terça-feira, março 31, 2026

Ter dono

     A mão pousou sobre a cabeça despenteada do animal. 

    Sentiu o peso da manápula, curvou-se um pouco mais, a língua quase, quase a lamber o chão. A tijoleira. Deixou que o olhar lhe caísse, que lhe escorresse dos olhos para a cor alaranjada da tijoleira e ali ficasse, a alastrar com lentidão como se fosse água derramada, um olhar vazio e inexpressivo como é sempre o olhar dos condenados ou dos doentes de alzheimer. Não se atrevia a levantar os olhos, a encarar o dono daquela mão opressiva e ameaçadora.

    A mão  afagou-lhe a cabeça mas aquela carícia era como um soco. Era uma carícia que apenas exprimia a superioridade de quem a praticava, como acontece com as senhoras caridosas e os mendigos à porta da igreja. O animal não tinha ânimo sequer para odiar, sentia-se derrotado, incapaz de morder, incapaz de fugir, incapaz de ficar. Naquele momento, a morte seria por ele abençoada. E deitou o queixo no chão, a tijoleira era agora como uma planície, o degrau que marcava o início das escadas a linha do horizonte.

    A mão, privada do apoio oferecido pela cabeça do animal, ficou pendente, pensativa, oscilando entre cá e lá. 

    A mão.

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