segunda-feira, agosto 03, 2009

Mal passado




Eu sou um gajo que assa mal ao sol. Por muito que tente (e não tento) nunca fico bem passado. Deus não me contemplou com o dom da morenice. Rapidamente ganho aquele tom alagostado se me descuido, ficando na praia para lá do tempo certo. Memórias de uma pele incómoda obrigam-me a evitar excessos. Há os cremes protectores, os guarda-sóis, as t-shirts, as esplanadas, uma vasta gama de subterfúgios capazes de manter a minha pele razoavelmente saudável e protegida da inclemência de Ra. Daí que, sempre que vejo uma pessoa cor-de-rosa como um pedaço de carne de porco antes de cozinhar, sinta uma suave perplexidade.

Pronto, eu sei, para ficarem daquela cor terão de reunir várias qualidades:

1) Não devem fazer ideia do que é sentir a pele apertada sobre os ossos com um calor permanente, como se o corpo suasse para dentro, incapaz de suportar o mais leve toque que não seja o de uma brisa milagrosa que de nós se condoa;

2) Vêm de lá detrás do sol nascente por alguns dias. Vêm precisamente à procura das praias e do sol. Os poucos dias de que dispõem nesta espécie de paraíso quase tropical agarrado ao queixo da Europa embota-lhes o espírito ao ponto de os levar a colocarem-se directamente debaixo do astro-rei mais tempo do que a conta;

3) São simplesmente estúpidos ou ignorantes como um burro ansios perante um caixote de cenouras colocado à beira de um precipício;

4) Podem ainda configurar uma personagem que não se enquadre em nenhuma das descrições anteriores e terem, apenas, azar.

Seja como for, fico sempre algo espantado perante aqueles corpos rosados, debaixo de cabelos claros e, quase sempre, demasiado longe dos pés, lá nas alturas. Loiros e rosados, ainda assim continuam debaixo do sol. Imagino que muitos deles derretam, escorrendo simplesmente para o bueiro na valeta. Imagino que serão fruto da minha imaginação, que ninguém expõe daquela forma a fragilidade da sua pele à inclemência de uma eterna divindade egípcia que, como todas as divindades, se está bem a cagar para as dores e os problemas dos seres a que chamamos humanos.

Gulodice tropical


Acabei de ler Barroco Tropical de José Eduardo Agualusa. Tinha começado a leitura no fim-de-semana anterior e interrompi-a. Neste fim-de-semana regressei ao ponto em que havia suspendido a leitura . Este regresso deixou-me um pouco confuso devido ao tempo que, entretanto, se tinha entrometido entre mim e as aventuras de Bartolomeu Falacato, personagem mais ou menos central da narrativa. Assim sendo resolvi voltar atrás, ao início. A releitura das primeiras 80 páginas revelou-se um exercício de puro prazer (para os curiosos que pretendam ler o 1º capítulo clicar aqui, entrada para a revista LER). Quantos livros eu devia reler na busca de experiências como esta? Mas, se não lesse novos livros, como haveria de saber que releituras fazer? Este dilema deixa-me frequentemente indeciso. Por vezes compro livros que já li e coloco-os na prateleira depois das primeiras páginas com a firme convicção que será aquela a próxima leitura a fazer. Entretanto começo um livro que nunca li e esqueço aquele. Uma confusão mais ou menos nada confusa mas capaz de me fazer rodopiar que nem uma folha batida pelo vento dos dias que se atrasam caindo do calendário.

Este foi o meu 3º livro de Agualusa. Depois de Nação Crioula e O Vendedor de Passados, Barroco Tropical mantém-me curioso e com vontade de ler mais livros deste artista. Não falta por onde escolher, há 18 títulos disponíveis.

Em Agualusa gosto das histórias que vêm sempre dentro da história que ele conta, como bonecas russas (esta imagem serve para tudo!). Segui com interesse grande parte das crónicas que ele publicou na revista dominical do Público ao longo de alguns anos (quantos anos?) graças à extraordinária inventividade da sua escrita. Com ele o Português sabe umas vezes bem e outras vezes sabe melhor ainda. Confesso que o leio por pura gulodice.

domingo, agosto 02, 2009

Muitas bolinhas




H1N1, H5N1 e Influenza (já não sei porque ordem)


Esta coisa do vírus H1N1 mete um bocado de medo. A forma como se está a alarmar a opinião pública com a contagem de casos confirmados de pessoas que contraíram a gripe mete medo. E mete medo porque, aparentemente, o alarme não se justifica por aí além. Em Portugal já foram confirmados 310 casos. A notícia é dada de uma maneira que parece uma coisa terrível. Mas poderiam dizer que 310 portugueses já estão imunes ao vírus ou então podiam enfatizar o facto de todos eles terem recuperado da infecção sem problemas. Podiam dar assim a notícia, mas não. Na TV os pivots dos telejornais sublinham os números fazendo aquela cara de cú que costumam afivelar para as situações mais problemáticas.
Nesta vertigem meio aparvalhada sou levado a perguntar onde anda o H5N1, o terrível vírus da gripe das aves que deixou o mundo de pantanas ainda não há assim tanto tempo quanto isso? E o velho vírus da "influenza"?
Tanta barulheira parece trazer um oceano no bico. A quem aproveitam estas situações de alarme paranóico? À populaçãozinha que anda para aí a bater mal da carola não aproveita nem um bocadinho. Alguém está a esfregar as mãos de contente e nem sequer se dá ao trabalho de as lavar como deve ser. Não precisa.


Nota: a propósito desta salsada aqui fica um link que poderá ajudar a espantar as aves de mau agoiro. Tem alguns dados interessantes e elucidativos sobre a questão.

quinta-feira, julho 30, 2009

Um texto e um pretexto


Ao ler o texto acima (sacaneado do livro Lenda, Mito e Magia na Imagem do Artista - uma experiência histórica da autoria de Ernst Kris e Otto Kurz, editorial Presença) encontramos referências a uma série de anedotas relacionadas com o acaso enquanto método artístico(anedota é aqui entendida como a narrativa de um certo tipo de acontecimento que se repete ao longo de diferentes gerações, acabando por enformar as nossas noções do passado e, por arrastamento, construindo discretamente a nossa visão do presente).
Repare-se como Piero de Cosimo, por exemplo, imaginava batalhas magníficas olhando para manchas de vomitado escorrendo pelas paredes. Ou como o insuspeito Leonardo sugere que nos percamos em observações que a maioria poderia tomas por absurdas. Tem tudo a ver com imaginação e sugestão.
Vem isto a propósito da conversa sobre Canibalismo Cósmico e Hibridização Anárquica. Alguém seria capaz de imaginar Leonardo de Vinci a sugerir tais processos de exercitação da mente? Volvidos alguns séculos encontramos em Max Ernst a sugestão deste tipo de atitudes na busca de um processo criativo que lhe permitisse encontrar maneira de dar forma visível ao Automatismo Psíquico surrealista (atirar trapos embebidos em tinta contra a tela em branco e ficar a olhar para as manchas daí resultantes até elas significarem algo, por muito estranho que esse "algo" possa parecer). Lá no fundo, a esponja de Protógenes, os vómitos que fascinavam de Cosimo, as manchas de humidade de Leonardo, os trapos sujos de Ernst, são antepassados ilustres da modesta Hibridização Anárquica. Mas a Hibridização é mais complexa.
Volto ao tema para a semana. Acabou-se-me a cervejola e vou de fim-de-semana.
Até 2ª (acho eu...)

Como funciona a hibridização anárquica

Após ter escrito o post anterior fiquei aos saltinhos. Como explicar o processo? Terá algum interesse? Mas que raio de coisa é essa? Hibridização Anárquica? Porra de expressão pomposa a soar mais pretensiosa que renda no punho da camisa. Como já não desenhava nem pintava há demasiado tempo pensei "Nem é tarde nem é cedo!" e fiz o que segue. Como ainda não tem título podes ir inventando um que se lhe ajuste. por mim tudo bem, Se é hibridização aceita enxertos variados e, se é verdadeiramente anárquica, então será aquilo que tu quiseres, simpático leitor.

Começando pelo princípio.

Um cartãozinho tamanho A3 (as costas de um bloco). Um tubo de cola UHU (tenho sempre vários espalhados pelo ateliê) e jornais e revistas e outros restos. Um CD a tocar na aparelhagem (Beatles, Sargent Peppers Lonely Heart Club Band, neste caso) e uma cerveja fresca. Está bastante calor e estou com pressa de acabar pois quero ir ver um jogo de futebol na TV a menos de uma hora de distância. A camara fotográfica tem as pilhas a darem o berro. Como se pode ver nao há muita luz. Colo um rasgão da capa do ùltimo Ypsílon, com as mãos da Agnés Varda, um CD (oferecido com o Público) com 3 temas execráveis dos Taxi e um recorte que sobrou de outra colagem de uma coroa de uma virgem de um ícone ortodoxo de um artista ucraniano que teve uma exposição no Fórum Romeu Correia aqui há uns meses atrás. Tudo isto e tubos de tintas, uma garrafinha de tinta-da-Índia uma lata com tinta de pintar paredes bastante sêca... enfim, os materiais habituais. Colo as coisas (podiam ser outras). Lucy in the sky with diamonds (o som podia ser diferente), sei lá que mais. É tudo, aparentemente aleatório.

A dsiposição das formas sobre o fundo configura, de imediato, uma espécie de corpo. Os meus trabalhos representam sempre seres humanos ou, pelo menos, coisas parecidas. Começo por desenhar algo parecido com um anjo. Tem asas e o CD ganha a posição de um astro no céu. Os dedos enrugados da realizadora francesa já são pernas.
O canto inferior esquerdo parece-me desoladoramente vazio. Três ou quatro toques de pincel generosamente mergulhado em tinta-da-Índia (podia e devia ser da China mas o rótulo é que manda)fazem surgir ali uma nova personagem. Tem o aspecto de um animal embora eu pensasse que seria uma criança. Apercebo-me que criança é a outra personagem. Deixo de a imaginar como uma santa ou uma Virgem e passo a olhá-la como uma princesinha. As asas fazem, agora, pouco sentido. Colo, na esquerda alta, o resto de um outro desenho que andava para aí esquecido.

A princesinha está demasiado semelhante ao bicharoco. Isso desagrada-me. No jornal aberto no chão está a cara de uma cantora qualquer em pose de artista. Olhos semicerrados, queixo empinado. Rasgo-a e colo-a. Não é por nada em especial que escolho esta cara. Apenas porque estava ali, disponível. Mais umas pinceladas e ganha uma expressão de algum alheamento. O que se passa nesta cena? Começo a pensar nisso com maior intensidade.

A tinta branca está muito espessa. Isso agrada-me. Tenho a possibilidade de cobrir a superfície com uma tinta satisfatóriamente opaca. Auilo que eram asas afinal é uma corda de saltar. A princesinha está a divertir-se saltando à corda. Isso é bom. É bonito. Tem leveza.

Até aqui, não sei porquê, tenho insistido numas orelhas enormes. Estarei a pensar numa Princesa com Orelhas-de-Burro? Não me lembro bem da história e resolvo tirar-lhe as orelhas. Há um buraco no peito da menina. Folheio uma revista da CAIS (costumo comprá-la todos s meses) e encontro uma foto de uma senhora operária numa fábrica (imagino) de conservas. Rasgo um pedaço com um amontoado de peixes. tem a cor e o tom certos para a composição.

O bicho (que bicho é aquele?) continua com uma cara inexpressiva. Rasgo a imagem de um gajo qualquer a coçar a orelha. É um gesto que fica bem a um animal doméstico. Colo.

Os Beatles já estão numa desbunda complicada (aquele álbum é estranheco!). Passaram aí uns 25-30 minutos desde que comecei a juntar formas e significados sobre o cartão. O jogo vai começar não tarda. Vou acabar. O animal está a cagar. A princesinha levou o bicho à rua para defecar. Deve ser isso. Pronto. Está pronto. Acabado. Falta um título e falta perceber o significado daquilo.

Isto é hibridização anárquica, é canibalismo cósmico. Amanhã explico melhor. Se for capaz.

quarta-feira, julho 29, 2009

O círculo enquadrado


The Burning Heads, técnica mista, exemplo de uma criação resultante do processo de "hibridização anárquica" por mim realizada há uns anos atrás. Quando partimos para o processo de criação de um objecto não fazemos ideia do lugar a que iremos chegar.

Damos voltas e mais voltas e lá voltamos nós, à esquina do círculo do tempo, esse local improvável onde tudo o que não pode ser verdade encontra fortes probabilidades de se materializar num corpo até aí inexistente. Antigamente era nas encruzilhadas que as bruxas enterravam poderosos feitiços, esperando depois o efeito das suas acções. Nem sempre corria conforme o previsto, que isto da feitiçaria não é ciência e, mesmo a ciência, se parece demasiado vezes com coisas abstrusas e incompreensíveis. Coisas que, ganhando um nome, deixam de o ser e encontram um lugar, nem sempre confortável, entre os objectos e os factos. Quando assim é, deixam de ser "coisas" e ganham um nome que as coloca numa prateleira qualquer da casinha imensa que é o nosso entendimento do mundo. Isto é verdade para a ciência como para a feitiçaria e, obviamente e por maioria de razão, para a arte (a mera designação "arte" é "coisa" mais do domínio do fantástico que da realidade objectiva, como vem sendo matraqueado ao longo de dezenas de posts aqui, no 100 Cabeças).

Esta introdução traz-nos quase à porta de saída. Vem ela a propósito da uma entrevistazinha de Leonel Moura que acabei de ler aqui agora mesmo. A entrevista roda em volta da última obra escrita dé Moura, intitulada "30 Gramas", numa referência à imortal obra de Piero Manzoni, a celebérrima Merda de Artista.

O que me motivou a construir esta prosa arrevezada foi a passagem da dita entrevista que a seguir transcrevo: "Desde muito jovem sempre li livros sobre ciência e gosto de tentar perceber algumas coisas. O que mais me deu a volta à cabeça foi perceber que as coisas não funcionam em processos lineares ou consequentes. Percebi que tudo funciona numa base caótica, aleatória e de repente é que as coisas se transformam e dão origem a algo que nós conhecemos. Todo o sistema da produção de arte em que se concebe uma coisa com processos lineares até chegar a um quadro é completamente obsoleto. Tenho de fazer obras de arte em que eu desencadeio o processo mas não sei no que vão dar porque isso é que se aproxima da realidade natural. "

Concordo quase completamente com esta hipótese de Moura. Há muitos anos que, também eu (quantos de nós, meu Deus!?), cheguei a esta conclusão, se bem que por outras vias e travessas. Uma das vias para eu aqui chegar até foi um livro sobre ciência, o muito citado "Caos" de James Gleick, onde li pela primeira vez a célebre teoria do "efeito borboleta" e outras enormidades maravilhosas. Nessa altura, juntamente com alguns gajos como eu, escrevemos um pequeno manifesto (entretanto perdido) intitulado "Canibalismo Cósmico" onde expunhamos de uma forma mais ou menos ordenada, algumas ideias sobre o processo criativo que chamámos de "hibridização anárquica".

Agora, ao ler a passagem acima transcrita da entrevista de Leonel Moura, recordo a sensação que me inundou quando reli e matutei sobre o texto que, então, tinha escrito. A sensação nítida de que aquilo que, naquele momento, era para mim uma revelação absoluta e luminosa, já havia sido percepcionado por muitos outros, antes de mim e haveria de voltar a sê-lo, ao longo do tempo e por muitos anos, sempre que alguém chegasse àquela esquina do círculo do tempo.

"Hibridização anárquica" era o nome que eu tinha dado à "coisa", puxando-a para o lado de cá da existência, trazendo-a a este universo paralelo, moldando-a numa forma algo imperfeita e inconstante. Essa coisa regressa uma e outra vez, com formas mais ou menos semelhantes. As latinhas de merda de Manzoni ou o Urinol de Duchamp são formas supremas de materialização dessa revelação eterna. Eu terei criado formas mais modestas de a manifestar neste mundo através dos meus trabalhos mas, caramba, também tenho o meu orgulho, sou um animal igual aos outros, senti necessidade de o reafirmar. Também eu fui capaz de enquadrar o círculo quando percepcionei uma das suas infinitas esquinas. E sou vaidoso ao ponto de o recordar aqui, quase publicamente.

terça-feira, julho 28, 2009

Nada (como no mar)




O Verão, se fosse uma pessoa, havia de gostar da leveza que o "doce não fazer nada" oferece, assim, como quem não quer a coisa. A gente veste pouca roupa, anda com o pé fora da sandália e deixa o olhar à solta por não haver muito que possa preocupá-lo. As conversas podem nem sequer ter um início e raramente levam a um fim. É tudo assim, um bocado ao lado da dureza que a realidade costuma ter, como se a realidade fosse meio derretida pela luz intensa e o calor do Sol. A realidade, quando é aquecida pelo Sol, muda de figura. No Verão vivemos uma quase miragem da vida.


Tenho um livro por perto mas não me apetece ler. Os materiais de pintura preparados mas não me apetece pintar. Até mesmo o cérebro parece não querer pensar muito mais do que isto, não querer passar deste desfiar indolente de palavras ao acaso que, no final, haverão de significar alguma coisa, quanto mais não seja o princípio de um pensamento diluído na paisagem das letras que vou deixando, umas atrás das outras, ao longo do texto que surge do fundo branco do écrã.


Vou parar de escrever para a seguir não fazer nada.




segunda-feira, julho 27, 2009

Cabeça cheia de vazio


Uma praia e muito sol. O mar daquela cor... esmeralda? Pessoas morenas ou nem por isso. Um ambiente pacífico banhado pelo Atlântico a namorar o Mediterrâneo. Uma aldeia que é pura invenção onde a vida se desenrola ao ritmo das ondas. Calmaria absoluta. Isto é, assim de repente, o que me é dado recordar dos últimos dias, passados na Ilha de Armona, atirada ao mar, ali defronte a Olhão. Um Algarve absoluta e genuínamente português, a fazer-me acreditar que há lugares impossíveis de estragar com aldeamentos turísticos de pacotilha e canalizadores ingleses em férias armados em lordes malcriados. Um lugar para esvaziar a cabeça e enchê-la de coisa nenhuma. Paz, apenas. O que já é muito e é tudo, ou quase nada, ou nada mesmo. Absolutamente nada. O fim-de-semana passou assim, como uma nuvem. Volto lá no próximo. Será possível repetir o sossego que encontrei? Talvez. É por isso que lá volto. Em busca desse sossego, para tentar encher de vazio os espaços na minha cabeça que ainda têm algum lixo.

sexta-feira, julho 24, 2009

Post coelhinho


O meu anterior post, o Post Macaco, foi comentado de forma muito interessante por vários visitantes do 100 Cabeças. De tal maneira que resolvi responder aos comentários criando este post, um post sem o atrevimento do macaco, antes com a atitude dócil e compreensiva do coelhinho.

Antes do mais queria deixar bem claro que as minhas posições perante o fenómeno da criação e fruição dos objectos de arte não pretendem ser absolutas nem imagino que possa haver uma forma única de encarar a situação. Neste campo sou adepto confesso e devoto do grande mestre E. H. Gombrich que afirmou, na introdução da sua magistral História da Arte que "Não existe algo a que se possa chamar Arte. Existem apenas artistas." Se tomarmos esta afirmação como ponto de partida, muitas questões, aparentemente complexas, encontram uma resposta desarmante de tão simples. Deixamos de ter dúvidas sobre o que é ou o que não é arte. Uma vez que não existe, nada é arte e tudo pode sê-lo desde que seja resultado da actividade de um artista.

Esta perspectiva da coisa coloca o espectador no centro da questão. O espectador completa a obra. Cito Gombrich mais uma vez: "De facto não penso que existam quaisquer razões erradas para se gostar de uma estátua ou de uma tela. Alguém pode gostar de uma paisagem porque lhe recorda a sua terra natal ou de certo retrato porque lhe lembra um amigo. Nada há de errado nisso. Todos nós, quando vemos um quadro, somos fatalmente levados a recordar mil e uma coisas que influenciam o nosso agrado ou desagrado. Na medida em que tais lembranças nos levam a fruir do que vemos, não temos que nos preocupar. Só quando alguma recordação irrelevante nos torna preconceituosos, quando instintivamente voltamos costas a um quadro magnífico de uma cena alpina, porque não gostamos de alpinismo, é que devemos sondar o nosso íntimo para desvendar as razões dessa aversão que frustra o prazer que, de outra forma, poderíamos ter tido. Também existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte." O espectador é, em larga escala, responsável pela existência da arte. Daí que, no Post Macaco, me tenha insurgido um pouco contra aqueles que se comportam com indiferença perante o objecto artístico. Talvez o problema seja mais a forma como, com espectadores deste género, a arte se vê impedida de existir ou, pelo menos, impedida de acontecer. É também por isso que sou levado a considerar que talvez alguns artistas sejam responsáveis por esse alheamento, quando criam objectos de tal modo encriptados que não permitem ao espectador ir mais além do que a superficíe da obra. As pessoas olham mas são incapazes de ver. Talvez isso devesse contribuir para que o artista repensasse a sua atitude criativa. Ou não. A criação artística ou é totalmente livre ou não é nada.

Como este post é Coelhinho, estou a tentar ser o mais consequente e brando que me é possivel, o que me leva a escrever de uma forma algo diferente do habitual e que, confesso, me está a complicar o sistema comunicacional.

Para concluir (que um post tão longo é mais chato que um discurso do Presidente da República numa cerimónia de inauguração de um infantário) queria deixar uma palavrinha particular a cada um dos comentadores.

Beto, como te disse, a perfeição é uma coisa que só existe na mármore.

Luís M, a nossa conversa é interminável e dinâmica. Continuamos depois. Assim como assim sempre te digo que tens toda a razão em afirmar que a arte é elitista mas, nos tempos que correm, democráticos e tudo, talvez tenhamos de reflectir de novo sobre o significado da palavra "elite" e respectivo conceito.

Eduardo, antes do mais esse Luís M aí em cima é meu colega, professor na mesma escola e na mesma área que eu. Clicando aqui encontras um post antigo em que anunciava a inauguração de uma exposição em participámos ambos. O "M" é de Miranda (Beto, neste post está o tal desenho intitulado Knock) e podes encontrar aí duas reproduções de trabalhos dele. Quanto ao barulho nos museus estou totalmente de acordo contigo. Um museu não pode ser um cemitério de obras de arte. Terá de ser outra coisa.

Selena, penso que as citações de Gombrich vão de encontro às questões que colocas. Toda a gente sabe o que pensar sobre um objecto de arte. Tem é de se dar ao trabalho de pensar, o que nem sempre acontece.

Rui, esse Shakespeare era um grande macaco :-) o tempo não o colocou num galho, acabou por lhe oferecer uma floresta inteira! Já a citação de Sophia leva-me a recordar a ideia de Mondrian que citei neste outro post, um dia a arte vai ser desnecessária pois a vida ganhará beleza suficiente. Isto partindo do princípio que a arte é a criação da beleza mas isso são já contas de outro rosário...


Concluo dizendo que, pessoalmente, considero que o artista tem um papel socialmente interventivo que não deve ignorar quando se dispõe a criar objectos de arte. Esta consideração será tema para futuros posts aqui, no 100 Cabeças.

quinta-feira, julho 23, 2009

Post macaco


O que eu pretendia dizer com o post anterior (e mantenho) é que a arte deve ser acessível ao maior número de pessoas possível. Isso não significa que tenha de ser óbvia ou estereotipada. Nada disso. A arte deve ser como um soco no estômago ou uma carícia impossível de resistir. As pessoas que observam um objecto de arte não podem comportar-se como catatuas numa gaiola nem como bois a olhar para um palácio. Não podem ficar indiferentes. Essas pessoas são chamadas a intervir pois só elas completam o objecto de arte.

Esta evidência nem sempre esteve visível no meu espírito conturbado. Mas, ao visitar o MoMA, só para dar um exemplo, e vendo a forma como os visitantes se passeiam entre os objectos artísticos como se estivessem a passear no Centro Comercial a ver montras de sapatarias e pronto-a-vestir, fico com vontade de não voltar a pôr os pés num sítio como esse. Por um lado, o consumo desapaixonado da arte é irritante para quem por ela está apaixonado. Por outro lado, demasiados objectos insignificantes são valorizados até ao paradoxo o que torna o paspalho ignorante num indiferente convencido de que sabe alguma coisa, só porque leu o catálogo da exposição. Falta pele arrepiada, coração descompassado e boca sêca pela ansiedade. Sobram olhares, poses, risinhos forçados e outras patacoadas do género.

Quando terminei o post anterior com a imagem dos artistas a esfregarem-se em merda, estava tentar ironizar com esta situação. Coisa que, aliás, até nem é inédita. Muitos artistas, em desespero de causa ou falta de talento, metem-se a produzir obras grotescas, tomando atitudes dignas de um macaco malandro a pedir amendoins no Jardim Zoológico. Alguns conseguem mesmo engordar. Os macacos, claro!

quarta-feira, julho 22, 2009

A merda e arte (ou a arte e a merda)


Pronto, finalmente cheguei a uma conclusão: a arte ou veicula um discurso que se compreenda ou não vale a pena.

Leio a frase anteriror e percebo que não disse o que queria dizer. Então eu repito: a arte ou é para o povão compreender ou então, se for coisa para masturbaçao intelectual e para fazer prova de superioridade cultural, mais vale que se cubra de merda.

Não está bem, não estou a ser capaz de exprimir aquilo que a minha mente está a formular com uma clareza ofuscante e que, escrito e dito assim, nestas letrinhas no écrã luminoso, não ganha sentido nem a contundência pretendida.

Reformulo uma última vez: a arte é para narrar a história colectiva, para fazer pensar os mais distraídos e pôr a chorar os mais atentos, se for abstracta ao ponto de apenas reflectir sobre si própria e os seus limites é como o cão que tenta morder o próprio rabo ou o parvo que pretende lamber o cotovelo.

Caramba, a linguagem escrita é mesmo uma tanga. A falar talvez pudesse exprimir-me um pouco melhor. As caretas, os gestos das mãos, o jogo de ombros, a entoação dramática da voz cavernosa ou patética, com a estridência de um passarito, sempre dão outro colorido à coisa.

Talvez pudesse ilustrar a dita coisa com uma imagem (isso é que era!) mas também não estou para aí virado.

Resumindo e concluindo, quero que a arte seja expressiva ou, então, não é. Nem expressiva, nem arte. Fica assim a meio caminho, uma epécie de aborto espontâneo, um ser fadado para a tristeza, uma coisa pedante que até pode ser bela mas cuja beleza reside, precisamente, no vazio.

Não temos de temer o amor dos estúpidos nem dos patetas nem dos feios nem dos mal-educados e simples como beterrabas. Não temos de temer o desprezo dos lindinhos nem dos enfatuados nem dos intelectuais nem dos mais altos nem dos mais magros e bonitos. Se queremos fazer arte temos de meter as mãos na merda e esfregá-las na cabeça e mostrar o que esse acto desesperado produziu dentro de nós.

Eheheheh, já estou a imaginar a cena, uma chusma de gajos e de gajas cobertos de merda a berrar no meio da rua... artistas!

segunda-feira, julho 20, 2009

Parece que me lembro de qualquer coisa


Não tenho a certeza. Afinal tinha apenas 6 anos. Não me lembro se o meu pai já me tinha oferecido o Billy Blastoff, um bonequito vestido de astronauta, com um carro lunar que ele comprou algures em Espanha que em Portugal, naquela época, era mais comum o carro de bois. Tenho uma vaga recordação de estar a jantar numa mesa com outras crianças em casa de uns amigos dos meus pais e de passarem na TV a preto e branco imagens relacionadas com a viagem. Mas pode ser uma partida da memória, não sei nem isso me interessa por aí além. Já lá vão 40 anos e a viagem não terá contribuido para mudar grande coisa cá por baixo. Tudo isto cheira a nostalgia. Talvez sirva para se fazerem mais algumas promessas de regresso ao espaço, para se produzirem alguns discursos meio vazios, meio cheios de vazio, sobre a sensação de pequenez que se sente quando se olha a Terra lá do alto do espaço e os impulsos de profundo humanismo que essa visão provoca. Fica a impressão de que se deveriam meter os grandes líderes mundiais e os grandes senhores do capital todos dentro de uma nave espacial e mandá-los lá para cima, para que olhassem cá para baixo e nos vissem, pequeninos, por uma vez que fosse. Podia ser que alguns se perdessem lá no meio das estrelas e por lá ficassem a brilhar na escuridão.

domingo, julho 19, 2009

De Nova Iorque a Lisboa com um estranho Deus por companhia


Lisboa em cima, Nova Iorque em baixo (e poderia colocar as imagens vice-versa)

E.H. Gombrich sintetiza, de forma genial, a condição fundamental do acto criativo. A ideia base que expõe na sua História da Arte (uma autêntica Bíblia para quem segue esta "religião") é que o acto criativo depende sempre de um tempo e um lugar específicos.

Ontem pude confirmar com uma clareza ofuscante a exactidão absoluta desta ideia tão simples e, por isso mesmo, tão bela. Assisti no Teatro Aberto, em Lisboa, à representação de "O Deus da Matança", a peça de Yasmina Reza. Tinha assistido no passado dia 3 de Julho à representação da mesma peça em Nova Iorque, "The God of Carnage", em pleno universo da Broadway. As diferentes interpretações do mesmo objecto confirmam em absoluto a ideia de Gombrich.

Na peça da Broadway, com um elenco constituído por vedetas do cinema americano, a peça ganha uma dimensão profundamente introspectiva e assenta numa representação mais cerebral do humor negríssimo e desarmante que o texto propõe. Em Lisboa, os actores são dirigidos para uma postura diferente, mais física e "clownesca".

É como se em Nova Iorque a comédia surgisse quase por acidente. Ali, uma situação muito séria (o filho de um dos casais agrediu à bastonada o filho do outro casal, partindo-lhe dois dentes e deixando-o desfigurado) contém ingredientes hilariantes que vão surgindo ao longo da representação. Na peça de Lisboa a comédia é assumida logo à partida e a comicidade da situação é exposta com outro grau de evidência. Ou seja, o mesmo ponto de partida dramático é interpretado de acordo com as vivências de quem os leva à cena. Um Novaiorquino olha e interpreta o mundo de uma forma essencialmente distinta de um Lisboeta. Os actores são diferentes, os espectadores também, logo o objecto artístico assume contornos de acordo com o local onde ganha forma.

Bastaria olhar os cenários e os figurinos para compreendermos a ideia de Gombrich. Neste caso, o mesmo tempo (a mesma época) leva à produção de objectos diferentes em locais diferentes. Estas duas idas ao teatro permitiram-me compreender melhor as distâncias entre Nova Iorque e Lisboa, apesar da tão propagandeada globalização económica e cultural em que acreditamos viver. Somos profundamente diferentes apesar de parecermos estranhamente semelhantes.

quarta-feira, julho 15, 2009

Não me apetece falar mais de Nova Iorque (tertúlia final)

Não me apetece e no entanto é, ainda, de Nova Iorque que falo neste post. Que raio de contradição! Ou talvez nem por isso. Se calhar até faz sentido, embora me pareça que estou a abusar da falta de conteúdo, escrevendo uma sequência de frases que não fazem sentido nenhum. Imagino que seja a isto que certos escritores se referem quando utilizam a expressão "caminhar sobre o vazio"... uma pessoa desiquilibra-se e cai, infinitamente, até ao esquecimento. A Tertúlia Virtual, ao que parece, chega ao fim. Pronto. Caiu no vazio. Vamos recordá-la enquanto lhe dizemos adeus. Amanhã será uma grata recordação. Como Nova Iorque. Como a bela sanduiche de presunto que comi há umas horas. Como outras coisa de que já não me lembro. Adeus Tertúlia. Olá Coisa Nova (sejas lá tu o que fores). Agora estou confuso. Já não sei se Nova Iorque foi, de facto, o tema deste post. Se calhar não foi. Então talvez a conversa não seja tão parva como parece. Eventualmente até que é completamente estúpida. A conversa, quero dizer...

sexta-feira, julho 10, 2009

Nova Iorque - Parte 4.1 (As festas)




Quis o destino que a viagem que a minha família fez a Nova Iorque coincidisse com as duas maiores festas lá do sítio. Primeiro foi a Parada do Orgulho Gay, no dia 28 de Junho, se não estou em erro. Depois o 4 de Julho, no dia 4 de Julho.

A Parada nunca mais acabava. Foram umas 4 ou 5 horas de desfile dos mais variados grupos e organizações. Desde os que pedem que o casamento homossexual seja legal (why not?) aos que pedem votos para serem eleitos. Ele eram candidatos a mayor, candidatos a senador e candidatos a mais não sei o quê, que nao sou de lá e não percebo tudo como se fosse.

Foi um espectáculo do caraças. Figuras bizarras e coloridas davam largas à sua alegria por lhes ser permitido manifestarem-se livremente, mostrando a diferença (que começa a ser semelhança, tantos são os gays e as lésbicas). O povão que assistia sob um sol inclemente aplaudia, ria, uivava, participando da festa. Para mim, que sou um homem da Beira Alta, tudo aquilo me pareceu uma mascarada bem disposta, a lembrar, por vezes, os corsos de carnaval trapalhão que por aí se fazem quando não tentamos imitar o carnaval do Rio em pleno Inverno. A normalmente arrumadinha 5ª Avenida parecia um rio de maluquice, umas vezes histérica, outras vezes apenas extraordináriamente bem disposta.

No fim parecia um rio de detritos. Tudo e todos haviam distribuído panfletos, rebuçados, preservativos (femininos e masculinos... para que servirão os preservativos femininos numa relação lésbica? Ha, já me esquecia, há também os "gilletes", aqueles que dão para os dois lados!) saquinhos de plástico, papelinhos, eu sei lá que mais. Uma confusão tremenda. Após o último carro alegórico perfilavam-se os carros da limpeza municipal.

Já o 4th of July foi outra história. Conto amanhã.
Quis-me parecer que aquela infinita parada de personagens espampanantes revelava bem o espírito de NYC. A cidade é uma espécie de portal entre dimensões da realidade. Aquilo não existe. Não pode existir. É demasiado grande, demasiado excessiva mas, ao mesmo tempo, demasiado organizada e lógica. A lógica de Nova Iorque não demora nada a ser apreendida pelo mais distraído dos visitantes; é fácil de perceber. Como diz a canção do Jorge Palma, "na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal, na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual"... mais ou menos.

quinta-feira, julho 09, 2009

Nova Iorque - parte 4 (Uma provocação)


A tela de Van Gogh no Guggenheim, ao vivo não parece tão bela.


Até que ponto a arte e os artistas contemporâneos são meros produtos de consumo para as massas? E os velhos mestres? Começo a pensar que a forma como os grandes museus estão "equipados" se baseia em amontoar nomes, independentemente da qualidade das obras.
Em Nova Iorque é até um pouco ridículo verificar que todos se esforçam por terem expostos um Pollock, um Rothko, um Franz Kline, um Jasper Jones e um De Kooniguezinho, como se isso fosse, por si só, garantia de publicidade positiva. Mas, o Turista Cultural atento e menos avisado, poderá até pensar que está a ver as mesmas obras em espaços diferentes.
No museu Guggenheim (um hino de espectacular e estranha harmonia à arte arquitectónica) havia um amontoado de pessoas defronte a uma tela de Van Gogh. Mas tratava-se de um fraco Van Gogh. Os espectadores estavam muito próximos uns dos outros, em poses mais ou menos bizarras, fixados na imagem como se dela esperassem retirar alguma magia.
Fiquei a pensar que todos eles (aqui eu já estava de fora, a olhar as pessoas) esperavam ansiosamente sentir alguma coisa. Estavam assim, hirtos como uma Vénus de Milo, na expectativa de que o contacto com uma obra de um dos maiores pintores da História da Arte lhes proporcionasse uma sensação extraordinária. Olhando as suas expressões pareceu-me ver apenas estupefacção, talvez, por não sentirem nada de especial. Seria isso possível? Penso que sim. Um nome não representa nada. O que poderá representar alguma coisa é a obra em si e aquela tela de Van Gogh é, apenas, um exercício de pintura, uma experiência entre duas obras-primas.
Para o consumidor de arte as telas são todas mais ou menos a mesma coisa. O que importa, acima de tudo, é o nome na assinatura. O nome vale pelo resto. Vale pela nossa falta de conhecimento, pela ausência de sensibilidade e, acima de tudo, é o nome que nos impede de classificar adequadamente tantas e tantas obras expostas nos grandes museus por esse mundo fora. No Guggenheim há um conjunto de telas de Cézanne simplesmente assustadoras de tão cruas no trato pictórico. Mas, tal como perante o Van Gogh atrás citado, os espectadores consomem-se tentando explicar a si próprios no silêncio interior que os apoquenta porque razão aquilo lhes parece pouco mais que uma valente merda, apesar do nome no canto inferior direito. E ali ficam(os), especados, como árvores tristes numa floresta queimada.

Nova Iorque-Parte 3 (O Turista Cultural)


Ser Turista Cultural é complicado. Quando um Turista Cultural se aproxima de uma coisa como o Metropolitan Museum of Art tem de cerrar os dentes e avançar com coragem e determinação. É quase como pegar um touro desembolado ou ler de uma assentada a imortal obra de Proust "À Procura do Tempo Perdido" (coisa que eu nunca fiz, mas conheço quem tenha feito e tenha sobrevivido).

Um gajo pode perder-se, ficar confuso, nauseado, sem saber muito bem para que lado se haverá de voltar. O melhor é centrar a atenção em algo específico e tentar desfrutar apenas uma parte do monstro já que pretender abarcá-lo todo numa visita seria trabalho digno de Hércules.

Foi o que fiz. Dirigi-me ao piso dedicado à pintura europeia e por ali me perdi mais uma vez. Para finalizar visitei a retrospectiva de Bacon e já me dava por satisfeito. Mas... não podia abandonar um local pejado de tantos tesouros. Resolvi deambular sem grande sentido nem destino pelas salas e diferentes pisos do Museu. Gregos, romanos e egipcios, povos daqui, dali e dacoli, tudo misturado por uma enorme e invisível varinha mágica. Fiquei fascinado com as espectaculares peças oriundas do Pacífico, principalmente as da Nova Guiné. Caminhei, caminhei, olhei para todos os lados e senti-me perdido. Tinha sido apanhado pela terrível síndrome do turista cultural. Resolvi sair dali, afastar-me daquele antro de perdição intelectual. A custo lá consegui dirigir-me para a saída. Uma vez cá fora fui encontrar-me com a família que já descansava calmamente na relva do Central Park. Sentei-me, descalcei as sandálias e o contacto dos pés com a frescura verde da relva trouxe-me de volta a mim próprio e à realidade do mundo real.

Rai's partam aquele maldito lugar! Agora, tentando recordar o que vi, sinto um aperto no coração. Tenho a sensação de que não vi nada. Estou cheio de dúvidas em relação ao que perdi tal como tenho dúvidas de ter ganho alguma coisa. Já me tinha acontecido algo de semelhante no Louvre que visitei duas vezes no espaço de uma semana. Prometo a mim mesmo não voltar a vestir a pele do Turista Cultural. É uma pele muito apertada. Incomoda-me.

quarta-feira, julho 08, 2009

Nova Iorque-Parte 2.2 (Pollock)

Ainda no MoMA, depois de deixar a família para trás (a minha filha e a minha mulher não têm paciência para me aturar quando estou num sítio assim, eu próprio sinto dificuldades em lidar com a minha pessoa perante tal enxurrada de informação) continuei a minha cavalgada heróica no meio daquela floresta encantada.

Cada nova sala produzia em mim um efeito de estupidificação ou, pelo contrário, de desapontamento. É absolutamente impossível dar notícia de todas as sensações, sentimentos, ideias, vontades e etecetera e tal que me arrepanharam o cérebro. Transcrevo apenas algumas das notas que registei no meu bloquinho.

Parece haver um Pollock tridimensional nos formatos menores. A técnica pictórica sugere, pelo empastelamento, um Van Gogh completamente passado (se tivesse viajado no tempo, acordando em plenos anos 50 do século XX, Van Gogh haveria de ter pintado mais ou menos daquele modo). Depois há um Pollock mais liquído nos formatos mais avantajados, onde o gesto se solta, se alarga e inventa numa liberdade cambalenate e gotejante. Nesses formatos grandes nota-se bem a zona dos pézinhos em volta do ambiente central, mais massacrado e saturado de sinais gráficos, a zona de deslocação do artista.


É como se as telas tivessem uma moldura feita de vazio. Nem gesto, nem tinta; nada. Sente-se ali a presença do fantasma de Pollock.

Há ainda um Pollock antes de Pollock, aquele que primeiro me fascinou nos livrinhos com fotos. O expressionista abstracto que não conseguia impor-se na cena artística, talvez por não ser suficientemente esquisito para os padrões da época.

Fico a pensar que se Pollock pudesse regressar do Além e ver as suas pinturas e as refizesse hoje, talvez fosse mais excessivo. Há qualquer coisa nas telas expostas no MoMA que me parece resultado de uma certa timidez, uma falta de capacidade para se superar a si próprio. Talvez a consciência de estar a inventar um planeta artístico completamente inovador possa ter condicionado o instinto criativo do velho Jackson. Talvez isso tenha acontecido com Pollock. Talvez isso tenha acontecido a Deus quando criou o Universo.

O Expressionismo Abstracto vive muito da dimensão da obra e do gesto que a superficíe proporciona ao artista. Numa escala reduzida corre o risco de se tornar algo mesquinho e, simplesmente, pretensioso. Olhem-se os casos de Rothko e Franz Kline.

terça-feira, julho 07, 2009

Nova Iorque - Parte 2.1


Já estou em casa. Cansado como um canguru que tivesse andado perdido no Alaska, devido à diferença horária. Não durmo já não sei há quantas horas. Mas não há-de ser nada.


8 dias em Nova Iorque mais dois para ir e voltar já bastavam para desorganizar a cabeça que me resta. Este dia, que parece ter outro escondido dentro do relógio, é fogo! Tenho a cabeça a cozer em fogo lento.


Muitas coisas aconteceram. Há histórias mais ou menos interessantes para contar, como a do gajo que deitava salsichas para o lago no Central Park no dia 4 de Julho ou o estranho grupo que se reuniu uma noite no Higline Ballroom para assitir a um concerto do quarteto de Jazz de Charles Lloyd, mas, para o 100 Cabeças, parece-me adequado dar conta de algumas coisas que vi penduradas nas paredes dos museus de Nova Iorque.


Quando visitei o MoMA tive um vislumbre da dimensão da coisa. Se calhar não percebi nada mas fartei-me de tirar apontamentos.


Uma coisa que salta à vista é que os mestres da Arte Moderna aboliram o erro abrindo uma verdadeira Caixa de Pandora. Confirmei a impressão de que algumas pinturas de Picasso ou de Matisse (para citar apenas dois monstros sagrados) são simplesmente abomináveis. Coisas feias, desgraciosas, desiquilibradas, mal pintadas, sem chama nem o mínimo interesse. Mas isso não parece ser relevante. Estão nos livros de História da Arte e nos postaizinhos de "recuerdo" portanto... claro que estes artistas produziram obras-primas mas também deitaram ao mundo muito lixo, muita poluição visual.


De Chirico, por exemplo, aldraba alegremente nas sombras projectadas e nem sempre satura a superficíe com a tinta necessária para cobrir a tela ou organizar algumas pinceladas malucas que destoam nítidamente do espírito da obra. Mas isto só pode constatar-se "in loco". As reproduções nos livrinhos de arte são muito lisongeiras.


As esculturas de Brancusi (expostas num conjunto de 5) parecem uma metáfora da sobrepopulação da cidade. Atravancadas num pequeno espaço anulam-se umas às outras. Decerto que separadas teriam outra dignidade mas, caramba, há que mostrá-las, há que exibi-las a todas.


Muitas pinturas estão velhas, ganharam uma sujidade pouco saudável e têm o aspecto de um trapo de limpar o pó. Nas telas de Mondrian o amarelo está quebradiço e estalado. As outras cores não apresentam este sintoma de doença, apenas o branco está mais triste que o espantalho do Feiticeiro de Oz por não ter um cérebro que o alumie.


Isto não acontece na pinturinha de Dali (A Persistência da Memória) na sua sumptuosa técnica de óleo de linhaça. Brilhante e mais perfeita que a perfeição de um sonho impossível de ser sonhado. Ao lado o espectacular "Rouxinol Ameaçando Duas crianças" de Max Ernst mostra aquilo que cada vez mais prezo num artista: a sua versatilidade e capacidade de não ter um "estilo" definido. A capacidade de o indivíduo se inventar e reinventar constantemente a si próprio através da criação artística.


Bom, o post já vai longo e há muito mais para dizer. Por exemplo, o guarda da sala anterior estava a comer um chupa-chupa, com o pauzinho fora dos lábios, produzindo um ruído guloso, enquanto duas senhoras com ar de senhoras tiravam fotos com um flash radioso como o sol. O guarda (aquele guarda) não esboçou outro gesto que não fosse mais uma chupadela ruidosa. Parecia não estar ali, parecia uma daquelas personagens patuscas de uma tela de Miró.


Continuei a minha caminhada por aquela floresta artística.

sexta-feira, julho 03, 2009

Nova Iorque (parte 1)


Estou em Nova Iorque há uns dias. Dificilmente voltarei a encontrar um lugar onde haja gente de tantos lugares diferentes, falando tantas línguas diferentes (mesmo o inglês ganha milhares de sonoridades) e movendo-se em tal harmonia. A cidade é estranha de tão grande e de tanta gente que se move nas ruas. Uma amálgama de ferro, betão, vidro e carne em movimento.

O que salta à vista é a extraordinária organização. Tudo é feito de modo a que o dolar possa fluir como a água do Amazonas desembestada em direcção ao imenso oceano. Li há pouco que a bolsa desceu ali em baixo, no Financial District. Cá mais para cima não se notou nada, garanto-vos!

Não há sinal da crise económica nem da gripe-A. Não se passa nada. É como se Nova Iorque fosse a capital do Mundo Extrasuperterrestrial, uma foleirice do género. Esta cidade é imbatível, nada a pode atingir. É assombrosa nos contrastes, extraordinária de tão vulgar. VVou continuar a passear por estas bandas até à próxima 2ª feira. Depois disso terei umas quantas considerações a fazer. Até lá, amigos meus, vou ter de me desconectar.

quarta-feira, junho 24, 2009

Inquietação


Uma pessoa está inquieta. O mundo roda, aparentemente, como é costume; às voltas sobre si próprio, em voltas mais largas ao redor do Sol, como se dançasse uma valsa eterna com o universo inteiro enfiado no mesmo salão de baile. Mas uma pessoa está inquieta.

Os automóveis rolam lá fora. Olhando-os cá de cima, da janela, parecem mover-se sózinhos, máquinas e motores em andamento, independentes da vontade humana. Rolam nas ruas, rolam nas estradas que são como veias do corpo imenso da cidade. Ininterruptamente. É impossível imaginar o mundo sem automóveis a rolar. Um mundo repleto de automóveis parados é um cadáver de mundo. E uma pessoa sente-se inquieta.

No café a televisão fala para si mesma. Ninguém parece dar-lhe atenção. Passam imagens terríveis de pessoas ensanguentadas, pessoas furiosas, outras parecem assustadas. Logo a seguir a vedeta mais recente sorri para nós. Então tudo regressa ao seu devido lugar. Aquele sorriso vale milhões e as pessoas assassinadas deixam de ter importância. Mas a inquietação não desaparece, antes se transforma. A televisão prossegue o seu monólogo.

Caminhando rua acima uma pessoa cruza-se com outras pessoas, em tudo semelhantes. Ninguém parece aperceber-se da inquietação alheia. Uns sorriem, outros nem por isso. Alguns sentem uma vontade imensa de chorar. Outros quase rebentam de alegria. Passam para lá e para cá, desviam-se, páram, voltam a andar.

É assim a vida na cidade ocidental. Longe de deus, longe dos homens, longe de tudo o que está próximo, mais longe ainda daquilo que é longínquo. Máquinas que são como pessoas e pessoas que se assemelham a máquinas em perpétuo movimento. Diz-se que "parar é morrer" e uma pessoa fica inquieta.

A inquietação põe-nos em movimento, mantém-nos vivos. Caminhamos a correr, respiramos de forma sincopada, como máquinas de viver. No dia em que sossegarmos iremos morrer?

domingo, junho 21, 2009

Oxalá


"Do que tenho medo é do teu medo." terá escrito William Shakespeare. Olhando as notícias que nos chegam de Teerão não é possível evitar um apertozinho no coração. Não conheço nenhum iraniano mas isso não me faz falta para compreender a frase do velho Will.
Viver num regime orientado por religiosos obedientes à palavra de um deus que ninguém vê (um deus que "enlivrou" ao contrário do outro que "encarnou") não pode ser saudável para a alma de quem preze a Liberdade. Deus é deus e não compreende a banalidade absoluta que é ser homem. Ainda por cima, quando são homens a interpretar a sua suposta vontade, então está o caldo entornado!

Já não me lembro muito bem como era a vida em Portugal quando tinhamos os bispos sentados ao lado dos ditadores que nos orientavam vontades e necessidades. Recordo a pobreza das pessoas vestidas de negro, num luto permanente, imagino que em luto pela vida, mesmo que disso não tivessem consciência. A Revolução, quando aconteceu, foi como um presente de Natal que as pessoas não tinham pedido. Uma surpresa magnífica que, passados tantos anos, ainda não foi totalmente desembrulhada.

O que se passa nestes dias em Teerão? Será uma nova Revolução, esta sem deus na encomenda? O que querem os iranianos? O que se passou realmente nas eleições agora contestadas? Não sei. Não sabemos nem podemos saber. A única comparação que posso estabelecer é a da minha vaga recordação da angústia que era viver sob o olhar reprovador de um poder semi-divino, capaz de reparar até nas cuecas que um gajo vestia ou no comprimento dos cabelos e na cor dos olhos da nossa paixão. Um pavor.

Posto isto só posso desejar uma coisa, que os iranianos descubram o caminho que os conduz à Liberdade. Um caminho decerto completamente diferente do nosso. O caminho deles para a sua Liberdade.

Oxalá o encontrem e deixem de ter medo.

quarta-feira, junho 17, 2009

Começar de novo


Ser um indivíduo numa sociedade cujo principal objectivo parece ser a camuflagem e o esquecimento de si própria pode tornar-se uma manobra complicada. O faz-de-conta geral deixa pouco espaço para grandes lirismos ou projectos individuais cuja base de sustentação seja um ideal ou uma crença sustentada na "razão pura". Resumindo a confusão anterior: não é nada fácil "ser" quando a maioria valoriza o "parecer".

Vem-me à memória a velha frase dos anarcas "A igreja é o ópio do povo". Em boa verdade, a necessidade de escapar, de fugir para lá dos limites do nosso corpo, seja individual ou social, é a grande meta do ser humano. A cada um o seu ópio particular.

Há quem vá para o ginásio suar as estopinhas em corridas quilométricas na passadeira sem saír do mesmo lugar, outros enfiam-se num quarto-de-banho ranhoso, com mijo pelos tornozelos a fumar heroína. Outros ainda, rezam furiosamente; uns ajoelhados simplesmente, outros de cú para o ar, bichanando textos sagrados num zumbido de abelhas laboriosas, em busca da redenção. Diferentes meios para se atingir o mesmo fim.

Lá no fundo, todos sabemos que aquilo com que nos ocupamos, vale pouco ou nada mas preenche-nos. Preenche-nos os dias e a alma. Mas se nos preenchemos com coisas de pouca valia isso significa que nós também não valemos grande coisa. Isso enfurece-nos.

Enfurece-nos ao ponto de desejarmos que o resto da humanidade valha tão pouco quanto nós. É uma inveja ao contrário que desperta impulsos catequistas e nos leva a impor ao outro aquilo que nós (não) somos, nivelando tudo por baixo, multiplicando a mediocridade como modo de vida e paradigma social.

Cocncluindo, estamos a precisar que a humanidade tire umas férias e regresse, por uns tempos, à animalidade primordial. É preciso baralhar tudo e voltar a dar. Que o jogo recomece! Com novas regras, se faz favor.

segunda-feira, junho 15, 2009

Que lugar te faz sentir em casa? (Tertúlia Virtual)


A resposta óbvia é "em casa sinto-me em casa". Pois. Mas a casa é meio camaleão. Muda de cor, muda de forma, até muda de lugar! O ambiente não é sempre o mesmo nesse lugar a que chamo casa. É um lugar vivo. Sinto-me em casa no lugar onde sinto que me amam e onde eu amo as pessoas. Essa é a minha casa. Pode ficar em qualquer lugar.

Banksy no Museu (parte2)



Em complemento da post anterior por indicação do Caçador.
De notar que Banksy manteve o anonimato. Misturado no grupo de encapuzados que montaram a exposição, consegue manter a dúvida sobre a sua identidade. Dizem que nasceu em Bristol, daí esta exposição, mas também isso pode ser uma ilusão ou apenas algo para pôr os ingleses a pensar na vida.

domingo, junho 14, 2009

Banksy no Museu




Banksy é uma referência cultural dos dias de hoje. O artista irreverente cujas imagens invadem o espaço urbano propondo leituras alternativas das coisas (aparentemente) mais evidentes. Um verdeiro artista, na minha forma de imaginar o que é ser um artista. Um fenómeno Pop, um génio um... gajo comum.
Desta vez a notícia é que Banksy tem uma exposição dedicada à sua obra num museu em Bristol, supostamente a sua terra natal.

A dúvida coloca-se; a arte de Banksy cabe dentro de um museu?

A resposta parece óbvia, claro que cabe! Mas acaba por transbordar e ir parar às ruas em volta, "infectando" de conteúdos artísticos as paredes e espaços exteriores.

Banksy acaba sempre por ser mais do que aquilo que parece à primeira vista.

Banksy faz mais sentido no exterior mas não o perde dentro de um Museu.

O Museu é que se transforma noutra coisa ao receber no seu seio a obra de Banksy.

Viva Banksy!

sábado, junho 13, 2009

Onde está a Democracia?


As eleições iranianas para a presidência da República registaram uma taxa de participação de 82%, segundo as notícias. As eleições para o Parlamento Europeu tiveram uma taxa de abstenção que deixa o pessoal a lamentar-se. Mais uma vez. Como de costume. Em Portugal a abstenção situou-se nos 63% (se não estou em erro). Votaram 37% dos eleitores.

Independentemente da taxa de participação, lá, na antiquíssima Pérsia, como cá, na muito velhota Europa, os candidatos conservadores venceram. Esta é a única semelhança. Importa reflectir sobre as taxas de participação popular.

O que fará com que os iranianos passem horas a fio em filas quilométricas "só" para depositarem o papelinho mágico na urna de voto? Talvez lhes faltem distracções apelativas e não tenham nada melhor para fazer. Talvez acreditem que muitos votos fazem a diferença e que têm de ser eles a escolher e não os vizinhos do lado, que se dão ao trabalho de votar. E por cá, o que faz com que a maioria esmagadora dos eleitores não ponha os pés nas assembleias de voto? Talvez estejamos a ficar demasiado preguiçosos, gordos e indiferentes. Ou será que acreditamos que a democracia é um dado adquirido como são a Pepsi-Cola e o hamburger do palhaço. Pensaremos que nada de esquisito nos poderá acontecer, seja de que maneira for? Que o nosso modo de vida se eternizará por qualquer razão pouco evidente?

É verdade que, no Irão, a democraticidade destas eleições é posta em causa, que as coisas não se terão passado com toda a lisura. Mas não consigo esquecer a forma descarada como a União Europeia tratou os eleitores irlandeses que recusaram em referendo democrático o Tratado de Lisboa. Por cá, quando os resultados não estão de acordo com as expectativas das instituições que controlam a União, repete-se a votação. Tantas vezes quantas as necessárias para que o resultado seja aquele que interessa aos governantes? Convém não esquecer a forma como George W. Bush chegou a presidente dos EUA.
Pobre Democracia. Onde anda ela? Começo a pensar que não passa de um fantasma. Um Dom Sabastião velho e perdido para sempre numa tempestade de areia.

quinta-feira, junho 11, 2009

93 milhões de pontapés na crise?


Parece que finalmente vai acabar esta novela merdosa do sai-não-sai de Cristiano Ronaldo do Manchester United. O valor da transferência a pagar pelo Real Madrid será qualquer coisa como 93 milhões de Euros. Porra!!! Tanto dinheiro, benza-me Deus Nosso Senhor!

Para Jorge Valdano, responsável pelo futebol do clube de Madrid, o investimento justifica-se pois haverá um retorno espectacular em termos de contratos publicitários e outro tipo de actividades comerciais relacionadas com a imagem de Cristiano. Pela sua lógica imbatível, Valdano considera que Ronaldo, afinal de contas, até nem é um jogador caro. Antes pelo contrário.

Seja como for lá vai Ronaldo de malas aviadas até Madrid. A dúvida que se coloca é esta: será que ele tem estrutura mental suficiente para aguentar o calor da Ibéria e o salero das espanholas? Sem a figura paternal de Alex Ferguson para lhe amassar o juízo e com Scolari a caminho do distante Uzbequistão, quem irá meter algum tino naquela cabecinha onde o vento assobia cada vez com mais força?

Ronaldo foi considerado o melhor jogador do mundo. Quem o via nos relvados ingleses a brilhar na extraordinária equipa do Man United dificilmente o reconhece debaixo da camisa da selecção nacional portuguesa. As mais recentes exibições por Portugal têm mostrado um jogador agarrado à bola, muito cheio de si e com pouca capacidade de liderança, ele que é o capitão de equipa.

Talvez esteja apenas a fugir à chuvinha de Manchester e procure um lugar ao sol em Espanha. Talvez tudo isto não tenha a mais pequena importância ou, talvez, seja o primeiro sinal de que a tão badalada crise económica é, afinal, mera crise de confiança. Seja lá o que for, não deve ser fácil ser... Cristiano Ronaldo.

quarta-feira, junho 10, 2009

Portugal discursado



Hoje é Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas. Ok, fixe! É dia de comemorações e medalhas espetadas em fatinhos perfumados. Muito giro. Normalmente não se passa nada de assinalável. Desfilam as forças armadas perante os governantes e botam-se discursos mais chatos que piolho agarrado na virilha. Tudo com uma cara-de-pau que mete medo e convidados com ar de quem comeu mosca tsé-tsé ao pequeno-almoço.

Desta vez, porém, houve um discurso que me prendeu a atenção quando zarpava na TV, de canal em canal, à procura de coisa nenhuma. Foi o discurso de António Barreto que este ano presidiu às ditas comemorações (ver notícia aqui). Pela primeira vez ouvi um discurso objectivo, desassombrado e interventivo, sem medo de chamar as coisas pelos nomes que merecem ser chamadas, mesmo que sejam nomes feios ou pouco bonitos. Já tinha Barreto em alta consideração, a partir de hoje tenho-o na mais alta consideração (esta coisa das escalas de consideração é engraçada), não só porque o homem gosta de jacarandás ou escreve crónicas interessantes no jornal de Domingo.

António Barreto terminou o seu excelente discurso e sentou-se, dando a vez a Cavaco Silva, Presidente da República. Cavaco disse três frases e o encanto do discurso anterior já se tinha transformado na mais banal das pimpineiras. Mudei de canal. Desliguei a TV. Fui pintar.

O discurso está acessível na sua totalidade. Clicar aqui.

segunda-feira, junho 08, 2009

Quem raptou Europa?

O RAPTO DE EUROPA-Riccardo Tommasi Feroni

Foi Zeus! Toda a gente sabe que foi Zeus quem raptou Europa, a formosa princesa fenícia. Disfarçado de touro branco, o deus dos deuses apaixonou-se pela rapariga e acabou por levá-la para Creta onde tiveram vários filhos. Pronto, a história é mais ou menos assim. Temos uma rapariga muito bela mas muito crédula (para não dizer um pouco tosca e algo lúbrica) e um deus que merecia ser padroeiro do Viagra, sempre pronto a fazer alguma tropelia, disfarçando-se de animal para seduzir as suas presas femininas. Nunca percebi muito bem como é que isto funcionava mas um deus é um deus e os seus encantos não terão a ver com a forma que assume.

Ontem foram as eleições para o Parlamento Europeu. Houve surpresas um pouco por toda a parte. Desde o Partido Pirata que, na Suécia, elegeu um deputado adepto da total liberdade de acesso à informação online, até aos partidos de extrema-direita que fizeram eleger representantes seus um pouco por todo o continente, os eleitores guinaram à direita. Os partidos socialistas foram pelo cano e perderam em toda a linha. Em Portugal os partidos mais à esquerda conseguiram um resultado expressivo, contrariando um pouco esta tendência.

Enfim, a Europa está agarrada ao pêlo do touro e vai mar adentro, sabe-se lá para onde. Vai à aventura, vai parir uns quantos filhos. Virá por aí algum Minotauro devorador de virgens e mancebos imberbes?

sábado, junho 06, 2009

Votemos


Amanhã é dia de votação para eleger os deputados ao Parlamento Europeu. Diz-se por aí que a abstenção vai bater o recorde, que o povão não está virado para este género de eleição, etc. e tal. Talvez seja assim. Talvez o povão não esteja virado para nenhum tipo de votação, se calhar o pessoalzinho não quer ter responsabilidades na forma como a política se desenrola. Se não for responsável poderá sempre continuar a dizer mal de tudo e mais alguma coisa.
A campanha não foi grande espingarda. O debate político está pela hora da morte. Mas isso não é desculpa para não ir votar. Da parte que me toca já escolhi os meus candidatos há muito tempo. Não sinto um grande entusiasmo (nem pequeno, confesso) mas sinto a necessidade de cumprir um dever cívico, votando. Sim, eu sei, isto soa um bocado démodé, "o dever de votar" é coisa de bota-de-elástico, mas é assim mesmo e não há volta a dar-lhe.

Amanhã é dia de ir votar. Não fiquem em casa a fazer figura de ursos, não se desculpem com o sol e a praia (se for como hoje vai estar um dia de merda para apanhar sol, bendita chuva), isso é coisa de puto irresponsável. Sei que há putos responsáveis e adultos muito putos e o contrário e vice-versa também. O Parlamento Europeu é um facto e a eleição dos seus deputados outro facto é. Não adianta fazer de conta que não temos nada a ver com isso, porque temos. Temos muito a ver com isso. Temos tudo a ver com isso. Porque a Europa, amigos meus, somos nós, mesmo estando aqui no limite, meio tombados dentro do mar e com um pézinho em África. Vamos votar!

quinta-feira, junho 04, 2009

O deus do rock





Se Elvis foi King, então Angus é God. Tão simples quanto isso.

Ontem fui assistir ao concerto do AC/DC no estádio de Alvalade, em Lisboa. Fui com a minha filha. Separámo-nos à entrada (ela entrou primeiro) e encontrámo-nos à saída com o mesmo sorriso na cara. O concerto tinha sido uma enormidade, uma autêntica celebração do poder da electricidade feita som. E que som!

Não vale a pena estar para aqui a descrever as tropelias de Angus Young agarrado à guitarra ou os truques marados da cenografia (como um comboio a rebentar a parede do palco vindo a toda a brida das profundezas do inferno), o gajo já anda naquilo vi para mais de 30 anos. Toda a gente sabe como ele toca. O que me passou na cabeça, quando estava aos saltos no meio de uma turba meio furiosa a meia-dúzia de metros do palco, foi que aquele homenzinho de aspecto mirrado a desfazer-se em suor, era um deus da electricidade, um deus extraordinariamente poderoso. O seu corpinho feito de palitos e o imaginário dos temas da banda, não encaixam perfeitamente na ideia que eu (não sabia que) fazia do que é um deus e, no entanto, a multidão adorava-o em plena celebração pagã e eu com ela.

Se descontarmos o folclore meio ridículo do merchandising (andavam milhares de pessoas com uns corninhos de plástico electrificados) e as péssimas animações que passaram no écrã (começou logo com uma cena de um comboio, o tal que haveria de entrar pelo palco no meio de uma nuvem de fumo, uma cena de fugir!), tudo o resto foi excelente.

Aquela parte do espectáculo em que Angus Young passa para aí uns 20 minutos a apertar o pescoço da guitarra e esta se desfaz em desculpas e lamentos maravilhosos em bajulação ao seu deus foi uma coisa absolutamente de outro mundo. O mundo meio bacoco do deus da electricidade e do rock, o mundo de Angus (já não tão) Young (mas, ainda assim muito Young). Espectacular!!!

terça-feira, junho 02, 2009

Adultescência


A adolescência é uma coisa maravilhosa!

Ter filhos adolescentes ou contactar com dezenas deles todos os dias, são exercícios que testam com rigor científico a nossa sanidade mental. Estas ex-crianças são, ainda, projectos de adultos e funcionam como espelhos para os mais velhos. Mas são espelhos especiais, mais da família do espelho da bruxa má da Branca de Neve que dos espelhos banais que nos esperam na parede do quarto-de-banho para nos convencerem de que somos aquilo que eles nos mostram.

Um adolescente serve para um adulto compreender que, afinal, ser adulto não é nada de extraordinário. Na verdade, mesmo em adultos, não somos mais que adolescentes com rugas e cabelos brancos. Nós sabemos isso mas os adolescentes estão convencidos de que somos muito diferentes deles e, por isso, incapazes de os compreendermos com um mínimo de justiça. Há também alguns adultos que não compreendem a sua condição de eternos adolescentes o que os torna amargos e irascíveis. Este estado tristonho acontece mais aos adultos que vivem afastados de adolescentes. Afastados em termos físicos ou psíquicos o que, para o caso, é mais ou menos a mesma coisa.

Os adolescentes esperam que os adultos sejam uns autênticos chatos, o que acontece montes de vezes, e os adultos esperam que os adolescentes se comportem como vulcõezinhos de sentimentos contraditórios, o que é perfeitamente normal.

Lá no fundo, bem no fundinho de nós, sabemos perfeitamente que as diferenças não são assim tão grandes. Pronto, está bem, eu sei que a maioria dos adultos tem responsabilidades acrescidas. Um adulto trabalha, ganha dinheiro para manter os adolescentes na sua qualidade de adolescentes por mais tempo e alimentar a sua ilusória sensação de ser adulto. Mas um adolescente também é perfeitamente capaz de manter um emprego (há milhões de adolescentes que trabalham) sem que isso o transforme automaticamente num adulto. E porquê? Porque não nos podemos transformar naquilo que já somos.

Hoje sinto-me adulto, o que quer dizer que me sinto um adolescente. Com rugas e cabelos brancos. Na verdade sinto-me um "adultescente".