quarta-feira, outubro 09, 2013

Vai Eduardo!

Recebi pelo  correio um envelope gordinho com carimbos brasileiros. Trazia dentro o último livro do Eduardo P. Lunardelli. Penso que todos os que lêem estas linhas sabem de quem se trata (caro leitor, se eventualmente não souber a quem me refiro clique aqui e ficará com uma ideia).

O livro intitula-se "Agudas e Crônicas", o acento circunflexo ajudando a compreender as diferenças de pronúncia de um lado e outro do Atlântico. É um volume que reúne os escritos que Eduardo vai postando diariamente tanto no Varal de Ideias quanto no Facebook. Curtos e apontados ao coração.

Lê-se de um tiro ou, melhor, lê-se como uma rajada de metralhadora, cada "crônica" puxa a "crónica" seguinte, num desfiar escorreito de leitura fácil.

Grato pelo livro, Eduardo.

domingo, outubro 06, 2013

Os infelizes

Segundo Passos Coelho Rui Machete foi “infeliz” nas afirmações que produziu quando andou a lamber botas na Rádio Nacional de Angola. Quer-me parecer que, mais do que infeliz, foi espertalhão, daquele jeito que o são todos os “chico-espertos” com cartão de militante dos partidos do “arco do poder”. Na verdade, todos os espertalhões que nos governam são infelizes. São uns tristes porque não têm escrúpulos nem cultura suficiente para compreender a grandeza dos valores éticos que deveriam orientar as suas acções enquanto responsáveis pela coisa pública. Ignorância?

Foi infeliz Paulo Portas, foi infeliz Miguel Relvas, foi infeliz Miguel Macedo, infeliz foi Aguiar Branco e é infeliz Maria Luís Albuquerque. Muito infeliz é Nuno Crato. Infelicíssimo foi Miguel Gaspar. No meio de todos estes infelizes escapa Assunção Cristas graças aos deslumbramentos da maternidade. Infeliz se mostrou Cavaco Silva quando confundiu Thomas Mann com Thomas More ou quando comeu bolo-rei de boca aberta perante uma nação estupefacta com tal falta de educação. Infeliz é o povo que elege esta gente para o representar e governar. Assim se compreende que nem Machete se demita nem Passos veja razões para o demitir.

Somos nós os responsáveis por tanta infelicidade. A nossa infelicidade é colectiva como o revelam certos estudos internacionais que tentam compreender o sentir das nações do mundo. Há mesmo quem nos designe por “latinos tristes”. Pois é, somos uns tristes. E Machete é ministro dos negócios estrangeiros mas quer-me parecer que os negócios pelos quais ele vela serão de natureza a rondar o inconfessável, natureza idêntica aos de Miguel Relvas ou de Dias Loureiro, para citar apenas dois homens de bem (como nos assegurava Cavaco em relação ao seu fiel conselheiro) que entretanto se diluíram na imensidão da sua infelicidade, desaparecendo dos radares da opinião pública e se aconchegam agora nos lençóis de seda do mais doce esquecimento. 

Isto é uma gente que não lembraria ao diabo mas que anda por aí e o povo, a querer dormir descansado, não compreende porque tem tantos pesadelos a assombrar-lhe o quotidiano. Portugal, apesar de tanto fato e gravata, é um país com muito mau aspecto.


segunda-feira, setembro 30, 2013

Noite escura

Em comentário ao post anterior o Eduardo P.L. disse...
Que esperança se pode ter quando nossa juventude ( normalmente a esperança do futuro ) está apática, distante e desencantada. O pior dos mundos.

Neste momento estou a pensar que mundo temos nós para oferecer às gerações vindouras. As imagens que me passam pela cabeça são estranhas, são imagens distópicas, dignas de um filme de ficção científica série Z, coisa a rondar o imaginário de um filme de zombies mais ou menos pacíficos. É tudo cinema de má qualidade.

A nossa juventude é resultado da nossa idade adulta. Normalmente a juventude reage aos princípios dos mais velhos. Mas, no cenário actual, temo que essa reacção seja mais violenta do que em gerações anteriores. Parece-me evidente que estamos a exaurir o planeta, esgotando recursos a uma velocidade supersónica sem acautelarmos alternativas credíveis que permitam manter os níveis  civilizacionais por muito mais tempo.

Não sei o que sentem os mais jovens mas talvez estejam a perceber que o "planeta petróleo" não será o deles, que "os amanhãs que cantam" já foram ontem. Talvez estejam a sentir que o Estado Social não aguenta a tormenta capitalista e que os ricos serão cada vez menos e mais ricos e os mais pobres cada vez mais e mais pobres. A classe média a resvalar para a base da pirâmide social que, um dia destes, deixará de ter a forma de pirâmide para tomar a forma de uma coisa estranha com uma base enorme e compacta e um topo fininho.

Meu caro Eduardo, eu diria: que esperança se pode ter quando as nossas elites se comportam como vampiros agressivos e tão desencantados como a massa popular a quem sugam o sangue e a vida?

domingo, setembro 29, 2013

Dever ou não dever (cívico)

Hoje é dia de eleições autárquicas. Mais uma vez fui votar, cumprindo o meu dever cívico. Desta feita houve uma novidade, a minha filha votou pela primeira vez numas eleições "a sério". Sim, antes de chegarmos cá fora, já todos experimentámos votar na escola para eleger os nossos representantes na Associação de Estudantes ou outras cenas do género.

Fico a pensar com os meus botões que votar na escola é como brincar à Democracia. Mas após uns segundos de reflexão fico na dúvida se a brincadeira democrática é um exclusivo de crianças em idade escolar.

Tenho a sensação de que a abstenção vai doer forte e feio. As urnas ainda não fecharam mas cheira-me que vai haver recorde. Os mais jovens não ligam a esta coisa de eleições. Não parecem acreditar na Democracia e, como tal, dizem com frequência que os políticos são todos iguais, que a política é uma merda... como se um fascista fosse igual a um comunista ou a um social-democrata.

O desencanto com a nossa podre Democracia não é um exclusivo dos mais jovens. Ouço muito adulto com um discurso do mesmo calibre e ao mesmo nível. O regime está de patas ao ar.

Seja lá como for, os meus votos entraram na urna. Paz à sua alma.


terça-feira, setembro 24, 2013

Tempos livres

Uma música suave (como que vomitada por anjos que tenham abusado na ingestão de pétalas de rosa) vai entediando o espaço. Pessoas com muitos cabelos brancos vão chegando, devagar, vão-se sentando, calmamente, tudo se passa a 5 à hora. Percebe-se que são pessoas que têm muito tempo livre.

Como se consegue tanto tempo livre? Passo a tentar explicar o que me pareceu ver naquele lugar onde o aborrecimento é feito de veludo.

As pessoas sentam-se por ali, fingindo que não têm nada que fazer. Passeiam os olhos por jornais, livros e revistas (se não tivessem tantos cabelos brancos decerto olhariam para écrãs de computador, de iPhone, de iPad, etc.), não se passa nada.

Na verdade aquelas pessoas estão a fingir distracção. Elas estão ali para caçar tempo livre! O isco são elas próprias, a sua alma a armadilha que haverá de capturar algum tempo mais descuidado que se abeire dos seus corpos estáticos. O tempo chega-se e... zás, é apanhado na armadilha. É tempo livre capturado. Parece um contrassenso (de facto é) mas as coisas são mesmo assim.

As pessoas gostam de exibir o tempo livre que capturaram. Exibem-no como são exibidos os animais selvagens, em jaulas mais ou menos espaçosas. Depende da qualidade do tempo e da qualidade do indivíduo. "Olhem bem este meu tempo livre, vejam como sou poderoso e feliz por ter semelhante exemplar no circo da minha existência."

E sorri, mostrando na sua jaula reforçada um imponente tempo livre capturado em Roma ou em Vladivostoque, olhando de soslaio para um tempito livre capturado ali, naquela sala onde a música não chateia mas também não anima, um tempo livre tão inofensivo que o guarda no bolso ou numa gaiola de plástico, daquelas onde se guardam os grilos.

Entretanto as pessoas vão-se substituindo umas às outras, muito semelhantes no aspecto e na atitude, o tempo livre a correr riscos de ser aprisionado. Tempo livre prisioneiro, é a suprema aspiração na vida de muitos de nós. Principalmente daqueles que não se incomodam com vómito de anjinho, desde que cheire a rosas. Como é o meu caso.

domingo, setembro 22, 2013

Doença de carácter

Não sei bem quando aconteceu. Foi um processo discreto e silencioso. Ontem apercebi-me de que estou a tornar-me insuportavelmente tolerante e, pior ainda, que me esforço por fazer com que os outros sejam, também eles, uma espécie de aspirantes a anjinhos.

Estou a perder aquele prazer abrasivo de dizer mal de tudo, aquele impulso descontrolado de deixar fluir o verbo como se as palavras fossem facas afiadas a cortar o mundo em fatias fininhas. Espero que seja uma doença passageira.

Espero voltar a sentir o prazer de desfazer algo à força de palavreado robusto, usado como marreta, como morteiro, palavreado capaz de retalhar as coisas que me parecem erradas, as coisas que me desgostam. Como diz Scar, a malévola personagem de O Rei Leão: "É tão gostoso ser mau!"

Mas não, pronto, de momento sou bonzinho, um estado de alma sem graça nem pimenta, uma sensaboria monótona. Se não me acautelo ainda morro e vou para o Céu.

sábado, setembro 21, 2013

Lavagem

Ontem postei aqui um desabafo com laivos de lamechice. Sentia-me cansado de trabalhos que me parecem descabidos, sentia-me tristonga, precisava de choramingar a ver se a coisa aliviava. Mas não aliviou. Sentia-me, sobretudo, vazio.

Sentado em frente ao computador precisava de executar certas tarefas que exigem de mim alguma criatividade e não saía (não saiu) nada. Quando isso acontece fico um pouco aterrorizado. Insisti, insisti e nem porcaria fui capaz de criar.

À noite fui ao cinema. Fui ver o mais recente filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Quando saí da sala estava regenerado (Cate Blanchet é uma actriz estratosférica!). O filme até que é bastante deprimente. Muito deprimente, mesmo. Mas hoje sinto-me muito melhor, lavado por dentro. Talvez seja capaz de criar algo satisfatório.


sexta-feira, setembro 20, 2013

Desabafo

Ai caramba, ando com a cabeça feita em papas e não pára de andar à roda, como uma ventoínha!
Os primeiros dias de trabalho num novo ano lectivo nunca foram tão complicados de organizar. O que se passa? Porque é tudo tão confuso, tão pesado? Ponho-me a pensar no assunto e tenho as minhas suspeitas.

O ministério da educação tem reduzido brutalmente o número de professores nas escolas. Paralelamente continua a exigir o mesmo tipo de serviço burocrático, aumenta o número de alunos por turma e multiplica ordens e contra-ordens a uma velocidade que merecia multa por nítido excesso. As reuniões sucedem-se, os alunos enchem as salas, as aulas começam e têm de ser preparadas.

O corpo docente emagrece, muitos de nós pedem reforma antecipada apesar dos cortes nos ordenados (pensões) por já não suportarem tanta burocracia, tanta gente dentro da sala, tanta acção descabelada e sem sentido.

Menos professores para mais trabalho. Deve ser por isso que tenho a sensação de trazer um oceano a chocalhar-me dentro do crânio.

No meu caso particular torna-se quase impossível pensar em desenhar, pintar, trabalhar no Photoshop, postar nos blogues. Sou professor, não sou artista profissional (quase não tenho tempo para ser amador, quanto mais...).

Talvez dentro de uma ou duas semanas a coisa estabilize. Talvez. Até lá vou tentar manter a cabeça à tona. Preciso de respirar.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Ser ou não ser

Por vezes penso se não seremos todos malucos. Não é loucos (loucos acarreta um certo glamour), é malucos, mesmo. Malucos implica algum desdém, alguma piedade, uma pitadinha de ironia e divertimento quanto baste mas há malícia na classificação deste rótulo. A um maluco desculpam-se algumas maluquices mas, na verdade, ele é visto com uma certa repulsa, um bicho defeituoso, potencial locatário de uma jaula.

Um louco pode ser um artista, um maluco tem mais possibilidades de vir a enveredar por uma carreira no mundo do crime. Um louco cria, um maluco destrói. Seremos todos malucos?

Matar com gás é desumano, matar com bombas legalmente fabricadas e com recibo de transacção comercial parece ser aceitável. Esta ideia pode ter saído da cabeça de um louco? Será ideia de um maluco? É, obviamente, uma merda de ideia. Uma ideia feita para nos forçar a encarar como boa a possibilidade de começar outra guerra.

Antes que me perca no labirinto desta ideia concluo, voltando ao início do post: seremos todos malucos? No que diz respeito à minha pessoa tenho dúvidas mas, no entanto, sinto-me bem disposto.

domingo, setembro 08, 2013

Pensamento vespertino

Há pessoas que nos parecem extraordinárias. Há ou não há?

Tu, caríssimo, que lês estas linhas perfeitamente alinhadas, de imediato pensaste em, pelo menos, uma ou duas pessoas. Pensaste ou não pensaste? Claro que pensaste, todos temos os nossos heróis, não há que enganar.

Os heróis podem ser reais, imaginários ou reais-imaginários. Seja qual for a sua espécie (dentre estas três) são por nós construídos. É evidente que os nossos heróis nos dão uma ajudinha na construção que fazemos deles. Por esta razão ou por aquela, uma coisa leva a outra e... pliiiiiim, temos um herói!

Sejam actos, sejam frases, seja apenas um "look" que se encaixa na imagem que corresponde ao nosso ideal seja lá do que for, vários são os materiais de que se fazem os heróis.

Quando nos chegamos a eles (estejam vivos, mortos ou assim-assim) as coisas podem mudar de figura. Na verdade, os heróis podem revelar-se tão banais quanto nós próprios e, as mais das vezes, é isso mesmo que eles são: pessoas banais que, aos nossos olhos se tornaram extraordinárias.

sexta-feira, setembro 06, 2013

Descrição

Ia à procura da ilustração de hoje de O Inimigo Público onde Obama está a cagar, na pose de O Pensador de Rodin. Obama de cócoras, calças em baixo, mão no queixo, pensativo, caga bombas que vão explodir lá em baixo, como se ele fosse um gigante (o gigante louco da guerra na pintura de Goya) ou um deus distante e aborrecido. Cagando.

Procurei no google em António Jorge Gonçalves, o autor do cartoon, e fui, mais uma vez dar à página online que tem o seu nome (clicar aí ao lado) que é uma página que, quanto a mim, merece um olhar demorado.

A ilustração referida não está lá (pelo menos ainda não está) mas há muito para ver. Já em 2009 tinha feito referência a AJG aqui, no 100 Cabeças (ver aqui) sugerindo a visita à sua obra gráfica. Agora insisto, não é demais.

À falta de imagem fica a minha descrição da ilustração de hoje (O Pensador, d'aprés Rodin). O leitor pode sempre imaginá-la.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Bizarria

Todos sabemos quem é Edward Snowden. Perseguido pelo longo (mas torto) braço da justiça norte-americana, Snowden acabou por encontrar na Rússia um buraquito onde se esconder, pelo menos, durante um ano (ver aqui, por exemplo).

Como na Rússia nada se faz sem o consentimento de Putin, fica a sensação de que o desfecho deste episódio resulta da sua vontade de irritar um pouco o amigo americano. Quem vir no gesto deste ditador democrático (eu sei que isto é uma contradição) a concretização de uma qualquer visão altruísta provocada pelo amor à liberdade de expressão só pode estar a precisar de uma operação aos olhos e à mioleira. Com urgência.

A notícia de que o pintor russo Konstantin Altunin fugiu da Rússia a sete pés após ter exposto uma obra em que Putin e o seu alter ego Medved surgem em lingerie (ver aqui em português), lança uma luz clara sobre o buraco onde se esconde Snowden.

Com Putin não se brinca. Só ele pode brincar, os outros, quando muito, têm apenas direito a sorrir sorrisos bem amarelos. A obra de Altunin pode ter desrespeitado várias leis russas que defendem a imagem dos governantes e reprimem a apologia da homossexualidade. Por via das dúvidas o pintor achou que o melhor era mesmo por-se ao fresco.

quinta-feira, agosto 29, 2013

A máquina do mundo

Lendo as notícias que nos informam da iminência de mais uma guerra entre as forças ocidentais e um governante caído em desgraça não posso deixar de lembrar a tristemente célebre Cimeira das Lajes. A guerra rebentou e deu no que se sabe. O “nosso” lado estava tão certo das suas razões, alardeava uma tão grande autoridade moral… não havia dúvidas quanto à necessidade e justiça da invasão que levaria à queda e posterior execução (assassinato?) de Saddam Hussein.

Personagens então emergentes como Durão Barroso e Paulo Portas lá se puseram em bicos de pés e assinaram de cruz todas as pretensões de Bush e Companhia. Durão haveria de tornar-se Presidente da Comissão Europeia e Portas, além de uma condecoração entretanto recebida das mãos do inqualificável Rumsfeld, continua a ser o estadista de opiniões moralmente impolutas e decisões tão irrevogáveis quanto uma dentição de leite.


Em 2003 tínhamos Bush, que queria fazer a guerra, agora temos Obama que não quer fazê-la. Mas, ao que parece, querer e não querer a guerra leva-nos a idêntica conclusão. A guerra do Iraque não nos ensinou nada, talvez não houvesse nada para aprender. Estamos prestes a abrir nova caixa de Pandora. Fica a sensação de que a máquina do mundo serve, principalmente, para produzir guerra, miséria e morte.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Redesign

Aqui há dias fui ao cinema com a minha filha. Estávamos em Viseu, a oferta cinematográfica não é mais entusiasmante. Insisti no filme "O Mascarilha". Um pouco contrariada a rapariga lá acedeu. Afinal de contas, férias são férias e não custa nada fazer a vontade ao velho.

A personagem preencheu parte do meu imaginário juvenil através dos livros de quadradinhos. Apesar de não ter grandes expectativas em relação ao filme penso que queria matar saudades da minha infância. Lá fomos.

O filme é desopilante. As cenas de acção têm momentos de grande espectáculo e divertimento. As personagens surpreendem com atitudes inesperadas e há pormenores de uma violência cruel que, no contexto, provocam o riso apesar de tudo. Ao contrário do que eu esperava, a narrativa não era tão linear quanto seria de esperar numa coisa deste género. Talvez por isso o filme tenha sido um fracasso de bilheteira nos Estados Unidos (ver aqui).

É de salientar o "redesign" da personagem de Tonto, o índio, interpretada por Johnny Depp. Os maus são muito maus e os bons... nem por isso. À saída vínhamos com um sorriso estampado no rosto. Afinal valera a pena.

terça-feira, agosto 20, 2013

Filosofia de Tasca (outra vez)

"Há sempre uma réstia de verdade em todas as mentiras" pensou ele enquanto remexia as moedas no fundo do bolso das calças. "Quanto mais não seja, a verdade precisa da mentira para existir, nem que apenas por oposição." Largou as moedas e esfregou a cabeça com as duas mãos, como se remexesse shampô anti-caspa na cabeleira fina e oleosa. "Não parece justo continuar a mentir-lhe mas, se as minhas patranhas a deixam tão feliz, quem sou eu para estragar tudo dizendo a verdade?" Olhou a ponta dos sapatos... "Afinal somos apenas dois animais!"

sexta-feira, agosto 16, 2013

Distopia

Hoje fui ao cinema (há muito tempo que não ia ver um filme na sala de cinema) ver Elysium, o mais recente filme do realizador sul-africano, Neil Blomkamp. Quando me sentei sabia muito pouco acerca do filme. Tinha visto ontem à noite uma entrevista com Matt Damon, que interpreta a personagem central desta distopia (wiki) de Ficção Científica. A coisa pareceu-me bem, fui ver.

A sinopse de entrada e os planos iniciais de uma cidade futurista que parece feita de lixo amontoado fizeram-me pensar imediatamente nos contos de Phillip K. Dick. Mais um ou dois minutos de filme e não me saía da cabeça como tudo aquilo era semelhante a Distrito 9.  Tudo agradável para um espectador como eu.

No intervalo abri o jornal e procurei a crítica ao filme. Lá estava, Elysium é do mesmo realizador que Distrito 9 e Jorge Mourinha, o autor daquelas linhas, referia também o universo de Phillip K. Dick (falar apenas de Blade Runner é limitativo mas compreende-se quando se fala de cinema). Ok, as minhas referências funcionavam na perfeição, fiquei contentinho comigo próprio. Estas pequenas vaidades...

Ao chegar aqui, defronte do teclado onde matraqueio estas palavras, procurei no Dicionário do Aurélio online a palavra "distopia". Para minha surpresa não consta no referido dicionário. Um salto à inevitável Wikipédia forneceu-me dados interessantes quanto à origem da expressão que desconhecia por completo (ver link mais acima que tem uma curiosa lista de exemplos de distopias cinematográficas).

Procurei noutros dicionários de português e encontrei esta descrição em "antiutopia" que pode servir de sinopse a Elysium: "representação ou descrição de uma sociedade futura caracterizada por condições de vida alienantes ou extremas, que tem como objetivo criticar tendências da sociedade atual, ou alertar para os perigos de determinadas utopias

antiutopia In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-08-16].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/antiutopia>."

O filme, não tendo nada de extraordinário nem sendo particularmente inovador, é, no entanto, suficientemente cativante e merece uma ida à sala para ser visto.


quarta-feira, agosto 14, 2013

Verão leituras

O Verão traz sempre consigo uns quantos livros que se lêem debaixo do guarda-sol, à beira do mar ou nalguma esplanada mais recatada com boa cerveja fresca, de preferência.

Nos últimos tempos tenho dado primazia a autores portugueses e foi de Afonso Cruz a minha última destas leituras estivais. Li O Pintor Debaixo do Lava-louças(ou loiças) que confirmou as boas impressões que me haviam deixado Jesus Cristo bebia cerveja e A boneca de Kokoschka, também deste autor.

Para quem nunca leu Afonso Cruz deixo a recomendação de que o faça. O rapaz é um artista!

Entretanto li também O relatório de Brodie, um livrinho de contos de Jorge Luís Borges editado pela Quetzal que é um primor. Desde a textura da capa à magnificência da escrita, é um livro que dá prazer ter nas mãos.

Mas, com tanto tempo livre, o Verão permite isto e muito mais. De Pedro Gamboa li Almas a saque, uma história de paixão com final pouco feliz que me revelou um autor que desconhecia (mas que conheço pessoalmente).

Entretanto fui ontem à Biblioteca Municipal de Almada levantar outros dois livros de contos. Depois de os ler talvez diga alguma coisa.

Boas leituras. É Verão.

segunda-feira, agosto 12, 2013

Pensamento à beira-mar

Tantas certezas sobre como as coisas são e não são, podem plantar no teu peito sementes de amarga angústia. Não lhes desejes as flores, muito menos lhes queiras provar os reluzentes frutos.

quarta-feira, julho 31, 2013

3 clics

Onde vamos nós desencantar motivos de alegria e sossego? De súbito tudo se encaixa suavemente, as peças perfeitas na adaptação das suas às formas das outras. Clic, clic, clic, fazem elas baixinho e depois... silêncio, sempre que encontram a posição absoluta, o seu lugar na perfeição do mundo.

Clic, clic, clic, fazem as peças a encaixarem-se umas nas outras, ajudando o Universo a ser um pouco menos absolutamente caótico, as peças atenuando o caos nos seus clics delicados.

Como dei eu com esta visão reconfortante? Como cheguei a este momento adocicado, lamechas, mesmo? Eu sei como foi. Isto aconteceu-me hoje o dia inteiro. Encontrei este lugar que não é físico, uma perfeita conjugação de factores, como se vivesse a glória súbita de ter descoberto uma fórmula matemática habitável. Mas isso... fui eu que encontrei.

Onde irás tu desencantar os teus motivos de alegria e sossego, caro leitor? Problema teu. Poderia levantar um pouco o véu sobre o local e a companhia que compõem este meu momento paradisíaco mas nada garante que funcionasse contigo da mesma forma.

Sei que cada um de nós vive permanentemente às portas do inferno. Disse um filósofo que "o inferno são os outros" mas, sempre te vou dizendo: os outros também poderão ser o paraíso.

segunda-feira, julho 29, 2013

Ir à guerra

Estava a ler uma banda desenhada com o Super Homem a desancar uns mauzões vindos de outro planeta numa batalha sem quartel nas ruas de Metropolis. A coisa metia sopapo de meia noite, figurões a trambulhar de encontro aos prédios que abriam fendas nas paredes e automóveis a levar piparotes que os deixavam de rodas para o ar.

A luta era brava e o Super Homem, como sempre, acabou por vencer e os mauzões ficaram cobertos de nódoas negras e orgulho ferido. Tudo está bem quando acaba bem. Mas...

Dei por mim a pensar naqueles cidadãos que, apanhados no calor da refrega, ficaram com as paredes do apartamento de buraco aberto sobre a rua, os outros que seguiam dentro dos tais automóveis, amassados e bons para a sucata. Ninguém se feriu? Quem paga os estragos? O Super Homem salva a cidade, a nação, salva o planeta, mas isso tem efeitos colaterais que os argumentistas desprezam.

Eu sei que o Super Homem é bom e quando parte tudo em volta é porque não tem alternativa.

Quem escreve as histórias do Super Homem nem sempre dá grande atenção aos cidadãos anónimos. Os figurantes deviam ter direito a uma atençãozinha particular. Quando não, estão ali apenas para justificar os grandes feitos dos heróis e motivar as acções dos vilões. Quanto ao resto: que se lixem! Ou talvez nem tanto... enfim...

quinta-feira, julho 25, 2013

Mundo de aventuras


Os "outdoors" publicitários não mentem: o mundo é para as pessoas bonitas, as pessoas perfeitas. O cabelo sedoso, a pele limpa, os dentes correctamente alinhados em fileiras a fazerem lembrar uma parada militar de soldadinhos brancos, puros, brilhantes como as estrelas no céu.

Na TV os apresentadores sorriem sempre, rebentam de felicidade e oferecem coisas aos telespectadores que telefonam. O ritmo a que falam deixa sem respiração os mais resistentes: tomem lá dinheiro, tomem lá prémios, tomem lá felicidade! Tudo parece bem, tudo parece a caminho da perfeição.

A artificialidade tornou-se mais real que a substância. Quero aqueles "jeans", quero aquele perfume, quero aquele corpo!

Envelhecer é uma doença. Ser velho não está na moda. Compre o creme milagroso, acabe com as rugas. Faça o implante de cabelo, engane a calvície. O mundo oferece-lhe o milagre do rejuvenescimento, só tem que ter dinheiro disponível.

Longe vão os tempos dos aventureiros que arriscavam a vida em busca da Fonte da Eterna Juventude nas profundezas de selvas impossíveis. Agora, para beber da água dessa Fonte, só precisa de um computador ou de um telemóvel de última geração. E uma conta bancária recheada.

sexta-feira, julho 19, 2013

Um cadáver esquisito

A polémica em torno do Acordo Ortográfico não morreu, antes pelo contrário. As vozes discordantes têm-se feito ouvir continuamente, nunca desistindo de apontar as incontáveis incongruências do Acordo.


Fazendo valer o ditado que diz que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura, uma petição,“Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da LínguaPortuguesa’ de 1990”, vai se discutida na Assembleia da República.

Durante algum tempo não tive uma opinião muito concreta acerca desta coisa. Tentei adaptar-me mas, na verdade, nunca cheguei a escrever segundo as normas do Acordo.  Há demasiados pormenores que não compreendo, regras que me escapam. 


O Acordo gerou polémica em todo o lado e não me consta que tenha sido adoptado por nenhum outro país além do nosso. Portugal orgulhosamente só, mais uma vez. Que triste.


Uniformizar a ortografia não me parece de grande utilidade. Os povos de língua portuguesa continuarão sempre a utilizar os seus vocabulários específicos; telemóvel é celular, autocarro é ônibus e um fato completo continuará a ser terno por terras brasileiras.


Nos dias que correm estou, decididamente, do lado dos que dizem que se lixe o Acordo Ortográfico. Concluo com outro ditado popular "o que torto nasce tarde ou nunca se endireita".  O Acordo que se lixe.

quarta-feira, julho 17, 2013

Café (com pouco açúcar)

Quantas vezes nos deixamos amarrar a personagens que não somos nós? Vivemos dentro de outra pessoa e nem sempre nos apercebemos disso. A quantos de nós acontece algo assim o tempo todo de uma vida? Uma vida inteira a viver acontecimentos que não correspondem ao que nos vai na alma, a fazer coisas que são coisas de outro corpo, coisas de outra personagem, uma vida inteira a representar no filme errado.

Há quem sofra por isso, há quem nem dê pelo engano. Há quem seja feliz assim. Há quem se aperceba da troca de papéis mas não diga nada, não faça nada, continuando a representar aquele papel. Do mal o menos.

Trocar de personagem a meio da vida requer coragem e lucidez. Rasgar a alma e esperar que outra nova nos cresça é doloroso e não tem resultados garantidos. As personagens que representamos não trazem instruções nem têm garantia ou prazo de validade.

A vida é um risco. O problema é que só vivemos uma.
Só vivemos uma vida de cada vez.

quarta-feira, julho 10, 2013

Confissão

Shark, shark night
colagem, 2013

Quiseram os deuses do acaso que, em tempos recentes, eu conhecesse pessoalmente várias pessoas com quem vou convivendo no espaço virtual, principalmente aqui, na zumbisfera dos blogues. A impressão com que fiquei de todos os zumbisféricos que contactei (de TODOS sem excepção) foi extremamente agradável. Pessoas simpáticas, afáveis, de trato fácil, as conversas fluiram sem rumo certo nem constrangimentos. A materialização da zumbisfera proporcionou-me, até agora, óptimos momentos de  grande descontracção.

A minha maior surpresa, no entanto, é a imagem que essas pessoas têm de mim, antes de nos conhecermos ao vivo. Nunca tinha pensado nisso mas, de uma forma geral, em comentários aqui na zumbisfera ou mesmo em conversa directa, apercebi-me que a minha pessoa virtual é algo desconfortável. No trato directo, valha-me isso, os meus amigos virtuais (agora reais) relaxaram ao perceber que não sou tão sombrio, azedo e violento como imaginavam. Ou, pelo menos, ao vivo não pareço sombrio, azedo nem violento.

Já o meu mestre Jorge Pinheiro, professor de pintura no meu último ano da ESBAL, me havia dito, há coisa de uns vinte e tal anos, que olhando os meus trabalhos ninguém imaginaria a minha pessoa. Não sei se é caso para me orgulhar se para me preocupar. O melhor é não pensar muito nisso, nem uma coisa nem outra. Mesmo a minha mãe, que não é pessoa muito interessada no fenómeno artístico (a menos que eu esteja ligado) me perguntou um dia, com algum cuidado, se havia algum trauma na minha infância que me levasse a produzir obra tão negra. O problema da minha mãe era saber se tanta monstruosidade poderia estar, de algum modo, relacionada com ela. Não, mãezinha, pode estar descansada, se alguma coisa eu pintasse por influência sua pintaria flores e passarinhos.

Não, isto é coisa pessoal, é entre mim e o mundo, uma velha luta, uma narrativa épica dentro da minha cabeça. "I'm the star of my own movie", como na canção dos Talking Heads. Não vale a pena tentar explicar o que explicado está na sua própria natureza.

Relendo o que atrás fica escrito tenho a sensação de estar ajoelhado no confessionário a bichanar os meus pecados ao ouvido preguiçoso do padre que eu não sou gajo de psiquiatrias nem coisas desse calibre. A verdade, verdadinha é que há muitos anos que dispenso os padres e falo directamente com o Big Boss. A maior parte das vezes falo com Ele quando desenho, quando escrevo e quando pinto. Talvez seja por isso que as coisas que faço ganham os contornos que têm: são orações ao Divino. Oxalá Ele exista e possa compreender-me.

Eu sei que este texto vai longo e não ajuda nada a desanuviar a minha tal imagem zumbisférica mas as coisas são o que são. Não há volta a dar-lhe. Mas prometo, caro leitor, que se nos encontrarmos um dia face a face serei o que costumo ser, no mundo real. Nem outra coisa seria de esperar.

(sorriso)

segunda-feira, julho 08, 2013

Rejeição abjeccionista

A bosta mole em que se transformou a vida (!?) política portuguesa nos dias mais recentes é coisa para nausear os estômagos mais calejados. Como sobreviver a tamanha sucessão de vilezas e putices, é algo que vou ter de treinar.

Perdi definitivamente qualquer réstea de respeito que pudesse obrigar-me a inventar em relação aos patetas que nos governam. Sinto a mais profunda abjecção em relação a esta gentalha enfatuada. Estes papa-hóstias, estes sabujos, cães-de-colo perfumados que lambem o cú e os tomates, como qualquer outro cão, como um cão vadio, estes mentirosos compulsivos, falsos, dissimulados, estes imbecis estão a destruir o que resta da frágil imagem da Democracia. Estes seres vivos são a ruína da Democracia, são os sacerdotes da democracia, com "d", a coisa nojenta em que sobrevivem.

A partir de hoje nunca mais irei referir-me a Portas, nem a Passos Coelho, nem ao palhaço-mor (já nem me dou ao trabalho de nomear o palhaço-mor). A partir de hoje estes insectos deixam de merecer o que quer que seja além de uma pisadela que os espalme no soalho e os reduza à sua dimensão rastejante e infecciosa.

Morram todos, morram, pim.

sábado, julho 06, 2013

Holy War

Holy War
Julho 2013

quinta-feira, julho 04, 2013

Calor

Deve ser do calor. O mundo parece estar a arder mas deve ser impressão minha causada pelas temperaturas mefistofélicas que vão cozinhando o país e o resto, em volta.

Hoje estive toda a tarde sentado defronte a esta coisa. A enviar e-mails, a receber e-mails, a ler documentos chatos, a preencher tabelas com númerozinhos que representam coisas que nunca pensei poderem ser representadas por números. Suei a camisa a trabalhar sentado, que é uma coisa digna de ser notada.

As notícias vão gotejando a um ritmo preguiçoso. Há homenzinhos enfatuados que rodopiam de uma cadeira almofadada para outra em busca de coisas estranhas, coisas que talvez sejam mágicas, não compreendo bem. Na verdade não compreendo nada. As coisas mágicas parecem-me estúpidas, mesquinhas, talvez sejam mágicas por isso mesmo: por serem estupidamente mesquinhas.

Os homenzinhos enfatuados são aprendizes de feiticeiros que experimentam soluções estranhas para problemas enormes que não parecem compreender. Mas tudo isto deve ser por causa do calor. O mundo transpira notícias. O calor que está a cozer o mundo em lume brando com Portugal lá dentro.


terça-feira, julho 02, 2013

Rataria

O que se está a passar com o governo de Portugal? Os ministros ensandeceram definitivamente? Deu-lhes a maluca? de um dia para o outro é vê-los a saltar borda fora como ratazanas a abandonar um navio que mete água por todos os lados.

Umas ratazanas vão assustadas, outras convictas de que regressarão ao barco quando os buracos forem remendados. Outras talvez estejam a mergulhar apenas para ver se lavam a merda que teima em lhes estar agarrada ao pêlo. Que espectáculo grotesco.

Oxalá se afoguem.

domingo, junho 30, 2013

Momento subterrâneo

Aquele olhar profundamente azul era tudo o que tinha para oferecer. A consciência da sua extrema beleza retirava-lhe humanidade. A forma como se movia, suave, um estilo exótico... embrulho adorável para um conteúdo de merda.

quinta-feira, junho 27, 2013

Uma questão de Fé?

Vi-a hoje pela manhã. Estava numa loja de telemóveis, aguardando pacientemente a minha vez de ser atendido. Ela estava lá. Velhinha, meio curvada, bem vestida, bem calçada, bem arranjada, óculos escuros redondos. Segurava na mão esquerda uma revista. Não reparei logo mas segurava a revista com um guardanapo de papel a proteger os dedos.

O tempo continuou a passar daquele jeito que passa nesses lugares de atendimento ao público. Muito devagar, um toque sonoro a marcar um novo número. Uma coisa tediosa. A senhora continuava sentada, segurando a revista mais ou menos à altura da face. Tirara os óculos escuros e olhava a página aberta à sua frente. Murmurava qualquer coisa... ou seria impressão minha?

Passado algum tempo voltei a reparar na mulher. Estava encostada ao balcão e trocava algumas palavras pouco amigáveis com o rapaz que a atendia. Ele falava de modo ríspido, parecia alterado. A mulher não olhava para ele, continuava concentrada na revista como se esperasse que do seu olhar pudesse resultar alguma coisa de especial. Era estranho.

Voltei a distrair-me com outra coisa qualquer. Até que a senhora se afastou do balcão e começou a falar alto. Agora estava próxima de mim e pude ver que a revista estava aberta numa página que exibia uma foto do Papa João Paulo II, o santo. Era essa fotografia que a mulher fitava insistentemente. Apercebi-me de que nunca virava a página. Quase pude sentir a presença do defunto Papa.

Todas as pessoas dentro da loja tentavam ignorar a mulher e a sua santa companhia. Ela saiu para a rua. Pude vê-la através da vitrina. Estava especada no passeio a conversar com a fotografia. Passados alguns minutos regressou. Voltou a dizer qualquer coisa (as minhas dificuldades auditivas não me permitiam compreender o que ela dizia por estar um pouco distante). Dirigiu-se à máquina que distribui as senhas de atendimento e retirou uma. Voltava à carga.

Reparei que os empregados da loja não estavam particularmente preocupados nem lhe davam muita atenção. O que estava mais próximo de mim, ao notar que eu olhava a velhinha, ofereceu-me um sorriso muito suave, como quem diz "não faz mal". Compreendi que se tratava de um episódio frequente. Ao sair olhei a mulher uma última vez. Conversava com a fotografia de João Paulo II. Dizia algo e esperava uma resposta em silêncio reverencial.

Vim embora a pensar em questões de Fé. Questões de Fé e de loucura.

domingo, junho 23, 2013

Hipocrisia

A Igreja Católica lidera a contestação à adopção de crianças por casais homossexuais. Os que vêm nesta possibilidade uma aberração absoluta argumentam com tradições culturais e leis naturais. A falta que faz uma figura paternal, o contra-senso que é ter duas mães ou dois pais.

No entanto, as notícias sobre abusos sexuais de menores praticados por membros da Igreja Católica que deviam, à partida, garantir o seu bem-estar material e espiritual, continuam a sair nos meios de comunicação social a um ritmo estonteante. Os órfãos à guarda de padres em instituições de solidariedade social não estão a salvo dos horrores deste mundo. Encontram crueldade predatória onde lhes prometeram amor.

Não ouço as vozes indignadas dos tais guardiões da moral e dos bons costumes, que tanto receiam ver homossexuais a cuidar de crianças, pedir o fecho dessas instituições e a condenação à prisão dos padres pedófilos. Estou em crer que muitas dessas crianças estariam bem melhor entregues a casais anti-naturais do que a homens que são impedidos, por regra religiosa, de o serem.

Sei que estou a misturar "alhos com bugalhos", homossexualidade nada tem a ver com pedofilia. Quero apenas sublinhar a hipocrisia da Igreja Católica que parece mais preocupada com as aparências do que com a essência de certas questões. Não me parece que seja o bem-estar da criançada que move os padres.

sexta-feira, junho 21, 2013

Apocalipse (ainda não)

A Revolução Industrial começou a mostrar aos seres humanos como poderiam ser substituídos por máquinas na produção de bens de consumo. A Revolução Informática mostra-nos como somos, cada vez mais, dispensáveis. Os seres humanos estão a mais no seu próprio mundo!

Ainda assim, muitas indústrias continuam a apostar na mão-de-obra humana. Como os custos dessa mão-de-obra são dispendiosos, os donos das fábricas "deslocam" os seus locais de produção. As fábricas são colocadas em países onde a democracia nem sequer chega a ser uma miragem, explorando  a fome, a pobreza e a ambição de uma vida melhor de multidões de trabalhadores sem direitos. Exploração do homem pelo homem na sua versão mais pura e mais dura.

Hoje surgiu-me uma pergunta: e quando, também nesses países, a Revolução Informática for uma realidade? Quando não houver outros países pobres para "deslocar" a produção? A crise que agora vivemos no Mundo Ocidental terá de alastrar inevitavelmente. Os custos de produção irão subir nos países onde, agora, são atractivos para os exploradores.

Com a população humana a aumentar de forma imparável, com a exploração de recursos a atingir níveis próximos do insustentável, com o alastrar da consciência dos direitos individuais... o balão enche e incha até quando? Até não haver mais mundo para explorar?

Será aí que o termo "apocalipse" vai fazer sentido?

terça-feira, junho 18, 2013

segunda-feira, junho 17, 2013

Pensamento profundíssimo

Porque haveriam todas as pessoas de querer ser inteligentes? Afinal de contas, a ignorância é um lugar de descanso e as pessoas andam quase sempre cansadas ou, pelo menos, muito se queixam disso.

Mas, se a ignorância é um lugar de descanso, a estupidez é um verdadeiro resort de luxo para os cansados da vida.


domingo, junho 16, 2013

Balão vazio

A imagem que tenho da nossa sociedade e do nosso modo de vida parece-se, cada vez mais, com um balão vazio. Um daqueles balões coloridos que, cheios, prometem voar pelas alturas, brilhantes, perfeitos e lisos mas que, quando perdem o ar que os encheu, ficam com aquele aspecto murcho, o aspecto desolador das coisas que não correspondem mais à esperança que nelas se depositou.

A cada dia que passa torna-se mais evidente que as promessas que fazemos a nós próprios são quase tão difíceis de cumprir quanto o sonho que as permitiu é impossível de encaixar na realidade. Há qualquer coisa de nefasto nesta constatação. Recordo as histórias de Philip K. Dick, com os seus "heróis" tristes, constantemente desiludidos com a revelação dos factos em confronto com as suas ilusões.

É isso! A cada dia que passa tenho a sensação de viver dentro de uma novela de K. Dick. E se a minha vida fosse apenas o resumo de umas quantas páginas de um conto de Dick? Se eu e tu, caro leitor, não formos mais do que personagens de ficção de uma novela deprimente escrita por um autor que já morreu? E se a nossa vida for apenas um balão que se esvazia lentamente, um balão que está quase, quase a atingir o seu último sopro?

segunda-feira, junho 10, 2013

Suspensão

O tema já foi aqui várias vezes abordado. Não é nada de novo mas é algo que me (pre)ocupa a cabeça com uma frequência quase diária.

Trata-se da questão que sempre se coloca quando pretendo terminar um trabalho criativo. Seja qual for a técnica ou a natureza do objecto (seja escrito, pintado, desenhado, falado) como saber se está, de facto, terminado?

A verdade é que nunca nenhum objecto é definitivo. Nem a Mona Lisa, nem a catedral de Notre-Damme, nem Os Lusíadas ou outra coisa qualquer. Pretender que um objecto artístico tem uma forma perfeita é desconhecer a própria essência da Arte (ena, ena, escrevi arte com "A", isto é importante!).

Todo o objecto artístico resulta de uma suspensão (esta ideia já tem barbas brancas e faltam-lhe alguns dentes). O artista pára de trabalhar o objecto (suspende a acção), considerando-o apto a ser observado. Na verdade há sempre mais uma pincelada, uma vírgula que poderia mudar de lugar, uma esquina que poderia ser arredondada. Mas o artista precisa de parar, tem necessidade de suspender os gestos, abrandar a intensidade reflexiva, a cabeça já começa a fumegar...

Volto a esta questão porque hoje, ao pensar sobre isso pela enésima vez, senti um pequeno sobressalto: e se aquilo a que chamo "suspensão" não for mais do que mera desistência? Ai Jesus! Se for assim, então toda a obra de arte resulta da incapacidade do artista para ir mais longe na criação da sua obra. Toda a obra de Arte resulta de uma desistência do artista. Isto soa-me mal, parece-me coisa grave.

Ou talvez não. Talvez seja assim mesmo. Talvez toda a Arte (ou "arte" com "a") seja desistência, talvez seja o reconhecimento da grandeza do acto criativo. Talvez todo o artista seja apenas um ser humano perdido na infinitude das suas capacidades individuais. Ou talvez não... preferia que talvez não...

sexta-feira, junho 07, 2013

Limbo

Nos últimos dias tenho andado tão embrenhado no mundo real que este aqui, o virtual, quase deixou de existir. Já houve tempos em que as coisas se passaram exactamente ao contrário.

Escrever, desenhar, pintar, o mundo real está tão... real que estas actividades se têm revelado penosas, difíceis mesmo. O relógio, o calendário, os instrumentos que marcam o tempo andam a tapar as nuvens, ocupam a paisagem com uma força exagerada, agigantam-se.

A minha esperança é que, a qualquer momento, surja um coelho branco todo bem vestido a saltitar detrás de um automóvel e me diga qualquer coisa.

terça-feira, maio 28, 2013

Contrafacção

Dantes eram as camisas Lacoste e as malas Louis Vuitton que apareciam à venda em quantidades quase industriais e a preços impossíveis. As pessoas compravam material contrafeito mas sabiam que estavam a fazê-lo. O preço era bem em conta...

Agora são pinturas de Paula Rego e António Palolo a serem vendidas, mas a preços elevados (ver aqui) a pessoas "inocentes" que as adquiriram convencidas que estavam a pagar pela "real thing". A contrafacção segue caminhos inesperados.

A Polícia Judiciária anunciou ter apreendido centenas de pinturas falsas daqueles artistas portugueses. Ao que parece, muitas delas haviam já sido comercializadas.

Ok, coisa banal, normalíssima, nos tempos que correm. O que me surpreende não é o facto de se falsificarem obras de artistas consagrados, a minha surpresa é haver quem compre pinturas de Paula Rego quando é evidentemente impossível que sejam originais.

Quem investe uns milhares de euros a comprar uma obra que está reproduzida um pouco por todo o lado e que é do domínio público que não poderia estar à venda? Quem são estes "inocentes", valha-me Deus, Nosso Senhor? É preciso ter muito dinheiro e muito pouca informação.

Esta notícia mostra que ter muito dinheiro não é sinónimo de nada e pode ser sinónimo de muita coisa.

sábado, maio 25, 2013

Pensamento nocturno

A Humanidade receia a escuridão. As cidades são tentativas mais ou menos desesperadas para anular a escuridão, fazer prevalecer a luz sobre a treva.

Deus é luz, o amor ilumina a alma, o conhecimento é a luz do espírito, o burgo é a luz do burguês.

Os candeeiros na rua afugentam a escuridão, os burgueses são seres que amam a luz artificial como borboletas conscientes da existência dos lobos e dos monstros que as trevas moldam no silêncio, misturado com pequenos ruídos arrepiantes.



sexta-feira, maio 24, 2013

Uma coisa muito bela

Cena do filme "A Infância de Ivan" de Andrey Tarkovsky.

quinta-feira, maio 23, 2013

Ligeira fuga

Hoje fugi ligeiramente à rotina. A realidade estava a sufocar-me, a puta! Raramente me apercebo quando o quotidiano me põe a delirar. Hoje reparei. Estava fora de mim, o peito a rebentar e o ânimo em zona vermelha. Perigo!

Quando cheguei a casa propus uma pequena fuga à minha mais-que-tudo e fugimos os dois. Apenas ligeiramente. Um pouco de sol na cabeça, um pouco de vento soprado do mar, uma esplanada e uma cerveja fresquinha. O carro a rolar indolente, sem pressas, cruzamentos a fazer caminho no último instante, virar mais ou menos ao acaso.

Regressámos após algumas horas. Não fizemos nada de espectacular, apenas fugimos ligeiramente.
A realidade nem deve ter reparado e a nós soube tão bem fazer de conta por umas horas.

terça-feira, maio 21, 2013

Memória do futuro

Durante a minha infância vivi em estado semi-selvagem. O máximo de tecnologia a que tive acesso era um velho aparelho de televisão a preto e branco que de vez em quando se recusava a funcionar e a minha avó paterna arranjava com uns valentes murros na caixa.

Quando cheguei à adolescência foi com alguma emoção que recebi (já não sei de onde terá vindo) um leitor de cassetes, daqueles mono, como os que usavam os repórteres dos anos 70 para fazer entrevistas. As cassetes que tocava nesse aparelho primitivo eram todas dos Doors.

Ouvia as cassetes tantas vezes que as fitas se partiam e tinha de as arranjar com pedaços de fita-cola. E voltavam a rodar e a rodar e a fazer-me sonhar já não me lembro com quê. Aquela música hipnotizava-me. Nos dias de hoje tenho vários dos discos dos Doors na minha prateleira e, de vez em quando, regresso a eles mas falta-me a frescura da adolescência para nadar até à lua.

Ontem faleceu Ray Manzarek. Lá se foi mais um pedaço do tempo. É estranho quando recordamos uma destas personagens. Ray tinha 74 anos mas, para mim, será sempre aquele jovem com grandes patilhas, óculos sem aros e longo cabelo escorrido e louro, debruçado sobre o órgão; genial, absolutamente extraordinário.

Um homem assim nunca morre de verdade enquanto não morrer o mundo em que viveu.

segunda-feira, maio 20, 2013

Ser Deus

O mundo, visto daqui, é uma nuvem difusa. Sentado na minha cadeira leio o jornal, vasculho a Internet de forma mais ou menos anárquica. Encontro isto, leio sobre aquilo, as peças vão-se encaixando numa espécie de puzzle monstruoso, uma coisa viva que, quando as peças não encaixam bem, muda de forma e se adapta perante os meus olhos. Um camaleão que muda completamente a forma tangível das coisas e não apenas de cor.

O camaleão parece obedecer aos meus anseios, é comandado pelas minhas convicções. Ajusta-se de acordo com aquilo que eu quero que seja a realidade. Não é fácil mas também não é particularmente difícil. Basta-me acreditar em alguma coisa para encontrar forma de a transformar em algo credível através da recolha de informação. Escolho os pedaços de realidade que me convêm, sou um Doutor Frankenstein que constrói um corpo lógico para construir uma visão do mundo, juntando e ordenando peças capazes de dar vida útil às minhas paranóias.

O camaleão justifica as minhas indignações e confirma os meus princípios, por mais discutíveis que sejam. Não faz de mim uma pessoa feliz mas, de algum modo, contribui para algo que se aproxima de uma certa sensação de felicidade.

Ter razão é fundamental. Porquê? Por nada, só por isso mesmo: ter razão. Talvez porque sou um ser racional, encontrar forma de adaptar o mundo àquilo que acredito que ele é contribua para me sentir completo e realizado. Ou talvez nada disto seja real, nada disto interesse verdadeiramente. Mas lá que me faz sentir melhor, quanto a isso não tenho dúvidas.

Se calhar tudo isto não é mais do que vaidade. Sim, penso que moldar o mundo de acordo com as nossas convicções é uma manifestação da mais absoluta vaidade.

É como ser Deus.




sexta-feira, maio 17, 2013

A Senhora

Cavaco e a sua Maria

Corria o ano de 2002 d.C. Nesses tempos longínquos em que alguns animais ainda falavam, era Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa. Um petroleiro de nome "Prestige", sofreu um grave acidente provocando uma temível maré negra ao largo da costa portuguesa lá mais para as bandas do Norte. Durante alguns dias andámos com o credo na boca, se o crude desse à costa em território português... mas o petróleo derramado acabou por ir infernizar a vida aos nossos pobres irmãos galegos. As imagens que então nos chegaram eram dramáticas.

Paulo Portas acabou por confessar que acreditava que a salvação da costa portuguesa se devera a uma milagrosa intervenção de Nossa Senhora (recordar aqui). Esta perspectiva do nosso crónico governante mostrava a quem quisesse ver que Nossa Senhora, quando é preciso, tem tomates para lixar os galegos em benefício deste povo dócil que nós somos. É uma mulher de barba rija!

Veio-me esta fábula à memória quando vi na TV (confesso que com cara de parvo) o actual presidente de república em Portugal, o inefável Cavaco Silva, atribuir à mesmíssima Virgem o resultado favorável da 7ª avaliação da Troika às intenções dos nossos governantes actuais (ver e ouvir aqui).

Percebo agora que em situações de crise, com os governantes que o nosso povo elege, a solução que nos resta é encomendar a alma ao Criador ou a quem O represente, nem que seja por procuração. Valha-nos Nosso Senhor.

terça-feira, maio 14, 2013

Dúvidas

Ontem comprei uma camisa que, mais tarde, verifiquei ser "made in Bangladesh". A primeira coisa que me veio à cabeça: terá sido fabricada por algum dos que morreram na derrocada daquele prédio que matou mil pessoas?

Não me buliu o coração nem um bocadinho e isso deixou-me um pouco incomodado. Se calhar não sou tão solidário como imaginava, não me preocupo com a espécie humana com o desvelo que se impõe a uma boa alma. Comprei a camisa porque era barata. Fiquei com ela porque o "made in Bangladesh" está escondido na etiqueta e não revela ao mundo essa minha nódoa moral?

Na verdade, o que se passou foi que quando reparei no pormenor da origem da camisa já estava no balcão, a pagar. Já tinha uma factura e digitara os números do meu cartão de débito na maquineta. Não me apeteceu dizer à empregada (que tinha cara de se preocupar mais com revistas cor-de-rosa do que com jornais "sérios") que não queria aquela camisa porque... porquê? Sou mais preguiçoso do que solidário.

Quando saí da loja tive uma iluminação! Talvez aquela camisa tivesse sido fabricada por Reshma, a rapariga que sobreviveu 17 dias sob os escombros do prédio que vitimou outras mil pessoas, entre colegas e nem tanto. Fiquei mais sossegado. Decerto que trazia no saco uma peça saída das mãos da rapariga protegida por Deus. É assim que os fracos se convencem que são mais ou menos fortes?

Leio que o salário médio de um operário no Bangladesh é de 29 euros (ver aqui). A camisa custou 12. Ou seja, quantas camisas daquelas faz um operário por dia já que duas e uns trocos pagam o seu ordenado mensal? É melhor nem pensar nisso, comprei uma coisa daquelas, para onde vai o dinheiro que paguei?

A tragédia fez com que o governo decidisse rever as condições laborais e a tabela salarial destes quase-escravos. As empresas que exploram o trabalho destas pessoas fazem valer o velho ditado "casa roubada, trancas à porta" e anunciam que irão investir nas condições de segurança das fábricas. Pouco perderão, igual a nada.

Se a morte de mil operários teve o condão de por em movimento todas estas acções o que aconteceria se tivessem morrido dois mil? Ou três mil... quantas pessoas precisam de morrer para que se faça justiça social? Quantas pessoas precisam de morrer para que o capitalismo selvagem fique manso, nem que seja por breves momentos?

sexta-feira, maio 10, 2013

Conversas

Hoje não me apetecem as conversas fáceis. Já me farto de ouvir falar no governo, na economia, no desemprego, no capitalismo, dos meus ouvidos escorre crise, crise, criiiiiiiseee.

Intervalo.

Peço um intervalo: tréguas para recolher os mortos e tratar as fendas aos feridos. Chega de conversas fáceis, amanhã até pode haver mais, mas hoje não. Não me apetece.

São conversas fáceis aquelas em que dizendo o contrário se diz sempre o mesmo e a mesma coisa. Aquelas em que, quando determinado figurão vai abrir a boca sobre este assunto, já sabemos que vai falar asssssssim e, caso se refira àquele outro tema, dirá, simplesmente: assado!

Hoje apetecem-me conversas tolas. Conversas que podem não fazer sentido mas que tenham sumo e substância e nem precisam de ser daquelas conversas de fazer sorrir. Podem ser das outras.

Hoje sinto-me um Hércules do argumento, um Eusébio da palavra, capaz de fintar, surpreender e arrancar em força, como uma seta, directo ao coração do adversário. A minha vitória será nossa o que fará dela a mesma coisa que a derrota.

Hoje não me apetecem conversas fáceis, vamos a ver se não ficarei silencioso todo o santo dia. Mas há sempre a noite. Enquanto houver noite há esperança!

terça-feira, maio 07, 2013

Manhãs

Uma tosta coberta com doce de abóbora e um pedaço de queijo fresco. Um café quente e umas páginas do livro que estou a ler. É assim que começa o meu dia ideal.

Como é evidente os dias nem sempre começam assim, tão bons. São demasiadas as vezes não começam assim. Muitas vezes começam de outra forma, confusos, difusos e obtusos, levados na voragem do relógio.

Quando tenho tempo aponto num caderninho as coisas que me passam pela cabeça nesses primeiros minutos do dia que partilho com o canto dos pássaros e os ruídos dos automóveis.

"Toda as coisas começam em qualquer momento. Um atraso começa sempre por ser uma coisa que não quer existir."

O dia de hoje começou assim. Sem tosta, sem doce, sem queijo fresco nem café. E sem leitura matinal, o que talvez seja o pior de tudo.

quinta-feira, maio 02, 2013

Uma coisa em forma de assim

A derrocada de um edifício de oito andares onde funcionavam cinco fábricas de confecções nos arredores da cidade de Daca dá que pensar. Marcas como a Benetton e El Corte Inglés, entre outras com sede em países europeus, recebem muitas das suas peças vindas daquelas bandas. Vêm limpas, não trazem sangue.

Ali os operários ganham perto de 40 dólares por mês. 40 dólares!? Esse deverá ser o preço médio da maior parte das peças que produzem em condições laborais abaixo de cão.

Comparados com os operários europeus, os do Bangladesh não têm quaisquer direitos. São pouco mais do que escravos mas, como diz o ditado, "longe da vista, longe do coração". As grandes marcas europeias enriquecem à conta da miséria alheia. Será isto colonialismo?

Não. Isto não é colonialismo, isto é globalização. Países como Portugal perderam centenas de unidades de produção têxtil. Os nossos operários eram demasiado caros, apesar dos baixos salários que auferiam segundo os nossos padrões. Ainda por cima tinham direitos laborais! Que  descaramento.

O desemprego sobe em flecha na Europa. Países como o Bangladesh vão fazendo pela vida. Isto não é concorrência, é exploração pura e dura.