segunda-feira, janeiro 13, 2014

Uma pessoa

Pelo olhar percebia-se logo que era uma pessoa muito grande enfiada num corpo pequenino. Ainda por cima era um corpo mal acabado, como se a Natureza estivesse apressada ou bêbeda no dia em que aquela pessoa extraordinária viu pela primeira vez a luz que ilumina este mundo.

domingo, janeiro 12, 2014

Elegia

Eusébio,
Tusébio,
Elesébio,
Nósèbio,
Vósèbio,
Eles aproveitam-se da tua imagem de um modo que até mete nojo. Roubam-te, vendem-te, dão-te lustro, empacotam-te, mandam-te para o Panteão, exibem-te na lapela em forma de lamento. Não imagino coisa mais feia que fazer se possa.

sábado, janeiro 11, 2014

A moldura

Nunca fui grande admirador da pintura de Renoir. Nem quando a conhecia apenas através de fotografias, bastante menos, ainda, depois de ter visto ao vivo umas quantas obras do grande mestre francês. Parece-me uma coisa pesada, sofrida, um tanto forçada. Mas é a minha opinião pessoal que vale o que vale.

Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).

Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.

A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.

A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.

Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Solidões (fica estranho no plural)

A solidão é um deserto enfiado no prato do almoço. Mesmo os feijões parecem desirmanados, estranhos que apenas se encontram quando enfiados na boca, mastigados e empurrados goela abaixo feitos papa. Aí sim, os feijões lá se entendem uns com os outros. Ás voltas no intestino já não há divergências, ciúmes, diz-que-disse, tentativas de burla, nada disso: ás voltas no intestino os feijões são todos irmãos.

A solidão é um deserto imenso (como todos os desertos) e é um deserto pequenino, como o prato vazio que espera o calor do almoço. A solidão, como o deserto, está rodeada de coisas por todos os lados. A solidão e o deserto são apenas ilhas no imenso arquipélago de silêncios e ausências em que se vai transformando a nossa existência.

A capacidade de verbalizar o que nos vai na mente pode não ser o suficiente para construir uma mensagem eficaz. As pessoas que falam e escrevem com dificuldade em concluir de forma clara uma ideia que preencha com eficácia os canais de comunicação, têm, muitas vezes, dificuldades em construir as ideias no próprio cérebro.

Ainda as ideias lhes dançam dentro do crânio e já lhes faltam peças. Quando saem para os ouvidos e os olhos do interlocutor, são já coisas disformes, muito diferentes das maravilhas pensadas. A distância entre o que se pensa e o que diz pode ser imensa... como um deserto. Muita gente se perde nessa distância e fica só. Como um único feijão no fundo do prato do almoço. Promessa de solidão e fome.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

O Eusébio

Faleceu Eusébio da Silva Ferreira. A comoção é grande, o país está de luto. Tenho sensações estranhas em relação a isto.

A onda de notícias, opiniões, testemunhos, epitáfios e mensagens de condolência é avassaladora, um maremoto de tristeza a varrer o mapa de Portugal. Pensei que me era indiferente mas já me comovi uma ou outra vez ao ouvir o rádio. Sobretudo ao ouvir palavras de pessoas anónimas em programas radiofónicos. Palavras simples de agradecimento e admiração por um homem cuja principal qualidade fora dos relvados de futebol era, ao que parece, uma extrema simplicidade.

O que me comove, penso eu, é constatar que, para o cidadão comum, a simplicidade é um valor superior. Num mundo doentiamente mediatizado e repleto de vedetas em pose surge este ícone modesto e de face humana. Um deus dentro do campo e um ser humano fora dele.

Quanto mais não seja é isto que a gradeço ao Eusébio. Todos o tratávamos por "o" Eusébio. Único e irrepetível Eusébio.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Roma


Palazzo, chiesa, pizza, spaghetti, spaghetti, pizza, chiesa, palazzo. Haverá país no mundo com mais igrejas do que Itália? Sendo Roma a capital, haverá cidade no mundo com mais igrejas do que Roma? Pizzarias e spaghetterias. Palácios... caramba, quantos palácios tem Roma?

Ruas estreitas, igrejas e palácios. Ristorantes aos molhos e milhares de turistas caminhando. A cidade está repleta de pormenores artísticos. É uma coisa esmagadora e deslumbrante. Palácio, igreja, igreja, palácio. Entrar numa igreja ou outra, assim, ao acaso, é uma experiência estonteante. Encontram-se coisas magníficas! E, de vez em quando, um rasto de Deus.

O Panteão, as piazzas, bom, as piazzas... a Piazza Navona é uma feira permanente, a Piazza dei Fiori é uma feira ocasional, a Fontana dei Trevi não percebi o que é. Fiquei com a impressão que é um portal para outra dimensão mas não posso afirmá-lo com toda a certeza.

Enfim, alguns dias a percorrer as vias romanas deixaram-me com vontade de o fazer de novo. Um dia voltarei e talvez veja o Papa. Desta vez fui ver a Capela Sistina. Para a próxima vou fazer-te uma visita, Chico, fica combinado.

Arrivederci Roma.

domingo, dezembro 29, 2013

Ver



Três magníficas obras em Veneza

Ontem vi pinturas de Tintoretto na Galleria dell'academia em Veneza. Vi outras obras de grandes artistas mas foram as pinturas de Tintoretto que me preencheram. A pintura deste gajo parece mentira, parece milagre, parece extraterrestre. É deslumbrante.
Esta figura flutua, literalmente, sobre o altar da capela

Hoje estou em Roma e fui à capela Sistina. Se esquecer o facto de me ter sentido como sardinha em lata ou ovelha num rebanho pastoreado por gajos maus (no photo, no video, go the left e sei lá que mais) posso dizer que vi outro milagre.

Diz o ditado católico que "ver é pecar", é mas é o caraças! Ver é uma dádiva divina quando se vêem coisas como as que vi ontem e vi hoje. A viagem já valeu a pena, mas isso já eu suspeitava.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Boas festas

Esta época do ano é feita de viagens. O Pai Natal dá a volta às chaminés e eu dou umas voltas por aqui e por ali. Nas minhas voltas deixo o computador para trás e pouco tempo lhe dispenso.

Talvez por isso não tenho o costume de deixar mensagens de boas festas nem desejos de paz no mundo ou felicidades para o ano que aí vem. Hoje estou em casa mas esta madrugada abalo de novo e o computador para aqui vai ficar um pouco só, bastante abandonado.

Eu sei que há mil e uma maneiras de me manter ligado à Net mas não faço isso. Deve ser mania.

Desta vez deu-me uma coisa e decidi fazer isto:

Bom Natal e Próspero Ano Novo para todos os que lerem isto (e também para os que não lerem).

Até breve.

Soa estranho...

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Doutores aos molhos

Toda a gente sabe que Portugal é um país de doutores. A média é próxima de um doutor por habitante. Ser doutor, em Portugal, é um estado de espírito que dispensa diploma, carimbos e secretarias. Dizem por aí que somos um país de poetas... tretas! Somos é um país de doutores.

Como bons doutores que somos cagamos sentenças e diagnósticos com uma facilidade estonteante. É que o doutoramento mais comum entre os portugueses é o doutoramento em Tudologia. Isto permite a todos e a cada um ter as mais lúcidas e definitivas opiniões sobre o que quer que seja.

Política, ciência, desporto, engenharia, direito, urbanismo são uma pequeníssima amostra de matérias que estão na boca de toda a gente e que toda a gente domina com uma mestria extraordinária. Arte e aeronáutica nem por isso mas estamos a trabalhar para aumentar, também aqui, o número de especialistas.

Por haver tanta gente extraordinária o extraordinário transforma-se em ordinário, perde o "extra". Isso explica porque é que Portugal, um país que os deuses fadaram para os grandes feitos em prol da humanidade, teima em não passar da cepa torta: tanto doutor excelentíssimo transforma o país numa ordinarice.

Precisamos de mais gente simples e boa e dispensamos tanto doutor. Os doutores estão convencidos que o seu estatuto lhes confere direitos especiais (porque são doutores) e o resultado é este: Portugal.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Natal global!

Viva Buda, viva Cristo e o bacalhau com todos. 
Viva o Sol, a Lua e o Pai Natal. 
Viva o dólar, a Troika e viva o mundo global.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

O bicho que roda

O ser humano é, por natureza, uma coisa que não se compreende. Isto porque, além dele próprio, não parece existir mais nada (nem ninguém) à pele do planeta interessado em debruçar-se sobre semelhante tarefa: compreender o que vai em cima destas duas patas.

Uns dias triste e sorumbático, qualquer um de nós pode subitamente saltar para um estado de espírito a rebentar de euforia. Somos assim; bichos de extremos fáceis.

Tais variações de humor, multiplicadas por milhões de milhões de seres humanos (quantos somos nós ao certo?) fazem da Terra uma coisa desequilibrada que, não tendo para onde cair na imensidão cósmica, roda. E roda, roda, vai rodando, como um animal à espera.

Mas o que espera a Terra enquanto roda sobre si própria e, para melhor disfarçar, enquanto vai rodando em volta do Sol? O que espera um planeta que se comporta como um animal, nervoso e indeciso?

Talvez espere que a Humanidade se consuma a si própria. Com maiores um menores ferimentos o planeta cá ficará depois de irmos desta para melhor (oxalá). Então talvez a Terra possa descansar finalmente e pare de rodar. Após tanto tempo deve estar mais que tonta.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

O que raio é a realidade?

Antecipar a própria dor e sofrimento é como ter o pé descalço suspenso sobre as águas frias de um rio que corre. O pé suspenso e um monstro que se aproxima, vindo lá de trás, um monstro que poderá querer devorar-nos ou não, talvez pior do que isso. O monstro, o pé descalço suspenso, as águas frias do rio.

Não sabemos o que quer o monstro e tememos o arrepio gelado do pé submerso na água que nos vai esticar o corpo e fazer vibrar a espinha, como se fosse uma corda de violoncelo a gritar uma nota aguda e desafinada. Ai Jesus!

Além de tudo o que ficou explicado, há também a corrente. Será muito forte? Conseguiremos nadar para lá do medo que sentimos? O monstro, o rio, o nosso corpo... a dor e o sofrimento que adivinhamos mas ainda não aconteceu e pode mesmo não vir a acontecer... 

A felicidade e a alegria andam escondidas. Sabemos que andam por aí mas é o monstro angustiante, filho da dor e primo (em 2º grau) do sofrimento que pressentimos lá atrás e nos impele em direcção às águas do rio.

Algures, no meio de tudo isto, fica aquilo que chamamos realidade: a consciência que temos da tangibilidade do corpo que habitamos.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Santa Economia

Em nome da Competitividade e da santidade do Livre Comércio, a Humanidade pariu outra divindade, a já bem famosa Economia.

Costuma-se comparar a Economia com Jeová ou Alá, é uma espécie de brincadeira de adultos, como se uma coisa não tivesse a ver com as outras. Mas tem. A nova divindade é sustentada por uma estrutura de fiéis que cobre todo o planeta  com os seus interesses, como uma teia tecida por milhares de milhões de aranhas.

A Economia tem catedrais por todo o lado. Os altares erguidos para sua adoração são imponentes ou singelos, adoptam as mais variadas formas e tamanhos, mas estão em todo o lado. Conquistam-nos a alma e o coração.

A Economia faz-nos arder de desejo, consome-nos até não restar nada do que somos. Consome-nos até sermos aquilo que desejamos, até nos transformarmos nos objectos que possuímos.

Tal como o cristianismo ou o islamismo, a Economia tem legiões de fanáticos  fundamentalistas. Terroristas, como todos os terroristas. Provocam atentados devastadores, entram-nos casa dentro, olhos acima, cabeça abaixo; bombardeiam-nos diariamente sem dó nem piedade.

Todos os dias morremos em nome da Santa Economia para ressuscitarmos à noite, sempre que dormimos e, finalmente, sonhamos.


domingo, dezembro 01, 2013

8 anos 100 cabeças

O número de posts tem diminuído, a força das opiniões e a virulência da escrita adocicou-se um pouco, sempre passaram 8 anos desde o nascimento deste blogue!

A blogosfera, à época pujante e florescente como um jardim em plena Primavera transformou-se lentamente em zumbisfera, infectada pelo implacável vírus do facebook. A blogosfera é hoje um  cenário de walking deads.

O 100 Cabeças deixou de ser uma necessidade para se tornar uma espécie de limbo entre este mundo e o outro, aquele ali fora, do outro lado da janela. Vão ficando amigos, rotinas e visitas para tomar uns chás virtuais em casa deles, trocar dois dedinhos de conversa sobre isto e sobre aquilo...

Alguns desses amigos virtuais tomaram forma e corpo, outros esfumaram-se na irrealidade da net. Tal qual naquele mundo do lado de lá. A net ganhou uma importância assustadora na forma como define os contornos desse mundo. Realidade e virtualidade a fundirem-se perante os nossos olhos distraídos.

A cada ano que passa há menos posts mas não menos mundo. Quando comecei este blogue sentia-me um pouco incomodado com a falta de visitantes e de comentários. Hoje já não. O 100 Cabeças é uma realidade. Isso basta-lhe. Isso basta-me.

Beijos e abraços.

sábado, novembro 23, 2013

Polícias e bófias

Desta vez não houve cães à perna de ninguém!

O pessoal ficou de cara à banda com a manifestação dos polícias na escadaria da Assembleia da República (ver aqui, com vídeo e tudo). Tanto polícia à paisana a gritar, a esbracejar e com cara de poucos amigos é coisa para atemorizar qualquer cidadão enfiado nas suas pantufas.

Não me parece surpreendente que os polícias fardados, destacados para manter a ordem pública, se tenham desviado para deixar subir os manifestantes por ali acima. Parecia uma cena do World War Z!

Poderá haver explicações mais ou menos piedosas para semelhante atitude. A verdade é que a maioria dos polícias tem um respeito, no mínimo, limitado pelas regras que deveriam preservar bem como pelos "cidadãos-macacos" que deveriam defender. Os exemplos quotidianos são mais que muitos.

Basta recordar vários episódios passados naquele mesmíssimo local com desfechos bem diferentes e magníficas cargas policiais sobre pessoas indefesas.

Os polícias portugueses, pelo simples facto de o serem, colocam-se a si próprios acima da Lei. Estacionam os seus carros em situações que a um "cidadão-macaco" valeriam multas avultadas; carregam frequentemente à matracada no focinho de cidadãos indefesos e até de velhinhas que não representam ameaça, dirigem-se às pessoas em termos agressivos e desrespeitosos se para aí estiverem virados, etc e tal.

Se, porventura, dão da caretas com algum doutor ou senhor importante ficam mansos como cordeiros.

Por vezes penso: quem nos protege dos nossos protectores?

É evidente que nem todos são assim, que há muita gente boa nos corpos policiais. Eu diria que há uma razão de um polícia por cada 50 bófias. Qualquer coisa assim.

domingo, novembro 17, 2013

Natalices

Há uma canção que diz que "Natal é quando um homem quiser". Sinceramente sempre me pareceu poesia a mais mas, recentemente, o presidente da Venezuela veio tornar a cantiguinha em doce realidade (ver aqui). Nicolás Maduro é um coração de manteiga e, muito por causa disso, tem sido ridicularizado.

A intenção de Maduro é louvável, ele quer trazer felicidade e esperança ao povo. Não percebo bem a razão pela qual tão gozado tem sido.

Hoje de manhã fui ao centro comercial e, por todo o lado, há árvores e enfeites de Natal! Não reparei que alguém tenha considerado ridícula esta antecipação da festa do Menino Jesus ou do Pai Natal, conforme as inclinações mais religiosas ou mais consumistas dos festejantes.

Fica a sensação de que em nome do consumo podemos decretar sem temor a antecipação do Natal mas, se o fizermos em nome de outra coisa qualquer, podemos levar com gargalhadas jocosas pela cabeça abaixo. Não me parece justo.

Por mim o Natal até pode ser em Agosto, embora dessa forma a vaca e o burro que aquecem o Menino Jesus corram o risco de ir para o desemprego.

terça-feira, novembro 12, 2013

Pensamento nocturno (coisa de coruja)



A sensação é incómoda. Dá comichão onde não se deve coçar por ser feio. Difícil é ficar quieto. Coço o peito para disfarçar, reviro os olhos. Não consigo esconder a nervoseira. Bato o pé, bato o pé, bato o pé, e não é compasso musical. É desconforto apenas.

Olho o mundo em volta e não consigo pensar outra coisa que não seja: quanto tempo vai levar até esta merda rebentar de vez?

sexta-feira, novembro 08, 2013

Equilíbrio

Hoje é dia de greve da Função Pública em Portugal. Os trabalhadores protestam, reclamam, esbracejam, esperneiam, mas nem migalhas têm a ilusão de vir a receber.

Neste dia veio a público uma notícia que dá conta do aumento do número de multimilionários no nosso país (ler aqui), apesar da crise... ou será por causa da crise? Não só são mais como estão mais ricos. O equilíbrio acentua-se: os ricos mais ricos, os pobres mais pobres.

Haverá algum dia a mínima possibilidade de inverter esta tendência?

quinta-feira, novembro 07, 2013

Anjos

Até ao dia de ontem não me recordo de ter alguma vez ouvido falar de Rob Ford, o agora mundialmente célebre mayor de Toronto. Repare-se bem nos motivos desta súbita celebridade a nível planetário (ver aqui, por exemplo).

Pessoalmente estou-me nas tintas para o facto de ele ter fumado crack ou ter tentado desculpar-se desse facto dizendo que, provavelmente, o tinha feito durante uma bebedeira, daí não se lembrar com clareza do que acontecera. Pior a emenda que o soneto.

O que me faz reflectir sobre o sucedido é tentar perceber se um governante, uma pessoa com responsabilidades na gestão da coisa pública, não pode ter momentos em que se passe daqui para lá de Marraquexe? O que pergunto é: exigimos aos que nos governam um comportamento irrepreensível, mesmo quando estão longe dos nossos olhares, no remanso dos seus lares? Queremos ser governados por anjos?

Quanto a Rob Ford... parece-me demasiado gordo. Mas pode ser apenas impressão minha. Chiça, é mesmo complicado resistir à tentação de julgar os outros...

sexta-feira, novembro 01, 2013

Artista (mais ou menos) imortal

Terminou ontem a residência artística de Banksy nas ruas de Nova Iorque. Os trabalhos realizados foram sendo expostos aos olhos do resto do mundo neste site (clica aqui).

Banksy já se tornou o maior fenómeno da chamada street art e é conhecido um pouco por todo o lado onde houver meios de comunicação de massas que ultrapassem as notícias sobre a lingerie sexy de artistas pimba e os pensamentos profundos de dirigentes e jogadores de futebol. A cada dia que passa Banksy vai-se transformando numa autêntica lenda urbana.

O facto de manter uma identidade secreta faz dele uma espécie de super-herói de banda desenhada. Tal como o Batman ou o Homem-aranha, Banksy está a ser colocado num pedestal  na sala do museu da cultura Pop. Ele é um dos primeiros artistas a garantir que o seu nome fará parte da História da Arte do século XXI. Isto partindo do princípio que haverá alguém para virar a página do calendário para o século XXII.

Banksy já é um artista mais ou menos imortal (como todos os outros). O problema é que a imortalidade já não tem condições de garantir aos que dela gozam o triunfo definitivo sobre a morte. Só um bocadinho.