quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Fuga à banalidade

    Imaginou o que o dia lhe poderia ainda oferecer e não lhe pareceu que fosse grande coisa. Apesar de o sol romper com gentileza as nuvens pesadonas que lhe haviam ensombrado os dias anteriores, apesar de o vento ter amainado até ao ponto do adormecimento, apesar de as notícias matinais não augurarem nada de terrível nem apocalíptico, ele sentia-se meio vazio, muito mais que meio cheio. Alisou os cabelos que lhe restavam no topo da cabeça e pensou: "Não sou a porra de um copo!" e, de facto, não era a porra de um copo, ainda era um ser humano.

    Desceu as escadas sentindo dores no joelho esquerdo ("uma porra do caraças!"). O eco dos passos ora o perseguia ora se lhe adiantava. A banalidade absoluta de tudo o que o rodeava pareceu apertar-lhe a garganta mas foi no peito que sentiu uma angustiante falta de ar. Apoiou-se na parede, a palma da mão recolheu uma sensação de frio intenso. Não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido tanto frio. As costelas pareciam atrofiar-se a uma velocidade alucinante o que o arrepiou de tal modo que imaginou ser um ouriço cacheiro com os espinhos a crescerem ao contrário. Nada daquilo lhe era familiar. 

    "Que porra me está a acontecer?"

    Cambaleante e aos tropeções desceu um lanço de escadas tacteando o espaço sem encontrar ponto de apoio ou referência alguma que lhe devolvesse um mínimo conforto, uma sombra de familiaridade. Caiu. Estranhamente não sentiu dor, aliás, a queda parecia não ter fim, parecia não ter chão, teve a sensação de cair para cima, em direcção ao céu e o coração a explodir. 

    "Que coisa extraordinária!"

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