o Grande Banquete.

Como diz a grande fábula de Orwell (mais coisa menos coisa): "os animais são todos iguais... mas uns são mais iguais que os outros".

segunda-feira, abril 29, 2019

Arrastando a asa

Quanto mais reflicto sobre as designadas questões ambientais pior vejo o futuro; e não o vejo nada luminoso, antes pelo contrário. A cada dia que passa tenho a sensação (sensação cada dia mais vincada ainda que no dia anterior, vincada até ser um sulco na minha mente, uma ruga profunda na esperança que me resta) de que nos afastamos do Ponto de Não-Retorno. A oportunidade de salvarmos a Humanidade de si própria já passou há tanto tempo que nem vale a pena procurá-la. Está perdida.

Esta sensação é já uma certeza.

O pior de tudo é que todos os dias convivo com dezenas, centenas de crianças que, como todas as crianças, têm aquela energia vital extraordinária, aquela maravilhosa capacidade de serem felizes como bichinhos selvagens. E eu tento acompanhá-los nessa corrida que fazem em direcção ao seu futuro, tento influenciá-los positivamente, fazê-los acreditar... em quê, exactamente? Que irão ter uma vida boa? Não gosto nada de mentir.

Ando para aqui a arrastar a asa.

quarta-feira, abril 24, 2019

Acordar com a cara ao lado dos olhos

Um gajo pensa: não pode ser apenas isto! Mas, logo depois, as horas passam, passam os dias, passam os meses, um gajo esquece a pergunta que fez; um gajo distrai-se.

De súbito, sem razão aparente, um gajo volta a pensar: é apenas isto? E, mais uma vez, a questão se perde, fica quieta... é esquecida. A verdade é que o Mundo se disfarça, hesita, confunde, faz de morto, o Mundo tudo engendra de modo a evitar que um gajo pense e verbalize a pergunta: não há mais nada? O Mundo quer fazer de nós os seus poetas.

Pois, parece que não, que não há mais do que isto. Mas um gajo não quer acreditar. O Mundo promete sempre muito mais do que pode oferecer de facto. Um gajo agradece pois não consegue imaginar nada mais deprimente do que haver resposta concreta para a teimosa questão: afinal qual é o sentido da vida? Nós somos os poetas do mundo.

Um gajo imagina que, talvez mudando de lugar, talvez indo em frente, ou voltando para trás por outro caminho... um gajo tem a ilusão de que o movimento impede que as coisas percam sentido (ou que o adquiram) e então vai. Um gajo é até capaz de acreditar que há um unicórnio ao fundo da floresta. Um gajo acredita até que há uma floresta.

Por vezes imagino que esta vertigem suicida em que mergulhámos todos (este mergulho a pique), esta voragem consumista, esta destruição da Natureza que executamos de forma sistemática, é, na verdade, uma vingança sórdida. Imagino que seja a nossa resposta para a tal questão. Mas também isto acabo por esquecer. Não há tempo para merdas destas, a maior de todas as urgências é viver.

terça-feira, abril 23, 2019

Observações (no Museu e na Sé)

Santo Estêvão, no Museu de Grão Vasco, em Viseu

Transcrevo do meu caderninho de apontamentos:

"O tempo roeu-lhe a tromba" - olhando uma estátua jacente em pedra, no túmulo de um bispo depositado no claustro da Sé de Viseu. "Aquele gesto de mãos impossível" - como é norma nas representações pictóricas de arte antiga. "Uma Virgem apoia os pés numa barca que navega uma nuvem pequenina"; "Alguns têm os dedos dos pés mais compridos que os dedos das mãos" - as estátuas em madeira dos evangelistas, no Museu de Grão Vasco sustentam esta observação mas também nas pinturas se encontra essa estranha interpretação da anatomia humana. "O Santo Estêvão parece ter uma poia no meio da testa"; "Tenho muita dificuldade em aceitar que certos enquadramentos sejam os originalmente concebidos pelos artistas. O Calvário, de Grão Vasco, por exemplo: como acreditar que o manto da personagem em primeiro plano, do lado esquerdo da composição, tivesse sido cortado propositadamente pelo Mestre? Não faz qualquer sentido. É um enquadramento de tipo fotográfico de instantâneo recolhido por um amador pouco cuidadoso."

Fecho o caderninho.

quinta-feira, abril 18, 2019

Tripa mole

A manhã estava límpida. Eu atravessava o Bairro Alto em passo sossegado, pouquinha gente, aquele sol que só há em Lisboa e duas meninas, pequeninas, talvez seis anos, por aí assim, a serem levadas, imaginei, para a escola.

Uma levada pela mãe que, na outra mão, segurava a trela de um cão branco. O cão e o modo como a senhora o orientava fez-me lembrar um aspirador a limpar as pedras irregulares do chão do Bairro. A segunda menina, lenço cor-de-laranja amarrado no topo da cabeça a fazer de conta que era um grande laçarote, vinha trazida por uma outra senhora, esta de cara enrugada, óculos escuros, semblante duro, senhora que não transparecia qualquer emoção.

As meninas ficam felizes pelo encontro. Sorriem. Aproximam-se. O cão resolve cagar. A menina que vai com a mãe nem repara no cócó, a outra menina tampouco. A senhora da cara fechada manteve-se impassível enquanto a dona do bicho se debruçou, saquinho de plástico na mão e "bom dia." A caca do cão é pouco consistente, quase liquída, de tom esverdeado.

Já passei pelo grupo e a cena deixa de estar no meu campo visual. Imagino a velha a responder um seco "b'dia", as meninas a sorrirem e a dizerem coisinhas, a senhora do cão a ter muita dificuldade no ensacamento da merda. Ser cidadã exemplar custa muito caso se tenha um cão. E custa muito mais caso o cão tenha a tripa avariada.

segunda-feira, abril 08, 2019

Vazio e inconsequente

As acções vazias e inconsequentes infectam-nos a existência. Não me parece que seja absolutamente imprescindível estarmos em permanente estado de vigília criativa. Não. A preguiça e o acto espontâneo são coisas de grande valor. O mal infeccioso reside nas acções vazias e inconsequentes que nos são impostas com o fato de gala da obrigatoriedade. Merdas...

Um gajo sente-se irritado, arrisco mesmo afirmar que um gajo se sente violado! Se aquilo não serve para rigorosamente nada, se exige tanto esforço e concentração sabendo todos de antemão que não é mais que faz-de-conta, porque raio havemos de cumprir, obedecendo?

Obriga-nos um código de conduta desenhado de modo a fazer de nós canídeos de duas patas. E nós deitamos, nós rebolamos e damos a patinha ao dono. Que se está bem a cagar. Para nós e para as acções vazias e inconsequentes que nos obriga a executar com a mera finalidade de manter as aparências de um mundo que, na verdade, está podre.

quinta-feira, abril 04, 2019

Prova provada

Não saber o que fazer, eis uma questão com a qual me vejo confrontado em momentos de ócio. Tantas vezes desejo não ter que fazer e tantas outras sinto o embaraço de me ver assim, desamparado perante todas as possibilidades que me são proporcionadas pelo facto de- não ter nada da concreto dentro da cabeça, nada que tome a vaga forma de uma vontade que desponta.

Ora, porra!

Forço a imaginação sabendo que a preguiça é o que me dita a acção. Como acreditar que a preguiça pode levar-me a algo que valha a pena fazer? Não funciona, muito menos resulta.

Prova disso é este texto.

sábado, março 30, 2019

Dignidade republicana


Andamos todos a olhar para o dedo que nos aponta a lua. O problema dos laços familiares entre membros do actual governo será o da diminuição da capacidade de decisão independente e ponderada que um cargo governativo deveria implicar. 

Imagina-se o pai a dizer à filha: “faz assim”, e ela a fazer; o marido a dizer à mulher (afinal de contas vivemos numa sociedade patriarcal): “quero assim”, e ela a obedecer. Como já alguém sugeriu por aí, as coisas resolver-se-ão à mesa durante um jantar de família e isto não é maneira digna de se gerir a República! 

Pessoalmente, há muito que me incomoda a forma como funcionam os grupos parlamentares na Assembleia da República. Ali, apesar de não existir essa promiscuidade familiar, os deputados obedecem com grande naturalidade à direcção da bancada a que pertencem. Não é tanto a relação pai-filha ou marido-mulher que orienta as decisões, é mais um tipo de relação senhor-vassalo ou dono-escravo: "faz assim" e o deputado faz; "quero assado", e o deputado obedece. 

Se não obedece é penalizado, muitas das vezes, se insiste em ter opinião diversa, é simplesmente corrido. 

Neste universo as coisas resolver-se-ão durante um jantar entre líderes. Os deputados menores sentam-se em redor de outra mesa, como se faz com os putos nos tais jantares de família. Esta sim, é a forma digna de se gerir a República. 

A quem poderá interessar que o poder seja entregue a pessoas que pensem pela sua própria cabeça, pessoas que tenham sido eleitas pelo povo de acordo com o credo democrático?

Carta enviada ao director do Público

quarta-feira, março 27, 2019

Poeira

Tenho tanta saudade de milhentas coisas que esqueci que nem me apercebo do que sofro por isso. Bem que tomo apontamentos (ando sempre com um caderninho daqueles enfiado no bolso e caneta acompanhante), releio escritos antigos, experimento inventar menemónicas complicadíssimas que, como seria de esperar, esqueço no momento seguinte.

Não consigo manter o passado actualizado, constato que a sua relação com o presente é de tal modo misteriosa que nem parecem membros da mesma família.

Mais uma vez tenho esta sensação: o momento que vivemos é como uma nuvem de poeira que levantamos no caminho, uma nuvem que transporta ainda um pouco dos passos anteriores e já nos vai envolvendo com algo semelhante ao terreno que viremos a pisar. Não existe diferença significativa entre o que foi, o que é e o que será, é tudo tempo.

Isto pareceu-me simples mas sei que, daqui a nada já terei esquecido a razão porque me pareceu tão claro, tão evidente, tão esplêndido. No meio da poeirada perco-me todos os dias e, todos os dias, me volto a encontrar.


domingo, março 24, 2019

Marcha lenta

Não sei bem o que fazer desta manhã que me entra pela janela feita brisa suave. Posso fazer o que quiser? Talvez não me apeteça fazer nada. E fazer nada, é fazer alguma coisa?

Vivemos este tempo pacífico num espaço morno, batido por um sol que pretende vestir o fatinho leve da Primavera. Por cá andamos envolvidos nas nossas guerras do Alecrim e da Manjerona.

Ontem desfilei descendo a Avenida em manifestação de professores supostamente encolerizados. Mas era tudo tão pacífico, tão suave, era tudo aparentemente tão leve... milhares de professores caminhando em quase silêncio apesar dos apelos dos "speakers" incitando, na medida do possível, ao grito e à palavra de ordem.

Quase nada. A sensação que fica é a de quase nada se ter passado. Apenas mais uma tarde soalheira nesta capital do império da modorra que é a magnífica cidade de Lisboa, submersa por vagas de turistas com os quais, nós, os professores, nos confundimos ontem, descendo a Avenida pela enésima vez.

Até mais ver, camaradas!

quarta-feira, março 20, 2019

Brilho no olhar

A minha memória é como um campo de minas após a passagem de uma manada de gnus em correria. Por vezes esforço-me por recordar algo, sinto a coisa mesmo ali, a surgir um bocadinho, a quase ganhar forma, mas... caraças, lá se vai outra vez, ralo abaixo, a esconder-se num daqueles buracos de mina rebentada, impossível descortinar qual.

Preciso ser paciente comigo próprio.

Quantos livros li, quanta informação admiti no meu cérebro!? Quantos filmes, músicas, quadros, obras de arte, paisagens, rostos, sensações tácteis, olfactivas, quantas vezes esforcei os meus defeituosos ouvidos na tentativa de perceber melhor uma melodia, um ruído, um riso!?

O mundo pode não ter fim.

Apercebo-me que sei imensas coisas das quais é virtualmente impossível que me lembre.

Por vezes surgem-me informações e memórias inesperadas ao virar de alguma esquina viscosa do meu cérebro. Imagino que esses encontros inesperados sejam pequenos acidentes neuronais, uma luzita ou outra que me ilumina a caverna craniana por um nanossegundo.

É isso o que nos faz brilhar os olhos?

sábado, março 16, 2019

Artistas invisíveis

Ouvi dizer que, em Portugal, para alguém ser artista, na maior parte dos casos, precisa de ser  outra coisa em simultâneo. Qualquer coisa que lhe garanta o sustento. A arte, pelos vistos, não se transmuta em casa-pão-e-roupa-lavada.

Para lá de uma mão-cheia de consagrados e outra mão-cheia de personagens corajosas, o resto dos artistas situar-se-à entre o amador e o curioso. Cá se vai andando...

Fica a sensação e o desejo de que a arte se confunda com a vida, que sejam uma só coisa, uma espécie de milagre ético. Se for assim podem viver mais convictamente os artistas invisíveis, aqueles que nunca passarão da adolescência no mundo da validação artística mediática.

Seremos felizes quando, durante o dia de trabalho, imaginarmos o passo seguinte da obra que ficou em suspenso, aguardando o momento em que a ela possamos regressar. O amor tem destas coisas.

terça-feira, março 12, 2019

Errático

De vez em quando é necessário olhar o espelho com alguma atenção. Será? Parece que sim.

Reparar nos pormenores do nosso rosto, perceber os contornos do corpo que arrastamos connosco e que nos arrasta também sobre a crosta deste mundo; bem vistas as coisas é a imagem que exportamos, aquilo que os outros vêem quando orientam os olhos na nossa direcção.

Mas, aí está uma questão pertinente: vemo-nos com os nossos olhos, somos incapazes de compreender o olhar alheio ("o mundo de cada um é os olhos que tem"), entrar na pele de alguém e calçar-lhe os sapatos é tarefa digna de fantasmas, coisa própria de espíritos errantes.

O espelho é uma superfície, aquilo que nele vemos é superficial. A coisa pode ganhar outros contornos se focarmos a atenção nos olhos. Os olhos são como portas, entras e e sais da alma que te anima. Tens a certeza que é por aí que queres ir?

Temos o corpo e o espelho (a superfície) e temos os olhos e alma (o profundo interno), no meio de tudo isto o cérebro, a tentar compreender, a tentar ver, a tentar ser. Temos o mundo (superfície e profundo interno em simultâneo) sobre ele, dentro dele, em seu redor, milhões de milhões de cérebros de todas as espécies; vida.

Tempos houve em que pensava na Vida como sendo uma permanência, algo infinito, eterno, uma coisa assim. Agora não tenho a certeza disso. Bastante pelo contrário.

sexta-feira, março 01, 2019

Notícia falsa (?)

Os cientistas do Belo, os Estetas, descobriram que a Arte Contemporânea se esconde dentro de cada um de nós.

Uns pensam que se trata de uma espécie de entidade esquiva, algo vagamente semelhante a um parasita que se nos aloja no cérebro alimentando-se da nossa imaginação, outros sustentam a tese de que é como um algoritmo que é activado quando nos deparamos com um objecto artístico.

Outros ainda, menos dados a prescindir da sua autoridade científica, consideram-se detentores das chaves de interpretação correctas, chaves essas que não estarão assim tão disponíveis a qualquer um; para estes apenas a sua opinião poderá validar a natureza artística (ou não) seja lá de que objecto for.

A notícia desta descoberta não tem sido suficientemente divulgada. Continua a haver milhões de seres humanos que desconhecem esta sua capacidade inata e se julgam incapazes de compreender algo que depende em larga escala deles próprios para ser compreendido.

Seja uma entidade (um fantasma ou génio particular) ou um conjunto de dados combináveis (como se fôssemos máquinas que se limitam a computar), a verdade é que todos os seres humanos nascem e morrem com a coisa alojada no cérebro.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Futuro próximo

Virá o dia em que uma máquina (um algoritmo altamente sofisticado) saberá melhor do que tu aquilo que te convém, o que é melhor para ti.Uma máquina capaz de tomar as melhores decisões que te proporcionem a maior das felicidades.

Como será o mundo nesse dia (não muito longínquo)?

Virá o dia em que aceitaremos em definitivo o óbvio: as máquinas são mais eficazes do que nós numa série de situações da vida quotidiana e, como tal, teremos de lhes entregar muitas mais responsabilidades.

Diz-me algoritmo, que roupa devo vestir hoje?

A dúvida é: somos nós uma espécie de máquinas de menor potência, eventualmente defeituosas? Ou serão as máquinas uma espécie de seres humanos melhorados (ou piorados, dependendo da perspectiva de quem pensa no assunto)?

Diz-me algoritmo, como devo responder à questão que me foi colocada?

Este admirável mundo que há-de vir (em breve) será mais radioso que o mundo de hoje ou permanecerá, simplesmente, diferente?

Diz-me algoritmo, o que sou eu?

domingo, fevereiro 24, 2019

Em que pensava eu ainda agora?

Há um ruído contínuo. Umas vezes lá ao fundo, outras vezes cabeça dentro; é como uma matraca mas uma matraca por vezes a bater em superfície acolchoada. O silêncio, nas cidades, tornou-se um bem, é produto de luxo ao alcance apenas de uma minoria. Ainda assim é preciso desejá-lo.

O ruído de fundo ininterrupto molda as pessoas. Se, porventura, esse ruído sofre interrupção, logo sobrevém a incómoda sensação de desconforto provocada pela impressão de alguma ameaça eminente. Silêncio implica catástrofe. É como quando as aves desaparecem do céu e se adivinha a proximidade da borrasca.

Viver na cidade exige a aceitação do ruído constante. O ruído faz parte do pacote, nem sequer se coloca a possibilidade de ser recusado. Viver na cidade é aceitar o ruído.

A pessoas como eu, que viveram a infância em ambiente rural e que têm, esporadicamente, a possibilidade de regressar a esse espaço mítico de paisagens verdejantes e montanhas azuladas pela distância; a imposição grandiloquente de um ruído benfazejo não constitui sedução suficiente ao ponto de evitar uma certa náusea, uma certa vertigem, uma quase rejeição muscular.

Por vezes dou por mim a reparar na barulheira, lá por detrás do cérebro e penso: em que pensava eu ainda agora? Lembro-me de uma frase que escrevi num "diário gráfico" dos meus primeiros tempos de estudante, quando troquei a pasmaceira dos espaços que habitei durante a minha infância e adolescência pela Babilónia incansável que é a Grande Cidade; escrevi então "traz-me todo o silêncio que encontrares e pendura-o nessa parede".

Só agora, quase 40 anos volvidos, compreendo o que quis dizer então, só agora alcanço o valor do silêncio.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Fogo!

A beleza é algo fulgurante, coisa que reconforta a alma... até que a incendeia.
Uma alma a arder não é exclusivo do inferno.

domingo, fevereiro 10, 2019

Revelação

Oh, a obra de arte contemporânea! Ao convocar o espectador no processo de validação do próprio objecto artístico, a obra de arte contemporânea interpreta um papel demiúrgico (Deus está em todas as coisas).

Se um objecto aparenta não ter nada de extraordinário mas consegue transportar o observador para uma dimensão reflexiva transcendente, estamos perante uma Revelação (a obra de arte tem o poder de nos fazer transitar entre diferentes dimensões).

A Revelação é um estado de consciência superior que nos permite penetrar um espaço que, não sendo onírico, é habitado por entidades incorpóreas e que não é regido pelas leis da Física nem da Lógica; um espaço no qual a Física e a Lógica são diferentes ou são a mesma coisa, a dimensão das Coisas antes de terem um Nome. É para aí que vamos quando mergulhamos de cabeça numa Revelação.

Voltando atrás, que já me estou a esticar: a obra de arte contemporânea faz do observador um elo significativo na cadeia de comunicação "emissor-objecto-receptor", invertendo-a, torcendo-a, remisturando-a. Exemplificando: o artista cria o objecto, o objecto transporta um significado potencial que se completa no espectador. Não tendo uma leitura fechada o objecto permite a cada um de nós a construção de uma narrativa individualizada (A Fonte de Duchamp será a semente de tudo isto).

Assim sendo, o observador torna-se, também ele, um artista. A arte contemporânea permite a construção de uma utópica sociedade de artistas, criadores ininterruptos de significados, que é, afinal, aquilo que todos nós somos desde que Deus criou Adão. A Arte é a nossa Eva, o objecto artístico é Deus, a arrancar-nos constantemente costelas e a fazer com elas seres virtuais que nos acompanhem na travessia do paradisíaco deserto que é a nossa vida.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Divindades raquíticas

Tal como uma obra de arte, também a imagem que concebemos de Deus depende muito de quem a infere e constrói. Os Antigos teriam uma divindade específica para os merceeiros. Tão difícil seria para eles imaginarem um Deus único como, ainda por cima, imaginá-lo como um autêntico merceeiro, capaz de vender benesses (quanto mais elevado o preço pago pelo crédulo mais agradáveis os favores).

As igrejas evangélicas (todas elas?) vendem esta patranha aos incautos e desprotegidos que nelas procuram um lugar de pertença. Quem cobra aos seus fiéis não é de fiar.

Um Deus que especule com o preço das almas como se especulasse o preço do barril de petróleo ou da saca de batatas tem lugar garantido na Barca do Inferno. Os parvos que acreditem em semelhante bufão podem aspirar, ainda que vagamente, a um lugarzinho na Barca do Paraíso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Santidade de pacotilha


Kevin Hart

Confirma-se que a cerimónia de entrega dos Óscares deste ano não vai ter apresentador. Não sei se é a primeira vez que acontece nem isso me faz doer a alma. 

O último a declinar o convite para proceder à função foi Kevin Hart, ao que consta por terem sido desenterrados alguns tweets de teor homofóbico publicados pelo actor há oito anos atrás. Aquilo que me provoca alguma tristeza é o facto de não haver ninguém suficientemente puro para apresentar uma coisa tão farsola como os Óscares da academia de Hollywood. 

A malha de observação sobre os candidatos é tão apertada que nenhum ser humano é considerado digno para debitar umas graçolas perante a fina-flor da intelectualidade industrial cinematográfica. Até para fazer aquilo é necessário ter certidão de santidade absoluta. Será que algum dos que se sentam na plateia poderia aspirar a tão elevado estatuto? Parece-me patético. 

Talvez com tempo possa ser criado um avatar computorizado para apresentar a cerimónia. Um ser virtual, sem carne nem osso nem opiniões próprias seja a única coisita à altura.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Vazio de sentido

Quando as paredes do mundo desabarem vais continuar sentado. Que mais poderás tu fazer? Correr? Fugir?

Mas para onde fugirás tu em louca correria se é o mundo que à tua volta se esboroa, que podes tu fazer? Pois, tenho cá a impressão que o melhor será que continues bem sentado, o melhor será esperares que a estrela negra cante de novo a sua estranha canção, aquela canção que ilumina o céu ao contrário.

Recapitulando: as paredes do mundo já não suportam mais o peso dos buracos e das fissuras que as atormentam e desistem de serem erectas, as paredes do mundo, cansadas, desabam... brrrrrrum!!!

E tu, estupefacto perante o espectáculo, tu não estás surpreendido (já sabias que a coisa ia acontecer), estás absolutamente espantado. Estás fascinado e aterrado. O mundo a desfazer-se é um espectáculo magnífico ao qual preferias nunca ter assistido.

O fim do mundo é tão vazio de sentido.


sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?