quinta-feira, junho 26, 2014

o grande ecrã

Pronto, lá se foi a selecção portuguesa, malas aviadas, fora do Campeonato do Mundo. A nossa equipa deixou uma imagem estranha: jogadores cheios de estilo (penteados, barbas, tatuagens, roupas e sei lá que mais) mas a cair como tordos. Perdi a conta aos jogadores lesionados ao longo destes 3 jogos.

Mas que raio!? Porque caíam os nossos jogadores e os outros não? Não foi do calor, não foi o temido dengue, tiveram todas as mordomias, porque saíram tantos dos nossos agarrados às penas, a chorar, como bons portugueses?

Mas já me estou a desviar daquilo que queria dizer, o assunto que queria referir: o grande ecrã!

Decerto reparaste, futebolista leitor, nos olhares vagos que todos, jogadores e treinadores (nos árbitros não reparamos que não são assim tão focados pelas câmaras de filmar) vão lançando para o alto no decorrer das partidas. Eles olham para cima, não para Deus mas para si próprios. E o mais interessado na imagem que exporta (se não O mais, pela certa um dos mais) é o nosso craque, o maior do mundo: Cristiano Ronaldo.

Adoro aquele jogador enquanto atleta. Não nutro por ele grande simpatia enquanto pessoa, embora possa compreender que para vingar ao nível que ele atinge num mundo tão merdoso como o mundo do futebol seja necessário um ego do tamanho de um continente. O de Ronaldo é, deveras, enorme.

Nota tu, amigo meu, que em 3 jogos o considerado melhor jogador do mundo apresentou 3 cortes de cabelo/penteados diferentes. Olhou-se, mirou-se e remirou-se, sobrancelhas arranjadinhas, milhões de teenagers a suspirar pelo seu corpo de estátua... bom, nem as estátuas gregas são tão perfeitas como Ronaldo (o Cristiano, não o Fenómeno). E marcou apenas um golo.

O rapaz não tem tempo para pensar em futebol enquanto evolui no relvado ou, pelo menos, tem de distribuir a sua atenção entre a bola, as chuteiras dos adversários, a baliza e o tal grande e famigerado ecrã.

Decerto não terá sido isso a única razão da nossa triste passagem pelo Brasil. Mas lá que as nossas vedetas parecem personagens de telenovela venezuelana... por favor, retirem aquela coisa dos estádios. Serve apenas para distrair toda a gente do essencial.

quarta-feira, junho 25, 2014

Manifesto escondido?

O caso tem todos os contornos de uma coisa infinitamente estúpida. Quem terá decidido que a obra "Portugal Enforcado", um trabalho escolar da autoria de um tal Élsio Menau, era merecedora de censura por parte do estado? Fazendo uma pesquisa breve na Net compreendemos tratar-se de um trabalho inofensivo e pueril.

O que me surpreende mais até é a nota de 18 valores com que o objecto acabou por ser avaliado. Eu sei que nessa avaliação está também considerada a dimensão conceptual da proposta plástica mas, tendo em conta a redundância da coisa, é precisamente por isso que me parece uma avaliação exagerada. Decerto os avaliadores estão lixados com a forma como o governo tem apertado o nó na garganta de cada um de nós, aqui representados por uma bandeira de algum modo colocada numa forca.

Decerto que não foi a discordância com a nota atribuída que levou um cidadão deste país a acusar de desrespeito ao símbolo nacional o "Portugal Enforcado" e, por arrasto, o seu autor. A motivação pidesca e rasteira de tal denúncia diz tudo o que haja a dizer sobre o seu autor.

Há, no entanto, uma possibilidade que ainda não foi considerada: e se o denunciante for um artista plástico (assumido ou que ainda não tenha compreendido a sua vocação artística) e a denúncia for a sua obra? E se este caricato caso de justiça não for mais do que um manifesto artístico escondido que reflecte sobre a vacuidade da justiça em Portugal? Se o artista pretender insinuar que os tribunais são uma das traves que sustentam a forca em que Portugal vai dependurado?

A Arte Conceptual leva-nos para territórios verdadeiramente selvagens.

quinta-feira, junho 19, 2014

Curva cega

Há sensações que brotam do nosso corpo, que rebentam, que vêm, que se revelam através das mais variadas manifestações. Saem disparadas como gritos, poemas, borbulhas, erupções cutâneas, desenhos, canções, palavras doces, palavras tôlas, azedas e nem por isso. Palavras redondas ou cortantes como lâminas que reverberam na escuridão, produzindo uma lúgubre canção de embalar.

Falamos, gritamos, cantamos desalmadamente; tentamos explicar este aperto, esta secura, a tontura, a falta de ar, o súbito calor que de tão forte desorienta e provoca vertigem, logo um frio de rachar vem ocupar o seu lugar. Rilhamos os dentes e desejamos fazer mal, infligir dor. Estamos desorientados, perdidos nos nossos próprios sentimentos que já não nos pertencem, que agora são esta ansiedade, esta coisa que se mexe e nos aperta o peito do lado de dentro, este bicho que nos quer consumir à força de lambidelas.

Ok, ok, chega. Mas que raio de coisa estou para aqui a tentar escrever?

A verdade é que isto não significa nada, é escrita vazia, curva apertada e cega que não sei para onde vai nem quer ir para lado nenhum. A verdade, verdadinha, é que estou a ficar impaciente pois a minha filha regressa amanhã após seis meses em Bratislava onde esteve no âmbito do programa Erasmus. Neste estado não escrevo, não desenho, pouco penso... mas aquela cena do aperto no peito ali mais atrás, olha, se calhar até nem é totalmente vazia de sentido.

quarta-feira, junho 18, 2014

Da Razão e do Vazio

Disse para aí um poeta, se não erro, que "há razões que a Razão desconhece". Concordo perfeita e absolutamente. Pobre Razão! Ela não compreende a maior parte das coisas, como poderia?

A própria palavra "razão" soa estranha. Assim isolada parece-me referir a trajectória de algo que passa muitíssimo perto de outra coisa, algo que passa tão a rasar, tão a rasar, que faz um razão!!! Ora, como pode algo assim atingir o âmago da questão?

Não, a razão não me parece resposta que se procure como se dela dependesse o entendimento do mundo ou a compreensão da lonjura das fronteiras que confinam a alma humana. A razão, quando muito, poderá proporcionar agradáveis discussões na tasca, sempre que discutimos Filosofia com um belo copo à frente do nariz; copo que vem e vai, despejado e logo recarregado daquilo que nele faz falta quando vazio fica.

Mas, se me esquivo a aceitar a Razão, o que resta?

Se formulaste esta questão mereces resposta, aveludado leitor. O que resta, queres tu saber? Pois, na minha estrábica perspectiva, parece-me que não resta nada mas apenas o Vazio (que não tenho a certeza que seja alguma coisa).

E quem quer viver no Vazio? Impacientas-te tu com uma certa dose de... razão.

Pois olha, amigo meu, isso não te posso responder porque, tal como o outro, "só sei que nada sei" embora, cá no fundo, que sou pessoa um tanto convencida e vaidosa, não acredite em tanta ignorância nem esteja tão convicto das qualidades extraordinárias do Vazio e nem dos defeitos impraticáveis da Razão.

Já ia fechar a loja quando encontrei isto algures aí pelo espaço virtual. Pareceu-me a propósito embora não subscreva.


terça-feira, junho 10, 2014

Selvajaria

Terá o primeiro ser humano pressentido a felicidade? Tê-la-á sentido, de facto, em alguma ocasião? Talvez essa sensação, esse pressentimento, essa coisa instalada no peito, talvez tenha servido de motivação para que os nossos antepassados mais remotos tenham começado esta infindável luta pela sobrevivência da espécie.

Talvez a felicidade seja a principal razão pela qual todos os animais se esforçam por sobreviver. Talvez devêssemos chamar instinto à felicidade; e não sentimento, ou lá o que chamamos a isso. E os animais que mais lutam, os que mais se esforçam no desespero de prevalecer, os reis da selva, talvez sejam os que mais sentem (ou pressentem) a felicidade na sua forma mais pura, quase, quase, a felicidade tal como ela é.

Talvez lhes venha daí a agressividade extraordinária, a capacidade de trucidar e matar, despedaçar os outros animais, seja à dentada, seja à força de patadas violentas. Talvez o desejo de felicidade nos transforme em feras.


Entre nós, seres humanos, felicidade e amor parecem vir amiúde emparelhados, uma coisa a permitir a existência da outra e vice-versa. Talvez a violência seja o resultado de uma certa necessidade de amor. Talvez o amor seja a sublimação da mais absoluta selvajaria.

quarta-feira, junho 04, 2014

O Mundo muda bué

Muito barafustamos nós com os chineses por eles não serem como nós dizemos que somos nem respeitarem os princípios que nós imaginamos respeitar.

Que não há Democracia na China, que não há Direitos Humanos. Ora bolas... os chineses que se lixem? Isso é que era doce!!!

A Democracia e os Direitos Humanos são invenções nossas, coisas surgidas no Ocidente, criaturas da nossa civilização, porque carga de água haveriam de dizer o que quer que fosse aos habitantes do Império do Meio?

Pois é mas... segundo rezam recentes previsões de encartados bruxos, o Produto Interno Bruto da China será maior que o dos Estados Unidos já em 2016, faltam dois anitos! A China será a maior economia do mundo em 2021, a sua moeda substituirá o dólar como reserva mundial em 2027 e, trema-se de pavor, será a potência militar mais poderosa do universo em 2030. Com alguma sorte ainda por cá andarei para assistir a algumas destas mudanças, com algum azar ainda por cá andarei para assistir a todas elas.

Quererá tudo isto dizer que, muito em breve, o mundo começará a estudar as línguas faladas na China para, dentro de um ou dois séculos, esquecer o inglês? Irão os Direitos Humanos tornar-se ainda mais deslocados e desprezados quando nós, os orgulhosos e petulantes ocidentais nos voltarmos de mão estendida para a imensa China?

Eu sei que o Mundo muda bué, que não há Valores Universais, que os Valores (com "V" maiúsculo) são muito parciais mas, caramba, isso não me ajuda a aceitar os valores de outros povos e de outras civilizações assim, de monco caído.

Irá o Ocidente praticar a secular arte de engolir sapos vivos?

segunda-feira, junho 02, 2014

Cauda de lagartixa

A nossa necessidade de atenção e compreensão é uma coisa de dimensão cósmica.

Ao terminar a frase registada acima reparei como poderia ter escrito "cómica" no lugar de "cósmica" e o discurso seguiria por caminhos bem distintos... ou não?

Bom, este é um bom exemplo daquilo que os meus professores classificavam como um "espírito disperso". A facilidade com que mudo de direcção deveria preocupar-me caso fosse um profissional de ciência exacta. A verdade é que, na maior parte das actividades que desenvolvo, este pensamento errático serve bem enquanto ferramenta de trabalho.

Repare, caríssimo leitor, como estou já longe da ideia inicial. É isso um problema? Diga-me você.

Voltando atrás: necessidade cósmica? Sim, isto porque imaginamos um Deus omnipresente e omnipotente que, no entanto, hesita nos sinais que envia para nos ir informando dos seus objectivos, orientações e reprovações. Na verdade, quem acredita em Deus, vive para tentar compreendê-Lo e, desse modo, justificar os próprios actos. Não há Livre Arbítrio para esta facção da Humanidade.

Ora, para um gajo como eu, cuja capacidade de concentração é como um pássaro que se esqueceu do lugar onde fez o ninho, Deus é uma presença ocasional; posso estar a tentar contactar com Ele através da oração e, por exemplo, distrair-me com o "agora e na hora da nossa morte", do Pai Nosso. Sim, a frase poderá sugerir que, quando eu morrer e os restantes pecadores baterem a bota, Ele morre também.

Ok, estou a forçar a coisa para poder continuar a derivar e a contorcer o discurso, justificando o título deste post provando a minha capacidade de perder o fio sem perder a meada e vice-versa. Isto serve-me às mil maravilhas para dar uma aula ou fazer um desenho (nunca, ou muito raramente, faço um esboço) mas, imagine o leitor, as dificuldades que se colocam quando tenho de cumprir os deveres burocráticos que infernizam a existência dos professores mais capazes de organizar o pensamento.

Voltando atrás: dimensão cómica? Sim, quando era criança achava tanta graça às contorções de uma cauda de lagartixa que estropiava alegremente os animaizinhos. Sabia bem que o irrequieto apêndice haveria de crescer outra vez, milagre de regeneração de tecidos. Tal como as ideias, tal como os pensamentos...

terça-feira, maio 27, 2014

Não ter medo

Eles chegaram. Os fascistas regressaram em força à ribalta da política europeia. Parece impossível mas é verdade.

Como podemos nós, europeus, ressuscitar o mais terrível monstro da nossa História comum e trazê-lo desta forma para dentro de casa? O que faz com que, num país como a França, os eleitores votem maioritariamente num partido assumidamente nazi?

Muitas vezes tenho aqui expressado o meu descontentamento com "o estado a que isto chegou" mas era incapaz de imaginar uma coisa tão abjecta.

Muitas vezes penso: será que um nazi olha para mim, por ser de esquerda, com um asco equivalente ao que sinto por ele? Imagino que o sentimento dele seja mais forte do que o meu.

Esse é o problema com esta gente; desenvolvem uma incrível capacidade para odiar aquilo que receiam ao ponto de se animalizarem. Com os nazis não há discussão nem debate: há porrada! Estaremos nós a caminhar para uma Europa onde grandes as decisões se vão decidir segundo o método nazi?

Não há que ter medo, há que estar preparado.

sexta-feira, maio 23, 2014

Vislumbre

Hoje de manhã, ao ouvir o locutor a debitar notícias na rádio, tive uma visão muito sombria. Não pelo conteúdo das notícias, nem sequer me lembro do que o gajo dizia, a sombra toldou-me o espírito quando me concentrei no tom com que o locutor debitava as palavras.

A voz era morna e bem torneada, como são sempre as vozes dos locutores, mas a forma como dizia as coisas que tinha para dizer era de uma inexpressão, de uma frieza distanciada, que me fez recordar os tempos em que, miúdo, ouvia certos colegas a ler nas aulas de Português. Sabiam ler, é certo, mas davam a sensação de não compreender nem um bocadinho o conteúdo das suas leituras. A máquina funcionava mas produzia ruído e pouco mais.

Assim fiquei; estático por momentos, sem dar atenção ao texto, focado exclusivamente no tom. Tive um vislumbre daquilo que (compreendo agora) se está a transformar a nossa sociedade Ocidental: uma coisa vazia e ôca, travestida, uma falsidade que se afirma genuína constantemente, uma beleza horrível de tão perversa (que a beleza pode ser horrível sem ferir mais do que a susceptibilidade de alguns ou apenas da maioria).

Saí do carro como um zombie. Subi a rua sem me aperceber dos passos que dei, levava a cabeça perdida no tal sítio, a cabeça perdida num lugar que é apenas uma visão.

Quando dei por mim estava encostado ao balcão da pastelaria a beber um café. Fui trazido de regresso à realidade pela voz de flauta esganiçada de uma senhora que costuma tomar o pequeno-almoço naquele lugar e fala sempre como se estivesse a discursar sem microfone num comício. Que senhora tão irritante.

terça-feira, maio 20, 2014

Admirável país novo

Continuamos a tratar os nossos alunos como animaizinhos de circo. Treinamo-los na repetição de tarefas, oferecemos-lhes um doce quando cumprem com sucesso o comando que lhes é dado e ficamos todos satisfeitos (pais, professores, ministro, técnicos especialistas, auxiliares de educação, pessoal administrativo, tios, primos, avós, padrinhos e demais encarregados de educação) quando nos momentos de maior pressão, na realização de testes de exame, a maioria dos meninos alcançam médias a rondar a fronteira da negativa. 

É um triunfo, a marca do sucesso do nosso sistema educativo. Se a coisa funcionar assim, poucos cidadãos irão ficar incomodados com o facto de que a maioria dos meninos não seja capaz de argumentar a sustentação de um ponto de vista de forma lógica e fundamentada. 

Não é que eles não tenham essa capacidade, simplesmente não são estimulados a fazê-lo porque não há tempo. Há um programa a cumprir, muitos meninos na sala, alguma confusão, muito açúcar ao pequeno-almoço, não sobra espaço para grandes conversas que não se cinjam estritamente à “matéria”, preferencialmente a “matéria” de exame. 

Eles são treinados: primeiro para copiar o que o professor escreve no quadro e decorar os textos dos manuaizinhos, depois para perceber a melhor forma de debitar tal e qual a informação retida no local correcto. 

A coisa resume-se muito a isto; trabalha-se com os meninos como se trabalha com macaquinhos acrobatas ou leões anestesiados, faz-se da escola uma arena de circo, os professores são como domadores. Um dia mais tarde os meninos serão adultos e, com alguma sorte, continuarão a ser acríticos, a torcer o nariz sempre que lhes cheira a discussão de ideias, dóceis como carneiros de cada vez que os chefes e os poderosos lhes abram os olhos e os mandem obedecer. 

É este o desígnio do nosso sistema de ensino? Assim se constrói um admirável país novo.

domingo, maio 18, 2014

Pesadelo dominical

Poderá a Democracia sobreviver a si própria? A abertura dos regimes democráticos permite a proliferação de todo o tipo de agremiações de sacanas e de filhos da puta. 

A mentira (ou "inverdade", como por vezes se diz) passa com facilidade para a opinião pública travestida de verdade inquestionável. O espaço de reflexão colectiva fervilha de propaganda e tende a menosprezar o pensamento estruturado, a frase curta é uma bomba que faz explodir em bocadinhos o pensamento especulativo. A nossa Democracia idolatra a Facilidade e teme a Dificuldade. Assim resvalamos alegremente para uma fossa repleta de merda.

A Economia ocupa todo o horizonte, nada mais parece visível aos olhos da maioria: só vemos dinheiro, sonhamos com dinheiro, desejamos dinheiro. A Solidariedade, base dos regimes democráticos, é olhada com indiferença, quando não com desdém. O mundo Ocidental contorce-se com dores difíceis de suportar num parto que promete trazer a este mundo um qualquer ser social monstruoso.

Assistimos a tudo isto com uma sensação de impotência, um torpor estupidificante, que parece impedir-nos de pensar e agir. A Política perde terreno, afunda-se em contradições e recuos impensáveis perante a Grande Finança. O que vai sair daqui?

quarta-feira, maio 14, 2014

Milagres


Ontem foi dia de comemorar milagre. Saí à rua a olhar para cima, não fosse a Virgem passar por ali e eu, distraído, a não visse. Pensei em todos aqueles milhares de peregrinos que palmilham as estradas de Portugal em direcção a Fátima, terão eles a secreta esperança de dar de caras com Nossa Senhora?

Cansado de olhar por detrás de cada nuvem à cata de uma aparição, lá me orientei por entre os prédios, o lixo, os automóveis e as pessoas com olhar de zombie, penetrando no meu quotidiano delirante com aquela segurança abstracta que define o modo de ser do citadino contemporâneo: "sou um estereotipo", pensei. "Espera, sou um estereotipo que pensa; menos mau."

É bastante frequente ter pensamentos deste tipo, pensamentos que me sossegam, como se desse palmadinhas no ombro a mim próprio: "deixa lá isso, pá, o mundo é uma merda mas tu até nem estás mal"; é assim que nos distraímos dos passos que damos e nos arriscamos a dar de trombas com um santo qualquer?

Talvez não, esta capacidade para a auto-complacência pelo contrário, deve ser coisa para afugentar as bondosas criaturas celestiais. Imagino que um gajo como eu não precise de um santinho que o salve quando se tem a si próprio. Os santos decerto encontram pessoal bem mais precisadinho das suas capacidades curativas.

Ontem foi dia de comemorar milagre mas os milagres são para quem tem a felicidade de tropeçar neles e não para quem deles anda à procura.

domingo, maio 04, 2014

Domingo

Esta gentinha que nos governa não tem classificação possível. Quando frequentei a escola de Belas Artes, nas disciplinas práticas, não havia classificações negativas. Abaixo de 10 a pauta referia apenas “não apto”. 

Assim classifico Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e restantes sócios. Não merecem mais, eles não estão aptos para a governação, tentar classificá-los faz de nós piores pessoas pois, com facilidade, caímos no desprezo intestino e no insulto soez. 

Não quero ser como eles, quero ser diferente, eu sou diferente destas coisas, eu sou uma pessoa, tenho princípios, acredito que a vida tem um sentido e que esse sentido é fazer do nosso mundo, da nossa sociedade, um lugar melhor para as gerações que se seguem. Recuso a mentira, acredito na Palavra. Recuso a habilidade retórica, acredito nos Valores.

Se calhar não há saída para o buraco em que vivemos, se calhar a realidade é a Caverna e as sombras são a única possibilidade que temos de apreender a realidade. Se calhar as correntes que nos ferem os tornozelos são o melhor que os deuses têm para nos oferecer. Mas, se tiver de eleger um herói, eu elejo Ulisses e desafio os deuses. Os deuses que se lixem. Que se lixem os nervos dos mercados e que se lixem os cenhos franzidos dos deuses nórdicos, eu sou ibérico, vivo debaixo do sol, dificilmente aceito uma divindade que se alimente da sombra.


Esta gentinha que nos governa não imagina o que sejam divindades. São uma turba de paloncitos engravatados, inebriados pelo pivete do perfume com que tentam esconder o fedor que lhes envolve as almas. Não tenho pena deles, sei que vão arder nas chamas de infernos de 3ª categoria enquanto os demónios que os tutelam tiverem capacidade para pagar a conta do gás. Quando lhes acabar a verba vão rebentar de frio. Terão sempre aquilo que a sua soberba e a sua ignorância lhes reserva. Nem mais nem menos. 

Apesar de tudo o universo rege-se por uma espécie de justiça um tanto complicada, é certo, mas justiça.

domingo, abril 27, 2014

sábado, abril 26, 2014

26 de Abril

Ontem comemorou-se o 40º aniversário da revolução portuguesa de 25 de Abril.Como o número era redondo houve um pouco mais de agitação mediática em volta do muito nosso Dia da Liberdade. Nos últimos anos a coisa tinha vindo a esmorecer um bocadinho mas ontem a festa foi de arromba.

Bom, festa, festa... talvez seja um pouco forçado chamar festa ao que ontem por aí se viu. Manifestações, palavras de ordem, discursos chatos, empolgantes, curtos e compridos, de tudo ao povo foi servido mas a impressão com que se fica é a de que anda o pessoalzinho todo lixado com a forma como o poder democrático está a ser exercido na lusa pátria.

Há mesmo quem se atreva a sugerir nova revolução! Mas que revolução seria essa? Poderia o nosso país voltar à rua para apear um governo, ainda para mais democraticamente eleito? Não me parece que seja uma revolução desse tipo a que poderemos agora almejar.

A revolução terá de ser outra coisa, terá de começar dentro de cada um de nós. Temos de pensar nisso!

sexta-feira, abril 18, 2014

Regresso e fuga

Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.

Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.

Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.

Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.

Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.

quinta-feira, março 27, 2014

Beleza

As coisas não têm, obrigatoriamente, que ser belas. As coisas têm, isso sim, de fazer sentido e nós, se fizermos sentido com elas, poderemos compreendê-las. É na nossa capacidade de compreensão que reside a beleza do mundo: descobrir o sentido das coisas faz de nós artistas.

A beleza é uma possibilidade universal e latente. Na verdade todas as coisas do mundo são potencialmente belas  pois todas elas (todas elas) fazem sentido. Uma nuvem é bela, um grão de areia é belo, um monte de merda tem a sua beleza. Um parafuso ou um caracol são fontes de inesgotável beleza. Compete-nos a nós compreender o sentido que estas coisas fazem e descortinar a beleza que possuem.

A beleza das coisas depende muito de quem as vê, ouve, sente; seja um ser humano ou qualquer outro tipo de entidade, animal ou nem por isso. A beleza está aí, em todo o lado, à espera de ser percepcionada. Há, no entanto, milhões de coisas às quais nunca ninguém sentiu, viu ou ouviu o mais leve traço de beleza.

Não sei se não são essas as coisas perigosas...

sexta-feira, março 14, 2014

Numeração humana

Os nazis tatuavam nos judeus que mastigaram em Auschwitz aqueles numerozinhos sinistros como factor de identificação. Uns no braço, outros no peito, estavam todos escritos para não haver confusões.

A nós tatuam-nos uma série de numerozinhos no cartão de cidadão: identificação fiscal, utente de saúde, segurança social e mais uns quantos, um pouco menos perceptíveis mas, decerto, individualizados.

Há também os números das contas bancárias (que alguns de nós tatuam na memória), além dos números dos cartões de débito ou de crédito que funcionam como aquelas tatuagens que saem como brinde nas guloseimas das crianças; aquelas que se "tatuam" com água e vão desaparecendo com o tempo.

Estamos todos escrevinhados, riscados e carimbados, identificados, numerados e chipados. Somos como pombos com anilha electrónica, não damos um passo que não possa vir a ser reconstituído no futuro caso seja necessário alguma autoridade saber onde fomos, por forma a poder decidir o que andámos a fazer.

Virá o dia em que todo e cada ser humano será chipado à nascença, um chip enfiado algures, num lugar de onde seja inamovível. Todos os números guardados bem fundo do ser, o sonho de qualquer sistema burocrático contemporâneo.

Estamos marcados para a vida e, decerto, um dia que nos enfiem num caixote e nos enterrem algures, haveremos de ter um numerozinho qualquer que nos identifique, individualize e permita saber com exactidão onde foram depositados os nossos restos mortais.

sábado, março 08, 2014

Ahoy!

A Ode Marítima, está em cena no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, com Diogo Infante a representar e João Gil, sentado sob uma ténue luz, tocando guitarra de quando em vez.

Infante leva o texto de Álvaro de Campos numa viagem ora suave ora lugubremente alucinada. Gil está lá, umas vezes silencioso, outras dedilhando a guitarra de forma irrepreensível.

O espectáculo é excelente.

Ahoy! A palavra, caraças! A palavra...


quarta-feira, março 05, 2014

Aos amigos brasileiros

Capa da edição do Público de 5 de Março de 2014, a ilustração é de Adriana Calcanhoto

Hoje é dia de aniversário do jornal Público, um dos diários portugueses de maior tiragem no país. Todos os anos o jornal comemora o aniversário convidando alguém para ser director por um dia.

Este ano o Público convidou Adriana Calcanhoto e o número de hoje (ver aqui) é totalmente dedicado ao Brasil. Uma visita ao site do jornal permite ver uma série de reportagens, entrevistas e outras peças jornalísticas dedicadas ao que aqui designamos por País Irmão.

Parece-me uma coisa interessante. Adriana Calcanhoto assina um editorial muito bom e, logo a seguir, na página 3, é publicado um excerto da carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei Dom Manuel por ocasião do achamento da Terra da Vera Cruz. Ao longo do jornal, mais excertos vão aparecendo, como se estivessemos a desvendar o Brasil à medida que vamos avançando na leitura. Essa Adriana tem ideias...

Um número de festa com o Brasil em pano de fundo.