sábado, março 30, 2019

Dignidade republicana


Andamos todos a olhar para o dedo que nos aponta a lua. O problema dos laços familiares entre membros do actual governo será o da diminuição da capacidade de decisão independente e ponderada que um cargo governativo deveria implicar. 

Imagina-se o pai a dizer à filha: “faz assim”, e ela a fazer; o marido a dizer à mulher (afinal de contas vivemos numa sociedade patriarcal): “quero assim”, e ela a obedecer. Como já alguém sugeriu por aí, as coisas resolver-se-ão à mesa durante um jantar de família e isto não é maneira digna de se gerir a República! 

Pessoalmente, há muito que me incomoda a forma como funcionam os grupos parlamentares na Assembleia da República. Ali, apesar de não existir essa promiscuidade familiar, os deputados obedecem com grande naturalidade à direcção da bancada a que pertencem. Não é tanto a relação pai-filha ou marido-mulher que orienta as decisões, é mais um tipo de relação senhor-vassalo ou dono-escravo: "faz assim" e o deputado faz; "quero assado", e o deputado obedece. 

Se não obedece é penalizado, muitas das vezes, se insiste em ter opinião diversa, é simplesmente corrido. 

Neste universo as coisas resolver-se-ão durante um jantar entre líderes. Os deputados menores sentam-se em redor de outra mesa, como se faz com os putos nos tais jantares de família. Esta sim, é a forma digna de se gerir a República. 

A quem poderá interessar que o poder seja entregue a pessoas que pensem pela sua própria cabeça, pessoas que tenham sido eleitas pelo povo de acordo com o credo democrático?

Carta enviada ao director do Público

quarta-feira, março 27, 2019

Poeira

Tenho tanta saudade de milhentas coisas que esqueci que nem me apercebo do que sofro por isso. Bem que tomo apontamentos (ando sempre com um caderninho daqueles enfiado no bolso e caneta acompanhante), releio escritos antigos, experimento inventar menemónicas complicadíssimas que, como seria de esperar, esqueço no momento seguinte.

Não consigo manter o passado actualizado, constato que a sua relação com o presente é de tal modo misteriosa que nem parecem membros da mesma família.

Mais uma vez tenho esta sensação: o momento que vivemos é como uma nuvem de poeira que levantamos no caminho, uma nuvem que transporta ainda um pouco dos passos anteriores e já nos vai envolvendo com algo semelhante ao terreno que viremos a pisar. Não existe diferença significativa entre o que foi, o que é e o que será, é tudo tempo.

Isto pareceu-me simples mas sei que, daqui a nada já terei esquecido a razão porque me pareceu tão claro, tão evidente, tão esplêndido. No meio da poeirada perco-me todos os dias e, todos os dias, me volto a encontrar.


domingo, março 24, 2019

Marcha lenta

Não sei bem o que fazer desta manhã que me entra pela janela feita brisa suave. Posso fazer o que quiser? Talvez não me apeteça fazer nada. E fazer nada, é fazer alguma coisa?

Vivemos este tempo pacífico num espaço morno, batido por um sol que pretende vestir o fatinho leve da Primavera. Por cá andamos envolvidos nas nossas guerras do Alecrim e da Manjerona.

Ontem desfilei descendo a Avenida em manifestação de professores supostamente encolerizados. Mas era tudo tão pacífico, tão suave, era tudo aparentemente tão leve... milhares de professores caminhando em quase silêncio apesar dos apelos dos "speakers" incitando, na medida do possível, ao grito e à palavra de ordem.

Quase nada. A sensação que fica é a de quase nada se ter passado. Apenas mais uma tarde soalheira nesta capital do império da modorra que é a magnífica cidade de Lisboa, submersa por vagas de turistas com os quais, nós, os professores, nos confundimos ontem, descendo a Avenida pela enésima vez.

Até mais ver, camaradas!

quarta-feira, março 20, 2019

Brilho no olhar

A minha memória é como um campo de minas após a passagem de uma manada de gnus em correria. Por vezes esforço-me por recordar algo, sinto a coisa mesmo ali, a surgir um bocadinho, a quase ganhar forma, mas... caraças, lá se vai outra vez, ralo abaixo, a esconder-se num daqueles buracos de mina rebentada, impossível descortinar qual.

Preciso ser paciente comigo próprio.

Quantos livros li, quanta informação admiti no meu cérebro!? Quantos filmes, músicas, quadros, obras de arte, paisagens, rostos, sensações tácteis, olfactivas, quantas vezes esforcei os meus defeituosos ouvidos na tentativa de perceber melhor uma melodia, um ruído, um riso!?

O mundo pode não ter fim.

Apercebo-me que sei imensas coisas das quais é virtualmente impossível que me lembre.

Por vezes surgem-me informações e memórias inesperadas ao virar de alguma esquina viscosa do meu cérebro. Imagino que esses encontros inesperados sejam pequenos acidentes neuronais, uma luzita ou outra que me ilumina a caverna craniana por um nanossegundo.

É isso o que nos faz brilhar os olhos?

sábado, março 16, 2019

Artistas invisíveis

Ouvi dizer que, em Portugal, para alguém ser artista, na maior parte dos casos, precisa de ser  outra coisa em simultâneo. Qualquer coisa que lhe garanta o sustento. A arte, pelos vistos, não se transmuta em casa-pão-e-roupa-lavada.

Para lá de uma mão-cheia de consagrados e outra mão-cheia de personagens corajosas, o resto dos artistas situar-se-à entre o amador e o curioso. Cá se vai andando...

Fica a sensação e o desejo de que a arte se confunda com a vida, que sejam uma só coisa, uma espécie de milagre ético. Se for assim podem viver mais convictamente os artistas invisíveis, aqueles que nunca passarão da adolescência no mundo da validação artística mediática.

Seremos felizes quando, durante o dia de trabalho, imaginarmos o passo seguinte da obra que ficou em suspenso, aguardando o momento em que a ela possamos regressar. O amor tem destas coisas.

terça-feira, março 12, 2019

Errático

De vez em quando é necessário olhar o espelho com alguma atenção. Será? Parece que sim.

Reparar nos pormenores do nosso rosto, perceber os contornos do corpo que arrastamos connosco e que nos arrasta também sobre a crosta deste mundo; bem vistas as coisas é a imagem que exportamos, aquilo que os outros vêem quando orientam os olhos na nossa direcção.

Mas, aí está uma questão pertinente: vemo-nos com os nossos olhos, somos incapazes de compreender o olhar alheio ("o mundo de cada um é os olhos que tem"), entrar na pele de alguém e calçar-lhe os sapatos é tarefa digna de fantasmas, coisa própria de espíritos errantes.

O espelho é uma superfície, aquilo que nele vemos é superficial. A coisa pode ganhar outros contornos se focarmos a atenção nos olhos. Os olhos são como portas, entras e e sais da alma que te anima. Tens a certeza que é por aí que queres ir?

Temos o corpo e o espelho (a superfície) e temos os olhos e alma (o profundo interno), no meio de tudo isto o cérebro, a tentar compreender, a tentar ver, a tentar ser. Temos o mundo (superfície e profundo interno em simultâneo) sobre ele, dentro dele, em seu redor, milhões de milhões de cérebros de todas as espécies; vida.

Tempos houve em que pensava na Vida como sendo uma permanência, algo infinito, eterno, uma coisa assim. Agora não tenho a certeza disso. Bastante pelo contrário.

sexta-feira, março 01, 2019

Notícia falsa (?)

Os cientistas do Belo, os Estetas, descobriram que a Arte Contemporânea se esconde dentro de cada um de nós.

Uns pensam que se trata de uma espécie de entidade esquiva, algo vagamente semelhante a um parasita que se nos aloja no cérebro alimentando-se da nossa imaginação, outros sustentam a tese de que é como um algoritmo que é activado quando nos deparamos com um objecto artístico.

Outros ainda, menos dados a prescindir da sua autoridade científica, consideram-se detentores das chaves de interpretação correctas, chaves essas que não estarão assim tão disponíveis a qualquer um; para estes apenas a sua opinião poderá validar a natureza artística (ou não) seja lá de que objecto for.

A notícia desta descoberta não tem sido suficientemente divulgada. Continua a haver milhões de seres humanos que desconhecem esta sua capacidade inata e se julgam incapazes de compreender algo que depende em larga escala deles próprios para ser compreendido.

Seja uma entidade (um fantasma ou génio particular) ou um conjunto de dados combináveis (como se fôssemos máquinas que se limitam a computar), a verdade é que todos os seres humanos nascem e morrem com a coisa alojada no cérebro.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Futuro próximo

Virá o dia em que uma máquina (um algoritmo altamente sofisticado) saberá melhor do que tu aquilo que te convém, o que é melhor para ti.Uma máquina capaz de tomar as melhores decisões que te proporcionem a maior das felicidades.

Como será o mundo nesse dia (não muito longínquo)?

Virá o dia em que aceitaremos em definitivo o óbvio: as máquinas são mais eficazes do que nós numa série de situações da vida quotidiana e, como tal, teremos de lhes entregar muitas mais responsabilidades.

Diz-me algoritmo, que roupa devo vestir hoje?

A dúvida é: somos nós uma espécie de máquinas de menor potência, eventualmente defeituosas? Ou serão as máquinas uma espécie de seres humanos melhorados (ou piorados, dependendo da perspectiva de quem pensa no assunto)?

Diz-me algoritmo, como devo responder à questão que me foi colocada?

Este admirável mundo que há-de vir (em breve) será mais radioso que o mundo de hoje ou permanecerá, simplesmente, diferente?

Diz-me algoritmo, o que sou eu?

domingo, fevereiro 24, 2019

Em que pensava eu ainda agora?

Há um ruído contínuo. Umas vezes lá ao fundo, outras vezes cabeça dentro; é como uma matraca mas uma matraca por vezes a bater em superfície acolchoada. O silêncio, nas cidades, tornou-se um bem, é produto de luxo ao alcance apenas de uma minoria. Ainda assim é preciso desejá-lo.

O ruído de fundo ininterrupto molda as pessoas. Se, porventura, esse ruído sofre interrupção, logo sobrevém a incómoda sensação de desconforto provocada pela impressão de alguma ameaça eminente. Silêncio implica catástrofe. É como quando as aves desaparecem do céu e se adivinha a proximidade da borrasca.

Viver na cidade exige a aceitação do ruído constante. O ruído faz parte do pacote, nem sequer se coloca a possibilidade de ser recusado. Viver na cidade é aceitar o ruído.

A pessoas como eu, que viveram a infância em ambiente rural e que têm, esporadicamente, a possibilidade de regressar a esse espaço mítico de paisagens verdejantes e montanhas azuladas pela distância; a imposição grandiloquente de um ruído benfazejo não constitui sedução suficiente ao ponto de evitar uma certa náusea, uma certa vertigem, uma quase rejeição muscular.

Por vezes dou por mim a reparar na barulheira, lá por detrás do cérebro e penso: em que pensava eu ainda agora? Lembro-me de uma frase que escrevi num "diário gráfico" dos meus primeiros tempos de estudante, quando troquei a pasmaceira dos espaços que habitei durante a minha infância e adolescência pela Babilónia incansável que é a Grande Cidade; escrevi então "traz-me todo o silêncio que encontrares e pendura-o nessa parede".

Só agora, quase 40 anos volvidos, compreendo o que quis dizer então, só agora alcanço o valor do silêncio.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Fogo!

A beleza é algo fulgurante, coisa que reconforta a alma... até que a incendeia.
Uma alma a arder não é exclusivo do inferno.

domingo, fevereiro 10, 2019

Revelação

Oh, a obra de arte contemporânea! Ao convocar o espectador no processo de validação do próprio objecto artístico, a obra de arte contemporânea interpreta um papel demiúrgico (Deus está em todas as coisas).

Se um objecto aparenta não ter nada de extraordinário mas consegue transportar o observador para uma dimensão reflexiva transcendente, estamos perante uma Revelação (a obra de arte tem o poder de nos fazer transitar entre diferentes dimensões).

A Revelação é um estado de consciência superior que nos permite penetrar um espaço que, não sendo onírico, é habitado por entidades incorpóreas e que não é regido pelas leis da Física nem da Lógica; um espaço no qual a Física e a Lógica são diferentes ou são a mesma coisa, a dimensão das Coisas antes de terem um Nome. É para aí que vamos quando mergulhamos de cabeça numa Revelação.

Voltando atrás, que já me estou a esticar: a obra de arte contemporânea faz do observador um elo significativo na cadeia de comunicação "emissor-objecto-receptor", invertendo-a, torcendo-a, remisturando-a. Exemplificando: o artista cria o objecto, o objecto transporta um significado potencial que se completa no espectador. Não tendo uma leitura fechada o objecto permite a cada um de nós a construção de uma narrativa individualizada (A Fonte de Duchamp será a semente de tudo isto).

Assim sendo, o observador torna-se, também ele, um artista. A arte contemporânea permite a construção de uma utópica sociedade de artistas, criadores ininterruptos de significados, que é, afinal, aquilo que todos nós somos desde que Deus criou Adão. A Arte é a nossa Eva, o objecto artístico é Deus, a arrancar-nos constantemente costelas e a fazer com elas seres virtuais que nos acompanhem na travessia do paradisíaco deserto que é a nossa vida.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Divindades raquíticas

Tal como uma obra de arte, também a imagem que concebemos de Deus depende muito de quem a infere e constrói. Os Antigos teriam uma divindade específica para os merceeiros. Tão difícil seria para eles imaginarem um Deus único como, ainda por cima, imaginá-lo como um autêntico merceeiro, capaz de vender benesses (quanto mais elevado o preço pago pelo crédulo mais agradáveis os favores).

As igrejas evangélicas (todas elas?) vendem esta patranha aos incautos e desprotegidos que nelas procuram um lugar de pertença. Quem cobra aos seus fiéis não é de fiar.

Um Deus que especule com o preço das almas como se especulasse o preço do barril de petróleo ou da saca de batatas tem lugar garantido na Barca do Inferno. Os parvos que acreditem em semelhante bufão podem aspirar, ainda que vagamente, a um lugarzinho na Barca do Paraíso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Santidade de pacotilha


Kevin Hart

Confirma-se que a cerimónia de entrega dos Óscares deste ano não vai ter apresentador. Não sei se é a primeira vez que acontece nem isso me faz doer a alma. 

O último a declinar o convite para proceder à função foi Kevin Hart, ao que consta por terem sido desenterrados alguns tweets de teor homofóbico publicados pelo actor há oito anos atrás. Aquilo que me provoca alguma tristeza é o facto de não haver ninguém suficientemente puro para apresentar uma coisa tão farsola como os Óscares da academia de Hollywood. 

A malha de observação sobre os candidatos é tão apertada que nenhum ser humano é considerado digno para debitar umas graçolas perante a fina-flor da intelectualidade industrial cinematográfica. Até para fazer aquilo é necessário ter certidão de santidade absoluta. Será que algum dos que se sentam na plateia poderia aspirar a tão elevado estatuto? Parece-me patético. 

Talvez com tempo possa ser criado um avatar computorizado para apresentar a cerimónia. Um ser virtual, sem carne nem osso nem opiniões próprias seja a única coisita à altura.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Vazio de sentido

Quando as paredes do mundo desabarem vais continuar sentado. Que mais poderás tu fazer? Correr? Fugir?

Mas para onde fugirás tu em louca correria se é o mundo que à tua volta se esboroa, que podes tu fazer? Pois, tenho cá a impressão que o melhor será que continues bem sentado, o melhor será esperares que a estrela negra cante de novo a sua estranha canção, aquela canção que ilumina o céu ao contrário.

Recapitulando: as paredes do mundo já não suportam mais o peso dos buracos e das fissuras que as atormentam e desistem de serem erectas, as paredes do mundo, cansadas, desabam... brrrrrrum!!!

E tu, estupefacto perante o espectáculo, tu não estás surpreendido (já sabias que a coisa ia acontecer), estás absolutamente espantado. Estás fascinado e aterrado. O mundo a desfazer-se é um espectáculo magnífico ao qual preferias nunca ter assistido.

O fim do mundo é tão vazio de sentido.


sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?


quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ser e parecer



André Ventura é uma daquelas personagens que não se acanham. O teor das suas afirmações públicas não coincide com o manifesto que juntou às assinaturas recolhidas com a finalidade de fazer aprovar o Chega, esse projecto de partido que gatinha graças à exposição mediática conseguida por Ventura nos espaços de debate futebolístico da CMTV. 

Perante os juízes do Tribunal Constitucional, Ventura faz luzir sobre a cabeça uma auréola de santinho respeitador da Constituição, cá fora, quando lhe é oferecido o espaço mediático, não se coíbe em mostrar os dentes e afirmar aquilo que não se atreve a registar no manifesto. André ora é bom ou mau, afável ou agressivo, tudo depende. Sendo contido numa certa comparação zoológica pode-se considerar que André é um camaleão.

A Democracia tem destas coisas, permite que germinem no seu seio personagens que a odeiam e que tudo farão para acabar com ela. Personagens como André Ventura chegam montadas em cavalos brancos, prometendo isto e aquilo, de acordo com o que lhes pareça ser o sentimento mais larvar e profundo que germine no descontentamento de certas tribos mais ou menos marginais à inteligência humana. 

Na maior parte dos casos, estes napoleões de pacotilha não conseguem desmontar do cavalo, não têm estofo para cavalgar outra coisa que não seja a desgraça e o descontentamento o que acaba por levá-los numa correria louca em direcção ao abismo do esquecimento quando o logro que é o seu completo vazio se revelar aos olhos de todos, correligionários incluídos. 

André Ventura quer ser uma coisa parecendo outra e vice-versa; Ventura é uma excrescência na Democracia. Pim.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Estupidez

As tristemente célebres fake news são como vírus que infectam os seres humanos e, consequentemente, empestam as relações sociais degradando por completo a coisa pública. A doença contrai-se com surpreendente facilidade. Basta aparecer uma atoarda qualquer  numa rede social e... zzzzzzt, propaga-se como incêndio num palheiro.

Na maioria das situações a notícia falsa é fácil de desmontar. Bastaria uma busca um pouco mais transversal ou ligeiramente mais profunda e a verdade viria ao de cima. Mas dá algum trabalho, o Saber não é completamente gratuito. É muito mais fácil ser-se estúpido. E está na moda.

É assim que participamos com um misto de alegria e indignação na corrupção do corpo social a que pertencemos: deixamo-nos infectar pela estupidez e, ficando estúpidos, passamos à acção agressiva, praticamos a maledicência, explodimos em indignação, as mais das vezes injustificada. Somos agentes infecciosos.

As designadas redes sociais contribuem em grande parte para esta embaraçosa desorganização do pensamento humano. Os computadores, por si sós, não fazem de nós animais mais inteligentes. Isso é que era doce!

É este o nosso admirável mundo novo. Um mundo em que as máquinas nos ajudam a ser muito mais burros do que seríamos capazes sem a sua colaboração.


sexta-feira, janeiro 18, 2019

Expor

Eu próprio junto a "Le Philosophe" desenho com canetas de gel sobre papel Fabriano, 210X150cm

Inaugura hoje uma exposição de desenhos da minha autoria. Poderia dizer que é "mais uma" mas, para ser sincero, uma nova exposição nunca é "mais uma". Antes de mais, apesar dos meus 56 anos de idade e de uma produção razoável de objectos com pendor artístico, a minha actividade expositiva é notóriamente modesta em número.

Um certo acanhamento e uma espécie larvar de modéstia (também em termos de influência) aliados a uma razoável dose de preguiça terão contribuído para que os anos tenham passado e a minha capacidade de expor trabalho publicamente se tenha revelado tão limitada. Quando penso nisso noto apenas como a intensidade dos sonhos se altera com a idade. Não me sinto injustiçado nem reconhecido. Na verdade não sinto nada de especial.

A coisa que mais me preocupa é quando perco instinto criativo, quando fico algum tempo sem sentir vontade nem impulso para voltar à ilusão de fazer um desenho ou uma pintura ou escrever um texto que me anime.

Para já tenho uma selecção de trabalhos (posso dizer que sou comissário de mim próprio) criteriosamente colocados sobre as paredes do Quarteirão das Artes, em Almada. São trabalhos realizados com esferográfica e canetas de gel sobre papel com dimensões que variam entre 50X65cm e os 210X150cm.

Quando li "Narciso e Goldmund", de Hermann Hesse, interiorizei uma possibilidade relacionada com a criação artística que me faz reflectir com frequência  sobre a hipótese de tudo isto não passar de mera exibição de vaidade. A minha educação católica faz-me envergonhar, corar um pouco, a minha experiência de vida como agnóstico leva-me a perguntar: Sim... e depois?

Fica bem que eu também.

terça-feira, janeiro 15, 2019

Reciclagem

Os miúdos são barulhentos, confusos, desorganizados; quando se encontram numa sala de aula, quando estão no recreio. Imagino que sejam assim na maioria das situações que vivem. Reproduzem constantemente a javardeira que os rodeia na cidade que habitam. 

O silêncio incomoda-os, fá-los sofrer, quando o ambiente fica silencioso os miúdos sentem-se inquietos como se fosse um mau presságio. Na ausência de ruído fica a sensação de que algo perigoso se aproxima. Talvez um monstro tenha chegado às portas da cidade, não tarda o silêncio agoirento será rasgado por gritos desesperados, o horizonte recortado pela silhueta de um Godzilla patudo a destruir tudo a cada passo. Imagino que seja algo assim, talvez pior.

Há uma cada vez mais complexa fusão entre o Inferno e o imaginário infanto-juvenil, o que gera personagens estranhíssimas: coisas fofinhas com dentes afiados como facas ou coisas horrendas com cauda de coelhinho lãzudo. 

Se pretendemos manter abertas as vias de diálogo com a putalhada precisamos de reciclar profundamente as nossas galerias de heróis e respectivas correspondentes de vilões.