segunda-feira, agosto 17, 2020

Saudade

Dizem por aí que a palavra "saudade" não tem tradução, que é a expressão de um sentimento muito português, uma exclusividade nossa, uma bizarria. Tretas! Quem ama e sente a distância sabe bem o que é "saudade". 

O coração mingua, a garganta aperta-se um nadinha, o peito parece ficar um pouco louco, o corpo atrapalha-se. Estas são algumas das sensações físicas provocadas pela saudade. Explicar a coisa no campo psicológico é mais estranho, mais arriscado. Será a saudade uma sensação física?

Talvez; talvez a saudade seja coisa física, talvez não haja explicação possível em termos... digamos... termos médicos. Penso que a poesia seja o meio mais eficaz para tentar explicar a saudade, penso que a saudade seja coisa do campo de uma medicina poética, coisa do universo da magia. 

Que digo eu? Na verdade a saudade não se explica, sente-se. E eu sinto uma grande, enorme, profundíssima saudade.

sábado, agosto 15, 2020

Sossego

Desejar sossego é como esperar um fantasma que nos visite ao pequeno-almoço. Um fantasma simpático, sentado à cabeceira da mesa, todo ele apenas um sorriso. O fantasma não vem, o sossego também não. O lugar prometia silêncio e isolamento. Contas furadas. Começam a chegar carros a este fim do mundo, com pessoas dentro. Pessoas faladoras e bem dispostas, ao menos isso. Ao que parece vão reunir-se para uma celebração religiosa na capela que fica ao lado da casa onde viemos parar desejando sossego. Seja feita a vontade do Senhor.

Trás-os-Montes é um território portentoso. Belo, a prometer selvajaria, montes a perder de vista, um céu azul enfeitado por nuvens muito brancas a perder de vista. Para aqui chegarmos percorremos auto-estradas, itinerários principais, itinerários complementares, estradas nacionais e, finalmente, estradecas esconsas, ladeadas por pinheiros e carvalhos, aldeolas de ruas desertas, finalmente a casa de xisto onde nos instalámos. Uma bela casa, lugar perdido, lugar isolado a prometer sossego. Até que começam a chegar carros, dos carros vão saindo pessoas, pessoas faladoras, pessoas bem dispostas. Ao menos isso.

Ouço dizer que o Senhor Padre chegará por volta das seis e meia. Caramba, nem aqui, no fim do mundo, Deus deixa um gajo em paz e afugenta o fantasma do sorriso. Da capela sobe um cântico a fazer-me recordar a igreja da minha aldeia beirã. O catolicismo é massa unificadora deste portugalzinho rural, perdido dentro de si próprio.

Está visto que desejar sossego é pedir demais a Deus Nosso Senhor.

sexta-feira, agosto 14, 2020

Sonhar não sonhar

O meu sonho seria não os ter, não ter sonhos, quero dizer. Poder não ambicionar nada de especial, apenas não provocar desastres. Sim, penso que se um génio saído de um garrafão me dissesse para eu expressar um desejo a ser magicamente atendido, só um, nem mais nem menos, eu diria: "desejo não causar desastres" e pronto, acho que teria criado as condições necessárias à minha felicidade e, decerto, teria poupado algumas outras pessoas a certas dores existenciais.

Isto aconteceria se, além de o garrafão ter um génio esquecido lá dentro, eu não tivesse sonhos. O problema é que não os consigo evitar, aos sonhos, quero dizer. Sim, porque evitar génios que habitam garrafões já eu sou capaz de evitar há muito tempo. Perderam muita magia embora não os tenha renegado para todo o sempre. Além disso é cada vez mais difícil encontrar garrafões, vem tudo em "boxes". Evitar sonhos implicaria viver em permanente estado de alerta e eu durmo como um anjinho, ou como uma pedra, depende da expressão escolhida para explicar que mal encosto a cabeça à almofada desligo imediatamente e durante umas horas. Quem dorme assim sonha de certezinha.

Está bem, eu confesso: perdi o foco do meu raciocínio, isto já dificilmente poderá fazer algum sentido. Ou, o caminho que estava a seguir levou-me para lugares que prefiro manter secretos e não dá para desenvolver mais esta historieta da treta. Ou ainda, um texto que começa com a frase que abre este texto não poderia nunca acabar de outra forma.

quinta-feira, agosto 13, 2020

Férias

Preparar a viagem, fazer as malas. 

Livros para ler, cadernos para desenhar. Canetas, lápis, aguarelas um pincel. Colunas de som, convém poder ouvir música caso esteja para aí virado. Ler, desenhar, ouvir música. Olhar a paisagem. Para pensar não esquecer de levar a cabeça.

Imagino dias suaves com o tempo a passar calmo e desinteressado. Espero que assim seja.


domingo, agosto 09, 2020

Rugas no cérebro

Ver a idade transformar-se em velhice: o corpo a curvar-se perante a imensidão do tempo, a mente perdida na lonjura da memória. Abandonamos o corpo, perdemos o espírito, tornamo-nos outra coisa, invólucros cujo conteúdo perdeu o prazo de validade. Envelhecer parece ser duro. Pelo menos presta-se à construção de frases tão pomposas como as que atrás ficam escritas. 

Pondero seriamente apagar este post, esquecer a coisa, mas não, que fique. Sempre poderá servir-me de memória quando começar a esquecer-me de mim e funcionar como marco ou fronteira. Para lá ficam os desertos do pretensiosismo. Para cá... para cá estou eu, perigosamente próximo de coisas que preferiria evitar.

quarta-feira, agosto 05, 2020

Antimania

Falar sem parar deixa marcas. No que fala, em quem ouve: zumba, zumba, zumba, blá, blá, blá, golpe sobre golpe, conversa ininterrupta, toma lá, dá cá, palavras, palavras, ficam marcas, com o tempo serão cicatrizes. Falar sem parar exige quem ouça o tempo todo?

E que dizer quando se dispõe do tempo todo para falar? Como ter assunto, zumba, zumba, zumba, sempre assunto de conversa, conversa inesgotável, blá, blá, blá, os ouvidos sangram de tristeza, os olhos desorbitam no espanto. A boca torce-se, contorce-se, como um verme guloso sobre a podridão de um cadáver, zumba, zumba, zumba, a conversa não pára, é como um rio, um ruído, um zumbido, um vento perdido que nunca encontra o fim do seu caminho e sopra, sopra, sopra.

Falar sem parar tem de deixar marcas, marcas no que fala, marcas em quem ouve. A mensagem é repetitiva e repetida até à exaustão, todo o dia, o mesmo tema, uma vez, outra vez, vai mais uma, sobra tempo que é preciso tapar. Tapar o tempo com palavras, blá, blá, blá, palavras como argamassa na betoneira, palavras como lama na torrente, como caranguejos no tsunami, vrrrrrrruuuummmm! Palavras que te invadem e violam, palavras que te ferem mas não matam, assim é.

De tanto ouvires a mesma merda acabas por acreditar na merda que te dizem todo o dia, zumba, zumba, zumba, ficas tonto, ficas sem saber se já acreditavas naquilo ou se te enfiaram aquilo pela cabeça dentro, pela alma abaixo, blá, blá, blá, por favor não deixes que te matem a razão, não emprenhes pelos ouvidos, não deixes crescer dentro de ti esse monstro da estupidez. Desliga: zumba, zumba, zum! Volta as costas, vai-te embora: blá, blá, blá... bl... á... á... á... não aceites esses golpes, não queiras essas cicatrizes.

Ausência

Acontece de cada vez que regresso à cidade onde vivi até aos meus 18 anos de idade. Venho com muito tempo de intervalo entre cada visita e, como seria de esperar, não percorro todos os trajectos que preencheram o meu passado. É por isso que, de vez em quando, me acontece esbarrar com lugares que, estando ali mesmo, à minha frente, são lugares que já não existem.

Hoje vi o lugar onde já não existe a casa onde habitou o meu avô. Já lá não está o gradeamento, nem o portão, nem as escadas gémeas que subiam até ao patamar da porta com o batente de ferro em forma de mão. Já lá não estão as japoneiras, nada resta do meu passado. Agora há um prédio em construção com operários a suar sob um sol abrasador, tudo isto produz um estranho silêncio dentro de mim.

Fiquei estúpido, a olhar. Tirei uma foto com o telemóvel que enviei ao meu irmão com a legenda: "A casa do avô Mário!"

O meu irmão não respondeu.

domingo, agosto 02, 2020

Os bichos

Cada vez mais sinto que a espécie humana é uma espécie usurpadora deste mundo em que vivemos. Tomamos tudo o que podemos violentando a natureza, assassinando outras espécies animais, alimentando-nos delas com prazer; pretendemos acreditar que estamos no nosso direito, que Deus criou o mundo para proveito da Humanidade fazendo do planeta Terra uma espécie de reserva natural para o Ser Humano. Talvez Deus nos visite de tempos a tempos para nos observar como fazem as nossas crianças em visita ao jardim zoológico.

A nossa dimensão animal é, de todas as que compõem o espírito, a mais expressiva. Sensibilidade e inteligência são meros adereços; somos bichos. O senso comum acredita que somos os únicos bichos inteligentes mas já percebemos que isso não é verdade. Então, se não temos o exclusivo da inteligência, justificamos a nossa existência com o conceito de civilização: somos os únicos civilizados, o que é, igualmente, muito discutível. De cada vez que percebemos ser impossível olharmo-nos ao espelho sem ver um monstro tentamos uma nova maquilhagem que nos dê um aspecto menos odioso. Trabalho árduo e inglório.

Que nos resta senão aceitarmos que somos bichos?

sábado, julho 25, 2020

Irritação e fúria

Não sei se a ti também te acontece, caríssimo leitor, não sei se te irritam profundamente os noticiários incendiários, literalmente incendiários, nos quais se fala do medo, da tragédia, do terror causados pelos fogos de Verão. De súbito um Portugal anónimo, perdido dentro de si próprio, surge em nossas casas na moldura da TV.

São aldeias esquecidas, habitadas por pessoas curtidas pelo sol e pelo frio; mulheres rijas e homens de boné com as faces semelhantes a cascas de árvore; aldeias invadidas pelo fumo, pelos bombeiros e por aqueles que me irritam à quinta casa: os repórteres de TV incumbidos de nos falar em directo. Não consigo aturá-los nem um bocadinho. Se tenho o comando na mão salto imediatamente para outro lado, se alguém insiste em assistir a esses directos, saio da sala o mais depressa que me é possível.

Os directos irritam-me, de um modo geral, mas os dos incêndios enfurecem-me. Sinto ali a marca do vampiro. As pessoas embasbacadas, atordoadas, tentando encontrar uma forma de combater a adversidade e um caramelo qualquer, de microfone em punho a fazer aquela excelente pergunta: como é que se sente? Foda-se! Isso é coisa que se pergunte, em directo, a uma pessoa desesperada?

Quando não estão a perseguir desgraçados fazem eles o papel de desgraçadinhos. Plantados defronte à câmara de filmar com fumo e fogo no enquadramento, ao fundo, debitam tolices e informação, as mais das vezes, redundante, desinteressante, caninos cravados na jugular da catástrofe a chupar, a chupar, a chupar. Não consigo aguentar tanta nojeira.

domingo, julho 19, 2020

Mitologia de taberna

A Dúvida é meia-irmã da Consciência, geradas na união da mesma mãe, a Verdade, com pais diferentes, ambos incógnitos e arredios, como tantas vezes acontece, pais que um dia foram comprar fósforos para acenderem o cigarro no fim da refeição nocturna e nunca mais voltaram. A Verdade é assim mesmo, enganada uma e outra vez por parceiros sedutores e pouco honestos. Cabrões aproveitadores.

E lá cresceram juntas, as miúdas, num lar problemático, discutindo amiúde, discordando por tudo e por nada. A Dúvida sempre insegura, a Consciência descobrindo a cada passo princípios orientadores do pensamento mas nunca capaz de os demonstrar de forma inequívoca. Pobre mãe, a Verdade, hesitante na educação das suas crias, amando-as por igual, eternamente.

Esta abstrusa mitologia de taberna é, toda ela, protagonizada por personagens femininas e quase sempre discutida e enriquecida por homens bêbados que se distraem e confundem, observando o Mundo através de lentes distorcidas, mais propensas a produzir cegueira que capazes de definir os contornos das coisas com um mínimo de rigor e clareza.

terça-feira, julho 14, 2020

O futuro até pode já ter acontecido

O futuro começa a tomar forma. O "sonho americano" revela-se "notícia falsa" e o "pesadelo chinês" parece ganhar força, alastrando no mapa planetário. Onde se encaixa a União Europeia nesta ordem mundial que se redesenha? Seja qual for o modelo onírico prevalecente será sempre o dinheiro a ditar os contornos definitivos da coisa social.

Deus reaparece em força. Ele sempre andou por aí. Já se sabe que os americanos confiam nele (afirmam-no nas notas de dólar), que os iranianos obedecem à sua lei, que os turcos são um povo devoto e os brasileiros acreditam que Deus é natural do Rio de Janeiro. Sabe-se também que Paulo Portas é confidente da Virgem Maria, que Putin se vem convertendo em ícone russo e que Israel é o povo escolhido e tudo o que faz é mero reflexo da vontade inquestionável e inatingível de Jeová. Esta acumulação patética de hipocrisia e agressividade moral tem muita influência na definição dos traços carregados que contornam o futuro.

As coisas acontecem num determinado momento, o ponto exacto da quebra, da transformação de algo numa outra coisa. Pode ser amanhã, daqui a dez anos, pode ter sido agora mesmo ou até, algures, no passado sem que nos tenhamos apercebido da importância radical de um qualquer acontecimento que desviou o futuro daquilo que imaginávamos que viria a ser. O tempo do comboio a vapor acabou há muito. Hoje dirigimo-nos para o nosso destino a bordo de um comboio-bala desenfreado. A chegada à estação não se adivinha auspiciosa.

À medida que vou escrevendo estas palavras uma pergunta vai-se formando no meu espírito inquieto: e se o futuro já tiver acontecido?

quarta-feira, julho 08, 2020

Pretensão e água-benta

Ai, as palavras (suspiro). Como podem elas enredar-nos o entendimento e pescá-lo como se fosse carapau do gato! A comunicação feita assim, à distância de um teclado, na solidão de um ecrã, ganha muitas vezes a rigidez de uma estátua de mármore plantada num jardim, a imitar vagos ecos de uma antiguidade desconhecida.

A frase anterior, por exemplo, que coisa pomposa e, temo bem, confusa como o caraças. Na minha cabeça faz sentido, a metáfora até funciona, mas tenho a sensação que para ti, amigo leitor, possa não se parecer com nada. Ou talvez ganhe um significado inesperado, o seu sentido a escorregar-me da ponta dos dedos como uma enguia furtiva. São palavras.

Queria eu dizer que a comunicação a distância, sem presença física, se presta a parecer algo que não passa de cópia farsola de uma conversa verdadeira e que, ainda por cima, quando rebuscamos as palavras, poderá tornar-se pretensiosa.

Lá no fundo é o que este post é: pretensioso. Mas não era para ser, garanto-te, quando comecei a escrever o texto não fazia a mínima ideia de que iria acabar, precisamente, aqui.

terça-feira, julho 07, 2020

A Fé e as máscaras

Estou confuso. Não sei se estou confinado ou antes pelo contrário. Saio de casa com a máscara sempre à mão, esguicho gel na entrada das lojas (já me caiu num pé, já por várias vezes falhei o alvo) e também à saída. Chego a casa e descalço-me, lavo as mãos e pronto. É tudo. Novas rotinas.

Fico sempre com a sensação de que estes hábitos que se vão entranhando têm uma eficácia limitada mas, seja como for, evito ignorá-los. É como aquele dito de quem não acredita em bruxas.

O distanciamento social vai funcionando. Agora há em todo o lado marcas no chão. "X" vermelho - não passar; seta verde - avançar por aqui; linhas amarelas - stop, é fronteira intransponível, muro imaginário, limite a respeitar. Tudo isto me parece um tanto apatetado mas respeito. Socialmente sou um tipo atreito a regras, mesmo aquelas que me deixam na dúvida.

Acredito piamente que tudo isto irá acabar um dia. Tenho fé.


quarta-feira, julho 01, 2020

Complexo da avestruz

Enquanto os sinais de desmoronamento civilizacional se adensam à nossa volta nós ansiamos regressar à normalidade, um novo "Ó tempo, volta pra trás" sem a Severa na história mas com o desejo de que o sol nos ilumine a paisagem que se estende para o lado de lá da janela. É o "novo normal".

Mas, para um "novo normal" terá de existir uma nova anormalidade, como é óbvio. É o Yin e o Yang, o Tom e o Jerry, Deus e o Diabo, a velha história da beleza do mundo, o equilíbrio entre luz e treva, o risco de habitar na penumbra. Será a existência da vida enformada naquela merdice do "eterno retorno"?

Resta-nos a velha táctica da "fuga para a frente"? Fugir para trás, ao que parece, está fora de questão. Há ainda imensos areais com muito espaço para enterrarmos as nossas cabeças.

domingo, junho 28, 2020

Haja saúde

Ele há coisas que acontecem, outras coisas, nem por isso. Há perguntas que me apetecia mesmo, mesmo, mesmo fazer mas que, por razões tão obscuras que me envergonham, prefiro calar e esquecer. Esquecer o quê? De que perguntas estaria eu a falar? Está esquecido.

Não sei se é sinal de crescimento e, sendo, crescimento do quê? A cada dia que passa, cada semana, cada mês, desde o início do confinamento, sinto uma espécie de desencanto que me vai pavimentando o coração até o aplanar e endurecer com uma crosta de descrença. Descreio da nossa capacidade de regenerar a sociedade, da nossa capacidade de assinar um armistício com o planeta, descreio da nossa marcha em direcção ao futuro de tal modo estamos encerrados nos preconceitos que nos construíram o passado.

Será isto um reflexo de aproximação à terceira idade? Esta pergunta atrevo-me a fazê-la mas a resposta é iludida por uma outra questão: o que é a terceira idade? Olho para a terceira idade como um reflexo da idade de reforma, a cada ano que passa ela avança mais uns meses, mais uns anos e nunca mais chega. Mas, o facto indesmentível, é que estou cada vez mais próximo dela (da terceira idade, da reforma), assim Deus me dê saúde e não me interrompa o contrato antecipadamente nem me ponha em lay off com alguma doença daquelas que, não nos matando, nos incapacita por tempo indeterminado.

Esta coisa da pandemia veio confundir a minha alegria de viver, aumentar as dúvidas, azedar certezas. A única coisa que não consegue incomodar é o amor que sinto pelas pessoas que me são mais próximas. Haja saúde!

terça-feira, junho 23, 2020

Discurso indirecto

Há gajos a quem se dá um bocadinho de corda e vão por aí fora: falam, falam, falam, principalmente se o tema forem eles próprios. Falam do que sabem e do que não sabem desde que isso lhes sirva para polirem um bocadinho mais a ponta do seu nariz. Há gajos deslumbrados consigo próprios. Emproados, vaidosos, convencidos de que há dentro deles um poço sem fundo prestes a ficar pleno de sabedoria. Mas, não o somos todos? Deslumbrados com a imagem que fazemos de nós próprios? Sábios incompreendidos? Sei que alguns têm baixa auto-estima mas esses são uma minoria. Serão? Espera aí, paciente leitor, que faço eu? Estou com a corda toda! E falo, falo, falo, pouco dizendo que se aproveite. Ainda por cima o tema não sou eu próprio... ou serei? Escrevo estas coisas para me convencer de que há algo de substancial no meu pensamento? Isto é o meu pensamento? Se não me ponho a pau dou tal polimento à ponta do meu nariz que ainda fico ofuscado pelo reflexo da luz a incidir sobre ele. Calo-me. Paro de escrever. O melhor será reflectir sobre o assunto. Calado.

domingo, junho 21, 2020

Escassez de sorrisos

Andamos todos mascarados. Imagino que para uma criança com imaginação unicórnica isto seja um manancial infinito de situações maravilhosas. Para mim, que já vou sentindo alguns músculos a chiar, isto da mascarada contribui fortemente para me deixar acabrunhado.

Ainda por cima, cá em casa, temos umas máscaras de plástico transparente que nos deixam o sorriso à mostra. Quando vou a um local onde todos somos obrigados a usar a máscara, continuo a sorrir com a cara toda mas os que me respondem sorriem-me apenas com os olhos. Ou então nem sequer respondem ao meu sorriso de igual modo, nem sempre dá para perceber.

Se a imposição da máscara se mantiver por muito mais tempo decerto se vulgarizarão modelos mais arrojados que a vulgar máscara cirúrgica. As grandes marcas irão colocar no mercado máscaras distintivas, símbolos de poder económico, não obrigatoriamente de bom gosto. As marcas desportivas desenvolverão máscaras que melhorem a filtragem do ar, empreendedores imaginativos lançarão modelos extravagantes.

Nos tempos que correm faltam sorrisos, vão sobrando olhares. Os sorrisos fazem-me falta.

domingo, junho 14, 2020

Sonho de Verão

A praia estava vazia. Não se via ninguém no extenso areal.Talvez houvesse gente para lá das dunas mas, para já, não fosse o mar era um deserto. Saltaram do bote, pés em terra, um consolo! Um deles deu uma corridinha, braços ao ar, gritando como uma criança: iupi, iupi, iupi! O mais alto - barba comprida, olhar fechado, braços como troncos de árvore - fez um gesto elevando a mão em concha na direcção do céu cinzento e disse "esta praia é minha". Sem entoação particular nem emoção sensível. Apenas aquilo, aquela praia, agora, era dele. Os outros homens pareceram contentes com a declaração do chefe.

Palavras não eram ditas quando viram surgir na linha em que a duna tocava o céu um grupo de outros homens. O caldo estava entornado.

quinta-feira, junho 11, 2020

O tempo dos monstros

O clima é de conflito latente. Talvez seja exagero chamar-lhe clima de guerra mas que é propício à bordoada, disso não tenho grandes dúvidas. 

Habituámo-nos a pensar que a Democracia se constrói com base no diálogo, na confrontação de ideias que estão na base de perspectivas diferentes para a organização da sociedade. Imaginámos que seria possível perpetuar esses sistema de funcionamento, delegando os nossos interesses em representantes eleitos que procurariam consensos nos Parlamentos, buscando soluções adequadas e tendo como finalidade o bem comum. 

Tudo isto só poderia correr bem pois um desses objectivos seria a educação das populações, a elevação da sua capacidade de reflexão e discernimento. Com uma sociedade cada vez mais informada o Nirvana começava a desenhar-se no horizonte próximo. Só faltavam os unicórnios e os passarinhos.

Esquecemos a tendência natural do ser humano para a boçalidade, a agressão e a necessidade típica do macho em ser o bicho dominante, o líder da manada. A Democracia revela-se demasiado frágil precisamente num dos seus aspectos mais importantes: a tolerância.

Nos tempos que correm o diálogo não ultrapassa o nível da conversa de surdos. E, como qualquer conversa de surdos, degenera em gritaria. As ideias transformam-se em verdades absolutas, o consenso é uma impossibilidade. Erguem-se barreiras de incompreensão que se transformam em barricadas. Estamos prontos para o que der e vier.

Precisamos de estar alerta, precisamos de elevar a nossa capacidade de conter a raiva e continuar a procurar o diálogo. Alguns antagonistas recentes poderão ser os nossos aliados do futuro próximo. Para mantermos a possibilidade de uma sociedade democrática devemos identificar com clareza os verdadeiros inimigos mortais, para os derrotarmos alianças estranhas terão de ser estabelecidas. A sobrevivência daquilo em que acreditamos exige atitudes extraordinárias.

Vem aí o tempo dos monstros.

segunda-feira, junho 08, 2020

Uma questão de sorte

Longos diálogos, ideias curtas e um sol abrasador a bater-lhe na testa faziam com que a situação fosse mais penosa do que estranha. Não havia trânsito a atrapalhar, nem havia cães vadios, nem vizinhos à janela, não havia quase nada a não ser aqueles dois vultos inconstantes que não paravam de dialogar. Mantinham uma conversa capaz de fazer adormecer um muro de granito.

Pousou a mão pelo bolso traseiro das calças. O livrinho continuava lá, aconchegado, provocando um calor do caraças, à espera de ser lido. Mas, por educação, seria necessário aguardar uma pausa na conversa dos fantasmas antes que pudesse ler as últimas páginas que haviam de revelar o desfecho do romance. O sol, a conversa, a curiosidade, tudo concorria num ponto único dentro da cabeça dele, como setas voando em direcção ao alvo.

O espectro da esquerda pareceu tremelicar e o da direita perdeu definição, começando a assemelhar-se a uma nuvem de fumo de cigarro muito espessa. Ainda assim continuavam, incansáveis, dissertando sobre um mundo que ele desconhecia em absoluto. Impossível reconhecer o que quer que fosse daquela conversação. Paisagens inimagináveis, situações abstrusas, coisas do Além.

Foi então que se lembrou de soprar.

E fez como o Lobo Mau; encheu o peito de ar até ficar com os ouvidos a zumbir e soprou, soprou, soprou, sentindo as têmporas a latejar, o peito a esvaziar-se de forma violenta. De imediato os fantasmas se enrolaram um no outro e se dissolveram na atmosfera brilhante e dura daquela tarde de Verão. Aquilo foi pior que má educação mas a leitura vale tudo!

Pegou no livro, leu as últimas páginas e ficou desiludido com o que aconteceu ao protagonista da história. Já não havia nada que pudesse fazer para trazer os fantasmas de volta. Resignado, dirigiu-se ao quiosque para comprar outro livrinho. Talvez com este tivesse mais sorte.