terça-feira, março 23, 2021

Fica pr'amanhã

Queria escrever sobre esta dúvida que me vai roendo as unhas ao juízo: é a guerra um crime? Mas já não sei se o faça, prefiro ouvir uma guitarra eléctrica a rasgar o espaço, a fazer do tempo uma tempestade uma coisa tensa e bela, o tempo da guitarra eléctrica. A guerra que se lixe, o crime que se amanhe, a gente está diluída de tanto confinamento. Caraças.

Queria reflectir sobre se matar quem nos vem matar é passível de ser considerado crime. Mas estou a ouvir os Stooges e essa questão mistura-se num manancial desenfreado de som e fúria e a coisa já não se me afigura tão premente.

"Now I wanna be your dog"... o que me resta pensar quando esta frase me esfuranca o juízo (já sem unhas)? Nada, nadinha, népias, néribi! Agora a minha mente voga nas ondas da guitarra, vai de encontro aos tambores, abana-se nas notas estridentes do piano.

Amanhã preocupar-me-ei.

quarta-feira, março 17, 2021

Desambição

Havias de contar-me o teu segredo para que eu não soubesse o que fazer-lhe. Havias de me olhar com o espanto de quem vê o contemplado não ser capaz de abrir o presente que lhe oferecem. Havias de esquecer-me por não estar à altura de sonhar nem dos teus sonhos.

Nunca fui capaz de compreender o significado de ambição e isso inunda-me com uma timidez imensa capaz de afogar quimeras e ideias enquanto não souberem nadar. 

Não sou capaz de subir esses degraus.

Continuo no trabalho insano de semear coisas incompreensíveis no manto diáfano da poesia. E não compreendo a poesia, por isso lhe escavo as sombras e lhe deito dentro sementes que não conheço. Fico à espera de ver o que ali nasce, o que ali haverá de crescer. 

O que for será; por estranho que surja, por imenso que possa parecer, por mínimo que se revele, o que resultar desta minha desambição irá permanecer.

Não quero descer esta escadaria. Fico aqui mesmo, neste lugar imóvel onde sou.

terça-feira, março 16, 2021

Casa nossa

O sol atrai as pessoas para o exterior das suas casas. O calorzinho de uma Primavera anunciada (a Primavera está quase quase aí) aconchega e faz o corpo relaxar. Assinamos um armistício com o Planeta apesar da pandemia. Juramos amor à Terra, prometemos que tudo faremos para a proteger... de nós próprios!?

Espera lá, ecologista leitor, quando juramos tudo fazer para tornar o Planeta sustentável estamos a ser suficientemente sinceros? Haverá nesta postura um pingo que seja de altruísmo? Quer-me parecer que é uma atitude algo interesseira. O Planeta interessa-nos enquanto espaço habitável para a espécie humana. Sim, é disso que se trata, fazer obras de manutenção na nossa casa por forma a garantirmos condições de habitabilidade por um período de tempo mais alargado.

Na verdade, se metermos a mão na consciência, a Terra estaria bem melhor se a espécie humana fosse menos preponderante, mais incapaz de interferir em tão larga escala com a saúde planetária. Se fosse o Planeta a nossa principal preocupação deveríamos de encarar a possibilidade de um honroso hara-kiri à Humanidade deixando a Natureza na paz do Senhor. Ou então, num extraordinário gesto de auto-reflexão, sermos capazes de prescindir de grande parte das nossas "conquistas civilizacionais", revertendo o modo de pensarmos a vida para níveis pré-industriais. Fauna e flora haveriam de agradecer. 

Como tudo isto nem utópico é, já sabemos, vamos continuar a alargar o sexto continente, o do plástico, a envenenar a atmosfera, a produzir gado numa escala incomportável, etc.e tal. Seja como for, o calorzinho está aí e a primavera irá proporcionar-nos a trégua habitual, iludindo por momentos os fantasmas que nos atormentam.

segunda-feira, março 15, 2021

Um cadáver no meio da rua

Nos últimos tempos tenho andado com a ideia do fim da vida enfiada nos meus pensamentos. Os posts mais recentes dançaricam em volta da morte como um rancho folclórico que arrastasse os pés ao som da marcha fúnebre. Hoje, por volta da uma da tarde vi um homem morto.

Tinha saído de casa atravessando a rua para ir comprar algo que me servisse de almoço. Na paragem de autocarro, mesmo defronte à porta do supermercado, estava uma inusitada aglomeração de pessoas. 

Havia um carro da polícia e dois agentes cá fora, vários cidadãos mantinham-se em pé, como que dependurados pela nuca; divisei o que me pareceu ser alguém esticado no passeio, debaixo da cobertura da paragem, tapado por um plástico muito azul. Os pés estavam à vista. Havia ainda uma mulher sentada no passeio, junto do plástico que reflectia gloriosamente o sol primaveril.

As máscaras não me deixavam ver as expressões faciais mas também não era necessário para perceber que todos estavam constrangidos, tristes, contrastando fortemente com o sol e o canto dos pássaros escondidos na paisagem urbana. 

Percebi que o homem estava morto. Fiquei por momentos a olhar a cena e depois entrei no supermercado. Fiz as minhas compras, paguei na caixa automática e quando saí havia uma carrinha funerária estacionada. Dois homens retiravam um caixão de plástico cinzento que colocaram no chão. Um deles pegou num braço do cadáver, sempre coberto por aquele plástico azul, azulão brilhante sob o peso da luz do sol. A mulher sentada desaparecera, as pessoas haviam-se afastado uns passos como se o corpo sem vida as repelisse suavemente. Voltei as costas e dirigi-me para casa.

Tudo era silêncio, apenas se fazia ouvir o ruído dos motores dos automóveis que passavam. A seguir abriria a porta do prédio, subiria as escadas e haveria de preparar o almoço para mim e para a minha família. Quem foi aquela pessoa que morreu ali, no meio da rua. Que vida estava a ser recolhida pelos gatos-pingados naquele caixão de plástico cinzento, macabra metáfora da nossa existência?

Terei sentido nos dias anteriores a proximidade da morte? Foi isso que me levou a escrever textos tão deprimentes? Nos próximos dias tentarei esquecê-la. Vou tentar focar-me na vida.

sexta-feira, março 12, 2021

Ingenuidade

Há uma certa esperança de que o futuro possa vir a ser melhor do que aquilo que designamos por passado. Essa esperança é o combustível dos sonhos, alimenta mil razões para que não desistamos de ser, que não desistamos de viver. Mas sabemos também que esse tal futuro alberga o dia e a hora da nossa morte. 

Assim, pode parecer paradoxal que ansiemos o tempo do nosso fim, esperando que, algures entre o momento que vivemos e aquele em que seremos coisa morta, haja um tempo de redenção, de concretização de projectos mais ou menos grandiosos que, de algum modo, haverão de nos satisfazer. Fosse a vida coisa eterna e a alegria de atingir um determinado objectivo de vida seria como explodir infinitamente no gozo de continuarmos a ser.

Como resolver esse paradoxo de querermos aproximar-nos do nosso fim enquanto perseguimos as quimeras que inventamos para preenchermos o tempo que vivemos? Continuo a tentar convencer-me que a vida que vivo só faz sentido se contribuir para a construção de uma Humanidade mais completa, mais capaz de conviver com o planeta e consigo própria numa lógica de liberdade individual plasmada no bem comum. Isto exige alguma ingenuidade, mas permite-me continuar a sonhar.

terça-feira, março 09, 2021

(Suspiro)

Cada dia a mais é um dia a menos. Qual o sentido de avançar em direcção a um ponto de paragem absoluto, correr em direcção ao fim? Podemos refrear o ritmo, evitar as rectas escolhendo curvas, dançar um pouco (dançar uma morna) descansando da corrida. A verdade é que nem optando por ficarmos parados evitamos o passar do tempo. O tempo é um tapete rolante que nos conduz até ao dia em que todos os outros dias perdem para nós o sentido.

quinta-feira, março 04, 2021

Uma choldra

 Não gosto de bater no ceguinho mas, por vezes, o ceguinho merece e... aí vai disto! Hoje estava a ver televisão, era quase a hora da papa. Na TVI dois apresentadores meio mongas iam desfiando os casos do dia: um rapaz que matou o pai à facada, uma idosa que havia falecido num lar ilegal que tentou ocultar o facto aos familiares da defunta. Este com direito a ligação em directo ao local onde um repórter ia começar a debitar as banalidades do costume, começando por repetir exactamente aquilo que havia sido dito em estúdio. Este é o género de televisão que me repugna e mudei de canal.

Fui cair na SIC e, qual não é o meu espanto, também aqui se estava a discutir o caso do filho que esfaqueou o pai. Outros apresentadores (também um homem e uma mulher, imagino que seja necessária a paridade para garantir as boas intenções da estação), outros comentadores (tal como na TVI uns camelos arrogantes a arrotar postas de pescada, como se fossem anjos vingadores). Ainda não estava eu refeito da surpresa de encontrar o mesmo tema quando, mudando de assunto, lá vêm com a história da velhinha e do lar ilegal e ainda, suprema coincidência, ligam em directo para o repórter no local.

Que merda é esta!?

Depois haverá de aparecer um apresentador de telejornal com cara de cu e ar enjoado a dizer que os casos de ansiedade e sofrimento psicológico têm aumentado de forma assustadora entre a população portuguesa. Claro que nos explicam que isso se deve ao confinamento e à puta da pandemia. Duvido que sejam as únicas causas. Esta televisão vampírica há-de ter muitas culpas no cartório e o pior é que, mesmo depois de a pandemia ser controlada e o confinamento ter acabado, esta porcaria vai continuar a sugar os sentimentos das pessoas, contribuindo para o mal-estar generalizado. Com grandes audiências.

Os telespectadores são como os zombies da série The Walking Dead, doidinhos por fincarem o dente em carne fresca. As estações televisivas são como bordéis onde as meninas são oferecidas, não às carícias, mas à dentuça dos consumidores.

Uma choldra.

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Palavras vazias

É diário, já se sabe, bate como um martelinho de São João, poing, poing, poing, nas nossas cabeças, no nosso juízo, no que resta do nosso espaço comum, poing, poing, poing, o martelinho a martelar os números da pandemia. 

O pivô do noticiário debita os números de novos infectados, poing, internados, poing, recuperados, poing, poing, poing, e, raramente sinto as palavras tão vazias, o pivô afirma que "lamenta" os falecimentos da ordem. Diz aquilo com a mesma entoação que aplicaria se falasse da qualidade dos sapatos que tem calçados ou do arroz de pato que  encomendou na tasca da esquina (talvez o arroz de pato o levasse a colocar alguma alma na fala). A banalização do discurso que relata a catástrofe em curso tem este efeito narcótico, este amerdalhamento emocional, deixa-nos à beira da desumanização.

Quando era miúdo sempre me impressionaram as palavras de circunstância. Não sei se sentias o mesmo, amável leitor, mas lembro-me de perceber o vazio do discurso quando o discurso era vazio e de ficar estúpido por não ser capaz de encaixar as coisas. Porque havia uma pessoa de dizer algo que não sentia de forma nenhuma? Porque havia alguma pessoa de fingir ser o que, obviamente, não era? Ah, santa inocência!

Regressado ao tempo presente ressoa na minha mona o poing-poing-poing acima descrito. As questões sobre a motivação de tanta palavra vazia obtêm respostas infelizes. A inocência perdida faz-me perceber que tudo roda à volta de interesses mesquinhos, manipulações mais ou menos evidentes, agendas políticas, campanhas comerciais em curso, dinheiro, dinheiro, dinheiro e poder... um buraco sem fundo, um vazio impossível de preencher.


segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Pedagogia do cócó

Andamos todos tão enfronhados nesta coisa da pandemia do Covid que certas notícias de assinalável gravidade nos passam ao lado como bêémedablius a assapar na autoestrada. É ou não inquietante que, segundo estudo recente "cujos dados são relativos a 2020, 67% dos jovens consideram legítima a violência no namoro, dos quais 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física."? Caramba, quem é esta gente? São os miúdos que se sentam à minha frente na sala de aula?

Como é isto possível, com tantas campanhas de várias instituições estatais, com aulas de educação sexual, com a proibição de cantar o "atirei o pau ao gato" nos infantários, com vigilância constante sobre os conteúdos dos programas infantis nos canais televisivos, com psicólogos trabalhando em permanência  nas escolas, como é isto possível? Como é possível que tantas crianças que fazem cócó em vez de cagarem sejam tão permissivas à sordidez da violência no namoro?

Fico a pensar que algo tem corrido mal, que talvez estejamos a errar na forma como encaramos a infância. Fico a pensar nos resultados que um estudo deste género teria obtido se tivesse sido feito quando eu era miúdo. Na verdade, fico a pensar que, tal como o outro, "quanto mais conheço os homens (e as mulheres) mais gosto do meu cão". E eu não tenho cão.


terça-feira, fevereiro 16, 2021

Há dias assim

Há dias assim. Acordo com a sensação de que estou a viver uma ficção. O meu dia será o episódio seguinte de uma história inventada, não por alguém, por alguma coisa que desconheço, uma entidade incompreensível que pressinto mas que não consigo abarcar com os meus sentidos limitados.

Ao rememorar os acontecimentos do dia anterior encontro estranhas conexões, coincidências aparentemente impossíveis, como se tudo se encaixasse de forma demasiado premeditada. Sinto isto mas não sou capaz de concluir inequivocamente as razões que levantam as minhas suspeitas. É tudo demasiado vago mas, por vezes, quase palpável. 

Encaro o resto do dia com morna resignação: irei vivê-lo representando este papel para o qual não estou completamente preparado por não ter consciência absoluta do enredo, sabendo de antemão que irei enganar-me várias vezes nas falas, errar algumas marcações, desiludindo o argumentista e o encenador. Lamento, sou fraco actor.

sábado, fevereiro 13, 2021

A vida prolonga-se

Olhar os nossos mais velhos como se nos víssemos ao espelho é uma atitude que carrega uma certa dose de melancolia. Vê-los envelhecer perdendo faculdades físicas e mentais, rever-nos nessas personagens em constante mutação em direcção a um final inevitável, provoca uma angústia adocicada difícil de digerir por completo.

Sabemos que a vida é um ciclo. Mas não estamos preparados para aquilo que ela inevitavelmente nos oferece quando se aproxima do seu termo. No entanto, a nossa capacidade de adaptação permite-nos encarar a coisa com progressiva coragem e, não encontro outra palavra, resignação.

Seja como for, embora gostasse de ser capaz, continuo a não acreditar em Deus mas começo a perceber que a vida se prolonga para lá da morte. A nossa vida prolonga-se naqueles que nos amam e que irão recordar-nos herdando de nós algo que irão transportar consigo e legar aos que vierem depois deles. Nisto acredito porque sei, porque o sinto.

A vida não é eterna mas prolonga-se.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

O mundo fede

Por vezes imagino um mundo sem catástrofes: borboletas, céu azul, prados imensos com ovelinhas tosando no remanso de um dia ameno e bem educado. Um mundo lindo: crianças sorridentes, os velhinhos todos com dentadura, um ou outro unicórnio e casas com ar condicionado.Um mundo limpo: baleias azuis, verdes e vermelhas nadando num mar límpido, sem continentes de dejectos plásticos, abelhinhas trabalhando sem parar, zzzz, zzzzzz, zzzzzzz.

Poderia continuar a efabular esse mundo de sonho mas acho que não vale a pena. Cada um pode acrescentar o parágrafo que mais lhe convier que a coisa só pode ficar mais e mais bonita até rebentar de tanta beleza.

Depois caio em mim, olho a TV; arrasta-se o noticiário. Coisa tão feia! Desgraça sobre desgraça. Mortes, desastres, vigarices. Não há notícia que se aproveite. O mundo fede.

domingo, fevereiro 07, 2021

La Strada

Ontem revi La Strada, o filme de Fellini com Giulietta Masina e Anthony Quinn. Tinha dele uma muitíssimo vaga memória, resumida à imagem de Massina com cara pintada de palhaço e um chapéu preto empoleirado na cabeça.

Quando tinha visto o filme? Não consigo recordar. Decerto o vi na televisão, durante a minha infância ou na adolescência, o mais tardar, quando tudo era a preto e branco. Ontem revi-o como se fosse a primeira vez. É isto que o tempo faz às memórias, funde e confunde tudo.

Fiquei a matutar como teria interpretado aquela história triste e sórdida no meu primeiro visionamento. A pobreza de uma Itália meio destruída não me terá espantado pois o Portugal em que eu vivia não era muito diferente, talvez mais pobre ainda. 

Havia saltimbancos também na minha aldeia, embora com menos glamour que Zampanó e Gelsomina. Os "meus" saltimbancos eram Estrela e Delfinzito, um casal improvável de uma mulher gorda e enorme e um homem franzino e magro mas rijo como um varapau. Tinham um filho (não me recordo do nome) que hoje terá aproximadamente a minha idade e também participava nas momices e acrobacias daquela trupe miserável.

O filme tem uma estranha sonoridade, com as vozes desajustadas dos movimentos labiais (Quinn falava italiano?), característica das "italianadas" que tantas tardes e noites preencheram no meu passado. Assim funcionam as memórias, com os acontecimentos correndo desajustados da realidade.

Ontem revisitei esse passado para verificar que está definitivamente esquecido mas não completamente perdido.

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Memória do mundo

Tenho uma vaga recordação de ser criança e brincar. Brinquei muitas vezes sozinho, outras vezes brinquei acompanhado, mas aquilo que recordo é a sensação de plenitude que por vezes alcançava, a sensação de que tudo se encaixava, que todas as coisas encontravam o seu devido lugar tornando o momento uma coisa perfeita. Era a felicidade.

Agora que sou aquilo que designamos por adulto tenho a vaga percepção de que continuo a perseguir aquela sensação que me era proporcionada pelas minhas brincadeirinhas de criança. O patamar é diferente, os meios que tento convocar e organizar são outros, mas o objectivo é o mesmo: alcançar a sensação de plenitude, a sensação de que tudo está no seu devido lugar e que o universo faz sentido. E eu com ele.

terça-feira, fevereiro 02, 2021

Opinar

Ter opinião não me parece coisa fácil. Para construir uma opinião precisamos de muito mais que mero instinto ou impulso incontrolado, precisamos de informação. E tendo acesso a informação precisamos de a validar, comparar dados, reflectir... ter opinião não é coisa fácil.

Mais difícil ainda é quando, depois de uma trabalheira dos diabos para construirmos a nossa opinião, nos vemos confrontados com a possibilidade de estarmos enganados. É lixado. Aceitar o erro pessoal, deitar para o lixo o resultado do trabalho desenvolvido na construção da nossa opinião... é coisa com alto grau de exigência ética e estética. Mas, como diz o povo, "o que tem de ser tem muita força".

Reconhecer e aceitar o erro não deveria ser assim tão complicado por ser coisa tão natural como água da chuva (mesmo quando dizemos que, pronto, estávamos enganados e assumimos o engano com ar de quem não dá grande importância à situação, é complicado). Será o nosso ímpeto competitivo, a nossa ânsia de sermos melhores que os outros o que nos enrola a língua e faz arder a testa quando chega a hora de darmos o braço a torcer?

Voltando um pouco atrás: ter opinião não é fácil e mais difícil será quando nos pagam para a emitirmos publicamente a espaços regulares. Ser comentador, escrever artigos de opinião em jornais e revistas, perorar sobre tudo e mais alguma coisa em debates televisivos, dia após dia, a um ritmo de atleta olímpico, parecem-me actividades ao nível da de um acrobata voador que actua sem rede. A diferença é que o acrobata, falhando o salto, se esborracha no chão; já o comentador, enfiado o pé na argola, faz de conta que não se passou nada e avança decidido, direitinho à próxima opinião.

Há no entanto milhares de pessoas com opinião fácil e imediata. Os opinadores infalíveis parecem incapazes de imaginar que estão errados mesmo quando sustentam que a Terra é plana ou que o Inferno é um lugar verdadeiro. Para estes não há ética nem estética nem nada que os faça duvidar daquilo que lhes atafulha a mente como massa a fermentar. E são tantos!

domingo, janeiro 31, 2021

Ociosidade

Porque sim, porque não, ora porra, porque não talvez!? Procurar a razão, encontrar a mentira, acreditar na verdade improvável, um gajo vai por aí fora, aos tropeções, a marrar nos muros, a encostar cotovelos às paredes, perdidinho que nem sabe. Mas vai; prá frente é que é o caminho! 

Será assim tão importante um gajo ter razão? Quero dizer, ter sempre razão!? Por vezes, isso sei eu bem, é preferível viver uma mentira. Uma certa pobreza de espírito protege-nos do mal... ou faz de nós presas mais fáceis... sei lá, isso que importa? Também não me parece saudável não ter nunca razão. Há quem diga que no meio está a virtude.

Esta reflexão ociosa é própria de um dia em confinamento, sai-me da cabeça por ter pouco mais que fazer que não seja coisa nenhuma.

sexta-feira, janeiro 29, 2021

Abstracção

Ele trazia vozes dentro da cabeça. De onde vinham, de quem eram? Mistério. Primeiro apareceu aquela voz aflautada que falava do tempo e da chuva e do sol; depois uma outra, arrastada e afectada, decididamente uma voz de mulher, que não parava de o corrigir, de comparar os seus modos com os modos de outras pessoas que ele não conhecia, nunca vira nem imaginava como pudessem viver. Havia também aquela voz de barítono que gostava de contar anedotas porcas e aquele miúdo chato que pedia constantemente um copo de água, um copo de leite, uma coca-cola; cada dia chegava, pelo menos, uma nova voz. Ele trazia uma multidão dentro da cabeça.

Sentado com uma chávena de café fumegante sobre a mesa, olhava em frente, concentrado num lugar geométrico algures entre este mundo e o outro. As vozes conversavam  entre si, ele ouvia-as atentamente. O empregado aproximou-se; máscara respiratória, luvas de látex, fato de borracha. Deixou a máquina de pagamento e foi à sua vida. Aquele cliente não aparentava nada de diferente, era exactamente igual aos outros.

A esplanada espalhava-se por toda a praça. Dezenas de mesas, cada uma com um cliente sentado na única cadeira. Empregados rolando, em pé, sobre veículos especiais. Enfiados em pequenos ecrãs, os clientes permaneciam estáticos,  concentrados, alheados do ambiente circundante. Todos eles algures, entre este mundo e o outro.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Uma fome

Ler os sinais que nos são enviados pelo mundo circundante pode ser um exercício ingrato para a inteligência de cada um. É uma leitura propícia à emersão dos preconceitos que trazemos arrumadinhos dentro das nossas cabeças. Se queremos acreditar, acreditamos, se não queremos acreditar, negamos.

Se a leitura dos sinais tem a ver com as convicções que nos animam procuramos ratificação e não esclarecimento. É difícil aceitar que estamos enganados quando reflectimos sobre aquilo que, em certa medida, faz de nós o que nós somos, mesmo quando os dados que recolhemos tendem a provar-nos que estamos muito distantes da verdade.

Disse Mário Soares, saudoso pai de Democracia portuguesa, que "só os burros não mudam de opinião". É bem verdade que, em muitas ocasiões, mantemos a nossa opinião por pura e refinada burrice, contrariando o Universo inteiro, se preciso for. Ter razão é alimento necessário à alma humana. Dê lá por onde der. E a nossa alma parece estar sempre esfomeada com uma fome impossível de saciar.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Regresso à gaiola

Regressado ao confinamento (quase) absoluto debato-me com os problemas que se tornam habituais: o espaço da casa transforma-se em mundo, a cidade fica lá fora, toda ela enquadrada por janelas, começo a cirandar pelas divisões à procura de motivação para fazer algo.

O ecrã  da televisão ganha uma importância que, em tempos normais, não teria. O computador parece-me aborrecido, os dias tendem a misturar-se uns nos outros, num rodopio estático e sensaborão. Espero sentir o apelo das artes. Por enquanto... nada!

Por enquanto sinto apenas alguma angústia por não poder viver a vida em liberdade. Imagino que seja este o sentimento do canário na gaiola, caso tenha inteligência para se aperceber da sua condição de cativo, saltando livremente de um poleiro para outro.

quarta-feira, janeiro 20, 2021

Oh, happy day!

Hoje tenho um espaço mental dedicado à partida de Trump. Abre-se finalmente uma pequena brecha na ascenção da extrema-direita que chegou a ser considerada imparável. Continuam alguns gnomos em lugares importantes: Bolsonaro, Netanyhau, Órban, Putin, a lista de malandros ainda mete medo mas, espero bem, a saída de Trump deixa-os um pouco menos fortes e poderá marcar o início do declínio das políticas de ódio.

20 de Janeiro de 2021, um dia para a História, um dia feliz.