quarta-feira, abril 06, 2016

Ladrões e bandidos

Os designados Panama Papers puseram de fora o rabo do gato escondido. Todos nós sabemos que a corrupção é uma qualidade indispensável ao exercício do poder. Mas a exposição pública dos negócios duvidosos de tanta gentalha impressiona.

Chefes de estado, personagens públicas de diversas áreas, gente polida e mais ou menos educada, muitos tementes a Deus, outros agnósticos convictos, todos eles com as patas enfiadas na merda, agora sabemos quem são.

As centenas de vigaristas revelados impressiona não tanto por serem imensos mas por conhecermos os dados secretos de apenas uma das milhentas empresas que se dedicam ao negócio de roubar o povão por este mundo fora. Multipliquemos o número de esquemas corruptos promovidos pela Mossack Fonseca agora revelados pelos esquemas semelhantes promovidos por empresas suas concorrentes e teremos a dimensão aproximada das razões que explicam o desvario total em que sobrevive a espécie humana.

A Democracia treme e vacila. Agora que estes ladrões começaram a ser publicamente expostos como irá reagir a besta capitalista? Duvido que se deixe engaiolar, decerto vai começar a destilar um veneno qualquer, vai estrebuchar e retaliar.

Aguardemos.

quinta-feira, março 31, 2016

Leitura

Estou quase, quase a terminar o 2.º romance de João Ricardo Pedro, intitulado Um Postal de Detroit.
É a confirmação de um autor interessante, muito interessante, que tem toneladas de literatura dentro do peito e na ponta dos dedos.

O teu rosto será o último, o romance de estreia do autor, tinha deixado excelente impressão. Agrada-me a forma escorreita como Ricardo Pedro vai construindo o texto, a forma da escrita.

Não serei a pessoa mais indicada para aconselhar literatura mas, caro e ocasional leitor, se tiveres tempo e curiosidade lê os livros deste gajo. Parecem-me coisas dignas de serem lidas.

segunda-feira, março 28, 2016

Perdido

A cabeça traz dentro uma coisa bem esquisita, aquilo a que chamamos cérebro.

Penso que seja ao cérebro que devemos os designados "estados de espírito", havendo uma ligação estreita entre uma coisa e outra se bem que as consideremos distintas e, muitas vezes, distantes.

Então, temos o cérebro no interior da cabeça e o espírito algures, não sabemos bem onde.

O corpo, ao que parece, transporta ambos ou talvez transporte apenas o cérebro, não podemos afirmar ao certo. O espírito é menos perceptível, mais difícil de localizar. Seja como for, é o corpo que reflecte uma e outra coisa, cérebro e espírito, e é no corpo que assenta a nossa relação com o mundo e, em última instância, a relação que estabelecemos com nós próprios.

Neste momento já me sinto perdido.

Tudo isto  porque, ao longo deste dia, tenho vogado em desorientação absoluta, entre a tristeza vazia e a sensação de que talvez alguma coisa boa esteja para acontecer. Entre a incapacidade de inventar seja o que for e a suspeita de que alguma coisa extraordinária está quase, quase a chegar vinda de trás do sol posto.

Sinto-me verdadeiramente perdido.

Antes de dormir

Por vezes o passado não encaixa bem no tempo que foi o seu. Temos aquela imagem enfiada debaixo do cérebro e, na verdade, a realidade foi outra. Não interessa, não interessa... o passado só tem de encaixar no presente. Desde que ontem faça sentido no dia de hoje o que interessa se isso é ou não verdade, se isso alguma vez fez parte da realidade?

Talvez esta noite tenha um sonho que nunca tive.



segunda-feira, março 21, 2016

Dada-Punk-Romântico

Valha-nos Nossa Senhora! (Março de 2016)

Por vezes gosto de imaginar que, pelo menos dentro da minha cabeça, existe qualquer coisa que resulta do cruzamento do imaginário Punk Rock com a criatividade desvairada do movimento Dadaísta, tudo humedecido por uma singela chuva com gosto Romântico. Esta coisa a tomar forma nas folhas que cubro com papel colado com tintas por cima.

Na minha cabeça estas épocas e estes movimentos artísticos alinham-se de forma mais ou menos recta, mais ou menos sinuosa (na minha cabeça o Tempo não existe do mesmo modo que existe fora dela), o passado e o presente transmutam-se no futuro da imagem que vai surgindo e que, a cada micro-segundo, já é presente e já é passado na imagem que permanece.

A minha existência ganha sentido nestes objectos que vou criando.

sexta-feira, março 18, 2016

Leitura

Ler um texto bem escrito é uma absoluta fonte de prazer. Não me refiro a estas linhas que te vão passando para dentro do espírito, leitor amigo, tomara eu escrever sempre um pouco melhor que mal. Refiro-me ao trabalho de escritores capazes de fazer de um pensamento algo que se veja.

Quando leio um texto bem escrito (não saberia explicar o que caracteriza "um texto bem escrito") sinto algo próximo daquilo que sentia em criança, quando o meu lugar no mundo, naquele preciso momento, me parecia completo pela simples razão de eu estar ali. Eu e o bonequito, o bonequito e a minha mãe por perto, as paredes da casa e o meu avô sentado na sua cadeira preferida, a ler o jornal.

A Literatura é algo que tem esse poder de nos transportar em todas as direcções, sejam no tempo, sejam no espaço.

quinta-feira, março 17, 2016

Os poetas

Lá está Camões, no alto do pedestal, em pose que se imagina ser pose de poeta. Lá está o monumento, Camões rodeado, em plano inferior, por uns quantos outros vultos das lusas letras.

São poiso para pombas, essas ratazanas aladas, que tudo cagam com indiferença ofensiva; coisa de bicho.

Indolentes, acachapadas no interior das penas que lhes cobrem as carnes, as pombas descansam (estão sempre cansadas?), patas fincadas no cocuruto e nos ombros dos poetas, poetas eternamente cagados.

segunda-feira, março 14, 2016

Ilusão demoníaca?

Ao que parece todos os nossos problemas, individuais ou colectivos, têm uma raiz comum, reduzem-se a uma só questão. Dormes mal à noite? Os refugiados são barrados nas fronteiras da Europa? A extrema-direita arrebita cabeça um pouco por todo o lado? O teu vizinho espanca a mulher e bate nos filhos? Pois bem, a raiz de todos estes problemas é económica.

A Economia investe forte e feio sobre o nosso quotidiano delirante, transformando coisas diferentes numa única e mesma merda. Ela justifica todos os desmandos e cauciona todas as malfeitorias. Não há moral, não há valores nem princípios que se sobreponham à questão fundamental: a riqueza material.

É este o caminho que trilhamos enquanto indivíduos e enquanto comunidade global. Temo que, quando chegarmos a algum lado, não encontremos o mundo do vinho e das rosas que nos querem fazer acreditar ser o lugar para onde nos dirigimos.

sábado, março 12, 2016

Ficções

As pessoas passam por mim. Altas, baixas, magras, gordas, umas com um sorriso, outras carrancudas, algumas com olheiras castanhas, outras luminosas e bem dispostas. Deslocam-se em todas as direcções.

Fico a pensar que cada um de nós vive a sua própria ficção e é a soma de todas estas ficções que constitui aquilo que imaginamos ser a realidade. Ou seja, a realidade é, apenas, a super-ficção que nos une a todos. E é também a realidade aquilo que nos divide e separa uns dos outros.

Não é lá muito bonito, mas parece ser o que se arranja.

quarta-feira, março 09, 2016

Pensamento vespertino

Por vezes chamo às coisas nomes que não sei se elas têm, Talvez porque procuro algo que sei ser impossível, talvez porque muitas coisas escondem o que não possuem. Seja como for, é um caminho que se faz pelo mero deleite de ser feito.

domingo, março 06, 2016

Adeus Cavaco

Aproxima-se o dia em que Cavaco Silva regressará ao nevoeiro de onde nunca chegou realmente a sair. Após tantos anos a ver a vulgaridade e a estreiteza de espírito ocupando a governação do país, como um vírus ocupa o corpo enfermo, chega, finalmente, a hora do adeus. Adeus Cavaco.

Eu nunca gostei de Cavaco. Posso mesmo dizer que sempre o detestei. Nos dias que correm vejo nele, apenas, um velhote meio senil, Já não sinto mais do que desprezo pela personagem.

Leio alguns artigos sobre o tema deste adeus português, as opiniões de certas figuras mais ou menos públicas, de jornalistas... parece haver uma cautela generalizada em classificar a longa penumbra cavaquista que obscureceu Portugal durante todos os anos em que Cavaco foi 1.º ministro e, depois, presidente da república. Todos dizem que é prudente deixar a História julgar o legado que este ser vivo deixa à nação portuguesa.

Fico a matutar no assunto. Irá a História colocar Cavaco numa prateleira mais ou menos dourada? Será a sua mediocridade transformada em virtude com o passar do tempo? É bem possível que tal aconteça e que, daqui a muitos anos, quando Cavaco for apenas mais um nome numa longa lista de personagens históricas, seja visto como um estadista cauteloso e frugal, um homem interessado em fazer de Portugal aquilo que o nosso país é.

A História enverniza, limpa e enaltece tanta gente que Cavaco não será, certamente, excepção. Por agora basta. Adeus, ó Cavaco.


segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Lamentosos

Ok, a mensagem parece meio parva e, sobretudo, descabida. O cartaz é fraquinho e vem fora de tempo. Mas as reacções que vai provocando estão de acordo com a qualidade do objecto: a igreja não encaixa, os PáFes tentam cavalgar o bicho e, pasme-se, até dirigentes do Bloco de Esquerda criticam com algum azedume o aspecto da coisa. Fico com a sensação de que os lamentosos, todos eles, pretendem lucrar algo com o respectivo lamento.

Os argumentos apoiam-se numa suposta falta de respeito pelos sentimentos dos crentes e provocação à igreja e, quem sabe, provocação à própria divindade (tema-se a Sua ira e não a dos seus representantes na terra).


Na minha óptica, as reacções de repúdio e censura ao cartaz do “Jesus também tinha 2 pais” são do mesmo género das que motivam os crentes islâmicos que matam e trucidam em resposta a semelhantes faltas de respeito à sua visão do sagrado, variando apenas no modo como se materializam. Uns matam outros lamentam mas, a vítima, num e noutro caso, é o direito à liberdade de expressão; morta a tiro ou apenas esbofeteada, é ela quem sofre com tanta parvoíce.

domingo, fevereiro 28, 2016

O tempo da Geringonça

Para quem se lembra do modo como vivia a maioria dos portugueses antes da Revolução: os elevadíssimos níveis de analfabetismo, a falta de saneamento básico, as taxas de mortalidade infantil, a baixa esperança de vida, a guerra colonial, a ausência de liberdades cívicas, mesmo na sua mais básica expressão… quem se lembra disto pode facilmente constatar que as “conquistas de Abril” não foram mera poesia esquerdista, foram uma inevitabilidade histórica. O salto civilizacional proporcionado pelo derrube do regime salazarista, então na sua versão primaveril, representado pelo Marcelo de serviço, foi gigantesco.

Passaram 40 anos e a coisa tem andado para a frente e para trás. A integração europeia trouxe mais democracia no início mas, nos tempos que correm, a democracia anda pelas ruas da amargura. O paradigma económico transforma-se em ditadura com o apoio político do Partido Popular Europeu.

Agora, em Portugal, temos um governo improvável, a já célebre Geringonça. É uma coisa esquisita que tenta, pela primeira vez em muitos anos, torcer a lógica do poder imposta pelo “arco da governação”. Com o apoio dos partidos de esquerda, a Geringonça tenta meter travões ao desvario direitista do “bom aluno” da Europa. O “bom aluno” que, numa lógica cavaquista, se destacava por obedecer em tudo à mestra, por não ter opinião nem o mínimo lampejo de rebeldia, por copiar tudo direitinho do quadro para a sebenta e, sempre que questionado, repetir palavra por palavra, sem se atrever a substituir uma vírgula que fosse, a lição mecanicamente decorada. Mudou o aluno mas a mestra mantém-se vigilante. Isto pede inteligência e engenho.

A Geringonça promete-nos uma outra Primavera. Num ambiente confuso e hostil, com Passos Coelho a prever todos os dias uma nova desgraça sempre que a desgraça anterior não se concretiza, Cavaco a desvanecer-se no nevoeiro de onde nunca saiu e Portas a fazer de conta que é um anjo da guarda a precisar de reforma, é tempo de repensar o que podemos fazer na recuperação do espírito democrático que animou a nossa sociedade nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Com a Geringonça no poder, parece reanimar-se o debate político.


É tempo de fazermos um debate sério sobre aquilo que estamos dispostos a prescindir enquanto indivíduos em favor daquilo que precisamos realmente de ganhar enquanto comunidade.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

A Europa definha

A União Europeia vai-se esboroando aos olhos de todos. O alargamento a Leste trouxe para a União uma mão-cheia de países onde a tradição democrática é encarada na ponta de um cacete. Velhos aliados enganam-se mutuamente, interessados apenas em manter os privilégios das classes dominantes. A globalização "amerdalhou" tudo. A Europa perdeu empregos e perdeu trabalho. As fábricas e os capitalistas fogem do centro da União em direcção à periferia e à Ásia em busca de mão-de-obra barata, quando não escrava. Por aqui restam a especulação financeira e um desemprego galopante.

Não há ideal que aguente. Vendemos a alma a troco de patacos. Imagino que seja a marcha da História. A Europa definha, a China e a Índia parecem emergir do "merdalhal", apesar das incomensuráveis legiões de pobres e explorados que pululam nos respectivos territórios.

Até quando tudo isto irá continuar neste equilíbrio precário, antes de desabar com estrondo e poeirada? Haverá uma guerra no fim destes tempos?

sábado, fevereiro 20, 2016

"Os mercados"

De que são feitos "os mercados" que se assustam e enervam com algo tão inofensivo como o governo de António Costa num país insignificante como é Portugal e parecem impávidos e serenos com a cavalgada heróica de Donald Trump na corrida à candidatura do partido republicano para a presidência dos EUA?

Que aspecto terá essa coisa, "os mercados", qual o contorno do corpo que encerra a sua alma? Todos sabemos qual o aspecto de Deus, mostram-no inúmeras obras de arte, moldou-O a imaginação dos artistas. É um velhote enxuto, de longas barbas e cabelos brancos. Tem o aspecto devido ao que imaginamos que Ele é.

E "os mercados" que se sentem confortáveis com as guerras, com a miséria, com o enriquecimento selvagem dos vampiros, que não têm sentimentos, nem nada que se assemelhe a bondade? Quem lhes faz o retrato?

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Sonambulismo

Continuo a sentir uma emoção particular quando a questão é o meu povo. Refiro-me ao povo que conheci na minha infância, ao povo de que ainda faço parte. O povo da minha aldeia. Um povo medroso, petrificadamente religioso, um povo que por não compreender nada aceitava Deus como finalidade absoluta da sua existência.

Na minha meninice tinha pesadelos terríveis nos quais o Diabo me perseguia e eu corria, desenfreado, fugia sempre em frente com quanta força tinha, com a força que só somos capazes de encontrar nas profundezas do sonho, quando o sonho se transforma em pesadelo.

O mundo mudou, o meu povo transformou-se e o Diabo deixou-me em paz no dia em que deixei de acreditar nele. Agora vivemos todos num mundo melhor.

O Diabo deixou-nos em paz mas não morreu. O cabrão está bem vivo. Ele come tudo e não deixa nada.

Andamos adormecidos; a miséria deu lugar a alguma folga, já não andamos descalços no Inverno nem comemos batatas todos os dias acompanhadas por uma cabeça de sardinha meio apodrecida. Agora temos McDonald's e Coca-cola, temos centros comerciais e carros a prestações mas continuamos a ser os mesmos.

É urgente despertar.

domingo, fevereiro 14, 2016

Domingo

Os últimos dias têm sido complicados. A chuva cai furiosa acompanhada por ventos doidos como gatos com cio. Portugal está meio submerso; cheias, derrocadas, árvores que resolvem ir passear sem avisar ninguém, o mar que parece querer entrar terra dentro.

Hoje resolvi ir ao cinema ao centro comercial. Fui à sessão das 12h45m ver os "Oito Odiados" de Quentin Tarantino. Filme estiloso, duraço, com sangue q.b., diálogos cheios de humor e um argumento razoavelmente imaginativo. Enfim, um filme de Tarantino no registo seguro a que o cineasta nos tem habituado.

Quando o filme acabou (por volta da 16 horas) saí da sala com a intenção de passar pelo supermercado e comprar umas provisões que me fazem falta na despensa. Assustei-me! As filas para entrar nas salas de cinema tinham dimensões bíblicas, a quantidade de gente que serpenteava nos espaços de circulação deixou-me ansioso.

Desci a escada rolante decidido a sair dali para fora, as compras podiam esperar... tanta gente! Lá fora o sol surpreendia pelo vigor do seu brilho. Desloquei-me rapidamente me direcção ao meu carro e vim embora. Que susto.

A chuva regressou, com ela o vento dançante. O céu escureceu tremendamente. No centro comercial decerto continua tudo na mesma. As pessoas parecem ter ido todas para dentro daquele lugar, as ruas estão quase desertas e brilhantes de água que escorre pelas costas do mundo.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Momento (quase) bucólico

A paisagem tem tantos tons de verde! Verde-quase-esmeralda, verde-quase-preto, verde que é silhueta de árvore a recortar-se no céu, a recortar-se no cinzento majestoso de um céu carregado de nuvens que chovem devagarinho na paisagem.

A paisagem tão bonita, tão repleta de verde e do brilho de cores que não têm nome. A paisagem está tão triste e, no entanto, tão bonita.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Nuvem

É estranha a sensação de haver nuvens escuras a tapar-te o futuro. A sensação de que o frio morde a tua garganta infectada pela mentira. Baixas a cabeça mas ela teima em olhar para cima, a tua cabeça não te obedece. É estranha esta sensação de que o mundo é como um bicho e que o mundo está agachado, à espera. E, enquanto espera, caga.

É estranha a sensação de que as mulheres são o animal mais belo de toda a Criação e que Deus terá errado em muita coisa mas não quando enterrou as unhas no lombo de Adão para lhe sacar a tal costela.

Desvias o olhar mas os teus olhos rodam sobre as órbitas do Mundo e colam-se a ver o que preferias evitar saber que existe. Abanas a cabeça mas as imagens não sofrem nada, as imagens estão fixas; uma imagem vale mais que mil palavras mas mil palavras raramente valem mais que nada.

É estranha a sensação de haver nuvens tão escuras a sobrevoar-te o espírito. Quase tão estranho quanto essa extraordinária sensação de seres nuvem.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Valores europeus

Alarme, alarme!!! O investimento captado pelos "vistos gold" caiu a pique no último ano. A diminuição do investimento no nosso país por parte de estrangeiros podres de ricos que compram o direito a habitar-nos incomoda todos aqueles que fazem disso um negócio lucrativo.

Por outro lado, não há motivo para alarme, são poucos os refugiados que procuram o nosso país deliberadamente. Ninguém se preocupa com isso. Para miseráveis chegam bem os que por cá já temos.

Ou seja: quem tem dinheiro é bem-vindo, quem não tem pode bem ir pregar para outra freguesia. É esta a Europa de Valores que gostamos de sacar da cartola quando queremos ludibriar papalvos de outras culturas?

domingo, janeiro 31, 2016

Domingo, na paz do Senhor

Andamos a bater mal da cabeça. A Europa parece, cada vez mais, um bicho imundo. A esquerda confunde-se com a direita e vice-versa. A economia é uma coisa porca, a civilização é "civilização".

Não sei se por excesso de informação, a coisa má agiganta-se e mostra-se furiosa, fora de controlo. Diz o povo que "olhos que não vêem, coração que não sente" e a igreja abençoa os pobres de espírito, talvez a ignorância seja, afinal de contas, uma benesse para a alma.

O tempo cinzento e pouco luminoso acentua a sensação de desgraça permanente. Uns raiozinhos de sol talvez animassem esta merda.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Cultura amestrada

Li uma pequena entrevista com Don Letts onde ele afirma uma coisa muito interessante que, apesar de óbvia, precisa de ser dita.

Diz ele: "Tens a cultura que mereces. Possivelmente as aspirações dos jovens de hoje são muito diferentes das dos jovens quando eu estava a crescer. Entrámos na música para ser contra o estabelecido. Agora, muita gente entra na música para ser parte do establishment. No século XXI, a cultura ocidental tornou-se muito conservadora. Parece que o punk nunca aconteceu. (...)" (ler aqui toda a entrevista)

Isto dá que pensar. Vivemos num mundo de artistas amestrados? Haverá ainda espaço para a revolta cultural, para o manifesto, para a afirmação de visões colectivas através da criação artística? Deixámos que a cultura se transformasse numa coisa anódina, lisinha e liofilizada?

domingo, janeiro 24, 2016

Uma manhã qualquer na ex-capital do império


Os livros são caríssimos! Puta que pariu.

O povo frequenta o Centro Comercial com um fervor apenas comparável ao que me recordo de presenciar na Igreja, quando era puto.

Gostava de comprar meia-dúzia de livros mas vou ficar-me, apenas, por um.

Este sol de Inverno é uma coisa magnifica. O ar está friozinho e o sol não chega a aquecer. Gosto disto.

O meu povo é um tanto macambúzio.

Dizem alguns que se prepara uma crise económica mundial capaz de fazer estragos definitivos neste mundo globalizado. Não vejo ninguém preocupado com isso.

O povo anda por aí, serenamente. Também gosto disso.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Declaração

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um (para poupar munições), digo-o por mim, digo-o por ti, mas também por Strummer, por Zeca, por Bowie, por Mozart, por Amália, por todos os outros que fizeram música maravilhosa; por Camões, por Shakespeare, por Tolstoi, por Tchekov, por Calvino, por Bolaño, por Cervantes, por todos os que inventaram o mundo das palavras; digo-o por ti, pelos teus, pelos meus e também por Bosch, por Goya, por Giotto, por Bacon, por Basquiat, digo-o por todos os que encontram a liberdade a cada momento.

Digo-o por Cristo, por Maomé, por Buda, por todos os profetas mais ou menos obscuros, por todas as personagens de fábula, de lenda, de mito, pela liberdade de expressão e pelo direito a calar boca.

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um digo-o por ser incapaz de aceitar que esta cultura de que faço parte possa alguma vez desaparecer subjugada pela força da estupidez e da ignorância.

Isto não se aplica exclusivamente aos assassinos do estado islâmico e a bala pode ser metafórica. O focinho não.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Pensamento matinal

As pessoas não são todas iguais mas talvez pudessem ser um bocadinho mais diferentes umas das outras. Apesar de tudo, o senso comum não me parece assim tão repelente, bem pelo contrário.

Estarei a contradizer-me? Temo bem que sim mas não tenho a certeza. Há que considerar a liberdade individual... há que ponderar os limites da estupidez e da sageza... há que tomar um café e ir trabalhar.

domingo, janeiro 17, 2016

Educação


Quando o tema é o futebol, sabemos bem, surgem milhentos “treinadores de bancada”, entendidos, capazes de engendrar as estratégias mais imprevistas e criativas que teriam impedido a derrota, que teriam potenciado a vitória à quinta casa ou seriam capazes de engalanar o empate com credenciais de feito extraordinário, o empate como sucesso último de uma inquestionável visão de futuro. Somos um país de poetas e de treinadores de futebol.

Mas, pasmemos cidadãos, há outro tema capaz de espevitar em todos nós uma inteligência adormecida, uma inteligência que aguarda indolentemente a mais leve oportunidade para espreitar a luz ofuscante de um prometido dia solarengo; falo da educação.

Quando o tema é “educação”, os especialistas, os profetas, os entendidos, saem debaixo das pedras a um ritmo próximo da alucinação. Sejam professores, catedráticos (ou nem por isso), comentadores mediáticos anquilosados, chefes de redacção sem assunto, políticos entediados, presidentes de junta, gente de maiores ou menores vistas, cidadãos anónimos chateados com a nota do seu educando no último teste realizado em contexto escolar, meros repórteres a quem foi distribuída a tarefa, ficamos confusos perante a insana capacidade de emitir opinião demonstrada pela sociedade portuguesa em tão complexo tema. Talvez por isso, a política de educação em Portugal continua a fugir para a frente de si mesma, sempre em passo acelerado, capaz das cabriolas mais estonteantes, aos saltos para trás, aos saltos para a frente, qual cabrito-montês perdido numa imensa planície.

O novo ministro da coisa veio desembestado, em sintonia com o seu predecessor, na linha de Maria de Lurdes Rodrigues: desfazer o que foi feito, fazer o que já tinha sido experimentado, numa confusão de gestos e intenções que, verdade seja dita, não traz nada de novo, apenas sublinha a proverbial confusão em que mergulham as mentes mais iluminadas quando o tema é “educação”. Acredito nas boas intenções de Tiago Brandão Rodrigues, tal como acreditei, à partida, em Nuno Crato. Mas, tal como o anterior ministro, também este tropeça nas próprias intenções, uma e outra vez, vem cambaleante ameaçando estatelar-se ao comprido.


A Educação não é coisa que se resolva de um dia para o outro. Qualquer medida implementada precisa de tempo para ser testada. Será isto difícil de compreender? Poupem os professores a esta girândola maluca que é a produção de legislação educativa. Até se me torce a língua, mas apetece dizer: “deixem-nos trabalhar”! Não façam de nós os palhaços deste vosso triste circo.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Feliz aniversário

O dia de aniversário é como o dia de Carnaval: um gajo tem de estar bem-disposto, prontinho a entrar em estado de euforia, cantarolar, rir, dançar, dizer alarvidades inocentes. Dias assim deixam-me deprimido.

Se por acaso acordamos com propensão para a melancolia e não nos apetece celebrar há sempre alguém que vai ficar chateado, que mostrará decepção e tristeza. Por vezes há mesmo quem mostre irritação.

Tu estás triste quando deverias estar eufórico, derramas tristeza sobre a euforia, fazes com que as coisas amoleçam, derretam, se desfaçam.

Mas qual é o teu problema, caraças!? Feliz aniversário, mas é. Deixa-te de merdas.
Pois sim, já me tinhas dito.
Obrigado.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie

Hoje de manhã entrei no meu carro e liguei o rádio. Eram 8 horas e o noticiário na TSF abriu com  Space Oditty de David Bowie. Estranhei: "que raio de coisa, o homem edita um novo álbum e abrem o noticiário com um tema tão antigo..."

Estacionei e ouvi até ao fim para tomar conhecimento que Bowie morrera durante a madrugada (acho eu). PORRA!!!

Há pessoas que não imaginamos mortas.
Há pessoas que, imagino eu, não morrem.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Fraqueza genuína

Às vezes apetecia-me ser capaz de odiar com a profundidade necessária à sensação de ódio. Tenho a impressão de não ter desenvolvido essa competência.

Sempre que me imagino a odiar alguém lá vem aquele bonequito do anjinho poisar-me no ombro a sussurrar-me no ouvido coisas que me impedem de sentir um genuíno ódio, tão necessário à higiene mental de qualquer cidadão ocidental contemporâneo. O diabito recolhe-se, amuado, e não diz mais nada.

Estarei tão amolecido que nunca ultrapassei a fase "bebé", no que diz respeito à capacidade barbuda de desejar enfiar um garfo no globo ocular de qualquer óbvio filho da puta? É triste.

Ensaio olhares matadores sobre o meu reflexo no espelho da casa de banho. Cerro os punhos, ranjo os dentes mas... nada. Na verdade sinto-me a derreter a frio, sinto uma inexplicável incapacidade para rachar o espelho de alto a baixo num gesto de fúria incontida, justificada e, acima de tudo, um gesto de fúria genuína. Sou fraco.

Eu gostava de ser capaz de matar, quereria ser capaz de estropiar, cegar, esventrar e cagar em cima dos cadáveres ainda fumegantes dos meus inimigos. Mas não, nada disto é real, nada disto obedece ao mínimo sentido lógico.

Sou um fraco.

Se não tenho cuidado ainda acabo a oferecer uma outra face a um gajo que me tenha espetado uma faca no fígado.

terça-feira, janeiro 05, 2016

Autoria

Vai por aí uma certa polémica relacionada com a suspeita de que algumas obras atribuídas a Hyeronimus Bosch não serão da sua autoria. É uma questão complicada que merece, pelo menos, um sorriso.

Os argumentos apresentados por quem rebate a mão do mestre nas ditas obras baseiam-se, tanto quanto pude compreender, na observação do estilo do desenho ou na técnica da pincelada. Que são diferentes nestas obras quando comparadas com outras, assinadas. Acredito piamente.

A minha dúvida (e o meu sorriso) desprende-se da constatação de que um artista muda e evolui. Ninguém é constante ao longo do trabalho de uma vida. Outro ponto interessante é que o material acaba e, por vezes, experimenta-se outro. Ainda para mais, na época em que Bosch trabalhou, era nos ateliers que os artistas produziam os materiais com que trabalhavam, não existiam marcas de produtos artísticos à venda em grandes superfícies comerciais.

Enfim, esta treta toda para reflectir um pouco sobre a importância da autoria numa sociedade de consumo descontrolado, como é a nossa.

As obras referidas (3 que estão no Museu do Prado, em Madrid) foram, até hoje, admiradas como fazendo parte do legado extraordinário que Bosch deixou à Humanidade. Além dessa qualidade, por serem atribuídas ao Mestre, valiam milhões, o seu preço era incalculável. Convenhamos que, nos dias que correm, este é um factor determinante para a qualidade do que quer que seja. Se não é de Bosch, o valor em euros cai a pique, logo a qualidade da coisa cai ao lado.

Assim sendo, a partir do momento em que perderem o nome de Bosch, estas obras passam a ser uma merda? Estou-me bem a lixar se o trabalho é deste ou daquele. A qualidade está lá, na superfície pintada, na energia que emana da pintura, na magia do objecto. O nome, a assinatura, não passam de pormenores.

domingo, janeiro 03, 2016

Bom ano de 2016

Ora então, cá estamos nós.
É com isto que se parece 2016? Noto-lhe bastantes semelhanças com 2015 e, eventualmente, algumas diferenças significativas. O tempo a passar é como fumo dentro de uma garrafa de vidro.

Sinceramente, não tenho desejos especiais para 2016 que não tenha tido já em anos anteriores. Afinal de contas os nossos anseios não se alteram assim tanto quando mudamos o calendário por outro, novo, com os quadradinhos dos dias todos por preencher. O tempo a passar é como uma linha mais ou menos recta.

Gostava de poder manter uma certa serenidade que tenho sentido dentro de mim. Será isso o bastante para provar a mim próprio que o mundo está melhor? A minha relação com o mundo pode alguma vez servir de bitola para medir a amplitude da sua saúde? É óbvio que não. A única saúde que essa serenidade poderá anunciar será a minha o que, do meu ponto de vista, até nem é coisa que me aborreça.

Que te sintas também sereno e de bem com as coisas que te rodeiam, é o que te desejo, amigo leitor.
Bom ano de 2016.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Fim de ano

2015 vai dando os últimos suspiros. Estes dias finais são estranhos. É como se  o calendário tivesse poderes mágicos, como se os dias obedecessem a números alinhados num papelito. Nada mais errado. São dias como os outros.

Morreram-me dois amigos nestes dias. Inesperadamente, foram-se como o vento. Desapareceram. 2015 acaba negro e frio. Para o António e para o Marcelino foi o fim da vida. O ano acaba negro e frio.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Carta de agradecimento

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica”; finalmente Cavaco conseguiu produzir uma ideia com alguma substância. Como é costume, vou tentar perceber o que quer ele dizer com isto.

Parece-me evidente que Cavaco Silva pretende dizer-nos que a realidade é constituída em partes iguais por economia e finança, sistema bancário e sistema monetário. Esta fórmula da realidade esmaga qualquer tentativa de fazer com que a ideologia, seja ela qual for, possa sair da sua Caixa de Pandora e venha desorientar as opções de vida das pessoas. Cavaco explica-nos algo que ele já interiorizou há muito, muito tempo: a realidade materializa-se em números e tabelas, fórmulas de cálculo e gráficos com setinhas. Tudo o mais são contos infantis, como disse um dia Pedro Passos Coelho.

Cavaco e Passos conhecem bem a realidade. Graças a eles a economia e a finança, o sistema bancário e o orçamento de estado têm sido, no nosso país, protegidos dos ataques descabelados da ideologia, mantendo-se ancorados na firmeza do mundo verdadeiro. Graças a eles a realidade é o que todos, agora, sabemos.

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica” pode muito bem constituir um precioso legado que Cavaco nos deixa antes de se retirar da vida política; ele que sempre desprezou os políticos e amou, apenas, os economistas, os empresários corajosos e os gestores bancários; acima destes apenas Deus, Nosso Senhor. Não esqueçamos este ensinamento luminoso vindo de um homem presciente que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, um homem que não se importa de ser o Sr. Silva, este estadista visionário, modesto e imbuído de um abnegado espírito de missão que o levou a oferecer os melhores anos da sua vida à causa pública.

Termino esta carta agradecendo a Cavaco tudo que ele fez por nós: a boa governação, a honestidade acima de tudo, a sua extraordinária capacidade para entender a realidade, que tantos dissabores poupou ao bom povo português, que, com um fervor quase religioso, repetidamente lhe pôs nas mãos a bússola e o leme da Nação.


Obrigado Cavaco. Bom Natal. Depois podes ir-te embora de vez. Não precisas de voltar.

domingo, dezembro 20, 2015

Salvação

Anda toda a gente em busca do caminho da salvação de alguma coisa.
Uns procuram a salvação da alma, outros a salvação das suas economias, outros ainda desejam ardentemente salvar o que resta do dia que estão a viver, e assim por diante.

A ânsia de salvar qualquer coisinha faz-nos desejar que Deus esteja connosco, que Deus nos ame e nos apoie, gostamos de pensar que somos justos e que os nossos anseios sejam puros dentro dos limites que o nosso imaginário impõe à realidade.

Quando digo Deus, estou a referir-me a algo em que acreditamos sinceramente (ou nem por isso), os tais limites éticos, estéticos ou de outra natureza, com que embrulhamos a vida que oferecemos ao nosso corpo e à nossa alma.

A Fé não necessita obrigatoriamente de uma figura barbuda montada numa nuvem branquíssima, apoiada por uma legião de anjos especializados em diferentes tarefas. Deus assume as formas mais variadas.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Uma estranha figura

Era um gajo com a pele muito em cima dos ossos, magro, com uma cor amarelada, parecia talhado em cêra. Tinha o cabelo encrespado, puxado para trás, como se um vento maligno lhe soprasse incessantemente na testa. Os olhos muito abertos, como os de um pássaro acabado de sair do ovo, saltavam de jornal em jornal, no escaparate da tabacaria, junto ao cais de embarque.
Que estranha figura, pendurada num esqueleto alto e recurvado. Balançava o corpo perigosamente, podia desabar a qualquer momento. Que estranha figura!

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Dia sem princípio (nem fim)

Há dias assim, dias em que estar acordado parece resultar no prolongamento do sono, na materialização do pesadelo (que até começara por ser um sonho com muitos tons de rosa), pesadelo que agora se interrompe. Olá, bom dia.

O café parece não ser mais que um vago sabor no confins do céu da boca, o jornal um dejà vu, os passos na escadaria em direcção à rua ecoam na memória, as frases que crescem na ponta dos dedos são pomposas e não aguentam uma questão que as ponha em causa. Mesmo que seja uma questão de merda, tipo: que merda é esta?

Há dias assim, dias que parecem nunca mais começar, dias em que as coisas são chatas porque não há volta a dar-lhes, dias que, caso cheguem ao fim, será lá mais para o fim-do-mundo.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Sonho de uma manhã de Inverno

Por vezes penso: "sonham as coisas mortas?"; se algumas das vivas sonham com a morte, será que as mortas sonham com a vida? Uma pedra que gostasse de ser corvo ou um um grão de areia que desejasse tanto vir a ser presidente da república que havia de se transformar em montanha.

Lembro-me bem de ficar a olhar muito, muito tempo, a fitar calhaus que pareciam outras coisas, coisas escondidas dentro da rigidez da pedra, mas que nunca se revelavam completamente. Se eram coisas mais verdadeiras que a minha imaginação, então eram mais espertas que os meus olhos e guardavam-se, quietas, lá no fundo daquilo que realmente eram. Nunca as cheguei a ver, só as imaginei.

Nos dias que correm encontro, de vez em quando, seres fantásticos, saídos nem sei bem de onde. Aparecem assim, vindos do nada; são visitas que não gostam de chá nem têm tempo para se sentarem à conversa. Serão estes seres desconcertantes aqueles que se escondiam no dorso e no fundo dos calhaus da minha infância? Seres que voavam nas alturas dos pinheiros com o sol a doirar-lhes as formas indistintas?

O que interessa isso? Que interesse pode ter quem eles são? Gosto de pensar que são os sonhos das coisa mortas que ganharam vida. E gosto de pensar que sou eu quem lhes dá essa vida que ganharam, eu, pequeno deus, feito homem na minha imaginação.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O meu problema com a direita

O meu problema com a direita tem diversas fontes de alimentação. Por exemplo, causa-me problemas a postura dos defensores da troika Passos-Portas-Cavaco quando confrontados com o governo de Costa. Passada a lamentação patética da suposta ilegitimidade do novo governo, o discurso dos simpatizantes da PàF alerta-nos para uma putativa incapacidade da esquerda para governar o país. Num tom que oscila entre o alarmista e o jocoso, sugerem que, com Costa ao leme, a Nau Catrineta que é a nação portuguesa irá encalhar e naufragar, levada nas vagas alterosas do mar da TINA (ou o NHA- Não Há Alternativa, como designou João Miguel Tavares o mundo impiedoso em que vivemos). 

Para que este alerta pudesse ter alguma validade seria necessário que o governo da troika Passos-Portas-Cavaco fosse minimamente sério ou minimamente competente. 

À medida que os dias vão passando e a troika Passos-Portas-Cavaco vai perdendo o pulso sobre as notícias que chegam até nós, percebemos que o seu governo não era uma coisa nem outra. Percebemos como esse governo se assemelhava mais a coisa nenhuma, que foi uma treta; que não há IVA para devolver, que o desemprego afinal não definha, que a economia abranda… despida de propaganda a troika Passos-Portas-Cavaco revela-se escanzelada, feia e repulsiva, até para alguns dos direitistas mais encartados.

O meu problema com a direita é também alimentado pela constatação de que a troika Passos-Portas-Cavaco mais não foi (mais não é) que um instrumento para eternizar as desigualdades sociais, contribuindo mesmo para a sua agudização. Veja-se a forma como as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres se vêm acentuando nestes tempos de crise, como se nacionalizaram os prejuízos e se privatizaram os lucros das empresas públicas. Eu sei que este processo vampírico tem tido a colaboração do Partido Socialista. É precisamente por isso que a solução governativa agora encontrada traz consigo a esperança de que as coisas sofram uma inversão acentuada. Com o Bloco e o PC à perna, o PS terá de se comportar como o partido de esquerda que afirma ser e não como o partido de direita que tem sido, limitando o apetite dos seus clientes quando se aproximam da gamela do poder e açaimando as feras mais gulosas.


O meu problema com a direita tem também a ver com a mania de que acreditar na Utopia é o mesmo que acreditar num conto de crianças. Erro. A Utopia é um conto para adultos, da autoria de Thomas More que, tal como o Capuchinho Vermelho alerta as meninas para os perigos da pedofilia, nos alerta, a nós “cidadões”, para os perigos da desigualdade na divisão da riqueza. 

Finalmente, o meu problema com a direita da troika Passos-Portas-Cavaco é ela ser tão sobranceira, rasteira e ignorante, que só é capaz de pensar em economia e, ainda por cima, erradamente.

sexta-feira, novembro 27, 2015

Dúvida

Há pessoas que nunca conseguem deixar de ser tristes. Outras são más, todos os dias das suas vidas. Outras são tão boazinhas que acabam com um rótulo de "santo" colado na testa. A maioria é mistura destas três com outras tantas que atrás não mencionei.

Somos o que somos, o que fazemos de nós, o que outros de nós fazem. Andamos uma vida inteira embrulhados nos dias que vivemos, a tentar encontrar um motivo para que o tempo a rodar não nos deixe tontos nem imbecis nem demasiado qualquer coisa que não nos está a passar pela cabeça.

Há espaço para todos... quero dizer, para quase todos, porque, para assassinos não encontro razão suficiente que possa justificar o ar que respiram.

Que fazer com um assassino? Esta dúvida haverá de roer a minha humanidade durante todos os dias que levar a arrastar as botas pelas costas deste mundo.




domingo, novembro 22, 2015

Relevância individual

Parece-me que a aspiração máxima da maioria das pessoas é sentirem-se relevantes. Não precisam de sentir-se muito relevantes, um bocadinho relevantes já é bom. Algo próximo dos célebres "5 minutos de fama" que Warhol sonhava ser o futuro de cada um de nós, numa sociedade hipermediatizada.

A senhora que fala da vida da vizinha do rés-do-chão apenas quer sentir-se relevante no dia da vizinha do 2º andar, que a escuta muito interessada na história. Tão interessada se mostra a senhora do 2º andar que a outra se sente impelida a juntar uns pozinhos de imaginação delirante e a pobre vizinha do rés-do-chão ganha contornos de monstro estranho. Mais tarde haverá espaço para algum remorso mas isso... só mais tarde.

O líder que ganha o respeito do seus seguidores por ter mostrado músculo e vontade de agir sente que, de súbito, a sua relevância cresceu de modo extraordinário. Agora não há como voltar atrás sem perder relevância. Assim, enebriado pelo amor que sente desprender-se dos que o admiram, o líder avança cada vez mais depressa em direcção ao que poderá vir a ser um desastre. E depois? O seu desejo de ganhar mais e mais relevância aos olhos dos que esperam dele o mundo, a lua e mais qualquer coisa... essa coisa que deitará tudo a perder, faz com que ele lidere com maior empenho ainda.

Os exemplos iriam por aí abaixo mas bastam a coscuvilheira e o líder carismático para justificarem este meu pensamento matinal: a maioria das pessoas só pretende sentir-se um pouco relevante. Não precisa de sentir-se muito relevante, um pouco basta.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Coisas que batem

Hoje apetecia-me ter opinião sobre qualquer coisa assim, qualquer coisa que normalmente não me ocupe muito o espírito. Queria saber dizer coisas inteligentes sobre o pão alentejano ou reflectir com critério sobre as poças de água depois da chuva cair.

Gostava de poder limpar a porcaria que me vem à cabeça como uma enxurrada a empurrar, de forma imparável, incontrolável, a empurrar o meu cérebro para o mar; um mar terrível, mar morto e repleto de cadáveres de seres que devia albergar mas não consegue evitar matar.

Hoje não rejeitaria a possibilidade de discutir futebol com alguém que não seja capaz de pensar para lá da biqueira das botas. Se a oportunidade se me oferecer vou agradecer essa graça a Deus, Nosso Senhor. Beber uma cerveja fresca e falar de futebol com pessoas menos inteligentes do que eu, é uma aspiração, um projecto de vida como outro qualquer.

Gostava de poder evitar ser assaltado por imagens e ideias que me querem roubar o sossego e deixar-me mais pobre de felicidade. Hoje sinto-me avaro de felicidade. Não quero oferecê-la, não quero perdê-la, hoje quero guardá-la para mim. Quero sentir-me feliz mas... lá está a tal imagem, a tal ideia, o tal facto, a bater, a bater, a bater na porta do meu coração, a bater na porta do meu cérebro, a bater na minha vontade, a bater, a bater, a bater.

sábado, outubro 31, 2015

Rastejantes

Há uma paz podre que alimenta larvas e insectos rastejantes. Esta bicharada, acostumada a encher a boca com os detritos do costume, agita-se, patinhas nervosas, antenas a espadanar, barrigas a raspar o soalho em rápidos movimentos curvilíneos, sempre que tem a sensação de que virá alguém limpar a porcaria de que se alimentam.

O problema, argumentam estes seres rastejantes, é que ninguém poderá garantir que o corpo decrépito e apodrecido que lhes garante sustento, venha a ser substituído por outra coisa que os mantenha vivos e em ascenção permanente. O mundo húmido e penumbroso no qual progridem está posto em causa. Não admitem luz que os venha a repelir.

Assim se passam os dias.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Esperança

Há quem deposite todas as suas esperanças em coisas que não valem nada. Os desesperados, os miseráveis, os ingénuos, os frágeis e os mais frágeis entre os mais frágeis, aqueles a quem a sorte e os poderosos não reconhecem capacidades para serem considerados seres humanos, precisam de algo ou de alguém que lhes possa dar um pouco de esperança.


domingo, setembro 06, 2015

Peito feito

É na próxima 6ª feira, 11 de Setembro, data de má memória para este mundo que tento meter dentro das coisas que faço. É na próxima 6ª feira que tenho marcada a inauguração de uma exposição com trabalhos da minha autoria. Pinturas, fotomontagens em photoshop, desenhos, colagens, objectos que criei ao longo de anos. As datas não interessam para nada.

O local é o foyer do Teatro Estúdio António Assunção, em Almada. Não é um espaço particularmente nobre. Mas eu também não sou nenhum princípe das artes. Quero que se foda. Só quero apresentar algo que seja digno de ser apresentado, que me faça justiça, que mostre como sou um gajo empenhado nesta merda.

Mas porquê? Porque faço a exposição? Porque sou um gajo empenhado nesta merda? As perguntas são fáceis, as respostas nem por isso. Será tudo isto fruto de uma mera e intensa vaidade?  Se me ponho a matutar demasiado nestas questões traiçoeiras acabo agarrado à cabeça, cotovelos apoiados na mesa e olhos fechados para não ver nada que esteja fora da minha mona.  O equivalente ao mito da avestruz com a cabeça enterrada na areia.

Vou espalhando objectos pelo atelier. Ora sinto uma forte convicção, ora sou amolecido por uma sensação merdosa de que tudo isto não serve para nada. Mas as coisas são o que são e os compromissos, para mim, são tudo. Comprometi-me a montar esta exposição. Portanto está tudo dito.

Não há tempo para dúvidas nem para questões retóricas nem para filosofias covardes. Agora trata-se de seleccionar e montar os objectos. É isto que eu vou fazer. O resto... o resto logo se vê.

terça-feira, setembro 01, 2015

O Arco da Governação

Em Portugal existe uma coisa terrível chamada “arco da governação” que é um artefacto transformador de políticos. O “arco da governação” funciona como uma espécie de portal entre o mundo das boas intenções e o universo da política pura e dura. Ao atravessar este arco, pessoas honestas são, quase sempre, transformadas em aleijões morais. Outros (Miguel Relvas ou José Sócrates, por exemplo) não sofrem a mínima alteração.

Quando um político atravessa o “arco da governação” e dá por si naquele instável universo, onde Não Há Alternativas (NHA), faz coisas extraordinárias tal como Kal- El debaixo de um sol amarelo se transforma no Super-Homem. Lembremos quando “Telmo Correia assinou cerca de três centenas de despachos como ministro do Turismo na madrugada do dia em que o novo executivo, liderado por José Sócrates, foi empossado (…) (Público,3/2/2008). Já refeito deste assomo de actividade frenética, Telmo é hoje um homem ponderado e recuperado para a boa governação. Podemos vê-lo com frequência a perorar sobre os mais variados assuntos num canal de TV noticioso. 

Tal como Bagão Félix que teve um momento de vertigem que levou “(…) Souto Moura [a encarregar o procurador-geral adjunto Azevedo Maia] de esclarecer os contornos do negócio (a adjudicação do Siresp) que os ex-ministros da Administração Interna e das Finanças, Daniel Sanches e Bagão Félix, respectivamente, assinaram três dias após as eleições legislativas de 2005. (Público, 14 /11/2006). 

Quem vê, nos dias que passam, Bagão Félix a emitir as suas pias opiniões no tal canal de TV ou aqui no Público, tem dificuldade em compreender que raio de coisa lhe terá passado pela cabeça naquela época conturbada para ter adjudicado o negócio, em Fevereiro de 2005, por 538 milhões de euros. É certo que por lá andavam metidos Dias Loureiro e Oliveira e Costa, à época “pessoas de bem”, conforme nos assegurava Cavaco e Silva, mas… valeu-nos o então novel ministro da Administração Interna, António Costa, que, recorrendo aos poderes adquiridos ao transpor o “arco da governação”, acabou por adjudicar o “Siresp ao único consórcio candidato, retirando algumas funcionalidades ao sistema, que desta vez custou 485,5 milhões de euros (Público, 14 /11/2006); ah, valente! Ainda assim, o Estado português acabou com um ruinoso negócio em mãos Investindo “(…) cinco vezes mais do que poderia ter gasto se tivesse optado por outro modelo técnico e financeiro.” (Público,2/6/2008) negócio que ainda hoje andamos a pagar com língua de palmo.

Há tantos outros casos que poderíamos recordar (oh, o clássico das 61 mil fotocópias, o aeroporto no deserto “jamais”, a Lusoponte…) mas penso que fica provado que o “arco da governação” é uma armadilha mortal para a honestidade dos animais políticos. 

sexta-feira, agosto 28, 2015

Zelo

Raras vezes a expressão “greve de zelo” foi aplicada com tão grande propriedade como na greve que os sindicatos da PSP puseram recentemente em prática, protestando contra a lentidão do governo em lidar com as suas reivindicações de classe. 

Os sindicalistas explicaram que as forças policiais iriam, durante a greve, adoptar uma atitude pedagógica em contraste com a habitual atitude repressiva, esperando, desta forma, pressionar o governo no sentido de satisfazer as suas pretensões. Ou seja, por um curto período de tempo, as forças policiais irão zelar, de facto, pelo cumprimento das leis, suspendendo a sua implacável prática da caça à multa e cassetete no toutiço, com que normalmente reprimem os cidadãos no quotidiano.

Mário Andrade, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia afirmou (conforme a capa de “O Polícia”, boletim informativo do sindicato, de Dezembro de 2014) “Os direitos dos polícias estão acima de tudo!”. Isto é muito grave e contraria nitidamente a afirmação de que a “PSP tem por missão assegurar a legalidade democrática, garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos, nos termos da Constituição e da lei” conforme podemos ler no site da instituição. Qual é, afinal, o papel da PSP?

Bem sei que estamos longe dos polícias analfabetos, fardados de cinzento, com os botões de latão a saltar-lhes na pança e os bonés encarrapitados no alto de cabecinhas malévolas, como era de lei nos tempos da “outra senhora”. Hoje, a formação da maioria dos agentes, fardados de azul e com elegantes bonés tipo baseball, é mais do que suficiente para que tenham uma atitude cívica condizente com o que se espera de uma força de segurança numa sociedade democrática. No entanto, este episódio aparentemente inócuo, mostra bem que, entre o que se diz e o que se pratica, há um enorme gato escondido com muito mais do que o rabo de fora.

É por estas e por outras que, apesar de me considerar um cidadão respeitador da lei e de não ter razões para recear contactos com as forças policiais, ainda hoje, quando vejo um polícia fardado, não consigo evitar que a primeira coisa que me vem à cabeça seja a palavra “bófia”.


A polícia deveria marcar uma eterna greve de zelo.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Ruídos

Há uma actividade para entreter criancinhas pequenas no bar da FNAC. Estou  sentado, de costas para a sala, bebendo um café, lendo o jornal, tento abstrair-me um pouco, concentrar-me na leitura, mas...

Há qualquer coisa que incomoda, um ruído constante, é música! Música infantil a ser debitada incessantemente pelas (potentes) colunas de som suspensas do tecto. De vez em quando soa um alarme estridente que fica a ganir por um minuto ou dois. Depois cala-se. Mais adiante volta a gritar.

Olho por sobre o ombro. Os petizes lá estão, a pintar, a desenhar, concentrados nas suas actividades. Os pais vigiam. Alguns adultos conversam, outros, como eu, tentam abstrair-se mas, na verdade, o que esperamos nós de um lugar assim?

Levanto-me e abandono aquele infernozinho. Nos corredores do centro comercial há música ambiente misturada no burburinho provocado pelas centenas (serão milhares?) de pessoas que por ali andam. Vou ao WC e a música é outra e soa mais alto. Nas lojas há mais música, no parque de estacionamento subterrâneo: música. Música, música, música! Não sobra um momento que seja em que não haja som amplificado a perfurar os tímpanos dos que por ali se aventuram.

De que me queixo? Alguém me obrigou a ir ali? Claro que não. Fui porque quis ir. Mas que raio se passa para haver tanta música, tanto ruído ininterrupto? Fico com a sensação de que alguém pretende que me distraia de mim próprio. Talvez seja isso. Não sei.

sábado, agosto 15, 2015

Genuinidade democrática


Qualquer cidadão de qualquer nacionalidade é elegível para obter o “golden visa”, basta-lhe ter dinheiro suficiente para pôr a salivar certos agentes económicos e as portas da Europa ser-lhe-ão abertas de par em par. Entretanto, no Mar Mediterrâneo, continuam a naufragar outros aspirantes a habitar este espaço genuinamente democrático que é a comunidade europeia. É tudo uma questão de capacidade de investimento. 

Os que morrem no Nosso Mar investiram tudo o que tinham para comprar o seu lugar miserável num bote mortífero, às mãos de traficantes sem escrúpulos. Os que compram moradias de luxo negoceiam com outro género de traficantes, nem por isso mais escrupulosos do que os outros mas os riscos que correm são praticamente nulos. 

É tudo uma questão de quantidade. Se forem podres de ricos, os aspirantes a um lugar deste lado do mar não encontram obstáculos. Se forem pobres têm assegurada uma aventura inesquecível: ondas, enjoo, muros, arames farpados, centros de detenção, anilhas e pulseiras, fome medo e, caso sobrevivam, talvez consigam um buraquito qualquer onde aconchegar o que restar das suas pessoas e dos seus entes queridos.

Esta diferença na atribuição de autorizações para habitar o espaço europeu é o retrato perfeito daquilo que somos, enquanto projecto social e político comum. O dinheiro impera, o dinheiro é deus, o dinheiro justifica tudo, limpa tudo, limpa-se a si próprio e limpa os crimes cometidos por aqueles que o acumulam. 

Nem quero pensar que algum do capital aplicado a comprar casas de luxo em Portugal seja proveniente do tráfico de emigrantes no Mediterrâneo ou do comércio de armamento nas guerras que os obrigam a navegar para a morte.

Se é isto que temos para oferecer aos países não democráticos ou a democracias pouco genuínas, não admira que nos odeiem e nos combatam com quanta força têm.


quinta-feira, agosto 13, 2015

Saudade

Não sinto grande saudade do passado. Pressinto uma saudade bem maior por coisas que ainda vão acontecer.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Trampa

Imaginemos que Donald Trump chega a Presidente dos Estados Unidos da América. Estamos a imaginar...? Vá lá, só mais um bocadinho, um pequeno esforço de imaginação... pois é, a coisa não gera imagens particularmente agradáveis, pois não?

Que sociedade é capaz de gerar um candidato ao mais alto lugar da sua organização política com as características do descabelado Trump? Que doença, que droga, que alucinação colectiva pode fazer com que este homem seja levado a sério por uma parte significativa dos seus concidadãos?

Muito falamos dos líderes perigosos que governam partes deste mundo. Kim Jong-un, Maduro, Obiang, Eduardo dos Santos, ditadores mais ou menos populares nos seus países, a loucura e a ausência de direitos civis, caricaturas de democracias, tudo isto nos faz tremer um pouco. E se Trump vier a chefiar os EUA? Uma trampa!


domingo, agosto 02, 2015

Férias


É o calor, é a praia, são as férias. Tudo abranda sob a luz do sol mas a vida rola à mesmíssima velocidade que rodava quando do céu caía água, como se fosse o Dilúvio a chegar outra vez, a chegar fora de época.

Tendemos a relaxar, tendemos a relativizar, a reconhecer a excelência do que a Natureza nos ofereceu e nós oferecemos em segunda mão aos milhares de turistas que nos visitam. Em Agosto Portugal abre parêntesis na realidade e fica semelhante a um sonho de folheto turístico.

Ao longo deste mês Portugal faz de conta que não existe, faz de conta que não é isto e é aquilo.

Quando o sol fechar as contas, as esplanadas forem recolhidas e trocarmos os calções e as sandálias pelas roupas do costume... como estará este país?