sexta-feira, outubro 05, 2007

Querida televisão

A minha televisão é a única companhia com que posso contar. É com ela que tomo o cházinho e com ela converso sobre as questões que incomodam o dia-a-dia que a mim já nada me incomoda a não ser a solidão. A jarrinha com flores serve-lhe de chapéu. Dá-lhe um aspecto bem patusco. Mas ela não se importa, encaixa bem a brincadeira. Sabe o apreço que por ela tenho. É quase amor. Sei que não se ama um objecto da mesma forma como se ama uma pessoa. Mas já não há pessoas reais na minha vida, só as pessoas que me visitam através do écrã da minha televisão. Ofereço-lhes uma xícara de chá, um bolinho, dois dedos de conversa. Por vezes sinto que a televisão me olha e se enternece comigo. É uma boa amiga. Fiel, discreta no trato e conversadora incansável. Conta-me histórias e eu retribuo com atenção e silêncio. É uma relação perfeita. Sem segredos nem mistérios. Dias a fio ali estamos, uma em frente da outra, esperando que o tempo passe. E que um dia me leve.


quarta-feira, outubro 03, 2007

A falha

O sistema democrático é o nosso sonho mas toma cada vez mais a aparência de um tremendo pesadelo. Um dos problemas mais complicados e que parece impossível de resolver prende-se com a escolha dos dirigentes para cuidarem com o desvelo necessário da coisa pública.

Os regimes monárquicos tinham o problema resolvido. Os dirigentes nasciam assim mesmo, com selo de garantia carimbado pelo próprio Deus, eram os seus representantes na Terra e faziam o Seu trabalho por estas bandas. Assim, para o bem e para o mal, os reis e rainhas eram parte do impenetrável Plano Divino e caso algo corresse às avessas era porque Deus assim queria e nada havia a fazer quanto isso. Ele escreve direito por linhas tortas e o Tempo se encarregaria de demonstrar a bondade e a infalibilidade do sistema. Como o Grande Arquitecto estava a orientar a cena os comuns dos mortais tinham apenas de confiar e seguir as suas vidas com confiança e, acima de tudo, animados por inabalável Fé.

Depois deram-se as Revoluções Americana e Francesa, acabou-se com o Antigo Regime e os reis, fossem sóis ou outra estrela qualquer, passaram a personagens secundárias sendo, nos dias de hoje, pouco mais que objectos decorativos dos regimes a que chamamos democráticos. A Deus passou a dar-se o que é de Deus e a César o que é de todos nós.
200 anos a construir sistemas democráticos ainda não chegaram para encontrar a pedra de toque que transforme os governantes escolhidos pelo povo em pessoas de bem e com cabeça para controlar a contento os negócios do Estado. Uma Democracia precisa de ser capaz de gerar elites dirigentes que sejam isso mesmo: elites e não meros sabujos disfarçados de gente séria. Acreditamos que num sistema social justo despontarão pessoas capazes de perpetuar a justiça de forma equilibrada mas não parece que estejamos a ser particularmente felizes na concretização desse objectivo. O que tem faltado? Porque ficamos com a sensação de que, uma vez sentados na cadeira do poder, aqueles que elegemos com renovada esperança se transformam em gajos falsos como nem Judas terá alguma vez sonhado vir a ser? O que está a falhar no nosso sistema político e social?
Bom, esta pergunta é de tal modo desmesurada que o melhor é ficar por aqui e regressar mais tarde ao assunto.

terça-feira, outubro 02, 2007

Sem título


Forçar os limites do dia é o trabalho do homem comum. Empurrar a rotina, lutar com o relógio, endireitar as costas no esticar do queixo. Os carros passam, um pássaro esquce-se de piar ás 8 da manhã. Não há que recear o erro nem temer o sabor amargo do café matinal. A vida é para ser vivida. Cada minuto conta. Todos os minutos de cada dia. Dentro do carro ouvindo as últimas sobre a fila de trânsito ali mesmo à frente. A sujar as mãos na tinta do jornal e a sola do sapato na caca fresca deixada no passeio pelo caniche da vizinha. É assim que um homem comum encara a vulgaridade da vida. O erro, quando surge ao virar da esquina, não é mais nem menos que uma hipótese, uma outra oportunidade de fazer uma coisa com aparência de ser bem feita. Os homens extraordinários habitam os corpos dos homens comuns. Estão ali, à espera. Mais tarde ou mais cedo eles aparecem. E vêm tomar o café matinal contigo.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Vulgares como pares de sapatos


A publicação da acta de uma conversa entre Bush e Aznar a propósito da melhor forma de iniciar a guerra no Iraque mostra a vulgaridade com que um assunto desta gravidade pode ser tratado. Preocupados principalmente com o modo como poderiam "dourar a pílula", os dois estadistas (chamesmos-lhes assim) vagueiam num discurso rasteirinho e pouco edificante. Não há uma frase ou uma ideia que ultrapassem a visão do merceeiro preocupado em manter as aparências a despeito da qualidade dos produtos que trafica. A podridão não preocupou estes dois, apenas os seus interesses directos. A mentira foi tratada como se fosse verdade.
Salta à vista a forma grosseira como Bush imaginava o desenrolar da guerra e as benéficas consequências da invasão para o povo iraquiano. Como erro de cálculo não deixa de ser um verdadeiro monumento à estupidez!

O pormenor da escolha dos Açores como sede da célebre "cimeira da paz" (esta até dá vómitos) em detrimento das Bermudas é, talvez, o traço mais relevante da grandeza de espírito destes homens. Aznar preferiu os Açores às Bermudas porque "(...) o nome destas ilhas que se associa a uma peça de roupa não é exactamente o mais adequado para a gravidade do momento." Fica bem patente o sentido do espectáculo que animava o antigo 1º ministro espanhol, preocupado com as aparências visto que em termos de conteúdo nada havia a fazer senão tentar iludir o pessoalzinho.


Assim foi, assim se fez. Os anfitriões dessa cimeira de má memória foram Durão Barroso e Paulo Portas, 1º ministro e ministro da defesa do nosso país nessa data, os idiotas úteis de serviço.

Depois deste frete aos poderosos senhores da guerra, Barroso tornou-se Presidente da Comissão europeia e Paulo Portas fez um branqueamento à dentuça não sem antes ser condecorado em Washington pelo bandido Rumsfeldt, por bons serviços prestados à causa da guerra no Iraque. Conclui-se que ser idiota neste mundo cão acaba por compensar, desde que se seja idiota no lado certo do planeta.

domingo, setembro 30, 2007

Campanha













Um conto de fadas aos pontapés

Stardust é um filmezinho interessante. A forma como o argumentista Neil Gaiman, um nome bem conhecido no universo dos comics, transforma o habitual conto de fadas numa aventura com momentos algo desconcertantes é um dos trunfos principais desta "película". O elenco, perfumado com a participação de alguns monstros sagrados (Robert De Niro é um pirata efeminado preocupado em manter uma aparência de macho man e Michelle Pfeiffer uma bruxa envelhecida obcecada pela recuperação da beleza e da juventude perdidas), contribui para muitos dos sorrisos que libertamos ao longo da sessão. Ah, já me esquecia do excelente friso de fantasmas que vai acompanhando o desenrolar da acção a partir de um certo momento.
Resumindo: trata-se de um filme light, para ver com toda a família que serve uma história bem urdida e narrada em velocidade de cruzeiro com eficácia visual quanto baste para fazer do espectador uma pessoa feliz no momento em que as luzes da sala se acendem para iluminar o caminho de regresso ao mundo real.
Merece umas quantas estrelinhas no universo pouco dócil dos críticos de cinema do Público (http://cinecartaz.publico.clix.pt/filme.asp?id=182546). Pronto, está bem, só lá está a opinião de Jorge Mourinha que está longe de ser um ogre do calibre dos seus colegas da crítica cinematográfica naquele jornal.
Divirtam-se...


Menezes=Sócrates



A ascensão de Luís Filipe Menezes ao lugar de carrapito no cocuruto do aparelho do PSD é sintomático. O partido pretende a todo o custo substituir o PS na mesa do orçamento do estado e não hesita em eleger como chefe um refinado menino da mãmã, no qual aposta e deposita esperanças para poder competir com o inefável José Sócrates. O PSD, como partido popular que reclama ser, põe em prática o velho adágio que postula que "Para vigarista, vigarista e meio".

A política actual deixou de se fazer com ideias e, muito menos, com ideologias. Sacos-de-vento e penteados, muita base para cortar o brilho dos projectores nos estúdios de TV e discursos estudados ao pormenor de um dedo mínimo que se estica num gesto de máxima indignação e pronto: temos os políticos pós-modernos. Infelizmente não prestam nem para engraxar os sapatos. Não prestam para nada.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Tretas



Por uma vez na vida Santana Lopes deixa-me bem impressionado. Realmente a mania dos "directos" sem assunto e com repórteres em overacting é um mau hábito da televisões. A chegada de Mourinho aos trambolhões é um péssimo pretexto para interromper uma entrevista seja a quem for. Mesmo a Santana Lopes que tomou uma atitude, no mínimo, interessante.
Já quanto ao interesse do tema "eleições no PSD" é tão estimulante como... a chegada de Mourinho ao aeroporto da Portela. Uma treta.

terça-feira, setembro 25, 2007

Anedota



O que torna a coisa ainda mais engraçada é que o Sr. Presidente parece acreditar no que está a dizer. As coisas em que um gajo pode acreditar...

Autoproclamação?

De cada vez que se volta a remexer a célebre questão da licenciatura de José Sócrates fortalece-se a impressão de que houve ali marosca da grossa. As notícias vindas hoje a público ( ler em Juíza mandou destruir escutas entre Arouca, Sócrates e Morais) reacendem o rastilho que poderá vir a fazer explodir violentamente este folhetim de sarjeta nas mãos do nosso 1º ministro com nome de filósofo grego. Tantas dúvidas e imprecisões, tantos pormenores mal contados e indícios de ocultação da verdade fazem desconfiar o mais crédulo dos indígenas.
Da parte que me toca estou convencido: Sócrates é engenheiro! E é-o porque assim o desejou e os desejos de um homem como Sócrates são para serem satisfeitos, ponto final. Como todos os grandes estadistas, Sócrates não está para se deixar atrasar por questiúnculas de pequena monta no cumprimento dos seus superiores desígnios. Na nossa qualidade de cidadãos insignificantes podemos apenas agradecer a quem lhe forjou os seus sonhos mais selvagens em dura realidade. Obrigado, vigaristas da minha terra. Muito obrigado.

domingo, setembro 23, 2007

Uma coisa extraordinariamente bela



"Dead Man" é um dos mais belos filmes que vi em toda a minha vida (e, amigo leitor, podes crer que já vi mais que muitos!) Talvez o filme me tenha vindo dançar uns passinhos na memória por ocasião do suicídio do Pedro Alpiarça. Em ocasiões assim um gajo recorda os amigos que já lá vão. E quando alguns dos mais queridos se lembraram de corrigir os destinos da Mãe Natureza encurtando as suas narrativas particulares bruscamente, com um ponto final pouco óbvio de tão negro e perfeitamente estúpido, as memórias dançam, mas dançam com sapatos de salto alto a espetarem-se-me no cérebro.
Esta noite está mais mórbida que uma gravura do Mestre Goya. Rai's partam a puta da Ceifeira que nos rouba tanto riso por troca com o incerto pavor da sua inevitável visita.

Obituário


É (foi) hoje (ontem) velado na Sociedade Guilherme Cossul o corpo do actor Pedro Alpiarça, que (ante)ontem à tarde se atirou do 5.º andar do Hospital de Santa Marta, onde tivera uma consulta.
A morte consegue sempre ser impressionante mas há ocasiões em que é absolutamente espampanante. Nunca estamos verdadeiramente preparados para as suas performances fatais. No caso do Pedro Alpiarça a morte ofereceu-lhe um último espectáculo. Um salto no vazio sem rede nem futuro que se saiba. Vi-o pela 1ª vez a fazer o Vaivém Cantante, com o grupo de teatro A Máscara (era essa a designação, com o Rui Pisco e o Pedro Wilson?) numa salita esconsa no Largo do Rato em Lisboa vai para uma trintena de anos. Voltei a ver esse espectáculo em Almada, passados alguns anos, noutra sala igualmente esconsa, no tempo em que se fazia Teatro. Nesse espectáculo alguém dizia uma frase que recordo muitas vezes, talvez fosse o Alpiarça. A frase era "O porquinho "moreu"!!!" (assim mesmo, com um só "erre"). Recordo que era uma situação simultâneamente triste e risível, um momento estranho numa peça estranha.
Agora foi a vez dele: "O Alpiarça "moreu"!!! (assim mesmo, com um só "erre", como na palavra merda).

sábado, setembro 22, 2007

Festa!!!




Imagens da inauguração da Ver de Fazer 11.
(de cima para baixo)
O Jorge e a Daniela mais dois rapazes que não conheço;
A Sofia preparando-se para cantar e o Tiago a aquecer a guitarra;
Uma perspectiva da sala poucos minutos após a abertura das portas.
A sala estava quente como de costume. Nem o ar condicionado conseguia disfarçar a temperatura ambiente. Quente, quente, de tanto calor humano (que conversa mais farçola)!
Os visitantes foram chegando e a conversa animada invadiu o espaço da sala. Há sempre tanta boa disposição nestas ocasiões que uma pessoa até se sente comovida. A energia ali dentro era mais do que positiva, daria para iluminar a cidade inteira se estivessemos ligados à central eléctrica! Uma coisa deveras extraordinária!
A performance musical foi de bom tom e aumentou a sensação de bem-estar geral. Sinceramente faltam-me as palavras para descrever o que é a Ver de Fazer nos tempos que correm. Assim, de repente, só me ocorre dizer : Boa onda.
Fico por aqui.
Na próxima semana coloco fotos mais ilustrativas dos trabalhos expostos. Ontem estava tão agradado com tudo o que se passava à minha volta que quase não tirei fotografias. Não há fotografia que faça justiça ao ambiente vivido.
A exposição do próximo ano já está marcada!


sexta-feira, setembro 21, 2007

Ver de Fazer 11

Inagura daqui por hora e meia a 11ª edição da Ver de Fazer. Para quem não sabe o que é, posso esclarecer que se trata de uma exposição de artes plásticas promovida pelo Atelier de Artes da Escola Anselmo de Andrade de Almada. Estará patente na Oficina de Cultura desta cidade (que tem vida própria e está do lado certo) entre o dia de hoje e 30 do mesmo mês.
Há trabalhos de alunos da Escola, de ex-alunos da Escola e de professores da Escola. Pintura, escultura, desenho, colagens, vídeo e sei lá que mais. Hoje o Tiago vai tocar guitarra eléctrica e a Sofia (acho que é esse o nome dela) vai cantar. Vai haver muita gente, como de costume. Vamos encontrar pessoas que já andam por outras paragens das suas existências e vão aparecer os pais e os irmãos mais novos e vamos estar bem dispostos, numa celebração anual de entusiasmo e crença nas nossas capacidades para fazermos desta vida e desta cidade um sítio onde possamos estar mais à-vontade hoje do que ontem e muito melhor que tresantontem.
Enfim, esta é uma noite interessante, em que muitos jovens teenagers irão, pela primeira nas suas vidas, ter obras expostas numa galeria pública no centro de Almada e que conta diáriamente com um número muito interessante de visitantes.
Ao eventual leitor deste post fica feito o convite (um pouco tardio para a inauguração mas muito a tempo para a exposição) para passar por lá e ver com seus próprios olhos.
Tenho muito orgulho em participar na organização do evento e com trabalhos meus, lado a lado com os meus alunos, colegas e outros amigos.
A partir de hoje e durante uma semana ali mesmo no centro da cidade (em obras).
Até mais logo.

Para informação mais detalhada clicar sobre a imagem da autoria do Professor Luís Miranda.

quarta-feira, setembro 19, 2007

O Middle West


A maravilhosa gaffe de Sócrates no discurso final do seu encontro com George Bush quando se referiu ao "problema do Médio Oeste" (the Middle West [sic] problem) mostra bem como funciona o subsconsciente de um governante saloio quando lhe resvala a boca em direcção à verdade. Terá sido sem querer, eu sei, Sócrates não queria dizer aquilo mas, ao dizê-lo, talvez tenha verbalizado o que lhe vai na alma em relação a tão incomodativo "pormenor".

Os árabes são os índios e os "aliados" ocidentais, com o Grande Satã à cabeça, são os cowboys da pós-modernidade. O desejo secreto e inconfessável seria o de transformar o Médio Oriente numa espécie de imenso Far East, uma Nova América onde pudesse florescer, renovada, the american way of life.

Dá para rir ou, pelo menos, sorrir. É reflexo de alguma ingenuidade de homens que não passam de meninos a brincar aos cowboys. Tanta amizade entre Sócrates e Bush mostra como estão aí para as curvas e são danados para a brincadeira. O que inquieta um pouco (ou muito) é pensar que os destinos do mundo estão entregues a personagens como estas conforme as responsabilidades de cada uma.

terça-feira, setembro 18, 2007

Sorrisos

Um salto até à página da White House (http://www.whitehouse.gov/news/releases/2007/09/20070917-6.html) permite ter acesso a uma verdadeira conversa de tótós entre os dois bonecos representados na imagem acima. Se o teor das conversas mantidas ao que chamamos "mais alto nível" é aquele estamos mal servidos. A formalidade da coisa e o vazio absoluto do discurso dão bem a imagem da hipocrisia que reina nas relações entre os poderosos deste mundo e respectivos lacaios de ocasião.
I do want to thank the people of Portugal for supporting your decision to help the people of Iraq and Afghanistan realize the blessings of freedom, and I appreciate that. diz Bush; And thank you also for the opportunity to discuss some of our more delicate matters in the international agenda, mainly the question of Kosovo and the Middle West [sic] problem. debita Sócrates na resposta. Note-se o pormenor da gralha do Middle West, com Sócrates a fazer o papel de burrico de serviço.
Enfim, leveza e vacuidade q.b. nos discursos destes dois matrecos, de tal forma que fica a sensação de estarem a brincar aos presidentes.
Uma coisa que impressiona nestas cenas são os apertos de mãos. Sorrisos de plástico mais ou menos amarelo a manterem-se o tempo suficiente para as fotos de ocasião. Neste aspecto particular o sorriso de Bush é muito mais eficaz. Sócrates parece estar com os tomates entalados na braguilha.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Silêncio


Afinal Santa Madre Teresa de Calcutá sofria mais com o silêncio de Deus que com as misérias que tão corajosamente encarou e combateu. A mulherzinha deixou registos da solidão sentida nos momentos de oração perante a falta de resposta do eventual Criador às suas preces. Isto foi notícia aqui há uns dias atrás e terá deixado muita gente perplexa, à beira de um estado de estupidificação absoluta.

Aguardei algum desenvolvimento deste tema, alguma declaração. Um esclarecimento, uma luzinha que pudesse incomodar a treva desse lugar de ausência assustadora, algo que restituísse a possibilidade de estar a santinha enganada ou, mais simplesmente, uma prova de que havia apenas alguma distracção da parte do Criador. Mas nada. Na verdade Madre Teresa bem tinha razões para se inquietar. À sua constatação do silêncio de Deus podemos ouvir como resposta apenas mais silêncio. Mas eu sou um gajo distraído, se calhar já alguém veio explicar o caso e fui eu que não me apercebi.

A igreja católica tem andado numa azáfama pouco habitual a beatificar pessoal a torto e a direito. O próprio Papa João Paulo II já está na fila e quase chegado à caixa registadora onde lhe será entregue o recibozinho que comprova ter pago conta suficiente para passar a ser considerado Santo. Tudo em nome de Deus. Tudo para recompensar aqueles que O serviram e confortar os que por aqui ainda vão acreditando que, ao serem boas pessoas, O estão a servir também.

Madre Teresa foi uma mulher excepcional. Se a santidade faz algum sentido decerto se lhe aplica com a justeza de uma luva plástica em mão de cirurgião. Daí que a sua dúvida perante a voz calada do Senhor cause mais incómodo que as fatiotas de luxo do Papa Ratzinger e não mereça fazer eco nos meios de comunicação social generalistas, muito menos naqueles que são controlados pela Santa Madre Igreja.

Fica a sensação que "vida é souvenir made in Hong Kong" como diz a canção de Zeca Baleiro, fabricada por trabalhadores miseráveis, sem direito a segurança social e com mais calos no cérebro que nas palmas das mãos.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Um filme daqueles!


Há filmes que são autênticas obras primas, não há? Filmes que têm um argumento absorvente, actores empenhados e convincentes. Filmes que nos prendem os sentidos do primeiro ao último momento. Filmes onde todos os planos contam, todos os planos foram estudados e preparados com igual minúcia e nós percebemos isso. Filmes onde até as pequenas coisas que acontecem por acaso ganham um significado grandioso. Filmes que são objectos perfeitos, coisas excelentes e admiráveis. É por isso que tanta gente gosta de cinema. Mesmo aqueles que apenas consomem o banal milho dos pardais, que apenas vêem os filmes mais comerciais (que os há bons, também!) gostam do grande cinema, só que não o sabem porque nunca viram o grande cinema com aqueles olhinhos de ver.
Tudo isto vem na correnteza de ter finalmente visto As Vidas dos Outros(http://www.imdb.com/title/tt0405094/) galardoado com o Oscar de melhor filme estrangeiro pela academia de Hollywood no presente ano. É que este é um filme daqueles, como já muita gente sabe porque já muita gente o viu e não acredito que haja uma alminha que seja que, no final, possa dizer: "não presta para nada" ou "não gostei" ou outro comentário enfastiado desse género.
As Vidas dos Outros é uma obra prima.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Passou


Passou o 11 de Setembro e nada. O Mundo continua a girar, a girar, a girar sem parar. Deve ser por isso que o mundo parece estar sempre tonto. As datas não têm aquele poder mágico que, por vezes, lhes atribuímos. Basta lembrar a célebre noite de passagem de ano para o século XXI.


O mundo ia acabar.
Bom, esta era difícil de engolir, mas, mesmo assim, houve muito boa gente que, pelo sim, pelo não, lá foi encomendando a alminha ao Criador. Seja como for convém chegar a uma data deste calibre com a consciência mais ou menos tranquila e limpa de lixo que se note demasiado. Entre os católicos há aquela cena do arrependimento que, ao que parece, pega bem com o Deus deles. Esfolas um gajo. Se te arrependeres tens hipótese de te safares do Inferno porque esse tal Deus é um tipo compreensivo.
Mas, nesta história de o mundo acabar em data certa, havia uma coisa que, na minha cabeça, não fazia sentido absolutamente nenhum. Quer dizer, o ano 2000 era o fim do mundo para os povos que se orientam pelo mesmo calendário que eu. E os chineses? E os muçulmanos? Bem, os muçulmanos estão no ano de mil seiscentos e troca-o-passo, nem sei bem. O mundo iria acabar também para eles? O mundo pode acabar aos bocadinhos, sem aviso nem nada? Hoje aqui, amanhã acoli, conforme os calendários de cada povo e cada civilização?


O mundo não acabou.
O mundo continuou um bocadinho mais para a frente, igualzinho, quase sem tirar nem pôr, até que aconteceu aquela cena tenebrosa dos aviões a rebentarem com as torres de Manhattan e o mundo todo a ver aquilo, de boca aberta, ainda mais tonto do que é habitual, o mundo a sentir que lhe fugia o eixo do sítio. Mas lá se aguentou. Naquele dia (há quantos anos foi? Há 5, 6?) o mundo não acabou mas mudou. Como sempre mudou para pior. Alguém se lembra de uma data em que o mundo tenha mudado para melhor, assim, de repente? Decerto que há datas que marcam acontecimentos positivos para o mundo, de um modo geral, mas num post como este nem ficar bem admitir, sequer, uma coisa dessas.
O resto da história todos nós conhecemos. Uns melhor, outros pior, estamos cientes do que está a acontecer actualmente: os estados democráticos andam às aranhas consigo próprios, a cederem no capítulo das liberdades individuais por questões de segurança, a tornarem-se progressivamente em estados policiais; os EUA cada vez mais tresloucados a ameaçarem meio mundo de porrada e a perderem o crédito de terem a estátua da Liberdade lá na terra deles; os chineses, campeões do desrespeito pelos direitos mais básicos dos seres humanos a chegarem-se à frente para se tornarem os próximos timoneiros desta barca dos loucos que é o planeta Terra.


O mundo vai acabar.
Mas não me parece que haja uma data previsível. Pelo menos para já. Ontem não aconteceu nada de terrível a nível planetário mas houve uma mãe que, supostamente assassinou os dois filhos que, todos dizem, muito amava, e depois se terá suicidado. Aconteceu em Viseu, ontem, 11 de Setembro. Esta data passará a ter um significado diferente para um certo conjunto de pessoas. O mundo, para elas, terá acabado. Mas foi em 2007.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?

Uma notícia excelente!!! O governo (o nosso, sim, o nosso!!!) acaba de aprovar o aumento dos benefícios fiscais para empresas já instaladas ou a instalar no interior do país com o objectivo de promover a célebre discriminação positiva! Não é uma excelente notícia? Não faz com que tenhamos uma súbita vontade de nos tornarmos empresários e abalar de armas e bagagens para o interior do Portugal profundo e abrir, por exemplo, uma exploração suinícola no Pulo do Lobo? Se fizermos isso teremos benefícios fiscais na ordem dos 15%! 15% é assombroso. É bestial. É uma ideia genial que vai contribuir para a reflorestação humana do interior desertificado do nosso país. Uma medida destas faz um gajo desejar ser descriminado.

Bom, é claro que, caso esteja a pensar abrir a tal empresa, convém ponderar alguns aspectos novos na realidade social do Portugal profundo, aspectos esses também da responsabilidade da genialidade de alguns dos nossos actuais ministros e respectivos ministérios (que estes gajos, os ministros, são, muitas vezes, meras máscaras, fachadas com um oríficio fonador que se limitam a deitar cá para fora os soundbites relativos a ideias que raramente são deles, são uma face visível do mostrengo que nos governa).

Estou a lembrar-me dos Centros de Saúde que fecharam por esse país fora. Se pretende tornar-se empresário e gozar dos 15% de benefícios fiscais oferecidos pelo governo do PS convém que seja saudável ou então, caso sofra de bicos-de-papagaio, tente abrir o seu negócio perto de um Hospital regional.

Além de saudável deve também ser solteiro ou, pelo menos, não ter filhos. Isto, claro, se pretender abrir a sua empresa numa zona onde tenha sido fechada recentemente a escola primária. Claro que se os seus filhos estiverem já em idade universitária os seus problemas são outros.

Isto para não falar das pessoas que irão trabalhar consigo ou para si. Das duas uma: ou as leva consigo ou as recruta lá, no Portugal profundo. Convém que os seus futuros colaboradores sejam igualmente saudáveis e livres de compromissos com menores de 18 anos, tudo isto dependendo, claro está, da localização exacta do seu sonho tornado realidade: benefício fiscal de 15%... caramba...

Parece haver aqui uma certa esquizofrenia (para não lhe chamar falta de coerência ou destrambelhamento total). 1º fecham-se Centros de Saúde e Escolas empurrando progressivamente as populações mais jovens em direcção às cidades. Depois vem-se com esta ideia de beneficiar empresários que queiram construir um mundo diferente no interior do país. Uma no cravo outra na ferradura!

Não parece fazer muito sentido mas, se percebermos que as medidas tomadas são iluminadas pela deusa Economia, então talvez dê para perceber que não têm de primar pela sensibilidade ou por uma particular inteligência humanista. São números, ideias sem alma, coisas frias com laivos de estupidez da grossa quando analisadas sob o ponto de vista de uma inteligência mais emocional.

Mas pronto, é o governo que temos e o 1º ministro pode ter sido um universitário de quarta categoria numa universidade manhosa mas é nosso e, por enquanto, não temos outro. Por isso convém acarinhá-lo para que não tenha a tentação de fugir (como o outro) e acabe a nomear algum sucessor para o cargo ainda pior do que ele.
Cruzes canhoto, lagarto, lagarto, lagarto!

sábado, setembro 08, 2007

Arguido

Em termos de exposição para a opinião pública, a figura jurídica do arguido é uma valente merda! Sempre que decorre uma investigação ou existe uma queixa sobre determinado indivíduo e sobre ele cai nem que seja uma leve sombra de suspeita, temos um arguido. Ou seja, na realidade um arguido está, à partida, tão inocente como no momento em que a mãe o deitou a este mundo. Um arguido está longe de ser acusado do que quer que seja. Ser arguido num processo judicial é assim como estar no Purgatório. Nem no Céu muito menos no Inferno. A merda é que, para a opinião pública, existe alguma confusão entre arguido e acusado e, muito pior, muito mais merdoso, entre arguido e culpado!
Os meios de comunicação muito contribuem para esta salsada ao atirarem grandes títulos, gordos e tonitruantes, para as primeiras páginas. FULANO DE TAL FOI CONSTITUÍDO ARGUIDO NO PROCESSO!!! Pronto. Está frito, cozido, assado e escalfado! É como se não houvesse mais nada a fazer senão decidir a cor do fato que irá usar na prisão. A confusão instala-se, a populaça aparece de imediato, saída de debaixo das pedras da calçada, ululante, reclamando aquilo que imagina ser Justiça: o linchamento do arguido.
O célebre casal McCann, pais da pequena Maddie, desaparecida vai para demasiado tempo na Praia da Luz, foram constituídos arguidos no processo de averiguação que desde então decorre por estes lados. Outrora apaparicados por uma opinião pública chorosa, amável e compreensiva, Kate e Gerry foram apupados pela turba quando se dirigiam para as instalações da polícia, a fim de prestarem declarações. Não foram acusados de nada. Apenas passaram de testemunhas a arguidos o que lhes dá outro tipo de direitos nos interrogatórios em curso. O sistema judicial é demasiado confuso e complexo para um leigo como eu.
Na verdade estou-me bem a lixar para todo este processo, mais circense por via do mediatismo que ganhou, do que coisa séria e seca como devia ser um processo judicial discreto e circunspecto. O que me impressiona é a facilidade com que a populaça muda de opinião e atitude, ao sabor das nuances mediáticas e transforma com ferocidade os seus herois em vilões por dá-cá-aquela-palha. Espero que nos fim de toda esta feira mediática de aberrações impossíveis, sobre alguma margem para que se faça Justiça. E, já agora, caso seja possível, que prevaleça qualquer coisa parecida com a Verdade.
Até lá, deixemos os arguidos em paz.




quinta-feira, setembro 06, 2007

A Mosca no écrã

Na sequência do meu recente ataque de revivalismo cinematográfico dei por mim a ver A Mosca de David Cronenberg acompanhado pela minha filha e pelos meus sobrinhos. Uma espécie de sessão educativa para a vertente mais jovem da família.
Apesar da distância cronológica (o filme foi realizado em 1986) A Mosca mantém alguma da frescura que lhe valeu elogios entusiásticos quando apareceu nos écrãs. Surpreendentemente, o aspecto "anos 80" dos protagonistas, com os seus penteados tipo Luís XIV, não provocou gargalhadas entre a nossa pequena plateia. A narrativa bem marcada e escorreita deslizou pela sala com à vontade prendendo os jovens espectadores. A coisa só tremelicou um pouco quando a transformação do Dr. Brundle (Jeff Goldblum) começou a tornar-se mais evidente. Principalmente o mais pequeno dos espectadores, o Pedro de apenas 10 anos, teve alguns momentos um pouco mais emotivos, por assim dizer. Mostrou sabedoria ao fechar os olhos sempre que eu lho aconselhava, nas cenas em que os efeitos especiais, muito crús, poderiam tornar-se um pouco mais arrepiantes. Não resistiu a uma espreitadela desaconselhada, o que lhe arrancou alguns gritinhos.
No final algum nojo e muito bom humor coloriram os comentários. Tudo somado tratou-se de uma noite gloriosa para o realizador canadiano que ganhou mais dois potenciais espectadores (já lhes aconselhei eXistenz, uma vez que os jovens gostam tanto de jogos e realidade virtual) e acabámos bem divertidos.
Entretanto tenho ali em cima da mesa Taxi Driver. Mas esse será visto em sessão mais restrita.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Ele detesta(va) o poder!



Ver paulo Portas nestas imagens não deixa de ser uma experiência estranha. O tom de voz afectado, os gestos amaneirados e, sobretudo, o discurso disparatado, não colam com o Paulo Portas do vídeo que se segue. Aqui Portas afirma que é "geneticamente contra o poder", que o poder é a pior coisa do mundo e que caso algum amigo um dia venha a ser ministro ele deixará de lhe falar! Um gajo diz cada tolice. A cereja em cima do bolo é a conversa sobre o Ministro do Mar que fecha esta peça de antologia (note-se bem a colecção de cromos que estão naquele friso, é de loucos!).



Ha,ha,ha,ha, então não é que Portas chegou a Ministro! Certamente deixou de falar consigo próprio o que explicará muitas das cretinices que tem cometido ao longo da sua vida política. Depois temos a celebérrima cena do espanto do Paulinho quando soube que seria Ministro dos Assuntos do Mar. Essa cara de parvo é impagável. A cara de parvo e a pose empertigada de menino da mamã que a seguir ele põe, todo esticadinho, a fazer gala da sua alegria de tontinho, com o coração aos pulos.
Este episódio foi um dos muitos que contribuiram para o asfixiamento de uma certa criança na incubadora, na linguagem colorida do homem que anda por aí. A imagem de desorganização total e estupidificante dada por um palhaço que fica surpreendido quando é nomeado ministro não tem paralelo nem nos sketches mais mirabolantes dos Gato Fedorento. Este é um caso daqueles em que a realidade ultrapassa (de longe) a mais delirante ficção.
Vai-te esconder, ó Paulo. Tem vergonha que eu também.

Fanzine


Está em preparação um novo blog intitulado MUMIA (http://mumiafanzine.blogspot.com/). Trata-se de uma tentativa de recuperação do espírito dos Fanzines publicados vai para uma eternidade. A equipa responsável pelo arranque da coisa é constituída por mim, pelo Fonte Santa e pelo José Fonseca. Ainda estamos numa fase algo incipiente mas em breve a MUMIA será algo completamente diferente!
Está dada a notícia do nascimento da MUMIA. Longa vida à MUMIA!

terça-feira, setembro 04, 2007

O fim


As tropas inglesas já vão saindo de Bassorá. Vão de fininho, sem grandes ondas, em tom a fazer lembrar fim de festa. A ressaca é grande e, como qualquer adolescente após ter feito asneira da grossa por ter levado os instintos animais para lá de Marraquesh, os soldados de Sua Majestade deixam passar algum ressentimento. Ao que consta, altos responsáveis das tropas britânicas, revelam agora que desde os primeiros encontros com Rumsfeldt tiveram a sensação de que não havia planos consistentes para depois da invasão. Numa exibição de suprema estupidez, os senhores da guerra norte americanos sempre estiveram convictos de que os iraquianos iriam aplaudir as tropas invasoras, sequiosos de Coca-Cola e hamburgueres manhosos, agitando bandeirinhas em intermináveis desfiles celebratórios. Não há memória de tamanho erro de cálculo!
Bush fez a surpresinha de aparecer no Iraque para dar umas palmadas nos costados da soldadesca e garantir que caso os "êxitos actuais" (!!!???) da política americana no Iraque se mantenham serão necessárias menos forças no terreno. Se assistimos ao êxito americano nem quero pensar o que seria do Iraque e dos iraquianos caso as coisas estivessem a dar para o torto.
Com os "bifes" em maré vazante e a guerra civil em cavalgada constante só mesmo Bush consegue estar sorridente e confiante num futuro radioso. O homem ou é verdadeiramente um pobre de espírito, dos mais pobres que a Humanidade jamais teve oportunidade de lamentar, ou então é verdadeiramente aquilo que a criancinha da imagem anuncia com aquele sorrisinho maroto de quem, tal como Bush, não sabe bem o que está a fazer mas até acha piada à coisa.
Seja como for, o fim da aventura assassina no Iraque está para breve, pelo menos para os ocidentais que para os iraquianos a coisa vai manter-se por muitos e duros anos. Será que o maluco de Washington está já a pensar bombardear o Irão? Há indicadores pouco animadores nesse sentido. Deus nos livre.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Samões

Serve este post para convidar o leitor a dar um pinote até
http://www.joaosamoes.blogspot.com/ onde pode passear o olhar sobre um conjunto de trabalhos de João Samões, bailarino, performer, coreógrafo, desenhador, pintor e mais que seja. Em tempos que já lá vão fomos cúmplices em várias actividades mais ou menos artísticas, mais ou menos outra coisa qualquer. Foi assim. Agora também.

Museu Berardo


Finalmente lá me dignei encontrar uma razão plausível para visitar pela 1ª vez a célebre colecção Berardo exposta no agora designado Museu Berardo (http://www.berardocollection.com/?TopLevelID=1&lang=pt). A razão plausível teve a ver com uma tarde passada em família sem nada de muito importante para fazer no horizonte e, pronto, então vamos lá ver aquilo!

A curiosidade não se prenderia tanto com as obras expostas. A maioria (ou pelo menos uma parte significativa) transitou do Museu de Sintra onde anteriormente se amontoavam com nítida falta de espaço apesar da boa vontade. Tinha mais interesse em ver como resultaria a ideia de fazer um Museu com o nome do coleccionador/comendador Berardo, recentemente transformado numa espécie de óraculo da vida pública nacional cujas opiniões e profecias sobre banca, bolsa de valores ou futebol do Benfica, o trazem com uma frequência inaudita para as primeiras páginas dos jornais e para os écrãs lá de casa. Berardo transformou-se numa espécie de empresário do regime, o exemplo acabado do self-made man de sucesso neste mundo canídeo em que habitamos. Uma vedeta que parece viver em permanente estado de graça e em felicidade absoluta. A vida corre-lhe bem e ele mostra-o com uma alegria quase infantil em cada intervenção pública.

Quanto ao Museu lá está, como se previa, uma imensa exposição de obras de arte contemporânea das mais variadas proveniências e períodos artísticos, movimentos e grandes nomes. Um luxo lisboeta oferecido a quem o quiser desfrutar naquele ambiente limpinho característico do CCB. O Museu Berardo está ao nível de qualquer grande museu europeu e, nesse aspecto, cumpre perfeitamente a função sem surpreender ou deslumbrar. Para quem tenha visitado a Tate Modern ou o Thyssen-Bornemisza, para citar dois exemplos, poderá até dar a sensação de ser mais do mesmo o que é, só por si, muito bom.

Enfim, Lisboa passa a fazer parte de um circuito específico, o das cidades europeias com relevantes colecções de arte contemporânea que permitem ao turista cultural passear-se calmamente numa floresta de obras interessantes e com interesse, completando a sua colecção de recordações artísticas. Sem deslumbrar nem comprometer. Para gozo do comendador e glória do Senhor Berardo.

sábado, setembro 01, 2007

SE7EN

Rever filmes que nos deixaram a sensação de serem objectos cinematográficos relevantes é um desporto altamente recomendado. Rever Se7en, de David Fincher, é uma atitude algo temerária. Trata-se de um filme excelente sob todos os aspectos. Um filme terrível!
Revi-o ontem à noite em DVD que recolhi na Biblioteca Municipal, uma edição da Série Y que saiu com o jornal Público. É uma edição de fraca qualidade que não respeita na íntegra o formato da imagem mas, enfim, um gajo sempre pode fazer olhos de consumidor e fingir que não repara.
Embora tenha visto o filme apenas na altura em que passou aí pelas salas de cinema, recordava muitas cenas com um rigor fotográfico que me surpreendeu. Isso mostra até que ponto Se7en se me cravou fundo no cérebro e passou a fazer parte da minha memória individual.
Mais do que a violência explícita de algumas imagens, Se7en impressiona pela violência implícita, aquilo que não vemos muito bem mas podemos intuir pelas expressões dos actores ou pelas suas reacções em determinadas cenas.
O momento mais brutal em todo o filme, aquele momento marcante que me deixou a pensar na vidinha, é quando os detectives transportam o assassino no banco traseiro de um carro, separados por uma rede, como quem transporta um animal selvagem e o mais jovem o acusa de matar inocentes. Então o animalesco John Doe (Kevin Spacey) debita um discurso verdadeiramente atroz e cruel. Animado por uma lógica inumana e implacável mostra como todos nós somos tudo menos inocentes e, como tal, na sua perspectiva enviesada do mundo e das pessoas, todos somos merecedores dos mais atrozes destinos, como o foram as suas vítimas.
Depois as cenas finais, em que o argumento fecha num grande final delirante de maldade e violência interior de forma sublime e simplesmente brilhante.
Uma obra prima. A rever.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Para toda a família

Escolher um filme para ver com a minha filha quando ela já assistiu a todos os que eu quereria ver levou-nos a este The Last Mimzy, para maiores de 6 anos(http://www.newline.com/properties_the_last_mimzy.html) .
A sala tinha poucos espectadores, algumas crianças e muitos baldinhos de pipocas. Espectadores que se levantavam e saíam para logo voltarem a entrar, enfim, ambiente de sala de estar em sessão de Sábado à tarde, na TV lá de casa.
À parte este ambiente descontraído e muito pouco cinéfilo, o filme revelou-se uma fábula com sabor de ficção científica, apimentado com uns pózinhos ecológico-moralistas. Tudo muito misturadinho e com apresentação cuidada ao ponto de saber bastante bem sem nunca correr o risco de enjoar.
Fez-me lembrar qualquer coisa entre o ET e os Encontros Imediatos do 3º Grau, muito spielbergueano, portanto, o que é mais um elogio do que um reparo. Um filme agradável para ver acompanhado por menores de 18 anos.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Never Ending Story

A guerra no Iraque continua sem que se lhe vislumbre qualquer desfecho.
Os grupos rivais batem-se de forma encarniçada. As tropas americanas andam lá no meio sem saberem para que lado se hão-de virar, levando e dando porrada a torto e a direito, elevando diariamente o número de vítimas mortais e os estragos provocados obrigarão a investimentos de recuperação com valores astronómicos mas não tão astronómicos quanto os gastos de manutenção da carnificina. Uma verdadeira confusão.
Estamos perante um dos maiores erros de avaliação da história recente. Quando se lançou na aventura iraquiana, Bush, seguramente um dos homens mais estúpidos ao cimo da Terra, estava convicto da supremacia americana a todos os níveis: militar, político e moral.
Estava de tal modo confiante que não hesitou em inventar desculpas esfarrapadas para justificar a invasão. A vitória esmagadora com que contava serviria para camuflar essas mentiras uma vez que, isso é ciência certa, são os vencedores quem escreve a História. Só que Bush, neste caso, está longe de ser um vencedor, bem antes pelo contrário.
Vai sendo tempo de retirar todo e qualquer apoio a este doido varrido. Aqueles que apoiaram a guerra no seu início, convencidos da justeza da agressão, enganados pelas mentiras de Bush (lembram-se daquele número patético de Colin Powell na ONU, exibindo provas inequívocas da existência de armas de destruição maciça?) deveriam reconhecer o logro em que caíram e voltar atrás nas suas posições belicistas. Antes que a guerra no Iraque se transforme em mais uma Never Ending Story (ler os textos de Rui Tavares em http://ruitavares.weblog.com.pt/).
Em toda esta história de terror há um pormenor que me incomoda e inquieta. Falo da aparente facilidade com que se tomam decisões tão graves, como declarar uma guerra de consequências imprevisíveis, baseadas em informações distorcidas ou erradas fornecidas pelos serviços secretos norte-americanos. A CIA é, supostamente, uma máquina de recolha e tratamento de informação, uma máquina altamente eficaz e bem oleada. O que podemos agora constatar é que se trata, afinal, de um grupo de tótós, capaz de cometer e ampliar erros de avaliação tão grosseiros como aquele que levou a guerra do Afeganistão para o Iraque lançando o Império Americano naquele que será o seu derradeiro estretor.
Quando esta história conhecer o seu epílogo o que restará dos EUA? Qual a credibilidade das futuras administrações americanas em termos de política internacional?
Bem pode o eixo China-Índia começar a preparar os seus planos de dominação à escala planetária. É ali que vão nascer os Senhores que se seguem.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Transmutação



The Eurythmics - Sweet Dreams (Are Made of This)



SWEET DREAMS - Marilyn Manson

Comparar estas duas versões do mesmo tema musical poderá dizer-nos algo sobre uma certa transmutação de imaginários no mundo ocidental entre os anos 80 e a actualidade.
A uma certa luminosidade e algum humor sucede agora uma espécie de sujidade glamourosa e estilosa, carregada de nuvens negras. Eu sei que Manson abusa e adora exibir-se em poses mais ou menos fantasmagóricas, que os meios técnicos e de produção actuais estão a anos-luz dos que tiveram à sua disposição Annie Lenox e parceiro mas não deixa de ser curiosa a forma como sonhos cor-de-rosa podem gerar objectos mediáticos tão distintos.
Sinais dos tempos?

terça-feira, agosto 28, 2007

O milagre

Olhando para os preços dos manuais escolares e as quantias que é necessário investir neste início de ano lectivo fica-se de boca aberta. Segundo notícia do Público o custo total dos manuais para um aluno do 7º ano de escolaridade obrigatória pode chegar aos 192 euros.
Teoricamente o ensino obrigatório é gratuito mas perante valores deste calibre bem vemos que não passa mesmo de teoria. Além dos manuais há toda a restante parafrenália de materiaizinhos para o menino e para a menina e aí vão mais umas notas valentes pelo cano abaixo. Isto é muito caro. Quase pornográfico de tão agressivamente horroroso!!!
Se pensarmos nas médias de ordenados que os pais das criançolas auferem e nos lembrarmos que ainda há rendas de casa, contas de bens essenciais, alimentação, etc., facilmente percebemos que o regresso de férias é um pesadelo a todos os níveis. Como conseguem as famílias portuguesas equilibrar os seus orçamentos?
Mas há mais. Com os juros dos empréstimos bancários que não param quietos e teimam em subir, com os ordenados que não sobem, como é possível sobreviver nesta selva consumista? Pagamos a gasolina caríssima, os preços das telecomunicações começaram finalmente a descer mas foram, durante os anos de monopólio da PT, dos mais caros da Europa. Os bens de consumo essenciais não parecem estar ao alcance da maioria da população.
Neste panorama não é de admirar que os teatros estejam às moscas e os bens culturais, de um modo geral, sejam coisa para as elites que por eles se interessem. Tudo fica cada dia mais caro e os ordenados estagnam em valores quase ridículos!
Pensando nisto não é fácil perceber como conseguem as famílias portuguesas viver com a dignidade que pensamos que merecem. A menos que haja por aí algum milagre.

sábado, agosto 25, 2007

EPC

Após ter postado o texto anterior, saltei até à página do Público online e deparei com esta inesperada notícia:Faleceu Eduardo Prado Coelho, intelectual público (ler em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1303165).
Agora vai ser tempo de elogios fúnebres. Toda a gente irá descrever a grandeza intelectual de Prado Coelho e louvar a excelência dos seus textos bem como a argúcia dos respectivos argumentos. O costume.
Quero apenas referir que sempre li com razoável atenção as suas crónicas. Algumas vezes pareceram-me excelentes, outras uma desgraça completa. Escrever diáriamente num jornal com a aura de excelência como o Público não é tarefa para qualquer um mas Prado Coelho fê-lo com qualidade e atrevimento. O seu Fio do Horizonte funcionava como uma espécie de Blogue. Acaba amanhã.

Fazendo a digestão

In Bed (2005) by Australian-born sculptor Ron Mueck

Há momentos em que a fronteira que separa o mundo visível daquilo que o rodeia parece abandonada à nossa sorte. Por vezes acontecem coisas incompreensíveis ou inacreditáveis, coisas tão fantásticas que abalam as nossas crenças mais enraízadas, pondo em causa a certeza de que existe uma realidade comum a partilhar entre todos, regida pelas leis da Física, da Química, da Matemática e de outras ciências que de exactas guardam o nome e, talvez, pouco mais do que isso.
Quando a alfândega da tal fronteira fica vazia, nem que seja por um momento apenas, fantasmas, sonhos e outras bizarrias aproveitam para se esgueirar discretamente fazendo-nos visitas de todo inesperadas e que nos levam a estremecer num arrepio de frio que logo se transmuta em calor e incómoda transpiração. O que aconteceu? Nada de especial, se bem que extraordinário. Apenas as fronteiras do mundo foram violadas e o nosso cérebro, habituado a encarar a realidade como sendo algo mensurável e razoavelmente explicável, fica confuso na busca instintiva de uma explicação para algo que, segundo as regras deste lado da fronteira, pura e simplesmente não tem qualquer tipo de explicação.
Nestes momentos de angústia em que nem o padre nem o cientista têm respostas que nos satisfaçam e apontem um caminho redentor, entra em cena o poeta que, sem explicar nada, nos coloca perante uma possibilidade nova, uma imagem improvável e perturbadora que, quanto mais não seja, tem o condão de nos sossegar.
Há quem diga que a salvação da alma não está na religião nem na ciência mas sim na arte. Como poderemos saber? Há também quem ponha em causa a existência dessa alma. E de Deus. E da ciência.
Fico por aqui. O guarda da alfândega regressou ao seu lugar. Acabou a sua hora de almoço. É tempo de fazer a digestão.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Mais sangue que outra coisa qualquer

Finalmente vi este filme. Em casa, DVD pirata, bem instalado e melhor acompanhado.
Pareceu-me um filme bem intencionado. Um filme a pretender denunciar a falta de humanidade e regras básicas que aflige demasiados dos nossos no continente africano. Quando digo "nossos" estou a referir-me aos seres humanos que habitam aquela parte do continente esquecida por Deus mas bem referenciada pelas multinacionais do lucro fácil, dirigidas por vampiros de longe mais sedentos que Vlad, o Empalador.
O filme acaba por ser um produto industrial mais ou menos bem embalado. A figura de Leonardo Di Caprio acaba por enrolar a personagem que interpreta levando-a a transformar-se demasiado rapidamente, de demónio sedento de diamantes a anjo preocupado com o crescimento e a educação do pequeno Dia. Enfim, muitas fragilidades narrativas e pouca coragem na produção. Acabamos todos do mesmo lado. Os maus são castigados e os bons recompensados. Apenas a personagem de Di Caprio fica ali, a meio caminho da redenção. O mau que acaba por se tornar bom ou o bom que, na verdade, nunca foi realmente mau? Seja como for tem uma bela e santa morte.
Se não viste podes não ver. Se já viste, talvez possas acrescentar qualquer coisa a este post pouco entusiasta. Seja o que for.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Gato escondido com o rabo à mostra

Já tinhas ouvido falar de um Blog intitulado Luís Filipe Menezes? Não? Ouviste falar recentemente? Pois, também eu. Nunca tinha ouvido falar desse obscuro lugar da Net até aqui há dois dias atrás, quando saiu uma notícia no Público que falava de apropriação descarada de textos alheios pelo suposto responsável do Blog http://luisfilipemenezes.blogspot.com/.

"O blogue de Luís Filipe Menezes é feito por um dos seus assessores, afirmou ontem António da Cunha Vaz - da agência de comunicação que foi contratada para fazer a campanha do autarca de Gaia para a liderança do PSD. Em causa está a notícia do PÚBLICO de ontem, que revelava que o presidente da câmara assinara artigos copiados, nomeadamente da Wikipédia, sobre Michelangelo Antonioni, Bergman, Hiroxima e Miguel Torga.Admitindo os erros de não-citação das fontes dos textos nele contidos, António da Cunha Vaz afiançou que se trata de um "blogue pessoal" e não de um blogue do candidato à presidência do Partido Social Democrata, que Menezes já tem há muito tempo. Não foi explicada a aparente contradição de Luís Filipe Menezes ter um blogue "pessoal" que é gerido pelo seu assessor. Nem o facto de os artigos sobre Miguel Torga, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman e Hiroxima terem sido copiados de outras fontes, sem que a sua origem apareça referida. O blogue em causa era apresentado no Google como o "Weblog do candidato à Presidência da Comissão Política Nacional do PSD".
Público de 23.08.2007, Ricardo Dias Felner

Não sei se a notícia tinha como finalidade informar apenas ou se o seu autor caiu na esparrela e, inadevertidamente, acabou a prestar um servicinho ao Dr. Menezes, dando visibilidade ao seu (péssimo) Blog. Algo que, afinal de contas, eu também estou a fazer se bem que na escala mínima a que corresponde o 100 Cabeças.
Passar os olhos por aquela coisa serve para termos consciência da falta de qualidade dos candidatos a candidato que pretendem vir a sonhar com a governação de Portugal. Não é só o facto de se utilizarem excertos de textos alheios assinados pelo suposto autor do Blog que está em causa. Não é apenas o plágio grosseiro e descarado que causa repulsa. É também o pretensiosismo bacôco e a falta de perspectiva a roçar a infantilidade que enforma o pensamento de Menezes e de alguns dos seus supostos apoiantes que vão deixando mensagens no Blog, como ovelhas deixam caganitas no caminho que vão trilhando do pasto para o redil e vice-versa.
Este homem até poderá ser um bom médico, eventualmente terá inteligência suficiente para liderar o PSD mas parece evidente que, como político, não passa de um populista descarado que adora fazer-se de vítima para poder arrotar à vontade enormes e mal-cheirosas postas de pescada. O homem não presta.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Friedrich

Uma visita à Alte Nationalgalerie em Berlim levou-me até ao último piso de um palácio deslumbrante. Entre mármores de toque subtil e estuques de formas fantásticas fui subindo, subindo, até que, entrando despreocupado numa sala, senti aquela coisa especial que se sente de vez em quando, aquela espécie de esquisitice forrada a veludo que de repente nos entra no estômago e assenta levemente, preenchendo e completando o nosso corpo. (Eu sei, esta frase também me soa pomposa e algo pretensiosa, mas é o que se arranja e, acreditem, adequa-se bem ao que pretendo descrever.)
Tinha ido "desaguar" à sala de Caspar David Friedrich, (http://www.artcyclopedia.com/artists/friedrich_caspar_david.html pode ver-se aqui ou procurar outros lugares na NET, há bués!) o célebre pintor das pessoas de costas. Deslumbramento, será a expressão adequada. O brilho dos óleos de Friedrich, a perfeição quase doentia das formas e dos contornos, a luz espectacular que define os espaços por ele representados, fazem das suas pinturas pequenas maravilhas. Uma sala repleta de obras deste artista romântico alemão é um lugar mágico que provoca no espectador um sobressalto.
Entre todas aquelas salas e salas, cobertas, barradas de pinturas, como torradas com demasiada manteiga, encontrar Friedrich foi verdadeira revelação.
Ainda guardo a memória de uma lágrimazita que não chegou a cair.
Soberbo.

domingo, agosto 19, 2007

Drogas

MAI exclui tranquilizantes dos testes de droga feitos na estrada
(Público online) 18.08.2007, Andrea Cunha Freitas
Autoridade Nacional deverá comunicar normas "claras e precisas" às forças de segurança
Já não há margem para dúvidas. O Ministério da Administração Interna emitiu ontem um esclarecimento onde definitivamente refere que as "benzodiazepinas não são incluídas no elenco das substâncias proibidas" previstas na portaria publicada a 13 de Agosto. Tendo em conta que os testes de despistagem de droga que entraram em vigor esta semana detectam a presença destas substâncias, o MAI sublinha que um resultado positivo neste caso não pode nem deve ser considerado pelas forças de segurança.

Esta decisão parece-me um pouco estranha. Então um gajo pode encharcar-se em benzodiazepinas e pegar no automóvel à vontade que não haverá qualquer tipo de penalização caso seja apanhado. Já se fumar uns charros o melhor é ir a pé ou pedir ao amigo drunfalhôco para ser ele a conduzir a carroça. Parece-me haver aqui uma espécie de injustiça, não sei bem, o que se pretende afinal com esta nova regra? Reduzir os riscos de acidentes na estrada prevenindo a possibilidade de haver condutores com reflexos diminuídos pelo consumo de certas substâncias ou moralizar o consumo de drogas através de uma nova ameaça de controlo sobre o seu consumo?
Para esclarecer um pouco as minhas dúvidas fui procurar "benzodiazepinas" no São Google e encontrei isto:


Efeitos (do consumo de benzodiazepinas)
Os seus efeitos ansiolíticos, provocam no indivíduo um estado de relaxamento muscular, sonolência, alívio da tensão e ansiedade, cansaço e letargia que podem ser acompanhados por desinibição, loquacidade, excitação, agressividade, linguagem afectada, sentimentos de isolamento ou depressão.
Doses elevadas poderão provocar náuseas, aturdimento, confusão, diminuição da coordenação psicomotora, sono, sedação excessiva, perdas de memória, lentificação do pensamento ou instabilidade emocional.

Bom, estes efeitos não me parecem muito aconselháveis para a condução de veículos motorizados. Se comparados com os efeitos provocados pelo consumo de erva, por exemplo, parecem-me até um pouco mais assustadores. O que levará o Ministério da Administração Interna a decidir que em caso de um condutor acusar este tipo de substância isso deva ser ignorado pelas forças policiais?
Todos sabemos que o consumo desta droga é, em Portugal, um verdadeiro problema de saúde pública. Há milhares de cidadãos "agarrados" a estas porcarias e caso passassem a ser penalizados na condução de veículos motorizados em breve teríamos as estradas meio vazias, o que até seria benéfico para o ambiente.
Como se trata de drogas legais e com dealers que são faramacêuticos autorizados não há problema. Mas os acidentes provocados por condutores drogados com receita médica não serão menos mortíferos que os outros.
Isto mostra até que ponto podemos ser cínicos nas medidas preventivas que tomamos para proteger a população de si mesma e dos seus desejos de evasão para qualquer paraíso artificial.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Parvónia


Portugal em Agosto vê agravar-se a confirmação de ser uma autêntica parvónia.

Toda a gente está de férias. O Parlamento não funciona, os tribunais estão fechados e acumulam processos, os ministros andam por parte incerta (onde estás tu, mulherzinha da Cultura?), os políticos de um modo geral arrastam as bundas atrás das respectivas carcaças, os jogadores de futebol parecem estar a digerir refeições impossíveis e jogam a 10 à hora. Até os incêndios deixaram de fazer notícia (haverá menos ou, simplesmente, os jornalistas evitam dar-lhes aquela dimensão épica a que nos habituaram nos últimos anos?). O marasmo habitual acentua-se e a proverbial falta de capacidade de intervenção da população na coisa pública é tão absoluta que merece estátua de granito.

Talvez seja assim que as coisas funcionam. Em Setembro regressa tudo cheio de ganas e vigor, a prometer mundos e fundos, a afirmar que "Agora é que vai ser!" que as férias serviram para "Recarregar as baterias." etc. e tal. Em Setembro promete-se um mundo reformulado a curto prazo, o paraíso e a bondade vão parecer reais nas palavras do costume.

No fundo todos sabemos que as coisas vão continuar a boiar num mar de merda e que, na verdade, apenas queremos saber o que é preciso mudar para que tudo continue na mesma. Como de costume. E não é por aí que vem mal nenhum ao mundo que já tem mal de sobra.

Enfim, a parvónia vai manter as suas características principais e imutáveis até ao final do ano. Em Janeiro "ano novo, vida nova"... até Agosto. Depois virá Setembro outra vez.

Haja fé.

terça-feira, agosto 14, 2007

Bem-estar animal

Uma notícia de última hora dá a conhecer o estranho caso de dois suinicultores detidos por desobedecerem à Inspecção do Ambiente (ver notícia em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1302227). Como de costume a coisa é bastante confusa uma vez que se trata de cumprir regras estabelecidas por leis. Ora as ditas regras teriam uma situação de excepção prometida pelo Governo durante um certo período de tempo e, imagino, fiados na tal situação extraordinária os ditos suinicultores ter-se-ão esticado um bocadinho na merdice que descarregam para o rio. Foram avisados, continuaram a encher o rio de merda e agora vão dentro que se lixam.
Mas a coisa não fica assim e está prometida uma manifestação "Vamos fazer uma concentração de suinicultores para manifestar a nossa preocupação", já que este tipo de fiscalizações pode conduzir ao "fim da suinicultura em Portugal". A concentração será junto ao Governo Civil de Leiria. As fiscalizações podem conduzir ao fim da suinicultura em Portugal!? Quer isto dizer que ou deixam os criadores de porcos fazer as coisas como muito bem entendem ou deixamos de ter costeletas e chouriças no mercado? Deus nos valha! A ameaça é grave e aterradora. Por um lado há a questão ambiental. Por outro a satisfação de uma necessidade básica da população que é a bela carnucha de porco. O meu coração balança.
No meio desta inquietante notícia há uma passagem que me deixa intrigado "Há um problema de licenciamento das suiniculturas em Portugal", mas aquelas "explorações têm declarações de bem-estar animal" que permitem aquele número de porcos, disse David Neves. que é o Presidente da Associação de Suinicultores lá do sítio. Declarações de bem-estar animal!!! O que quer isso dizer? Que os bichos vivem em condições óptimas até ao dia em que lhes cortam a gorja e os esquartejam em bifanas e presunto? Caramba, somos mais cínicos do que pensava.
Nunca mais vou comer escalopes descansado. Merda a boiar nas águas do rio e porcos de óculos escuros a gozarem um belo banho de lama num paraíso a prazo. Tal e qual como nós.

Partição

O conceito de partição aplica-se quando uma potência imperial decide abandonar um território habitado por diversas etnias ou mesmo antigas nações que, antes da ocupação imperialista, se organizavam segundo culturas ou credos religiosos diferentes. Os interesses imperialistas sempre provocaram "casamentos" indesejáveis ou improváveis entre antigos inimigos ou povos que nada tinham de comum antes da chegada das potências ocupantes.
A História mostra como a África ou a Ásia foram divididas, repartidas, reorganizadas, enfim, descaracterizadas, em nome dos interesses económicos das potências imperialistas. Durante séculos a "coisa" foi resultando com maiores ou menores problemas de convivência étnica normalmente amansados pelas forças militares e policiais ocupantes.
Ao longo do século XX assistiu-se ao sistemático surgimento de novas nações, resultantes da falência dos grandes impérios. Os processos de descolonização da maioria dos novos países tiveram como resultado imediato guerras civis sangrentas, processos de limpeza étnica arrepiantes, banhos de sangue intermináveis, alguns dos quais ainda perduram.
Vem isto a propósito do 60º aniversário do Paquistão, país saído de um dos processos de partição mais irresponsáveis de que há memória resultado da divisão da Índia entre hindus e muçulmanos após a retirada da Inglaterra em 1947, potência imperial mais interessada em lamber as feridas causadas pela 2ª guerra mundial do que manter um exército tão longe de casa.
Mas, pelos vistos, as lições da História custam a entrar nas cabeças duras dos grandes gulosos que governam as grandes potências mundiais. A actual guerra civil no Iraque aponta para um novo processo de partição. Após a invasão dos "aliados" ocidentais liderados pelos EUA e pela Inglaterra a degradação das condições de vida e de segurança nas principais cidades irquianas parecem não deixar alternativa que não seja dividir o país em 3 pedaços: uma zona de influência xiita, outra sunita e, finalmente, o temido Curdistão parece uma forte possibilidade para angústia da Turquia.
Mas há um pormenor curioso na maioria destes processos de partição. Normalmente resultam na separação das populações segundo credos religiosos. Católicos e protestantes na Irlanda, hindus e muçulmanos na Índia, xiitas e sunitas no Iraque e outras divisões ditadas por influências divinas menos reconhecíveis.
Para quem, como eu, pensava que os panteões divinos estariam a perder poder e influência nas orientações de vida das populações em detrimento da toda-poderosa Deusa Economia esta questão dá que pensar. Ou será que Economia, Alá, Jeová, Buda e outras divindades maiores fazem todas parte do mesmo estrato de uma realidade possível?

quarta-feira, agosto 08, 2007

Blue Man Group

Berlim oferece muitos motivos de interesse ao visitante ocasional. O "Blue Man Group" é um deles. Tive oportunidade de assistir a um dos seus espectáculos no Bluemax Theater na Potsdamer Platz. Um acontecimento difícil de classificar, algures entre o espectáculo de rock e a performance com muito humor à mistura. O único problema com que nos deparámos foi o de estarmos em Berlim e a língua alemã parecer mais ou menos inventada à medida que vai sendo falada.
De qualquer das formas foi uma noite bem passada e, no final, toda a gente saiu num estado de semi-euforia bem visível.
O clip que ilustra este post é de um espectáculo nos states que fez parte daquele a que assisti em Berlim. Em alemão, claro.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Férias (Silly season)

Visitantes deslumbrados com o painel "As Tentações de Santo Antão", de Bosch, a pérola mais valiosa do espólio do MNAA, na opinião da minha centésima cabeça (os mais atentos não deixarão de observar a parte de trás dos volantes com magníficas cenas pintadas em grisalha, um luxo absoluto!)


O 100 Cabeças prepara-se para partir em viagem. Berlim é o destino. Durante 5 dias percorrerei, acompanhado da família mais chegada, a capital alemã, numa viagem que promete muitas imagens e um ambiente urbano diferente daquele que temos por estas bandas da Velha Europa.

Entretanto uma notícia deixa o 100 Cabeças de cabeça confusa, a confirmar em pleno o clima típico da silly season. O afastamento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, Dalila Rodrigues, é uma surpresa incómoda e que confirma o ambiente tacanho em que vivem as instituições públicas no Portugal actual. (ler mais em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1301166).
O facto de ter feito subir o número de visitantes de uma média de 75 mil para 192 mil (em 2006) bem como ter captado mecenato para actividades e obras de remodelação bem visíveis e que muito contribuiram para a melhoria evidente da qualidade do espaço de exposição bem como das exposições temporárias apresentadas, parece ter pesado negativamente na avaliação do desempenho de Dalila Rodrigues.
A razão do afastamento da ainda directora do Museu prende-se com o desacordo público e notório que esta sempre manifestou relativamente ao modelo de gestão dos museus nacionais. Estamos perante mais uma decisão arbitrária e sem qualquer tipo de fundamento, levada a cabo por uma administração incompetente e mesquinha, de um provincianismo que faz corar os pastores da Serra da Estrela. Com uma ministra da cultura como Isabel Pires de Lima tudo pode acontecer. Mesmo aquilo que, à partida, possa parecer impossível. Uma ministra muito "silly" e completamente fora de qualquer "season".

quarta-feira, agosto 01, 2007

Nostalgia súbita!

Ia hoje de manhã no meu carro quando me lembrei de ligar o leitor de cassetes (sim, leitor de cassetes!!! Não tenho DVD no meu carro). A música de súbito irrompeu com uma energia que já me tinha esquecido que a música podia ter. Era Rock Lobster dos B52's. E lá fiquei meio aos pinotes meio nem por isso já que ia a conduzir e não dava para bater o pé sobre o pedal do acelerador. Fiquei-me pelo abanar a cabeça e esticar o pescoço ao ritmo alucinante deste tema. Aqui fica um dos vários vídeos que estão à disposição nessa espécie de montra divina que é o You Tube.