terça-feira, agosto 25, 2009

Virgindade perdida?

um trabalho de Vhils algures em Lisboa (parece-me)

Li um interessante artigo num dos milhentos suplementos do Público sobre a forma como o grafiti e a arte da rua se estão a transformar em negócios com futuro promissor. Há inclusive uma empresa londrina que oferece "tours" privados para grupos até 5 pessoas pelas ruas do East End por 186€. Aquilo que em Portugal ainda pode dar problemas legais aos grafiteiros, está já ao nível do investimento comercial lá para as bandas de Londres e arredores. É por essas e por outras que uns crescem e outros sofrem de ananismo económico.

É claro que um gajo como Banksy dá muito jeito para publicitar e convencer as forças vivas da nação da importância da arte da rua no panorama cultural contemporâneo. Mas há, decerto, um milhão de artistas com as mesmas potencialidades à espera do momento oportuno para explodirem dentro deste mundo. O garafiti é uma espécie de super-artesanato, uma forma de expressão popular espontânea e de cariz absolutamente urbano, uma materialização espêssa e viscosa da cultura global que se pretende asséptica e liofilizada.

Agora que está já a chegar aos museus e galerias, que as obras dos artistas mais vistosos começam a ser cobiçadas não pelos putos da rua mas pelos putos da mansão em frente, a arte da rua conseguirá manter a sua fúria criativa? Veja-se o que aconteceu com a música popular. O que restou do Rock ou do Punk? Uns velhinhos que andam por esse mundo em digressão, umas poses, uns penteados, umas modas mais ou menos genuínas e pouco mais. Coisas que se vendem, aquilo a que chamamos "merchandising". Desde que se tornou um negócio que a selvajaria da música popular ficou ao nível da do ursinho de peluche. O objectivo de produzir um hit formata de tal modo as pessoas que só são capazes de criar música que não fica a dever nada às latinhas do Manzoni.

Com o tempo, a arte da rua haverá de conhecer novos fenómenos e inventará outras direcções que agora nem somos capazes de imaginar. Entretanto haverá quem nos surpreenda e fascine, quem nos faça sorrir ou simplesmente abanar a cabeça para espantarmos alguma mosca mais insistente que não nos queira deixar em paz. Entretanto convido-te a dares uma olhadela a este vídeo de Vhils em pleno acto criativo. Penso que não darás o teu tempo por perdido.

sábado, agosto 22, 2009

Forma e conteúdo


A ideia de uma eleição democrática aos olhos de um cidadão ocidental pode resumir-se rapidamente: os candidatos apresentam os respectivos programas eleitorais; segue-se um período de debate e esclarecimento com forte intervenção dos meios de comunicação social que vai revelando os resultados de milhentas sondagens; os eleitores acompanham estes acontecimentos, debatendo também, entre si, à medida que os candidatos se vão revelando; finalmente os cidadãos eleitores depositam os votos nas urnas (ou votam electronicamente) que serão contados de forma justa, na presença de representantes de todas (ou da maioria) as forças concorrentes à eleição. É aqui que reside a pedra de toque de todo o processo. Depois, quem tem mais votos ganha. Os candidatos derrotados felicitam os vencedores e todos vão às suas vidas. Límpido e cristalino de tão simples.

Os números são publicados e dissecados, tornando-se a "coisa em si". As percentagens são analisadas e explicadas e as peripécias da campanha vão sendo esquecidas até restarem apenas tabelas com numerozinhos mais ou menos mágicos que acabam por ficar para a História.

No Afeganistão não podia acontecer nada disto! Num país em plena guerra, a lisura do processo parecia interessar mais aos observadores das nações estrangeiras que ali mantêm exércitos (de ocupação?).

Durante a campanha, com mais de 30 candidatos, anunciaram-se as mais variadas falcatruas. Após o fecho das urnas dois candidatos apressaram-se a reclamar vitória, com indicação da percentagem de votos que teriam obtido e tudo. A tensão subiu em flecha e o potencial de violência passou a vermelho. Muitas mulheres se apresentam de burka na mesa eleitoral e todos os participantes mergulham o indicador numa tinta indelével para evitar votos duplos que, mesmo assim, parecem ser bastante vulgares. Os talibãs terão ameaçado cortar dedos pintados que encontrassem agarrados a mãos eleitoras. Pelo menos dois dedos foram cortados. Isto é um pormenor (dois pormenores) se tivermos em conta o número de mortos e feridos em atentados nos últimos dias.

Enfim, parece que o mais importante para toda a gente serão os tais numerozinhos mágicos, as percentagens finais que serão validas e publicadas com o aval da União Europeia e dos Estados Unidos da América. Mesmo que esses números resultem de uma sucessão de anormalidades democráticas, serão comentados como uma vitória da democracia. Haverá um presidente eleito no cadeirão de Cabul que servirá de espelho aos ocidentais interessados em manter poder e influência por aquelas bandas.

A questão final é: como pode existir uma democracia num país em guerra de desagregação? Como podem funcionar instituições democráticas com metralhadoras e explosões à hora do telejornal? Sinceramente, o que eu vejo ali é uma anedota algo macabra. Aquela imitação grotesca das democracias ocidentais transforma os eleitos em pouco mais que palhaços ao serviço das "ajudas" internacionais. Aquilo não é uma democracia! Pela razão simples de que a democracia é um sistema de governação que implica a aceitação das suas regras básicas que têm raízes culturais profundas. O Afeganistão não parece estar preparado para a democracia. Sinceramente, parece-me que não está sequer interessado nisso. Um pouco de paz... isso sim, seria perfeito.

quinta-feira, agosto 20, 2009

A 800 metros do sexo feminino



Ontem à noite estava eu a fazer zapping entre os milhentos canais da televisão, quando passei pelo Eurosport e fiquei a ver um resumo das provas do dia dos campeonatos mundiais de atletismo que estão a decorrer em Berlim. As imagens eram da corrida dos 800 metros femininos e uma das atletas, com um equipamento algo diferente dos restantes, comandava com aparente facilidade. Tudo bem, já se sabe que nestas corridas rápidas há sempre quem se lance na frente durante uma volta ou volta e meia e, no final, ao sprint, veja passar em alta velocidade as adversárias que guardaram forças.

Mas, desta vez, a comandante do pelotão não fraquejava nem um pouco. Antes pelo contrário. Com um estilo de corrida pouco usual, parecendo mais dar grandes passadas, como se caminhasse muito depressa, quase sem saltar entre um passo e outro, Caster Semenya, uma jovem sul-africana de 18 anos de idade, ia cavando a distância para as suas mais directas competidoras, acabando por vencer com uma distância e uma facilidade inesperadas em relação à segunda classificada, a queniana Janeth Jepkosgei, anterior campeã mundial. As 3ª e 4ª chegaram em cima da 2ª, num sprint espectacular e admirável. Longe da vencedora que parecia ter ido ali correr como se estivesse apenas com receio de se atrasar para apanhar o comboio.

Quando a imagem focou de perto a vencedora (nunca antes a tinha visto) pareceu-me pouco feminina. A forma como caminhava, gingando os ombros e flectindo os joelhos a cada passo, fazia lembrar um jovem rapper. A ausência de peito e uma espécie de buço a emoldurar-lhe os lábios completavam a sensação de se estar perante um rapaz e não uma rapariga.

Outro pormenor estranho; Caster não parecia muito feliz, ainda menos eufórica, ao contrário das outras medalhadas que sorriam e saltavam de contentamento, Caster sorria pouco ou nada. Algo incomodava aquela campeã.
Hoje, ao ler os jornais, lá vinha a notícia "IAAF quer saber se campeã dos 800 metros é uma mulher". A feminilidade da campeã é posta em causa. Tudo bem. Maria de Lurdes Mutola, uma anterior campeã moçambicana na mesma distância também parecia um homem. Ao que parece suspeita-se que Caster seja hermafrodita.

Fiquei a pensar no caso. Onde poderão competir os atletas hermafroditas? Com os homens? Com as mulheres? Ou terá de ser criada uma competição especial exclusiva? Teria a sua piada, numa corrida de 800 metros para o campeonato do mundo para atletas hermafroditas, a campeã ser posta em causa, sob suspeita de ser uma mulher, tendo de provar o contrário sob o risco de lhe ser negada a vitória.

A finalizar, uma curiosidade retirada do Público: "(...) em 1992, no seguimento de testes laboratoriais realizados nos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão, chegou-se à conclusão que um em cada 500-600 desportistas analisados teria problemas na determinação do sexo".

terça-feira, agosto 18, 2009

Embuste global


Todos os anos, o parasita da malária infecta 200 a 500 milhões de pessoas no mundo e mata um a dois milhões. Então, o que é que protege naturalmente da morte a esmagadora maioria dos infectados? A equipa de Miguel Soares, do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, acaba precisamente de descobrir um mecanismo de protecção natural contra as formas graves da malária e hoje publicou os resultados na revista norte-americana “Proceedings of the National Academy of Sciences”.


Esta notícia (ler aqui) é motivo de regozijo, evidentemente. Mas o que me chamou a atenção foram os números, logo a abrir; "Todos os anos, o parasita da malária infecta 200 a 500 milhões de pessoas no mundo e mata um a dois milhões. " Ena, tanta gente, não é? Porque motivo não andam as grandes companhias farmacêuticas frenéticamente empenhadas na busca de um medicamento que ponha fim a este flagelo? A resposta parece óbvia, a malária não é uma doença económicamente interessante já que a sua incidência se verifica em zonas e em países onde as populações têm um nível de vida próximo da miséria mais abjecta. Como já foi frisado num post anterior, a gripe A é uma mina de ouro (aqui não se aplica a imagem da Galinha dos Ovos de Ouro, por ser uma gripe suína, Porco dos Ovos de Ouro não ficava bem...) por ser uma doença que ataca nos países desenvolvidos da mesma forma que nos países mais pobres.

Tudo indica que a pandemia da paranóia a que assistimos com o aumento de casos de H1N1 tem motivações mais do foro económico que do foro de uma preocupaçao genuína com a Saúde Pública. Isto mostra como a nossa sociedade global é gerida. Não são motivações humanitárias que estão na génese das guerras mais recentes. O Iraque foi um caso óbvio. Não é a preocupação com os direitos humanos que dita as grandes linhas da diplomacia como podemos constatar quando observamos a forma como a comunidade internacional lida com Angola ou com a Birmânia. Não. O que move a globalização é o sujo e vil metal. Só o dinheiro interessa a quem o tem. Nada mais. Nadinha! Quando vemos aqueles senhores enfatuados a discursar com cara de enterro, preocupados com os males do mundo enquanto remexem os bolsos por debaixo da mesa, estamos a assistir ao grande embuste global.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Inimigos


Hoje fui ver o Johnny Depp em Inimigos Públicos. Um belo filme, sem sombra para dúvidas. Sobretudo teve o condâo de me deixar sossegado quanto às qualidades do actor. De há uns tempos para cá que andava desconfiado de que a minha admiração por Depp se devia mais a Tim Burton do que ao rapaz. Começava a vê-lo como um construtor de personagens que pouco mais seriam do que bonecos magnificamente enquadrados pela câmara de filmar de Burton. Em Inimigos Públicos o Johnny Boy mostra qualidades suficientes para espantar as dúvidas. Vai muito bem sem fazer qualquer tipo de esgar ou palhaçada.

A trama do filme, situada na Grande Depressão, gira em volta da personagem de John Dillinger, o assaltante de bancos. Numa época como aquela que vivemos, onde os bancos voltam a ser os maus da fita (alguma vez deixaram de o ser?), a simpatia pelo bandido ultrapassa de longe a que pudessemos desenvolver por Melvin Purvis, o bófia interpretado por um Christian Bale cada vez mais fechado numa concha empedernida.

Aquela Depressão durou anos. A nossa, ao que nos querem fazer crer, está já a ser ultrapassada. Um anito apenas e as economias parecem querer voltar a crescer, ainda que apenas gatinhem e estejam a aprender a andar outra vez.

Passados estes anos todos, os capitalistas aprenderam que, para poderem viver no luxo, têm de ter alguma calma. Sem consumidores não há sistema económico que se aguente. Assim, estão a redistribuir as migalhas necessárias para que as célebres classes médias possam regressar aos seus hábitos de consumo que lhes enchem os bolsos.

O caso da Gripe A é paradigmático. Andavam dodinhos para encontrarem uma Pandemia que atacasse os países capitalistas. Reparem como há grandes laboratórios a trabalhar dia e noite para produzirem em larguíssima escala uma vacina que se VENDA como se fosse oxigénio na Lua. Alguém vai ficar podre de rico à custa de uma doença que não é tão agressiva como a pintam. Enquanto isso, em África, continua a morrer-se de desinteria ou malária. Quem se incomoda com isso?

Voltando a Inimigos Públicos, termino dizendo que Dillinger, nos nossos dias, seria uma personagem impossível. É de um passado distante que nos fala o filme, apesar de nos parecer próximo. Os inimigos são semelhantes, mas os métodos que utilizam não têm nada a ver. O H1N1, por exemplo, é um estranho aliado dos grandes capitalistas e não há Dillinger que o passe a tiro de metralhadora.

terça-feira, agosto 11, 2009

Uma questão de chá

lá ao fundo está a Gioconda, absorvendo por completo todo o espaço em volta


Atirar um pouco de chá contra a urna de vidro que envolve e encerra a Mona Lisa parece ser uma acção algo frouxa. Aconteceu no passado dia 2. Segundo os relatos, uma turista russa atirou chá à mais célebre pintura de Leonardo não provocando qualquer dano. "As autoridades acreditam que a mulher sofre da síndrome de Stendhal, que faz as pessoas agirem de forma irracional, quando tocadas por uma obra de arte."

Ora aí está uma maleita pouco conhecida mas eventualmente bastante comum, a Síndrome de Stendhal. A descrição dos sintomas que podemos encontrar na Wikipédia (onde poderíamos encontrar essa informação a não ser ali?) é um tanto estranheca. Uma pessoa fica sem ar, sente vertigens, alucina perante uma sequência demasiado avassaladora de obras de arte que a deixam palpitante, em absoluto ataque de nervos. E... pimba! Uma pessoa ataca a obra responsável por tanta agitação. É lógico.

É mais ou menos célebre a história de Joe Berardo que terá comprado uma reprodução da Gioconda (um poster) convencido de estar a adquirir uma pintura original. Na época foi a sua mulher quem lhe chamou a atenção para o facto de que não haveria dinheiro que comprasse o original e o futuro Comendador decidiu ali mesmo que a aquisição de obras de arte verdadeiras seria parte do seu futuro (parte do seu presente), numa manifestação ligeira de uma variante da Síndrome de Stendhal. Não lhe deu para destruir obras de arte mas sim para as amontoar, aparentemente para se vingar da sua própria ingenuidade, agora largamente ultrapassada. Ainda bem que o homem adoeceu assim. Hoje podemos admirar o resultado da sua doença para nosso proveito próprio.

Voltando ao caso da turista russa que atirou chá à Gioconda, penso que todos nós devemos alguma solidariedade à senhora. Não é fácil visitar o Museu do Louvre sem ficar profundamente impressionado pela enormidade monstruosa das suas colecções. Visitei esse monstro cultural aqui há uns anos. No primeiro dia vagueei pelas suas salas e corredores durante 9 longas horas. E saí com a sensação de que tinha perdido imensa informação importante. Dois dias depois voltei ao ataque. Desta vez aguentei apenas 7 horas (uma pessoa tem limites!) e senti uma revolta profunda. Não sei se fruto do cansaço ou se acometido de um ataque da Síndrome de Stendhal, dei por mim a maldizer aquilo. Aquele lugar é um caixão de civilizações. Frisos de templos gregos enfiados em pátios interiores em camadas sucessivas, atarracados e descontextualizados; estátuas clássicas arrumadas em salões imensos, como se fossem florestas de mármore ou carcaças de animais penduradas num matadouro; corredores atravancados das mais extraordinárias pinturas de todas as épocas, nomeadamente dos mestres italianos do Renascimento; salas e salas com vitrinas repletas de pequenos objectos saqueados nos mais variados pontos do globo terrestre... um mundo sem fim enfiado num lugar vagamente finito, num quase insulto à Humanidade. Foi o que senti.

É evidente que me emocionei até às lágrimas perante diferentes objectos, que me perdi do meu corpo em mais do que uma situação, tive revelações espantosas que me deixaram em êxtase religioso mas, quando saí daquele lugar infernal, estava profundamente indignado. Nenhum povo tem o direito de se apropriar assim dos tesouros dos outros povos e fazer disso bandeira de grandeza.

A turista russa podia ter bebido o seu chá, muito simplesmente. Mas compreendo que se tenha privado desse prazer na tentativa de fazer justiça pelas suas próprias mãos.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Passou-bem?

imagem do filme "Eu, robô"



Quando era pequeno os meus avôs (as avós não entram nesta história) quando esticavam a mão não cumprimentavam as pessoas, davam-lhes um "passou-bem". Incentivavam-me a dar um "passou-bem" tanto a conhecidos como a desconhecidos, em sinal de cortesia. A cortesia devia ser sempre o ponto de partida para qualquer contacto com outra pessoa. Claro está que nem sempre a cortesia era sustentável, mas isso é outro caminho, caminho pedregoso, em direcção à floresta selvagem.


Foi assim que me ensinaram. Quando encontro alguém e faço um cumprimento, no meu espírito forma-se aquela palavra, quase uma frase; "Passou-bem?" O contacto estabelecia-se indagando cortêsmente o outro sobre a forma como se sentia, basicamente perguntando se estava de boa saúde. A resposta não é (não era) o mais importante, normalmente é (seria) "Bem, muito obrigado."


Mais tarde, numa aula qualquer, era eu ainda uma criança, um professor contou que, em certos lugares (penso que o professor referiu a Índia, não me recordo com precisão) as pessoas se saudavam umas às outras com uma fórmula completamente diferente; "Já comeu hoje?" Fiquei estupefacto. A revelação foi tremenda! A forma como comunicamos depende de tantos dados específicos que varia enormemente de um lugar para o outro, de um grupo social para outro. Compreendi a diferença como ponto essencial para entrar na vida quotidiana. Isto já foi há muitos anos e nem sei bem porque me lembrei hoje de tal coisa.


Como será que as pessoas se cumprimentam no Irão? Qual a fórmula utilizada na China?


Procurando uma imagem para ilustrar este post apercebi-me de outra variação. Em inglês o termo utilizado para designar o que em Portugal chamamos "aperto-de-mão" é "hand shake", traduzido livremente à letra poderia ser "abano de mão". Nós apertamos, eles abanam, mas, lá no fundo, estamos todos a dar um "passou-bem".

domingo, agosto 09, 2009

A Morte não vai de férias


Mesmo de biquini e óculos escuros, a Morte não pára de trabalhar e procura, incessamente, mais clientes e novas formas de aplicar fundos em investimentos lucrativos. Guerras, doenças, acidentes, os recursos da senhora são inesgotáveis e dão sempre lucro. Constantemente.

A Morte é sempre notícia. Quando morrem desconhecidos o valor da notícia mede-se pelo número de vítimas. Quando morre uma figura pública tem mais a ver com a sua popularidade. De uma maneira ou de outra, a Morte consegue sempre páginas inteiras a ela dedicadas, grandes manchetes e fotos espectaculares. Seja aqui ao lado ou lá longe, o fascínio pela Morte aguça-nos o ouvido, desperta-nos a atenção e põe-nos a comentar com maior ou menor intensidade as suas mórbidas tropelias. Umas vezes provoca terna saudade, outras violenta indignação, mas nunca pára de trabalhar, a malvada.

Entre os 37 xiitas iranianos que foram despedaçados por uma bomba em Mossul e Raúl Solnado, falecido serenamente numa cama de hospital, o resultado prático do trabalho da Morte é semelhante.

Imagino o que seria se a Morte, cansada de tanto trabalhar, resolvesse tirar umas férias. Quero dizer, não imagino, é uma coisa inimaginável. Um dia que fosse sem a visita da morte... na verdade, se isso acontecesse, nem sequer iríamos reparar. Como poderíamos confirmar uma bizarria desse calibre? E não haveria de haver nos jornais uma linha que fosse sobre o assunto. Se calhar é por isso que a Morte não tira férias, ela é uma grande vaidosa e só quer que lhe dêm atenção. Se calhar é isso...

segunda-feira, agosto 03, 2009

Mal passado




Eu sou um gajo que assa mal ao sol. Por muito que tente (e não tento) nunca fico bem passado. Deus não me contemplou com o dom da morenice. Rapidamente ganho aquele tom alagostado se me descuido, ficando na praia para lá do tempo certo. Memórias de uma pele incómoda obrigam-me a evitar excessos. Há os cremes protectores, os guarda-sóis, as t-shirts, as esplanadas, uma vasta gama de subterfúgios capazes de manter a minha pele razoavelmente saudável e protegida da inclemência de Ra. Daí que, sempre que vejo uma pessoa cor-de-rosa como um pedaço de carne de porco antes de cozinhar, sinta uma suave perplexidade.

Pronto, eu sei, para ficarem daquela cor terão de reunir várias qualidades:

1) Não devem fazer ideia do que é sentir a pele apertada sobre os ossos com um calor permanente, como se o corpo suasse para dentro, incapaz de suportar o mais leve toque que não seja o de uma brisa milagrosa que de nós se condoa;

2) Vêm de lá detrás do sol nascente por alguns dias. Vêm precisamente à procura das praias e do sol. Os poucos dias de que dispõem nesta espécie de paraíso quase tropical agarrado ao queixo da Europa embota-lhes o espírito ao ponto de os levar a colocarem-se directamente debaixo do astro-rei mais tempo do que a conta;

3) São simplesmente estúpidos ou ignorantes como um burro ansios perante um caixote de cenouras colocado à beira de um precipício;

4) Podem ainda configurar uma personagem que não se enquadre em nenhuma das descrições anteriores e terem, apenas, azar.

Seja como for, fico sempre algo espantado perante aqueles corpos rosados, debaixo de cabelos claros e, quase sempre, demasiado longe dos pés, lá nas alturas. Loiros e rosados, ainda assim continuam debaixo do sol. Imagino que muitos deles derretam, escorrendo simplesmente para o bueiro na valeta. Imagino que serão fruto da minha imaginação, que ninguém expõe daquela forma a fragilidade da sua pele à inclemência de uma eterna divindade egípcia que, como todas as divindades, se está bem a cagar para as dores e os problemas dos seres a que chamamos humanos.

Gulodice tropical


Acabei de ler Barroco Tropical de José Eduardo Agualusa. Tinha começado a leitura no fim-de-semana anterior e interrompi-a. Neste fim-de-semana regressei ao ponto em que havia suspendido a leitura . Este regresso deixou-me um pouco confuso devido ao tempo que, entretanto, se tinha entrometido entre mim e as aventuras de Bartolomeu Falacato, personagem mais ou menos central da narrativa. Assim sendo resolvi voltar atrás, ao início. A releitura das primeiras 80 páginas revelou-se um exercício de puro prazer (para os curiosos que pretendam ler o 1º capítulo clicar aqui, entrada para a revista LER). Quantos livros eu devia reler na busca de experiências como esta? Mas, se não lesse novos livros, como haveria de saber que releituras fazer? Este dilema deixa-me frequentemente indeciso. Por vezes compro livros que já li e coloco-os na prateleira depois das primeiras páginas com a firme convicção que será aquela a próxima leitura a fazer. Entretanto começo um livro que nunca li e esqueço aquele. Uma confusão mais ou menos nada confusa mas capaz de me fazer rodopiar que nem uma folha batida pelo vento dos dias que se atrasam caindo do calendário.

Este foi o meu 3º livro de Agualusa. Depois de Nação Crioula e O Vendedor de Passados, Barroco Tropical mantém-me curioso e com vontade de ler mais livros deste artista. Não falta por onde escolher, há 18 títulos disponíveis.

Em Agualusa gosto das histórias que vêm sempre dentro da história que ele conta, como bonecas russas (esta imagem serve para tudo!). Segui com interesse grande parte das crónicas que ele publicou na revista dominical do Público ao longo de alguns anos (quantos anos?) graças à extraordinária inventividade da sua escrita. Com ele o Português sabe umas vezes bem e outras vezes sabe melhor ainda. Confesso que o leio por pura gulodice.

domingo, agosto 02, 2009

Muitas bolinhas




H1N1, H5N1 e Influenza (já não sei porque ordem)


Esta coisa do vírus H1N1 mete um bocado de medo. A forma como se está a alarmar a opinião pública com a contagem de casos confirmados de pessoas que contraíram a gripe mete medo. E mete medo porque, aparentemente, o alarme não se justifica por aí além. Em Portugal já foram confirmados 310 casos. A notícia é dada de uma maneira que parece uma coisa terrível. Mas poderiam dizer que 310 portugueses já estão imunes ao vírus ou então podiam enfatizar o facto de todos eles terem recuperado da infecção sem problemas. Podiam dar assim a notícia, mas não. Na TV os pivots dos telejornais sublinham os números fazendo aquela cara de cú que costumam afivelar para as situações mais problemáticas.
Nesta vertigem meio aparvalhada sou levado a perguntar onde anda o H5N1, o terrível vírus da gripe das aves que deixou o mundo de pantanas ainda não há assim tanto tempo quanto isso? E o velho vírus da "influenza"?
Tanta barulheira parece trazer um oceano no bico. A quem aproveitam estas situações de alarme paranóico? À populaçãozinha que anda para aí a bater mal da carola não aproveita nem um bocadinho. Alguém está a esfregar as mãos de contente e nem sequer se dá ao trabalho de as lavar como deve ser. Não precisa.


Nota: a propósito desta salsada aqui fica um link que poderá ajudar a espantar as aves de mau agoiro. Tem alguns dados interessantes e elucidativos sobre a questão.

quinta-feira, julho 30, 2009

Um texto e um pretexto


Ao ler o texto acima (sacaneado do livro Lenda, Mito e Magia na Imagem do Artista - uma experiência histórica da autoria de Ernst Kris e Otto Kurz, editorial Presença) encontramos referências a uma série de anedotas relacionadas com o acaso enquanto método artístico(anedota é aqui entendida como a narrativa de um certo tipo de acontecimento que se repete ao longo de diferentes gerações, acabando por enformar as nossas noções do passado e, por arrastamento, construindo discretamente a nossa visão do presente).
Repare-se como Piero de Cosimo, por exemplo, imaginava batalhas magníficas olhando para manchas de vomitado escorrendo pelas paredes. Ou como o insuspeito Leonardo sugere que nos percamos em observações que a maioria poderia tomas por absurdas. Tem tudo a ver com imaginação e sugestão.
Vem isto a propósito da conversa sobre Canibalismo Cósmico e Hibridização Anárquica. Alguém seria capaz de imaginar Leonardo de Vinci a sugerir tais processos de exercitação da mente? Volvidos alguns séculos encontramos em Max Ernst a sugestão deste tipo de atitudes na busca de um processo criativo que lhe permitisse encontrar maneira de dar forma visível ao Automatismo Psíquico surrealista (atirar trapos embebidos em tinta contra a tela em branco e ficar a olhar para as manchas daí resultantes até elas significarem algo, por muito estranho que esse "algo" possa parecer). Lá no fundo, a esponja de Protógenes, os vómitos que fascinavam de Cosimo, as manchas de humidade de Leonardo, os trapos sujos de Ernst, são antepassados ilustres da modesta Hibridização Anárquica. Mas a Hibridização é mais complexa.
Volto ao tema para a semana. Acabou-se-me a cervejola e vou de fim-de-semana.
Até 2ª (acho eu...)

Como funciona a hibridização anárquica

Após ter escrito o post anterior fiquei aos saltinhos. Como explicar o processo? Terá algum interesse? Mas que raio de coisa é essa? Hibridização Anárquica? Porra de expressão pomposa a soar mais pretensiosa que renda no punho da camisa. Como já não desenhava nem pintava há demasiado tempo pensei "Nem é tarde nem é cedo!" e fiz o que segue. Como ainda não tem título podes ir inventando um que se lhe ajuste. por mim tudo bem, Se é hibridização aceita enxertos variados e, se é verdadeiramente anárquica, então será aquilo que tu quiseres, simpático leitor.

Começando pelo princípio.

Um cartãozinho tamanho A3 (as costas de um bloco). Um tubo de cola UHU (tenho sempre vários espalhados pelo ateliê) e jornais e revistas e outros restos. Um CD a tocar na aparelhagem (Beatles, Sargent Peppers Lonely Heart Club Band, neste caso) e uma cerveja fresca. Está bastante calor e estou com pressa de acabar pois quero ir ver um jogo de futebol na TV a menos de uma hora de distância. A camara fotográfica tem as pilhas a darem o berro. Como se pode ver nao há muita luz. Colo um rasgão da capa do ùltimo Ypsílon, com as mãos da Agnés Varda, um CD (oferecido com o Público) com 3 temas execráveis dos Taxi e um recorte que sobrou de outra colagem de uma coroa de uma virgem de um ícone ortodoxo de um artista ucraniano que teve uma exposição no Fórum Romeu Correia aqui há uns meses atrás. Tudo isto e tubos de tintas, uma garrafinha de tinta-da-Índia uma lata com tinta de pintar paredes bastante sêca... enfim, os materiais habituais. Colo as coisas (podiam ser outras). Lucy in the sky with diamonds (o som podia ser diferente), sei lá que mais. É tudo, aparentemente aleatório.

A dsiposição das formas sobre o fundo configura, de imediato, uma espécie de corpo. Os meus trabalhos representam sempre seres humanos ou, pelo menos, coisas parecidas. Começo por desenhar algo parecido com um anjo. Tem asas e o CD ganha a posição de um astro no céu. Os dedos enrugados da realizadora francesa já são pernas.
O canto inferior esquerdo parece-me desoladoramente vazio. Três ou quatro toques de pincel generosamente mergulhado em tinta-da-Índia (podia e devia ser da China mas o rótulo é que manda)fazem surgir ali uma nova personagem. Tem o aspecto de um animal embora eu pensasse que seria uma criança. Apercebo-me que criança é a outra personagem. Deixo de a imaginar como uma santa ou uma Virgem e passo a olhá-la como uma princesinha. As asas fazem, agora, pouco sentido. Colo, na esquerda alta, o resto de um outro desenho que andava para aí esquecido.

A princesinha está demasiado semelhante ao bicharoco. Isso desagrada-me. No jornal aberto no chão está a cara de uma cantora qualquer em pose de artista. Olhos semicerrados, queixo empinado. Rasgo-a e colo-a. Não é por nada em especial que escolho esta cara. Apenas porque estava ali, disponível. Mais umas pinceladas e ganha uma expressão de algum alheamento. O que se passa nesta cena? Começo a pensar nisso com maior intensidade.

A tinta branca está muito espessa. Isso agrada-me. Tenho a possibilidade de cobrir a superfície com uma tinta satisfatóriamente opaca. Auilo que eram asas afinal é uma corda de saltar. A princesinha está a divertir-se saltando à corda. Isso é bom. É bonito. Tem leveza.

Até aqui, não sei porquê, tenho insistido numas orelhas enormes. Estarei a pensar numa Princesa com Orelhas-de-Burro? Não me lembro bem da história e resolvo tirar-lhe as orelhas. Há um buraco no peito da menina. Folheio uma revista da CAIS (costumo comprá-la todos s meses) e encontro uma foto de uma senhora operária numa fábrica (imagino) de conservas. Rasgo um pedaço com um amontoado de peixes. tem a cor e o tom certos para a composição.

O bicho (que bicho é aquele?) continua com uma cara inexpressiva. Rasgo a imagem de um gajo qualquer a coçar a orelha. É um gesto que fica bem a um animal doméstico. Colo.

Os Beatles já estão numa desbunda complicada (aquele álbum é estranheco!). Passaram aí uns 25-30 minutos desde que comecei a juntar formas e significados sobre o cartão. O jogo vai começar não tarda. Vou acabar. O animal está a cagar. A princesinha levou o bicho à rua para defecar. Deve ser isso. Pronto. Está pronto. Acabado. Falta um título e falta perceber o significado daquilo.

Isto é hibridização anárquica, é canibalismo cósmico. Amanhã explico melhor. Se for capaz.

quarta-feira, julho 29, 2009

O círculo enquadrado


The Burning Heads, técnica mista, exemplo de uma criação resultante do processo de "hibridização anárquica" por mim realizada há uns anos atrás. Quando partimos para o processo de criação de um objecto não fazemos ideia do lugar a que iremos chegar.

Damos voltas e mais voltas e lá voltamos nós, à esquina do círculo do tempo, esse local improvável onde tudo o que não pode ser verdade encontra fortes probabilidades de se materializar num corpo até aí inexistente. Antigamente era nas encruzilhadas que as bruxas enterravam poderosos feitiços, esperando depois o efeito das suas acções. Nem sempre corria conforme o previsto, que isto da feitiçaria não é ciência e, mesmo a ciência, se parece demasiado vezes com coisas abstrusas e incompreensíveis. Coisas que, ganhando um nome, deixam de o ser e encontram um lugar, nem sempre confortável, entre os objectos e os factos. Quando assim é, deixam de ser "coisas" e ganham um nome que as coloca numa prateleira qualquer da casinha imensa que é o nosso entendimento do mundo. Isto é verdade para a ciência como para a feitiçaria e, obviamente e por maioria de razão, para a arte (a mera designação "arte" é "coisa" mais do domínio do fantástico que da realidade objectiva, como vem sendo matraqueado ao longo de dezenas de posts aqui, no 100 Cabeças).

Esta introdução traz-nos quase à porta de saída. Vem ela a propósito da uma entrevistazinha de Leonel Moura que acabei de ler aqui agora mesmo. A entrevista roda em volta da última obra escrita dé Moura, intitulada "30 Gramas", numa referência à imortal obra de Piero Manzoni, a celebérrima Merda de Artista.

O que me motivou a construir esta prosa arrevezada foi a passagem da dita entrevista que a seguir transcrevo: "Desde muito jovem sempre li livros sobre ciência e gosto de tentar perceber algumas coisas. O que mais me deu a volta à cabeça foi perceber que as coisas não funcionam em processos lineares ou consequentes. Percebi que tudo funciona numa base caótica, aleatória e de repente é que as coisas se transformam e dão origem a algo que nós conhecemos. Todo o sistema da produção de arte em que se concebe uma coisa com processos lineares até chegar a um quadro é completamente obsoleto. Tenho de fazer obras de arte em que eu desencadeio o processo mas não sei no que vão dar porque isso é que se aproxima da realidade natural. "

Concordo quase completamente com esta hipótese de Moura. Há muitos anos que, também eu (quantos de nós, meu Deus!?), cheguei a esta conclusão, se bem que por outras vias e travessas. Uma das vias para eu aqui chegar até foi um livro sobre ciência, o muito citado "Caos" de James Gleick, onde li pela primeira vez a célebre teoria do "efeito borboleta" e outras enormidades maravilhosas. Nessa altura, juntamente com alguns gajos como eu, escrevemos um pequeno manifesto (entretanto perdido) intitulado "Canibalismo Cósmico" onde expunhamos de uma forma mais ou menos ordenada, algumas ideias sobre o processo criativo que chamámos de "hibridização anárquica".

Agora, ao ler a passagem acima transcrita da entrevista de Leonel Moura, recordo a sensação que me inundou quando reli e matutei sobre o texto que, então, tinha escrito. A sensação nítida de que aquilo que, naquele momento, era para mim uma revelação absoluta e luminosa, já havia sido percepcionado por muitos outros, antes de mim e haveria de voltar a sê-lo, ao longo do tempo e por muitos anos, sempre que alguém chegasse àquela esquina do círculo do tempo.

"Hibridização anárquica" era o nome que eu tinha dado à "coisa", puxando-a para o lado de cá da existência, trazendo-a a este universo paralelo, moldando-a numa forma algo imperfeita e inconstante. Essa coisa regressa uma e outra vez, com formas mais ou menos semelhantes. As latinhas de merda de Manzoni ou o Urinol de Duchamp são formas supremas de materialização dessa revelação eterna. Eu terei criado formas mais modestas de a manifestar neste mundo através dos meus trabalhos mas, caramba, também tenho o meu orgulho, sou um animal igual aos outros, senti necessidade de o reafirmar. Também eu fui capaz de enquadrar o círculo quando percepcionei uma das suas infinitas esquinas. E sou vaidoso ao ponto de o recordar aqui, quase publicamente.

terça-feira, julho 28, 2009

Nada (como no mar)




O Verão, se fosse uma pessoa, havia de gostar da leveza que o "doce não fazer nada" oferece, assim, como quem não quer a coisa. A gente veste pouca roupa, anda com o pé fora da sandália e deixa o olhar à solta por não haver muito que possa preocupá-lo. As conversas podem nem sequer ter um início e raramente levam a um fim. É tudo assim, um bocado ao lado da dureza que a realidade costuma ter, como se a realidade fosse meio derretida pela luz intensa e o calor do Sol. A realidade, quando é aquecida pelo Sol, muda de figura. No Verão vivemos uma quase miragem da vida.


Tenho um livro por perto mas não me apetece ler. Os materiais de pintura preparados mas não me apetece pintar. Até mesmo o cérebro parece não querer pensar muito mais do que isto, não querer passar deste desfiar indolente de palavras ao acaso que, no final, haverão de significar alguma coisa, quanto mais não seja o princípio de um pensamento diluído na paisagem das letras que vou deixando, umas atrás das outras, ao longo do texto que surge do fundo branco do écrã.


Vou parar de escrever para a seguir não fazer nada.




segunda-feira, julho 27, 2009

Cabeça cheia de vazio


Uma praia e muito sol. O mar daquela cor... esmeralda? Pessoas morenas ou nem por isso. Um ambiente pacífico banhado pelo Atlântico a namorar o Mediterrâneo. Uma aldeia que é pura invenção onde a vida se desenrola ao ritmo das ondas. Calmaria absoluta. Isto é, assim de repente, o que me é dado recordar dos últimos dias, passados na Ilha de Armona, atirada ao mar, ali defronte a Olhão. Um Algarve absoluta e genuínamente português, a fazer-me acreditar que há lugares impossíveis de estragar com aldeamentos turísticos de pacotilha e canalizadores ingleses em férias armados em lordes malcriados. Um lugar para esvaziar a cabeça e enchê-la de coisa nenhuma. Paz, apenas. O que já é muito e é tudo, ou quase nada, ou nada mesmo. Absolutamente nada. O fim-de-semana passou assim, como uma nuvem. Volto lá no próximo. Será possível repetir o sossego que encontrei? Talvez. É por isso que lá volto. Em busca desse sossego, para tentar encher de vazio os espaços na minha cabeça que ainda têm algum lixo.

sexta-feira, julho 24, 2009

Post coelhinho


O meu anterior post, o Post Macaco, foi comentado de forma muito interessante por vários visitantes do 100 Cabeças. De tal maneira que resolvi responder aos comentários criando este post, um post sem o atrevimento do macaco, antes com a atitude dócil e compreensiva do coelhinho.

Antes do mais queria deixar bem claro que as minhas posições perante o fenómeno da criação e fruição dos objectos de arte não pretendem ser absolutas nem imagino que possa haver uma forma única de encarar a situação. Neste campo sou adepto confesso e devoto do grande mestre E. H. Gombrich que afirmou, na introdução da sua magistral História da Arte que "Não existe algo a que se possa chamar Arte. Existem apenas artistas." Se tomarmos esta afirmação como ponto de partida, muitas questões, aparentemente complexas, encontram uma resposta desarmante de tão simples. Deixamos de ter dúvidas sobre o que é ou o que não é arte. Uma vez que não existe, nada é arte e tudo pode sê-lo desde que seja resultado da actividade de um artista.

Esta perspectiva da coisa coloca o espectador no centro da questão. O espectador completa a obra. Cito Gombrich mais uma vez: "De facto não penso que existam quaisquer razões erradas para se gostar de uma estátua ou de uma tela. Alguém pode gostar de uma paisagem porque lhe recorda a sua terra natal ou de certo retrato porque lhe lembra um amigo. Nada há de errado nisso. Todos nós, quando vemos um quadro, somos fatalmente levados a recordar mil e uma coisas que influenciam o nosso agrado ou desagrado. Na medida em que tais lembranças nos levam a fruir do que vemos, não temos que nos preocupar. Só quando alguma recordação irrelevante nos torna preconceituosos, quando instintivamente voltamos costas a um quadro magnífico de uma cena alpina, porque não gostamos de alpinismo, é que devemos sondar o nosso íntimo para desvendar as razões dessa aversão que frustra o prazer que, de outra forma, poderíamos ter tido. Também existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte." O espectador é, em larga escala, responsável pela existência da arte. Daí que, no Post Macaco, me tenha insurgido um pouco contra aqueles que se comportam com indiferença perante o objecto artístico. Talvez o problema seja mais a forma como, com espectadores deste género, a arte se vê impedida de existir ou, pelo menos, impedida de acontecer. É também por isso que sou levado a considerar que talvez alguns artistas sejam responsáveis por esse alheamento, quando criam objectos de tal modo encriptados que não permitem ao espectador ir mais além do que a superficíe da obra. As pessoas olham mas são incapazes de ver. Talvez isso devesse contribuir para que o artista repensasse a sua atitude criativa. Ou não. A criação artística ou é totalmente livre ou não é nada.

Como este post é Coelhinho, estou a tentar ser o mais consequente e brando que me é possivel, o que me leva a escrever de uma forma algo diferente do habitual e que, confesso, me está a complicar o sistema comunicacional.

Para concluir (que um post tão longo é mais chato que um discurso do Presidente da República numa cerimónia de inauguração de um infantário) queria deixar uma palavrinha particular a cada um dos comentadores.

Beto, como te disse, a perfeição é uma coisa que só existe na mármore.

Luís M, a nossa conversa é interminável e dinâmica. Continuamos depois. Assim como assim sempre te digo que tens toda a razão em afirmar que a arte é elitista mas, nos tempos que correm, democráticos e tudo, talvez tenhamos de reflectir de novo sobre o significado da palavra "elite" e respectivo conceito.

Eduardo, antes do mais esse Luís M aí em cima é meu colega, professor na mesma escola e na mesma área que eu. Clicando aqui encontras um post antigo em que anunciava a inauguração de uma exposição em participámos ambos. O "M" é de Miranda (Beto, neste post está o tal desenho intitulado Knock) e podes encontrar aí duas reproduções de trabalhos dele. Quanto ao barulho nos museus estou totalmente de acordo contigo. Um museu não pode ser um cemitério de obras de arte. Terá de ser outra coisa.

Selena, penso que as citações de Gombrich vão de encontro às questões que colocas. Toda a gente sabe o que pensar sobre um objecto de arte. Tem é de se dar ao trabalho de pensar, o que nem sempre acontece.

Rui, esse Shakespeare era um grande macaco :-) o tempo não o colocou num galho, acabou por lhe oferecer uma floresta inteira! Já a citação de Sophia leva-me a recordar a ideia de Mondrian que citei neste outro post, um dia a arte vai ser desnecessária pois a vida ganhará beleza suficiente. Isto partindo do princípio que a arte é a criação da beleza mas isso são já contas de outro rosário...


Concluo dizendo que, pessoalmente, considero que o artista tem um papel socialmente interventivo que não deve ignorar quando se dispõe a criar objectos de arte. Esta consideração será tema para futuros posts aqui, no 100 Cabeças.

quinta-feira, julho 23, 2009

Post macaco


O que eu pretendia dizer com o post anterior (e mantenho) é que a arte deve ser acessível ao maior número de pessoas possível. Isso não significa que tenha de ser óbvia ou estereotipada. Nada disso. A arte deve ser como um soco no estômago ou uma carícia impossível de resistir. As pessoas que observam um objecto de arte não podem comportar-se como catatuas numa gaiola nem como bois a olhar para um palácio. Não podem ficar indiferentes. Essas pessoas são chamadas a intervir pois só elas completam o objecto de arte.

Esta evidência nem sempre esteve visível no meu espírito conturbado. Mas, ao visitar o MoMA, só para dar um exemplo, e vendo a forma como os visitantes se passeiam entre os objectos artísticos como se estivessem a passear no Centro Comercial a ver montras de sapatarias e pronto-a-vestir, fico com vontade de não voltar a pôr os pés num sítio como esse. Por um lado, o consumo desapaixonado da arte é irritante para quem por ela está apaixonado. Por outro lado, demasiados objectos insignificantes são valorizados até ao paradoxo o que torna o paspalho ignorante num indiferente convencido de que sabe alguma coisa, só porque leu o catálogo da exposição. Falta pele arrepiada, coração descompassado e boca sêca pela ansiedade. Sobram olhares, poses, risinhos forçados e outras patacoadas do género.

Quando terminei o post anterior com a imagem dos artistas a esfregarem-se em merda, estava tentar ironizar com esta situação. Coisa que, aliás, até nem é inédita. Muitos artistas, em desespero de causa ou falta de talento, metem-se a produzir obras grotescas, tomando atitudes dignas de um macaco malandro a pedir amendoins no Jardim Zoológico. Alguns conseguem mesmo engordar. Os macacos, claro!

quarta-feira, julho 22, 2009

A merda e arte (ou a arte e a merda)


Pronto, finalmente cheguei a uma conclusão: a arte ou veicula um discurso que se compreenda ou não vale a pena.

Leio a frase anteriror e percebo que não disse o que queria dizer. Então eu repito: a arte ou é para o povão compreender ou então, se for coisa para masturbaçao intelectual e para fazer prova de superioridade cultural, mais vale que se cubra de merda.

Não está bem, não estou a ser capaz de exprimir aquilo que a minha mente está a formular com uma clareza ofuscante e que, escrito e dito assim, nestas letrinhas no écrã luminoso, não ganha sentido nem a contundência pretendida.

Reformulo uma última vez: a arte é para narrar a história colectiva, para fazer pensar os mais distraídos e pôr a chorar os mais atentos, se for abstracta ao ponto de apenas reflectir sobre si própria e os seus limites é como o cão que tenta morder o próprio rabo ou o parvo que pretende lamber o cotovelo.

Caramba, a linguagem escrita é mesmo uma tanga. A falar talvez pudesse exprimir-me um pouco melhor. As caretas, os gestos das mãos, o jogo de ombros, a entoação dramática da voz cavernosa ou patética, com a estridência de um passarito, sempre dão outro colorido à coisa.

Talvez pudesse ilustrar a dita coisa com uma imagem (isso é que era!) mas também não estou para aí virado.

Resumindo e concluindo, quero que a arte seja expressiva ou, então, não é. Nem expressiva, nem arte. Fica assim a meio caminho, uma epécie de aborto espontâneo, um ser fadado para a tristeza, uma coisa pedante que até pode ser bela mas cuja beleza reside, precisamente, no vazio.

Não temos de temer o amor dos estúpidos nem dos patetas nem dos feios nem dos mal-educados e simples como beterrabas. Não temos de temer o desprezo dos lindinhos nem dos enfatuados nem dos intelectuais nem dos mais altos nem dos mais magros e bonitos. Se queremos fazer arte temos de meter as mãos na merda e esfregá-las na cabeça e mostrar o que esse acto desesperado produziu dentro de nós.

Eheheheh, já estou a imaginar a cena, uma chusma de gajos e de gajas cobertos de merda a berrar no meio da rua... artistas!

segunda-feira, julho 20, 2009

Parece que me lembro de qualquer coisa


Não tenho a certeza. Afinal tinha apenas 6 anos. Não me lembro se o meu pai já me tinha oferecido o Billy Blastoff, um bonequito vestido de astronauta, com um carro lunar que ele comprou algures em Espanha que em Portugal, naquela época, era mais comum o carro de bois. Tenho uma vaga recordação de estar a jantar numa mesa com outras crianças em casa de uns amigos dos meus pais e de passarem na TV a preto e branco imagens relacionadas com a viagem. Mas pode ser uma partida da memória, não sei nem isso me interessa por aí além. Já lá vão 40 anos e a viagem não terá contribuido para mudar grande coisa cá por baixo. Tudo isto cheira a nostalgia. Talvez sirva para se fazerem mais algumas promessas de regresso ao espaço, para se produzirem alguns discursos meio vazios, meio cheios de vazio, sobre a sensação de pequenez que se sente quando se olha a Terra lá do alto do espaço e os impulsos de profundo humanismo que essa visão provoca. Fica a impressão de que se deveriam meter os grandes líderes mundiais e os grandes senhores do capital todos dentro de uma nave espacial e mandá-los lá para cima, para que olhassem cá para baixo e nos vissem, pequeninos, por uma vez que fosse. Podia ser que alguns se perdessem lá no meio das estrelas e por lá ficassem a brilhar na escuridão.