quarta-feira, dezembro 11, 2013

O bicho que roda

O ser humano é, por natureza, uma coisa que não se compreende. Isto porque, além dele próprio, não parece existir mais nada (nem ninguém) à pele do planeta interessado em debruçar-se sobre semelhante tarefa: compreender o que vai em cima destas duas patas.

Uns dias triste e sorumbático, qualquer um de nós pode subitamente saltar para um estado de espírito a rebentar de euforia. Somos assim; bichos de extremos fáceis.

Tais variações de humor, multiplicadas por milhões de milhões de seres humanos (quantos somos nós ao certo?) fazem da Terra uma coisa desequilibrada que, não tendo para onde cair na imensidão cósmica, roda. E roda, roda, vai rodando, como um animal à espera.

Mas o que espera a Terra enquanto roda sobre si própria e, para melhor disfarçar, enquanto vai rodando em volta do Sol? O que espera um planeta que se comporta como um animal, nervoso e indeciso?

Talvez espere que a Humanidade se consuma a si própria. Com maiores um menores ferimentos o planeta cá ficará depois de irmos desta para melhor (oxalá). Então talvez a Terra possa descansar finalmente e pare de rodar. Após tanto tempo deve estar mais que tonta.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

O que raio é a realidade?

Antecipar a própria dor e sofrimento é como ter o pé descalço suspenso sobre as águas frias de um rio que corre. O pé suspenso e um monstro que se aproxima, vindo lá de trás, um monstro que poderá querer devorar-nos ou não, talvez pior do que isso. O monstro, o pé descalço suspenso, as águas frias do rio.

Não sabemos o que quer o monstro e tememos o arrepio gelado do pé submerso na água que nos vai esticar o corpo e fazer vibrar a espinha, como se fosse uma corda de violoncelo a gritar uma nota aguda e desafinada. Ai Jesus!

Além de tudo o que ficou explicado, há também a corrente. Será muito forte? Conseguiremos nadar para lá do medo que sentimos? O monstro, o rio, o nosso corpo... a dor e o sofrimento que adivinhamos mas ainda não aconteceu e pode mesmo não vir a acontecer... 

A felicidade e a alegria andam escondidas. Sabemos que andam por aí mas é o monstro angustiante, filho da dor e primo (em 2º grau) do sofrimento que pressentimos lá atrás e nos impele em direcção às águas do rio.

Algures, no meio de tudo isto, fica aquilo que chamamos realidade: a consciência que temos da tangibilidade do corpo que habitamos.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Santa Economia

Em nome da Competitividade e da santidade do Livre Comércio, a Humanidade pariu outra divindade, a já bem famosa Economia.

Costuma-se comparar a Economia com Jeová ou Alá, é uma espécie de brincadeira de adultos, como se uma coisa não tivesse a ver com as outras. Mas tem. A nova divindade é sustentada por uma estrutura de fiéis que cobre todo o planeta  com os seus interesses, como uma teia tecida por milhares de milhões de aranhas.

A Economia tem catedrais por todo o lado. Os altares erguidos para sua adoração são imponentes ou singelos, adoptam as mais variadas formas e tamanhos, mas estão em todo o lado. Conquistam-nos a alma e o coração.

A Economia faz-nos arder de desejo, consome-nos até não restar nada do que somos. Consome-nos até sermos aquilo que desejamos, até nos transformarmos nos objectos que possuímos.

Tal como o cristianismo ou o islamismo, a Economia tem legiões de fanáticos  fundamentalistas. Terroristas, como todos os terroristas. Provocam atentados devastadores, entram-nos casa dentro, olhos acima, cabeça abaixo; bombardeiam-nos diariamente sem dó nem piedade.

Todos os dias morremos em nome da Santa Economia para ressuscitarmos à noite, sempre que dormimos e, finalmente, sonhamos.


domingo, dezembro 01, 2013

8 anos 100 cabeças

O número de posts tem diminuído, a força das opiniões e a virulência da escrita adocicou-se um pouco, sempre passaram 8 anos desde o nascimento deste blogue!

A blogosfera, à época pujante e florescente como um jardim em plena Primavera transformou-se lentamente em zumbisfera, infectada pelo implacável vírus do facebook. A blogosfera é hoje um  cenário de walking deads.

O 100 Cabeças deixou de ser uma necessidade para se tornar uma espécie de limbo entre este mundo e o outro, aquele ali fora, do outro lado da janela. Vão ficando amigos, rotinas e visitas para tomar uns chás virtuais em casa deles, trocar dois dedinhos de conversa sobre isto e sobre aquilo...

Alguns desses amigos virtuais tomaram forma e corpo, outros esfumaram-se na irrealidade da net. Tal qual naquele mundo do lado de lá. A net ganhou uma importância assustadora na forma como define os contornos desse mundo. Realidade e virtualidade a fundirem-se perante os nossos olhos distraídos.

A cada ano que passa há menos posts mas não menos mundo. Quando comecei este blogue sentia-me um pouco incomodado com a falta de visitantes e de comentários. Hoje já não. O 100 Cabeças é uma realidade. Isso basta-lhe. Isso basta-me.

Beijos e abraços.

sábado, novembro 23, 2013

Polícias e bófias

Desta vez não houve cães à perna de ninguém!

O pessoal ficou de cara à banda com a manifestação dos polícias na escadaria da Assembleia da República (ver aqui, com vídeo e tudo). Tanto polícia à paisana a gritar, a esbracejar e com cara de poucos amigos é coisa para atemorizar qualquer cidadão enfiado nas suas pantufas.

Não me parece surpreendente que os polícias fardados, destacados para manter a ordem pública, se tenham desviado para deixar subir os manifestantes por ali acima. Parecia uma cena do World War Z!

Poderá haver explicações mais ou menos piedosas para semelhante atitude. A verdade é que a maioria dos polícias tem um respeito, no mínimo, limitado pelas regras que deveriam preservar bem como pelos "cidadãos-macacos" que deveriam defender. Os exemplos quotidianos são mais que muitos.

Basta recordar vários episódios passados naquele mesmíssimo local com desfechos bem diferentes e magníficas cargas policiais sobre pessoas indefesas.

Os polícias portugueses, pelo simples facto de o serem, colocam-se a si próprios acima da Lei. Estacionam os seus carros em situações que a um "cidadão-macaco" valeriam multas avultadas; carregam frequentemente à matracada no focinho de cidadãos indefesos e até de velhinhas que não representam ameaça, dirigem-se às pessoas em termos agressivos e desrespeitosos se para aí estiverem virados, etc e tal.

Se, porventura, dão da caretas com algum doutor ou senhor importante ficam mansos como cordeiros.

Por vezes penso: quem nos protege dos nossos protectores?

É evidente que nem todos são assim, que há muita gente boa nos corpos policiais. Eu diria que há uma razão de um polícia por cada 50 bófias. Qualquer coisa assim.

domingo, novembro 17, 2013

Natalices

Há uma canção que diz que "Natal é quando um homem quiser". Sinceramente sempre me pareceu poesia a mais mas, recentemente, o presidente da Venezuela veio tornar a cantiguinha em doce realidade (ver aqui). Nicolás Maduro é um coração de manteiga e, muito por causa disso, tem sido ridicularizado.

A intenção de Maduro é louvável, ele quer trazer felicidade e esperança ao povo. Não percebo bem a razão pela qual tão gozado tem sido.

Hoje de manhã fui ao centro comercial e, por todo o lado, há árvores e enfeites de Natal! Não reparei que alguém tenha considerado ridícula esta antecipação da festa do Menino Jesus ou do Pai Natal, conforme as inclinações mais religiosas ou mais consumistas dos festejantes.

Fica a sensação de que em nome do consumo podemos decretar sem temor a antecipação do Natal mas, se o fizermos em nome de outra coisa qualquer, podemos levar com gargalhadas jocosas pela cabeça abaixo. Não me parece justo.

Por mim o Natal até pode ser em Agosto, embora dessa forma a vaca e o burro que aquecem o Menino Jesus corram o risco de ir para o desemprego.

terça-feira, novembro 12, 2013

Pensamento nocturno (coisa de coruja)



A sensação é incómoda. Dá comichão onde não se deve coçar por ser feio. Difícil é ficar quieto. Coço o peito para disfarçar, reviro os olhos. Não consigo esconder a nervoseira. Bato o pé, bato o pé, bato o pé, e não é compasso musical. É desconforto apenas.

Olho o mundo em volta e não consigo pensar outra coisa que não seja: quanto tempo vai levar até esta merda rebentar de vez?

sexta-feira, novembro 08, 2013

Equilíbrio

Hoje é dia de greve da Função Pública em Portugal. Os trabalhadores protestam, reclamam, esbracejam, esperneiam, mas nem migalhas têm a ilusão de vir a receber.

Neste dia veio a público uma notícia que dá conta do aumento do número de multimilionários no nosso país (ler aqui), apesar da crise... ou será por causa da crise? Não só são mais como estão mais ricos. O equilíbrio acentua-se: os ricos mais ricos, os pobres mais pobres.

Haverá algum dia a mínima possibilidade de inverter esta tendência?

quinta-feira, novembro 07, 2013

Anjos

Até ao dia de ontem não me recordo de ter alguma vez ouvido falar de Rob Ford, o agora mundialmente célebre mayor de Toronto. Repare-se bem nos motivos desta súbita celebridade a nível planetário (ver aqui, por exemplo).

Pessoalmente estou-me nas tintas para o facto de ele ter fumado crack ou ter tentado desculpar-se desse facto dizendo que, provavelmente, o tinha feito durante uma bebedeira, daí não se lembrar com clareza do que acontecera. Pior a emenda que o soneto.

O que me faz reflectir sobre o sucedido é tentar perceber se um governante, uma pessoa com responsabilidades na gestão da coisa pública, não pode ter momentos em que se passe daqui para lá de Marraquexe? O que pergunto é: exigimos aos que nos governam um comportamento irrepreensível, mesmo quando estão longe dos nossos olhares, no remanso dos seus lares? Queremos ser governados por anjos?

Quanto a Rob Ford... parece-me demasiado gordo. Mas pode ser apenas impressão minha. Chiça, é mesmo complicado resistir à tentação de julgar os outros...

sexta-feira, novembro 01, 2013

Artista (mais ou menos) imortal

Terminou ontem a residência artística de Banksy nas ruas de Nova Iorque. Os trabalhos realizados foram sendo expostos aos olhos do resto do mundo neste site (clica aqui).

Banksy já se tornou o maior fenómeno da chamada street art e é conhecido um pouco por todo o lado onde houver meios de comunicação de massas que ultrapassem as notícias sobre a lingerie sexy de artistas pimba e os pensamentos profundos de dirigentes e jogadores de futebol. A cada dia que passa Banksy vai-se transformando numa autêntica lenda urbana.

O facto de manter uma identidade secreta faz dele uma espécie de super-herói de banda desenhada. Tal como o Batman ou o Homem-aranha, Banksy está a ser colocado num pedestal  na sala do museu da cultura Pop. Ele é um dos primeiros artistas a garantir que o seu nome fará parte da História da Arte do século XXI. Isto partindo do princípio que haverá alguém para virar a página do calendário para o século XXII.

Banksy já é um artista mais ou menos imortal (como todos os outros). O problema é que a imortalidade já não tem condições de garantir aos que dela gozam o triunfo definitivo sobre a morte. Só um bocadinho.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Talvez Deus

Esta manhã, ao olhar uma pequena e irrequieta nuvem de mosquitos que dançava num raio de sol, lembrei-me que a vida é uma coisa deveras complexa. Normalmente um gajo não pensa nessas coisas, de tal modo anda aos tropeções nos problemas quotidianos.

Senti uma certa tristeza.

Quando a humanidade patinar desta para melhor não haverá nada nem ninguém para a chorar, muito menos para lhe sentir a falta. Talvez Deus.

Um melro esvoaçou lá atrás.  Depois outro que saltitou pelo chão naquele jeito meio apatetado que têm os pássaros quando andam, patas no chão. Olhei de novo os insectos bailarinos. O que comerão aqueles melros? Não sei, mas percebi que também aqueles insectos não terão ninguém para os carpir. Nem aqueles melros, nem o planeta Terra, quando o Sol se tiver extinguido e toda a vida tiver desaparecido da sua face azul, não haverá lágrimas nem gritos desesperados. Talvez Deus, ou então o silêncio.

Talvez Deus seja o Silêncio.

domingo, outubro 27, 2013

Lou Reed is dead

Um filme de acção

Gravidade é um atípico filme de acção. O espectador assiste a uma sucessão de situações e imagens espectaculares, num ambiente visual exuberante, sem se aperceber que o tempo vai passando. Os diálogos são mínimos, o espaço é tão protagonista quanto Sandra Bullock ou o fugaz George Clooney.

É, sem dúvida, um filme diferente (diferente de quê, exactamente?) que me fez dar por muito bem empregue o tempo que estive sentado na sala de cinema.

Assisti a uma sessão em ecran "normal". Há a versão 3D, com os oculinhos mas, para alguém que, como eu, usa óculos para ver dois palmos à frente do nariz, usar aqueles sobre estes provoca um certo incómodo.

A ver, sem hesitações.


sexta-feira, outubro 25, 2013

Anjos salvadores

Os partidos populistas crescem de influência um pouco por toda a Europa. Os líderes destes partidos emergentes apresentam-se como salvadores da pátria amada, regeneradores das mentes corruptas, paladinos da verdade e da justiça. Vêm degolar o monstro instalado no poder e ocupar o seu lugar: simples, belos, puros, reluzentes, eles são a esperança de Deus na humanidade.

Olhados um pouco mais de perto, os candidatos a santo têm rugas, dão peidos e cheiram mal da boca, tal como os que dizem execrar. Anda por ali muito fascista disfarçado de menino de coro, muito oportunista de Capuchinho Vermelho e vice-versa.

O problema da corrupção dos poderosos não se resolve com a vinda destes messias de pacotilha. Resolve-se com instituições democráticas fortes e uma participação cívica activa. Os anjos salvadores depressa se transformam em vingadores e depois... a desgraça.

quarta-feira, outubro 23, 2013

Eu sou o que vejo mas não vejo o que sou.

Diz-se que sem afastamento não conseguimos percepcionar a perspectiva. Parece ser evidente. Com o nariz em cima do muro não percebemos o palácio lá mais atrás.

Olhamos as atitudes dos outros e é-nos fácil opinar: "Olha que besta! Olha que estúpido! Vê-me bem aquele camelo!"

Ainda por cima parece que temos maior facilidade em depreciar do que apreciar. Se é para dizer bem preferimos ficar calados. Acho que temos vergonha. Dizer mal é o que está a dar.

Olhar para nós próprios pode ser semelhante a tentar olhar o palácio com o nariz encostado ao muro.
Eu sou o que vejo mas não vejo o que sou.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Lixaria

O mundo está cheio de lixo. Há o lixo evidente: mares emporcalhados, ar irrespirável, destroços de todo o tipo em órbita (longe da vista longe do coração), e há aquele lixo que ninguém vê a não ser quem o traz dentro da cabeça.

Esse lixo, secreto e escondido nas contracurvas do cérebro de cada um, é um mistério  mesmo para quem o tem guardado fundo. O facto de ser tão difícil de perceber faz com que esse lixo pessoal e personalizado nos ofusque a percepção e nos leve, demasiadas vezes, a cometer injustiças, avaliações de carácter apressadas, a ditar sentenças de morte a quem merece a vida.

O lixo dentro de nós é uma poluição da alma, uma coisa perigosa.

(a propósito de um post no Varal de Ideias, aqui)

quinta-feira, outubro 17, 2013

Da governação

Há tarefas impostas por dever profissional que deviam ser proibidas pela mesma lei que nos obriga a cumpri-las. Oh, caraças, que seca tão grande temos nós de aturar quando reunidos em assembleia para decidir, ponto por ponto, dezenas de regras e regulamentos.

Pois, é uma seca tremenda, uma seca que desorienta o mais pintado e faz desesperar o mais corajoso. São montanhas de palavras escritas e revoadas violentas de palavras ditas. Talvez haja quem tenha nascido para isto.

Após umas horas deste trabalho extenuante saio para a rua que entretanto anoiteceu e tem agora bolinhas de luz, sóis pequeninos pendurados no topo dos mastros dos candeeiros. O ar está fresco. É agradável. Quando entrei na sala de reuniões estava calor, o casaco pesava-me nas costas e agora o casaco parece-me leve.

Hoje de manhã, o dia seguinte, pensei: quem é capaz de passar a vida a fazer aquilo? Estar fechado dentro de uma sala com umas quantas pessoas dispostas em círculo, com um vazio no meio, um vazio para onde se atiram ideias e palavras tentando construir ali uma coisa comum, uma coisa que se compreenda e faça sentido. Porra, que modo de vida seria esse!

Mas não é assim que se governa o mundo? Pessoas fechadas em salas, homens engravatados mulheres com laca na cabeça, todos a preencher o vazio entre eles com ideias que governem o mundo. Pessoas que passam a vida a falar, a olhar para gráficos e papéis, a tentar encontrar uma determinada ordem que ponha algum sentido na vida delas, que faça do mundo aquela coisa que põem ali no meio, entre elas.

Cá fora está-se muito melhor mas não se governa nada.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Bom e bonito

O dia amanheceu fresquinho como uma alface. O sol, lá longe, a trepar a linha do horizonte prometia algum calor. Uma ou duas horas e o calorzinho agradável de um sol luminoso a cantar no céu virá tornar o dia ainda mais agradável.

Na rua as árvores resplandecem em variados tons de um verde magnífico e projectam no chão sombras que são rendas escuras bordadas pelo astro-rei.
Amon Ra mostra-se magnânimo e bem disposto.

Ouvem-se chilreios de pássaros escondidos na folhagem e ramos mais altos. Tento adivinhar-lhes a forma, imagino-os coloridos. Uma mulher passa por mim com uma criança pela mão. Vão apressadas, decerto em direcção à escola.
A manhã nasce bem disposta.

Os automóveis deslizam silenciosos, respeitando religiosamente os sinais de trânsito. Está tudo tão bem, tão perfeito, tão bonito que até parece mentira!

Olho em redor, desconfiado, à espera que me caia um piano em cima da cabeça ou que um demónio assassino saia detrás do caixote do lixo de faca em riste... mas nada. O dia está, simplesmente, bom e bonito.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Vai Eduardo!

Recebi pelo  correio um envelope gordinho com carimbos brasileiros. Trazia dentro o último livro do Eduardo P. Lunardelli. Penso que todos os que lêem estas linhas sabem de quem se trata (caro leitor, se eventualmente não souber a quem me refiro clique aqui e ficará com uma ideia).

O livro intitula-se "Agudas e Crônicas", o acento circunflexo ajudando a compreender as diferenças de pronúncia de um lado e outro do Atlântico. É um volume que reúne os escritos que Eduardo vai postando diariamente tanto no Varal de Ideias quanto no Facebook. Curtos e apontados ao coração.

Lê-se de um tiro ou, melhor, lê-se como uma rajada de metralhadora, cada "crônica" puxa a "crónica" seguinte, num desfiar escorreito de leitura fácil.

Grato pelo livro, Eduardo.

domingo, outubro 06, 2013

Os infelizes

Segundo Passos Coelho Rui Machete foi “infeliz” nas afirmações que produziu quando andou a lamber botas na Rádio Nacional de Angola. Quer-me parecer que, mais do que infeliz, foi espertalhão, daquele jeito que o são todos os “chico-espertos” com cartão de militante dos partidos do “arco do poder”. Na verdade, todos os espertalhões que nos governam são infelizes. São uns tristes porque não têm escrúpulos nem cultura suficiente para compreender a grandeza dos valores éticos que deveriam orientar as suas acções enquanto responsáveis pela coisa pública. Ignorância?

Foi infeliz Paulo Portas, foi infeliz Miguel Relvas, foi infeliz Miguel Macedo, infeliz foi Aguiar Branco e é infeliz Maria Luís Albuquerque. Muito infeliz é Nuno Crato. Infelicíssimo foi Miguel Gaspar. No meio de todos estes infelizes escapa Assunção Cristas graças aos deslumbramentos da maternidade. Infeliz se mostrou Cavaco Silva quando confundiu Thomas Mann com Thomas More ou quando comeu bolo-rei de boca aberta perante uma nação estupefacta com tal falta de educação. Infeliz é o povo que elege esta gente para o representar e governar. Assim se compreende que nem Machete se demita nem Passos veja razões para o demitir.

Somos nós os responsáveis por tanta infelicidade. A nossa infelicidade é colectiva como o revelam certos estudos internacionais que tentam compreender o sentir das nações do mundo. Há mesmo quem nos designe por “latinos tristes”. Pois é, somos uns tristes. E Machete é ministro dos negócios estrangeiros mas quer-me parecer que os negócios pelos quais ele vela serão de natureza a rondar o inconfessável, natureza idêntica aos de Miguel Relvas ou de Dias Loureiro, para citar apenas dois homens de bem (como nos assegurava Cavaco em relação ao seu fiel conselheiro) que entretanto se diluíram na imensidão da sua infelicidade, desaparecendo dos radares da opinião pública e se aconchegam agora nos lençóis de seda do mais doce esquecimento. 

Isto é uma gente que não lembraria ao diabo mas que anda por aí e o povo, a querer dormir descansado, não compreende porque tem tantos pesadelos a assombrar-lhe o quotidiano. Portugal, apesar de tanto fato e gravata, é um país com muito mau aspecto.