Her (uma História de Amor, na versão portuguesa) é um filme que nos coloca perante uma estranha história de paixão assolapada.
A acção evolui num ambiente moderadamente futurista onde as calças dos homens são demasiado subidas na cintura e a maioria anda de mala a tiracolo pelas ruas da cidade. É um mundo tecnológico e os computadores rondam o interior das cabeças das personagens.
A narrativa desenrola-se num tom melancólico, oscilando entre momentos de comédia e momentos de alguma tensão dramática. Joaquin Phoenix tem um desempenho excelente, como é seu hábito, Amy Adams e a voz de Scarlett Johansson cumprem os respectivos papéis com brilhantismo. Banda sonora a preceito e realização impecável de Spike Jonzee. Deve dar para perceber que gostei bastante do filme.
A história é de amor, como o subtítulo em português sublinha a traço grosso, um amor improvável entre um ser humano e outro que não se percebe muito bem o que é. Parece-me uma alegoria, por vezes quase pueril, sobre o que somos e aquilo em que nos estamos a transformar.
Uma visão plausível do futuro (do presente?) das relações entre seres humanos e outros... objectos. Ou talvez vice-versa...
sexta-feira, fevereiro 28, 2014
segunda-feira, fevereiro 24, 2014
A Princesa Jornalista
Eu não sei, sinceramente, não sei grande coisa sobre esta menina. Estou em crer que seja uma mulher. Grande. Uma grande mulher. Não a conheço nem creio que alguma vez venha a conhecê-la pessoalmente. Leio-a. Há muito tempo que a leio nas páginas do jornal Público.
De há uns anos para cá que ela foi para o Brasil. Agora escreve sobre o Brasil. Está no Brasil, vive no Brasil e escreve sobre a sua estadia, a sua vida, a vida do Brasil (olha ela rindo com seu Jô ali na foto).
Os textos de Alexandra Lucas Coelho vão sendo publicados semanalmente no suplemento 2, que acompanha o jornal todos os Domingos e podem ser lidos aqui, no blogue Atlântico-Sul, o título da sua página semanal na tal revista.
Alexandra é uma Princesa Jornalista. Não precisa de ter tido pai que fosse rei, a realeza de Alexandra é daquelas que se conquistam pela excelência.
Se eu vivesse no Brasil ia ficar feliz por ter uma Princesa assim a viver no meu país. Como vivo em Portugal fico triste por não ter a minha Princesa mais perto. Assim sendo vou vendo o Brasil (onde nunca fui) através dos seus olhos maravilhosos.
Que coisa extraordinária!
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sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Apolos
Oh, quantas vezes esquecemos, quantas vezes ignoramos as divindades! É como com as fadas nas histórias infantis: se não se acredita nelas acabam por desfalecer e, no extremo, batem as botinhas e vão desta pra melhor. Adeus, até nunca mais...
Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.
Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!
Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).
Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).
Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.
Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!
Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...
Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.
Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!
Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).
Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).
Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.
Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!
Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...
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terça-feira, fevereiro 18, 2014
sábado, fevereiro 15, 2014
Viva Dada!
Ontem fui assistir ao concerto dos Mler If Dada no CCB. Passaram mais ou menos 30 anos desde a última vez que os tinha visto actuar ao vivo. De lá para cá tinha ouvido os CD's, principalmente "Coisas que fascinam".
Sinceramente, quando entrei na sala já ia à espera de algo transcendente mas estava longe de imaginar um espectáculo de tal forma magnífico! Sentadinho na confortável cadeira dei por mim a sorrir embasbacado, embevecido, completamente rendido. Terei viajado no tempo? Estou em crer que sim.
Anabela Duarte foi de uma expressividade deslumbrante, Nuno Rebelo mostrou o seu virtuosismo instrumental e genialidade enquanto compositor. A banda foi irrepreensível A sala veio abaixo várias vezes e sempre se reergueu pois havia mais música, mais espectáculo, mais milagres para acontecer.
Quando terminou a função o público ovacionou em pé os extraordinários artistas durante largos minutos. Toda a gente sorria embasbacada, embevecida, toda a gente a sorrir. Cá em baixo e lá em cima, no palco. Uma coisa mais do que bonita, um verdadeiro acontecimento Dada!!!
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
Namoros
Hoje é dia de trabalho rotineiro para o Cupido em que ele faz horas extraordinárias. É suposto que ofereçamos coisas que, de algum modo, simbolizem e comemorem o amor.
Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.
Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.
Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?
Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.
Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?
O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.
Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.
Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.
Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?
Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.
Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?
O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Ai, Miró!
Há 40 anos
era muito pior. Há 40 anos uma percentagem assustadora dos nossos não sabia ler
nem escrever embora fosse capaz de fazer contas. Uns contavam pelos dedos
outros faziam contas de cabeça.
Há 40 anos poucos (mas mesmo muito poucos) dos
nossos sabiam quem era Miró que ainda por aí andava a fazer coisas daquelas. Há
40 anos o nosso Secretário de Estado da Cultura actual já sabia ler e, decerto,
já saberia escrever.
Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso.
Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso.
Há
40 anos éramos um povo de pobres labregos, um país sem estradas nem comércio e,
apesar de termos já muitos ladrões de fato e gravata, estávamos longe de
atingir os níveis de corrupção de que hoje nos orgulhamos nas reuniões da
Internacional Capitalista.
Há 40 anos Portugal era a preto e branco, hoje já
vai havendo uns arco-íris a espreitar detrás da porta do armário. Há 40 anos éramos
governados por um bando de velhacos hoje… bom, hoje somos governados por um
grupo de senhoras e senhores que me abstenho de classificar.
Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.
Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.
Hoje, como
há 40 anos, poucos dos nossos (mas ainda assim muitos mais do que há 40 anos)
têm consciência de quem foi Miró e o que fez enquanto por aí andou. Hoje o Secretário
de Estado sabe ler, escrever e assinar despachos (deve ser lixado representar a
Cultura num governo como este!).
O pessoal já emigra de avião, com uma revista
científica debaixo do braço. Hoje temos muitas autoestradas e o Presidente da
República, embora pouco mais faça que descerrar placas comemorativas, é eleito,
efectivamente, por nós. Continuamos a ter muitos tubarões aldrabões mas isso é fado
de um país que vive junto ao mar.
Miró faz-me pensar no resto, no que era
realmente importante e ficou por cumprir. As 85 telas do mestre apenas servem
para mostrar quão surreal é o mundo em vivemos. O “caso” Miró lembra a quem
pode a urgência de uma verdadeira revolução, uma revolução Dadaísta, que faça
dos urinóis deste mundo peças de arte nas quais possamos mijar à vontade,
aliviando a bexiga à boleia do alívio da alma.
A sensação com que fico é que,
40 anos depois de termos imaginado um país decente e de alguns de nós, que
ainda por aí andam, terem sonhado com isso, falhámos completamente o nosso
objectivo.
Somos um povo que habita um país falhado. Precisamos de recomeçar tudo de novo mas agora os meninos maus ficam de castigo e os mais estúpidos não podem ser chefes de nada.
quinta-feira, janeiro 30, 2014
Momento introspectivo
Ensinar a desenhar é uma coisa divertida. É como fazer uma viagem com a diferença de que, no mundo real, quando viajamos para algum lugar, esse lugar, em princípio, existe e está lá, à nossa espera. No mundo do ensino do Desenho, o lugar para onde vamos ainda não existe; imaginamos que vá existindo, à medida que avançamos.
Um dos maiores desafios para não nos perdermos na floresta (por onde sempre temos de meter quando vamos em frente na aprendizagem das coisas do Desenho) é sermos capazes de verbalizar o que nos corre pela cabeça ao tentar explicar qualquer coisa ao jovem aluno. É como se fossemos construindo a estrada à medida que a vamos pisando.
Descobrir palavras capazes de dizer coisas que (ainda) não existem e que, mesmo depois de ditas, podem continuar a não significar nada que se compreenda, exige, mais do que imaginação, alguma inconsciência.
Sim, para ensinar Desenho não podemos ser completamente sãos da cabeça (pelo menos no sentido em que normalmente se aponta a sanidade mental característica de uma sociedade economicista que é o sermos pouco mais que um calhau com laivos de Humanidade) recomenda-se até uma certa dose de infantilidade e uma dose razoável de erudição visual.
Isso é fundamental porque, quando nos faltam as palavras e aquelas que inventamos se parecem demasiado com coisas banais, há sempre a possibilidade de recorrer a uma referência visual adequada à situação. E, com um computador por perto, o Santo Google fornece-nos todas as imagens com a velocidade instantânea de um dinossauro raptor.
Quando dou aulas de Desenho sinto-me frequentemente fora do tempo. Imagino que seja isto a Fonte da Juventude.
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pensamento profundíssimo
quarta-feira, janeiro 29, 2014
domingo, janeiro 26, 2014
Momento literário
Aos poucos fomos assentando as nossas ideias, revendo-as de trás para a frente durante umas semanas até chegarmos a um projecto final. "Forma e coerência - disse o mestre. - Estrutura, ritmo e surpresa."
Paul Auster in Mr. Vertigo
Forma e coerência. Estrutura, ritmo e surpresa... uma receita promissora para todo o aspirante a criador. Se Deus tivesse lido Mr. Vertigo talvez o mundo não fosse tão merdoso.
Paul Auster in Mr. Vertigo
Forma e coerência. Estrutura, ritmo e surpresa... uma receita promissora para todo o aspirante a criador. Se Deus tivesse lido Mr. Vertigo talvez o mundo não fosse tão merdoso.
sábado, janeiro 25, 2014
Partidos
O recente episódio da disciplina de voto dos representantes do PSD no
Parlamento causou algum estrondo na opinião pública mas é bom notar que, longe
de ser um caso isolado, é apenas mais um capítulo na longa telenovela da
história da nossa Assembleia da República. Uma telenovela com argumento de faca
e alguidar e um casting cada vez mais
miserável.
Ao longo dos anos os grupos parlamentares têm oferecido espectáculos
deste nível a todos nós sem que ninguém mexa uma palha para fazer cumprir a lei
que os próprios deputados desrespeitam. A disciplina de voto no Parlamento é
uma aberração democrática e uma alarvidade partidária. Os deputados que a ela
se sujeitam deixam de merecer a confiança de quem os elegeu e mostram que o
número de cadeiras no Parlamento à disposição dos aparelhos partidários é, pelo
menos, exagerado.
Pessoalmente,
o que me preocupa é que se estes tipos se comportam assim à vista de toda a
gente como serão na intimidade e aconchego das respectivas sedes partidárias? Se
perante o país os deputados mostram que a sua liberdade de opinião não vale um
chavo tenho dificuldades em imaginar o que será uma reunião para decidir os
representantes do partido nas listas seja para que eleição for. Será como
escolher cabeças de gado manso para o redil parlamentar?
O sistema
partidário, tal como funciona, é um entrave à Democracia. A opacidade das
decisões políticas, as negociatas feitas à descarada, o evidente aproveitamento
da coisa pública por aqueles que dela deviam zelar sem que isso lhes traga o
mínimo amargo de boca, a sensação que o Zé Povo tem de estar a ser
constantemente roubado e enganado, deveriam fazer pensar os responsáveis pelos
partidos e levá-los a tentar inventar alguma coisa que inverta a actual
situação. Caso contrário, talvez a próxima Revolução seja contra eles.
quarta-feira, janeiro 22, 2014
Aparição
Rodou os olhos para fora da janela. Parecia estupidificada, sem compreender o que fazia ali, como se regressasse ao mundo dos vivos após uma breve estadia no Além. Exalava tristeza por todos os poros ao ponto de criar uma névoa breve que lhe envolvia a expressão facial.
Escrevi estas palavras no meu bloco de notas e, quando olhei de novo, a senhora já lá não estava. Desaparecera do mesmo modo que surgira, num silêncio sepulcral. Fiquei a duvidar dos meus sentidos.
domingo, janeiro 19, 2014
Transparência
Foto de João Menéres retirada daqui
Disse o Jorge Pinheiro que "Cidade Transparente", o mais recente livro de Eduardo Lunardelli, se lê de um fôlego. Eu li em dois.
De início pensei estar a mergulhar nas memórias de Eduardo. Depois percebi que não era bem assim, que os diferentes textos/capítulos do livro me levavam numa espécie de comboio a viajar numa montanha russa. Tão depressa estava lá em cima como a seguir era levado encosta abaixo em grande velocidade. De repente parava. Logo a seguir recomeçava a viagem.
Há histórias sem Eduardo, outras com ele mesmo e outras ainda talvez o tenham por lá, mais ou menos escondido, mais ou menos revelado.
Em Paraty encontrei-me a mim próprio, quase quase personagem ficcionada, a olhar em frente ao lado de Picasso com quem Eduardo conversara. No final visitei a Cidade Transparente, esse lugar extrordinário que haverá de acabar por ser de insuportável transparência.
Para terminar este post quero agradecer a Eduardo ter-me oferecido esta viagem, coisa que apenas um amigo poderia oferecer.
Obrigado Eduardo.
sexta-feira, janeiro 17, 2014
Constatação
Por vezes sinto vergonha de ser português. Noutras ocasiões sou invadido por um orgulho tremendo pelo simples facto de fazer parte deste povo. Ser português é uma esquizofrenia cavalgante.
Imagino que esta bipolaridade não seja um exclusivo do povinho cá da terra. Todo o ser humano haverá de balançar entre o aperto no coração e a largueza do espírito. Tem dias.
Uma coisa começo a notar: são os engravatados, os doutores, os espertos e outras bestas do género que me envenenam o peito. Os mais burgêssos, os simplórios, os que falam "achim" e "dijem" "coijas" banais são os que me fazem sentir mais próximo de uma humanidade que anseio seja a minha.
Sou gajo de tasca (das antigas, sujas e a cheirar a vinho a martelo, não destas limpinhas e cheias de tiques que agora ostentam "tasca" no nome e cobram caro pelo mais singelo chouriço); muitos talheres e vários copos sobre a mesa coberta com toalha de pano fazem-me tremer a merda das pernas.
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Uma pessoa
Pelo olhar percebia-se logo que era uma pessoa muito grande enfiada num corpo pequenino. Ainda por cima era um corpo mal acabado, como se a Natureza estivesse apressada ou bêbeda no dia em que aquela pessoa extraordinária viu pela primeira vez a luz que ilumina este mundo.
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personagens (reais ou nem por isso)
domingo, janeiro 12, 2014
Elegia
Eusébio,
Tusébio,
Elesébio,
Nósèbio,
Vósèbio,
Eles aproveitam-se da tua imagem de um modo que até mete nojo. Roubam-te, vendem-te, dão-te lustro, empacotam-te, mandam-te para o Panteão, exibem-te na lapela em forma de lamento. Não imagino coisa mais feia que fazer se possa.
Tusébio,
Elesébio,
Nósèbio,
Vósèbio,
Eles aproveitam-se da tua imagem de um modo que até mete nojo. Roubam-te, vendem-te, dão-te lustro, empacotam-te, mandam-te para o Panteão, exibem-te na lapela em forma de lamento. Não imagino coisa mais feia que fazer se possa.
sábado, janeiro 11, 2014
A moldura
Nunca fui grande admirador da pintura de Renoir. Nem quando a conhecia apenas através de fotografias, bastante menos, ainda, depois de ter visto ao vivo umas quantas obras do grande mestre francês. Parece-me uma coisa pesada, sofrida, um tanto forçada. Mas é a minha opinião pessoal que vale o que vale.
Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).
Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.
A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.
A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.
Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!
Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).
Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.
A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.
A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.
Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!
quinta-feira, janeiro 09, 2014
Solidões (fica estranho no plural)
A solidão é um deserto enfiado no prato do almoço. Mesmo os feijões parecem desirmanados, estranhos que apenas se encontram quando enfiados na boca, mastigados e empurrados goela abaixo feitos papa. Aí sim, os feijões lá se entendem uns com os outros. Ás voltas no intestino já não há divergências, ciúmes, diz-que-disse, tentativas de burla, nada disso: ás voltas no intestino os feijões são todos irmãos.
A solidão é um deserto imenso (como todos os desertos) e é um deserto pequenino, como o prato vazio que espera o calor do almoço. A solidão, como o deserto, está rodeada de coisas por todos os lados. A solidão e o deserto são apenas ilhas no imenso arquipélago de silêncios e ausências em que se vai transformando a nossa existência.
A capacidade de verbalizar o que nos vai na mente pode não ser o suficiente para construir uma mensagem eficaz. As pessoas que falam e escrevem com dificuldade em concluir de forma clara uma ideia que preencha com eficácia os canais de comunicação, têm, muitas vezes, dificuldades em construir as ideias no próprio cérebro.
Ainda as ideias lhes dançam dentro do crânio e já lhes faltam peças. Quando saem para os ouvidos e os olhos do interlocutor, são já coisas disformes, muito diferentes das maravilhas pensadas. A distância entre o que se pensa e o que diz pode ser imensa... como um deserto. Muita gente se perde nessa distância e fica só. Como um único feijão no fundo do prato do almoço. Promessa de solidão e fome.
A solidão é um deserto imenso (como todos os desertos) e é um deserto pequenino, como o prato vazio que espera o calor do almoço. A solidão, como o deserto, está rodeada de coisas por todos os lados. A solidão e o deserto são apenas ilhas no imenso arquipélago de silêncios e ausências em que se vai transformando a nossa existência.
A capacidade de verbalizar o que nos vai na mente pode não ser o suficiente para construir uma mensagem eficaz. As pessoas que falam e escrevem com dificuldade em concluir de forma clara uma ideia que preencha com eficácia os canais de comunicação, têm, muitas vezes, dificuldades em construir as ideias no próprio cérebro.
Ainda as ideias lhes dançam dentro do crânio e já lhes faltam peças. Quando saem para os ouvidos e os olhos do interlocutor, são já coisas disformes, muito diferentes das maravilhas pensadas. A distância entre o que se pensa e o que diz pode ser imensa... como um deserto. Muita gente se perde nessa distância e fica só. Como um único feijão no fundo do prato do almoço. Promessa de solidão e fome.
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filosofia de tasca,
reflexão
segunda-feira, janeiro 06, 2014
O Eusébio
Faleceu Eusébio da Silva Ferreira. A comoção é grande, o país está de luto. Tenho sensações estranhas em relação a isto.
A onda de notícias, opiniões, testemunhos, epitáfios e mensagens de condolência é avassaladora, um maremoto de tristeza a varrer o mapa de Portugal. Pensei que me era indiferente mas já me comovi uma ou outra vez ao ouvir o rádio. Sobretudo ao ouvir palavras de pessoas anónimas em programas radiofónicos. Palavras simples de agradecimento e admiração por um homem cuja principal qualidade fora dos relvados de futebol era, ao que parece, uma extrema simplicidade.
O que me comove, penso eu, é constatar que, para o cidadão comum, a simplicidade é um valor superior. Num mundo doentiamente mediatizado e repleto de vedetas em pose surge este ícone modesto e de face humana. Um deus dentro do campo e um ser humano fora dele.
Quanto mais não seja é isto que a gradeço ao Eusébio. Todos o tratávamos por "o" Eusébio. Único e irrepetível Eusébio.
A onda de notícias, opiniões, testemunhos, epitáfios e mensagens de condolência é avassaladora, um maremoto de tristeza a varrer o mapa de Portugal. Pensei que me era indiferente mas já me comovi uma ou outra vez ao ouvir o rádio. Sobretudo ao ouvir palavras de pessoas anónimas em programas radiofónicos. Palavras simples de agradecimento e admiração por um homem cuja principal qualidade fora dos relvados de futebol era, ao que parece, uma extrema simplicidade.
O que me comove, penso eu, é constatar que, para o cidadão comum, a simplicidade é um valor superior. Num mundo doentiamente mediatizado e repleto de vedetas em pose surge este ícone modesto e de face humana. Um deus dentro do campo e um ser humano fora dele.
Quanto mais não seja é isto que a gradeço ao Eusébio. Todos o tratávamos por "o" Eusébio. Único e irrepetível Eusébio.
quinta-feira, janeiro 02, 2014
Roma
Palazzo, chiesa, pizza, spaghetti, spaghetti, pizza, chiesa, palazzo. Haverá país no mundo com mais igrejas do que Itália? Sendo Roma a capital, haverá cidade no mundo com mais igrejas do que Roma? Pizzarias e spaghetterias. Palácios... caramba, quantos palácios tem Roma?
Ruas estreitas, igrejas e palácios. Ristorantes aos molhos e milhares de turistas caminhando. A cidade está repleta de pormenores artísticos. É uma coisa esmagadora e deslumbrante. Palácio, igreja, igreja, palácio. Entrar numa igreja ou outra, assim, ao acaso, é uma experiência estonteante. Encontram-se coisas magníficas! E, de vez em quando, um rasto de Deus.
O Panteão, as piazzas, bom, as piazzas... a Piazza Navona é uma feira permanente, a Piazza dei Fiori é uma feira ocasional, a Fontana dei Trevi não percebi o que é. Fiquei com a impressão que é um portal para outra dimensão mas não posso afirmá-lo com toda a certeza.
Enfim, alguns dias a percorrer as vias romanas deixaram-me com vontade de o fazer de novo. Um dia voltarei e talvez veja o Papa. Desta vez fui ver a Capela Sistina. Para a próxima vou fazer-te uma visita, Chico, fica combinado.
Arrivederci Roma.
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